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As Minas de Salomão

Chapter 13: CAPITULO VI
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About This Book

A seasoned African hunter recounts an expedition with two companions into the remote interior to find a missing man and a reputed hoard. The party endures oppressive heat, treacherous terrain, and violent encounters while forming alliances and confronting betrayal; they discover an isolated, highly organized people with strange customs and ancient legends, explore vast subterranean caverns that hold the fabled riches, and face both human treachery and life‑threatening hazards. The narrative balances practical travel detail and combat with the comradeship of the explorers and themes of survival, discovery, and the moral ambiguities of conquest and rescue.

Eram quatro da manhã quando acordei. E bruscamente entrou commigo a tortura da sêde! Estivera todo o tempo sonhando que passeava á beira d’um regato d’agua, muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mãos; mãos e face pareceram-me mais sêccas e duras do que coiro; e as palpebras e os beiços estavam tão pegados, tão collados, que tive de os descerrar á força com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda vinha longe; mas não reinava no ar a natural frescura matutina, antes uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solidão. E pouco a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d’aves, e toda uma sensação de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir sósinho n’um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei!

Voltei a mim, quando os outros em redor se começaram a mexer, erguendo-se devagar sobre o cotovêlo, esfregando como eu as faces resequidas, separando á força como eu os labios sem saliva e mirrados. Já rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, começámos a fallar da nossa situação--que era sombriamente desesperada. Não nos restava uma gota d’agua! Voltámos os cantis para baixo, chupámos-lhes os gargalos. Mais sêccos que ossos! O capitão John, que guardára a garrafa de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas o barão arrancou-lh’a das mãos. Beber alcool, n’aquelle estado?... Era a morte.

--Mortos estamos nós (murmurou o capitão encolhendo os hombros) se d’aqui á noite não achamos agua!

--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a poça d’agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n’esta altura exactamente que elle a achou...

Os outros nem responderam. Realmente nenhum de nós tinha já confiança no roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poça existisse--como encontrar n’essa immensidão o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais pequena e perdida do que uma moeda de prata n’uma praia d’areia? Só por um «bamburrio»! Ou só se ella jazesse junto d’accidente do terreno, que, pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente attrahisse os olhares e os passos.

A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lançando conjecturas, n’esta terrivel anciedade--reparei que o nosso Hottentote Venvogel andava a distancia, com os olhos no chão, lentamente, como quem procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o braço espetado para a terra.

--Que é? Exclamámos todos.

E corremos alvoroçadamente.

--Pégadas de corço! Bradou elle em triumpho, apontando para o chão.

--E então?

--Corços nunca andam longe d’agua!

--É verdade! Gritei eu. E louvado por isso seja Deus!

Foi como se renascessemos á vida. Não era ainda a agua--mas a esperança d’ella, para breve! E n’uma crise afflictiva como a nossa, uma esperança, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela coragem de que enche logo a alma.

Venvogel no emtanto começára a andar em redor, com o nariz erguido (o seu largo nariz mais chato que o d’um bull-dog), sorvendo o ar quente, farejando.

--Cheiro agua! Dizia elle, cheiro agua!

E nós todos atraz d’elle, farejando tambem, quasi já viamos a agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens, possuem um faro maravilhoso. Mas n’esse instante os grandes raios do sol que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma tão grandiosa paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da sêde!

Diante de nós, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como prata nos primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o portuguez chamára os «Seios de Sabá»; e de cada lado d’elles, estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta cordilheira de Suliman! Não é possivel transmittir, no verbo humano, a incomparavel grandeza e belleza d’aquelle quadro de montanha!

Alli estavam as duas enormes serras que não têm iguaes na Africa, nem creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil pés d’altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, de portentosa solemnidade, enchendo o céo até acima das nuvens. E o que esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se como um muro disforme de granito, d’altura de mil pés: as duas serras formavam como os dois torreões d’uma porta, perdidos nas profundidades: a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique, lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a configuração d’uma porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d’uma muralha cercando uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda!

Bem justamente chamára o velho fidalgo portuguez aos dois montes «Seios de Sabá»! Tinham com effeito a fórma perfeita de dois peitos de mulher: as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n’uma curva dôce e tumida, parecendo áquella distancia formosamente redondas e lisas: e no cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve, semelhava exactissimamente a ponta, o bico d’um peito. Prodigiosa estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia, é uma mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos! Mas á minha imaginação (nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada n’esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma muralha estupenda, cercando e defendendo uma região de infinito mysterio; e a cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra d’Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim contemplavamos assombrados, começaram a subir, a agglomerar-se em torno aos dois montes lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos mortaes a magestade d’aquelle ádito, que uma vontade divina nos deixára por um momento entrever. D’ahi a pouco os «Seios de Sabá» estavam envolvidos de todo, resguardados sob o mystico véo--através do qual só podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente espectraes!... Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares, estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma cortina de Sacrario. Só a certas horas, ao romper do sol, a cortina se descerrava, como n’uma celebração, desvendando aos homens a maravilha sem par.

Passada a violenta surpreza, de novo nos considerámos com a mesma anciosa interrogação--«que fazer?» Venvogel insistia, convencido, que lhe cheirava a agua:--mas debalde buscavamos, trilhavamos o terreno em redor, esquadrinhavamos através do matto. Nada! Só a areia ondulando, com manchas de matagal. Démos a volta toda ao singular outeiro onde pararamos de noite. Avançámos para os lados, em todas as direcções do vento, com attentos e lentos passos, e olhos sôfregos que furavam a terra. Nada! Nenhum vestigio d’uma nascente, d’uma poça, d’um charco. Só areia, arido tojo.

