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Amor de Salvação

Chapter 26: CONCLUSÃO
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About This Book

This work explores the complexities of love, contrasting the themes of pure and impure affection. It delves into the misfortunes associated with misguided love, emphasizing that true redemption often arises from suffering and moral struggle. The narrative suggests that while happiness may be fleeting and less documented, the journey through turmoil is essential for personal growth and the eventual embrace of honorable love. The author reflects on the nature of love as a transformative force, illustrating that even through despair, one can find a path to salvation and renewal.

—E encontraste-o em França?

—Encontrei.

—Vejamos.

 

XX

Ao oitavo dia de residencia em Paris, Affonso de Teive não sabia que fazer da sua pesada inercia. Fechado no quarto de um hotel, ouvia os estrondos da Babylonia, e suspirava pelos silencios da sua aldêa. Apresentára as cartas de cavalheiros de Lisboa na embaixada portugueza, recebera a visita dos compatriotas distinctos em Paris, e convivera nos primeiros dias em bailes, theatros, e jantares. Saciou-se prestes aquella contrafeita sofreguidão de vida, e logo uma subita e glacial atonia lhe ennegreceu os prazeres, almejados de longe, como iniciação para outros, que inteiramente lhe obliterassem da memoria as dôres passadas.

E, no termo de oito dias, uma consolação unica lhe restava: era o ante-gosto de voltar á casa deserta de Ruivães, e esperar alli ao lado do jazigo de seus paes o breve termo de sua irremediavel tristeza.

Affonso, porém, tinha vinte e quatro annos. A natureza contramina estas renunciações intempestivas. Uns repentes impensados sacodem a alma de sua modorra, e a sobre-excitam a desejos vagos, bem que ephemeros. A materia não é um impassivel envoltorio de corações entorpecidos. É preciso que a vida sensitiva se amorteça antes da actividade moral para que as paixões mallogradas vinguem o total quebranto do homem.

Entrou Affonso na sociedade, levado pela mão da esperança, que promettia guial-o ao pé da mulher salvadora. Mal encaminhado ia aos salões de Paris. Os conhecedores d'aquelle «mundo» contaram-lhe as historias de cada mulher, que tinha ares de poder salvar alguem: no geral eram creaturas, que procuravam quem as salvasse das incertezas do futuro pelo casamento justificado e santificado com algumas centenas de milhares de francos. Estas eram as filhas dos generaes do imperio, as filhas dos estadistas em começo de fortuna, as filhas dos gentis-homens cujos appellidos contavam sua antiguidade de Carlos Magno para além. E todas estas meninas, esperançadas em salvação, e em requesta de salvadores, quando encaravam no vulto melancolico de Affonso de Teive, imaginavam-no um galante moço que, ao contemplal-as, dizia magoadamente entre si: «Se eu fosse rico!...» E ellas, olhando-o de soslaio com discreta reserva, diziam: «Se tu fosses rico!...»

Quando Affonso tomou a peito rectificar este juizo dos seus amigos, avisinhou-se das mais aureoladas do azul-celeste da innocencia, e averiguou que as mais singelas á vista eram as que mais a ponto fallavam, em termos rigorosamente arithmeticos, de fortunas deslumbrantes, de casamentos projectados. E, se elle, com a portugueza e bemdita poesia dos nossos amores de sala, aventurava algumas phrases de idyllio sobreposse, as ligeirissimas creaturas ouviam-no distrahidas, como, no theatro, ouviriam musica de Donizetti, e encheriam de melodias a alma, em quanto assestavam o binoculo no filho do banqueiro.

Comprehendeu logo Affonso de Teive que não servia á alta sociedade parisiense. Um forasteiro, que vai a Paris com trinta mil cruzados, e deixa na patria uma quinta, que valeria menos de metade d'aquella quantia improductiva, deve contar que no caminho do hotel aos theatros e salas, aos festins e concertos, em menos de dous annos, com alguma parcimonia nas despezas, se lhe hão-de escoar as ultimas mealhas. Os haveres de Affonso, postos á disposição da filha do marechal do imperio ou do marquez decahido com os Bourbons, dariam uma dezena de toilettes da esposa. Esta dura verdade calou-lhe no animo, afastando-o do concurso de mancebos, que malbaratavam cada mez fortuna sobreexcedente á d'elle. Penoso desengano ás portas do grande mundo onde elle tencionára retemperar o coração ao bafejo das primeiras mulheres da época, e da França. Tinha, por tanto, que descer ás inferiores camadas, abaixo mesmo da media. N'esta mais difficil lhe seria o escolher um rosto distincto e uma alma no estado da innocencia do anjo: trancava-lhe as portas a cobiça que lá vai dentro, imitando-as a elevarem-se até emparelharem com as invejadas mulheres da classe alta. Elle, cuja razão se alumiára á luz do facho do universo, á luz de Paris, viu-se qual era, correu-se da sua comparativa pobreza, e refugiu dos bailes, das cêas, e dos concursos em que o seu peculio se ia desnervando á custa de sangrias inevitaveis.

Madrugou, um dia, Affonso de Teive ambicioso de riqueza. N'esta hora, e pelo tempo fóra de oito mezes, fez-se em seu coração um quietismo espantoso! Descuidou-se do esmero no trajar; era-lhe já como indifferente o reparo da mulher. Vendeu o tilbury e o cavallo. Mudou para hotel menos dispendioso. Traçou plano de batalha á fortuna, e entrou no jogo de fundos, onde os felizes, a um relanço de olhos da boa fada, accumulavam enormes cabedaes, facto demonstrado por milhares de exemplos.

Foi feliz nos ensaios timidos, e em pouco. Prosperaram-lhe outros de maior risco. Cuidou-se bemfadado para emprezas maiores. Vieram as alternativas, equilibrando-se. Começou Affonso a estudar seriamente os mysterios d'aquelle jogo, com enthusiasmo e absoluto menosprezo de tudo mais. Dizia-se elle: « refaça-se a fortuna, que depois se reconstruirá o coração. Dinheiro, muito dinheiro, para comprar uma alma pura em Paris, onde a raridade tornou carissimo o genero!»

