No emtanto já trilharamos algumas fortes milhas d’estrada. As montanhas de Sabá ficavam para traz envoltas nos seus mysticos véos de nevoa. E o paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico.
Ao começo da tarde avistámos emfim uma grande povoação,--que, segundo Infandós nos declarou, pertencia ao seu commando militar e continha uma vasta guarnição. O velho guerreiro mandára mensageiros adiante, correndo, n’um passo de gazella, a annunciar a nossa vinda. E quando nos aproximámos da aldêa, descobrimos com effeito, sahindo das portas e marchando ao nosso encontro, densas companhias de soldados.
O barão tocou-me no braço, com um receio que «as coisas se apresentassem desagradavelmente». Infandós decerto comprehendeu, pelo tom, pelo franzir de sobrancelhas do barão, o sobresalto que o tomára (e a mim), porque acudiu anciosamente, com redobrada reverencia:
--Que os meus senhores não suspeitem de mim! Aquelle é um dos regimentos que eu commando! Mandei-o sahir e desfilar, para prestar as honras aos que vêm do mundo das estrellas...
Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indifferença. Realmente estava bem inquieto!
A povoação ficava á direita da estrada, separada d’ella por um declive de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formára em parada. Havia alli talvez uns tres mil homens. E quando nos acercámos, podémos vêr com admiração e assombro, de que esplendida, de que formidavel raça eram estes guerreiros kakuanas! Nenhum media menos de seis pés d’altura; e todos eram veteranos de quarenta annos, ageis, experientes, prodigiosamente robustos, endurecidos por exercicios perpetuos. Sobre a cabeça todos traziam a corôa d’altas e pesadas plumas negras, sempre tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um saião feito de rabos de boi, muito juntos uns aos outros e brancos; e no braço esquerdo sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos de couro pintado de branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante á dos Zulús--e tres facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo), facas enormes que elles chamam tollas e que arremessam a distancias de cincoenta jardas e mais, com uma certeza terrivel.
As companhias conservavam-se mais immoveis que estatuas de bronze. Mas, á medida que iamos passando em frente d’ellas, cada official (que se distinguia por uma capa de pelle de leopardo) dava um signal: e os homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a saudação real, a grande voz: «krum! Krum! Krum!»
Assim penetrámos na povoação ao rumor de acclamações. A aldêa devia ter uma milha de circumferencia; e era defendida por um largo fosso e por uma alta estacada feita de troncos d’arvores. Na porta central, do lado da estrada, havia uma ponte levadiça.
Parecia uma aldêa admiravelmente bem ordenada. Ao centro, entre arvores, corria uma ampla, extensa rua, cortada em angulos rectos por outras mais estreitas, formando séries de quarteirões, cada um dos quaes alojava uma companhia. As cubatas, redondas, feitas d’uma grossa verga entrelaçada, findavam á maneira das dos Zulús por tectos de colmo em fórma de zimborio agudo: mas, differentes n’isto das dos Zulús, tinham uma porta, larga e facil, e eram cercadas por uma varanda, cujo chão de cal dura rebrilhava ao sol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de mulheres, que tinham corrido de todas as cubatas para nos admirar. Era uma bella raça de mulheres--altas, airosas, esplendidamente feitas, com o cabello mais ondeado que encarapinhado, as feições por vezes aquilinas, e os beiços sempre finos. Mas o que mais nos impressionou foi o seu ar grave e serio. Nem pasmo selvagem, nem risos, nem injurias, ao vêrem-nos desfilar, tão estranhos e differentes de todos os homens que até ahi tinham encontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou uma exclamação: apenas os largos olhos negros se lhes arregalavam para as pernas niveas do pobre amigo, que, roído de vergonha, praguejava baixo.
Quando chegámos ao centro da aldêa, Infandós parou em frente d’uma espaçosa e rica cubata, cercada de dependencias menores, entre arvoredo. E com palavras grandiosas, á maneira dos Zulús, offereceu-nos a hospitalidade:
--Aqui habitareis, meus senhores. E não tereis de apertar o ventre com fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vaccas, alguns carneiros. Não é muito, oh Espiritos! Mas é dado por corações, que se regosijam de vos vêr.
--Bem, bem, Infandós, murmurei eu. O que precisamos sobretudo é descançar, fatigados da nossa descida através dos espaços e dos reinos do ar...
A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no chão, grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua. D’ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu á porta um bando de raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e atraz dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou.
Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa passou a cozer a carne n’uma panella de barro, sobre uma alegre fogueira accesa á porta da cubata: e nós mandamos convidar Infandós e Scragga para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer, se não encruzavam no chão á maneira dos Zulús--mas se sentavam em pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados ás paredes. O jantar foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia doçura e respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para nós, e para cada um dos nossos gestos, com singular desconfiança. Talvez, ao vêr que nós comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana, começava a suspeitar da nossa origem divina. Não me agradou este sentimento, tão real e logico. Que nos poderia assegurar as vidas, perdidos entre aquellas turbas negras, senão o terror supersticioso?
Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos d’espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos Zulús, a planta do tabaco cresce em abundancia--mas elles só a sabem usar torrada e sêcca, pulverisada. Só conhecem o rapé.
No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infandós já tudo organisára para que ella continuasse na madrugada seguinte, mandando adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala estava então na sua grande cidade de Lú, preparando-se para a revista de tropas, a dança das flores, e «caça aos feiticeiros», que constituem a maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana de junho. E segundo affirmava Infandós, nós deviamos (a não ser que nos detivessem os rios transbordados) entrar as portas de Lú ao fim de dois dias de marcha.
Depois, como começavam a luzir as estrellas e a aldêa ia cahindo em silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de nós atiraram-se logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as traições.
Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura.
CAPITULO VII
O REI TUALA
Não me dilatarei nos incidentes da nossa jornada até Lú--que nem foram consideraveis nem pittorescos. Durante dois longos dias trilhámos a estrada de Salomão, por entre ricas terras cultivadas, e alegres povoações que nos encantavam pelo seu ar florescente e calmo. A cada instante passavam por nós troços de gente armada, regimentos emplumados marchando tambem para a cidade, para o grande festival sagrado. No segundo dia, ao pôr do sol, parámos n’uma collina, que a estrada galgava por entre dois renques d’arvores em flôr:--e em baixo, n’uma planicie deliciosamente fertil, avistámos emfim Lú, a capital dos Kakuanas.
Para cidade d’Africa era enorme,--com seis milhas talvez de circumferencia, toda ella defendida por estacadas, e rodeada de pomares e de vastas aringas onde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um largo e claro rio, vadeado por pontes. Para o norte, a duas milhas, erguia-se uma collina, que offerecia a fórma singular d’uma ferradura: e, mais longe, a umas sessenta milhas, surgiam bruscamente da planicie, em triangulo, tres serras isoladas, escarpadas, todas cobertas de neve.
