Ronquerolle não sabia que pensar.{54}
IV
O barão de Quérelles
Quando se davam os acontecimentos que acabamos de narrar, chegou o barão de Quérelles a Saint-Martin. Como dissemos já, era o unico inimigo da marqueza por causa do despreso a que ella votara a sua paixão.
Pequeno, bilioso, trajando com o maximo apuro, os cabellos cortados á escovinha, desenvolvia uma actividade febril quando algum projecto lhe enchia o cerebro. Agitava-se em todos os sentidos, luctava tenazmente até conseguir o seu fim e se o não conseguisse era por que ninguem o poderia conseguir.
Com trinta e cinco annos, rico, este «petit baron» tinha tido uma paixão louca pela marqueza «de la Tournelle» quando ainda era apenas M.elle Carlota Maximilana de Champeautey. Por uma singular lei dos contrastes, o seu maior, o seu mais insaciavel desejo era possuir uma grande e inteligente mulher por esposa.
A orgulhosa Carlota ria das suas pretenções.
—Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado barão teimava em conseguir o seu «desideratum», que hei de fazer d'esta creança? É tão baixo que se torna ridiculo.{55}
No emtanto, Domingos de Quérelles não era um imbecil. Era para elle um contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os homens não se mediam aos palmos.
Infelizmente para elle, M.elle de Champeautey não se via obrigada a debruçar-se para tomar o braço de seu marido e o elegante «Sergio de la Tournelle» não tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A repugnancia d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica personagem que era «Quérelles» contribuira immenso para o triumpho do marquez.
—Ah! dissera Domingos de Quérelles, M.elle de Champeautey quer desposar um pateta? Pois bem, que o faça, que d'isso se arrependerá.
O barão viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos. Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para Saint-Martin onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de «des Quérelles» tinham sido até então conservadoras se bem que com uma certa tendencia liberal. A côr de conservador era uma tradicção na sua casa de fidalgo, mas o seu espirito, moderno e liberal, não desdenhava em admittir as modernas theorias democraticas.
Não era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se fazia, reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer dos republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. Não se desprezava em comer á mesa dos{56} operarios quando para isso se offerecesse occasião e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral.
Se não perdoava á marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os seus sarcasmos o sr. «de la Tournelle», «maire» conselheiro geral e deputado.
—É um asno, dizia «des Quérelles», fallando do marquez; sim, é um estupido esse espigado marquez «de la Tournelle». Aposto vinte luizes em como não sabe distinguir a sua mão esquerda da direita e que a respeito de ortographia é um ignorante.
A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amôr proprio e sobre as irritações do «petit baron». Encontrava assim maneira de se vingar d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingança que tinha acalentado durante tantos annos.
—Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingança. Por mais «pequeno» que eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos que vão ser n'este momento o meu instrumento de vingança. Dal-os-hei ao novo deputado Ronquerolle. É um republicano exaltado... que me importa isso. É necessario a todo o transe que esse papalvo, esse marquez «de la Tournelle» perca a eleição... Ah! o patife, não me exterminou ainda! Ah! sr.ª marqueza, despresastes as minhas homenagens! Sereis vós quem d'esta vez virá implorar a paz e então entabolaremos as condicções.
Como todos os apaixonados, o barão «des Quérelles» não renunciara, ainda, á{57} sua ultima esperança em commover o coração da mulher que elle tão extraordinariamente amara.
Era seu inimigo, por amôr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda a esperança de que, apezar de se não ter podido desforrar, talvez podesse um dia fazer d'ella sua amante.
—Quem sabe, dizia, o que será aquella mulher, que sentimentos lhe dominam a alma, sobretudo depois da desillusão que deve ter sentido após o seu casamento com esse estupido marquez.
Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se sobre os elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro.
—Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha á mercê dos nossos desejos. Declaro guerra aos «de la Tournelle», colloco todas as minhas baterias em campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha treguas na lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; será finalmente o resumo de todas as minhas esperanças, de todos os meus desejos. Quanto aos candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o caso como entenderem. Se porém ainda assim a marqueza continuar a mostrar-se esquiva, será Ronquerolle o novo deputado por Saint-Martin.
Domingos de Quérelles adquiriu então uma rara actividade junto dos eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo n'uma pia d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os operarios, pagava-lhes de beber, comia com{58} elles, acabando sempre as suas conversas pela politica.
Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o barão advogava a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello. O conde d'Orgefin, presidente do «comité» conservador, era d'opinião que se devia tomar uma medida energica, e em plena reunião de todos os marechaes do partido reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no castello do marquez «de la Tournelle», a reunião dos oitenta a cem proprietarios influentes da circunscripção; coroaria a reunião um grande banquete.
—Que reles canalha que é este barão «des Quérelles!» dizia uma manhã o conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a população contra nós! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as tradições da sua familia! Ah! marquez, é preciso que não nos enganemos, se o barão fôr contra nós até ao fim da lucta, perderêmos votos, mesmo muitissimos votos.
—É uma vingança de biltre, respondeu o marquez. O barão «des Quérelles» é um poltrão. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a frente commigo, não dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis por que elle nos odeia a este ponto?
—Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tôlo, queria desposar a marqueza, e não vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do coração da marqueza, calcando assim os seus caprichos.{59} Tratemos, antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleição, lançamol-o á margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja.
Emquanto todo este alarme se produzia no castello perante o seu procedimento e emquanto o seu nome era injuriado, tratava o barão de gosar deliciosamente os golpes que desapiedadamente despedia sobre os seus adversarios.
Via-se atravessar de carruagem as ruas de Saint-Martin, guiando os seus cavallos, e cumprimentando significativa e affectuosamente os democratas mais avançados.
N'uma occasião em que na praça publica atravessava com a sua carruagem, encontrando por acaso o bravo Kolri, presidente do «comité» republicano, disse-lhe em voz alta de maneira a todos ouvirem:
—Sabei, pae Kolri, que sou dos vossos de todo o coração. Fazei-me o favor de dizer a esses senhores, M. Ronquerolle e aos seus amigos de Paris, que lhes desejo fallar. Alem d'isso tenciono ir á reunião publica na quinta-feira á tarde. Pouco me importa o que digam de mim. Logar aos homens intelligentes e nada de deputados sem valor!