Sossobrado por um revez, perde metade do seu capital. Desanima, e esmorece em força moral. Vai a medo á barra do Potosi, e crê que está alli um abysmo a tragar-lhe o restante, e depois a elle. Que fará empobrecido no extremo? Venderá a casa, a quinta, a capella, e o tumulo de sua mãe? Lembra-lhe a mãe, e invoca a alma santa a coadjuval-o na empreza immoral. A santa infunde-lhe uma insuperavel desanimação diante do perigo. Associa-se a jogadores felizes. Balancea-lhe a fortuna entre pequenos desastres e pequenos lucros. Ao fim de oito mezes, a sociedade quebra, e Affonso de Teive tem de seu algumas libras, e cincoenta que o Tranqueira delicadamente lhe introduz na sua gaveta, os seus ordenados e economias de muitos annos.

O criado amigo, testemunha das lagrimas e das vertigens, ousa aconselhal-o que volte para Ruivães, e se restaure limitando-se ao rendimento de sua casa. Affonso enfuria-se contra o criado, exclamando: «Sabes o que é a minha casa de Ruivães? São quarenta carros de pão cada anno»—E vinte pipas de vinho, e uma de azeite—ajuntou o criado. «Que vale tudo isso?»—perguntou Affonso. O Tranqueira fez a conta pelos dedos, e respondeu:—Feitas as despezas do grangeio, vale seiscentos mil réis. «E hei-de eu viver com seiscentos mil réis por anno!—clamou Affonso—eu! habituado ao luxo, com vinte e cinco annos, com precisão de aturdir a minha existencia nos prazeres, que só a muito dinheiro se encontram em toda a parte do mundo!»

O criado encolheu os hombros, e disse entre si:—Valha-nos a alma de minha santa ama e senhora!

Medita Affonso vender o resto de seu patrimonio; e para logo lhe occorrem estas palavras da ultima carta de sua mãe moribunda: Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus t'a der como tempo de merecer o céo. Aqui nasceu teu pae, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avós.

Desfallece-lhe a sacrilega coragem de negar a sua mãe o derradeiro pedido. Mas a necessidade atroz abriga-o a desviar os olhos d'um tumulo para enxergar não longe a indigencia em Paris, a indigencia relativa com as galas do passado.

Estas agonias são as supremas de sua vida. Palmyra, a memoria da mulher fatal, nem por sonhos o perturba. Apparelham-se-lhe affrontamentos maiores. A vergonha do pobre mostra-se-lhe mais aviltante que a vergonha de atraiçoado. Pensa, sonha, contorce-se, alenta-se, desmaia, recobra-se, sempre a scismar na rehabilitação pelo ouro, na reparação do seu capital; porém, de que modo, sem capital nenhum?... Salvadora idéa!...

Escreve ao tio Fernão d'este theor:

«Perdi-me, perdi o que trouxe de Portugal, estou pobre. Eis-me mais castigado que o padecente dos pardieiros das Taipas. Elle refugiou-se aos quarenta annos, ainda rico do mundo. Eu tenho vinte e cinco annos, a honra perdida, a rehabilitação impossivel, aptidão para nada, o espirito derrancado no gozo de infames delicias: e, para sustentar esta vida corroida da lepra, resta-me a quinta de Ruivães. Eu sei que a fome não iria lá bater-me ás portas, sei que ainda tenho de meu o talher na sua mesa, meu tio, mas Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia n'um d'estes comoros de terra, onde os sepultados não tem nome. Minha mãe pediu-me que não vendesse a casa onde está o jazigo de meus avós. Os meus avós são os de meu tio Fernão de Teive. Aqui venho eu offerecer-lhe a minha quinta. Compre-m'a, meu tio, que a vontade de minha mãe está cumprida. Lá fica Mafalda, o anjo, para ajoelhar diante d'aquellas lapides sagradas. Compre-m'a, senão eu, de mãos postas, pedirei a minha mãe que perdoe ao reprobo, que lhe vendeu os ossos, na vespera do dia da fome. Seu sobrinho Affonso

Fernão, lida a carta, em presença de Mafalda, abriu os braços á filha, que parecia finar-se n'elles. Das ancias e lagrimas sahiu ella com uns gritos afflictissimos, pedindo ao pae que valesse a Affonso, sem demora. Fernão, carecedor de ser consolado da desgraça do sobrinho, tinha de aquietar o alvoroço da filha, promettendo e cumprindo logo tudo que fosse da vontade d'ella, que era tambem um dever d'elle a cumprir já com o parente, já com a memoria de sua irmã. Foi instantaneo o contentamento de Mafalda.

—E depois?—exclamava ella—E depois, meu pae, em se lhe acabando o dinheiro da quinta, quem lhe acudirá?

—Nós—respondeu de alegre aspeito o pae.

—Nós?—tornou ella entre alegre e amargurada—mas não vê o que elle diz?...

—Que diz elle, creança, que diz elle? Lê-me tu o que elle diz...

—Olhe, meu pae... Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia num d'estes comoros de terra onde os sepultados não tem nome. O pae entende isto muito bem...

—Entendo; mas não me assusto. A gente ha-de pensar: primeiro, o essencial, é mandar-lhe o dinheiro, e dizer-lhe que os tumulos de Ruivães, e as casas, e as terras são d'elle, como até aqui.

—E aceitará?—replicou Mafalda—Tomará elle a dadiva como esmola?

—Ó mulher!—retorquiu o velho—tu estás uma argumentadora dos meus peccados!... E o mais é que lembras com juizo essa especie!... O doudo é capaz de rejeitar, se eu dou dinheiro e quinta! Pois bem: diga-se-lhe que eu compro a quinta, e mande-se-lhe os quinze mil cruzados, que é o valor da cousa. Vou ámanhã ao Porto. O dinheiro está ahi. Fico sendo o proprietario de tres quintas de Affonso. Cá te ficam, menina. Tu, depois, a teimares no proposito de morrer solteira, dá-lh'as, se elle viver. Que mais quer a minha filha?

