VI
O escandalo, que felizmente abortou á portaria do convento, poz de sobre-rolda os paes de familia, que tinham meninas a educar nas Ursulinas, e deu ás insomnes freiras um sexto sentido de observação. Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Theodora tinha bastante capacidade para tomar criada, conforme o gorado systema de Libana. Além d'isto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de quebrar de orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e sahia com invectivas e chacotas ás freiras velhas, clamando a vozes descompostas que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A communidade offendida e esgotada de paciencia, consultado o tutor da educanda, assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monasticos, e encerrou-a no seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Theodora esmoreceu diante da força mixta das freiras e dos padres capellaens, que promettiam supprir com o pulso a inefficacia da eloquencia persuasiva.
Vagamente informado da situação da sua amada, Affonso de Teive foi á portaria do convento, no heroico proposito de ir arrancar a victima de sobre as aras da theocracia despotica. A porteira, senhora de oculos e de muita virtude, offereceu peito de martyr ás injurias impias do acriançado amante. Porém, como quer que o acaso alli encaminhasse um cabo de policia, quando Affonso gesticulava e vociferava um menos mau improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça, correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o allucinado alumno de rhetorica, estrondeava na porta valentes murros, chamando Theodora a clamorosos gritos.
Travado pelos braços pujantes das authoridades, Affonso não pôde resistir á surpreza do assalto. Escabujou e esbraveou em quanto as forças da raiva o aqueceram; a final cahiu exanime nos braços da lei, balbuciando ainda «Theodora!» Estava a instaurar-se-lhe processo, quando a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitavel presença, e auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade pueril do filho.
Affonso, levado por sua mãe, foi para casa, deliberado a deixar-se morrer. Cahiu de cama, e tresvariou em febres de mau caracter. Todavia, os cuidados maternaes, cooperados pela robusta natureza dos dezeseis annos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescença, choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda supplicios de que despertava em brados e soluços; não obstante, a cura do amor, que chora, é certa: ferida de coração, onde possa chegar o agro e adstringente de uma lagrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuraveis são os que desabafam em rancorosas explosões.
A parentela do illustre pimpolho, alvorotada pelas lastimas da fidalga, reunira-se em conselho, e alvidrára que Affonso de Teive fosse completar os estudos preparatorios em Lisboa, hospedando-se em casa d'um seu tio desembargador. O moço obedeceu ás exhortações e rogos de sua mãe, depois que a extremosa senhora lhe prometteu e asseverou que, a despeito de tudo e de todos, Theodora, no praso de um anno, seria sua esposa.
Os parentes embicaram, resmoneando que o morgadio da Fervença o era só em nome, sem vinculo, nem fôro em ascendente conhecido. Contra estas razões se insurgiu Affonso em termos que fariam a illustração democratica d'um botequineiro antes de ser cavalleiro do habito de Christo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos christãos, iguaes entre si e iguaes ante Deus, que vaidosa de aparentar-se com os Pinheiros de Barcellos, e os Corrêas e Lacerdas da Honra de Farelaens, votou com seu filho, dizendo «que na casa de Ruivães sobejava a fidalguia e faltava a felicidade.»
Foi Affonso para Lisboa com o capellão. O tio desembargador gasalhou-o nos braços, e as primas, filhas do bondoso magistrado, á mingua d'um irmão, começaram logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o não deixariam voltar mais, sem ellas, á provincia.
Pouco montam tantas caricias para o contentamento de Affonso. Ralam-no saudades, emmagrecem-no os jejuns, amarellece-o a tristeza. Nas aulas é mau estudante; no circulo dos condiscipulos é um automato que ri por comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impellem; em casa com as primas é um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem scisma sequer em adivinhar as charadas metricas, e logogriphos figurados, em que todas são eximias, e sobre modo impertinentes.
A senhora de Ruivães recebe de todos os correios instantes cartas de Affonso accelerando as diligencias para o casamento. A consternada mãe já por terceiras pessoas mandou sondar as difficuldades que importa combater. De Braga dizem-lhe que Theodora já sahiu do encerramento da cella, e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratorio e a cêrca. Ajuntam as informações que o tutor da morgada frequenta semanalmente o convento, e algumas vezes vai com elle um filho, rapaz de figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nação de pretos, e uma casaca archeologica, de cabeção tão copioso que parecia enrolar um capote.
A descripção poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hyperbole não.
Este sujeito chama-se Eleuterio Romão dos Santos, por ser filho de Eleuteria Joaquina, e de Romão dos Santos, tutor de Theodora, lavrador abastado, visinho do mosteiro de Tibães.
Eleuterio tem vinte e dous annos; quiz aprender a lêr com seu tio padre Hilario; mas a natureza oppoz-se-lhe, logo que elle, apoz um anno de canceira, entrou a soletrar palavras de tres syllabas. Vencido pela natureza, padre Hilario desistiu, visto que lhe era vedado arejar o cerebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado.
O filho unico de Romão dos Santos recebeu em upas de alegria a noticia da sua incapacidade para soletrar nomes de tres syllabas. No dia seguinte, o pae mandou-o á feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz effectuou a venda dos bois com tamanha astucia e vantagem que logo d'alli se deu a conhecer a sua vocação. Uma segunda mercancia robusteceu-lhe o credito, que outras vieram confirmando, até que Romão deu ordem illimitada de dinheiro a Eleuterio para poder negociar em bezerros e vitellas.
