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Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento cover

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento

Chapter 27: CONCLUSÃO.
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About This Book

This work consists of a collection of narratives that delve into themes of gratitude and remorse, exploring the complexities of human emotions and relationships. The author reflects on societal norms and the impact of literature on personal identity and morality, critiquing the romantic ideals that often mislead individuals. Through a blend of philosophical musings and social commentary, the text examines the consequences of misguided passions and the superficiality of certain romantic expressions. It also highlights the tension between ignorance and knowledge, suggesting that a simpler, more traditional way of life may offer a deeper understanding of love and virtue.

XXII.

José Francisco Andraens venceu a morte, que lhe entrára no buxo, disfarçada nos dez pombos, que elle ceiou, em casa do visconde dos Lagares.

Das recahidas é que ia sendo impossivel salvar-se. Quando a medicina lhe empunha um caldo simples com meia onça de pão esfarelado, José Francisco desfazia meia gallinha na tigela. A inflammação gastrica reaccendia-se-lhe nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe os succos das tres barrigas até descorçoar rebatida pela brutal compleição. A final nem a medicina pôde acabal-o!

Ergueu-se José Francisco algum tanto abatido, um pouco pallido, quebrado de vista, e mal seguro das suas pernas zambras. Deu um passeio de carroção até á Foz, e almoçou com appetite. Voltou no dia seguinte, e almoçou duas vezes. Cubiçou pescada, por que a viu sahir das redes, e mandou cozer uma com cebolas e batatas. Depois de jantar, dormiu um somno de justo, com a barriga repleta, (cousa que não succede muitas vezes aos justos)—e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis de Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu, empinado sobre um penedo sobranceiro ao mar.

Tomada a refeição, José Francisco limpou o suor da papeira, e lambeu os beiços pulverisados do assucar dos pasteis. Depois descobriu a cabeça á bafagem fria do oceano, cruzou os braços em postura de quem medita, e pensou assim:

—Como isto é tamanho! Como se faria o mar? Por que será que o mar cresce e minga? Quantas pescadas haverá no mar? A gente sempre a comer peixe, e nunca se acaba!

Entrava José Francisco na solução d'estes problemas, quando a linha do seu horisonte foi cortada por um barco a vapor. Topetaram então com o sublime do engenho humano as suas meditações:

—E o vapor!?—dizia elle—Sempre os homens tem idéas! Pelos modos o que faz girar as rodas é o fumo do carvão! Uma cousa assim! E como a gente come boa carne a bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em que eu viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que qualquer cousa me trabalha cá no interior!...

Estas considerações entristeceram José Francisco, e o espectaculo do oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu do seu throno de caranguejos e algas, e foi dar alguns passeios na lingueta de pedra, onde então passeavam muitas familias.

Entre estas estava Francisca da Cunha conversando com Antonio José Guimarães, o linheiro; e Silvina de Mello procurando conchinhas na praia.

O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou a attenção da prima.

José Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a cabeça.

É preciso explicar o que o leitor já devia saber, se esta historia fosse contada com mais arte.

Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu estado, e teve quem lhe assegurasse que o illustre enfermo succumbiria ao typho, resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, disse-lhe alguem que José Francisco fizera testamento, sendo uma das verbas testadas aos seus parentes de Cozelhas a quantia de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, de que lhe era devedor Pedro de Mello, declarando a quinta hypothecada ao pagamento da quantia, e juros da lei.

Silvina não mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que viera ao Porto para apressar o casamento, tão indignado ficou da avareza do moribundo, que deu louvores a Deus de matar a tempo o villão, para que sua filha se não conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do sargento-mór d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, ao mesmo tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas ruas do Porto, exhibindo um rosto de amargura e uma gravata verde-gaio com alfinete de cabeça d'ouro rendilhada, Pedro de Mello disse á filha que seria prudente não dar de mão ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha soffrido um insulto apopletico, e não poderia viver longo tempo.

Silvina, anjo de submissão, accedeu á vontade paternal, e trocou algumas palavras com Christovão Pacheco, quando ambos immergiam no mar, e recebiam a unção conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em que pegou o desamuarem-se:

O morgado, ao aproximar-se a onda, dava urros, e mettia-lhe a cabeça com furioso impeto, perneando fóra d'agua. Como Silvina estivesse perto d'elle, viu que o sapato d'ourêlo n'um d'esses pinotes de arlequim maritimo, lhe saltára de um dos... dous pés—digamos dous pés por deferencia á historia natural.—E, quando o sapato, entumecido de agua, ia ao fundo, Silvina disse á banheira que apanhasse o sapato do cavalheiro. A tempo foi isto que o morgado o andava procurando á tona d'agua; e, como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mão da banheira, que lh'o atirava a elle, Christovão, bem assombrado, disse a Silvina:

—Obrigado á sua attenção, minha senhora!

