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As Minas de Salomão

Chapter 23: CAPITULO XI
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About This Book

A seasoned African hunter recounts an expedition with two companions into the remote interior to find a missing man and a reputed hoard. The party endures oppressive heat, treacherous terrain, and violent encounters while forming alliances and confronting betrayal; they discover an isolated, highly organized people with strange customs and ancient legends, explore vast subterranean caverns that hold the fabled riches, and face both human treachery and life‑threatening hazards. The narrative balances practical travel detail and combat with the comradeship of the explorers and themes of survival, discovery, and the moral ambiguities of conquest and rescue.

--Pois, meu digno astro--murmurei eu, ousando interpellar directamente a fonte de toda a vida--se continuas assim, todo o dia, acabas, sem querer, com tres honrados homens!

Depois de almoçar, um solido e valente almoço que nos amparasse na crise imminente, revestimos as cótas de malha, afivelamos os cinturões de cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para a grande dança. E ao meio dia para lá voltamos os passos--que a inquietação interior e a certeza do perigo não permittiam que fossem nem bem alegres nem bem ligeiros!

O terreiro real offerecia n’essa manhã um aspecto bem diverso--e onde na vespera reinára o horror transbordava agora a graça. Em logar de fuscos e duros guerreiros, todo o espaço estava occupado por longas filas de raparigas kakuanas, escuras tambem é verdade, mas lindas, pelas fórmas, a expressão, a viçosa mocidade. Toilette, não tinham nenhuma--nem mesmo o panno, a tanga da Africa civilisada: mas salvavam esta encantadora deficiencia pelo franco luxo das flôres. Todas traziam na cabeça uma corôa de flôres; grinaldas de flôres, grandes como festões, envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas mãos uma palma verde e um lyrio branco. Nos escabellos de honra já estava o rei--acompanhado por Infandós, Scragga, guardas emplumados e a sinistra Gagula. Reconhecemos tambem, de pé, por traz d’elle, alguns dos chefes que n’essa noite tinham comnosco conspirado.

Tuala acolheu-nos com muita cordealidade ostensiva--dardejando ao mesmo tempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau.

--Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vêdes hoje aqui coisas diversas; mas não tão bellas, não tão bellas! Beijos e festas de mulheres são dôces; mas é mais dôce o brilho das lanças e o cheiro do sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar n’esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar d’estas raparigas as melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos.

O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os marinheiros, deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a recrutar alli, para occupar o seu coração na terra dos Kakuanas, um serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente, receiando as complicações do eterno feminino, apressei-me a recusar:

--Não, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vêm das estrellas só se ligam ás mulheres brancas que estão nas estrellas...

Tuala riu:

--Está bem, está bem... Nós temos um proverbio kakuana que diz: «Aproveita a que está perto, porque com certeza a que está longe te engana!» Mas talvez seja d’outro modo nas estrellas... Sêde pois bemvindos, e comece a dança!

Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que tres mocinhos sopravam agachados no chão. As fileiras de raparigas avançaram, cantando um canto muito lento e dôce,--e fazendo ondular nas mãos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, infinitamente pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos pés, n’uma graciosa languidez de gestos; ora, enlaçadas aos pares, redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas bem ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre confusão, n’uma grulhada melodiosa, com um vivo saltar de corpos ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flôres desfolhadas.

Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes, mais airosa que uma Diana caçadora, avançou devagar, e rompeu n’uma dança estranha, cheia de graça e de brilho, em que os movimentos tudo traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida até os pulos bravos da corça ciosa... Assim dançou longamente: os seus olhos cada vez mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se flôr a flôr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um bronze humedecido. Por fim, cançada, sorrindo, recuou até ao grupo das bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo de lyrios. Veio então outra, muito alta, dançar; e outra depois, e muitas ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana caçadora tinha belleza, graça e consummada arte.

O rei ergueu a mão, o tam-tam cessou.

--Gentes das estrellas, disse elle, qual d’ellas achaes mais linda?

--A primeira, respondi eu irreflectidamente.

E logo me arrependi, lembrando o que annunciára Infandós--que a mais linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei um olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora.

Tuala no emtanto sorria:

--Os vossos olhos, gentes das estrellas, vêem então como os meus. A primeira é a mais bonita. E mau é para ella que tem de morrer!

--Tem de morrer! Echoou Gagula que parecera dormitar durante a festa, e acordava, já interessada, desde que presentia sangue e dôr.

--Morrer! Exclamei eu, sorrindo tambem, como se não acreditasse. Porque, oh rei? Ella dançou bem, a todos agradou. Além d’isso é moça e linda. Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte.

A fera affectou uma sympathia, que, n’elle, arripiava:

--Tambem o lamento, mas é o costume do meu reinado. Os Silenciosos, que estão além na montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. Ha uma prophecia do nosso povo que diz: «O rei, que no dia da grande dança não sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, perecerá, e com elle a sua casa». Por não ter cumprido a ordem de «cima», cahiu meu irmão e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os guardas), trazei a virgem! E tu, meu Scragga, aguça a lança!

Dois da guarda real marcharam para a pobre e dôce rapariga, que desfolhava nervosamente as pétalas do seu lyrio branco. De repente, e só então, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, por ser formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mãos fortes agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para diante de Tuala.

--Que nome é o teu, linda moça? Ganiu a horrivel Gagula. Não respondes? Queres que o filho do rei tenha de erguer a lança, sem saber quem tu sejas?

A isto, Scragga deu um salto com sofreguidão, alçando a sua immensa azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta entre as mãos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe cahiam, ficou toda, toda a tremer.

O medonho Scragga teve uma risada bestial:

--Como ella treme, como ella treme diante da minha força!

--Ah canalha, se te apanho a geito! Rosnou o capitão, apertando na mão o rewolver.

No emtanto Gagula, com atroz zombaria, animava a desgraçada:

--Socega! Dize o teu nome. Vem, filha! Não temas!

--Oh mãe! Balbuciou a pobre creatura entre soluços, n’uma voz que desfallecia. Oh mãe! O meu nome é Fulata, e sou da casa de Suko. Mas porque hei de eu morrer, eu que não fiz mal nenhum?

--Tens de morrer, proseguiu a hedionda velha, para contentar os que vigiam além na montanha. Mais vale dormir de noite que trabalhar de dia. Mais vale estar quieta e morta que agitada e viva. E tu, filha ditosa da casa de Suko, vaes morrer ás mãos reaes do filho do nosso rei.

Olhei anciosamente para o sol. Nada! Um brilho impassivel, que achei quasi cruel!

No emtanto a pobre Fulata, apertando desesperadamente as mãos, supplicava, com gritos de angustia:

--Oh mãe, oh rei, não me deixeis morrer!... E eu tão nova! Pois nunca mais hei de vêr a aringa de meu pae? Nem embalar meus irmãos pequeninos? nem cuidar dos cordeiros doentes? E porque? Mandaram-me aqui para dançar e eu dancei! O meu noivo está lá fóra á minha espera! Minha mãe ficou sentada debaixo das machabelles até que eu volte para mugir as vaccas... E porque hei de eu morrer? Nunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa casa deixava sempre cahir grãos de aveia para os passaros levarem aos ninhos...