Estava o rapaz n'este auge de glorificação propria, e inveja dos visinhos, quando falleceu a mãe de Theodora. A orphan, apenas sua mãe cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma senhora, que lhe fallasse a linguagem polida á qual estava afeita. Em casa de Romão havia sómente a snr.ª Eleuteria Joaquina, creatura chan, que, a cada soluço da sobrinha, dizia quasi sempre:
—Não chores, pequena; que a morte é portêllo que todos temos de passar.
E, para não dizer sempre o mesmo, variava d'este theor:
—Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.
Eleuterio, porém, menos versado em lugares communs de pezames aldéãos, querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:
—Senhora prima, olhe que o chorar faz mal ás meninas dos olhos. Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remedio. Agora o mais acertado é divertir-se pelas feiras. Vem ahi a de Villa Nova de Famelicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a snr.ª prima quizer, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso á minha vigilancia, que eu, dentro d'um anno, prometto dar-lhe dinheiro de ganho com que ha-de comprar um grilhão de duzentos mil réis, e umas arrecadas de lhe chegarem aos hombros. O mais quem morreu morreu, é ditado dos velhos.
—Quem morreu é rezar-lhe por alma—atalhou com má grammatica, mas com piedosa intenção, o tio padre Hilario.
Theodora estava a rebentar de raiva, quando Eleuterio recolheu ao bucho das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.
Ahi está uma amostra de Eleuterio Romão dos Santos.
O conselho de familia deliberou o ingresso da orphan nas Ursulinas. A menina acolheu agradavelmente a noticia, por se desentalar assim da oppressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se deve permittir á bondade de uma pessoa qualquer.
Logo que a mãe de Theodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos bens, lançou contas ao futuro, e deu como realisavel um casamento, que vinha a ligar as duas casas maiores da freguezia. Custou-lhe a ceder que a pupilla se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fôra creada com mestras, e de todo estranha á vida agricola.
Entretanto, Romão predispoz o filho a cuidar seriamente no bonito arranjo, que lhe sahia a talho de fouce: estylo figurado e pittoresco em que são inventivos os nossos camponezes, e em que Romão primava sempre que tinha entre mãos algum bonito arranjo, o qual vinha a ser sempre um arranjo feio para o proximo.
Eleuterio, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque. Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortezan de Theodora. Entre os galans da estôfa de Eleuterio mulher de encher olho queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa de pulsos, com os queixos tumidos de gargalhadas estridulas, e as facecias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos beiços grossos e oleáceos. Theodora era o envez de tudo isto.
Faz pena vir aqui a ponto o descrevel-a, quando o contraste lhe fica tão de perto.
Theodora, aos dezeseis annos, era um modêlo acabado de formosura, como raras se vos deparam nas raças patricias, que o concurso de circumstancias, umas espirituaes, outras physiologicas, aprimoraram. A pallidez era n'ella o principal caracteristico das bellezas de eleição, á escolha de olhos onde parece que os nervos opticos vem da alma, e não do cerebro a tecerem a retina. A mulher pallida é a que vem cantada em poemas e estremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a dar a realesa do amar e padecer á mulher pallida, havemos de curvar-lhe o joelho, na certeza de que ella se fará amante e martyr, por amor do poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o coração d'aço. Póde ser que semelhante clausula, no decurso d'este livro, acuda á retentiva do leitor.
Relumbravam no alvor das faces de Theodora olhos negros, não vivos, antes morbidos, como se a queda das longas palpebras, iriadas de veias azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e regira os globos visuaes. Do nariz diremos que, n'esta feição, a mais rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrára ella, que bastante lhe fôra aquella perfeição para desmentir os que a taxam de desprimorosa. Em labios, não sei se me valha das figuras antigas—rosas e coraes, romans e carmim—se me avenha com esta verdade prompta e fluentissima que d'um traço copia como o pincel, e d'uma phrase exprime tudo, como em phrases de Castilho: «era um osculo perpetuo de innocencia.» Como isto sahe bem na musica da expressão; e que bello seria o mundo, se as boccas formosas estivessem sempre absorvidas no osculo perpetuo da innocencia! Ó Theodora, se tu então morresses, o teu rosto trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos labios nunca despregados do beijo d'algum anjo, resabiado ainda da voluptuosidade dos anjos mal-avindos com o candor celestial. Mas tu cresceste, e deformaste-te, ó chrysalida! A tua essencia de céo vaporou para lá no alar-se de alguma virgem, irman tua, que o Senhor chamou na ante-manhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi a formosura e a desgraça da mulher.
Mas, afóra a essencia pura do céo, que esvelta, que peregrina mulher cá se ficou a ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do altar da nossa idolatria a um roer surdo de vermes e podridão!
Esta ultima palavra tolhe-me de continuar a descrever Theodora. Esmoreceram-me os espiritos. Cahi da minha phantasia na lagôa fétida da verdade. Achei-me como ás margens d'uma sepultura regélida do giar d'uma noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os dedos, e a penna desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos jazigos, e remexe e sacode de sobre esta pedra umas corôas humidas de orvalho, crystallizado em lagrimas; são corôas de perpetuas sagradas á formosura, que se julgou immorredoura, á sexta hora do seu breve dia. Lá vão as corôas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão e do cypreste; lá vai tudo; a memoria dos vivos lá se foge tambem d'esta sepultura: tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!
VII
Belleza absoluta, de têlhas abaixo, ha uma só, que é a da mulher formosa; e, na variada manifestação de belleza em diversidade de typos, ha uma superior formosura, que constitue o bello universal, o bello que prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona o espirito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento. Dá-se o exemplo d'esta cousa formulada em these abstrusa na embriagadora influição dos olhos de Theodora no animo selvagem de Eleuterio. A menina de quatorze annos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, appareceu-lhe aos dezeseis na grade do convento, e atordoou-o. O moço, querendo exprimir ao pae a sensação recebida n'aquella hora, disse com expansiva naturalidade:
—Quando ella me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma estava fóra do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma cousa, e a lingua grudava-se-me ao céo da bocca. Quem me dera ser rei, e que ella fosse uma pastora de cabras!
Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeismos, a concisão da idéa poderia attribuir-se a Shakspeare. A mais crystallina agua é a que rebenta de penhascos ermos: assim, de espiritos selvaticos, resaltam por vezes umas idéas limpidas, d'uma sensibilidade original, que faz pensar.
Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a Theodora. A menina, vesada á linguagem mais florida ou mais delicada de Affonso, riu interiormente dos termos rusticos do primo, e de fóra compoz o gesto para fingir que o não entendera. O tutor, porém, instinctivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas inglezes chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as palavras de Eleuterio, aproando o discurso ao ditoso remanso do casamento, que elle, na sua locução figurativa, denominava um lindo arranjo.
A morgadinha ouviu anciada o tio, e respondeu com um ataque de nervos, que era já o terceiro que a insultava; sympathica doença em meninas pallidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o apparelho nervoso. Theodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos dormitorios. Acudiram algumas freiras, e transferiram-na á sua cella. A prelada foi á grade averiguar do accidente, e sahiu convencida de que a orphan era uma douda, a quem Libana, de impudíca memoria, ensinára a fingir ataques nervosos. Romão dos Santos sahíra do convento no proposito de consultar um egresso do Carmo sobre os tregeitos e feitios que vira em sua sobrinha, para applicar-se-lhe a reza purgativa de demonios, se o frade entendesse que ella os tinha no corpo. O zeloso e invencivel demonifugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita energumena, mandou ás freiras que depozessem ácêrca das malfeitorias attribuidas ao espirito immundo, e retirou-se capacitado de que a morgada da Fervença estava possessa d'uma legião de travessos e intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre religiosas, não as poupando mesmo, quando ellas tomassem o expediente salvador do conhecido gallego da fabula de Almeida Garrett. Era illustrado o egresso.
No entretanto, soubera Theodora que Affonso de Teive fôra para Lisboa. Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a destemperada arremettida que elle fizera contra a porteira, e as vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquella façanha. Porém, ninguem lhe dissera que dôres o pozeram á borda da sepultura, que saudades o crucificavam em Lisboa, e que vans solicitações fazia a mãe de Affonso para assegurar á filha da sua defunta amiga a certa realisação do casamento.
Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa, sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram á sua conta salval-a. Ao despeito e ao enojo, acresceu o visital-a com mais frequencia, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleuterio. D'antes, a cabeça exterior do moço era horrida, toda escadeada da tesoura habil em tosquiar rezes, tufada de grenhas, com umas rêpas caracoladas sobre as orelhas, e aquelle todo lustroso de azeite. Depois, appareceu Eleuterio com o cabello cortado á escovinha, e os caracoes banidos. Depoz a casaca no gavetão-museu da familia, e envergou uma judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até á ponta do pé, e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de madre-perola. Além d'isto, o pae deu-lhe o relogio avoengo, que, no continente e conteudo de caixas sobrepostas, parecia a baixella d'uma familia, desde a tina do banho até á bacia do lavatorio. Os berloques d'este thesouro, que não regulava ha quarenta annos, eram placas de differentes pedras, e sinetes periformes de tal tamanho, que pareciam armas de defeza.
Theodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleuterio, afóra mãos e pés, que nenhuns outros podiam confundir-se com os d'elle, a despeito mesmo das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para dentro do coração da menina.
Li em algures, e estou convencido d'uma verdade que sôa como paradoxo: e é que o espirito de cada pessoa tem muito que vêr com o modo como ella está entrajada. A intellectualidade apouca-se e confrange-se quando o sujeito se olha em si, e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O desaire do espirito como que se identifica ao desaire do corpo. As idéas sahem coxas e esconças do cerebro; a expressão tardia e canhestra denuncia o retrahimento da alma: ha o quer que seja phenomenal que eu tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem confessado semelhantes segredos de psycologia, em que o alfaiate exercita importante alçada.
Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleuterio se sahiu no palratorio, no dia em que se mostrou desfigurado a Theodora. De vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os berloques, e ao levantal-os para sua prima já nos beiços lhe borbulhava alguma idéa bonita. Igual fortuna o bafejava, quando, acaso ou por acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canella, que se ficava algum tempo narcisando nos pés.
D'este primeiro colloquio sahiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cella da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleuterio o paralta que a visitára. Theodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se, e exclamavam:
—Que perfeito rapaz elle se fez! Ninguem havia de dizer o que sahia d'alli! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.
—Seu primo é uma figura que dá na vista!—ajuntava a mais maliciosa das freiras para não ficar em peccado com a sua consciencia.
Theodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma a ennevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria não póde já reter: era a imagem de Affonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleuterio Romão dos Santos.
Ergueu-se alegre, abriu a janella do seu cubiculo, aspirou o ar do céo que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que á menina se figuraram as delicias da liberdade.
Amava ella Eleuterio Romão?! Não amava, disse-o ella, e eu juro nas palavras de Theodora. O que ella amava era a liberdade; os anhelos de sua alma anciavam sofregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita, e não perdôa. O que ella via em Eleuterio era o homem já desfigurado da repulsão primeira; o homem aceitavel como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem, que lhe vai descancellar os adytos do mundo. Assim é que muitas mulheres tem amado aquelles que as salvam; d'este amor, assim chamado por não haver mais elastico epitheto que dar á cousa, é que surdem os irremediaveis infortunios, os odios irreconciliaveis, e as affrontas que levantam as campas, encerram algozes e victimas, e ficam ainda de pé sobre ás lousas infamadas, pregoando o opprobrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infamia de suas mães... Colho as vélas; que, n'este rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisação: cousa duas vezes importuna.