--Idiota! Gritei eu desesperado com o Hottentote. Não ha, nunca houve aqui agua!

N’aquella aspera, arida immensidade não parecia, com effeito, haver possibilidade, nem sequer verosimilhança d’agua... E quanto tempo de resto poderia durar alli uma «poça salobra», como a que encontrára o velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas areias movediças?

No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas erguidas e abertas:

--Eu sinto o cheiro d’agua, patrão. Sinto-a no ar!

--No ar não duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem não duvido que venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos!

O barão no emtanto cofiava a barba pensativamente:

--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O sitio é este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha direita de norte a sul, da aringa de Sitanda ás Serras. É aqui. Aqui esteve agua!

Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e sécca! Quem nos afiançava de resto a exactidão do portuguez, esvaído de fome, meio delirado, no começo da sua agonia? Já não era pequena estranheza que elle a tivesse encontrado, n’esta deserta immensidade, justamente quando d’ella lhe dependia a vida!... A não ser que para ella fosse attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno, muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina... Uma collina!

E quando eu assim pensava, eis que o barão grita, como echoando o meu pensamento:

--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina!

--Tolice! Acudiu o capitão encolhendo os hombros. Agua no topo d’uma collina! Onde se viu isso?

--Procuremos! Disse eu, com um bater de coração que era todo de esperança.

Trepámos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente estaca, com os braços no ar:

--Nanzie manzie! (agua aqui!)

Pulámos para junto d’elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina, n’uma cova redonda como uma taça, lá estava agua, agua escura, agua lôbrega--mas agua! Agua! Agua! Gritavamos de puro gozo. E n’um momento, estirados de barriga no chão, com as faces na poça, sorviamos deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso, que tão bem imitava agua. Céos! O que bebemos! E mal findámos de beber, arrancámos o fato, saltámos para o charco, e, sentados n’elle, ficámos horas a embeber-nos de frescura através da pelle--da nossa pobre pelle mais dura e mais sêcca que um pergaminho secular.

Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne sêcca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella hora de consolação. E o somno que nos tomou até ao meio dia, deitados junto da poça e da sua humidade, foi profundo e bemdito!

Todo a quelle dia tardámos junto da agua, bebendo d’ella, mergulhando n’ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo que tão exactamente a marcára no mappa. Por fim, tendo enchido d’agua os estomagos e os cantis, continuámos a marcha, mais animados e ageis, ao erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n’essa noite. Não tornámos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu e desfez as nevoas, avistámos de novo a cordilheira e os dois «Seios de Sabá» (agora afastados de nós apenas vinte milhas) tomando o céo com a sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E ao outro alvorecer pisámos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo de Sabá!

Com amargo espanto não encontrámos agua, e a nossa já ia findando! Não havia agora esperança de topar nascentes antes de chegarmos á linha de neve, que branquejava lá longe, no alto da serra: e já a sêde nos começava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os passos por sobre o torrido chão de lava que formava a base do monte. Caminhada atroz! Pelas onze horas da manhã, apesar de curtos repousos, estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e rugosos que nos magoavam horrivelmente os pés. De sorte que, descobrindo a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos descançar umas fartas horas á sua sombra providencial. Para lá nos empurrámos, por lá nos abrigámos. E não foi pequena surpreza (se ainda nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena distancia, n’um planalto formando terraço sobre um barranco, uma extensa e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formára alli um chão de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham alastrado e verdejado... Démos, porém, pouca attenção a essas hervagens, porque não havia lá nem fructo nem agua--e de relva só Nabuchodonosor se conseguiu alimentar. Alli ficámos pois, estirados á sombra dos pedregulhos, sem força no corpo e sem esperança n’alma, pensando que nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em silencio a leira de verduras, caminhára para lá lentamente. E qual não é o meu assombro ao vêr aquelle individuo, ordinariamente tão composto e grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mão o quer que fosse de verde! Arremettemos para elle, na esperança anciosa de agua descoberta.

--É agua, Umbopa? Gritava eu pulando por sobre a lava.

--Agua e sustento, Macumazan! Exclamava elle agitando no ar a coisa verde, com effusivo triumpho.

Percebi emfim o que era. Era um melão! Tinhamos dado n’um meloal, um enorme meloal bravo, com milhares de melões, a cahir de maduros!

--Melões! Uivei eu para os companheiros que corriam atraz.

--Melões! Melões! Foi o berro victorioso que resoou nas quebradas.

N’um momento, cada um de nós tinha os dentes cravados n’um melão, sôfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta melões; e apesar de mediocres creio que nunca nada na vida me soube tão deliciosamente. Mas o melão não alimenta--e refrescada a sêde não tardou a fome, mais intensa e aguda. Conservavamos ainda o biltong, a carne sêcca; mas já nos enjoava atrozmente: e além d’isso deviamos poupal-a com avaro cuidado, pela incerteza de encontrar outras provisões na longa ascensão da serra.

N’esse dia, porém, estavamos «em sorte decididamente», como disse John. Lançando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta terrivel evidencia, a fome--vi de repente uns oito ou dez grandes passaros voando em direcção a nós, lentamente.

--Atire, patrão, atire! Exclamou baixo o nosso servo hottentote, acaçapando-se immediatamente no chão.

Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a côr da lava, não fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de enormes betardas, que no seu vôo direito e alto deviam passar a umas cincoentas jardas por cima das nossas cabeças. Tomei uma carabina Winchester, e esperei acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em montão; e atirando á massa escura, pude facilmente abater um soberbo bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia uma fogueira de talos sêccos de melão: e o bicho aloirava em cima. Foi um banquete! Comemos aquella betarda toda, fóra carcassa e bico!