Nas proprias faces dos guardas e dos chefes perfilados junto a Tuala se espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas soluçavam baixo. E subitamente, o capitão John, sem se poder conter mais, arrancou o rewolver da cinta e fez um movimento tão saliente, de tão clara intervenção--que a rapariga viu, n’um relance comprehendeu... Desprendendo-se dos guardas, que a seguravam frouxamente, veio arrojar-se aos pés de John, abraçando-lhe as pernas núas:

--Oh pae branco, que vens das estrellas! Gritava ella. Deixa acolher-me á sombra da tua força... Salva-me d’estes homens, e de Gagula, a mãe que é tão cruel...

Tornei a olhar para o sol... E com um allivio, uma alegria tão intensa que ainda hoje o recordal-a me aquece o coração, vi uma linha de sombra, muito fina ainda, surgindo á orla do disco radiante!

--O eclipse! Gritei eu para os outros. John, conserve ahi a rapariga atraz! E armas na mão, rapazes!

Immediatamente, avancei para o rei:

--Tuala, exclamei com firmeza e arrogancia. Nós, gentes das estrellas, não podemos consentir n’esta maldade! Tal não será! Deixa que a rapariga volte para a sua morada!

Tuala ergueu-se com um pulo brusco de surpreza e de colera. E dos chefes, das agitadas filas de mulheres, subiu um murmurio que era de assombro, e talvez de esperança.

--Não consentis! Bramiu o rei, com o olho sangrento dardejando lume. E quem és tu, perro branco, para vir latir contra o leão na sua caverna? Tal não será! E como o podes tu impedir? Vai talvez a tua vontade prevalecer contra a minha força? Scragga, mata a creatura! E vós guardas, olá, agarrai esses homens!

Uma multidão de soldados surgiu, correndo, detraz da aringa real. O barão, Umbopa e o capitão (com Fulata agarrada a elle) vieram pôr-se ao meu lado de carabinas apontadas.

Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra, lenta e gradualmente, avançava sobre o globo rutilante. Com esplendida confiança, ergui a mão, bradei:

--Parai! Nós, os filhos das estrellas, decidimos que a rapariga não morrerá! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou avançar contra nós um passo, nós, os magicos das grandes artes, apagaremos o sol e mergulharemos o mundo em trevas!

O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante de nós, com a lança erguida no ar, como uma figura de pedra. Mas Gagula erguera-se, sacudindo os braços com furor:

--Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da terra! Pois que o faça, e a rapariga irá livre para a sua morada! Mas se o não fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle morram os cães malditos que vêm latir contra ti!

Sem mais, ergui a mão solemnemente para o sol (movimento que logo imitaram John e o barão) e rompi a bradar. Não me lembro já das coisas absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos de Shakespeare, pedaços da Biblia, proverbios, datas, nomes de firmas commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu? Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse em inglez, na lingua magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro do systema planetario. Gritava: «Anda-me assim, solzinho da minha alma! P’ra diante, valente! Deixa avançar essa rica sombra! Ah que estás um catita, meu astro! Mais, mais!...»

E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, avançava, comia a luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a multidão. Volvi então a fallar kakuana, livremente:

--Vê tu, oh rei! Vê tu, Gagula! Vêde vós, oh chefes! Mentem então os homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz, some-te á nossa ordem, mata o mundo com escuridão e frio, e, que sem ti, parem para sempre estes corações crueis!... O sol vai morrer!

Gritos de terror resoavam já no terreiro. As mulheres, cahidas de joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia.

Só Gagula resistia ao pavor:

--Vai passar, vai passar! Uivava ella. Eu já vi o sol assim. Ninguem o póde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... Eu já vi, eu que sou a mais velha, e conheço os segredos!

Eu por mim animava os companheiros:

--Vá, rapazes! Já não sei que hei de dizer ao sol. Veja se se lembra de alguns versos, barão. Tudo serve, até pragas!

E John, admiravel marinheiro, rompeu então a praguejar. Foi sublime. Teve todas as pragas classicas,--e teve-as ineditas. Nem eu suppunha mesmo que a Humanidade possuisse, no seu vocabulario, uma tal riqueza de blasphemias! O que o Rei do Dia ouviu!

No emtanto a mancha negra alastrava. Estranhas, sinistras sombras fluctuavam no ar. Uma triste quietação descia sobre a terra. Todos os passaros se tinham calado. Ao longe os cães uivavam.

E a mancha crescia, crescia... A atmosphera tornára-se espessa. Já mal distinguiamos as faces crueis da gente real. Esmagadas de temor, as mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas. E o que restava do sol parecia uma luz agonisante.

--O sol morreu! Berrou de repente Scragga. Os bruxos das estrellas mataram o sol! Tudo vai morrer nas trevas!...

E fosse o delirio do medo ou da raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a toda a força contra o peito do barão. Mas a cóta de malha repelliu o ferro. E antes que elle podesse revibrar o golpe, o barão arrancára-lhe a lança das mãos e passou-lh’a através do coração. Com um uivo hediondo, Scragga tombou morto.

Quasi nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o sol, o mundo, e a descendencia do rei! N’um terror indizivel, a multidão de raparigas largou fugindo, em confusão e gritos, para as portas da aringa. Foi um panico estonteado. Os guardas, arrojando as armas, galgavam as estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabellos, desappareciam como lebres. E por fim, o proprio e ferocissimo rei, com Gagula atraz, arremetteram para as cubatas, ganindo n’um pavor vil. Uma debandada--que nos deixou sós, eu, os amigos, a pobre Fulata ainda agarrada a John, Infandós, os chefes que conspiravam, e o cadaver de Scragga.

--Chefes! Gritei eu. Eis o milagre que tinhamos promettido. Sabei agora que Ignosi é o rei unico e forte. O feitiço está trabalhando. Corramos para a cidadella que dissestes, emquanto a treva dura!

--Vinde! Exclamou Infandós, segurando-me pela mão. E vós todos segui! O dia é nosso!

Ao chegarmos á porta da aringa, a luz findou inteiramente.

Agarrados uns aos outros pelas mãos, com Fulata no meio, fomos tropeçando através da escuridão. Dentro das senzalas ouviamos gemidos de terror. E para o augmentar, lançavamos a espaços, através da treva, um lugubre brado de revolta e de guerra:

--Morte a Tuala!

CAPITULO IX

ANTES DA BATALHA

Durante mais de uma hora caminhamos, através da escuridão, guiados por Infandós e pelos chefes--até que de novo surgiu, como um fino traço luminoso, a orla do sol. D’ahi a pouco havia já luz sufficiente; e achamo-nos então longe de Lú, junto de uma larga collina, de duas fartas milhas de circumferencia, em fórma de ferradura, e toda ella inteiramente plana no topo. Desde tempos immemoriaes, aquelle planalto fôra (segundo nos disse Infandós) aproveitado como acampamento permanente, e ordinariamente occupado por uma guarnição de tres mil homens. N’essa manhã, porém, á maneira que iamos trepando os flancos da collina, á luz já viva e quente do sol, descobriamos successivos regimentos, formando uma divisão de dezoito ou vinte mil homens, quasi todos veteranos. Estavam ainda sob o espanto e terror da mysteriosa treva que de repente os envolvera. E foi em silencio que passamos através das suas filas cerradas, em direcção a um grupo de cabanas que se erguia a meio do planalto. Com surpreza e grande alegria encontramos lá dois servos, á espera, carregados com todas as nossas bagagens, cantinas, e munições que n’essa manhã deixaramos nas cubatas de Lú. N’uma trouxa as calças de John. Com que sofreguidão elle as envergou, pudico homem!