--A estrada (explicou Infandós, vendo que contemplavamos com estranheza os tres montes) acaba além n’essas serras, que se chamam as Tres Feiticeiras.
--E porque acaba além, Infandós?
--Quem sabe! Murmurou o velho encolhendo os hombros. As tres montanhas estão todas furadas por cavernas. Ha no meio d’ellas uma cova immensa. É lá que se sepultam agora os nossos reis. E era alli que os homens antigos, que sabiam tudo, vinham buscar certas coisas...
--Que coisas, Infandós? Exclamei eu, cravando n’elle um olhar que o sondava.
O velho sorriu, com uma grossa malicia de negro:
--Os Espiritos que vêm das estrellas sabem decerto mais do que um Kakuana...
--Com effeito! Acudi eu, n’um tom sciente e profundo. E por isso te posso dizer, Infandós, que esses homens antigamente vinham procurar um ferro amarello que rebrilha, e umas pedras brancas que faiscam.
--Talvez fosse, talvez fosse! Balbuciou Infandós, embaraçado, afastando-se bruscamente para lançar uma ordem aos carregadores da bagagem.
--Acolá, disse eu aos companheiros mostrando as Tres Feiticeiras, estão as minas de Salomão!
Todos tres, commovidos, ficámos a olhar aquelles montes tão proximos, onde jaziam ainda talvez (se o velho D. José da Silveira contára a verdade) os mais ricos thesouros da terra... A que prodigioso momento chegára a nossa aventura!
De repente, quando assim pasmavamos, o sol desappareceu--e a noite cahiu, sem transição, visivelmente, como uma coisa tangivel. N’aquellas latitudes não ha crepusculo. A luz acaba como a chamma d’um bico de gaz que se fecha: e, n’um instante, a terra toda fica envolta n’uma cortina de treva.
N’essa occasião porém, durou pouco a escuridão, porque bem cedo a mais larga e esplendida lua que me lembro de ter visto subiu magestosamente ao céo, derramando uma tão sublime refulgencia, tão divinamente serena, que, sem saber porquê, cada um de nós tirou o chapéo, como n’um templo, ante uma imagem sagrada.
Infandós, porém, quebrou a nossa contemplação, dando o signal de descer para a cidade, que agora, batida de luar, cheia de lumes, parecia infindavel através da planicie.
E d’ahi a uma hora, tendo passado a ponte levadiça, entre piquetes de sentinellas a quem Infandós deu baixo o santo e senha, seguiamos calados pela rua central de Lú, toda ladeada de sombras d’arvores e de senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos á grade d’um pateo redondo, com o chão muito batido e duro, todo caiado de branco. Em volta erguiam-se cubatas espaçosas, cobertas de colmo. Eram alli (segundo declarou Infandós) os nossos «humildes pousos».
Cada um de nós tinha, só para si, uma cubata. Havia dentro um grande asseio. Os leitos eram feitos com pelles estendidas sobre enxergões de herva aromatica. Uma esteira tapetava o sólo. Tripeças pintadas alternavam com frescas vasilhas d’agua. Não podiamos esperar mais cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavámos, sacudimos o pó, appareceu logo um bando de raparigas, das mais bellas que até ahi encontraramos no paiz, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho em vistosos pratos de madeira.
Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas (precaução que encheu de riso as raparigas),--e não tardamos em adormecer com grata tranquillidade. Acordámos quando o sol ia nado--e a primeira e aprazivel impressão que recebemos foi a do bando das raparigas, acocoradas no chão, a um canto, á espera que despertassemos «para nos ajudar a lavar e a vestir».
Quando uma d’ellas, a mais alta (e que figura! Que braços!) fez esta amavel offerta, o capitão John teve uma exclamação, um gesto d’atroz desespero:
--Vestir! É bom de dizer! Quando uma pessoa não tem senão uma camisa e um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, ahi por essa cidade... Não! Isto não póde continuar! Eu não arredo pé d’aqui da cubata, senão de calças! Quero as calças!
Vi o meu amigo tão decidido, que reclamei as calças. Mas uma das raparigas voltou d’ahi a momentos declarando que essas sagradas e maravilhosas reliquias tinham sido já mandadas ao rei!
O furor do nosso John foi immenso. Teve de se contentar em barbear a face direita; porque na esquerda não consentimos nós que elle eliminasse um só pêllo á farta suissa que já lhe crescêra. Aquella cara espantosa, rapada d’um lado, barbuda do outro, era uma das evidencias da nossa raça sobrenatural. Todos nós, de resto, tinhamos aspectos estranhos. Os cabellos do barão, amarellos e sempre longos, desciam-lhe agora até aos hombros, n’uma juba rude, que lhe dava o ar d’um barbaro dos tempos do rei Olloff.
O almoço já esperava, fóra, no terreiro, em caçoulas que fumegavam. Mas, primeiramente, quizemos tomar o nosso tub, atirar pelas costas alguns frios baldes d’agua. E o assombro, a desconsolação das raparigas foi consideravel, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, cerrando a porta de vime...
Logo depois do almoço, Infandós appareceu annunciando que el-rei Tuala nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparencia em Palacio. Declarei immediatamente, com indifferença e altivez, que ainda nos achavamos cançados, tinhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc.
Convém sempre, tratando com potentados negros, não mostrar pressa nem respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que, apesar da nossa anciedade em vêr o terrivel Tuala, retardámos nas cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos presentes que destinavamos ao rei e á côrte: a espingarda do pobre Venvogel, um bocado de sêda, alguns fios de contas de vidro.
Afinal partimos, guiados por Infandós--e seguidos por Umbopa que levava as dadivas.
Ao fim d’um curto kilometro, chegámos a um immenso terreiro, com o chão duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma estacada baixa. Em redor, fóra da estacada, corria uma fileira de cubatas, que (segundo nos informou Infandós) pertenciam ás mulheres do rei: e ao fundo, fronteira á porta por onde entraramos, estendia-se uma construcção, uma cubata enorme, com varas e plumas espetadas no tecto de colmo, que era o palacio real. No recinto não crescia uma arvore: e todo elle estava n’esse dia cheio de regimentos em fórma, perfilados, immoveis, verdadeiramente magnificos, com os seus altos pennachos, os escudos brancos, as lanças a rebrilhar.