O barão «des Quérelles» dispunha de tres a quatro mil votos. Era um influente nada para despresar n'um escrutinio onde só votavam dose mil eleitores.
—Tenho o castello nas minhas mãos! dizia o barão n'uma ceia, quando bebia cognac em companhia dos seus amigos.
No fundo da sua consciencia pensava:
—Serei o senhor da soberba Carlota que{60} sem duvida capitulará por ambição. Como ella me tem feito soffrer! Como me tem despresado!
Emquanto o marquez «de la Tournelle» e o conde d'Orgefin tratavam da sua reunião plena das fôrças conservadoras, emquanto o colerico barão «des Quérelles» meditava como Machiavel e punha a sua influencia politica ao serviço das suas paixões amorosas, os tres amigos de Ronquerolle, Branche, Didier e Maupertuis, não perdiam o seu tempo. Os rapazes, arrojados para as mulheres, como todos os jornalistas, produziam estragos terriveis nos corações das burguezinhas de Saint-Martin.
Ronquerolle e os seus amigos tinham sido convidados para uma pequena «soirée» em casa do mestre Desbroutin, notario republicano da cidade, que não temia defender as suas opiniões democratas e que alem d'isso, possuia uma bella fortuna. Desbroutin era ao mesmo tempo um bom «vivant» amando os prazeres da mesa e tendo sempre a sua despensa bellamente fornecida. Recordava muito as suas travessuras de rapaz no tempo em que vivera na capital. Havia muito tempo que isto accontecera, ha pouco mais ou menos vinte annos. Que praser sentiria, ao receber em sua casa os quatro parisienses com os quaes conversaria dos tempos passados e das suas loucas amantes.
Ás nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fiséram a sua entrada no salão de M.me Desbroutin, uma senhora loira, pequena e nutrida, muito amavel, muito{61} simples e muito mais nova que seu marido.
—Como, meus senhores, vindes sós? O sr. Ronquerolle não vem?
—Perdão, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo está preparando n'este momento um discurso politico mas estará aqui antes d'uma hora tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas.
Tinham já chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que não podiam por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os continuassem a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin.
As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por todos os lados a explicar que não tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a quem uma pequena occupação detinha em casa. Esperava-se só por elle para ser servido o chá. Quasi todos os homens se tinham retirado para o gabinete de trabalho do notario, que se seguia ao salão e onde fumando, se entretinham a fallar das eleições.
Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto das mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris e como ella era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem d'isso, Branche testemunhava uma sympathia particular a M.me Desbroutin, emquanto que Didier fazia evidentemente a côrte a M.me Beaumenard, a mulher do banqueiro Beaumenard. Esta{62} tinha um espirito romanesco. A sua maior felicidade consistia em lêr folhetins e ser heroina ideal das mais ternas aventuras.
—A vida sem paixão, dizia-lhe eloquentemente Didier, é semelhante a um deserto arido. É um pouco a minha, e nem vós calculaes, senhora, o quanto tenho soffrido pelo coração. Ah! Se não fôra a politica por onde faço carreira e que me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem mais infeliz da terra.
A graciosa M.me Beaumenard estava encantada com esta linguagem. Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas apaixonadas que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu lado, tinha levado a linda mulher do notario até ao precipicio encantador mas perigoso das confidencias amorosas.
Eram onze horas quando chegou o barão «des Quérelles». Desbroutin tinha-o convidado verbalmente e sem ceremonia. O barão promettera vir e viera com o fim d'excitar os espiritos contra o marquez «de la Tournelle». Pretendia ao mesmo tempo conhecer de perto e assegurar-se por si proprio se o joven deputado republicano era realmente o homem intelligente de que lhe tinham fallado. A presença do barão interrompeu por momentos a interessante conversação de Branche com M.me Desbroutin. Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem dos convidados e a curiosidade que se fizera em volta do barão, para apertar docemente a mão de M.me Beaumenard que lh'a retirou, é verdade, mas sem muito esforço.
Ronquerolle entrou finalmente no salão.{63} Apresentou as desculpas da sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin apresentou-o ao barão, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante. A pequena «soirée» fôra ainda além dos seus desejos e no dia seguinte todo o mundo o invejaria.
Ronquerolle escutava attentamente o barão «des Quérelles». No fundo desconfiava d'este homemzinho que tão calorosamente defendia a causa republicana.
—Que interesse poderá ter este barão, pensava, na actividade que desenvolve contra o representante da sua casta, contra o meu adversario? Evidentemente não trabalha por convicção. Ha pois, na sua conducta um mobil occulto. Qual será?
E Ronquerolle, com o seu olhar penetrante, mirou o barão dos pés até á cabeça.
Pelo seu lado o barão tratava de sondar o espirito de Ronquerolle; abordou successivamente todos os assumptos para ver até que ponto podia confiar n'elle.
Ronquerolle exprimia-se com a maxima clareza sobre todas as questões politicas, mas fóra d'isso conservava-se impenetravel. Bruscamente, «des Quérelles» interrogou d'esta maneira o joven candidato:
—Conheceis a marqueza «de la Tournelle?»
Ronquerolle empallideceu ao ouvir esta pergunta directa, e hesitou um instante antes de responder. Mas adquirindo de novo o seu sangue frio, respondeu com uma soberana indifferença.
—A marqueza «de la Tournelle!». Mas senhor barão, conheço-a como toda a gente,{64} e menos que V. Ex.ª certamente. Tenho eu tempo para me occupar de mulheres? Tenho muito que fazer, tratando dos meus eleitores e procurando bater o meu adversario.
O barão queria conhecer melhor Ronquerolle, para lhe contar toda a historia da sua paixão por M.elle de Champeautey. Não receava tomal-o para seu confidente e dizer-lhe o quanto desejava humilhar o altivo castello «de la Tournelle».
A pergunta do barão tinha feito tremêr um pouco intimamente Ronquerolle. Terá este tagarella alguma suspeita? Terá advinhado a minha paixão, a minha loucura pela loura e adoravel Carlota?
Terá surprehendido o mysterio da nossa entrevista? O que será, emfim?