--Fui eu que mandei vir tudo, á cautela! Explicou o serviçal Infandós. Quem sabe quantos dias estaremos n’este deserto!

Como não havia tempo a desperdiçar, o velho e activo guerreiro deu ordem para que se formassem as tropas immediatamente. Era necessario antes de tudo (disse elle) aclarar aos regimentos os motivos da revolta já decidida pelos chefes, e apresentar-lhes Ignosi, o legitimo rei por quem iam combater.

Meia hora depois os regimentos (a flôr do exercito dos Kakuanas) estavam em formatura nos tres lados d’um immenso quadrado. Do lado aberto ficamos nós com Ignosi, o velho Infandós e os chefes conjurados. Logo que um arauto intimou silencio--Infandós avançou: e com um calor, um enthusiasmo, irresistivelmente persuasivos, narrou a historia de Ignosi, o seu nascimento real, a serpente tatuada na cinta, a tragica morte de seu pae á mão de Tuala, a sua fuga através dos montes, o seu exilio entre estranhos. Depois retraçou o reinado cruento de Tuala, os seus crimes, as suas espoliações, as frias e inuteis crueldades. Em seguida contou como os homens brancos das estrellas, que de lá de cima tudo vêem, se tinham compadecido da grande afflicção que ia no reino dos Kakuanas; como tinham ido então buscar Ignosi, o rei legitimo, ás terras distantes onde elle definhava no exilio, e o haviam trazido pela mão, através dos areaes e dos montes, ao paiz de seus paes; como n’essa manhã, para mostrar a Tuala e a todos o seu poder magico, e provar aos chefes descontentes que Ignosi era rei, elles com as suas artes tinham apagado, e depois tornado a accender o sol; e como, emfim, esses magicos que nenhuma força vencia estavam dispostos a derrubar Tuala, o falso rei--e pôr em seu logar Ignosi, o rei verdadeiro!

Apenas elle findára, entre um longo murmurio de approvação, Ignosi deu dois passos, e, alteando a sua nobre estatura, appellou para as tropas.--Ellas tinham ouvido Infandós, seu tio! Cada palavra d’elle luzia como a verdade. Os Kakuanas agora só podiam escolher entre Tuala, o monstro que os roubava, os trucidava, e cobria a terra de horror e desordem,--e elle, rei legitimo, que não permittiria mais no reino a caça aos feiticeiros, nem matanças de festa, nem castigos sem julgamento, nem a oppressão dos mais fortes... Pelo contrario, sob elle, só haveria paz e abundancia! A todos os que alli estavam e o ajudassem daria cubatas, mulheres e gados:--e todos, ganha a victoria sobre Tuala, iriam viver nas suas senzalas bem providas, em descanço e alegria para sempre. De resto, os homens das estrellas estavam com elle, a seu lado, para manter os seus direitos. E quem podia ir contra a força das suas artes magicas? Não tinham elles visto o sol apagado, depois outra vez brilhante, á ordem dos espiritos brancos?

Um rumor de acquiescencia, de adhesão, corria já entre as tropas. Ignosi então recuou um passo, e erguendo no ar o seu formidavel machado de guerra:

--Eu sou o rei! Na verdade vos digo que sou o rei! E se ahi ha alguem, d’entre vós, que diz que eu não sou o rei, que sáia a terreiro, se bata commigo, e bem cedo o seu sangue correndo no chão provará que na verdade sou rei. Escolhei pois entre mim e Tuala, oh chefes, soldados, vós todos! Sou eu o rei!

--És o rei! Foi a universal, acclamadora resposta, que atroou toda a collina.

--Bem! Tuala está mandando já emissarios a reunir os seus homens para nos combater. Os meus olhos estão abertos, e verão aquelles que mais fieis me são, e que merecerão mais terra, mais gado, mais riqueza. E agora ide, e preparai-vos para as batalhas, em defeza do vosso rei!

Houve um silencio. Um dos chefes ergueu a mão; e os vinte mil homens, ferindo o sólo com as azagaias, soltaram a grande saudação real--krum! krum! krum! Ignosi estava acclamado rei. Os batalhões immediatamente recolheram aos seus acampamentos. No planalto reinou silencio e ordem.

Logo depois celebramos um conselho de guerra, com todos os capitães. Era evidente que em breve seriamos atacados pelas tropas fieis a Tuala. Já do alto da nossa collina nós viamos regimentos marchando, a concentrar-se em Lú--e um incessante movimento de armas por toda a estrada de Salomão. Do nosso lado contavamos com vinte mil homens. Tuala, segundo o calculo dos chefes, poderia ter reunidos na manhã seguinte trinta e cinco a quarenta mil soldados. Mas d’esses, muitos eram recrutas; e a forte flôr do exercito, os veteranos endurecidos, os capitães de experiencia estavam felizmente comnosco, sobre a collina da Revolta.

O primeiro cuidado era fortificar a nossa posição. Começámos por obstruir com grossos rochedos todos os carreiros que subiam da planicie. Nos pontos mais accessiveis erguemos estacadas e trincheiras. Accumulámos á orla do planalto montes de pedras para arremessar sobre os assaltantes. Aqui e além cavámos fossos. E, como todo o exercito trabalhava, ao fim da tarde a collina fôra convertida em cidadella.

Justamente antes do pôr do sol, vimos um grupo de homens que de uma das portas de Lú avançava para nós, fazendo soar um tam-tam. Um d’elles trazia na mão uma palma verde. Era um arauto.

Ignosi, Infandós, dois ou tres chefes, eu e os amigos descemos ao seu encontro. Vimos um soberbo homem, ainda moço, com a pelle de leopardo aos hombros.

--Saude! Gritou elle, parando e agitando a palma. O rei envia o seu saudar áquelles que lhe fazem uma guerra infiel. O Leão envia o seu saudar aos chacaes.

--Falla! Bradei.

--Estas são as palavras do rei:--«Entregai-vos á minha mercê, antes que a minha forte mão cáia sobre vós!»--Assim disse o rei. Já foi arrancada ao toiro negro a espadoa direita! Já o rei o anda enxotando ensanguentado em volta ao acampamento![2]

--Quaes são as condições de Tuala? Perguntei por curiosidade.

O arauto declarou que as condições eram misericordiosas e dignas de um grande rei. Muito pouco sangue o contentaria. De cada dez homens um seria morto, os outros perdoados; mas o branco Incubú que matára Scragga, o servo Ignosi que pretendia o seu trono, e Infandós que preparára a rebellião, seriam postos a tormentos, em sacrificio aos Silenciosos. Taes eram as misericordiosas condições do rei.

Consultei um instante com os chefes, e repliquei, n’um tom estridente para que todos os soldados ouvissem, por sobre a collina:

--Volta para Tuala que te mandou, oh cão, filho de cão! E dize-lhe em nome de Ignosi, legitimo rei, e de Infandós, seu tio, e dos homens das estrellas que apagam o sol, e de todos os chefes e soldados aqui juntos, dize a Tuala--que antes que o sol dê duas voltas o cadaver de Tuala jazerá hirto e frio no terreiro de Tuala... Vai e treme, oh cão, filho de cão!

O official riu, com arrogancia:

--Não se assustam homens com palavras inchadas! Ámanhã se verá em que terreiro e que corpos jazerão hirtos e frios. Adeus pois, homens das estrellas. Para meu proprio regalo espero que tenhaes o braço tão forte como tendes ousada a lingua!

