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As Minas de Salomão

Chapter 11: CAPITULO V
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About This Book

A seasoned African hunter recounts an expedition with two companions into the remote interior to find a missing man and a reputed hoard. The party endures oppressive heat, treacherous terrain, and violent encounters while forming alliances and confronting betrayal; they discover an isolated, highly organized people with strange customs and ancient legends, explore vast subterranean caverns that hold the fabled riches, and face both human treachery and life‑threatening hazards. The narrative balances practical travel detail and combat with the comradeship of the explorers and themes of survival, discovery, and the moral ambiguities of conquest and rescue.

--Somos dois homens, tu e eu!

CAPITULO IV

OS ELEPHANTES

Sahimos de Durban no fim de janeiro, e andadas quasi as trezentas leguas que vão d’aqui ao sitio em que se juntam os rios Lukanga e Kalukue, chegámos, pelos meados de maio, a Inyati, não longe da aringa de Sitanda, onde acampámos. Durante a jornada tivemos aventuras varias, mas d’aquellas que são usuaes em todas as travessias d’Africa e já muito contadas nos livros. Em Inyati, ultima estação mercante da terra dos Matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!) é rei, separámo-nos, com fundas saudades, do nosso confortavel carrão. Dos vinte bois que trouxeramos de Durban, só doze restavam. Um morrera da mordedura da cobra, tres da falta d’agua; um perdeu-se; os outros tres comeram uma herva venenosa, chamada tulipa. Os restantes deixámol-os com o wagon ao cuidado de Goza e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno Missionario escossez que habita aquelle desterro, que caridosamente nos vigiasse o carrão, o gado e os homens. E no dia seguinte, acompanhados por Umbopa, Khiva, Venvogel, e meia duzia de carregadores que arranjámos em Inyati, largámos para o deserto, a pé, em seguimento da nossa temeraria aventura.

Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos pôrmos em marcha estavamos todos tres bem commovidos! Cada um perguntava a si mesmo, decerto, se jámais tornaria a vêr o carrão, os bois e o Missionario. Eu por mim levava a certeza que não. Os primeiros passos foram lentos, dados em grave silencio. Mas de repente Umbopa, que marchava na frente, rompeu n’um grande canto--uma canção zulú, dizendo d’uns homens que, cansados da vida e da monotonia das coisas, se tinham mettido ao deserto, para achar occupação ou morrer, e que, para além dos sertões, subitamente, encontravam um paraiso cheio de raparigas moças, de gado, de caça, e de inimigos para matar! Esta canção pareceu-nos de boa promessa.

A quinze dias de marcha de Inyati começámos a atravessar uma região arborisada e farta em aguas. As collinas estavam espessamente cobertas de matto que os indigenas chamam idaro: e por toda a parte se estendiam bosques de machabelas, arvores que dão um fructo amarello, enorme, quasi todo caroço, mas deliciosamente fresco e dôce. As folhas e fructos d’estas arvores são o alimento querido dos elephantes; e decerto os immensos animaes andavam perto, porque a cada passo topavamos arbustos quebrados e desarraigados. O elephante por onde vai comendo, vai assolando.

Uma tarde, depois d’uma caminhada fatigante, chegámos a um sitio particularmente pittoresco e de amavel repouso. Era junto de um outeiro todo vestido d’arvoredo. Ao pé serpeava o leito sêcco d’um rio, conservando ainda aqui e além poças de agua crystallina e fria, espesinhadas em redor pelas largas pégadas de feras. Em frente verdejava um bello parque de mimosas, machabelas e outras arvores ainda, raras e cheias de flôr:--e em torno era o matto, o matto silencioso, denso, impenetravel.

Decidimos ficar alli e construir um scherm, a pouca distancia d’uma das poças d’agua. O scherm é uma especie de acampamento entrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de matto espinhoso e armando-o circularmente n’uma vasta e rude sebe que fórma defeza. Todo o espaço interior se aplaina como uma arena: ao centro amontôa-se herva sêcca, um capim chamado tambouki, que serve de divan e de cama; aqui e além, em volta, accendem-se alegres fogueiras.