Todos tinham saido satisfeitos da «soirée» de M. Desbroutin e, no dia seguinte ninguem falava d'outra cousa. Os mais pequenos incidentes foram discutidos e recontados dez vezes, commentados segundo a intelligencia e a malicia dos narradores. Recahia toda a consideração sobre o notario e algumas más linguas começaram a insinuar que a gentil M.me Desbroutin não era quem mais lastimava os resultados da reunião politica de seu marido.{65}
V
Os infortunios do marquez
A reunião publica estava annunciada e determinada para quinta-feira, mas á ultima hora o proprietario da sala onde tinha de se realisar essa reunião veiu avisar Ronquerolle de que confiava pouco na resistencia do soalho e que seria, a pesar seu, obrigado a faltar á sua promessa e ao preço estabelecido, porque um particular tinha pedido cincoenta francos pelo aluguer.
A sala do «Poule Blanche» era demasiado pequena e por esse motivo foram ter com Matteus Baliverne, proprietario do café do Commercio, que tinha, no primeiro andar, uma magnifica sala de baile podendo conter mil e quinhentas a duas mil pessoas.
Baliverne acolheu admiravelmente o presidente Kolri, Ronquerolle e os seus amigos na entrevista preliminar; Kolri deu-lhe dez francos de signal pelo aluguer da sala e beberam n'essa occasião em boa companhia um copo de cognac.
—Ao bom sucesso da vossa candidatura, disse Baliverne, tocando com o seu o copo de Ronquerolle.
Não obstante, Baliverne fugiu ao contracto depois de ter recebido os dez francos do signal.{66}
—Como! gritou-lhe Ronquerolle furioso, quereis convencer-nos de que a vossa sala não está segura e daes bailes n'ella! meu caro senhor Baliverne, tomaes-nos por uns imbecis! Quando as raparigas e os rapazes do logar veem bailar aos domingos em vossa casa mandai-los por acaso, descalçarem-se no vestibulo, afim de dançarem descalços para não prejudicar a solidez das vossas salas?! Basta de gracejos, senhor Baliverne! tendes o aspecto d'um bom rapaz e ha dias comemos juntos, por isso é preciso fallarmos com toda a franqueza. Vamos, dizei-nos qual a verdadeira razão que vos leva agora a recusar-nos a sala que já nos havieis promettido. Mas, por amôr de Deus, se Deus existe, deixae em paz o vosso soalho.
Matheus Baliverne estava embaraçado, de cabeça baixa, não sabia que responder a Ronquerolle, que o fitava attentamente, esperando resposta.
—Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a verdade? É o marquez, não é verdade, que vos ameaça se nos concederdes a sala? Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de «maire» da cidade, e, como necessitaes da sua auctorisação para conservardes o vosso baile aberto até ás 5 horas da manhã, o marquez fez-vos comprehender que d'ora avante vos recusará essa licença, no caso de eu vir fallar em vossa casa aos meus eleitores!
Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o escutava, respondeu a Ronquerolle:
—Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me,{67} eu sou um homem energico mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo obrigado a agradar a todo o mundo; não me trahireis não é assim? Confio em vós. Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire que me fez comprehender como o sr. disse, que não queria que a reunião se realisasse em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me recusasse licença para os meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o sustento, privava os rapazes de se divertirem.
Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confissão. Sorriu ironicamente, depois do que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de Baliverne e encerrou-se no seu quarto.
N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fôra convocada a reunião devia elle ter o «rendez-vous» combinado, com «M.me de la Tournelle», nos «Passeios» ás dez horas da noite.
Por uma estranha coincidencia, este «rendez-vous» apaixonado, a que julgava não poder assistir, tornava-se agora possivel.
Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lançára nos seus braços a bella, a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o como rival, temendo o poder das suas convicções, impedia-lhe que fallasse em publico e que conquistasse a popularidade que lhe dava a sua eloquencia. O infeliz! Impedindo Ronquerolle de n'essa noite subir á tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era elle mesmo o causador da sua infelicidade.{68}
—Dentro de tres dias, ás dez horas da noite! tinha segredado a marqueza n'essa inolvidavel noite dos «Passeios».
A reunião que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o «Reveil» que o detestavel «maire» de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo tempo que as lindas raparigas da cidade se divertissem com os seus namorados, mas que pouco importava a sua ridicula e idiota firmeza pois que breve teria de se recolher ao seu castello socegadamente a tratar da sua vida particular.
Visto que nada se oppunha á entrevista fixada pela marqueza «de la Tournelle», Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente a sua «toilette», perfumou o lenço, poz uma gravata nova da ultima moda, pegou no chapeu mais elegante, calçou as luvas mais lindas que possuia e as botas mais elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista.
Sentou-se, nos «Passeios», no mesmo banco onde a marqueza o encontrara, recordando as tempestades da sua juventude.
O dia estivera quente mas a brisa fresca começava a murmurar por entre o arvoredo.
Vinha caindo a noite, e ouvia-se ao longe o ruido harmonioso da fonte e o canto do rouxinol. Alguns cães uivavam nas herdades longinquas e uma indefinivel voluptuosidade saía dos campos, dos bosques, dos valles e descia dos céus.
—Comtanto que ella venha, dizia Ronquerolle. Oh! meu Deus! Comtanto que ella{69} venha! Mas, sem duvida, ella virá! Sinto que se aproxima! E poder-me-ha ella enganar? Mas, porque não está ella já junto de mim? Porque não tenho entre as minhas a sua mão mimosa, porque me encetou os meus juramentos, porque me deixou dizer-lhe que a adorava, que era o meu idolo?
O apaixonado mancebo poz-se a passear rapidamente, atormentado pela sua impaciencia em esperar. Quando ouviu soar as dez horas no relogio d'uma herdade, parou.
—Soou a hora que me indicou. Estará aqui dentro de poucos momentos? Porque não veiu já? Porque não ouço ainda o ruido do seu vestido de seda passando na areia da avenida?
E Ronquerolle, immovel, escutava, attentamente, no silencio da noite, mas não se ouvia som algum sob aquelle immenso arvoredo. Uma hora se passou, hora d'angustias profundas para Ronquerolle. Pensava que talvez não tivesse podido deixar o castello, e que tivessem surgido difficuldades imprevistas que a impedissem de cumprir a sua palavra. Resolveu esperar toda a noite. Nuvens pesadas pairavam no céu, occultando as estrellas. Não havia luar e a escuridão da noite tornava-se cada vez mais densa. Um vento forte succedera á brisa calma da tarde.