Com este sarcasmo o valente voltou costas. Quasi immediatamente a noite desceu.

Á luz da lua ainda continuaram os trabalhos da defeza. Depois, já por noite alta, quando tudo se completára, o barão, Ignosi e eu, acompanhados por um dos chefes, descemos a collina a visitar os postos avançados. Á maneira que caminhavamos, viamos de repente surgir dos sitios menos esperados, de uma cova na terra, de uma moita de arbustos, de um montão de rochas, alguma enorme figura emplumada, com a ponta da azagaia rebrilhando á lua, que, trocada a palavra de passe, logo se sumia, como dissolvida na sombra das coisas. A vigilancia era realmente perfeita. Demos assim toda a volta á collina, que tornamos a subir pela vertente norte, através das companhias de soldados adormecidos. A lua batia nas lanças ensarilhadas. Aqui e além uma sentinella destacava immovel, com as suas altas plumas ondeando á brisa fria da noite. E os robustos homens escuros, estirados no chão, uns contra os outros, no confuso abandono da fadiga e do somno, formavam como um vasto montão de humanidade já prostrada e preparada para a sepultura. Quantos d’aquelles estariam ainda vivos quando na outra noite de novo nascesse a lua? Estranha fatalidade e tristeza da vida! Muitos d’esses tinham alegria e paz nas suas aringas. Um principe ambicioso passava. E eis que milhares que alli dormiam um somno tranquillo cahiriam, varados por lanças, seriam frios cadaveres, desappareceriam em pó impalpavel, sem de si deixar mais vestigio que folhas de arvores que um vento leva. E nós mesmos--quem sabe? Tornariamos nós a vêr a lua brilhar n’aquella collina?

--Barão, disse eu de repente, dando voz a estes pensamentos, sinto-me n’um lamentavel estado de atrapalhação e de medo.

--O amigo Quartelmar costuma sempre queixar-se...

--Não, não! D’esta vez é serio. Nem sinto as pernas. Nós ámanhã somos atacados com forças colossalmente superiores e não escapa um de nós. É estupido! E para que? Não temos nada com as questões dynasticas dos Kakuanas! Somos estrangeiros, somos neutros!

--É verdade. Mas já agora, estamos envolvidos na aventura e é necessario leval-a a cabo airosamente. E depois, que diabo, Quartelmar! Mais vale morrer de repente, n’uma batalha, que durante mezes na cama!...

Eu pensei commigo (e bem estupidamente) que o melhor era não morrer nem n’uma cama, nem n’uma batalha. E d’ahi a instantes recolhiamos á nossa estreita senzala, a dormir algumas horas antes da grande acção.

Infandós veio-nos acordar ao romper da alvorada, dizendo que se observavam já do lado da cidade movimentos de tropas, e que já ligeiras escaramuças tinham obrigado as nossas sentinellas avançadas a recolher. Começámos logo, febrilmente, os nossos preparativos. O barão, pelo principio de que na «Kakuania se deve ser Kakuano», armou-se e enfeitou-se como um guerreiro selvagem--pelle de leopardo aos hombros, enorme pluma de abestruz presa á testa, cintura de rabos de boi, escudo de ferro coberto de couro branco, machada de combate, facalhões de arremessar, azagaia, todo o complicado armamento d’um chefe negro. E devo confessar que assim armado e emplumado era uma esplendida e formidavel figura! O capitão John não causava tanta impressão. Em primeiro logar insistira em conservar as calças que Infandós lhe obtivera; e um cavalheiro baixote e gordote, de monoculo, suissa d’um lado e a cara rapada do outro, com uma cóta de malha de ferro mettida para dentro das pantalonas, grande lança e chapéo côco, offerece na realidade um espectaculo mais estranho que imponente. Eu por mim, ao contrario, tinha tirado as calças para correr mais lesto se tivessemos de retirar: mas a fralda da camisa apparecia-me por baixo da cóta de malha: um facalhão que pendurára á cinta batia-me lamentavelmente nas canellas: o escudo enfiado no braço entanguia-me os movimentos: e sentia em geral que não apresentava para combate uma figura sufficientente heroica. De sorte que espetei uma immensa pluma no meu bonet de caça--e procurei dar ao rosto uma expressão de ferocidade. Além do arsenal de armas selvagens, tinhamos naturalmente as nossas carabinas, que tres soldados atraz conduziam com os sacos de munição.

Apenas armados, engulimos á pressa o almoço, e abalámos. N’uma das extremidades do planalto do monte havia uma especie de casebre de pedra, que servia ao mesmo tempo de quartel-general e de torre de vigia. Encontrámos ahi Ignosi, magnificamente emplumado e apetrechado. Com elle estava Infandós: e como guarda real o regimento de Infandós, decerto o mais numeroso e aguerrido de todo o exercito. Este regimento tinha por nome os Pardos, porque usava plumas pardas na cabeça. Era composto de tres mil praças; e estava collocado de reserva, deitado em ordem e por companhias sobre o capim que alli crescia. Os chefes, n’um grupo, junto do casebre, com as mãos em pala sobre os olhos, observavam o movimento das tropas de Tuala--que vinham n’esse momento sahindo de Lú em longas columnas semelhantes a formigueiros.

Cada uma d’essas columnas tinha de onze a doze mil homens. Logo que sahiram as portas de Lú e se acharam na planicie pararam: depois, formadas em batalha, marcharam uma para a direita, outra para a esquerda, a terceira em direcção á nossa collina.

--Bom, murmurou Infandós, vamos ser atacados por tres lados!

CAPITULO X

O ATAQUE DA COLLINA

Devagar, em perfeita ordem, as tres columnas avançaram. A da direita e a da esquerda, separadas, e obliquando como para envolver e cercar a nossa posição: a do centro, direita sobre nós, marchando por aquella lingua da planicie que entrava pela nossa collina dentro--collina que (como disse) tinha a fórma d’uma meia lua com as duas pontas voltadas para a cidade de Lú. A umas quinhentas jardas esta columna parou--dando tempo a que as outras circumdassem a nossa posição. O plano das gentes de Tuala era evidentemente dar, por cada lado, á nossa cidadella um assalto simultaneo e brusco.

--Ah! Suspirou John, olhando aquellas multidões espalhadas em baixo, quem tivera aqui uma metralhadora!

--Nem fallemos n’essa delicia! Exclamou o barão com igual pezar. Em todo o caso, Quartelmar, veja se a sua carabina chega até áquelle maganão, de pelle de leopardo, que parece commandar a força.

Carreguei tranquillamente a carabina com bala, agachei-me por traz d’uma pedra e apontei. O pobre commandante de pelle de leopardo avançára das fileiras uns trinta passos, seguido por uma ordenança, a examinar a nossa posição; e erguia justamente o braço quando eu lhe mandei uma bala. Tombou sem um movimento mais, com a face no chão. Os nossos regimentos espantados, acclamaram este milagre do homem das estrellas; e eu (tanto a guerra nos endurece o coração) gostei d’estes applausos. Creio mesmo que agradeci, como um actor! No emtanto o barão apontára a um outro official, que correra a recolher o cadaver do camarada--e que, por seu turno, bateu com os braços no ar, cahiu morto. A força inimiga, aterrada, começou logo a recuar. Os nossos uivavam de deleite e de furor. John juntára-se a nós com a sua carabina; e antes que a divisão se tivesse retirado para fóra do nosso fogo, abatemos uns dez ou doze homens. Como effeito moral parecia excellente.