Mafalda ajoelhou a beijar-lhe as mãos. Ergueu-a o pae com muita ternura, enxugou-lhe as lagrimas no lenço em que embebia as d'elle, e disse, sofreando os soluços:

—Que esperas tu d'este rapaz, Mafalda? Quando virá Deus em auxilio d'esse tão fraco e desventurado coração? Filha... estima-o; mas não o ames assim com esse amor que te devora a mocidade! Que vinte e quatro annos os teus tão desconsolados e estranhos ás menores alegrias de tua idade!... E tu não cahes em ti, filha, não vês que Affonso está cada vez mais longe de te avaliar!?

—Sei, meu pae—respondeu Mafalda com serenidade.

—E então?... sabes, e não te vences...

—Não posso vencer-me, Deus sabe que lhe tenho pedido auxilio, e nem assim...—As lagrimas saltaram-lhe novamente, e logo os arquejos do peito, ancioso de ar.

—Pois bem, meu amor—tornou o pae, duplicando as meiguices—Eu absolvo a tua fraqueza, já que o Altissimo te não fortalece. Quem sabe, filha, quem sabe os segredos do porvir? Ha milagres mais assombrosos. Póde ser que elle ainda venha para ti com o coração purificado, e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido será então. Que te diz lá no intimo a voz do teu anjo? Serei propheta, minha filha, serei?

Mafalda sorriu-se, e murmurou:

—E não podia ser assim, meu pae?! Ás vezes, sonho-o; tenho horas em que me julgo louca, no meu contentamento sem causa, sem esperança!... Tres cartas recebi d'elle em oito mezes, e que frias expressões! Quando eu o considerava esquecido, por amor d'aquella creatura, é que elle me escrevia mais amoravel; agora, que é livre, e de mais a mais infeliz, parece que nem se quer me estima! E, ainda assim, meu pae, eu tenho presagios, em meu coração, alegres como a sua prophecia.

—Pois então pede a Deus que me dê vida para que eu os veja realisados... mas, filha, a realisação da prophecia, se vier, já me não achará vivo...

 

XXI

Decorridos seis mezes, Fernão de Teive, perigosamente enfermo e desenganado, dialogava assim com sua filha, ajoelhada sobre o estrado do leito, com a face inclinada aos labios requeimados d'elle:

—Bem t'o disse eu, menina. A realisação da prophecia, se vier, encontra-me sem vida.

—Não ha-de morrer, meu pae!—clamou Mafalda beijando-lhe a fronte.

—Não peças a Deus isso, que os meus padecimentos são incomportaveis... Verdade é que te deixo quasi sosinha; mas ahi estão teus tios de Barcellos que te levarão para sua companhia em quanto não poderes voltar á casa onde morre teu pae. Não chores assim que me affliges, Mafalda... Triste cousa que um moribundo não possa fallar aos seus com a presença de espirito dos que esperam viver muito... E, a final, Deus sabe quem vive e quem morre!... Póde ser que eu não vá d'esta... Pois então, menina, que tem que conversemos placidamente?!... Bem... esse ar de conformidade está bem ao rosto angelico de minha filha... Fallemos no nosso Affonso... Inventa lá tu um meio de lhe mandar recursos. Se é verdade o que soubemos por via do tio desembargador, o rapaz está mal. O jogo dos fundos arruinou-o segunda vez, ou reduziu-o a muito pouco...

—Mas as cartas ultimas—atalhou Mafalda—não fallam em negocios...

—Pois isso é o que mais me persuade da informação do tio de Lisboa. Se Affonso prosperasse, dizia-o; elle, que se cala, é que está desgraçado.

—Oh meu Deus!—exclamou a filha—diz bem, meu pae, Affonso está desgraçado... Não o confessa para que lhe não mandem alguma esmola os parentes.

—Isso mesmo; e por isso mesmo pensemos em remedial-o com todo o melindre. Não te occorre nada, filha?

—Manda-se-lhe o dinheiro, peço-lhe eu muito que o aceite... elle ha-de condoer-se das minhas palavras...

—Não gosto d'esse meio: desapprovo a invenção. Ahi vem padre Joaquim dar-nos aviso.

Padre Joaquim era um modêlo de padres, capellão da casa, havia trinta e cinco annos; padre que se me ia fugindo d'este romance por um cabellinho: o que seria novidade nos meus livros. Quando eu poder architectar uma novella sem padre, hei-de chamar-me romancista puxado de imaginação. O mestre dos escriptores floridos, Almeida Garrett, segundo disse e provou, tinha o vezo dos frades. Elle, e eu, cá muito no couce processional dos seus discipulos, havemos de fazer amar os frades, e os padres, pelo menos os padres-capellães bem procedidos e venerandos como padre Joaquim, capellão da casa de Fonte-Boa.

Explicou Mafalda ao padre o motivo a cujo respeito se lhe pedia aviso.

O clerigo tomou rapé, reflectiu, consolidou o seu raciocinio com outra pitada, e disse:

—A minha opinião é que a snr.ª D. Mafalda case com o snr. Affonso.

Fernão, fraco de peito para rir, tossiu uns frouxos de riso que desconcertaram a gravidade do reverendo. Mafalda fitou os olhos em seu pae, receando que o esforço o estivesse mortificando.

Padre Joaquim voltando-se á menina, disse no tom de quem dá satisfação:

—Dar-se-ha caso que eu dissesse algum desproposito?... Parecia-me que sendo os dous contrahentes primos em primeiro grau, obtida a devida dispensa, nada mais acertado para o fim de melhorar a situação apertada do snr. Affonso...

—Não disse desproposito nenhum, padre Joaquim—acudiu Fernão de Teive—Pelo contrario, aventou a mais moral e desejavel das sahidas n'estes apertos. Mas o que nós queriamos era soccorrel-o sem que ninguem casasse.

—Parece-me isso justo e exequivel. É mandar-lhe dinheiro por pessoa capaz—respondeu categoricamente o sacerdote.

Fernão, com prazenteiro rosto, acudiu:

—Quer o padre Joaquim ir a Paris? Não temos outra pessoa que o iguale em capacidade.

—Irei ao fim do mundo no serviço de vv. exc.as

—E se o primo Affonso—disse Mafalda—rejeitar o dinheiro?

—Se rejeitar o dinheiro, volto com elle para casa: signal é que lhe não é preciso.

—Se o rejeitar por ser de condição independente, e tomar como esmola o favor do pae?—replicou Mafalda.