N’essa noite continuámos a ascensão do monte, á luz da lua, carregados de melões para a sêde. Á maneira que subiamos, o ar esfriava consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da linha de neve. Encontrámos mais melões: e a agua emfim, louvado Deus, já não nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas regiões do gelo. No emtanto era immenso o nosso pasmo de não encontrar nascentes, quedas d’agua, um riacho corrente; porque decerto no verão as neves, derretendo, deviam encher d’agua aquellas encostas. Por onde corria a agua pois, para onde se sumia a agua? Só mais tarde descobrimos que (por uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho ou em queda, descia pela vertente norte da serra.

A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma milha por hora. A carne sêcca acabára. Melões, nenhuns mais encontrámos. O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora muitas horas que não comiamos. A serra subia, subia diante de nós, cada vez mais desolada, mais núa de verdura ou vida. Os nossos momentos de repouso passavam n’um silencio sombrio e cheio de desesperança. Eu por mim ia já tão debilitado e confuso, que, d’esses tres dias que nos levou a ascensão da serra, não me recordo com bastante nitidez--e só poderia reconstruil-os pelos apontamentos do meu Diario. Na nota com data de 22 de maio encontro isto:--«Partimos ao nascer do sol. Vamos meio desmaiados de fraqueza. Só quatro milhas andadas. Comemos os pedaços de neve que começámos a encontrar. Frio intenso. Cada um de nós bebe uma gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem assim conservamos calor. Estamos verdadeiramente soffrendo de fome. Julguei que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta noite».--Tudo isto é já terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda soffrimentos mais vivos:--«Estamos n’uma situação medonha. A não ser que encontremos que comer hoje, o nosso fim está proximo. O cognac acabou. Venvogel, que como todos os Hottentotes não póde aguentar frio, parece perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros dizem que sentem o mesmo) é uma especie de adormecimento, de torpor no estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a porta, o colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sabá. Para traz de nós estende-se o deserto que atravessamos... Para que o atravessamos nós?» Logo abaixo d’estas linhas ha outra, escripta decerto n’um dos momentos em que paravamos:--«Deus se amerceie de nós, que chegou o nosso fim!»

Esta linha não tem data, mas sem duvida foi traçada no dia 24. Depois os apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos n’esse estranho dia. Iamos então caminhando através da neve, com paragens incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, sob o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer, fosse animal ou planta. Quasi ao pôr do sol chegámos junto da «ponta do seio», d’essa enorme collina de neve dura, que, pousada no topo da montanha (da montanha que reproduzia a fórma perfeita d’um seio), parecia ella propria o bico d’esse peito descommunal. Apesar de exhaustos, prendemo-nos um instante na admiração d’aquelle esplendido cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e côr de rosa em que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, d’uma carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admiração não podia durar em homens collocados como nós, a tão extrema visinhança da morte. O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura d’aquellas neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir á noite que vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n’essa branca e lisa vastidão de neve?

--A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, murmurou o capitão John.

Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados, esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta. Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros:

--Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos nós, ou á beira d’ella.

O barão, porém, agora acreditava firmemente na escrupulosa exactidão do velho D. José da Silveira. «Se elle a achou (argumentava o barão, e com razão) é que essa cova está situada de tal sorte, tão saliente e tão visivel, que não póde deixar de attrahir os olhos, e logo os passos de quem fôr trepando a serra».

--Ainda a encontramos, e antes do sol posto! Affirmou elle com um grande gesto de esperança.

--Se a não encontramos (foi a minha consoladora replica) e a noite vier sobre nós, assim desabrigados, é o fim da nossa aventura. Em todo o caso, real ou metaphoricamente, é a cova!

Durante dez ou doze minutos arrastámos os passos n’um silencio mortal. Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto de couro muito apertado, arrochado em volta da cinta «para encolher a fome». Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente tropecei n’elle que parára, e que me agarrou pelo braço:

--Macumazan, acolá! Exclamou surdamente, apontando com o cajado.

O que elle apontava era a linha abrupta onde começava, subindo, a primeira encosta do «bico do peito». E ahi na brancura da neve destacava uma mancha preta.

--É a caverna! Exclamou Umbopa.

Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d’um buraco. Para lá endireitámos os passos. E na realidade encontrámos uma gruta, de entrada baixa e lôbrega, que bem podia ser a que o velho D. José da Silveira marcára no seu roteiro. Em todo o caso alli estava um abrigo. E bemdito era o seu encontro--porque (como succede n’estas latitudes) o sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d’elle, de golpe, sem crepusculo, sem gradação, a noite cahiu, gelada e negra. Enfiámos bem depressa para dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegámo-nos uns contra os outros, sentados no chão, costas com costas. E alli ficámos na treva, mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema miseria. Mas o frio, intenso de mais, não nos consentia dormir. Estou convencido que n’aquella altura o thermometro marcaria regularmente quatorze ou quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome!

Pois alli estivemos em montão, encolhidos uns nos outros, durante a infindavel noite, sentindo a cada instante, através do corpo, começos de congelação ora n’um pé, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos apertavamos! Para quê! Nenhum tinha em si calor bastante para communicar á carcassa alheia. Ás vezes um conseguia dormitar durante momentos, mas para acordar logo em sobresalto, recomeçar a tremer. De resto, n’aquellas condições, o somno que se prolongasse--decerto se tornaria eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei vivo por um violentissimo e teimosissimo esforço da vontade.

Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se tivesse adormecido. As costas d’elle pousavam contra as minhas costas. Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes as repelli. Duas vezes a pedra se abateu sobre mim, mais fria. O ar no emtanto clareava. Á entrada da cova foi apparecendo como uma nevoa luminosa, feita da refracção do sol sobre a neve. Uma luz mais viva e fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando então para traz descobri que o pobre Hottentote estava morto! Decerto morrera quando o ouvi suspirar. Pobre Venvogel! Não admirava que lhe tivesse sentido as costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria findára. Alli estava agora, na mesma postura, com as mãos apertadas em torno dos joelhos, a cabeça cahida para baixo, gelado. Todos nos erguemos de salto, com horror. Já a esse tempo o dia penetrára na caverna, n’uma luz mortiça e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. Volto a cabeça, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que não tinha mais de quatro metros, uma fórma, uma figura humana, sentada n’uma pedra, com a cabeça toda descahida sobre o peito, os braços hirtos e pendentes para o chão! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem um morto. Peor ainda, percebi que era um branco!

Os nossos nervos, desorganisados já, não puderam com esta nova e brusca emoção. Tropeçando uns nos outros, largámos desesperadamente a fugir para fóra da caverna.


Mas depois, fóra, na plena luz, olhámos uns para os outros--envergonhados.

--Vou vêr outra vez, exclamou o barão terrivelmente pallido. Talvez a figura que vimos seja a de meu irmão.

Era possivel. E um por um, n’um silencio apavorado, atraz do barão, tornámos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava. Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra. Avançámos para ella. O barão ajoelhou, espreitou a face morta, teve um suspiro de allivio:

--Não, graças a Deus, não é elle!

Fui tambem olhar. Não, nem remotamente se parecia com esse sujeito chamado Neville, que eu encontrára em Bamanguato. O cadaver era o d’um homem alto, de meia idade, com feições aquilinas, cabello já grisalho, e longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda esticada sobre os ossos. Não tinha fato, a não ser uns restos de meias altas, de lã, até aos joelhos. Do pescoço, preso por uma correntesinha, pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham petrificado.

--Quem poderá ser? Murmurei, assombrado.

O capitão John contemplava a figura pensativamente.

--Tenho uma idéa... Não póde ser senão elle! É o velho fidalgo! É D. José da Silveira!

Eu e o barão soltámos o mesmo grito de incredulidade:

--Impossivel! Ha trezentos annos!

Mas o capitão tinha as suas razões, e decisivas. N’uma temperatura como a da cova, que é a d’uma geleira, um corpo morto póde perfeitamente conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio de sol entrára jámais n’aquella cova voltada para noroeste: não havia animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam tres seculos? A carne de açougue que vem da Nova-Zelandia para Londres dentro das geleiras artificiaes está fresca ao fim de trinta dias; e conservada em iguaes condições, não se deterioraria ao fim de trinta seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o encontrou morto, tirou-lhe o fato, não se deu ao trabalho de o enterrar, e abalou...

--E olhai! Accrescentou o capitão apanhando uma especie de osso da fórma d’um lapis, e aguçado, que jazia no chão, ao lado. Aqui está com que elle desenhou o mappa! Tirou sangue do braço, escreveu com esta ponta de osso!

Passámos o osso de mão em mão, em silencio, esquecendo as nossas proprias miserias no espanto d’aquelle encontro. Já não podia haver duvida. Alli estava elle pois, sentado n’uma pedra, frio e duro como ella, o homem cujo derradeiro escripto, traçado havia mais de trezentos annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue riscava o roteiro que d’além-tumulo nos guiava! Incomparavel maravilha! Alli tinha eu na mão a rude penna com que elle traçára essas linhas! E parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que descobrira; a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente lançadas; a penna informe escorregando-lhe da mão; a treva da noite enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento dado ainda aos seus, á terra d’onde partira n’um galeão, ao Rei que servia com indomada fé; por fim a morte, o lento e sereno resvalar para a morte, n’aquelle immenso silencio e na immensa solidão!

Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas e energicas feições do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera nos braços. Talvez imaginação. Em todo o caso elle alli estava, o primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me fallára, estendendo os olhos já embaciados para os distantes seios de Sabá. Alli estava; e provavelmente lá está ainda, lá estará, através dos seculos que hão de vir, para espantar outros aventurosos homens como nós, se jámais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa e solitaria tumba!

--Vamos embora! Exclamou o barão, muito pallido.

Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficára na mesma postura, com os joelhos á bôca, os braços apertados em volta dos joelhos:

--Dêmos uma companhia ao pobre morto, para dormir n’este esquecimento.

Erguemos então o cadaver de Venvogel e collocámol-o sentado na pedra, junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o barão quebrou a corrente que pendia do pescoço de D. José da Silveira, e guardou o crucifixo no seio. Eu proprio tomei o osso em fórma de lapis. Aqui o tenho ao meu lado, emquanto estas linhas escrevo. Ás vezes assigno com elle o meu nome.

Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo d’outras eras e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e retomámos em fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como elles, gelados e hirtos, n’um barranco da serra.

Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim á extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o «bico do peito». E foi uma grande emoção. Por baixo de nós, adiante de nós, estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para além das serras, que nós vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob um denso nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos então um pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois outras camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos famintos uma campina de herva verde, um regato correndo através, e á beira d’agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos pareceram antilopes.

A nossa alegria--foi como a d’uma resurreição. Caça! Alli estava caça para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a vida! A difficuldade era caçar--essa caça!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula--se deviamos aproximar-nos da caça ou fazer fogo d’alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel--porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina «Express», apesar d’um alcance inferior, era preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam algum dos antilopes.

Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! Salvos! De fome já não morriamos! Corremos aos trambulhões pela neve abaixo:--e em poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o coração do animal, quentes e fumegando!

Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caça?

--Gente faminta não tem exigencias! Gritou excitadamente o capitão John. A ella, e crúa!