Quando acabámos de arranjar o scherm--vinha nascendo a lua. O jantar estava prompto. Bem parco era elle, composto dos tutanos e lombos d’uma girafa, que n’essa tarde, ao fim da sésta, fôra morta pelo capitão John com um tiro providencial. Mas depois de coração de elephante (a mais fina delicia que se póde ter), tutano e lombo de girafa são os petiscos superiores d’Africa, e grandemente os saboreámos sob o esplendor da lua cheia, que ia alta nos céos. Depois accendemos os cachimbos, e conversámos no vasto silencio em roda do lume.

Os meus companheiros não se fartavam de contemplar aquella scena de sertão, familiar para mim, com os meus quarenta annos d’Africa, mas que a elles só offerecia estranhezas--até na maneira por que as claridades alumiam, até na maneira por que a noite é silenciosa. Eu por mim, confesso, admirava sobretudo o nosso excellente capitão John. Alli estava elle, no interior da Terra-Negra, em pleno deserto, estirado em cima d’um sacco de couro,--tão apurado, tão correcto, tão bem pregado, como se viesse de passear n’um parque luxuoso de castello inglez, em dia de caça ao faisão. Tinha um facto completo de cheviote castanho, com chapéo da mesma fazenda, polainas irreprehensiveis, luvas amarellas de pelle de cão, a face escanhoada, monoculo no olho, os dentes postiços rebrilhando em gloria! Nunca o sertão africano vira decerto um homem mais catita. Até trazia collarinhos altos (collarinhos de gutta-percha), de que emmalára na mochila uma escandalosa porção--«por serem leves (dizia elle), faceis de lavar, e dar logo á gente um ar de asseio e distincção».

Pois assim estivemos muito tempo, sob o magnifico luar, conversando e observando os Cafres, que chupavam a dacca nos seus longos cachimbos feitos de cornos de eland, e que, um por um, se iam enrolando nas mantas e estirando á beira do lume. Só Umbopa por fim ficou acordado, longe dos Cafres (a quem geralmente não admittia familiaridades), com o queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, n’uma d’aquellas abstracções em que por vezes eu o surprehendera desde o começo da nossa jornada.

De repente, da profundidade do matto, por traz de nós, subiu no ar um longo e rouco rugido. «É um leão!» exclamei. Todos nos erguemos, a escutar. Quasi immediatamente, junto á poça d’agua pura, visinha do nosso scherm, resoou como em resposta a estridente trompa d’um elephante. «Unkungunlovo! Unkungunlovo[1], murmuram á uma os Cafres, levantando as cabeças das mantas:--e momentos depois avistámos uma fila de enormes e escuras fórmas, movendo-se devagar da beira da agua para o matto. O capitão, com um salto, agarrára a espingarda. Tive de o segurar pelo braço:

--É inutil, não se faz nada. Nada de barulho. Deixal-os ir.

--Em todo o caso, disse o barão excitado, este sitio para um caçador é um verdadeiro paraiso! Se aqui ficassemos um dia ou dois?...

Estranhei: porque até ahi o barão, impaciente, viera-nos sempre apressando para diante--sobretudo desde que soubera em Inyati, pelo Missionario, que dois annos antes um inglez, chamado Neville, vendera alli o carrão em que viera de Bamanguato e se internára no sertão com um Cafre por serviçal. Mas ouvira o leão, ouvira o elephante--e os seus instinctos de caçador dominavam, irresistivelmente.

--Pois muito bem, filhos meus, disse eu, uma vez que se quer um bocado de divertimento, ter-se-ha; mas ámanhã. Por agora é tratar de dormir, e erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado antes que elle vá aos seus negocios. Toca pois a accommodar.

O capitão John (extraordinario homem!) tirou o fato, sacudiu-o, metteu o monoculo e os dentes postiços dentro do bolso das calças, dobrou tudo cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu makintosh, alisou o cabello, tomou um bochecho d’agua, e estirou-se de lado para dormir, com correcção e conforto. O barão e eu, depois de contemplar, rindo, estes requintes, embrulhámo-nos simplesmente n’um cobertor:--e d’ahi a pouco envolvia-nos aquelle somno profundo, absoluto, sem sonhos, sem movimentos, que é a recompensa e a consolação de quem moureja por estas terras negras.