—N'esse caso cito-lhe os meus authores nas materias vaidade, soberba e orgulho: e hei-de convencel-o a aceitar o dinheiro.

—Vai o padre a Paris—disse Fernão—Ámanhã parte para o Porto: lá o dirigirão. Prepara tu, Mafalda, a bagagem do snr. padre Joaquim. Tira o necessario para o meu enterro, e manda tudo mais, que encontrares, a Affonso.

—Enterro!—exclamou Mafalda, escondendo o rosto no seio do pae.

Ao escurecer recrudesceram os padecimentos de Fernão de Teive. Por volta de meia noite, com toda a luz da razão, e clareza de voz pediu os sacramentos, e conversou até ás duas horas. Ao amanhecer dormiu um somno quieto, e acordou afflicto. Pediu a extrema-uncção, e respondeu durante a ceremonia as palavras rituaes em irreprehensivel latim. Depois, chamou a filha, beijou-a, deu-lhe a beijar o crucifixo, que tinha entre mãos, reclinou-se para o hombro d'ella, dizendo:

—Sobre este hombro expirou minha irmã... Se alguma vez vires o filho da santa mulher dá-lhe um abraço... e tu, filha... adeus até ao céo.

Mafalda rompeu em altos clamores. Fez-lhe o pae um gesto de silencio com os olhos.

Foi este o derradeiro gesto d'aquelles olhos, fitos já na aurora da eternidade, e fechados para sempre sob os labios de sua filha.

 

XXII

Eram atrozmente verdadeiras as informações communicadas pelo desembargador Figueirôa sobre a desfortuna de Affonso de Teive em Paris.

Os quinze mil cruzados, producto supposto da quinta de Ruivães, enguliu-os a voragem do jogo de fundos, á qual o allucinado moço se atirou ás cegas, contando com a vicissitude favoravel, por ter sido infeliz nas outras.

Resolveu matar-se. Esta deliberação contrabalançou as agonias da pobreza desesperada.—Como via a morte no leve movimento d'um gatilho, deixou de encarar o futuro. Que lhe importava morrer pobre?! Encheu-se de coragem, e deu graças a Deus pela fortaleza que lhe dava. Ajuntou os objectos de ouro e pedras que reservára para aquella hora premeditada. Chamou o criado, e disse-lhe: «Vende isso que ahi está. Creio que o valor d'essas cousas bastará ao pagamento do que te devo em dinheiro e soldadas: se algum resto houver a maior, leva-o para te passares á tua terra.»

—E o fidalgo onde fica?!—perguntou o Tranqueira.

—Aqui!—disse Affonso.

—Pois tambem eu, patrão! Já agora, tenha paciencia; gastei a mocidade em sua casa; a velhice por cá a levarei n'esta endiabrada terra, como Deus fôr servido. Guarde lá o fidalgo as suas cousas, que eu não as quero, nem lhe pedi nada. Para eu viver, basta-me uma carroça e um cavallo estropiado. Arranje v. exc.ª a sua vida, que eu cá me irei arranjando.

—Cumpre as minhas ordens, Tranqueira!—replicou Affonso com fingida severidade.

—Perdoará, snr. Affonso...—volveu o criado—É a primeira vez que lhe desobedeço. Eu não recebo nada em quanto o não vir com outro arranjo de vida.

—Faz o que quizeres...—redarguiu o moço, embolsando a punhados os objectos que offerecera ao criado, na intenção de sahir para vendel-os.

Tranqueira desconfiou do intento suicida do amo. Apenas esta suspeita lhe saltou de repente ao animo, atravessou-se á porta do quarto, exclamando:

—O fidalgo não é homem, por mais que me digam! Ha Deus ou não ha Deus?! Então sua mãesinha esteve a criar um menino na lei de Christo, para v. exc.ª dar esta sahida! Pensa que eu não sei o que lá tem na cabeça? O snr. Affonso quer dar cabo de si... Pois, ande lá por onde quizer, que eu nem de dia nem de noite o largo mais... Matar-se, por falta de dinheiro, um moço de vinte e cinco annos, que sabe lêr e escrever, e em boa saude! Isso não o faz homem nenhum no seu juizo! Quem precisa trabalha; se não é n'isto é n'aquillo. E os que perdem tudo o que tem n'um fogo, ou no mar, matam-se? Ora, snr. Affonso, eu dos annos que tenho ainda não topei homem tão desanimado!... Valha-o a alminha da snr.ª D. Eulalia! Quer o fidalgo uma cousa? Eu vou vender algum d'esse ouro que ahi tem, e vamos para Portugal. Seu tio desembargador mostra que é seu amigo, e o snr. Fernão de Fonte-Boa morreu sempre por v. exc.ª Não se lhe pede dinheiro nem cousa que o valha; pede-se-lhe que o arranjem em algum emprego limpo. Trabalhar não é vergonha, é honra, fidalgo!... Que me diz? que responde ao velho Tranqueira que o trouxe ao collo, e aqui está de joelhos aos seus pés?

E abraçou-se-lhe aos joelhos, com os olhos inflados de lagrimas.

Affonso levantou-o nos braços trementes de grata commoção, e disse-lhe com transporte:

—Trabalharei, meu amigo, trabalharei... Descança, que eu não me mato... A desgraça me irá matando.

Com referencia áquellas chãs e firmes expressões do servo rustico, me disse Affonso:

«Eu tinha lido na vespera d'aquelle dia uns livros de insinuante moral, e consolação a desvalidos, pedindo-lhes crença que me esteiasse na desesperada crise de homem, sem nenhum escape na cerrada negridão de sua vida. Doutrinas e exemplos de evangelica uncção, factos tormentosissimos de angustia e admiraveis de conformidade, desde Job até ao maior homem do mundo na rocha de Santa Helena, nada me impressionára, nada me demovera do suicidio. Vi uma restea de luz instantanea reflectida do rosto de Mafalda! Pensei que era o anjo da santa melancolia a despedir-se do precito, que o repellira. Ainda o apêgo á existencia, exprimindo-se nas phrases positivas d'ella, me quiz mostrar a felicidade possivel no casamento com minha prima. Afastei com tedio de mim proprio este impudor d'alma envilecida pela desgraça. O homem rico não reconhecera a virtude de Mafalda, senão para admiral-a; o homem desvalido havia de ir depois pedir á virtuosa que o aceitasse como marido!... Tive medo que outra vez me acommettesse o pensamento vil. Dei-me então pressa em abreviar o termo da lucta! Depois d'isto, como é possivel que as rudes palavras d'um criado me abalassem desde a profundeza de minhas convicções ácerca da coragem do homem que se mata? Como logrou elle o que os livros consoladores não vingaram, nem os estimulos indecorosos a um casamento rico? Foram aquellas palavras: quem precisa, trabalha, ditas pelo homem que as tirára da sua consciencia, como se ellas lá descessem do céo, n'aquelle momento, para me serem ditas, não pela pagina de um livro, mas pela bocca de quem as dizia, chorando.»