Conseguira, n'este tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta á morgada, carta de esperanças, alento, e consolações, com miudas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães, e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta promettendo á menina que, antes de cumpridos dous annos, os votos de todos se haviam de realisar diante de Deus, com tanto que Theodora con- servasse firmeza, coragem, e constancia.
—Dous annos!—disse entre si a morgada—Esperar dous annos n'este purgatorio!... Se Affonso me ama, porque não ha-de vir já roubar-me d'este carcere? Dous annos! e viveria eu aqui tanto tempo á espera de não sei que?! Eu captiva aqui dous annos, e elle em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que elle está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Affonso, n'este espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se me elle ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá occasião de envelhecermos. O que eu tenho, meu é já; ninguem m'o rouba por eu casar contra vontade do conselho de familia... Dous annos!...
E, n'aquelle dia e nos dous seguintes, Theodora, de cinco em cinco minutos, dizia: Dous annos! e ficava meditativa, até de novo exclamar: Dous annos!
Respondeu a morgada á mãe de Affonso que a sua saude se havia perdido na oppressão e dissabores d'aquella vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ella não amasse. Queixava-se da ausencia e silencio de Affonso, e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Affonso todas as venturas d'este mundo, em quanto ella se deliberava a experimentar todas as desditas.
A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se á sua capella, e longo tempo esteve em joelhos pedindo á Virgem que defendesse Theodora dos seus funestos instinctos.
E, desde aquella hora, a mãe de Affonso, com quanta delicadeza de admoestação e brandura affectuosa pôde, desviou o filho de pensar em Theodora como futura companheira de sua vida. Affonso pedia instantemente explicações de tal mudança no espirito de sua mãe; e ella, podendo responder com o mais idoneo documento, que era a propria carta da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Theodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade, descrevia-lhe o quasi nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memoria de sua mãe; mas não mais lhe fallou de Affonso.
A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou rasoavel o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao artigo essencial de sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saude corria perigo.
Eleuterio, cada vez mais assiduo na grade, já tinha uma outra judia côr de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um collete de veludo escarlate, e um cavallo de marca, apparelhado a primor, e obediente ao freio para todo o genero de upas e galões. Theodora gostou d'isto, por que um dos anhelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim razo, trajada em amazona, com as dobras do amplo véo ondulando no phrenesi de desapoderado galope. O cavallo—faz pejo dizel-o! foi muito no determinar-se a morgada a responder categoricamente ás timidas perguntas do primo Eleuterio. Assim foi. Ageitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse que estava disposta a tomar estado, visto que a idade lh'o permittia. Eleuterio, perplexo, de ouvil-a, sem ousar suppor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito, cuidando que estava alli o coração; quando, porém, a prima lhe disse:
—Faço aquillo que meu tio Romão quizer... Caso com quem elle determinar...
Eleuterio expediu um ai de desafogo, e riu-se alvarmente, esfregando as mãos.
Por amor d'este successo vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no theatro e nos romances. Casos analogos d'aquelle tenho-os visto remedados com tregeitos e exclamações inversas da logica da natureza. No romance todos os Arthures ou Ernestos, ao saberem que são amados, empallidecem, suam, ajoelham, declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher amada. No theatro, em lances identicos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o proprio pae, se lhe atravancassem o caminho da felicidade. Rir ás cascalhadas é que eu ainda não vi amante ditoso nenhum, no instante solemne de se crêr amado. Eleuterio Romão dos Santos é o primeiro modêlo que a natureza me offerece.
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade, que endouda e transporta, o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui calcinado de coração. Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são umas pessoas aridas, frias, e falsas, que inventam a natureza, depois que desbarataram a sensibilidade, exagerando as generosas commoções que receberam d'ella.
Theodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ella o queria falsificado no molde dos romances, que a menina transmontana lhe emprestára; mas, ainda assim, aceitou com paciencia a linguagem desartificiosa d'aquella ingenua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleuterio Romão dos Santos fallou assim:
—Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser tão rico como Sansão. (O padre Hilario quizera leccional-o em sagrada escriptura: fallou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de tres syllabas, deve suppôr-se que tambem em materia de historia, preferia os individuos de duas aos de tres syllabas.)
E continuou:
—Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Theodora...
N'isto, como lhe não occorresse idéa nenhuma com que fechar a oração condicional, levou a mão á testa, e roçou a epiderme com o aro d'um robusto annel que trazia no dedo indicador. Idéa magnifica! Tirou o annel, e lançou-o ao regaço de Theodora. Tinha o annel um grosso topazio, engastado n'um circulo de perolas. Theodora examinou o objecto, e enganada pela circumferencia do aro, esteve quasi a pensar que era uma pulseira.
—Faz favor de encaixar no dedo, prima—disse Eleuterio.
—Não me serve—disse a menina.
—É que está magrinha das mãos...—replicou o moço—Pois guarde-o, e quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima ha-de engordar com os ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa, e acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.