Com o primeiro alvor da madrugada estavamos a pé, preparando para a acção. Tomámos as carabinas, munições abundantes, cantis cheios de chá frio (que é a melhor bebida, a unica, quando se caça), e partimos, depois de engolir de pé um almoço breve, acompanhados de Umbopa, de Khiva e de Venvogel.

Não tivemos difficuldade em achar o carreiro aberto e pisado pelos elephantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou trinta, a maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando afastára-se durante a noite; e eram quasi nove horas, já o calor ardia em céo e terra, quando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas d’arvores esmagadas, e pelos montes de bosta fumegante, percebemos que os bichos andavam cerca--e seguros. D’ahi a instantes, effectivamente, avistámos o rebanho todo, uns vinte a trinta elephantes (como Venvogel calculára), parados n’uma cova de terreno, quietos, tendo decerto acabado o primeiro repasto, e sacudindo com lentidão e magestade as suas immensas orelhas. Era uma vista soberba! Só as ha assim na Africa!

Estavamos separados d’elles por umas cem jardas. Agarrei um punhado de capim e atirei-o ao ar para tomar a direcção do vento:--porque se um elephante nos farejasse, bem sabia eu que, antes de podermos pôr as carabinas á cara, o rebanho inteiro abalava. A aragem, se alguma corria, soprava para nós do lado dos bichos: de sorte que rastejámos cuidadosamente através do matto, mudos, sem respirar, até nos aproximarmos umas quarenta jardas mal medidas. Justamente diante de nós, e de ilharga para nós, estacionavam tres magnificos elephantes machos, um d’elles com enormes dentes e o ar supremo de um Patriarcha. Avisei, baixinho, os companheiros que me encarregava do animal do meio: o barão apontou ao mais pequeno, ao da esquerda: o capitão ao «Patriarcha».

--Agora! Murmurei.

Bum! Bum! Bum! O elephante do barão tombou redondo, varado no coração. O meu cahiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia desabar para o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando por diante de mim. Metti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. Á pressa, com dois cartuchos mais na carabina, corri para elle e findei-lhe misericordiosamente a agonia.

Voltei-me então para vêr o que se passára com o elephante do capitão, o «Patriarcha», que eu ouvira por traz de mim bramando de dôr e furia. Encontrei John excitadissimo. Ao que parece, o elephante, apenas ferido, rompera contra elle (que meramente teve tempo de se desviar com um salto), e seguira, furioso e sem vêr, para a banda do nosso acampamento. O resto do rebanho no emtanto, espavorido, rompera para o outro lado, através da espessura.

Durante um momento ficámos indecisos entre seguir o «Patriarcha» ferido ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atraz do bando. Seguil-os era facil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e liso que uma estrada real, esmagando o matto espesso como se fosse relva de primavera. Achal-os, porém, era mais complicado: e tivemos, durante duas infindaveis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes de os avistarmos. Lá estavam todos outra vez muito juntos (excepto um dos machos): e pela inquietação com que se mexiam, pelo constante erguer das trombas desconfiadas, farejando o ar--era claro que esperavam, temiam outro ataque. Um dos machos afastado, á laia de sentinella, vigiava para o nosso lado, de tromba ameaçadora e alta. Entre elle e nós mediavam umas sessenta jardas. Se este cavalheiro nos presentisse, dava signal e o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto nos achavamos, bichos e homens, em terreno descoberto. De sorte que todos tres lhe apontámos, todos tres lhe atirámos. Bum! Bum! Bum! Morto! Mas os outros partiram, n’uma desfilada, como collinas rolando.

Infelizmente para elles, logo adiante havia um nullah, isto é, uma ribeira sêcca, com as bordas abarrancadas do nosso lado e quasi a pique do lado fronteiro (sitio parecido áquelle em que o Principe Imperial foi morto na Zululandia). Para ahi justamente se atiraram os elephantes em tropel. Quando chegámos á borda, démos com elles em medonha confusão, esforçando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e hirta), empurrando-se uns aos outros, n’um furor e egoismo verdadeiramente humanos, e atroando os ares de bramidos. A nossa opportunidade era escandalosamente brilhante. Sem outra demora, disparando tão depressa como carregavamos, démos cabo de cinco elephantes; e teriamos dizimado o rebanho inteiro se elles de repente, abandonando a teima estupida de galgar a ribanceira, não largassem a fugir ao comprido do leito sêcco que se perdia ao longe na espessura. Estavamos cansados de mais para os perseguir, enjoados tambem d’essa vasta mortandade. Oito elephantes n’uma manhã, antes do lunch, é decente.