D'ouvido attento, os olhos pretendendo desvendar a escuridão, Ronquerolle espreitava os caminhos, os atalhos, os campos. Esperava-a impacientemente, queria vel-a, correr ao seu encontro. Cêrca da meia-noite, uma fórma occulta e mobil appareceu lá no fundo d'um caminho orlado de macieiras.{70}
Surgia como uma sombra na direcção dos «Passeios».
—Eil-a, gritou Ronquerolle. Sabia-o bem! Viria com certeza! É minha emfim!
O coração batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz d'uma sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle, murmurou docemente:
—Sois vós, minha querida?
—Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes?
Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto com um espesso veu e tremia de esperança e d'amôr. Sentiu-se tranquilisada com a presença d'aquelle a quem ia tornar seu amante, abandonando-se-lhe. Ronquerolle tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e deu-lhe o braço, ajudando-a a caminhar, arrastando-a quasi.
—Como podesteis vós vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle.
—Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vós imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se não me amaes verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado!
Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amôr e que só a morte o poderia destruir. «M.me de la Tournelle» descançou um pouco mais ao ver-se sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com attenção as suas palavras, os juramentos que lhe fazia.
Jamais ouvira tão apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fóra dos romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca{71} Ronquerolle, pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos tão ardentes, d'exclamações tão enthusiasticas, como nunca occasião tão favoravel se lhe offerecera.
Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento acalmara-se e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso.
Ronquerolle tinha, entre as suas mãos, as mãos delicadas da marqueza e contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o, admirava-o intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amôr. Tremia ao pensar na aventura em que se lançára e o seu seio arfava sob a emoção commovente do remorso e da felicidade.
—Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso, sem restricções, sem pensamentos reservados e é a primeira vez que o faço. A fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que não nos amemos. Ah! quem descobrirá os mysterios da ternura humana? Quem conhecerá a lei que preside ás preferencias do coração humano? Quem nos explicará como é que nos achamos aqui reunidos na calma d'esta noite linda, devorados pelo fogo da paixão, decididos a tudo vencer antes do que deixarmos de nos amar, de que nos separarmos?... Oh! como sois bella! E como vos amo!
E febrilmente o mancebo enlaçava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se{72} decidido a tudo immolar ao seu amôr para lhe provar que era digno da sua ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo.
—Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um dia me mandastes? Ha quatro annos já. Pois bem, conservo essas estrophes que talvez tenhais esquecido. Porque guardei eu tão fielmente essa vossa lembrança? Porque foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se me gravou na memoria? Porque não deixei de vos admirar nas vossas luctas e de vos amar?...
«M.me de la Tournelle» e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas altas espheras da paixão. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se comprehendiam, e que á delicadeza d'um correspondia maior delicadeza d'outro, que por mais alto que fosse o amante mais alto iria a mulher amada.
Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeições humanas se nortearam por considerações mesquinhas, por interesse, pelo dinheiro, pela vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso pouco tempo duram e se arrastam na banalidade da vida de todos os dias.
Mas quando, não obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro, dois entes se atraem,{73} se encontram e se amam, este amôr profundo, é tão puro e tão bello, que por si mesmo constitue a base da vida d'aquelles que o sentem, e que não esperam, senão a hora em que o tumulo o destruirá.
Era um amôr assim, um thesouro de divinas sensações que unia a marqueza e o republicano. E, como n'este ultimo residia a força do caracter, e intelligencia e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a existencia de «M.me de la Tournelle». Ella tendia mais para elle do que elle a amava a ella. É o privilegio do homem: a força fascina a graça. É a planta que se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre.
Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas, separa as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja d'outros, desapparecia aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se entretinha a approximar e a unir n'um beijo.
Não era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada «M.me de la Tournelle» que alli estava, n'este momento.
Não havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura adoravel, embriagada d'amôr, abandonando-se livremente nos braços d'um homem que para ella attingira o mais alto grau da força moral e da coragem.
O mesmo acontecia a Ronquerolle.
Esquecera as suas coleras e odios, abandonara as suas indignações, nada tinha,{74} n'este momento, do vingador dos soffrimentos populares. Todo entregue ao encanto d'aquella paixão, o seu coração trasbordava d'amôr, a sua juventude brilhava, não vendo em «M.me de la Tournelle» mais do que a formosa personalidade da belleza e da vida.
Nunca dois seres mais sinceros, mais dignos um do outro, mais desinteressados, mais enthusiastas, mais feitos para se comprehenderem e se adorarem se tinham unido debaixo do céu e jurado um amôr eterno!
—Amo-te até á loucura! dizia Ronquerolle á marqueza.
—E eu, respondia ella, amo-te até morrer!
Como tinham decidido os directores do «comité», um grande banquete se devia realizar no castello de Tournelle. Toda a nobreza da região tinha sido convidada para este banquete eleitoral que devia destruir a fortuna politica do sr. Ronquerolle, como diria o conde d'Orgefin. Foi convidado o senhor bispo de Dijon, bem como o vigario e quasi todos os curas de Saint-Martin. Não se tinham esquecido dos grandes industriaes da circunscripção, que dirigiam numerosos operarios e que convinha prender por qualquer delicadeza.
Quando chegou o dia fixado para o banquete, numerosas carruagens se viam chegar de todos os lados ao castello «de la Tournelle», conduzindo toda a nobreza.
Mancebos em «breaks» de caça, sorriam ás condessas, viscondessas, baronezas e ás{75} velhas donas de castellos que vinham cooperar na manifestação contra a Republica.
Outros convidados, que na vespera tinham chegado a Saint-Martin, transpunham a pé o portão do castello, e, ás onze horas e meia, o grande salão estava completamente cheio. Não se esperava mais que o sr. bispo de Dijon que tinha promettido vir e que, como se sabia, se encontrava justamente nas visinhanças do castello n'uma viagem pastoral.