Não restava outra solução--e não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as visceras na neve, lavámol-as na agua corrente--e devorámol-as com voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne crúa me soube divinamente! D’ahi a um quarto de hora, que mudança! Voltára-nos a vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim sentia positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!

O barão apertou as mãos, e disse simplesmente:

--Louvado seja Deus por isto!

Ficámos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, n’um sorriso mudo. E não havia em nós outra sensação--senão a de estarmos salvos, de estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dôcemente no sol, que subia macio e tepido. Quando acordámos, e esfregámos os olhos, o nevoeiro desapparecera. Toda a vasta região em baixo nos appareceu n’um relance. Demos um grande ah, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e da fome passada, parecia-me que morrera, que chegára ao Paraiso, e que o Senhor nos ia apparecer!

Estavamos no planalto d’um dos «Seios de Sabá», com um dos «bicos do peito» erguendo-se por traz de nós até ás nuvens, sublime e brilhante de neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, n’uma profundidade de cinco mil pés; e para além das derradeiras faldas, a perder de vista, eram leguas e leguas d’uma terra esplendidamente fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante nós como um immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim abrangidos n’um relance, davam a impressão d’um paraiso resumido onde Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente se póde detalhar uma paizagem tão formosa e vária. Aqui alastrava-se uma vasta mancha de floresta; além um rio ondulava com vivos brilhos d’aço novo; para diante longas pradarias tapetavam o sólo de verde tenro e claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre as rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensação prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava illimitadamente a alegria do seu fulgor d’ouro.

Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella região tão rica estivesse pelo menos cinco mil pés acima do nivel do deserto. E depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado opposto ao sertão, indo unir-se ao magnifico rio que se perdia no horisonte azulado.

Nenhum de nós fallava, arrobados na contemplação d’aquella incomparavel natureza. Por fim o barão estendeu o braço:

--Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de Salomão, não é verdade? Pois lá está, além, para a direita...

E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo dos nossos pés, branquejava uma grande estrada! Tinhamos já perdido toda a faculdade de admirar. E a nenhum de nós pareceu estranho, que, no topo d’uma montanha, no centro d’Africa, a centos de leguas de toda a sciencia e civilisação, houvesse uma estrada, com as proporções e grandeza d’uma velha via romana, branca como neve, talhada sobre os abysmos.

--O melhor é descermos, disse simplesmente o capitão John.

A estrada ficava (como disse) á nossa direita, surgindo por traz de grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortámos para lá, devagar, ora através de grandes espaços de neve, ora por sobre montes de lava. Quando dobrámos por fim as penedias, avistámol-a de repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na rocha viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia começar alli, ao meio da serra, bruscamente. Continuámos a descida alvoroçados, pozemos emfim os pés sobre as suas fortes lages. Olhámos, explorámos em redor. A estranha via findava com effeito alli, na serra, entre umas rochas de lava entremeadas de neve!

--Extraordinario! Exclamou o barão. Porque começa esta estrada assim, ou porque acaba assim, de repente, no meio da serra?

Abanei a cabeça, em perfeita ignorancia.

--Parece-me que percebo, disse o capitão coçando o queixo. Esta estrada é simplesmente maravilhosa! Não acaba aqui. Antigamente galgava a cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para além, foi coberta por montões de lava, n’alguma erupção: e a parte que cortava o deserto foi invadida pelas areias movediças. Não póde ser senão isto.

Talvez fosse. Em todo o caso largámos os passos por sobre essa surprehendente estrada que tinha o nome de Salomão. Esta suave descida por uma magnifica calçada, com as forças restauradas, e a abundancia a esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e com a afflictiva incerteza do que estaria para além. Na verdade, se não fosse a triste lembrança do pobre Venvogel e da sinistra cova, onde elle espectralmente ficára ao lado do velho fidalgo d’outras eras, poderiamos cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se tornava mais macio e tepido:--e a região em torno parecia crescer para nós, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, era positivamente portentosa. Affirmava o barão que tinha semelhanças com a estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim não vira maravilha maior! N’um certo sitio abria-se uma ravina medonha, d’uns trezentos pés de largura, d’uma profundidade de mais de cem pés: pois este abysmo estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba segurança. N’outros sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios, com parapeitos que a defendiam e formavam balcões sobre o abysmo. Mais adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas.

Nas paredes d’este tunnel corriam singulares relevos representando guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanças em confusão, e captivos acorrentados.

--Tudo isto é obra egypcia, dizia o barão parando a cada instante. Tudo isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada virá de Salomão. Mas estas esculpturas são das mãos de egypcios.

Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha até ás faldas baixas onde começava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros arbustos silvestres. Depois a estrada penetrava n’um bosque de olmos, uns olmos cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha só existirem no Cabo.

--Estamos ao menos em terra de lenha! Exclamou enthusiasmado o capitão John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim já digeri aquella carne crúa... Reentremos solemnemente na civilisação!

Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em direcção a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem depressa fizemos um fogo de ramos sêccos; e, cortando succulentos bifes do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de espetos de pau, á velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso repasto accendemos os cachimbos--e estirados á sombra das frescas arvores, gozamos emfim, depois de tão longos e duros dias, um repouso perfeito.

O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e além cresciam tufos de flores. Uma brisa tépida e macia como velludo susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que joias.