De sorte que, depois de descansarmos e vêrmos os Cafres cortar os corações a dois dos elephantes para servir á ceia, voltámos vagarosamente os passos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a proeza, e calculando o valor do marfim, que no dia seguinte cedo os carregadores viriam serrar.

Ao passar no sitio em que o capitão tinha ferido o «Patriarcha», encontrámos um rebanho de elands. Não lhe atirámos, porque não ha nada no eland que valha dinheiro, e mantimentos já traziamos, deliciosos e abundantes. O bando passou ao nosso lado, ligeiro e trotando; depois, adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flôr, parou; e todos a um tempo se voltaram, a olhar para nós, espantados.

O capitão nunca vira um eland. Quiz aproveitar a occasião, deu a carabina a Umbopa, e seguido de Khiva adiantou-se, de monoculo fito, para o tufo de arbustos em flôr. O barão e eu sentámo-nos á espera, n’uma pedra.

O sol ia justamente descendo, n’um grande esplendor de vermelho e ouro. O barão e eu contemplavamos, calados, aquella belleza de céo e luz, quando de repente ouvimos o bramido d’um elephante e vimos, escura sobre a vermelhidão do poente, uma vasta fórma avançando a galope, de tromba erguida e cauda espetada. Logo immediatamente vimos outra coisa horrivel:--o capitão, e Khiva, o serviçal zulú, fugindo para nós n’uma carreira perdida, perseguidos pelo elephante! Era o grande bicho ferido, o «Patriarcha» que alli ficára, errando. Agarrámos n’um impeto as carabinas. Mas quê! Fera e homens, correndo para nós, vinham juntos! Se disparassemos, a bala podia varar John ou Khiva... E assim ficámos n’esta indecisão, com o coração a tremer, quando o pobre capitão escorrega n’aquelles infames botins de bezerro com que teimava em trilhar o sertão--e cae, estatelado, de face na terra, diante mesmo do enorme elephante que chegava bramindo!

Fugiu-nos a respiração! O pobre camarada estava perdido! Largámos ainda a correr para elle, desesperadamente. E o desastre veio, com effeito--mas d’um modo bem differente. Khiva, o Zulú (valente, heroico rapaz que era!), vendo o amo por terra, volta-se, e arremessa a zagaia a toda a força contra a tromba do elephante. A fera lança um uivo de dôr, arrebata o desgraçado Zulú, bate com elle no chão, põe-lhe uma immensa pata sobre as pernas, e enrodilhando-lhe a tromba no peito, rasga-o--litteralmente o rasga em dois.

Corremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez, furiosamente--até que o elephante se abateu como um monte sobre os pedaços sangrentos do Zulú.

Foi um instante de indizivel consternação. Apesar de endurecido por quarenta annos de caça e carnificinas, eu proprio sentia um «nó na garganta», e creio que me fiz pallido. O barão tremia todo. E o pobre capitão torcia as mãos, na dôr de vêr assim despedaçado o servo valente que dera a vida por elle.

Só Umbopa teve a palavra serena que convinha á disciplina. Veio, com os seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Khiva, n’uma poça de sangue, junto á massa enorme do elephante, moveu a mão no ar e disse:

--Morreu. Bem d’elle, que morreu como um homem!

CAPITULO V

A NOSSA ENTRADA NO DESERTO

Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levámos a serrar-lhe os dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d’uma arvore enorme, que destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um «signal» inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! Só os dentes do «Patriarcha» pesavam (tanto quanto pude avaliar) uns cento e setenta arrateis!

O pobre Khiva, esse, sepultámol-o ao pé da collina, com uma azagaia ao lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada para o Paraiso zulú. Ao romper do terceiro dia levantámos o acampamento--todos nós fazendo votos no silencio da nossa alma para que nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, accrescentava:--«voltar e desenterrar este rico marfim!»

Depois d’uma fatigante marcha, cortada d’esses episodios africanos que todos os Africanistas experimentam, chegámos emfim á aringa de Sitanda, ao pé do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso «ponto de partida». Ahi começariam as nossas miserias.

Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita descia, transmalhada, uma pequena povoação de negros, com curraes de gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva alta, onde a caça abundante esvoaçava. E para a esquerda era o escuro, silencioso, infindavel deserto.

O nosso acampamento ficou junto d’esse riacho alegre que corria entre arbustos em flôr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas erguemos as tendas, subi lá com o barão. Era aquelle o sitio, aquelle o outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n’uma tarde como esta, a figura do pobre Silveira, com o seu grande casacão comprido, apparecer cambaleando, toda escura na vermelhidão do poente. Como então, o globo do sol afogueado descia já rente da terra--e os seus raios flexavam obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua, sem vida, terrivelmente mudo, que matára o pobre portuguez, que nos ia talvez matar a nós. Ficámos olhando para elle em silencio. O ar era d’uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao longe, podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu companheiro:

--A entrada das minas de Salomão lá está... Chegaremos nós lá?

N’esse instante senti alguem por traz de nós respirando: era Umbopa, que trepára tambem ao comoro, e considerava o deserto com pensativa gravidade. Vendo que eu reparára n’elle, deu um passo lento, depois outro mais lento. E dirigindo-se ao barão (a quem parecia ter-se affeiçoado), apontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes:

--É para aquella terra além que tu vaes, Incubú?

Incubú é uma palavra do dialecto zulú, que significa «elephante», e que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a audacia d’Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa de fallar a seu amo... Que o negro dê uma alcunha negra ao patrão, por lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--vá! Que a um como eu, pobre caçador que ganha o seu pão, o negro se dirija sempre pela alcunha negra--vá ainda! Mas que a atire á face d’um senhor, d’um fidalgo--isso não!

--Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo comem da mesma gamella!

O Zulú teve uma risadinha dôce que me enfureceu.

--Que sabes tu, accrescentou elle, se eu não sou igual ao amo que sirvo? Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se vê logo: mas talvez eu pertença a uma casta maior! Pelo menos sou tão forte como elle, e posso com elle repartir o que tenho no coração. Sê pois a minha bôca, oh Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incubú meu amo! E attende-as tu tambem, porque em mim só ha verdade!

Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallára n’aquelle tremendo tom! Mas, não sei porque, o maldito Zulú tinha a arte de me impressionar. Além d’isso sentia uma viva curiosidade... De sorte que lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia impudente e ousada.

O barão, porém, homem de excellente paciencia, voltou-se sorrindo para o Zulú:

--É para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em procura d’um homem da minha raça, d’um irmão meu, que atravessou este deserto, e que eu supponho estar além!

O Zulú moveu lentamente a cabeça:

--Assim é, assim é... Encontrei um homem no caminho que me disse: Ha dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como nós, levando um só serviçal... Nunca mais voltaram...

--Quem te disse? Perguntei, vivamente. Porque te sahem só agora essas palavras? Onde te disseram?

Antes de Inyati, um homem que elle encontrára no caminho. Contára-lhe que o branco se parecia com o chefe Incubú, mas tinha a barba escura: e que ia seguido por um caçador bechuana chamado Jim.

--São elles! Exclamei. Não ha duvida! São elles! Jim conhecia eu bem....

O barão ficou pensativo.

--Se meu irmão tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito não era da tempera d’elle. Ou não vive, ou está para lá das serras.

O Zulú, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes, tornou muito gravemente:

--É uma longa jornada, Incubú.

--Quartelmar, diga-lhe que não ha jornada que o homem não possa emprehender, replicou o barão (que evidentemente estimava e considerava aquelle singular Zulú). Nada ha que o homem não possa fazer; nem desertos que não possa atravessar, nem montanhas que não possa subir, se puzer n’isso alma e vontade. O essencial é contarmos a vida por coisa nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus ordenar.

Quando o Zulú comprehendeu, toda a face se lhe illuminou:

--Grandes palavras, meu pai Incubú! Grandes, soberbas palavras que enchem bem a bôca d’um forte! Que é a vida, na verdade? É a semente da herva que o vento sopra aqui e além. Ás vezes cae em boa terra e fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? É sempre a morte. Eu por mim irei comtigo, Incubú! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei sempre fiel...