Meio dia soou, quando o ruido d'uma ultima carruagem se fez ouvir. Os lacaios correram ao seu encontro. Era a carruagem de monsenhor. O bispo vinha acompanhado do seu primeiro vigario geral e do seu secretario particular. A carruagem parou em frente do perystilo do castello e, sorrindo, de bom humor, o prelado desceu, sendo acolhido entre duas alas de admiradores, de mulheres elegantes e de lindos rapazes, levando, quasi todos, nas suas gravatas em forma d'alfinete uma flôr de liz.
O marquez «de la Tournelle» adiantou-se para receber o principe da egreja, dando-lhe as boas vindas.
O bispo, galante como um abbade do seculo passado, perguntou pela saude da marqueza.
—Senhor, disse o marquez, é o unico contratempo que temos em tão bello dia. A marqueza está um pouco adoentada e não poderá assistir ao banquete de que tenho a honra de vos offerecer a presidencia.
O bispo continuou a sorrir, mas intimamente, no fundo do seu pensamento, perguntava o porquê e a causa d'esta ausencia{76} da dona da casa. As dignidades da egreja, padres, abbades, curas, vigarios, bispos, arcebispos e cardeaes, gostam de conhecer os segredos das familias. Nunca se deixam illudir pelas apparencias, pelos pretextos allegados; querem conhecer o fundo, a rasão, segundo a expressão popular, dos pequenos e dos grandes acontecimentos que se passam na intimidade dos lares, na choupana do pobre, como nos palacios dos ricos.
—«M.me de la Tournelle», disse o bispo de si para si, é uma mulher que vende saude. Que motivo mysterioso a tem presa nos seus aposentos, quando tudo a está convidando a apparecer?
Não obstante a sua perspicacia e o seu profundo conhecimento do coração o prelado estava longe de conhecer a verdade.
Acreditava em alguma discussão por amôr proprio entre marido e mulher, qualquer disputa interna, mas a supposição de que uma adultera estava em casa dos «de la Tournelle» não passára ainda pelo seu espirito.
«M.me de la Tournelle» recusára-se abertamente a comparecer ao banquete. Tinha havido uma scena entre ella e o marido, scena fria, sem violencia, sem longas explicações, mas mais do que significativa.
Fôra no proprio quarto da marqueza que se dera essa discussão. A bella Carlota fôra d'uma impiedade extrema. O marquez comprehendera que lhe era inutil insistir e que era prudente retirar-se em boa ordem.
A marqueza não cuidou mais da agitação politica do seu partido. O amôr vencera-a;{77} Jamais tinha pensado em que semelhantes tempestades se desencadeassem na sua alma. Quasi que se não conhecia. A paixão que sentia por Ronquerolle invadira-a completamente como uma onda subita, e tudo aquillo que até então constituira o seu ideal submergira-se, obliterara-se, aniquilara-se quasi.
Começava a amar a solidão dos seus aposentos. Estava impaciente, febril. Tentava entregar-se á leitura mas a sua attenção divagava. Tomava rapidamente um livro, passava-o pelos olhos depois do que o lançava para o lado sem o ter lido.
O amôr invadia esta adoravel mulher, como a febre ardente invade uma doente. Coisa extranha! Soffria e era feliz ao mesmo tempo! O que experimentava era uma «melange» de dôr e de alegria, de inquietação e de esperança, d'orgulho e de medo. Louca d'amôr, passeava febrilmente no seu quarto quasi que fallando em voz alta, aproximando-se de vez em quando da janella e contemplando os prados, a relva e, lá no fundo, a pequena cidade de Saint-Martin.
—Amigo, amigo! dizia ella, pensando em Ronquerolle, que haverá em ti para assim me esquecer do que sou? Já não pertenço a mim mesma desde a nossa entrevista... Oh sim!... foi depois que te vi que me considerei feliz... Tua! Tua para sempre!
E, levando os dedos aos seus finos labios, enviou, como uma creança, beijos ao joven republicano e ao mesmo tempo toda a sua alma.
O banquete realista! A lucta dos partidos{78} O triumpho d'uns e a perda d'outros! Que lhe importava isso? Nada d'isto a interessava no momento em que o imperioso delirio da paixão se apoderava d'ella e a torturava.
O famoso banquete terminara no meio d'alegria geral dos convidados. A principio decorrera frio. A ausencia da marqueza tinha impressionado toda a gente. O seu logar, logar d'honra, ficara por occupar.
A sua cadeira vasia lá estava e cada conviva lançava muitas vezes um olhar involuntario para esse lado, fazendo, intimamente, os commentarios mais maliciosos.
Presidia o bispo, tendo sentado «vis-á-vis» o conde d'Orgefin. Ao todo os convivas subiam a noventa e cinco. Os lacaios, de calção, com as armas dos «de la Tournelle» bordadas nas fardas, faziam um serviço irreprehensivel sob todos os pontos de vista.
Os pratos exquisitos, os vinhos finos aqueceram pouco a pouco os cerebros, destravaram-se as linguas e a animação augmentou. D'Orgefin observáva os convidados e tirava um bom presagio das suas felizes disposições. D'uma sobriedade notavel, o conde não bebia senão agua, conservando o seu sangue frio. Ao «toast» fez encher a sua taça de «champagne» para levantar um brinde ao triumpho dos principios monarchicos, fazendo um «speech» enfatuado d'odio ao governo republicano.
Esperava-se um pequeno discurso da parte do bispo, mas a este, passaro bisnau, não convinha comprometter-se muito com{79} o partido conservador. Intimamente, detestava extraordinariamente as novas ideias; via, com a morte na alma, os triumphos dos principios da Revolução, mas os membros da egreja são prudentes. O bispo gostava antes de estar do lado do cabo, como se diz em linguagem popular e quando o futuro estivesse mais conhecido, elle cuidaria do seu caminho.
Emquanto se festejava a causa realista no castello do marquez, os habitantes da pequena cidade de Saint-Martin estavam seriamente preocupados. Este banquete era um acontecimento que entretinha todas as conversações.
Em toda a parte se fallava d'elle; na pharmacia, na praça, na fonte, e em frente da «mairie» formavam-se grupos, dizendo cada um o que lhe appetecia.