VIII
As filhas do desembargador Figueirôa rodeavam o primo Affonso de agrados, de gozos familiares, e recreios, tendendo tudo a divertil-o de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão, pedia-lhe que se descuidasse em materia de estudos, e tomasse muito a peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ella houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda para a idade de Affonso. Bailes e theatros atediavam-no só em cuidar que havia de ir affrontar-se com centenares de mulheres entre as quaes nem sequer em sombra se lhe offerecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Theodora. O pudor dos dezesete annos, a indole nada communicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprára-lhe o tio, por ordem de sua irmã, um cavallo. Affonso recebeu a dadiva com satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade, e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limitrophes de Lisboa.
O local mais attractivo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Bellas. Desde o reinado de el-rei D. Manoel que as gigantes arvores d'aquella magestosa ancian estavam frondeando, e asylando as gerações de aves, como para alegrarem com suas musicas, e gasalharem com suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por alli as horas lhe corriam placidas, contentes nunca, bem que a tristeza d'entre arvoredos, ao murmuroso cahir d'agua em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das breves e donosas verduras da vida.
De cada vez que Affonso ia á quinta predilecta, em cada arvore nova entalhava as letras iniciaes dos dous nomes, que elle imaginava, apesar da distancia e dos revezes, atados para sempre com applauso de Deus. Este pagão d'amor e por amor, á imitação de todos os amadores visionarios, cuidava que a divindade se intromette n'estas brincadeiras da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta, e lá se atira em corpo, deixando cá fóra a alma infernada na deshonra e na execração. E querem os pobresinhos, com o peito aberto ao abutre de suas chimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!...
E Affonso, escondido nas sombras escuras de Bellas, chorava por Theodora, e, alteando o rosto ao céo, pedia ao Senhor que lhe visse as lagrimas, e houvesse piedade d'ellas.
O desembargador inquietava-se com as longas ausencias do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia á aldêa a conversar com arvores e penedos, e deixava suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. N'estes queixumes das gentis meninas, transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer d'ellas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Affonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da orphan das Ursulinas, se podesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãosinhos do incenso de Theodora, não faria menos que odial-as. Estes escrupulos são a religião, o ascetismo dos illuminados de amor, illuminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta annos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos tambem illuminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados n'este lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos vêr na superficie lamacenta e torva espelharem-se as estrellas do céo da nossa mocidade!
Affonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado ás tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quizera para si. É o que Affonso pensava do silencio da mãe, e das reflexões do velho.
Estava, uma tarde de Agosto, Affonso em Bellas. Desde o dia anterior que não voltára a Lisboa. O tio, como elle não voltasse ao segundo dia, metteu-se á sua carruagem, e foi procural-o, e entregar-lhe cartas recebidas do norte. Uma era de sua mãe, outra d'um seu tio paterno, fidalgo de Barcellos, o mais acerrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Corrêa Figueirôa, com uma mulher da Fervença, que, dizia elle, por nome não perca.
A carta da mãe dizia simplesmente:
«Não era digna de ti, meu filho, Deus bem m'o tinha dito, e o coração estalava-me em ancia de t'o dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.» E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.
A carta de Fernão de Teive era mais prolixa versando quasi toda sobre o casamento de Theodora com Eleuterio.
Parecem-me dignos de extracto uns relanços d'esta carta, que eu copiei do original. Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estylo picaresco do folhetim:
«....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as eguas de albardão e rabicho na parte equestre do prestito, que era luzido, por que os arreios brilhavam, principalmente as barbellas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirára bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara relamboria, levava ares fulos; e procurava as estrellas ao pino do meio dia, pasmada de vêr que ellas não vinham á janella admiral-a. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus, e parabens aos nossos antepassados!.............
«Perguntei quem eram os figurões do prestito. O meu sapateiro conhecia quatro. Varreram-se-me da memoria os nomes, e só me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum á saude da noiva. O lapuz do noivo queria montar á Marialva; mas o ginete, quando chegou á Cárcova, festejou a suciata com quatro couces que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ella ha-de levar do marido................
«Tinhas a côrte celestial a pedir por ti, Affonso! Quando te deu na venêta ser marido de Theodora, em quanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sábia. Vai ás arcadas do Terreiro do Paço, que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Theodora por Theodora, antes a do papel de mata-borrão, que est'outra é um borrão da tua mocidade, que felizmente o tempo ha-de gastar................
«Agora é tempo de te dizer que tens uma prima, e eu tenho uma filha. Se a queres esposar, vem quando estiveres farto da capital. Está senhora, e foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pae, Mafalda parece-me gentil e esvelta. Em palavras é discreta como se os cabellos, em vez de puro ouro, lh'os tivesse embranquecido a experiencia. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não deva honrar, e bemdizer a mãe que a educou, e o sangue illustre que lhe fórma o coração.
«Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras d'uma mocidade bem encaminhada, e recebe a benção de teu tio
Lidas estas cartas, Affonso levou o lenço ao suor da testa e ás lagrimas, que lhe cahiram a quatro. O tio, já avisado do successo de Braga, discursou largamente de pitada no dedo, e os oculos montados na mais grave das attitudes. Affonso diz que o não ouvira longo tempo, e o abominára depois que o ouvira.
Quizera o desembargador leval-o comsigo na traquitana; mas o moço rebellou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da pertinacia do sobrinho em ficar, terceira noite, fóra de casa. Affonso internou-se de corrida entre o arvoredo, n'um impeto de desesperação ou loucura. O magistrado deixou-o, e foi para Lisboa, d'onde participou á irmã o resultado das cartas, e aproveitou o ensejo para vaticinar que Affonso ia caminho da demencia a passos de gigante.