Parou. E subitamente rompeu n’uma d’essas rajadas de poesia, frequentes nos Zulús, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de geração em geração, mostram que se a raça não é intelligente, é pelo menos imaginativa.

--Que é a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braços, n’aquelle tom cantado que os Zulús tomam n’esses momentos de exaltação). Que é a vida? Dizei-me, oh brancos, vós que sabeis os segredos d’este mundo, e do mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que está para além das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida! D’onde vem ella, para onde vai?... Não podeis, não sabeis! Escutai então! Nós sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro acossado pela tormenta, nós sahimos do fundo da escuridão: durante um momento passamos, e as azas brilham-nos á luz das fogueiras: depois, de novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida é o pyrilampo que fulgura de noite e de dia é negro! É o halito dos rebanhos no ar de inverno! É a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao poente!...

Calára-se, com os braços ainda abertos, o olhar perdido nas alturas.

--És um homem bem singular, Umbopa! Exclamou o barão, que o escutára assombrado.

O outro pareceu acordar, sorriu:

--Creio que nos assemelhamos, Incubú. Talvez eu tambem vá procurando um irmão entre as gentes que estão para lá das montanhas.

Olhei para Umbopa, com o sobr’olho franzido.

--Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para lá das montanhas?

--Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para além uma terra de feitiços, de jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem lá chegar, lá verá!

Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que não queria revelar. Elle decerto percebeu a minha desconfiança--porque acudiu, espalmando as mãos:

--Não te arreceies, Macumazan! Não te arreceies! Não abro covas para que tu cáias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te contarei o que sei. Mas a Morte está lá com uma lança, á nossa espera. Melhor te fôra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que tinha a fallar.

E meneando a azagaia á maneira de saudação, desceu o comoro, recolheu ao acampamento--onde d’ahi a instantes o encontrámos limpando uma carabina, attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e vontade.

--Homem extraordinario! Murmurou o barão.

--Extraordinario de mais! Não gósto nada d’aquelles mysterios... Mas, emfim, nós estamos mettidos n’uma aventura phantastica, e um Zulú mysterioso de mais ou de menos--não tira nem põe!

Na manhã seguinte começámos os preparativos para a marcha. Era impossivel naturalmente levar comnosco, através do deserto, todo o pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forçados (depois de debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era abandonar as nossas magnificas armas á mercê d’aquelle velho malandro--cujos olhos se fixavam já nos nossos bens com um fulgor de cubiça e rapina. Tomei por isso as minhas precauções.

Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, n’um tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiçados--e que se elle lhes tocasse «alli» (mostrei o gatilho), os demonios fugiriam de dentro despedindo um raio! Immediatamente (como eu calculára), o Cafre puxou o gatilho a uma carabina «Express». E o raio partiu. Partiu, com tanta felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, á beira d’agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada força do recúo. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, dava pulos em volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o céo, olhava para o chão... Por fim rompeu aos berros:

--Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os lá em cima, sobre o colmo!... Ai, que não fica vivo um de nós!

Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma só arma d’aquellas faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se nós morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos pés, tornar-lhe o gado bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e fazer a vida na aringa tão dura e terrivel que seus proprios filhos o amaldiçoariam... Emfim, dei-lhe uma idéa razoavel do Inferno, com horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia pelas nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife infinitamente supersticioso.

Em seguida combinámos o que nós cinco--o barão, o capitão John, eu, Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco através do deserto. Muito calculámos, muito experimentámos. Não lográmos chegar a um peso menor de quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis aqui o que conduziamos:

Cinco espingardas--com a competente munição (quatrocentas cargas);

Tres rewolvers;

Cinco cantis d’agua, de cinco quartilhos cada um;

Cinco mantas;

Vinte e cinco arrateis de biltong-- que é uma especie de carne sêcca;

Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas;

Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d’algibeira, uma enxó, uma garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo.

Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n’uma semelhante empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem, por um sol terrivel, através d’um deserto esteril!

Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola a acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um ás costas uma larga cabaça d’agua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir na frescura da noite). Os negros, a quem eu contára que iamos caçar o abestruz, não acreditaram: tinham por certo que morreriamos de sêde e de fome no grande sertão: elles proprios temiam a morte e os demonios que vagam no deserto: e só consentiram em nos seguir, a troco de tres facas de matto e d’uma manta vermelha.