Por uma necessidade natural de se encontrarem juntos os republicanos de Saint-Martin foram todos para os lados da «Poule Blanche». O presidente Kolri discursava a uma grande mesa cercado de Ronquerolle, Branche, Didier e Maupertuis. A maior parte dos individuos estavam de pé e, a cada instante se ouvia copos tocando o do candidato republicano.
Ronquerolle encorajava-os, fallava-lhes das lutas que encontram sempre n'um paiz a liberdade e a justiça que nascem, fazendo-lhes comprehender que, na maior parte do tempo, o luxo do rico é sustentado pelo trabalho do pobre.
O joven republicano estava d'uma pallidez excessiva. Devorado pela febre da ambição e do amôr, pensava nas suas aventuras{80} de ha dois dias com a marqueza «de la Tournelle», deixando-se levar pela sua paixão. Todos os seus sentidos se sentiam presos d'uma languidez indefinivel.
A sensação dos beijos da sua amante parecia não poder deixar o seu rosto, não podendo ao mesmo tempo esquecer a sua lembrança.
Ignorava que, por elle, se recusara a comparecer ao banquete realista. Não suppunha que recordações amorosas tinha gravado no coração da bella Carlota.
Parecia que era elle Ronquerolle, que a amava com uma intensidade mais violenta, emquanto que, na realidade era a marqueza que tinha pelo republicano uma amizade mais profunda.
—Oh! meu Deus! dizia Ronquerolle, pensando na sua amante, quando poderei voltar a vel-a? Oh! minha linda amiga, quando nos encontraremos alfim reunidos, sós, no silencio da natureza e fóra do ruido das cidades?
E recordava os seus grandes olhos, o seu sorriso, a graça das suas longas tranças, a sua mão tão fina, os seus seios incomparaveis, o perfume da sua «toilette».
Separando-se, após a sua entrevista nos «Passeios», Ronquerolle e a marqueza prometteram voltar a encontrar-se em Paris, depois da eleição de 15 de julho.
—Voltarmos a encontrar-nos aqui, no campo, é impossivel, disse a marqueza. Perder-nos-iamos os dois inutilmente. Eu seria envilecida, expulsa, vilipendiada como uma mulher publica. Tu, meu querido, tornar-te-ias suspeito a todos os que defendes{81} e pezar-te-ia sempre o teres-me comprometido. Sejamos prudentes. Partirei para Paris alguns dias antes de ti. Virás então juntar-te a mim e lá construiremos um ninho para o nosso amôr.
Ronquerolle recordava este plano delineado pela sua amante e consultava as datas.
—Ainda oito dias! dizia elle. Encontral-a-hei em Paris, n'esse immenso Paris, quando partir.
Já elle calculava que partiria no dia seguinte ao da eleição quer vencesse ou não o marquez.
O amôr e a ambição confundiam-se no seu espirito e no seu coração. No coração da marqueza só o amôr vivia. Ella amava-o e n'estas palavras se reunia tudo para si. Ronquerolle pagava em amôr, amando-a tambem, mas, dotado de faculdades poderosas, tinha antes d'isso, um fim a cumprir, e com esse fim esperava elle construir o pedestal do seu amôr.
VI
Momentos decisivos
O partido conservador, um momento enfraquecido, voltara de novo a cobrar confiança e serenidade.
O banquette do castello de «la Tournelle»{82} produzira um grande alarido. Relatorios, habilmente redigidos pelo conde d'Orgefin appareceram em differentes jornaes e foram enviados a todos os eleitores.
A presença do bispo era commentada de muitas maneiras e fizera-se correr o boato de que Ronquerolle se encontrava extremamente desanimado a ponto de se dizer que renunciaria á sua candidatura.
Ronquerolle, porém, não perdia o seu sangue frio. Sem descançar percorria a circumscripção, reunindo os eleitores nas salas da estalagem onde repousava. O seu «comité» trabalhava na expedição das profissões de fé, boletins para votos e nos cartazes. Branche, Didier e Maupertuis redigiam os numeros do «Reveil» que saía agora tres vezes por semana.
Um facto que preocupava extraordinariamente o publico era o silencio subito do barão «de Quérelles». No principio da campanha eleitoral, viram-no lançar-se abertamente na lucta e tomar o partido, senão, por Ronquerolle, ao menos contra o marquez «de la Tournelle»; passados, porém, quinze dias o barão emudeceu e tornou-se quasi invisivel. Áquelles que se lhe approximavam e que o interrogavam respondia que era necessario esperar para a ultima hora para poder inclinar-se definitivamente para um dos partidos.
Uma colera estranha se apoderara do barão. Sentia-se indisposto com todo o mundo; contra o marquez, contra a marqueza, contra Ronquerolle e até contra si proprio. As suas manobras não tinham dado resultado algum e conhecia que afinal era{83} mais do que o tolo da farça. O seu zelo na lucta afrouxava por isso, não saindo, quasi, do seu castello.
Alguns dias antes do dia 15 de julho, data fixada para as eleições, o barão levantou-se uma manhã com mais mau humor do que o do costume. Maltratava os criados, dava ordens que annulava d'ahi a momentos, passeando com impaciencia e anciedade n'uma galeria, contigua aos seus aposentos, e que dava sobre o jardim.
Quando um dia estava assim preso da irresolução e do desgosto de vêr que a bella Carlota se lhe escapava uma vez ainda, vieram annunciar-lhe que uma deputação d'eleitores o procurava para lhe fallar.
Feliz por ter essa nova distração no meio dos seus desgostos internos, desceu para fallar aos que o procuravam. Na sala encontravam-se assentados uns quinze homens.
Viam-se muitos «maires» influentes dos arredores da cidade e lavradores de blusa que esperavam de chapeu na mão.
—Vejamos, senhor barão, disse o mais velho dos eleitores presentes, por quem devemos votar nas proximas eleições? Vimos pedir-vos este conselho. Faremos o que o senhor barão nos ordenar.
Estas palavras envaideceram o amôr proprio do barão «des Quérelles». Sabia bem que a delegação que se encontrava na sua frente representava bem umas vinte communas importantes.
—Ah! scelerado marquez, pensava elle, depende de mim a tua sorte e vós, senhor repuplicano, tendes a vossa eleição na minha mão.{84}
Após este discurso mental, o barão voltou a ter o bom humor antigo.