Affonso de Teive, com mais coragem do que a necessaria para o suicidio, dirigiu-se a uma casa de commercio de judeus de procedencia portugueza, residentes em Paris. Conhecera Affonso um mancebo d'esta familia no concurso das pessoas bem qualificadas. Procurou-o, e contou-lhe o seu estado, offerecendo-se a trabalhar no escriptorio, segundo sua aptidão. Os commerciantes aceitaram-o como terceiro ajudante de guarda-livros com ordenado de dous mil francos.

Vendeu Affonso as suas joias, e alugou uma mansarda, que mobilou, consoante a escolha de Tranqueira, pobre e limpamente. O criado comprou um cavallo, a que elle chamava um milagre, e uma carroça, com que trabalhava de carrejão, nas horas occupadas do amo. Ás horas convencionadas, o Tranqueira ia buscar em marmitas um jantar economico para ambos, todavia aceado e abundante. Affonso passava em casa as noites, estudando a lingua ingleza para poder adiantar-se na sua carreira, até merecer os seis mil francos de primeiro adjunto ao guarda-livros.

Se era feliz assim?

Oh! não: nem tudo que é honroso se ha-de crêr que seja felicidade. A degenerada natureza do homem quadra violentamente com as mudanças assim abruptas, com as quedas de tão alto! O magnificente amante de Palmyra, o moço blandiciado nas salas do seu palacio do Campo Grande, reclinado por sobre coxins de sêda, inventando regalias com que desanojar a sua ociosa saciedade, certamente não podia escrever odes á fortuna amiga, quando sahia de escrever cifrões no escriptorio mercantil. O reportar-se tambem não é ser feliz; é, no maximo das vezes, um martyrio consecutivo de triumphos obscuros; porém, martyrio sempre!

E, depois, Affonso entrava futuro dentro, phantasiando mudanças, chimeras, paradoxos, que o volvessem a uma felicidade, que elle bem nem mal sabia definir, ou estremar do que vulgarmente se diz que ella é. D'estas vãs e ardentes consultas ao porvir, voltava o moço ao refrigerio do trabalho, e assim o tempo ia derivando, branqueando-lhe os cabellos, e quebrando-lhe os espiritos.

Em Lisboa era sabida a situação de Affonso de Teive, não que elle a contasse. Escrevia ao tio Fernão raramente, sem de leve tocar em negocios. Respondia ás cartas d'algum raro amigo, que o julgava ainda em circumstancias de lhe não pedir emprestimo para se resgatar de Clichy.

N'este tempo, recebeu elle novas de Palmyra, não solicitadas. Dava-lh'as assim um dos seus commensaes de Lisboa:

«...... A mulher surgiu aqui, vinda não sei d'onde, pompeando com tanto esplendor e mais estupidez que no teu tempo, ou melhor direi, no teu reinado.»

«Vi-a em S. Carlos, hontem, sosinha na friza. Disseram-me, porém, que lá, no reconcavo do camarote, estava um homem gordo, de tez abronzeada, e vista suina. Dizem que é brazileiro do Minho, outros diziam que era o marido envergonhado. O D. José de Noronha, desde o banho da cisterna, nunca mais se endireitou do espinhaço, e vai a tisico irremissivelmente. Não ha memoria d'uma catastrophe assim nos fastos dos Lovelaces patifes d'este nosso quintal do tio Lopes. O D. Antonio de Mascarenhas assevera-me que Palmyra nunca mais teve uma palavra de consolação para o derreado amante. O teu criado matou estes amores com tamanha ignominia, que já não ha ninguem que queira amar mulher em casa onde haja cisterna... Irei dizendo o que souber da Laiz minhota.........»

Affonso leu glacialmente a carta, e não respondeu ao noticiador.

—Que sentimento fez em ti essa nova?—perguntei eu.

Affonso encolheu os hombros, e disse:

—O sentimento da piedade. Não podia ser amor, porque não ha infamia d'alma que desça até ahi. Odio tambem não, que o odio quer vingança, e eu dava-me já por vingado da mulher a resvalar, no plano inclinado, não sei até que ordem de abysmos. Era piedade o que eu sentia, e tanta que, se me viessem dizer que Palmyra, dentro de um anno, perdera a formosura, que vendia, os bens, que herdára, e se desgraçára até á extremidade de pedir o pão de cada dia, eu faria do meu pão dous quinhões, e um mandar-lh'o-ia, sem insulto nem palavra recordadora do passado.

Esta foi a resposta de Affonso de Teive. Eu acreditei, porque tinha visto o mundo, e não ha nada que eu não acredite.

 

XXIII

Ao escriptorio commercial, onde o meu amigo trabalhava, chegou, ao fim da tarde, do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da embaixada indagando a residencia do portuguez Affonso de Teive.

Sahiu com o esclarecimento em demanda d'outro portuguez, que se apresentára ao ministro, com importantes recommendações de Lisboa. A nota da residencia era rua Vivienne, 104, 5.º andar, lado esquerdo; quem a recebeu da mão do encarregado foi uma senhora, que a passou logo a um sujeito de cabellos brancos, trajado de sacerdote.

O leitor não se deixa surprehender mais tarde: já sabe que a senhora é Mafalda, e o sacerdote é o capellão padre Joaquim de S. Miguel.