Durante todo esse dia descançámos e dormimos. Ao pôr do sol celebrámos um grandioso jantar, de caça, de carne fresca e de chá--«o ultimo chá, observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e longos mezes». Depois, apetrechadas as mochilas, esperámos que nascesse a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e pensativa gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que parecia tão mudo, solemne, impenetravel e virgem de pégadas humanas como o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia nos erguemos nós tambem. Tudo estava prompto, os negros de cajado na mão:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita sempre perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de nós alguns passos, Umbopa, de azagaia na mão, com a carabina a tiracollo, olhava fixamente para o deserto: atraz de nós, n’um grupo, Venvogel, com os tres negros que levavam as cabaças d’agua, esperavam, direitos e mudos: e nós tres, os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o coração.

De repente, o barão tirou devagar o chapéo. E com profunda emoção:

--Amigos, vamos começar uma das mais estranhas jornadas que homens têm ousado tentar. O que será de nós, não sei: mas, para bem ou para mal, juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo póde!

Escondeu a face entre as mãos, ficou immovel. O capitão John e eu baixámos tambem a cabeça, com reverencia, com humildade. Eu por mim, confesso, nunca fui homem de orações. Caçadores de elephantes, na dura vida d’Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o caso, n’aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois mais alegre e mais leve. Creio que o capitão (religioso no fundo, apesar de praguejar medonhamente) tambem rezou. O barão esse era homem de piedade e crença... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu o braço,--e com um bello ar de resolução e de esperança:

--Prompto?... Larga!

Os bordões resoaram na terra dura,--e largámos.

Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de Suliman, e o roteiro que o velho D. José da Silveira traçára no pedaço de camisa. Cada um de nós trazia na algibeira uma cópia d’esse mappa rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A nossa salvação, n’aquella jornada, seria encontrar a lagôa, ou poça de agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcára a meio caminho entre a aldeia d’onde partiramos e as serras de Suliman. Se a não achassemos, tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sêde. E, para mim, as probabilidades de descobrir uma lagôa de tres ou quatro metros n’aquella vastidão de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima. Mesmo suppondo que o Portuguez a marcára com exactidão--quem nos afiançava que n’esses trezentos annos ella não seccára ou não fôra coberta pelas areias movediças?

Era n’isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos marchando sob o luar silencioso. O caminho não era facil: o tojo denso e espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite não estar quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solidão, o silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de teus dôces olhos, parecia lugubre n’aquella severa immensidade. O engraçado homem emmudeceu. E seguimos n’uma fila muda através do matto mudo.

Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de nós uma balburdia medonha de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos fórmas, como garupas, galopando através do tojo, entre rolos d’areia. Os negros atiraram-se ao chão, gritando que eram «demonios acordados»! Eu proprio e o barão ficámos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando avistámos John, apparentemente montado n’um potro, fugindo aos galões para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento mais--e vêmol-o sacudir os braços no ar, e de novo desapparecer, no matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d’um rebanho de zebras adormecidas: John estatelára-se exactamente sobre as costas d’uma, enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalára com o nosso amigo nas ancas. Felizmente não se magoára no tombo final: fomos dar com elle sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido, indignado--mas intacto de pelle e osso.

Depois d’isto marchámos socegadamente até perto das duas horas da noite. Fizemos então uma paragem, bebemos uns goles d’agua (não muitos, nem largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta minutos de descanço recomeçámos a caminhar para diante, para diante sempre, até que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d’uma tremula refracção d’ouro--e ser dia!

Não parámos apesar de já cansados--pela certeza de que bem cedo o sol, nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido esplendor. Com effeito, ás seis horas já ardia! Por felicidade avistámos então na planicie um montão de rochas. Para lá nos arrastámos, exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um pedaço d’areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhámos: e, depois de beber alguns goles d’agua bem contados e de comer uma lasca de biltong, adormecemos deliciosamente.

Ás tres horas acordámos. Os carregadores que tinham trazido as cabaças já se preparavam para voltar á sua aringa. De sorte que absorvemos uma farta tarraçada d’agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos homens as facas de matto promettidas. D’ahi a instantes vimol-os (não sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua!