—Meus senhores, disse, dirigindo-se aos eleitores, estou immensamente envaidecido com a vossa resolução. Dar-vos-hei, sinceramente o meu conselho. Mas a questão merece um exame muito cuidadoso. Convido-vos para almoçardes commigo e antes que nos separemos, tomarei as minhas resoluções energicas.
Na realidade, o barão não sabia que responder aos eleitores que o vinham consultar. Como todos que se veem embaraçados pediu tempo para reflectir. Se por um lado, odiava de morte o marquez por que fôra o rival que «m.elle de Champeautey» lhe preferira, por outro lado custava-lhe favorecer a eleição de Ronquerolle.
Não comprehendia bem porque este homem lhe inspirava tal anthipatia mas o certo era que o aborrecia.
Adivinhava que este senhor Ronquerolle havia de ser mais tarde um obstaculo aos seus desejos, porque o arrebatado barão não renunciara á esperança de possuir mais tarde ou mais cedo o coração da bella Carlota.
Durante os preparativos do almoço, os homens da delegação foram passear para o parque do barão, que por sua vez se retirou para o seu gabinete de trabalho, preso d'uma perplexidade inquietadora.
—Meu Deus! que hei de aconselhar a estes homens? Se lhes digo que votem por esse tolo do marquez «de la Tournelle» saberá a marqueza reconhecer que é a mim que deve o não ver o seu orgulho e o seu{85} nome humilhados? Se os aconselho a deitarem a sua lista pelo Ronquerolle quem me assegura que a sua eleição não vem pôr uma barreira invencivel entre mim e a minha paixão?
Torturado pela duvida o infeliz barão não sabia para que lado se havia de voltar, quando o creado lhe entregou o ultimo numero do «Echo da Borgonha», o jornal monarchico que pertencia ao marquez. Abriu, e de vermelho que estava, tornou-se pallido como cêra. Na primeira pagina do jornal destacava-se em normando um suelto ironico que lhe dizia respeito. O auctor do pequenino artigo troçava do barão pela sua pequena estatura e fazia insinuar que a pequenez da sua intelligencia estava na proporção da do seu corpo.
Era ferir a corôa sensivel. Este artigo afiado como a lamina d'um punhal, pôz fim ás suas hesitações e decidiu da eleição do circulo de Saint-Martin.
Ah! é isso? Pois bem! disse o barão. Senhor «de la Tournelle», meu amigo, ficarás fóra da lucta, serás vencido, assim o espero. Feliz Ronquerolle, um bom genio te protege!
O barão «des Quérelles» desconhecia por completo a grande verdade que dissera. Sim, um bom genio protegia Ronquerolle. Sim, a felicidade vinha para elle. Que artigo perfido! Quem o redigira? Quem sacrificára assim a vaidade d'um barão? Quem tanta sorte dera a Maximo?
Quem? A propria marqueza «de la Tournelle». Louca pelo seu amante, capaz de fazer por elle todos os sacrificios, não pensando{86} senão na sua fortuna e na sua gloria começou a por ao seu serviço toda a artilharia dos seus ardis femeninos.
«Des Quérelles» estava alegre, como um homem que acaba de tomar uma resolução. O seu caracter colerico encontrou em que se empregar, durante o almoço que offerecêra aos eleitores inflúentes que tinham vindo consultal-o.
—Bebam, meus amigos! dizia aos seus hospedes. Viva Deus! Vamos, finalmente, ver-nos livres d'esse magrizela do marquez. Está entendido, não é assim, no proximo domingo votaremos como um só homem no bello Ronquerolle. Eis um que têm sorte.
Os convivas, bravos lavradores e vinhateiros, bebiam vinho puro, comendo constantemente e rindo á vontade ao ouvir os gracejos do seu amphitrião. A conversação foi declinando a pouco e pouco da politica para os boatos que corriam na cidade e na região. Fallou-se da marqueza, de «M.me de Beaumenard», a mulher do banqueiro; de «M.me Desbroutin», a mulher do notario.
—Parece que esses senhores, dizia o barão, não teem muito que se queixar do periodo eleitoral. Vamos, tanto melhor! Os tres parisienses não vem para aqui só para trabalhar, os galhofeiros; levam-nos, porém, o melhor. O que está nas boas graças da gentil «M.me de Beaumenard» é um finório. Ah! que linda coisa é a mocidade!
O almoço terminou alegremente, como havia começado. Tomou-se café no jardim, onde pouco depois se bebia tambem cerveja. Eram apenas tres horas da tarde. O{87} barão fez a ultima recommendação aos seus hospedes:
O «mot d'ordre» é que o marquez tem de ser vencido. Ide, meus amigos, e levae por toda a parte a boa nova!
Estas palavras deviam dar a Ronquerolle tres mil e setecentos votos. A intelligente marqueza tinha calculado bem, redigindo ella mesma o artigo contra o barão, para excitar a sua colera e para o fazer sair da sua reserva.
Ficou louca d'alegria e louca d'amôr quando soube da resolução de «des Quérelles». Era o bom exito da lucta de Maximo assegurado.
—Ó meu querido amante, dizia ella, sou eu que te abro o caminho da fortuna e da gloria. Serás tu fiel, ao menos?
O caracteristico do verdadeiro amôr foi sempre o sacrificio pela pessoa amada. Sacrifica-se tudo por ella, por ella se affrontam os perigos e a morte, por ella se commettem prodigios, por ella se perde o apetite e o somno e se é feliz com este tormento, com esta dôr, com este mal implacavel que invade todo o nosso ser.
A soberba Carlota estava no paroxismo da paixão. Calma na apparencia sentia-se devorada pelo frenesi do amôr. Passeando no seu jardim, sentia-se tão dominada pela imagem e recordação do seu amante que a custo caminhava. Uma languidez indizivel a fatigava. Podia-se tomar por uma d'essas deusas antigas que atravessavam os bosques sagrados da Grecia e que desappareciam n'uma nuvem azul. Jámais visão tão bella podia inspirar um poeta. Jámais{88} a incarnação da vida se tinha manifestado n'uma mais nobre creatura!
Ronquerolle sentia-se falto de energia.