Padre Joaquim entrou n'um fiacre com o guia posto á sua ordem pelo ministro portuguez. Apearam ao portão do predio; perguntaram ao porteiro se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Sahiu do interior da loja, residencia do porteiro, o criado de Affonso, o qual, reconhecendo padre Joaquim, lançou-se a elle de modo que o ia afogando ao primeiro abraço.

—Ainda vives, Tranqueira?—exclamou o clerigo—E sempre com o pequenito de Ruivães!?...

—Até á morte, snr. padre mestre!... Pois por aqui? V. s.ª por estas terras?... Que é feito do snr. Fernão? e da fidalguinha?

—Leva-me lá acima, homem, que pelos modos temos que marinhar—atalhou o padre.

—Ponha-se aqui ás minhas costas, que eu levo-o lá, snr. padre Joaquim!—disse o Tranqueira, ageitando-se para ser cavalgado.

—Estás doudo de alegria, velho! Deixa-me ir por meu pé. Vossês cá no paiz da civilisação já andam uns ás cavalleiras dos outros?... Olha lá... não avises teu amo. Quero vêr se me elle conhece ainda.

Affonso estava escrevendo a seu tio Fernão de Teive, quando o padre entrou.

—Veja se se lembra, snr. Affonso!—disse o capellão.

—Lembro!—clamou Affonso erguendo-se a abraçar o clerigo—Vem de Fonte-Boa? Que faz em Paris, padre Joaquim?

—Podemos ficar a sós?—perguntou o clerigo. O Tranqueira sahiu, e o guia, esclarecido em francez por Affonso, retirou-se.

—Eu estava a escrever a meu tio Fernão...—disse Affonso...

—No outro mundo sómente se recebem orações, e não cartas—atalhou o padre.

—Morreu meu tio!?—exclamou o moço.

—Lá se foi para Deus aquelle justo. Pouco antes de expirar, deixou-lhe um abraço ao snr. Affonso. A snr.ª D. Mafalda foi a depositaria do abraço...

Affonso escondera o rosto nas mãos a soluçar.

—Elle merecia-lhe essa saudade—continuou o padre—que era muito amigo de v. exc.ª

—Minha desgraçada prima!—exclamou Affonso—que vida vai ser a d'ella n'aquella solidão, sem pae, sem uma alma que a estremeça!...

—Sua prima não está em casa... Está em Paris.

—Como? em Paris!... onde está Mafalda?!

—Na hospedaria, esperando que vamos. Não se demore.

Affonso desceu a trancos as precipitosas escadas, sem dar tino de que o padre as descia apalpando com a bengala, muito de espaço, exclamando:

—Sempre será bom que pare lá no fundo para me apanhar, se eu fôr de rôlo, ó snr. Affonso!

A anciedade do moço confundia as perguntas acceleradas de modo que o padre, no transito do fiacre ao hotel de Mafalda, nem tempo teve de deliciar mais que tres pitadas com o sorvo chromatico do seu costume.

Direitamente deve ser Affonso quem nos descreva o encontro:

«Entrei n'uma sala, a tempo que minha prima sahia d'uma camara contigua. Caminhamos um para o outro, lavados ambos em lagrimas. Ella fitou-me com um gesto de assombro, e disse:—Tens cabellos brancos, Affonso!... E és da minha idade!... Como a tua vida terá sido amarga!...

«—E tu, Mafalda, tens a formosura que te deixei; preservou-t'a a innocencia da tua santa vida!

«—Vida de muitas dôres, Affonso...—atalhou ella—Acabou-se-me tudo... Faltou-me o amparo de meu pae...—e encostou-se ao meu hombro, soluçando.

«Padre Joaquim acercou-se de nós, limpando os olhos, e disse:—É chorar de mais... eu cuidei que este encontro seria para allivio e não para maiores penas. Basta, por agora, menina... Faltou-lhe o amparo de seu pae; mas o de Deus é que a ninguem faltou... A snr.ª D. Mafalda está aqui para se entender com seu primo, sobre um passo muito do agrado do Altissimo; mas eu peço perdão a Deus em a contradizer, e continuarei sempre a oppor-me, por que...»

«Mafalda fez-lhe um signal de silencio com implorante suavidade, e voltando-se a mim com sereno aspecto, disse em termos balbuciantes que desmentiam a forçada compostura do rosto:—Meu primo, a vida para mim não promette contentamentos nenhuns. Faltou-me meu pae, e resolvi logo entrar n'um convento; mas a inactividade dos conventos póde ser que peorasse a minha tristeza. Ouvi dizer que está derramada pelo mundo uma grande familia de mulheres devotadas ao remedio dos infelizes, por amor de Deus. São as irmãs da caridade. Resolvi entrar n'este instituto; meus paes abençoarão este modesto desejo de ser util a alguem, empregando os annos de vida, que eu não sei nem posso consumir no desabrigo da casa onde nasci. Agora, meu Affonso, venho pedir-te que dirijas em Paris os meus passos para o conseguimento da minha entrada no instituto, e ao mesmo tempo rogar-te encarecidamente, e em nome de tua santa mãe, que aceites as tres quintas que vendeste, e de que teu bom tio era possuidor quando morreu. Na intenção de t'as restituir foi que elle as comprou. Eu cumpro a sua vontade, esperando que tu obedeças á vontade de meu pae. Aceita o que teu era, meu querido Affonso, meu bom irmão; aceita, que é meu pae e tua mãe que t'o pedem, e eu tambem com as mãos erguidas.

«Mafalda cessou de fallar, cortada a voz de soluços. Eu ajoelhei diante d'ella, beijando-lhe as mãos, sem poder articular palavra. E ella, abraçando-me pelo pescoço, exclamou com a meiguice infantil dos nossos affectuosos abraços dos dez annos:—Tu fazes a vontade á tua Mafalda, não fazes, Affonso? Posso agradecer a Deus a esmola de consolação, que me dás?

«—Póde! exclamou padre Joaquim—póde, que o snr. Affonso não ha-de desobedecer á vontade de seu tio! Vamos! a fidalga ainda lhe não deu o abraço que o snr. Fernão de Teive deixou ao filho de sua santa irmã.

«Abraçou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a sua face nos meus labios.