De repente, porém, ouvimos um immenso clamor á nossa direita, e um clamor igual á nossa esquerda. Eram as duas columnas circumdantes que nos atacavam. Immediatamente a massa de homens em frente de nós rompeu avançando por aquella lingua de planicie que penetrava em subida suave no interior da nossa meia lua. Vinham n’um passo vivo, certo, elastico, que cadenciavam entoando um canto rouco. Começamos de novo a fazer fogo. Muitos homens cahiram. Mas era como se atirassemos pedras a uma grande vaca de equinoxio. A maré humana subia.

Subia com grandes brados, repellindo os nossos postos, collocados entre as rochas, á base da collina. A sua marcha porém diminuia de impeto, á maneira que a subida se convertia em ladeira, depois em ingreme pendôr de monte. Ahi onde começava o monte, estacionava a nossa primeira linha de defeza. Já de lado a lado, entre as forças, se começavam a atirar as tollas, grandes facas de arremesso que faiscavam no ar. Os que avançavam vinham bradando: Tuala, Tuala! Chielè, Chielè! (mata, mata!) Os nossos replicavam: Ignosi, Ignosi! Chielè, Chielè! As primeiras azagaias entrechocaram-se; e, com o encontro, peito a peito, das duas massas de homens, na vertente da collina, a batalha começou.

As forças que atacavam eram esmagadoras; e a nossa primeira linha, onde os homens cahiam como folhas no outono, cedeu, e reentrou na segunda linha de defeza. A lucta aqui foi terrivel; mas os nossos recuaram, e a terceira linha entrou em batalha á orla já do planalto. O barão, cujos olhos se accendiam, não se conteve mais. Brandindo a sua machada de guerra, arremessou-se para o meio do combate, seguido do capitão John. Ao avistar a gigantesca figura do «homem das estrellas» que vinha em seu soccorro, os nossos soldados bradaram com enthusiasmo:--Nanzie Incubú! (Ahi vem o elephante!) Chielè, Chielè! E, carregando com redobrado vigor, em poucos momentos repelliram a divisão de Tuala, que, já cançada, sem poder romper a sebe viva de lanças que a continha, voltou a descer a collina em confusão. N’esse instante tambem um mensageiro esbaforido veio annunciar a Ignosi (ao lado de quem eu ficára) que o ataque na esquerda da serra fôra rechaçado; e já eu e Ignosi nos congratulavamos, quando, com grande horror, vimos os nossos, que estavam defendendo a direita, vir correndo pelo planalto, acossados por multidões inimigas, que evidentemente n’aquelle ponto tinham rompido as nossas linhas.

Ignosi bradou uma ordem. Immediatamente o regimento dos Pardos se desdobrou, para reter a debandada dos nossos, rechaçar a invasão. E, sem que eu comprehendesse bem como, instantes depois achei-me envolvido n’uma furiosa carnificina. Tudo o que me lembra é o estridente ruido dos escudos de ferro entrechocando-se--e logo adiante a apparição d’um enorme bruto furioso, com os olhos sangrentos a saltarem-lhe das orbitas, que erguia sobre mim uma longa azagaia. O meu rewolver findou-lhe os furores para todo o sempre. Mas quasi em seguida, senti uma pancada na cabeça--e quando tornei a abrir as palpebras, estava no casebre do quartel-general, deitado n’uma esteira, com o excellente John ao meu lado, velando.

--Então, exclamou elle anciosamente, pondo no chão a cabaça d’agua com que me borrifava.

Antes de responder, ergui-me muito devagar, apalpei com cuidado o meu precioso corpo.

--Bem, obrigado. Estou perfeitamente bem!

--Graças a Deus! Quando o vi, trazido n’uma padiola, deu-me uma volta o coração!

--Não, não foi d’esta! Levei só uma bordoada, supponho eu. E a batalha?

--Por hoje repellimos a pretalhada do rei. Mas perdemos perto de dois mil homens. Veja aquelle horror, Quartelmar!

E o bom John mostrava fóra o terreiro, convertido n’um hospital de sangue. Para transportar os seus feridos, os Kakuanas usam um longo e esguio taboleiro com uma argola a cada canto. E d’estes taboleiros, postos no chão, cada um com o seu homem, havia longas filas--por entre as quaes caminhavam, curvados, os cirurgiões Kakuanas. O methodo d’estes clinicos é simples o piedoso. Se a ferida se apresenta curavel, o soldado é besuntado com os unguentos nativos, e isolado nas senzalas. Se a ferida é incuravel ou muito grave, o cirurgião, com uma lanceta, corta subtilmente uma arteria do homem, que expira em poucos instantes sem soffrer.

Fugindo a estes espectaculos, John e eu seguimos para o outro lado do quartel-general, onde encontramos o barão (ainda de machado na mão, todo tinto de sangue) reunido em conselho com Ignosi, Infandós e dois chefes idosos.

--Ainda bem que chega, Quartelmar! Gritou o barão. Eu não posso comprehender o que quer esta gente... Parece que vamos ser cercados!

E assim era, segundo explicou lentamente Infandós. Tuala repellido reunira reforços, e parecia tomar disposições para pôr sitio á collina, e vencer-nos pela fome e pela sêde. Os mantimentos não durariam mais de dois dias. Mas o peor era que a nascente d’agua, sorvida a cada instante por dezeseis mil bôcas sedentas, estava prestes a esgotar-se; e antes da manhã seguinte o exercito gemeria de sêde. N’estas conjuncturas, Ignosi queria saber o que propunham os homens das estrellas.

--Dize tu, Macumazan, velha raposa, que tens visto muito, e sabes todas as artes.

Conversei um momento com os amigos, e declarei em seguida ao conselho, que, sem pão e sem agua, nada nos restava senão fazer immediatamente uma tremenda sortida contra Tuala. Todos approvaram com ardor a minha idéa. Mas sob que plano se tentaria esse ataque? Cabia a Ignosi, o rei, decidir:--e os olhos de cada um voltaram-se para o nosso antigo servo, que agora, nas suas armas e plumagens de guerra, tinha um magnifico ar de rei guerreiro.

Depois de pousar dois dedos sobre a testa, á maneira Zulú, Ignosi fallou e desenvolveu um plano excellente. Ao começo da tarde (era então meio-dia) os Pardos, commandados por Infandós e o barão, desceriam aquella lingua da planicie que penetrava na meia lua da collina, e avançariam sobre Tuala, emquanto elle proprio, Ignosi (que eu devia acompanhar), ficaria de reserva por traz com tropas frescas. Decerto Tuala, vendo os Pardos romper n’uma sortida, lançaria sobre elles toda a sua força para os esmagar. Emquanto na lingua de terra se estivesse dando esse primeiro recontro, uma terça parte das nossas forças desceria pela ponta direita da collina, levando comsigo John, o do olho rutilante; outra terça parte iria de manso pela ponta esquerda; subitamente ambas cahiriam sobre os flancos de Tuala;--e n’esse instante elle, Ignosi, desceria pela frente com as tropas frescas, e se a fortuna estivesse com elle ceariamos n’essa noite contentes na cidade de Lú!

O plano foi acolhido entre applausos--e immediatamente entrou em preparação, com uma presteza, um methodo, que fez honra aos officiaes Kakuanas. No espaço de duas horas foram servidas as rações aos homens, as tres divisões formadas, a ordem de ataque bem explicada aos chefes, e toda a força (menos uma guarda que se deixou aos feridos) collocada nos seus postos.