No ultimo sabbado, vespera da eleição, esteve dominado por um febre ardente. A inquietação devorava-o. Sairia vencedor do escrutinio? Iria de novo passar á obscuridade? Além d'isto o amôr de «M.me de la Tournelle», como uma ferida incuravel, invadia-o, torturava-o, dominava-o. Elle, um homem forte, o cidadão inflexivel, sentia-se vencido por essa mulher, por essa sereia de cabellos loiros.
—O destino! Ella sacrifica-se por mim emquanto que eu, egoista, onde está o meu sacrificio?
Uma agitação extraordinaria o reteve durante as horas em que se procedeu á abertura do escrutinio.
Os partidarios do marquez percorriam a cidade e os arrabaldes, fazendo promessas a uns, ameaçando outros, espalhando profusamente por toda a parte as listas.
Por seu lado os partidarios de Ronquerole não ficaram inertes.
Durante toda a noite de sabbado para domingo desenvolveram uma energia sem igual a fim de levarem os operarios a votarem no candidato republicano. Luctavam com a intrepidez da ultima hora, com a coragem suprema que tem o soldado quando está prestes a derrotar o inimigo.
Quando, no domingo de manhã, o escrutinio se abriu, os dois partidos estavam perfeitamente calmos. O momento decisivo approximava-se. Viam-se grupos formados na praça publica e que depois se dirigiam{89} a votar á mairie. Misturavam-se os amigos e inimigos politicos; uns chasqueavam o marquez de «la Tournelle», outros riam-se de Ronquerolle.
Este ultimo abatido pela fadiga e atormentado pelo desassoçego não abandonou o leito n'este domingo fatal que ia dicidir a sua sorte. Victima da ambição, debalde tentava adormecer. Elle proprio tinha censurado o seu procedimento e só o seu amigo fiel, Branche, estava junto d'elle absorvido pela mesma incerteza pelas luctas do futuro.
O escrutinio fechou-se ás seis horas, começando immediatamente o apuramento de votos. A sala da «mairie» estava completamente cheia. Os eleitores presentes escutavam silenciosamente a contagem dos votos.
Alternadamente escutavam-se os nomes dos dois candidatos.
—Sr. de la Tournelle!
—Sr. Ronquerolle!
Cêrca das nove horas os murmurios d'alegria ouviam-se já entre os operarios. Vencia o cidadão Ronquerolle, segundo todas as probabilidades. Tinha a maioria de 1500 votos só na cidade de Saint-Martin. O ruido d'esta vitoria estalou como uma bomba de dynamite.
Uma multidão compacta que esperava as noticias em frente á casa da camara, gritou instinctivamente: Viva a Republica!
Este grito resoou pelo silencio da noite como o ronco d'um trovão. O seu ruido fez-se ouvir no castello feudal do marquez de «la Tournelle» e gelou de terror os realistas que se encontravam reunidos no salão.{90}
—A canalha triumpha disse friamente o conde d'Orgefin. Escute estes gritos marquez! Tenho receio de que tenhamos sido batidos!
De minuto em minuto chegavam estafetas das communas, succedendo-se sem interrupção os telegrammas. Por toda a parte o candidato republicano saía vitorioso.
Cêrca da meia noite a victoria definitiva de Ronquerolle foi proclamada. Vencera pela maioria de quatro mil seiscentos e vinte sete votos. Foi um delirio entre os republicanos.
O «Poule Blanche» illuminou-se, organisando-se grupos que cantavam pelas ruas hymnos patrioticos. Ronquerolle não podia acreditar no seu triumpho. Tinha os olhos cheios de lagrimas continuando a ser devorado pela febre.
Foi preciso que se mostrasse á multidão, da janella, entre bandeiras tricolores e illuminações. Estava pallido como a morte. Quando se fez silencio pronunciou um d'aquelles discursos que inflamam as imaginações e fazem transbordar os corações d'enthusiasmo.
Durante quasi uma hora, o intrepido mancebo fallou á multidão da maneira a mais patriotica. A sua fadiga desappareceu deante d'esses homens rudes e valentes que o applaudiam freneticamente. Quando de novo recolheu ao seu quarto, quando já tinham terminado todas as manifestações, Ronquerolle encontrou-se fresco e bem disposto, tendo-lhe desaparecido a febre; tinha passado a hora d'angustia.
Subia, finalmente, a essa tribuna que tanto{91} ambicionava. Os obstaculos que lhe impediam o caminho desappareceram como uma nuvem ligeira. O caminho do futuro, apparecia claramente agora aos seus olhos. Estava satisfeita a sua ambição.
—Restava-lhe ainda a amante. Ronquerolle passava a maior parte da noite a escrever-lhe.
Toda a poesia da sua natureza inquieta e apaixonada se desenvolveu livremente e as palavras mais ternas sairam da pena.
—«Mulher adorada, escrevia Ronquerolle, devo-te a primeira gloria da minha carreira! Sê bemdita, porque me ajudaste, porque foste immensamente corajosa para sacrificares por mim os prejuizos da tua raça; porque, afinal, tu sacrificaste-te... Que farei eu para recompensar o teu amôr que tão alto vae? Ah! no inicio da minha carreira, pobre, obscuro ainda, não tenho senão a minha mocidade para te dar, a ti minha encantadora e bella amiga, incomparavel Carlota, a ti, cuja graça me encanta, a ti cujos olhos azues me fazem louco, a ti cujo ser me enebria!...
«Que dias felizes eu antevejo! Que ideal visão me persegue! Que nobre destino eu entrevejo para ti e para mim, cara e mysteriosa amante!
«Ninguem saberá que nos amamos, ninguem advinhará o segredo da nossa amizade; amar-nos-hemos, adorar-nos-hemos por nossos proprios merecimentos e não para obedecer ás convenções sociaes, não para nos conformarmos com interesses pueris.
«... Para ti toda a minha alma, para ti{92} o melhor do meu pensamento, para ti a minha vida»!
Ronquerolle não podia de maneira alguma terminar a carta. O seu coração transbordava de ternura, quizera encerrar n'esse papel toda a sua existencia: o passado, o presente e o futuro.
Antes de a fechar releu-a; lagrimas ardentes lhe marejaram os olhos, a ponto de a si mesmo perguntar se não estaria preso d'uma allucinação.
E lacrou a carta sentindo-se moralmente fatigado.