Nenhum fallava, no enlevo d’aquella paz e d’aquella doçura. E por muito tempo nenhum de nós se moveu--até que o capitão John, surgindo de repente nú do leito espesso de fetos onde se enterrára, correu para o riacho, e mergulhou n’um longo e ruidoso banho. Deitado de costas, n’um bem-estar indizivel, occupei-me então a observar aquelle homem admiravel, que, apenas se achava n’uma região d’ordem, retomava os seus complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se á beira do regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta barrela sacudiu, escovou, esticou as calças, o collete, o jaquetão, dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou ás botas, que esfregou com uma mão cheia de feto, e depois besuntou com gordura de antilope (que pozera de lado) até lhes dar uma apparencia comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de monoculo fixo e cabeça á banda, encetou outras e mais delicadas operações. D’um pequeno sacco que trazia na mochila tirou um espelhinho e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba já grossa d’oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque abanava a cabeça com desconsolação e tédio. Começou então pelas unhas que aparou e poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente, com uma idéa, calçou as botas que puzera ao lado; e assim, de botas, com as pernas núas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir pendurar o espelhinho n’um ramo d’arvore. O arranjo não provou satisfatoriamente, porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o espelho n’uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a mão no sacco e tirou uma navalha de barba... «Santo Deus! Pensei eu erguendo-me no cotovêlo, o homem irá fazer a barba?» Ia. Tomando outra vez o pedaço de gordura de antilope com que ensebára as botas, lavou-a escrupulosamente no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e principiou a rapar o pêllo aspero de dez dias. Era porém uma operação difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado d’um angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando, de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da cabeça.

John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma margem do regato, a distancia d’uns trinta passos, dei com os olhos n’um bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente robusta, e côr de cobre.

Alguns d’elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na cabeça umas corôas de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em frente do bando, um rapaz d’uns dezesete annos conservava ainda o braço erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d’uma estatua que eu vira no Cabo, um Ephebo grego que lança um dardo.

Evidentemente a coisa que passára e brilhára era um dardo--e fôra o moço airoso que o arremessára.

Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu d’entre o grupo, e, agarrando o braço do rapaz, fallou-lhe baixo como se o avisasse. Em seguida todos avançaram para nós.

O barão, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as carabinas. Os homens todavia continuavam avançando, devagar, em grupo. Percebi logo que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim tranquillamente os tres canos erguidos. --Baixem as armas! Gritei aos outros.

Tinha comprehendido tambem que a nossa segurança entre essa gente selvagem dependia toda de conciliação e de ardil. Apenas pois os companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho.

--Bem vindo! Exclamei em Zulú, ao acaso, sem saber que idioma entenderiam aquelles homens.

Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, não em Zulú, mas n’um outro dialecto, tão parecido com o Zulú, que Umbopa e eu o percebemos perfeitamente:

--Bem vindo!

Como viemos a saber depois, a lingua d’este povo era uma fórma antiquada da lingua Zulú--e estando para o Zulú do sul como o inglez do tempo dos Tudores está para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto o velho avançára outro passo, erguendo a mão.

--D’onde vindes? Continuou elle. Quem sois? Porque tendes tres de vós as faces brancas, e o outro a pelle como nós e como os filhos de nossas mães?

E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela côr, pelas feições, era muito semelhante áquelles homens formidaveis. Eu então repeti a saudação ao velho. E, muito espaçadamente, para que elle apanhasse bem o meu Zulú:

--Somos gente d’outros sitios, vimos em boa paz, e este homem é nosso servo.

O velho abanou lentamente a cabeça, ornada de immensas plumas negras que ondulavam.

--Mentes! A gente d’outros sitios não póde atravessar as montanhas, nem o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas não importa que mintas... Se sois estranhos e vindes d’outros sitios, tendes de morrer, porque não é permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. É a vontade do nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes!

Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens levarem logo a mão ao cinto d’onde lhes pendiam umas armas em fórma de pesadas navalhas.

--Que diz esse malandro? Perguntou o capitão, percebendo o meu embaraço.

--Diz simplesmente que nos vai retalhar á faca.

--Santo Deus! Murmurou o nosso amigo.

E, como era seu costume, em frente d’um perigo ou d’uma crise, passou nervosamente a mão pelo queixo e pelos beiços. Alguma coisa decerto lhe succedeu então á dentadura postiça (que momentos antes tirára para lavar e que tornára a pôr), porque n’um relance lhe vi os dentes todos de fóra, e logo sumidos para dentro! Não percebi bem o caso. Mas qual é o meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para traz, em tropel!

--Que foi? Exclamei.

--Foram os dentes! Acudiu o barão, excitadamente. Os selvagens viram-lhe os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez os assustes.

O capitão promptamente comprehendeu, passou a mão devagar por sobre a bôca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n’uma ancia de curiosidade, avançavam de novo, com os olhos arregalados para John. E foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mão, com solemnidade:

--Quem é este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas núas, cabello só em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem é elle que faz mexer assim á vontade os dentes para dentro e para fóra da bôca?

--Abra a bôca, John! Murmurei eu baixo para o capitão.

John arreganhou os beiços, e exhibiu duas gengivas muito vermelhas, desdentadas como as d’um recemnascido. Entre os selvagens passou um susurro d’espanto.

--Onde estão os dentes? Ainda agora tinha dentes! Exclamavam elles, entre si, com gestos apavorados.

Então John deu um movimento vagaroso á cabeça, passou a mão pela bôca com soberana indifferença, e desfranzindo de novo os beiços--mostrou duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sãos, que rebrilhavam.

No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o chão, com gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces com as mãos, n’um terror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia tanto, e tão encolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro.

Só quem conhece selvagens e a mobilidade d’aquellas imaginações infantis póde comprehender como subitamente, em cada um d’elles, ao desejo de nos matar ia já succedendo o impulso de nos adorar... Quando o velho tornou a levantar a voz, foi muito humildemente e n’uma postura de supplica:

--Vós sois Espiritos! Bem vejo que sois Espiritos, oh gentes! Nunca houve homem nascido de mulher que tivesse só cabello n’um lado da cara, e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e de repente crescem outra vez... Vós sois Espiritos. Perdoai-nos, senhores, perdoai-nos!