—Não tem de quê—respondeu Silvina, sorrindo.—Porque não toma o senhor o seu banho mais quieto?

—Gosto d'isto assim;—respondeu o morgado.

—Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar cambalhotas na agua.

—Nada, não é, minha senhora; é que eu gosto de brincar com o mar; com o amor é que eu já não brinco.

—Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado seriamente; e o senhor zomba com as victimas d'elle...

—Eu é que zombo, minha senhora!... Não perca esta onda, que é boa.

O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de natação, deixando-se ir de costas no dorso da vaga, que o levou á praia.

Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se, e esperou, disfarçadamente, a sua mulher fatal. Sahiu Silvina da barraca, e deu de rosto com Christovão Pacheco. Sorriu-se, e respondeu á cortezia do fidalgo de Freixieiro. Deu alguns passos, procurando Francisca da Cunha; e, como a visse entre duas barracas protectoras conversando com o linheiro, sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado sentia caimbras nas pernas e saltos do coração. Girava em roda d'ella, puxado por magnetismo irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que fazia ás vagas: metteu a cabeça, e foi.

Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto de hora. D'esta conversação resultou ficarem convencionados para tomarem o banho juntos no dia seguinte, e assim nos oito dias que decorreram.

José Francisco Andraens convalescia da ultima recahida, quando teve noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do visconde dos Lagares, e deu procuração para ser demandado Pedro de Mello por um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes acontecimentos coincidiu a ida do commendador á Foz, e o seu encontro com Silvina em Carreiros. Agora está dada a razão de ter perdido José Francisco o tino, quando a viu á cata de conchinhas.

—Ó prima Silvina—disse Francisca—olha que está aqui o senhor commendador Andraens.

—Bem se lhe dá ella que eu esteja aqui ou em casa do diabo—disse com ira e amargura José Francisco.

Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom severo:

—Folgo muito em vêr restabelecido o credor de meu pai. Ser-me-ia dolorosa a sua morte, por muitas razões, sendo a primeira o receio de vêr meu pai soffrer alguma penhora a requerimento dos herdeiros do senhor commendador.

José Francisco respondeu com promptidão sem mudar de côr:

—Quem deve, paga. É como é. A senhora esperava ser minha herdeira?

—Não, senhor; esperava merecer-lhe a consideração de mulher que estivera para ser sua esposa. Esperava que o senhor não andasse jogando entre mim e meu pai com um punhado de ouro, que não vale para mim este punhado de conchas. Esperava, finalmente, que o snr. José Francisco Andraens não viesse por si mesmo certificar a conta, em que é tido, de possuir uma riqueza que é o seu flagello, e o das pessoas a quem empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se viu em perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha desembaraçado de todos os obstaculos para ser sua mulher, e testou a insignificante divida de meu pai, para morrer sem deixar saudades a alguem n'este mundo. Desde que v. s.ª praticou semelhante baixeza em que conceito queria que o eu tivesse?

José Francisco tartamudeou esta resposta:

—Eu não estava escorreito do miolo quando fiz o testamento. Lá foi o meu amigo visconde que arranjou tudo, e eu assignei sem dar tino de mim. Se offendi o senhor seu pai, queira perdoar.

Não ha que vêr: Silvina era a mulher fatal de tres corações, que por ella andavam perdidos. Andraens, como a visse e ouvisse, perdia a consciencia da sua dignidade, e—o que mais é para assombro—a consciencia de credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a natural grosseria, mais escravo se humildava José Francisco. Fulminava-o a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um encanto, que faria lembrar o da magica da Colchida, se elle não fosse pôrco, antes de ouvil-a. Pasmava elle do feminil predominio d'aquella mimosa mulher que o sopesava; mas este espanto era submisso, e a submissão amor, que os romancistas chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.

Antonio José Guimarães, avesso á reconciliação de Silvina com o morgado, e desejoso de a vêr ligada ao seu amigo Andraens, esforçou-se em desamual-os, dando explicações a favor d'um e d'outro, de modo que ambos já as escutavam silenciosos. José Francisco acompanhou Silvina e Francisca, promettendo vir jantar com ellas no dia seguinte, e authorisou o linheiro a dizer de sua parte á menina que por causa d'elle não se havia de desarranjar o que estava tratado. Mandou immediatamente sustar a começada execução sobre Pedro de Mello; presenteou com alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a Pedro de Mello as satisfações que o pundonor do fidalgo exigia, e deixou ao arbitrio d'este as condições da escriptura nupcial.

E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas nas ondas.

XXIII.

Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, á Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, até áquelle dia, por saber que a ventoinha de Margaride lá estava, desafiando, com as suas evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola e a indignação das pessoas sérias. O jornalista, porém; que era oraculo em casa do negociante Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a não impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que Silvina se exhibia.

Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o «caneiro» onde os grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima, conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra eminencia do fragoêdo, abarcava as pernas com os braços, e apoiava o queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um cão da Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da praia, envolto no seu cobrijão escarlate, franjado de borlas verdes, e cahido a um lado com a natural graça, que usam dar-lhe os provincianos, vesados áquella elegancia de feiras.

Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires:

—Lá está ella... Não passemos d'aqui.

—E que quer dizer não passarmos d'aqui?—acudiu o da Maya, accendendo o charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro—Queres tu, amigo Jorge, fingir o que não és? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella mulher?!

—Julgue-me ella como quizer...—replicou elle—concedo que seja tolice isto, mas... é cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina. O amor e o remorso são espinhos, que não desencrava do coração quem quer. Para que te hei-de eu mentir, se me não posso enganar a mim? Não a esqueço, nem se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle, que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e não pude, meu amigo! Como queres tu que eu possa dissimular á penetração de Silvina o que por ella sinto?! Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres: eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.

Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o morgado de Santa Eufemia.

—Então quem namora agora a menina?—disse o da Maya—O meu amigo de certo não, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem não, que está acolá conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vôo das gaivotas, como Catão d'Utica.

—Que é?!—disse Christovão, receioso de que o nome do romano fosse algum chasco á sua ignorancia.

—Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; não conhece este personagem?

—Nada, não conheço—replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha.

—Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá vem—retorquiu o da Maya.

Christovão olhou na direcção indicada, e viu José Francisco Andraens, que descia lentamente a calçada que conduz á praia. Não teve mão da sua raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz:

—Lá vem o nosso homem!

E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com as pernas apertadas entre os braços.

Silvina virou-se de lado com repellão, e Leonardo Pires exclamou:

—Estão bonitos! isto sim, que daria idéas a um Gavarni cançado! Ó humanidade tu és a caricatura dos monstros que a imaginação cria nos seus delirios de cognac e absyntho!

Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que por alli se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao mesmo tempo que José Francisco se aproximava de Silvina.

—Ora viva!—disse o commendador á fidalga de Margaride—Como passou?

—Excellentemente, e o snr. Andraens?

—Está feito; não me dei muito bem com a ceia. Appeteceu-me uma lagosta, e trabalhou-me cá dentro toda a noite. Agora, estou mais desempachado, e acho que vamos ao banho.

—Quando quizer.

—Sempre me sento um bocado a arrefecer—tornou José Francisco, apalpando as pedras, e ajustando, o melhor que pôde, com as asperezas d'ellas as roscas de carne cuja flexibilidade se moldava ao anfractuoso da rocha. Depois, bramiu um urro de satisfação, e cruzou as mãos sobre a barriga n.º 2.

—Com que sim—continuou elle—Em que estava a senhora a malucar?

—A malucar?!—disse Silvina, franzindo a testa.

—Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do mar...

—Ah! sim... estava...

—A fallar a verdade,—tornou elle, recolhendo-se—isto é uma obra que faz pasmar a gente! O que me dá no goto é isto de crescer e mingar o mar!... A senhora sabe a razão?

—Dizem que é effeito da attracção da lua.

—Da lua!—atalhou com espanto José Francisco.

—Sim, senhor, da lua; é o que dizem os entendedores; mas como se faz o fluxo e refluxo do mar é que eu não sei, nem mesmo me importa saber...

—Da lua!—tornou o commendador, olhando para a abobada celeste, e gesticulando mudamente com os braços, como quem se esforçava por entender a acção da lua sobre a agua, com um imaginario artificio de alcatruzes.—Da lua não póde ser!—disse elle por fim, com a energia e aprumo de Galileu, á sahida do carcere.

—Pois então não seja!—disse Silvina com enfado.

—Porque a lua—tornou José Francisco, com os olhos no céo, e os dedos das mãos afastados entre si—a lua está lá em cima, e...

—E o mar está cá em baixo...—atalhou a menina, espirrando um frouxo de riso.

—Ora ahi está! E a senhora ri-se!? Eu queria que os doutores me explicassem como é que a lua empurra o mar e puxa depois por elle... Ó snr. Guimarães! olhe aqui que vai já.

O snr. Guimarães era o linheiro, que estava a pouca distancia com Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de José Francisco, e ella principalmente attrahida por um tregeito da prima.

—Diga-me cá: vossê sabe como é que a lua faz isto de crescer e mingar o mar?

—Eu não estudei nada d'isso—respondeu o linheiro—mas, em quanto a mim, a maré cresce quando o vento é de mar, e minga quando o vento é de terra.

—Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!—acudiu radioso o commendador.—Mas da lua!... É que estava cá a minha Silvininha a dizer que era a lua. Quem lhe metteu isso na cabeça, menina?

—Foi alguem que estava a zombar de mim!—disse Silvina gargalhando francamente com Francisca da Cunha.

—Isso entendo eu... Agora—tornou José Francisco—se querem ir lá conversar sosinhos, vão, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns arranjos cá da nossa vida de noivos.

Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem occupar as cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas encontraram-nas tomadas por Leonardo Pires e Egas de Encerra-bodes.

Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo cederia a sua cadeira a Antonio José Guimarães; mas Leonardo não se moveu, e o linheiro estacou diante d'ambos, com os olhos fuzilantes sobre o da Maya, que assobiava apparentemente distrahido a canção popular, cuja letra é: Muito bem seja apparecido n'esta funcção...

Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. O linheiro, porém, bamboando a cabeça, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:

—O que vossê merecia, sei eu.

—Que regouga?—disse-lhe o da Maya.

—O senhor...—replicou Antonio José—ainda ha-de topar quem lhe dê uma boa lição.

—Vá-se embora—redarguiu Pires—Se não, atiro-lhe areia aos olhos.

—A mim?!—disse com um sorriso azedo o linheiro.

—E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio pôdre. Vá-se embora, homem, e diga lá á fidalga que não ame parvos, se não quer receber d'estas affrontas.

O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires tomou do chão dous punhados de areia, dizendo com semblante de quem brinca:

—Olhe que vossemecê leva!

Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez um gesto ao «terra-nova». O cão começou a tirar com os dentes pelas abas do paletó de Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala, que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não tem botas de cano alto, sahiria com as canellas estrincadas; e póde ser que os dentes do «terra-nova» procurassem afiar-se em porção das pernas, não abroqueladas das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que elle, de cauda cahida, veio rastejar-lhe aos pés.

Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse saber ao seu cão que nem todos os cidadãos traziam botas de cano alto.

Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra forrar-se á vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo, viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e descer agilmente as fragas resvaladiças, para se entremetter na desordem, que encontrou no periodo final do cão arremettendo ás pernas do seu amigo.

Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, cada qual em sua barraca, para se vestirem.

Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e onde só os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo mergulhava, e vinha com ella, até marrar nas pernas de José Francisco. Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o seu posto. José Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a marrada era infallivel. Á terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu mergulhar o monstro da Maya; este, porém, nadando com os olhos abertos, lá foi abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez.

José Francisco esbofava no mar como tubarão ferido. Sahiu á praia atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficára longe do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a via, resguardando-se de ser visto.

Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:

—Jorge de Sepulveda está acolá, minha senhora! Anda aquelle seu bom anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir, a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de José Francisco Andraens!...

CONCLUSÃO.

Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do Porto, a noticia do casamento de José Francisco Andraens com D. Silvina de Mello, observou que esta menina tinha muito mais juizo do que mostrava. As mães de familia citaram-na como exemplo ás suas filhas; e estas, bem que exteriormente se rissem d'ella, invejaram-na.

Ás suas amigas particulares dizia Silvina que o seu casamento fôra um sacrificio do coração á dignidade propria; por quanto, dous implacaveis homens, o morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando aos pés quantos deveres a civilidade impõe a sujeitos, que não podem ser amados, lhe andavam sempre dando desgostos, vergonhas, e descredito. Estes dizeres, comprovados por umas lagrimas que ella arranjava com prodigioso artificio, apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella mil maravilhas.

José Francisco Andraens arrijou de suas frequentes dyspepsias, quando o mundo e a medicina menos o esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam a contemplal-o á porta dos snrs. Pintos Leites, na calçada dos Clerigos, nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento. José Francisco estava um todonada melado de rosto; mas não lhe iam mal aquelles ares de noivo: tudo tem n'este mundo a sua hora e côr de poesia.

O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da morte e o balsamo da vida: morrêra-lhe o pai na vespera do dia em que Silvina casára.

D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas meninas com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte, local sagrado que dá luas de poesia a quantos parvos ha ahi que vão celebrar n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria, se não tôrpe, na essencia.

Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de muitas prosperidades a José Francisco e Silvina, estremeceu, empedrou, e invocou do anjo da piedade o desafôgo do pranto.

Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se não era o anjo da piedade, tinha em si um santo e mysterioso condão de espremer entre os dedos inexoraveis da sua philosophia algum tanto cynica, toda a peçonha dos corações, cancerados pelo amor.

Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda esta gente com as costumadas voltas do mundo.

O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se: REACÇÃO DA POESIA.

É o natural seguimento dos Annos de prosa.

FIM.