Disse-me Affonso que, n'aquella noite, fôra ter a Mafra; e repousára, na madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do sol, quiz agitar-se em nova caminhada; mas o cavallo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassivel á espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Affonso. A mais tragica desventura tem uma physionomia comica, se bem lh'a procuramos. Escusavel seria o riso de quem observasse o cavalleiro, roxo de febre e colera, esporeando os ilhaes do esbuxado cavallo, decepado de jejuns, e correrias arabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer póde questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade!
Em quanto o cavallo reparava as forças na manjadoura, Affonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Theodora. Escreveu tambem ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.
Feito o proposito de viajar, o phrenesi descahiu em sombria, mas serena tristeza.
O céo negro abria-se-lhe, a instantes, em relampagos de luz. Atirava elle com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineavel, e retrahia-se com ella a uns rapidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas dos dezoito annos! Viajar era-lhe já uma ancia; cria-se resgatado assim das penas, e só assim que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.
Embebecido n'esta esperança, voltou para Lisboa, e recolheu-se tranquillo a casa do desembargador. Ninguem fallou em Theodora. As primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem proposito d'isso. O velho proferia maximas umas de Seneca, outras d'elle ácerca das paixões; abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Affonso, n'aquelles oito dias, podera recopilar maximas e proverbios com que, no decurso de longa existencia, regesse as suas acções, e repartisse sciencia de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inattento sobrinho do apotegmatico desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as maximas de Seneca, e quasi latinas as do tio em virtude do estylo graudo e philintiniano em que as compozera. O certo foi que Affonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.
Mais vernaculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.
N'um dos dias em que Affonso estava esperando recursos para se expatriar com a sua dôr, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Affonso, desgostoso da surpreza, bem que as lagrimas o consolassem ao vêr sua mãe, receiou que ella viesse apostada, com o imperio dos prantos ou da authoridade, a demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu benignamente, e disse-lhe:
—Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sahir de tua patria, não quizeste ir abraçar tua velha mãe, e abraçal-a talvez para nunca mais a tornares a vêr. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Affonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca sahirem da patria para as guerras contra a Hespanha os militares ainda mancebos e os generaes já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e orarem em commum diante da cruz a que suas mães tinham orado com elles tenrinhos nos braços. Este era o uso da nossa familia antiga, meu filho, e não sei por que não ha-de continuar comnosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que elles oravam, tambem eu orei comtigo em meu seio, e lá aprendeste de minha bocca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos—nome dôce de mãe que te estremece—seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Affonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a sua pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com anticipação o abraço, que eu lhe pediria nos ultimos instantes da vida. Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar, e ficar pedindo a Jesus Nosso Pae que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam chorando. Em quanto a dinheiro, Affonso, tu dirás o que queres, que prompto está. Prasa a Deus que elle te não sirva de ruina ou deshonra.
O desembargador, que estivera ouvindo esta affectuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no hombro com severidade, e clamou:
—Acorda, coração de pedra!... Córa de pejo, e dôa-te o arrependimento, filho mau!
—Meu mano—disse a senhora—o nosso Affonso não é mau filho, nem tem acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que elle tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou n'esta má vereda fui eu.
—Tu, Eulalia?! Como assim?—perguntou o desembargador interdicto.
—Eu, eu fui, quem primeiro lhe fallou em Theodora, e lhe preparou o coração para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Theodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ella fosse excellente esposa de meu filho, e digna de o ser do filho da mais illustre mãe. Eu enganei-me, e elle foi enganado por mim. Affonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco ha, lhe chamei fraco.
Affonso lançou-se em pranto desfeito, aos braços de D. Eulalia; e, após curtos instantes de offegante silencio, exclamou:
—Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um thesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é a sua vida!
—Graças vos dou, meu Creador e Redemptor!—clamou a senhora, muito commovida, com as mãos postas—Grande é o poder que daes ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericordia não mede os merecimentos pela afflicção com que as mães vos chamam!
E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infancia.
O magistrado e as filhas solemnisavam o espectaculo chorando e rindo de contentamento.
IX
Verei se posso repetir, sem inexactidão sensivel, o que Affonso de Teive me contou, com seguimento aos successos descriptos.
«Nenhum rapaz dos meus annos—dizia elle—exerceria tão dolorosa violencia sobre o seu espirito. Jurei commigo de nunca mais proferir o nome de Theodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido d'ella. Eu não sabia a que porta do inferno fôra bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade, que homem nenhum de annos experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de minha familia, atava com arames em brasa a mascara da minha agonia, contra a qual minha propria mãe involuntariamente dardejava insultos. Quando ella me dizia: «Estás esquecido d'aquella louca, meu filho! as minhas orações foram ouvidas no céo» ou quando meu tio, com alegres gargalhadas me applaudia, dizendo: «Sempre entendi que eras homem, meu rapaz!» então a minha angustia exacerbava-se, e eu, assim que as attenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mãos postas; e, muitas vezes, d'este inutil rogar á piedade divina, erguia-me para escrever a Theodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquellas!...
«Minha mãe deteve-se um mez em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer comsigo para a provincia; mas a obediencia não podia levar tão longe a abnegação. Recordar estes sitios, vêr além os horisontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar, fortuitamente, Theodora, ou alguem que me fallasse das felicidades d'ella, isto apertava-me tanto a alma, que eu sentia em mim um desfallecimento de coragem, uma quasi precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.
«Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapazes de todas as condições e feitios me arrancariam de mim proprio, e levariam em suas folias, ou me habituariam o espirito ás consoladoras occupações do estudo.
«Minha mãe accedeu promptamente á minha vontade.