Aproveitei logo esta esplendida occasião. E estendendo o braço, com soberba magnanimidade:

--Estaes perdoados.

Era porém necessario, para nossa salvação, que deslumbrassemos e inteiramente nos apoderassemos d’aquellas almas ferozes e simples. E para isso, n’Africa (como n’outras partes) o mais prompto instrumento é o sobrenatural. Não hesitei portanto (com vergonha o confesso) em me attribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem divina! De resto, com o negro da Africa Central, que pela primeira vez vê o branco, e assiste a alguns dos milagres que o branco póde realisar com os pequenos recursos da sua pequena civilisação, este procedimento é o mais seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos por algum tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razoavel e tratavel; e assim, poupando ao negro as traições, os brancos poupam a si proprios as represalias.

Ergui pois a mão, e disse, com vagar e magestade:

--Já que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tambem em vos dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos além, por cima das nuvens, n’uma d’aquellas estrellas que vós vêdes de noite brilhar. E viemos visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos!

Entre os indigenas correram grandes ah! ah! Lentos e maravilhados.

Eu prosegui, mais grave:

--Nós conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que sou a voz dos outros, conheço todas as linguas.

--A nossa bem mal! Arriscou com timidez o velho guerreiro.

Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para fazer uma diversão brusca áquella observação tão justa e perigosa:

--Viemos em paz, é certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez devessemos castigar já o ultraje feito por esse moço, que sem provocação atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e cahem.

--Oh não! Meu senhor! Gritou n’uma anciosa supplica o velho guerreiro. Poupai-o! Poupai-o, que é o filho do nosso rei! Eu sou seu tio, que o ajudei a crear. Só eu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos!

Affectei não comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com superior indifferença:

--As nossas maneiras de castigar são simples e terriveis. N’um instante ides vêr... Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para Umbopa), dá-me a arma de feitiços que troveja.

Umbopa, que assistira absolutamente impassivel e serio a todas as minhas affirmações de divindade, e que (Zulú intelligente, afeito aos brancos e ás suas manhas) lhe percebera o alcance--estendeu-me uma carabina Winchester, com humilissima reverencia.

Justamente n’esse instante avistei, para além do riacho, a umas setenta jardas de distancia, um pequeno antilope, immovel sobre um montão de rochas.

--Vêdes aquelle gamo? Exclamei eu para os selvagens. Julgaes possivel que um simples homem, nascido do ventre da mulher, o mate d’aqui d’onde estou, só com fazer estalar um pequeno trovão?

--Não é possivel! Murmurou recuando o velho guerreiro. Não é possivel para homem nascido do ventre da mulher!

--Ides vêr.

Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou morto, immovel, estatelado nas pedras.

Um fundo murmurio de assombro, de terror, passou entre os Kakuanas... Eu accrescentei simplesmente:

--Ahi está. E se tendes fome, podeis ir buscar aquelle gamo!

O velho fez um signal. Dois homens correndo trouxeram a caça. E amontoados em volta d’ella, todos em silencio (n’um silencio que era religioso pelo pavor que continha), ficaram contemplando boqui-abertos o buraco da bala que lhe acertára entre os hombros.

--Se não estaes satisfeitos, volvi eu ainda, se em vez d’um gamo me quereis vêr matar um homem, que um de vós se colloque além sobre as pedras ou mais longe, e o raio irá ter com elle.

Houve um movimento geral dos Kakuanas, recuando e protestando.

--Não! Não! Gritaram alguns. Acreditámos, acreditámos... Não vale a pena gastar feitiços com nós outros, que acreditámos e que somos amigos!

O velho guerreiro interveio, com alacridade:

--Assim é! Nós somos amigos. E para que nos conheçaes bem, oh almas das estrellas, que trovejaes e mataes tão de longe, sabei que eu sou Infandós, filho de Kafa, antigo rei dos Kakuanas. Este moço é Scragga, filho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos Kakuanas, terror dos seus inimigos, sentinella da Grande-Estrada, sabedor das artes negras, chefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo, Tuala o d’um-só-olho...

--Basta, interrompi sobranceiramente. Leva-nos então ao rei Tuala. Porque, nas nossas jornadas pelo mundo, nós só fallamos a reis!

--Certamente, meu senhor, certamente... Mas nós andavamos caçando n’estes sitios, e estamos a tres dias de jornada da aringa do rei. São tres dias que tendes de caminhar.

--Caminharemos. Escuta tu, porém, Infandós, e tu, Scragga, filho de Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma traição, ou se essa idéa vos atravessar sequer a cabeça, nós, que tudo adivinhámos, tomaremos de vós tal vingança que fará ainda estremecer os filhos de vossos filhos. Aquelle cujo olho reluz, e cujos dentes vão e vêm, incendiará todas as vossas searas com a chamma do seu olho, e despedaçará todas as vossas carnes com as pontas das suas presas! E nós faremos resoar os canos que trovejam d’uma maneira que será pavorosa! Toda a agua seccará. Todo o gado morrerá. E os espiritos maus virão, á nossa voz, dispersar os vossos ossos... E agora a caminho.

Esta tremenda falla era quasi superflua--porque os nossos novos amigos acreditavam superabundantemente nos nossos poderes sobrenaturaes. Ainda assim o velho Infandós saudou-nos com uma reverencia mais funda e mais servil, repetindo tres vezes estas palavras: Krum! Krum! Krum! Como depois soubemos, é esta a maneira kakuana de saudar o rei. Corresponde ao Bayète! Dos Zulús.