Em frente á cubata real ficava um espaço vasio, com uns poucos de escabellos de madeira. A convite do bom Infandós occupámos tres d’esses assentos privilegiados, tendo Umbopa por traz, de pé: e assim ficámos á espera, no meio d’um silencio absoluto, sentindo cravados sobre nós oito mil pares d’olhos sofregos. Finalmente a porta da cubata rangeu--e surgiu d’ella uma figura gigantesca, com um esplendido manto de pelles de tigre lançado sobre o hombro, e uma azagaia na mão. Atraz d’elle vinha Scragga e uma outra creatura estranha, equivoca, que nos pareceu uma macaca--uma macaca velhissima e friorenta, toda embrulhada em pelles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das tripeças de pau. Scragga permaneceu de pé, por traz, apoiado á lança. A velha macaca arrastou-se para a sombra que lançava a cubata real, e alli se acocorou lentamente.
O mesmo silencio continuava no emtanto oppressivo, afflictivo.
Então a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se, offerecendo ás vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terrifica! Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda ás vezes revejo, ante mim, aquella face horrivel com os beiços muito grossos ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o olho unico (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente brilhante, d’um brilho frio e cruel. Uma cota de malha reluzente cobria-lhe o corpo formidavel. Da cinta pendia-lhe o saião d’uniforme, feito de rabos brancos de boi. Ao pescoço trazia uma gargalheira d’ouro: e da testa, onde luzia um enorme diamante bruto, subia-lhe, ondeando no ar, um tufo esplendido de plumas d’abestruz.
O silencio ainda pesou, mais profundo, diante d’aquella presença assustadora! Mas de repente o monstro (que logo comprehendemos ser Tuala, o rei) levantou a lança no ar. Oito mil lanças faiscaram ao sol. E de oito mil peitos rompeu, atroando o céo, a grande acclamação real:--Krum! Krum! Krum!
Depois, no silencio que recahira, vibrou uma voz, agudissima, estridula, horripilante, e que parecia vir da macaca agachada á sombra:
--Treme e adora, oh povo! É o rei!
E oito mil peitos de novo atroaram o céo, bradando:
--É o rei! É o rei! Treme e adora, oh povo!
E tudo de novo emmudeceu. Mas quasi immediatamente, ao nosso lado, houve um ruido de ferro batendo sobre pedra. Era um soldado que deixára cahir o escudo.
Tuala dardejou logo o olho cruel para o sitio onde o som retinira:
--Avança tu! Berrou, n’um tom trovejante.
Um soberbo rapagão sahiu da fileira, ficou perfilado.
--Cão infernal! Rugiu o rei. Foste tu que deixaste cahir o escudo? Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que vêm das estrellas!
--Foi sem querer, oh mestre das artes negras! Acudiu o rapaz cuja pelle fusca parecia empallidecer.
--Pois, tambem sem querer, vaes morrer!
O soldado baixou a cabeça e murmurou simplesmente:
--Eu sou a rez do rei!
--Scragga! Bramiu Tuala. Mostra como sabes usar bem a lança. Vara-me aquelle cão!
O odioso Scragga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e levantou o dardo. O desgraçado tapou a face, e esperou, immovel. Nós nem respiravamos, petrificados.
«Um, dois, tres!» Scragga soltou a lança. O soldado atirou os braços ao ar, cahiu morto.
D’entre os regimentos subiu então um longo murmurio que rolou, ondulou, se esvaiu por fim no silencio.
O barão, livido de indignação, agarrára a espingarda das mãos d’Umbopa. E eu, afflicto, tive de o agarrar a elle, lembrar que as nossas vidas estavam á mercê do rei, e que eramos quatro contra todo um reino.
Tuala, no emtanto, sorria sinistramente:
--O golpe foi bom. Arrastem para fóra o cão morto.
Quatro homens sahiram da fileira, levaram o corpo.
E então a mesma voz esganiçada, sibilante, horrivel (que evidentemente era da macaca) cortou o ar:
--A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora, oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita, a vontade foi feita!
Uma rapariga sahiu de traz da cubata real com um vaso de louça, e, atirando d’elle cal ás mãos cheias, escondeu as nodoas horriveis. Tuala permanecia immovel, como um idolo.
Por fim, lentamente, voltou para nós a face medonha.
--Gente branca! Disse elle. Gente branca, que vindes não sei d’onde, nem sei a quê, sêde bemvinda!
--Bem estejas, rei dos Kakuanas! Respondi eu, com dignidade.
Houve um silencio, através do qual ficamos immoveis, sentados, com os olhos cravados no monstro.
--Gente branca, volveu elle, que vindes vós procurar aqui?
--Vimos do mundo das estrellas, oh rei! Não indagues como, nem para quê. São coisas muito altas para ti, Tuala.
O rei franziu a face, d’um modo inquietador:
--Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrellas!... Não esqueçaes que as estrellas estão longe e a minha vontade está perto... Póde bem ser que saiaes d’aqui como aquelle que agora levaram.
Era necessario ostentar um soberbo desdem da ameaça. Comecei por lançar uma risada, muito cantada (e na verdade muito forçada):
--Oh rei, tem cautela! Não caminhes sobre brazas que pódes escaldar os pés! Toca n’um só dos nossos cabellos e a tua destruição está certa. Não te disseram estes (e apontei para Infandós e para Scragga), que especie de homens nós somos, e que grandes artes temos? Viste tu alguem como nós, entre os filhos dos homens?
--Nunca vi, murmurou elle.
--Não te contaram esses como nós damos a morte de longe, através d’um trovão?
--Não creio! Exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. Mostrai-me primeiro, vós mesmos, a vossa arte. Matai um d’esses homens que estão além (apontava uma companhia de soldados magnificos junto á porta da aringa) e eu prometto acreditar!
Repliquei que não derramavamos nunca sangue de homem, senão em justo castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pateo, através dos soldados, e antes d’elle correr vinte passos, cahiria morto, de chofre. O rei rompeu a rir.
--Um boi! Um boi!... Não, matai um homem para eu acreditar!
--Perfeitamente! Exclamei eu, com tranquillidade. Ergue-te tu, oh rei, caminha através do pateo, e antes de chegares ao portal da aringa rolarás morto no chão. Ou, se não queres ir tu mesmo, manda teu filho Scragga.
A isto, Scragga deu um grito, lançou um pulo, e fugiu para dentro da aringa real.
Perante a estranha audacia com que lhe propunhamos para mostrar as nossas Artes Magicas matar um principe ou um boi, á sua escolha--Tuala ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se poisava em nós, ora no chão. Depois, n’um tom surdo:
--Bem, que enxotem uma vacca para dentro do pateo!
Dois homens, immediatamente, largaram correndo.
--Barão, disse eu ao nosso amigo, chegou a sua vez. Mate a vacca. Não quero que imaginem que só eu sei fazer as maravilhas.