«Fui para a universidade, muito escasso de preparatorios, e por isso me matriculei em philosophia. Logo aos primeiros dias conheci que fôra um erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moços-velhos, gente ridicula; mas d'uma ridiculez que não distrahe ninguem. Cada um parecia que trazia dous oraculos na cabeça: antes de expenderem os seus dogmas, punham-se á escuta da inspiração; e, ao abrirem a bocca, a propria Minerva das escadas latinas cuidavam elles que se apeava do sóco para escutal-os. Zanguei d'estas creaturas infestas, e fui-me inscrever na fila dos litteratos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravalhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da leitura, emfim, futuras esperanças da patria, que bem sabiam que uma diminuta sciencia, com muita ousadia, basta para attingir os pinaculos sociaes. Tinham estes rapazes um jornal. Publiquei sem assignatura uma das muitas poesias que eu tinha escripto nos arvoredos de Bellas, nos tempos em que a imagem lagrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá commigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da terra. A poesia tinha a religiosa suavidade d'um amor que se alliava aos santos enlevos do coração virgem. Os litteratos disseram que eu imitava Lamartine, e que mesmo o traduzia quasi litteralmente em algumas strophes. Ora, eu não tinha ainda lido Lamartine: fui lêl-o, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado commigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus collegas por se darem uns ares de tolice muito por ahi fóra dos limites rasoaveis. Passados tempos dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada, vertiginosa, escripta depois do meu desastre. Os meus collegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode, declarára que eu traduzira Victor Hugo. Fui lêr depois Victor Hugo, e lastimei que os soberanos do genio estivessem sujeitos ás chufas de todo o mundo, sem excepção dos litteratos meus contemporaneos da universidade.
«Enfadado d'uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os trossistas, iniciando-me para isso nas libações homericas da genebra e cognac do Troni. Á primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou-me minha mãe, e chorei. Não impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus socios de delirio diziam que eu, embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcastico, ironico, eloquente, e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra côr, e de haver idealisado formosas chimeras douradas por novas e esplendidas auroras d'outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acommettiam os terrores da noite infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, odio mesmo á luz que me amostrava os espectaculos da natureza, em que n'outro tempo a minha alma, toda oração, toda absorvida, se evolava em effluvios de admiração para o Altissimo.
«N'este perdimento de dignidade terminei o primeiro anno, com approvação plena, e resolvi passar as ferias em Lisboa.
—Com approvação plena!—atalhára eu Affonso de Teive.
«Por que não?—respondeu elle—As minhas noites eram quasi todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e disturbios. Se o torpor me não adormecia, a visão de Theodora sentava-se em frente da minha mesa, e dialogava commigo, ella no tom escarnicador da mulher ovante da sua deshonra, e eu no accento supplicante de quem já não tem que pedir senão piedade. A refugir d'este supplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, lia-os, e relia-os sem comprehendel-os; mas, esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar, e expôr com clareza, uma ou outra vez, as idéas dos compendios. Os meus creditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente n'uma lição.
«Pediu-me minha mãe que a visitasse em ferias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ella fosse ao Porto passar commigo a estação dos banhos de mar. Annuiu a santa senhora.
«Os meus dias corriam magoados, mas serenos em Lessa da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas mui distantes umas das outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pae me tinha desenhado sem encarecimento. Fôra a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois á verdadeira luz. Era bella, e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua innocencia. «Se eu podesse amal-a!» dizia eu a minha mãe, que se tornára para mim, n'aquelles dias menos opprimidos, uma segunda consciencia. E minha mãe, com a summa delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a fallar, que me fizesse lêr alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da Noite do Castello ou os Ciumes do Bardo. Comecei a lêr pelo livro; porém, á segunda pagina, dei de mão insensivelmente ao livro, e declamei de côr com tamanho enthusiasmo, e com a voz tão vibrante de lagrimas, que minha mãe rompeu em soluços, e minha prima empallideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto d'aqui, do alto dos meus tamancos, e através d'estes oculos de tres graus!
«Minha mãe impediu a continuação da leitura, e Mafalda nunca mais desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e muito menos attenciosa, minha prima, desde aquella explosão de ciumes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me tão de leve, que nem a vaidade me magoou.
«Estavamos em Setembro, e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sitios, onde as horas me tinham sido mais tranquillas, na soledade. Velejei n'um barquinho rio acima, e aproei á ribanceira, d'onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado conventinho de extinctos franciscanos. Á sombra d'um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrazado templo, meditei nos frades, no convento, no refugio dos desamparados do mundo, nas lapides profanadas que mãos impias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações, extinctos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilisação, que fechára os aditos da paz, quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexoravel; maldisse a illustração, que aluira a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angustia era ainda immensa, por que eu não podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho de melhor mundo.
«Descendo o rio, lá me ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava esperando. Detive-me a passear com ella pelo braço, e a referir-lhe as minhas idéas sobre os conventos. A virtuosa rejubilava-se ouvindo-me, e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor, e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestigios de meus religiosos avós, alguns dos quaes tinham morrido martyres da fé nas pelejas dos soldados de Christo contra os mahometanos. Ouvia eu aprazivelmente a chronica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na Africa e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do Porto, á sahida de Matosinhos, com direcção á ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavallo, ao lado d'um cavalleiro menos cuidadoso das arremettidas garbosas do seu.
«Minha mãe assestou a luneta, e murmurou:—Valha-me Nossa Senhora dos Remedios!... Se me não engano...
«Quem é?—atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavalleiros, no entanto, avisinharam-se a galope. Antes de conhecel-a, adivinhou-a o coração, que me repuxou á cabeça uma onda de sangue... Era Theodora, Theodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas chimeras do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de verem as fealdades d'esta vida... Não te espante o ardor d'esta linguagem. Eu fiz agora pé atraz vinte e quatro annos da minha vida, e senti-me reviver n'aquelle momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar fôlego, recordando minha mulher e meus filhinhos.