Era pois outra immensa carnificina que se preparava e em que me veria envolvido--eu, homem de ordem, de gostos simples, que tanto detesto violencias! Quando John, ao partir com a ala direita, nos veio dizer adeus, um pouco commovido--eu, com a voz abalada tambem, só tive estas palavras:

--Se escapar, amigo John, louve a Deus, e não se metta mais com pretendentes!

CAPITULO XI

A BATALHA DE LÚ

Não contarei os pormenores sangrentos d’este grande combate, que se ficou chamando a «batalha de Lú». Todos estes medonhos conflictos de selvagens, mesmo travados com a disciplina dos Kakuanas, se assemelham. É sempre uma vasta confusão de corpos escuros e emplumados, um estridente ruido de escudos entrechocando-se, azagaias reluzindo no ar, saltos, guinchos, uivos, clamores immensos onde destaca uma nota assobiada, o sgghi! sgghi! Que solta o selvagem quando trespassa com o ferro o inimigo.

O plano de Ignosi de resto foi triumphalmente realisado. Os Pardos avançaram n’aquella lingua de terra que penetrava na nossa meia lua, e com admiravel heroicidade sustentaram os ataques de regimentos após regimentos, arremessados sobre elles por Tuala.

Quando dos Pardos restava apenas metade, e a attenção de todo o exercito inimigo estava concentrada n’esta lucta com o heroico regimento, as duas alas nossas, que tinham caminhado pelos dois cornos da meia lua, cahiram sobre os flancos desprevenidos do inimigo como um circulo de cães de fila sobre lobos descuidados. Começou uma pavorosa matança. Ignosi carregou então de frente com as reservas frescas--e decidiu a batalha. Eu fiz parte d’essa carga: e não sei como, achei-me ao pé do barão, que parecia o verdadeiro deus da guerra, com os longos cabellos de ouro a esvoaçar ao vento, todo elle vermelho de sangue, e soltando a cada grande golpe de machado o velho grito saxonio de ataque O-hoy! O-hoy! Tambem me parece que avistei Tuala na confusão, coberto com a sua cóta de malha, arremessando as tollas, as facas enormes dos Kakuanas, que dois guerreiros atraz d’elle traziam em sacos de coiro. Lembro-me ainda tambem d’um chefe que, em vez de escudo, erguia para se defender o cadaver de um Pardo, e que combatia cantando. De resto, tudo se me confunde na memoria--o sangue correndo, os corpos tombando, um grande estridor de armas, um immenso esvoaçar de plumas.

Com o embate das duas columnas nossas sobre os flancos do exercito de Tuala a batalha ficou ganha--e dentro em breve a vasta planicie que se estendia entre a nossa collina e a cidade de Lú estava cheia de soldados fugindo em terrivel desordem. O regimento dos Pardos no emtanto (ou o que d’elle restava) reunira n’uma pequena elevação de terreno--onde tristemente verificamos que, dos tres mil valentes que o compunham, ainda de manhã, apenas acudiam á chamada cento e noventa e cinco homens. Entre elles estava Infandós, que combatera heroicamente tendo sómente um leve golpe no braço. Ignosi, com um grupo de chefes, entre os quaes vinha John (ferido n’uma perna e manquejando), em breve se veio juntar a esta gloriosa phalange dos Pardos. E foi seguido d’ella, como da sua guarda de honra, que o rei, e nós com elle, marchamos sobre a cidade de Lú.

Ás portas da cidade, ainda fechadas, estavam já postados grossos destacamentos dos nossos para as atacar. Mas dentro os soldados de Tuala, inteiramente desmoralisados pela derrota do seu rei, não pareciam dispostos á resistencia. Com effeito, ás primeiras intimações dos arautos, a ponte levadiça da porta chamada Real foi descida: e, seguindo Ignosi, penetramos emfim na cidade vencida. Nas ruas, ás portas das aringas, nos terreiros, por toda a parte se apresentavam soldados, com a cabeça baixa, os escudos e as lanças pousadas aos pés em signal de submissão, que saudavam Ignosi como rei. Assim chegamos á aringa real.

No terreiro silencioso, á porta da sua grande senzala, solitario, abandonado, sem um soldado, sem um cortezão, sem uma das suas mil mulheres, estava Tuala, sentado n’um escabello, com o rosto cahido sobre o peito, as mãos pousadas sobre os joelhos. Cheguei a sentir uma vaga piedade pelo pobre rei derrotado! Um unico sêr lhe ficára fiel, Gagula--que, agachada aos seus pés, rompeu n’um fluxo de injurias, mal nos viu assomar ao terreiro, seguindo o triumphante Ignosi.

Tuala, esse não parecia vêr, nem sentir. Só quando Ignosi parou, e os soldados bateram em cadencia com os contos das azagaias no chão, o velho tyranno ergueu a cabeça emplumada. Depois atirando sobre nós um olhar mais reluzente que o grande diamante que lhe ornava a testa:

--Salvè, rei! Gritou elle a Ignosi, com amargo escarneo. Tu que, por feitiços dos homens das estrellas, seduziste os meus regimentos, dize, que sorte me destinas?

--A sorte de meu pae, que tu mataste!--foi a fria e dura resposta.

--Bem! Saberei morrer, para que te fique como exemplo quando a tua vez chegar. Mas reclamo um privilegio da familia real dos Kakuanas. Quero morrer combatendo.

--Concedo, respondeu Ignosi. Escolhe o teu homem. Eu não posso, porque o rei não se bate em combate singular.

O sinistro olho de Tuala percorreu-nos lentamente a todos. E, como durante um momento se fixou em mim, eu senti alli o mais atroz pavor da minha vida aventurosa. Justos céos! Se elle se quizesse bater commigo? Tambem, tomei logo a minha resolução--recusar, fugir, ainda que fosse apupado por toda a nação Kakuana! Felizmente o bruto escolheu:

--Incubú! Exclamou, estendendo a mão para o barão. Tu que mataste meu filho, quererás tu luctar commigo, ou ser chamado um cobarde?

--Não, gritou logo Ignosi, Incubú não se baterá comtigo!

--Decerto não, se tem medo.

Infelizmente o barão comprehendera. Todo o sangue lhe subiu ás faces. E avançou logo, de machado erguido.

Acudimos, supplicando-lhe que não arriscasse a vida com aquella féra, inteiramente desesperada, de antemão condemnada á morte. Provas de heroico valor já elle as déra de sobra! Para que ir-nos despedaçar o coração, se uma desgraça lhe succedesse?

O barão porém permaneceu inabalavel.

--Nenhum homem vivo, civilisado ou selvagem, me chamará nunca cobarde. Quero bater-me com elle!

Ignosi, bem a custo, cedeu.

--Seja pois!... Tuala, o grande Incubú vai marchar para ti!

Tuala riu, ferozmente; e os dois gigantescos homens ficaram frente a frente. O primeiro ataque foi o do barão, que lançou sobre Tuala o machado a toda a força. Com um salto Tuala esquivou o córte, e arremessou outro em resposta sobre o barão, que o aparou no escudo. E durante um momento houve assim uma viva e faiscante troca de machadadas, que ora bruscos saltos evitavam, ora os broqueis defendiam. Nós nem respiravamos. O regimento dos Pardos, esquecida a disciplina, fizera circulo, e soltava gritos, batia palmas a cada golpe vibrado. John, agarrado ao meu braço, andava aos saltos sobre a perna sã, animando o barão com berros:

--Bravo! Anda-me ahi! Esse foi bom! Atira-lh’o de ilharga!...