O barão tomou a carabina «Express», e esperou, no fundo silencio que se alargára. Por fim, á porta da aringa houve um ruido; e vimos entrar por ella, correndo, enxotada, uma grande vacca russa. Ao avistar a multidão, o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu.
--Agora! Gritei ao barão, vendo a vacca de lado e em bom alvo.
Bum! O tiro partiu, a vacca tombou, varada no coração. De toda a enorme soldadesca se exhalou um murmurio de admiração e terror.
--Então menti, rei Tuala? Exclamei eu, fitando o monstro com altivez.
--Não, é verdade, rosnou elle.
Baixára o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com soberana confiança:
--Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence. Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a estilhaços. Escuta! Manda cravar além no chão, com a ponta do ferro voltada para cima, essa lança que tens na mão, a tua propria lança, que nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei!
Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no chão, ao fundo da aringa, a lança real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.
--Bem, disse eu. Agora vê em que estilhas vai ficar a tua lança invencivel.
Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lança e separou-a em bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou através do terreiro.
Dei então um passo para o rei, com a carabina na mão.
--Tuala, este tubo magico que troveja e destroe é um presente que te fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos traição em ti, esse proprio tubo se voltará contra o teu peito, e serás como a vacca morta ou como a lança partida. Aqui tens.
E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiança, com uma sêcca antipathia, e pôl-a no chão, aos pés, devagar.
N’esse instante aquella figura estranha que o acompanhára, e que me parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei, ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites conhecidos da vida humana. A face que voltou para nós estava reduzida ao tamanho d’uma facesinha de creança, d’uma creança d’um anno, toda em rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem entalhadas em marfim. A bôca já se não via, de sumida, entre o queixo sahido para fóra e extremamente agudo--e a testa proeminente, livida, com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabeça de facto pareceria a d’um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes não refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal d’aquelle semblante estava no craneo, todo nú, pellado, liso como uma bola, e a que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem o capello.
Não se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de horror. Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois estendeu lentamente um braço descarnado, a mão sêcca de Parca, verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e começou, n’uma voz silvante que regelava:
--Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, céos, coisas vivas e coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro de mim e eu vou prophetisar!
As syllabas findaram n’um uivo longo e triste. Toda a multidão que enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas vezes na Africa os esgares e as declamações das feiticeiras, senti não sei que peso no coração. A velha era decerto terrifica.
--Som de passos, som de passos que vem! Proseguiu ella, com a garra tremula no ar. São os passos da gente branca que vem de longe! É a terra que treme sob os passos dos brancos. Cheiro a sangue, cheiro a sangue! São rios de sangue que vão correr. Eu já os vejo, já os sinto. Toda a terra está vermelha, todo o céo fica vermelho! Os leões lambem sangue por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria!
Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um grito longo, como uma ululação sepulchral.
--Sou velha! Velha! Velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de vêr correr muito ainda, e dançar de gozo! Que idade pensaes vós que eu tenho? Os vossos paes já me conheceram; e os paes dos vossos paes; e os outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi muitas coisas. Já vi o branco, e sei o desejo que elle tem no coração. Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras nas rochas? Não sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui antes de vós virdes, que voltará e vos destruirá, e ficará aqui quando vos fôrdes como a nuvem de pó que passou!
E de repente, deu um passo, com os dois braços, as duas garras recurvas estendidas para nós:
--Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vós? Não está aqui. E o que veio, ha muito, ha muito, veio só para morrer. São as pedras que brilham que vós procuraes? Eu conheço o vil desejo do coração do branco. Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas voltareis vós ás estrellas, ou ficareis aqui commigo?
Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas garras estendidas pareciam querer despedaçar:
--E tu, tu que tens a pelle escura, quem és, que procuras aqui? Não as pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te conheço! Oh céos! Oh montes! Serás tu?... Eu conheço, eu conheço pelo cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura...
Um momento, ficou como esgazeada em face d’Umbopa. E subitamente, batendo os braços no ar, cahiu no chão, como morta.
Um bando de raparigas surdiu da cubata, levou nos braços a feiticeira. Tuala erguera-se sombriamente. Todo elle tremia. Lançou um gesto:--e uns após outros os regimentos começaram a desfilar, até que todo o pateo ficou vasio e rebrilhando ao sol.
Então Tuala voltou-se para nós, com a face pavorosamente franzida:
--Gente branca! Gagula annunciou males estranhos! Está-me a parecer que vos devo matar.
Eu sorri, com superioridade.
--Oh rei, tu viste a vacca. Queres tu ser como a vacca?
--Oh gentes, vós ameaçaes o rei! Volveu elle, cerrando os punhos.
--Não ameaço. Digo só que tão facil é ás nossas Artes matar uma vacca como matar um rei. Pensa e treme, Tuala!
O enorme bruto levou os dedos á testa, reflectindo.
--Ide em paz! Disse por fim. Esta noite é a Grande Dança. Vireis e vereis. Não tenhaes medo que eu vos arme ciladas. E ámanhã decidirei.
--Está bem, Tuala, gritei eu, com um grande gesto.
E acompanhados por Infandós, recolhemos á nossa aringa.
Quando chegamos ás cubatas, depuz n’um escabello o rewolver, e voltando-me para Infandós que entrára comnosco:
--O teu rei Tuala é um monstro, Infandós!
O velho guerreiro teve um suspiro.
--Ai de mim! Toda a nação geme com as suas crueldades, meu senhor! Vereis esta noite. É a grande caça aos feitiços; vem Gagula e as suas farejadoras farejar, adivinhar quem são, d’entre os guerreiros e o povo, os que meditam ou já commetteram feitiços e maleficios. Se o rei appetece o gado de um visinho, ou o detesta, ou teme que elle se lhe torne infiel, Gagula ou uma das farejadoras aponta para esse homem, e o homem é logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha vez. Até aqui Tuala tem-me poupado em respeito á minha experiencia das armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala é cruel, a terra toda soffre e está cançada d’elle!
--Mas, pela luz das estrellas, porque não depondes vós ou mataes essa féra?
Infandós encolheu os hombros:
--É o rei!... E o filho que lhe succederia, Scragga, tem ainda o coração mais negro, pesaria sobre nós com mais furor. Se Imotú não tivesse sido morto, e se Ignosi, o filhinho d’elle, não tivesse acabado tambem no deserto com a mãe, então havia uma esperança no reino! Mas assim...
De repente (e ainda me parece incrivel que eu tivesse assistido a lance tão romanesco, tão semelhante aos que se lêem nos contos de grande enredo)---de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata:
--E quem te diz a ti que Ignosi morreu?
Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa.
--Que queres tu dizer? Que tens tu a fallar, rapaz? Gritou Infandós que, como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades.