X
Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade com que principiára.
«Theodora reconheceu-me. A turbação do meu animo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de minha mãe, e senti-me comprimido nos braços d'ella. E a magia satanica do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz então a mão sobre o meu coração, e já lá encontrei a de minha mãe.
«Caminhamos para casa, e não trocamos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto de minha mãe, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que salvam são os da dôr immerecida, os apêllos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldiçoava, e pedia vingança.
«No dia seguinte, fui para Coimbra.
«Concentrei-me com a visão da ponte de Lessa. Não me deixou aquelle adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?—dizia eu—Se tenho de voltar á razão para encontral-a com a tenaz ardente da tortura?
«Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dôr que eu não sei se é commum de todas as organisações, dôr que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: «Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixão. D'aqui por diante ha-de rasgar-me o peito a desesperação dos reprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir-te perdão. Não me amaldiçôes tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perdôa, e Deus te dê o triumpho na bemaventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella virá salvar minha pobre alma d'este miseravel corpo.»
«Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia! Começava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha propria consciencia. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajal-a e adoral-a era então a despotica necessidade da minha cabeça allucinada.
«Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dôres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem excepção d'um só, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem á sua zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraças.
«Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os fragmentos d'outras, que eu destinára a Theodora. Abri as cartas, reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.
«Porque? porque não havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado d'ella, que maior victoria queria eu, senão a de fazer risivel o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta philosophia hedionda, com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade do meu caracter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexivel pundonor dos dezenove annos. Era uma feroz vingança que eu me infligia á conta do covarde quebranto em que me deixára a apparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.
«O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeçonhado de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.
«Escondi de minha mãe aquelle estado em quanto me não assalteou o remorso de a não chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma que me levára a destruir a minha vida por meios tão ignominosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vêr, a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade.
«Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruivães, os regatos crystallinos, orlados de verduras em que minha mãe me via creança, a colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava então estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: é que o envolucro já lhe não empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal, aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.
«Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e inhabitavel, aformoseou-m'o então o anhelo de viver. Até a côr do céo, d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Theodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essencia, captiva do amor d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo.
«Surprehendi minha mãe, sentada á sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberancia de saude, de alegria, e de uncção religiosa. Então me considerei estreado em nova existencia.
«Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos compendios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessaria a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ella. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idéas que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu designára passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A dôce creatura, accusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigára-se a expiar pela abnegação e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me reapparecesse a visão de Lessa.
«Que presentimento!
«Dias antes da minha destinada partida, fui ás Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro, quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alamêda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse n'um tom ironico:—Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados.
«Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu braço, e reconheceu-a tambem de instincto.
«Desviei-me do caminho trilhado para seguir ávante. Theodora deixou cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom arrogante:—Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua.
«Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no fremito da sêda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume, e afastou-se a passo rapido.
«Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?!
«Mafalda ia murmurando:—Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Lessa, e meu pae descreveu-m'a tão pelo miudo que a adivinhei. Não t'o disse, e pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...—Não receies, minha boa prima—disse eu a Mafalda—que esta mulher na minha vida, já agora, apenas póde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas Caldas—Minha prima replicou:—Não te illudas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita.
«Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia á caixa. Abri-a, e vi uma trança de cabellos, com tres flôres resequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flôres: tinha-lh'as eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus annos.
«Tirei a trança, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora; consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, ácerca da miseria do bruto que chora, e beija tranças de cabellos, do bruto que ri de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado homem. «Ia depôr as madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente, fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de noite, e palpitante de commoção sahi do meu quarto, e fui respirar no escuro d'uma varanda, onde presumia não encontrar alguem.
«Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente. Fui á extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com anciada violencia. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas mãos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava. Respondeu-me:—São as primeiras lagrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixa-te perder... Não ha ninguem que te possa salvar d'aquella mulher.—E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.
«Eu levantei olhos ao céo, e disse, em meu espirito, com terror quasi infantil:
—Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa misericordia não tem querido salvar-me!
«E cuidei que o céo, se abrira á minha oração com um milagre.
«A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta, vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa.
«Amei então minha prima; todas as estrellas do céo m'a estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno ao Senhor que me descaptivára das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo de sua audacia me fascinára, e com aquelles cabellos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.
«Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a á cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas só servem para exprimir os soffrimentos communs.
«Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a benção, e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez soffria, depois que eu a surprehendêra chorando provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisação de Mafalda.
«Fechado na minha alcôva, abri a carta de Theodora. Está n'este masso lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da authenticidade da historia... Aqui a tens. Lê tu, em quanto eu dou folga aos pulmões. Ha muito anno que não fallei tanto tempo!
Li a carta de Theodora, cujo traslado segue:
«Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso?
«Quando te dei eu direito de suppôr que o teu silencio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo?
«Quando eu te appareci magnifica de dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.
«Não podeste chegar com a fronte á altura da minha, e apedrejaste-m'a!
«Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava, e não sabes sequer usar a misericordia de dizer á mulher, que te ama, que não seja infame, amando-te?!»
N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração, e disse:
—Esta senhora tem estylo, ou eu não entendo nada de estylos! Que interrogatorio!
«Podes rir, que eu tambem cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive—disse o meu amigo.
—Mas o estylo—tornei eu sinceramente agradado da leitura—o estylo aqui não póde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hercules! Isto sim que é mulher... e «aqui ha que vêr» como diz o Garrett.