Subitamente um brado de horror resoou. D’uma pancada Tuala cortára o cabo do machado do barão, que ficava assim desarmado--e, erguendo o seu proprio machado, cahia sobre elle com um uivo furioso de triumpho. Tudo acabára, eu fechei os olhos... Quando os abri, Tuala e o barão, agarrados um ao outro como dois gatos bravos, estavam rolando no chão--e o barão, com um desesperado esforço, procurava arrancar a Tuala a machada que elle tinha preso ao pulso por uma correia de bufalo. Pareceu-me uma eternidade o tempo que elles assim rolaram um sobre o outro, n’esta furiosa lucta pela posse do machado. Finalmente a correia quebrou--e com um ultimo, monstruoso arranque, o barão, desprendendo-se de Tuala, ergueu-se de salto, com o machado na mão. N’um instante Tuala estava tambem de pé--e ambos tinham as faces a escorrer sangue. Foi Tuala, que, mais rapido, arrancou do cinto o facalhão e o vibrou contra o peito do barão. O valente homem cambaleou, mas a couraça de malha repelliu a facada. De novo Tuala arremetteu com a lamina--e então o barão, retesando-se todo n’um esforço, alçou o machado, no momento mesmo em que Tuala se inclinava, e deixou cahir uma machadada com tremenda força sobre o pescoço. Houve um grito enorme.--E, coisa pavorosa! Vimos a cabeça de Tuala saltar-lhe dos hombros, dar como uma pélla dois pulos pelo chão, e rolar até aos pés de Ignosi! Durante um segundo o corpo ficou erecto, com o sangue sahindo em grossos borbotões e a fumegar. De repente tombou, com um ruido surdo. E do outro lado o barão cahiu tambem, desmaiado.

Erguemol-o anciosamente, encharcamos-lhe o rosto em agua. Pouco a pouco abriu os olhos. Estava salvo!

O sol ia justamente descendo. Eu baixei-me para a cabeça de Tuala que alli ficára n’uma poça de sangue, e, desapartando o grande diamante que lhe ornava a testa, entreguei-o solemnemente a Ignosi e bradei:

--Salvè, rei dos Kakuanas!

Elle apertou o diamante sobre a testa. Depois pousou um pé sobre o peito de Tuala morto, e cercado dos seus guerreiros entoou um canto de victoria.

CAPITULO XII

O REI IGNOSI

Tudo findára gloriosamente. Chegára a hora de repousar--ou, melhor, de convalescer. O barão e o capitão (cuja perna, de todo inchada, o fazia agora soffrer muito) foram levados em braços para a aringa palacial de Tuala. E eu para lá me arrastei, exhausto de emoções, com a cabeça consideravelmente dorida da paulada d’essa manhã na defeza do planalto.

O primeiro cuidado foi despir as cótas de malha, tarefa difficil (pelo nosso combalido estado) em que nos ajudou a linda Fulata, que se constituira, desde o começo da revolta, nossa vivandeira, nossa enfermeira, e nosso anjo da guarda. Arrancadas as cótas, vimos que os nossos pobres corpos eram uma massa medonha de pisaduras negras. No tumulto da batalha tinhamos apanhado decerto muita facada, muita lançada. As pontas dos ferros eram repellidas pela malha impenetravel; mas nem por isso cada um dos golpes arremessados deixava de constituir uma terrivel pontuada que nos amolgava corpo e membros. Eu estava positivamente negro de pisaduras. Mas o peor era a ferida de John na perna, e a do barão a quem uma das machadadas de Tuala cortára profundamente a face sobre a maxilla. Fulata preparou-nos uns emplastros de hervas aromaticas que nos alliviaram as dôres. E como o capitão John tinha noções e pratica de cirurgia (segundo contei), foi elle que fez o tratamento da ferida do barão e da sua propria, tão bem quanto lh’o permittiam os poucos fios, o resto de pomada antiseptica que encontrou na sua botica portatil, e a escassa luz da lampada kakuana.

Depois, Fulata arranjou-nos um caldo muito forte, e estendemo-nos nas magnificas pelles que juncavam o chão da aringa do rei. Mas não pudémos dormir. De toda a cidade, em torno de nós, subia a triste e ululada lamentação das mulheres, chorando, á maneira dos Zulús, os valentes mortos na batalha. Mesmo ao nosso lado, as carpideiras reaes estavam carpindo a morte de Tuala com estridente dôr. A noite ia cheia de prantos--e além d’isso a cada instante sentiamos os gritos agudos das sentinellas, ou a ruidosa passagem de rondas. Foi só de madrugada que pude cerrar os olhos--os olhos que, apesar de cerrados, continuavam a vêr os lances da batalha, com tanta realidade que por vezes estremecia em sobresalto e me erguia no cotovêlo a procurar as minhas armas, ou a lançar uma ordem de ataque.

Quando emfim acordei, com o sol já alto, soube que os meus dois amigos tambem não tinham dormido. De facto, o capitão John estava com uma intensa febre e começava a delirar. Além d’isso, symptoma assustador, toda a noite cuspira sangue. O barão, esse, mal podia ainda mexer o corpo; e a ferida da face não lhe permittia comer, escassamente fallar. Eu era ainda assim o mais restabelecido. Tomei o delicioso caldo de Fulata, e sahi um instante ao terreiro a respirar. Encontrei justamente Infandós que chegava, tão fresco e agil como se na vespera, em logar de uma batalha, tivesse celebrado uma festa. Ficou desolado ao saber a doença de John. Entrou um momento na cubata para o vêr e o barão, que não se podia ainda levantar e apenas mover os membros sobre o seu fôfo leito de pelles. Em voz baixa, por causa de John, Infandós contou-nos que todos os regimentos se tinham submettido a Ignosi, que das outras cidades chegavam ferventes adhesões, e que o novo reinado se firmava para longas éras de prosperidade e de paz.

Quando elle se retirava, appareceu Ignosi, seguido de uma guarda real. Não pude deixar, ao vêl-o, de pensar nas estranhas revoluções da sorte! Aquelle moço, que havia mezes, na minha casa em Durban, me pedia para entrar ao meu serviço--eil-o agora rei, grande Potentado d’Africa, commandando cincoenta mil guerreiros, senhor de povos, de rebanhos e de terras sem conta!

--Salvè, rei! Exclamei eu, erguendo-me com respeito.

--Graças a ti, Macumazan, e aos teus amigos! Exclamou elle, apertando-me as mãos com carinho.

Entrou tambem, como Infandós, na cubata para vêr o barão e o pobre John, que dormia um somno de febre, horrivelmente agitado, sob os olhos compassivos e vigilantes da boa Fulata. Depois, quando sahimos de novo ao terreiro, conversando, perguntei-lhe o que contava elle fazer de Gagula.

--Gagula é o genio mau d’esta terra, disse elle. Conto mandal-a matar para findar com ella, que já é velha de mais!

--Mas tem segredos! Mas sabe muito! Repliquei eu.

--Sabe sobretudo o segredo dos Silenciosos, volveu o rei pousando os olhos em mim com amizade, e o da caverna onde os reis estão enterrados, e o do logar dos diamantes. Ora eu não esqueço a promessa que te fiz, Macumazan. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados por Gagula: e só por isso a poupo.