Depois o velho atirou um gesto aos seus, que immediatamente carregaram ás costas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras miudezas--excepto as espingardas, de que elles se afastavam em grandes voltas e com olhares de terror.

Um d’elles lançou mão ao fato do capitão John, ainda cuidadosamente dobrado á beira d’agua. O excellente John deu logo um pulo para as calças. E rompeu então uma immensa altercação.

--Não, meu senhor, gritava Infandós, não consentirei que o meu senhor carregue com essas coisas!

--Mas é que eu quero pôr as calças! Berrava John.

--Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar...

--Mas as calças...

--Meu senhor!...

--Larga as calças, malandro!

Tive de intervir, suffocado de riso.

--Escute, John. O caso é mais serio do que parece. Um dos motivos do terror que estamos inspirando é a sua luneta, a sua cara meia barbada e meia rapada, os seus dentes postiços, e essas pernas brancas á mostra... Tudo isso espanta as imaginações de selvagens. E se o amigo quer que não nos percam o medo, é necessario continuar a apparecer-lhes n’essa figura. Se o amigo lhes surgir ámanhã d’outro modo, tomam-nos por impostores, e a nossa vida não vale mais um pataco. Assim o viram n’esta terra, assim n’ella tem de ficar.

John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o barão:

--O amigo Quartelmar tem razão, affirmou o barão. E dá graças a Deus que já estavas de botas, e que a temperatura é tão dôce.

John teve um suspiro de furiosa resignação. E, durante a nossa estada na terra dos Kakuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou notaveis feitos--de botas, de pernas núas, com uma metade da cara rapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento!

CAPITULO VI

PENETRAMOS NO REINO DOS KAKUANAS

Toda essa tarde trilhamos a larga, magnifica estrada que seguia infindavelmente para o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam adiante (uns cem passos) como vedetas. Outros seguiam levando as nossas bagagens. Nós iamos no meio, entre Infandós e Scragga.

Pouco a pouco, Infandós e eu descahimos n’uma palestra familiar e amigavel. O velho era esperto e loquaz.

--Quem fez esta estrada, Infandós?

--Foi feita ha muito tempo, meu senhor. Ninguem sabe quando; nem mesmo uma mulher que tudo sabe, Gagula, que tem vivido através de gerações... Já ninguem póde fazer estradas assim... Mas o rei não consente que se desmanche, nem que lhe cresça a herva por cima.

--E ha quanto tempo vivem aqui os Kakuanas, Infandós?

--A nossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que estão para além (indicava o Norte) ha mais de dez mil milhares de luas. Para baixo não puderam seguir, segundo diziam nossos avós, que o disseram a nossos paes, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe. Não puderam por causa das altas montanhas que estão em redor, e do deserto onde tudo morre. De modo que, como a terra era fertil, aqui assentaram; e tantos e tão fortes se tornaram que agora, quando Tuala, nosso rei, chama os seus regimentos, o chão treme todo com o seu peso, e até onde a vista alcança só se vêem plumas de guerreiros e lanças.

--Mas se a terra está murada de montanhas, e se não tendes visinhos, para que são tantos soldados?

--A terra está aberta para além (e indicava o Norte). E ás vezes descem de lá multidões, que não sabemos quem são, e que nós destruimos. Já correu a terça parte d’uma vida de homem desde a ultima guerra. Depois houve outra guerra, mas foi entre nós, irmão contra irmão.

--Como foi isso, Infandós?

Infandós começou então uma d’essas historias de pretendentes e de guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae d’elle, Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da primeira mulher (elle, Infandós, era filho d’uma concubina) dois gemeos. Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja sempre destruido. Mas a mãe, por piedade e amor, escondeu o gemeo mais fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo n’uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se chamava Imotú, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher favorita um filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passára a guerra com os povos do Norte: os campos não tinham sido semeados; veio uma fome; e havia grande miseria e dôr entre o povo, que, como uma fera esfaimada, rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para despedaçar. Foi então que Gagula, a mulher que tudo sabe e que não morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que Imotú reinava sem ser rei. Imotú a esse tempo estava doente na sua cubata, com uma ferida. Começou a correr um clamor entre o povo. Por fim, Gagula um dia reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a mãe tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis são marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se enrosca em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a cabeça e o rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: «Eis o vosso verdadeiro rei, que eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora!» O povo, tonto de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real, largou a bradar: «Este é o rei! Este é o rei!» Alguns sabiam bem que não--e que n’este só havia impostura. Mas n’esse momento, ouvindo os alaridos, o rei Imotú sae doente e tropego da sua cubata, com a mulher e com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e porque pediam elles «o rei!» Immediatamente Tuala, o irmão, corre para elle e crava-lhe uma faca no coração! E o povo, que as acções decididas e bruscas sempre fascinam, gritou logo: «Tuala é rei! Tuala provou que é rei!» Diante d’isto a pobre mulher de Imotú agarrou o filho, o seu Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n’uma aringa, pedindo de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais voltou.

--De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra, que Tuala não é o verdadeiro rei.

O velho respondeu com prudencia:

--Tuala, o grande, é rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, só esse tinha o legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe marcada em torno da cinta. O rei é elle. Sómente decerto ha muito que Ignosi morreu...

Casualmente n’esse instante, voltando-me para fallar aos camaradas que marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os calcanhares, absorto n’aquella historia de Imotú e de Ignosi, com uma curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado, lhe davam a expressão de quem de repente lembra coisas vagas, remotas, semi-esquecidas, perturbadoras. N’essa occasião permaneci indifferente. Mas, depois, através da jornada, muitas vezes pensei n’aquella anciosa, esgazeada curiosidade do Zulú.