Umbopa deu para nós um passo lento:
--Escuta, Infandós. Não é verdade que o rei Imotú foi morto, e que a mulher e o filho desappareceram? Não é verdade que correu então voz de ambos se terem perdido e morrido nas montanhas?
Com um gesto, Infandós concordou.
--Escuta! Nem a mãe nem o filho morreram. Galgaram as montanhas, atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram de novo em terras de relva e agua, viajaram durante muitas luas, e foram ter a um povo dos Amazulus que é da raça dos Kakuanas. Escuta ainda! O filho cresceu, a mãe morreu. O filho cresceu, e serviu nas guerras dos Amazulus. Depois foi ao paiz dos brancos e aprendeu as artes dos brancos: trabalhou com as suas mãos, meditou dentro do seu coração: e sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou serviço com elles, atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de neve, pisou terra dos Kakuanas--e está na tua presença, Infandós!
E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou nú diante de nós, com os braços abertos, gritando:
--Sou Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas!
Infandós precipitára-se sobre elle, com os olhos fóra das orbitas, a examinar-lhe o ventre onde corria, n’uma tatuagem azul, o desenho d’uma cobra que lhe dava volta á cinta e juntava a bôca com o rabo logo abaixo do umbigo. Esta tatuagem é a marca, o emblema real, que se grava a tinta azul, logo ao nascer, no legitimo herdeiro do reino. E a evidencia lá estava, certamente irrecusavel, porque Infandós cahiu sobre os joelhos, bradando:
--Krum! Krum! É o filho de Imotú! É o rei! É o rei!
Umbopa acudiu:
--Ergue-te, meu tio Infandós, que ainda não sou rei! Mas com a tua ajuda, e a d’estes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize pois. Queres pôr a tua mão na minha e ser o meu homem? Queres correr commigo os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o coração de féra? Dize.
O velho Infandós pousou dois dedos na testa e pensou. Depois tornou a ajoelhar diante de Ignosi, pôz a sua larga mão na mão d’elle, e murmurou, lentamente, como na formula de um ceremonial:
--Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas, ponho a minha mão na tua mão, e até morrer sou teu homem!
Nós, de pé, em redor, ficaramos verdadeiramente attonitos! O barão e o capitão John só muito vagamente comprehendiam o maravilhoso lance. Tive de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exhalavam o seu assombro em exclamações, contemplando Umbopa--quando elle nos interpellou, com um gesto que começava a ser regio:
--E vós, homens brancos de quem comi o pão? Quereis vós ajudar-me tambem? Nada tenho que vos offerecer em troco do vosso braço forte. Mas essas pedras brancas que reluzem, e que vós amaes, se, como rei, eu as vier a possuir, podereis leval-as, tantas quantas quizerdes... Basta isto?
Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante offerta. O barão franziu o sobr’olho:
--Quartelmar, diga-lhe que um inglez não se vende por diamantes. Mas de graça, porque sempre o achei leal, porque gosto d’elle, e porque me appetece derrubar esse monstro de Tuala, estou prompto a ajudar Umbopa com o pouco que posso, que é o meu braço. E tu John?
O capitão encolheu os hombros:
--Que lhe havemos nós de fazer? Além d’isso homem que não briga enferruja. Em todo o caso ponho uma condição: quero as calças.
Communiquei estas adhesões a Umbopa--que apertou ardentemente as mãos dos meus dois amigos.
--E tu, Macumazan, mestre da caça, olho vigilante, mais fino que o bufalo, estarás tu tambem por mim?
Cocei a cabeça, pensativamente:
--Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que és; eu não gosto de revoluções... Sou um homem de ordem e demais a mais um cobarde. Escusas de te rires, sei perfeitamente o que digo, sou um cobarde. Por outro lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, n’esta jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, ás ordens! Mas ha uma coisa. Eu sou um pobre caçador de elephantes e tenho de ganhar a minha vida. Tu fallaste ahi nos diamantes. Eu aceito os diamantes. Se lhe pudérmos lançar mão, aceito-os, e quantos mais e mais graúdos melhor! Não é que eu acredite muito n’elles. Mas, se apparecerem, desde já te prometto que, com licença tua, hei de abarrotar as algibeiras...
--Tantos quantos puderes levar! Exclamou Umbopa radiante.
E já se voltava para Infandós, n’aquelle triumphal enthusiasmo de pretendente a quem as adhesões affluem--quando eu o interrompi vivamente:
--Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Nós viemos, como tu sabes perfeitamente, á procura do irmão do Incubú (era a alcunha do barão, em Zulú). Quero que me promettas que has de fazer tudo o que puderes como rei para nos ajudar a encontral-o... Começa por te informar agora com teu tio Infandós.
Ignosi pousou os olhos em Infandós, com singular magestade:
--Meu tio Infandós, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta, e como teu rei legitimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve já algum homem branco que, antes d’estes, tivesse vindo á terra aos Kakuanas?
--Nunca, meu senhor!
--E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses?
--Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse.
O barão deu um longo suspiro.
--Bem! Bem! Exclamei logo, para lhe não matar de todo a esperança, e cortar os tristes pensamentos. Quando Ignosi fôr rei teremos então mais facilidade de procurar o irmão do Incubú, até aos confins do reino, e nas terras que estão além! Agora vamos ao que urge. Que plano tens tu, Ignosi, para recuperar a corôa? Porque emfim, meu rapaz, é bom ser rei de direito divino, mas...
--Não tenho plano. E tu, meu tio Infandós?
Infandós pensou um instante, com a barba sobre o peito.
--Esta noite, disse elle por fim, é a caça aos feitiços. Muitos vão morrer, e em muitos outros mais recrescerá o odio contra Tuala. Depois da dança, fallarei a alguns dos grandes chefes que podem dispôr de regimentos. É necessario que os chefes te venham vêr, Ignosi, se convençam com seus olhos que és o rei. E se elles pozerem as mãos nas tuas, ámanhã tens vinte mil lanças para combater por ti. Porque a guerra é certa. Depois da dança, se eu viver, se todos vivermos, virei aqui, para combinar na escuridão. Mas a guerra é certa!
N’este momento houve fóra do terreiro um brado, annunciando que se avisinhavam mensageiros do rei. E tres homens entraram, cada um d’elles trazendo erguida nas mãos uma cóta de malha que rebrilhava como prata e uma magnifica acha de batalha.
Um arauto que os precedia exclamou, batendo no chão com o conto da lança:
--Presentes de Tuala, o rei, aos homens que vêm das estrellas!
--Agradecemos ao rei, volvi eu sêccamente. Ide!