«—Agora, fallo eu—disse o clerigo—O instituto das irmãs da caridade é um santo instituto, nenhuma duvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido contar dos heroismos de caridade, que as servas de S. Vicente de Paulo praticam. Assim é; mas a conquista do céo consegue-se com a virtude, e a virtude é uma em toda a parte, e em todas as situações. As irmãs da caridade são bemquistas do Senhor; mas muitas almas elege o Senhor, sem as submetter á prova dos sacrificios e abnegação do santo instituto do servo de Deus. A snr.ª D. Eulalia, que Deus tem, era uma virtuosa, e piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e mãe não lhe tolheu que alcançasse o paraiso com muitas obras boas que fez, sem as andar derramando pelo mundo. A mãe da snr.ª D. Mafalda foi outra senhora casada e muito amante de seu esposo; pois, se a virtude é a prophecia infallivel da bemaventurança, as duas virtuosas senhoras lá estão com Deus. E agora lhes direi eu o que as santas pedem ao Senhor, vendo assim os seus dous filhos a ouvirem o pobre padre pregar sem encommenda do sermão. Eu lhes digo que ellas estão pedindo a Deus que os case, que os encha de bençãos, e de filhos. Vamos! eu tambem levanto as minhas mãos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus! permitti que a minha voz se ajunte á das santas que vos pedem a felicidade d'estes dous filhos! Permitti que eu os veja ditosos, e que estas lagrimas de velho m'as enxuguem elles com a sua alegria!

«Quando o sacerdote, magestoso pela postura, se voltou para nós, latejava o meu coração na face de Mafalda; e eu inclinado sobre o rosto pallido da virgem, murmurava estas palavras: «Sim, sim, meu Deus, ouvi as preces de nossas mães!»

«Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de nós, e disse com jovial aspeito:—Eu não quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos lá o outono do Minho á nossa espera. Diga a fidalga o que determina.

«Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa, que um esculptor phantasiasse na contemplação e audição de anjos e harmonias do céo. O padre acudiu logo, exclamando alegremente: «O noivo é quem decide! Snr. Affonso, quando partimos d'esta barafunda de Paris, que me põe os miolos a arder?...

«—Ámanhã!—respondi eu.—Ámanhã—exclamou Mafalda—Pois sim; meu Affonso, ámanhã... Temos lá as nossas arvores... a nossa infancia...

«A nossa felicidade sem fim...—atalhei eu.

 

CONCLUSÃO

Entreluzia a manhã pelos resquicios e fendas das janellas do nosso quarto na estalagem da snr.ª Joanninha de Guimarães.

Affonso de Teive disse:

«É dia: vou concluir...

—Não é necessario—atalhei—o restante sei eu.

«Mas não me prives por isso de ser eu o narrador da minha bemaventurança. Aquella mulher que eu te apresentei, negligentemente vestida, e amarrotada dos abraços dos seus oito filhos, é minha prima Mafalda, a esposa de minha alma, a salvadora do meu coração, os olhos que me vêem pelos de minha mãe, a consciencia da minha consciencia, a redemptora das minhas alegrias infantis, a mãe dos meus oito anjos, que minha santa mãe me enviou do céo.

«Ha dez annos que eu vejo amanhecer os meus dias como as aves, cantando o Senhor, e adorando-o como os cenobitas.

«Minha mulher, ao abrir-me os thesouros de sua alma, revelou-me tambem os thesouros da fé, as delicias da religião, e a taça inexhaurivel dos sabores da caridade.

«Mafalda desapparece-me ás vezes com os filhos mais velhos: eu vou procural-a fóra de casa com os mais novos nos braços, e descubro a piedosa valedora no cardenho de algum jornaleiro, á cabeceira das palhas nuas do enfermo, ao qual ella foi levar a cobertura, e o alimento. Outras vezes, são os meus filhos, que levam o seu fatinho velho ás creanças, que estalejam de frio, sobre o lagedo d'uma cozinha sem lume.

«Se alguma hora fallei como marido austero a minha mulher, a dôce creatura respondeu-me com um sorriso; os meus queixumes são sempre causados pela pertinacia d'ella em entender no governo da casa com um zelo convisinho da mortificação. Mafalda é rica; mas tem uma maxima indestructivel: «poupar para os pobres.»

«Ha dez annos que vivo em Ruivães. N'este longo espaço, apenas tenho acompanhado minha mulher a observar a cultura das suas quintas, que ella teima em chamar minhas. Mafalda tem vagas idéas do que é um baile, e eu pude esquecer as idéas que tinha. Dizem que a convivencia de annos entre esposos, que muito se amam, traz comsigo de seu natural uns silencios significativos do esfriamento das almas. Eu não sei o que seja esse arrefecer. O céo e a terra estão continuamente abertos ante meus olhos: de cada vez que os contemplo, a cada alvorecer, e fim da tarde, os maravilhosos poemas dão-me sempre a lêr uma pagina nova, e Mafalda traduz mais prompta que eu os gerogliphicos da Divindade. Fallamos de Deus e dos filhos; contemplamos o boi que nos encara soberbo, a avesinha gemente que pipila; a fonte que suspira, e a catadupa do ribeiro que ruge. A natureza é a terceira voz dos nossos colloquios, umas vezes amor, outras vezes sciencia, e sempre admiração e perfumes ao Eterno, que nos encheu de delicias, e inflorou o caminho da velhice.

«Eccos do mundo nenhum chega ao nosso ermo. A mim, os homens que me viram, consideram-me morto uns, outros por ventura me lastimam embrutecido entre os meus fraguedos. Tive cartas a que não respondi; fui procurado por ociosos, a quem recebi na minha sala de visitas, com uma ceremonia que os afugentou. Affligiam-me as testemunhas do meu vilipendio, e temia que ellas proferissem um nome, que soaria como blasphemia no santuario da minha familia.

«Aspei todos os vestigios que podessem recordar Theodora. Entre os papeis do meu tio Fernão, n'uma gaveta secreta, encontrei o copiador das cartas d'ella. Minha mulher surprehendeu-me n'este descobrimento, viu e comprehendeu, sorriu-se, e disse: «Meu pae nunca me deixou vêr isto, bem que eu soubesse da existencia d'este livro. Triste sorte a d'esta senhora! Mal diria a mãe que tão virtuosamente a educou!» Unicas palavras que Mafalda proferiu com referencia a Palmyra!