--Está bem, Ignosi, registro as tuas palavras.

Mas não foi possivel, durante essa semana, pensar nos diamantes, porque através de toda ella a vida do nosso pobre John esteve em risco e os nossos corações em anciedade. Realmente creio que teria morrido, se não fossem os desvelos, a adoravel dedicação de Fulata. Dias amargos esses para nós! O barão, já então restabelecido, e eu, nada mais fizemos durante essa crise atroz, do que entrar, sahir, rondar em pontas de pés a senzala onde elle delirava. Remedios não tinhamos para lhe dar, além d’uma bebida refrescante feita por Fulata com leite e o succo extrahido da raiz d’uma especie de tulipa. Só podiamos contar com a forte natureza d’elle e a boa mercê de Deus.

Em toda a aringa real havia um grande silencio, porque Ignosi, para manter perfeito socego em torno ao doente, ordenára que todos os que lá viviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava permanentemente ao lado d’elle, sentada no chão, dando-lhe a bebida refrescante, arranjando-lhe as travesseiras feitas das folhas sêccas d’uma planta que faz dormir, enxotando-lhe as moscas do rosto.

No nono dia da doença, á noite, antes de recolher, o barão e eu entramos, segundo o costume, na senzala. A lampada collocada no escabello dava uma luz funebre. Não havia um rumor. E o meu pobre amigo jazia perfeitamente immovel. Pensei que chegára o seu fim, tive um soluço que me suffocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou chut!

E, mais de perto, descobrimos que o nosso amigo não estava morto, mas tranquillamente adormecido, sob a caricia das mãos de Fulata, que lhe cobriam a testa, onde um suor fresco começava. Era a crise do nono dia, o somno reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito horas. E (mal me atrevo a contal-o, porque não serei acreditado) Fulata, a admiravel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou tambem assim, com as mãos pousadas sobre a testa d’elle, sem comer, sem se erguer, sem se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse o seu doente. Quando elle afinal despertou--tivemos de a erguer em braços, porque a heroica enfermeira estava quasi desmaiada de debilidade e fadiga.

A convalescença de John foi rapida. Ao fim d’outra semana, já passeava pelos arredores da cidade, entre os pomares, á beira do rio, acompanhado por Fulata, que o salvára, e a quem elle votára (segundo dizia) um «reconhecimento eterno». Mas eu não agourava bem d’aquelle «reconhecimento», d’aquelles passeios bucolicos... Nos olhos de Fulata havia muita meiguice, muita languidez. E John como marinheiro, era indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, iamos ter, mais perigosa ainda, alguma aventura d’amor!

Apenas John se considerou a si proprio escorreito e «prompto para outra»--Ignosi começou as festas da sua proclamação. Todos os «Indunas» (chefes supremos) das provincias do reino vieram a Lú prestar vassallagem. Houve revistas de tropas, danças, formidaveis banquetes. Os homens que restavam do regimento dos Pardos foram todos doados com terras e rebanhos, e promovidos a officiaes. Ignosi promulgou na Grande Assembléa que d’ora em diante não haveria mais caça aos feiticeiros, nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, emquanto nós residissemos no seu reino, gozassemos de honras reaes, e recebessemos sempre, como elle, a saudação de Krum!

No ultimo dia d’este grande festival, eu e os amigos dirigimo-nos ao rei, em grupo, e declaramos-lhe que o momento chegára, de realisar a sua promessa, e de nos mandar conduzir ao logar onde deviam estar as pedras brancas que reluzem.

Ignosi abraçou-nos com grande affecto.

--Não me esqueci, amigos! Já indaguei a verdade, e eis o que sei. Aquella estrada branca que trilhámos acaba além junto das montanhas chamadas as Tres Feiticeiras, onde estão as figuras de pedra, os Silenciosos. Jaz ahi uma grande cova, d’onde se diz que homens muito antigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para além d’essa cova ha uma funda caverna na rocha, terrivel, maravilhosa, onde vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala já foi conduzido. E por traz d’essa caverna fica uma camara secreta de que só Gagula conhece o segredo. Corre tambem a historia de que, ha muitas gerações, um branco veio aqui, e foi conduzido por uma mulher a essa camara secreta, onde viu riquezas sem conto, mas d’essas que para os Kakuanas nada valem: o branco porém não teve tempo de arrecadar essas riquezas, porque a mulher o trahiu, e o rei d’esses tempos o escorraçou outra vez para além das montanhas...

--A historia é verdadeira, acudi eu. Não te lembras, Ignosi, que nas montanhas, na caverna de gelo, encontramos nós, petrificado, esse homem branco?

--Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula, e ordenar-lhe, sob pena de morrer, que vos leve á camara secreta, meus amigos... E as riquezas que encontrardes, oh meus amigos, são vossas!

N’esse instante dois guardas appareceram, trazendo agarrada pelos braços a hedionda Gagula; que gania e os amaldiçoava. Mal a largaram, toda ella se abateu e achatou sobre o chão--como um montão de trapos onde dois olhos ferozes viviam e refulgiam.

--Que me queres tu, Ignosi? Uivou ella. Não me toques, que te destruo. Treme das minhas artes!

O rei encolheu os hombros.

--As tuas artes não salvaram Tuala. Que me importam as tuas artes? Aqui está o que de ti quero: que mostres aos meus amigos a camara secreta onde estão as pedras que reluzem.

--Só eu o sei, e nunca o direi! Bradou ella. Os brancos malditos voltarão, levando vasias as mãos malditas!

--Bem, volveu tranquillamente o rei. Então, Gagula, vaes morrer lentamente.

--Morrer! Gritou ella, cheia de terror e de furia. Tu não te atreverás, Ignosi! Ninguem me póde matar. Que idade pensas tu que eu tenho? O teu pae conheceu-me; e o pae do teu pae; e o pae que gerou a esse. Ninguem ousará tocar-me, porque sobre esse cahirão as desgraças sem fim.

Em silencio, tranquillamente, Ignosi baixou sobre ella a ponta da sua azagaia:

--Dizes?

--Não!

Ignosi baixou mais o ferro, picou de leve o montão de trapos onde reluziam os dois olhos ferozes.

Com um uivo dilacerante, a horrenda bruxa poz-se em pé, de salto. Depois tornou a cahir, e rolou no chão esperneando.

De novo a lança de Ignosi a procurava:

--Dizes?

--Digo, digo, oh rei! Ganiu ella. Mas deixa-me viver, e sentar-me ao sol, e respirar o ar dôce, e ter um osso para chupar!...

--Bem; ámanhã irás com meu tio Infandós e com os meus irmãos brancos a esse logar, mostrarás a camara secreta e o escondrijo das pedras que reluzem. Mas tem cautela! Que se em ti houver traição, morrerás devagar, e em tormentos.

--Não, Ignosi! Irei com elles, e tudo mostrarei. Mas a desgraça vem a quem penetra n’esse logar. Outr’ora veio um homem, encheu um saco d’essas pedras brilhantes, e uma grande desgraça cahiu sobre elle! E foi uma mulher que o levou, e que se chamava Gagula. Talvez fosse eu! Talvez fosse minha mãe! Ou a mãe de minha mãe! Quem sabe? Será uma alegre jornada... Eu hei de ir, e hei de rir! Vinde, homens brancos, vinde! Vereis ao passar os que morreram na batalha, com os olhos vasios, as costellas ôcas. A morte vive lá, e está á espera. Será uma alegre jornada!