Apenas os homens partiram, examinamos as cótas com grande interesse. Eram maravilhosas, d’uma malha tão fina, tão cerrada, tão elastica e macia, que uma armadura toda podia caber no concavo das duas mãos. Perguntei a Infandós se eram fabricadas no paiz.
--Não, meu senhor, são coisas que existem ha muito, e que herdamos de paes para filhos. Já muito poucas restam. Só os de sangue real as podem usar. E o rei que as mandou é que está muito contente ou que está muito assustado. Em todo o caso não ha ferro que as atravesse, e bom será, meus senhores, que as useis esta noite na dança.
Quando Infandós sahiu, ficamos conversando n’este estranho incidente--que transformava a nossa pacifica jornada n’uma aventura politica. Como notou o barão, fôra este decerto, desde a nossa partida de Natal, um dos dias mais ricos de emoções e surprezas.
--Extraordinario, disse o capitão. Tem de ser registrado no Livro de Bordo.
Chamava elle Livro de Bordo a um Almanach do anno, com folhas brancas intercaladas, onde costumava assentar os episodios notaveis da nossa espantosa empreza.
--Que dia é hoje? Perguntou elle, sentando-se, com o almanach sobre o joelho.
--3 de julho.
O barão e eu voltaramos a examinar as dadivas de Tuala--quando, d’ahi a instantes, o capitão exclamou com os olhos no almanach:
--É curioso! Ámanhã, 4 de julho, ha um eclipse total, visivel em toda a Africa! Deve começar ás duas e quarenta minutos... Bom terror vão ter os pretos!
Escassamente demos attenção áquella noticia: e como o capitão findára de escrever, preparamo-nos para partir para a grande dança, porque o sol já descia, e já ia fóra um rumor de regimentos passando. Pelo prudente conselho de Infandós envergamos as cótas de malha,--que achamos confortaveis e leves. A do barão, homem de forte estatura, vestia-o como uma pellica: a do capitão e a minha dançavam-nos sobre as costellas com pregas pouco marciaes.
A lua surgia, magnificamente clara, quando Infandós appareceu, com todas as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para nos escoltar a palacio. Afivelamos os rewolveres á cinta, empunhamos as achas de guerra, e largamos--consideravelmente commovidos.
No terreiro, onde estiveramos de manhã, encontramos a mesma formidavel parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens--mas formados de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto «para as farejadoras de feiticeiros» (como nos foi explicando Infandós). Não havia outra luz além da lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras de faiscas nos ferros altos das lanças. D’aquella escura massa d’homens, do luar, do silencio, sahia uma indefinivel impressão de magestade e tristeza.
--Está aqui todo o exercito, murmurei eu para Infandós.
--Um terço, não mais, meu senhor. Outro terço ficou nas guarnições. E o outro está fóra, em torno a palacio, para o caso de sedição, quando começar a matança...
--Escuta, Infandós! Achas que corremos perigo?
--Não sei, espero que não... Mas não mostreis medo! E se escaparmos com vida esta noite--quem sabe? Talvez ámanhã Tuala seja como o raio que feriu e se apagou.
Iamos no emtanto caminhando, através dos regimentos mais immoveis que bronzes, para espaço vasio diante da cubata real, onde havia como de manhã uma fila de escabellos d’honra. E ao mesmo tempo outro grupo, com um brilho e ruido d’armas, sahia da aringa real.
--É Tuala, disse baixo Infandós, e Scragga, e Gagula, e os homens que matam.
Os «homens que matavam» eram uns doze negros gigantescos, de faces hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhões e de azagaias pesadas.
--Bemvindos, gentes das estrellas! Gritou logo Tuala abatendo-se pesadamente sobre um escabello. Sentai, sentai! E não percamos o tempo que a noite é curta para as grandes coisas que têm de ser feitas. Olhai em roda, e dizei-me se nas estrellas tivestes jámais tantos valentes juntos... Mas vêde tambem como elles já tremem, os que abrigam maldade no seu coração!
--Começai! começai!--ganiu na sua silvante voz Gagula, que se agachára aos pés do rei. As hyenas têm fome de ossos, os abutres têm sede de sangue... Começai! começai!
Houve durante momentos um silencio lugubre, que pesava horrivelmente, como um prenuncio de matança e de horror.
O rei então agitou a lança. Immediatamente vinte mil pés se ergueram, e tres vezes, em cadencia, bateram no chão que tremia. Depois, lá ao fundo, d’entre as densas e escuras filas de homens, subiu ao ar um canto solitario, arrastado, plangente, infinitamente triste, findando n’este estribilho:
--Qual é a sorte, sobre a terra,
De quem teve de nascer?
E os regimentos todos volviam, n’uma unica, grande e rolante voz:
--Morrer!
Mas pouco a pouco, as companhias, umas após outras, foram entoando uma estrophe da canção, até que toda a vasta multidão armada formava um côro--côro barbaro, rude, informe, onde todavia por vezes distinguiamos como conscientes expressões de sentimentos--notas suaves e lentas de amor, brados triumphaes de guerra, canticos solemnes de oração. Depois os cantos varios fundiam-se n’um lamento unico, contínuo, ululado, como d’um povo n’um funeral. De repente tudo estacava. E de novo o lugubre estribilho gemia no ar:
--Qual é a sorte, sobre a terra,
De quem teve de nascer?
E de novo a multidão clamava n’um unisono desolado:
--Morrer!
O canto por fim findou, um sombrio silencio cahiu, o rei levantou as mãos. Immediatamente, sentimos como o trote ligeiro de pés de gazellas: e, d’entre os profundos renques dos soldados, appareceram correndo para nós estranhas e medonhas figuras. Percebi que eram mulheres, quasi todas velhas, pelos longos cabellos brancos e soltos que lhe batiam as costas. Traziam as faces pintadas ás listas brancas e vermelhas: dos hombros pendiam-lhe esvoaçando, e misturadas ás madeixas, longas pelles de serpente: em torno á cinta cahiam-lhe como breloques de ossos humanos que chocalhavam sinistramente: e cada uma brandia na mão uma curta forquilha.
Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o chão com as forquilhas. E uma, a mais alta, alargou os braços, gritou:
--Mãe, aqui estamos!
--Bem, bem, ganiu o decrepito monstro. Tendes hoje os olhos bem claros, Isanusis?
--Bem claros, oh mãe!
--Tendes hoje os ouvidos bem abertos, Isanusis?
--Bem abertos, oh mãe!
--Ide então! Farejai, farejai! Entre esses todos descobri os que querem mal ao seu visinho, os que possuem o gado indevido, os que tramam contra o rei, os que devem morrer por ordem de «cima»! Farejai! Vêde os pensamentos que se não mostram, ouvi as palavras que se não dizem! Ide, meus lindos abutres! Os homens das estrellas têm fome e sêde de vêr a grande Justiça! Agora!