Ás quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor se parecia alargar em silencio e desolação. Ao principio ainda avistavamos, aqui e além, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a mosca lá está. Foi este decerto o primeiro dos sêres vivos que surgiu sobre a terra. Já havia moscas para pousar no nariz de Adão. O derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno á face. E talvez haja moscas no Paraiso.

Ao sol-posto parámos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena que nunca surgiu ella ás dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e pensativo brilho, na mudez da vastidão, caminhámos, caminhámos... O sol nado pôz um termo á valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d’agua dos cantis, atirámo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a todos quatro simultaneamente. Não havia necessidade que um velasse. Nada tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n’aquella immensidade despovoada. D’esta vez porém nenhuma rocha nos abrigava--e ás sete horas acordámos sob o sol faiscante, com a sensação que deve experimentar um bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo fritos! O sol por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos erguemos, de salto, quasi sem respiração.

--Santo Deus! Murmurou o barão, sacudindo os enxames de moscas.

--Póde-se chamar a isto calor! Gemeu do lado o capitão, que arquejava.

Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta extensão nem um abrigo! Só matto rasteiro--e por cima uma vibração radiante, tão viva e intensa que viamos tremer o ar.

--Que se ha de fazer? Exclamou o barão. É impossivel aguentar isto!

Olhámos uns para os outros, estupidamente.

--Se abrissemos uma cova? Lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e cobrir-nos com tojo... É uma idéa.

Não brilhante! Mas era a unica:--de modo que, já com a enxó, já com as mãos, passámos a abrir uma cova do tamanho aproximado d’uma larga cama. Cortámos uma porção de matto; e alli nos sepultámos, collados como sardinhas n’uma caixa, todos quatro, o barão, John, eu e Umbopa,--porque Venvogel, como Hottentote, não sentia os ardores do sol. Foi elle que nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a d’aquella fossa, em que cada torrão, junto do corpo, era como uma braza viva! Não comprehendo como nos desenterrámos vivos. Dormir, impossivel! Jaziamos estendidos, hirtos, sem ter já que suar, quasi cortidos, arquejando anciosamente. Só possuiamos o consolo de humedecer de vez em quando os beiços com uma gota d’agua muito medida! Esta avara medição da agua era o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa tentação de sorver d’um só trago os quatro cantis. Mas quê! Se a agua faltasse--breve viria a morte!

Tudo tem um fim n’este mundo, diz a Sabedoria oriental, comtanto que se possa esperar. Esperámos: a horrivel, interminavel manhã passou: e pelas tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de vir) a ser por ella lentamente envolvidos n’aquelle infame buraco. Reconfortámo-nos com um curto sorvo á nossa agua,--que diminuia terrivelmente, e subira já á temperatura do sangue. E com um esforço rompemos de novo através da planicie flammejante.

Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do velho D. José da Silveira, a total extensão do deserto estava fixada em quarenta leguas; e a famosa poça de agua salobra vinha marcada a meio do deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porém, fizemos pouco mais d’uma milha por hora. Ao pôr do sol parámos á espera da lua. Deixei-me cahir para o chão, como um morto, cerrei os olhos. Mas d’ahi a um instante Umbopa fez-me erguer e notar, á distancia de oito ou nove milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia abruptamente na planicie rasa. Não parecia uma elevação natural de terreno, na sua semelhança estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar adormeci logo, murmurando: «Que será?...»

Ao romper da lua de novo partimos, já alquebrados de cansaço e de sêde. O andar franco e firme acabára para nós. Era agora um arrastar de passos quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que cahiamos para cima da areia, sem força, de coração desmaiado. Nem animo nos restava para conversar. Até ahi ainda gracejavamos, heroicamente. John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para gemer!

Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d’alma, chegámos ao pé do comoro estranho. Era uma especie de duna d’areia, escura, lisa, atarracada, da altura d’uns trinta metros, e cobrindo na base duas geiras de terreno. Parámos. E desesperados com a sêde, sorvemos o resto da agua. Tinhamos meio quartilho por bôca! Podiamos ter emborcado um almude!

Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos, resvalava já dôcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao meu lado murmurar para si proprio em zulú:

--O que é a vida! Se ámanhã não achamos agua, a lua ao nascer encontra aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! Vida, murmurio que finda!

Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sêde n’um deserto d’areia!), adormeci profundamente.