«Aqui tens a minha vida, a vida dos dous homens, que na curta passagem de quarenta annos, tocaram as duas extremas do infortunio pela deshonra, e da felicidade pela virtude. Uma mulher me perdeu; outra mulher me salvou. A salvadora está alli n'aquelle ermo, glorificando a herança, que minha mãe lhe legou: o anjo desceu a tomar o lugar da santa: a um tempo se abriu o céo á padecente que subiu, e á redemptora que baixou no raio da gloria d'ella. A mulher de perdição não sei que destino teve...»

—Pois ignoras o destino de Palmyra?—interrompi eu, desconsolado como todo o romancista, que desadora invenções.

—Como queres tu que eu saiba o destino de Palmyra?!—Replicou Affonso de Teive.—Quem ha-de vir contar-me a Ruivães os desastres que lá vão no seio apodrentado da sociedade!... Mas, se te rala a curiosidade de saber em que lamaçaes a deves encontrar, lança a tua espionagem, diz, alto e bom som, que a fama te confiou a tuba pregoeira dos escandalos, e não faltará quem te illumine e esclareça. Do viver da mulher virtuosa é que baldamente procurarás noticias: dá-se a virtude n'uma obscuridade, que chega a incommodar a attenção dos que observam como cousa curiosa de vêr-se.

—Pois não me despeço—redargui—de me ir por ahi fóra no encalço de Palmyra, e mal d'ella, se a não topo, que morrerá sem lêr a sua biographia, desastre commum, mas immerecido, das mulheres da sua especie. Quantos romances, e dramas, e cantatas ahi pejam as livrarias sobre Ninon, e Marion, e Manon Lescaut? As Aspasias e Phrineas tiveram por si os historiadores e os poetas gregos. Os Catullos e Ovidios eternisaram Lesbias e Corinnas. Menos affrontadores da moral, os romancistas e poetas coevos nossos deificam as Gautiers, e fazem que as familias honestas chorem por ellas nas paginas dos livros e nas tabuas dos palcos. Palmyra ha-de ter um livro, ou eu não escrevo mais nenhum depois do teu... Dá-me agora noticias do Tranqueira. Que é feito do Tranqueira?

—Está lá em casa a esta hora com um pequeno a cavallo em cada hombro, e outro enganchado na barriga. Tranqueira não é meu criado. Lá em casa os meus filhos conhecem-no pelo amigo velho. Tem o seu quarto no interior dos melhores aposentos. Chama-se elle a si feitor; mas o que elle feitorisa é o seu rheumatismo, e vive a picar rolo de tabaco para cachimbar ao sol. Comprou um pinhal, e negoceia em lenha e madeiras. Quando recebe algumas libras, vai até Braga visitar uns parentes pobres, dá-lhe metade, e vem para casa carregado de frigideiras, que me estragam o estomago dos rapazes. Se algum dos meus caseiros o faz zangar nas contas, em que elle quer ser sempre ouvido, ou no grangeio das terras, de que elle não percebe nada, mas quer ser consultado sempre, costuma elle estirar os braços tremulos, e dizer: «O que tu precisas é um banho de cisterna.» Imagina o Tranqueira que a sua especial vocação é dar banhos de cisterna.

—E o padre Joaquim de S. Miguel morreu?

—Tenho a satisfação de te dizer que o meu padre Joaquim está vivo e vividouro. Não o vistes lá em casa por que foi para o Alto-Minho consoar com a familia, tributo que elle pagou sempre; mas nunca vai que não se despeça a chorar, e nunca vem que nós o não recebamos com grande alvoroço de alegria. É o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os oculos de modo que as lições cahem em pedra árida, e o padre já diz que considera perdidos dez annos de vida n'aquelle ensino. Que mais queres saber?

—Se poderei dormir duas horas em tua casa, respondi eu.

—Vamos partir.

—E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingarão elles em mim a falta do padre? Previne-me.

Partimos.

A distancia de um oitavo de legua do paraiso restaurado do meu amigo, enxergamos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dous ao collo, e outros dous pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam n'uma grilharia barbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros:

—Cá vou preparando a cabeça de progenitor e ouvidos paternaes, disse eu—Seriam excellentes anjos aquelles pequerruchos, se tivessem larynges mais accommodadas ao apparelho auditivo do genero humano!

—São os meus filhos—exclamou Affonso—É minha mulher! Alli tenho tudo, o capital, o juro, e a usura da felicidade que desbaratei. Alli me esperou minha mãe dous annos, e eu não voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o céo fôra o mais alto ponto onde ella voára para vêr de lá a minha perdição. Alli voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flôres que eram d'ella; das primeiras adornei os cabellos de minha mulher; das que me deu a primavera seguinte engrinaldei o berço do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorecencia, vem minha mãe coroar o novo anjo, que minha mulher lhe offerece como a intercessora com o Altissimo. Oh meu amigo! de envolta com a felicidade, a religião! Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração afflictiva!...............


Aproximamo-nos do formoso grupo. Apeei; fui cortejar a mulher do amor de salvação, e disse-lhe commovido, e creio mesmo que lagrimoso:

—Ao cabo de dez annos de felicidade não interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de v. exc.ª com o funesto contagio da sua má estrella! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivencia do seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Affonso de Teive cerrou olhos n'esta infinda noite de Dezembro!...

—Tambem eu não!—atalhou Affonso sorrindo—tambem eu não!

—Não importa, minha senhora—tornei eu—Seu marido velava; mas que saborosa vigilia! Contou-me suas desgraças para que eu podesse cabalmente ajuizar da felicidade perenne, que v. exc.ª, depositária dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lagrimas, e lhe está dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, n'este mundo, era uma usurpação feita ao céo!... Agora sei que ha sobre a terra um homem feliz, feliz ha dez annos, feliz para uma longa existencia. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!

Mafalda abaixou levemente a cabeça com gracioso acanhamento, e disse:

—Não sou eu sosinha a felicitar meu primo: são as orações de nossas mães, e o amor angelico dos nossos filhinhos.