Com uivos horrendos, as sinistras creaturas dispersaram correndo, para todos os lados, através das fileiras armadas. Não as podiamos seguir a todas na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a attenção na que ficou junto de nós, uma velha, esgalgado feixe d’ossos, que deitava lume pelos olhos. Quando esta Harpia chegou em frente aos soldados parou farejando. Depois rompeu a dançar, girando sobre si mesma, tão rapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrella feita de estrigas de linho a redemoinhar pelo ar. No emtanto ia gritando por entre silvos de alegria:--«Já o farejo, o homem do mal! Alli está elle, o que envenenou a mãe! Acolá treme o que pensou mal do rei!»
E, cada vez mais vertiginosamente, vinha girando, girando, até que a espuma lhe sahia aos flocos da bôca e os ossos lhe rangiam alto! De repente estacou, hirta, tesa, como petrificada. Depois, devagar, devagar, como uma fera que rasteja, avançou de forquilha estendida para a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam n’um indominavel terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim, com um brado estridente, arremetteu, e bateu com a forquilha no peito d’um rapaz soberbamente forte.
Dois camaradas immediatamente o agarraram pelos braços, o empurraram para defronte do rei. O desgraçado caminhava sem resistencia, inerte, já morto na alma. O bando dos executores avançára a passos graves:
--Mata! Disse o rei.
--Mata! Ganiu Gagula.
--Mata! Rugiu Scragga.
E antes que as palavras se perdessem no ar, o miseravel tombára morto, com uma azagaia cravada no peito, o craneo aberto por uma pancada de clava.
--Um, contou Tuala, sorrindo com satisfação.
Mal findára o feito horrivel, já outro soldado era arrastado como uma rez,--um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos hombros a capa de pelle de leopardo. Dois golpes de facalhão vibrados com destreza bastaram para o acabar sem um suspiro.
--Dois! Contou o rei.
E assim até cem! Até cem! E nós alli, aterrados, immoveis, impotentes para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impotencia! Eu findára por fechar os olhos. Á meia noite emfim houve uma suspensão. As farejadoras esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente o suor. Respirei, n’um infinito allivio, suppondo que findára todo este incomparavel horror. Mas de repente, com desagradavel surpreza, descobrimos Gagula, erguida, apoiada n’um cajado, dando alguns passos que tremiam e lhe sacudiam o craneo calvo de abutre. Coisa pavorosa, vêr o velhissimo monstro, ordinariamente vergado em dois pela decrepitude, ganhando alento, remoçando quasi, já direito, já vibrante, á medida que se acercava da fileira dos homens, a recomeçar por gosto proprio a obra sinistra das «farejadoras»! Mas n’ella o estylo era differente. Não dançava, não uivava. Dando umas corridinhas curtas, aqui e além, cantava baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim cantarolou, até que de repente se precipitou sobre um magnifico velho, perfilado em frente a um regimento--e tocou-o silenciosamente com o cajado. Um murmurio de dôr, de contida indignação, correu entre os soldados que elle evidentemente commandava. Todavia dois d’elles, empolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o açougue. Soubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande influencia, primo do rei. Foi trucidado com azagaia, facalhão e clava--e Tuala contou cento e um!
Quasi immediatamente Gagula, depois de alguns saltinhos curtos de macaca, começou a avançar para nós, n’um movimento muito lento de valsa, que era medonho na repulsiva bruxa.
--Justos céos! Murmurou o capitão John, querem vêr que agora é comnosco!
--Tolice! Acudiu o barão, pallido todavia.
Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais perto,---com os olhos a saltar-lhe do craneo, um fio de baba na bôca.
Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a caça.
--Qual será? Murmurou o barão.
Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou Ignosi) sobre o hombro:
--Morte! Gritava ella. Morte! Cheiro-lhe o sangue! Está cheio de maleficio e de traição. Mata-o depressa, oh rei, mata-o depressa antes que por elle gema em desgraça o reino!...
Houve um silencio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um cobarde) achei-me diante de Tuala, fallando com soberana firmeza:
--Este homem, oh rei, é o servo dos teus hospedes, e quem deseja o seu sangue é como se desejasse o nosso! Pela lei de hospitalidade, que cumpre aos reis manter, exijo a tua protecção para elle!
Tuala franziu o sobr’olho:
--Gagula, mãe das Isanusis, sabedora das artes, cheirou-lhe a traição dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos!
--Quem lhe tocar, exclamei, batendo furiosamente com o pé no chão, é que tem de morrer!
--Agarrem-no! Bradou Tuala aos carrascos que esperavam em roda, já todos manchados de sangue.
Dois brutos romperam para nós--mas hesitaram. Ignosi erguera a azagaia, decidido a morrer combatendo.
--P’ra traz, cães! Berrei eu, n’um tom tremendo. Tocai n’um só cabello do homem, e vós mesmos, e a vossa feiticeira, e o vosso rei, não vereis mais a luz do dia!
E bruscamente apontei o rewolver a Tuala. O barão tinha já o seu erguido contra um dos carrascos: e John marchára sobre Gagula.
Houve um instante de indizivel assombro.
--Decide depressa, Tuala! Gritei, tocando-lhe quasi a testa com o cano do rewolver.
O monstro, visivelmente apavorado, rosnou, n’um tom surdo:
--Tirai para lá os vossos canos magicos! Invocastes as leis da hospitalidade, e só por amor d’ellas, não por medo de vós, poupo a vida a esse cão... Ide em paz.
--Está bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens das estrellas, nada podem os homens da terra!
O rei, ainda tremulo de furor impotente, ergueu a lança. Os regimentos começaram logo a desfilar.
D’ahi a pouco estavamos na nossa aringa--conversando á luz de uma das curiosas lampadas que usam os Kakuanas, em que o pavio é feito de fibra de palmeira, e o azeite de toucinho de hippopotamo. E o que affirmavamos todos com convicção, com ardor, era a necessidade e a justiça urgente de ajudar a conspiração de Umbopa contra um villão como Tuala!
CAPITULO VIII
A GRANDE DANÇA
Já muito tarde, quasi de madrugada, Infandós appareceu, como promettera, com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos. A conferencia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expôr a sua romantica historia e os seus direitos ao reino dos Kakuanas, começou por tirar a tanga em silencio e mostrar o emblema sagrado, a grande serpente tatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a lampada, e agachado examinava o signal com respeito; depois, em silencio, passava a lampada a outro.
Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde a fuga com a mãe através do deserto. Os chefes permaneceram calados. Infandós, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, retraçou as matanças d’essa noite de festa em que dois guerreiros valentes, de casas illustres, tinham sido trucidados só por possuirem grandes rebanhos que Scragga appetecia. Por fim fez um grande appello á razão e ao coração dos chefes, que só tinham a escolher entre o monstro que por avidez e capricho lhes arrancava a vida, ou o homem que lhes garantia a existencia feliz nas suas senzalas e a posse tranquilla dos seus gados. Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados.
Finalmente, um d’elles, homemzarrão possante, de carapinha branca, deu um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de Tuala, e que seu proprio irmão n’essa noite estava sendo pasto das hyenas...--Mas aquelle era um singular e confuso caso! E quem lhes afiançava que elles não ergueriam as suas lanças por um impostor? A guerra era certa. Muitos ficariam fieis a Tuala, porque mais se adora o sol que brilha, que o sol que ainda não nasceu. Necessitavam pois uma evidencia. E quem melhor lh’a poderia dar que os homens das estrellas, senhores das grandes artes magicas, que tinham trazido Ignosi ao paiz, e sabiam decerto os segredos?
--Se elle é o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram das estrellas que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo acreditará e tomará armas por elle!
--Mas a cobra, o emblema sagrado! Exclamei eu.
--Não basta. A cobra podia ser pintada no ventre já depois de elle ser homem... Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem nós mesmos, sem um milagre!
Um milagre! A situação era terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso lance.
--Parece-me que se póde arranjar, disse John, depois de um curto silencio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, Quartelmar.
Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram na sombra:
--Temos o eclipse! Exclamou o nosso admiravel John.
Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o Livro de Bordo), e que n’esse dia, ás duas e quarenta minutos, devia ser visivel em toda a Africa.
--Ahi está o milagre! Affirmava John. É annunciar aos chefes que para lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas por elle, nós faremos desapparecer o sol!
A idéa era esplendida. O unico receio é que o almanach estivesse errado.
--Não! É um almanach maritimo, não póde estar errado. Os eclipses são calculados mathematicamente. Não ha nada mais pontual que um eclipse... Durante meia hora, tres quartos de hora talvez, esta região toda ficará em trevas.
--Eu, por mim, disse o barão, parece-me que devemos arriscar o eclipse.
--Vá pelo eclipse!
Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram, cerrei a porta da cubata com um sombrio apparato de mysterio, e comecei por lhes declarar, magestosamente, que nós os homens das estrellas não gostavamos de alterar o curso natural das coisas e mergulhar o mundo em terror e confusão... Mas, como se tratava d’uma grande e santa causa, estavamos decididos a fazer um milagre.
--Escutai! Julgaes vós que um homem póde soprar sobre o sol, e apagal-o?
Os chefes olharam para mim, recuando com assombro.
--Não, murmurou um d’elles, não ha homem que o possa fazer! O sol é mais forte que toda a terra!
--Perfeitamente, conclui eu. Pois ámanhã, depois do meio dia, nós homens das estrellas apagaremos o sol durante uma hora, espalharemos trevas sobre a terra, e será o signal de que Ignosi é o verdadeiro rei dos Kakuanas e que o povo deve tomar armas por elle. Será bastante este milagre?
O chefe da carapinha branca abriu os braços para nós, esgazeado:
--Oh gentes das estrellas, senhores das grandes artes, esse milagre será mais que bastante!
--Bem. Tereis o milagre. Agora Infandós, que é experiente, diga o momento em que mais convem que nós apaguemos o sol.
--Apagar o sol! Murmuravam os chefes entre si. A grande lampada! O pae de tudo, que brilha eternamente!
--Falla, Infandós!
--Meu senhor, é na verdade um milagre espantoso que vós prometteis! Mas emfim... O melhor momento é o da dança das Flôres, que ha de logo começar ao meio-dia. As mais lindas raparigas de Lú estão lá, para dançar. E aquella que Tuala achar mais linda de todas é, segundo o costume, morta por Scragga em sacrificio aos Silenciosos, as figuras de pedra que estão além na montanha vigiando. Que os meus senhores n’esse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo acreditará!
--O povo na verdade acreditará! Exclamaram todos os chefes.
--A duas milhas de Lú, continuou Infandós, ha uma collina em fórma de meia lua, que é realmente uma fortaleza, onde estão aquartelados o meu regimento e tres outros que estes chefes commandam. Mas podemos arranjar de modo que ainda esta manhã cedo marchem para lá tres ou quatro regimentos dos mais fieis á minha vontade. E se os meus senhores apagarem com effeito o sol, eu poderei, a favor da escuridão, fazel-os sahir do terreiro real e da cidade, e leval-os para essa fortaleza, onde ficarão a salvo e d’onde começaremos a guerra contra o rei.
--Está entendido, resumi eu. Agora ide, que queremos dormir e depois combinar com os Espiritos!
Com longas reverencias, Infandós e os chefes deixaram a nossa aringa. O sol ia nado.
--Oh meus amigos, exclamou Ignosi, apenas elles partiram. É certo que podeis fazer esse milagre, ou estaveis vós ganhando tempo e soltando no ar palavras vãs?
--Parece-me que não nos ha de ser difficil, meu Umbopa, quero dizer, meu Ignosi, declarei eu sorrindo.
--É espantoso! Apagar o sol... E todavia sois inglezes, e o inglez tudo póde! Mas ah, se vós fizerdes isso por mim, o que não farei eu por vós?
--Uma coisa já tu nos podes prometter, Ignosi! Acudiu gravemente o barão. É, se chegares a ser rei com o nosso auxilio, acabar com as «farejadeiras de feitiços», com matanças como as d’esta noite, e não consentir que homem algum seja condemnado sem provas de crime, e sem ter sido julgado pelos doze mais velhos do logar.
Era o jury, santissimo Deus! Era a nobre instituição do jury, que este digno barão queria implantar no centro selvagem da Africa! Não ha senão um liberal inglez para estas esplendidas imposições de civilisação e de ordem. Com razão hesitou o astuto Ignosi! Com razão conservou longo tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, n’um rasgo de generosidade ou de condescendencia:
--Os costumes dos pretos não se podem moldar pelos costumes dos brancos. Comtudo, uma coisa te prometto, Incubú! É que não haverá no meu reino, nem matanças de festa, nem execuções sem julgamento. Estás contente?
O barão apertou-lhe a mão em silencio.
D’ahi a pouco estavamos estendidos nos leitos de folhas sêccas, e profundamente dormimos, até que Ignosi nos acordou ás onze horas. O nosso primeiro cuidado foi instinctivamente correr fóra da cubata, olhar para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu tão brilhante e tão seguro da sua luz. Nem um signal de eclipse! Uma radiancia firme, absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder alterar!