WeRead Powered by ReaderPub
As Minas de Salomão cover

As Minas de Salomão

Chapter 33: CAPITULO XVI
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A seasoned African hunter recounts an expedition with two companions into the remote interior to find a missing man and a reputed hoard. The party endures oppressive heat, treacherous terrain, and violent encounters while forming alliances and confronting betrayal; they discover an isolated, highly organized people with strange customs and ancient legends, explore vast subterranean caverns that hold the fabled riches, and face both human treachery and life‑threatening hazards. The narrative balances practical travel detail and combat with the comradeship of the explorers and themes of survival, discovery, and the moral ambiguities of conquest and rescue.

CAPITULO XIII

A GRANDE CAVERNA

Tres dias depois, ao escurecer, estavamos acampados n’um casebre desmantelado, em frente das Tres Feiticeiras, as tres montanhas que tantas vezes de longe avistaramos, desde a nossa chegada a Lú, e onde deviam jazer, segundo a tradição dos Kakuanas e o roteiro do velho D. José da Silveira, as minas das pedras que reluzem--as Minas de Salomão! Tinhamos partido de Lú doze dias antes, acompanhados por Infandós, por Fulata (que não deixára mais o «seu doente», o bom John), por Gagula que vinha n’uma liteira, e por uma forte escolta de serviçaes e soldados. E foi só no dia seguinte, ao amanhecer, que examinamos aquelle estranho sitio, tão cheio de terror para os Kakuanas e para nós de maravilhosas promessas.

Nunca eu esquecerei o momento em que, sahindo a porta das cubatas, na primeira e fresca luz da manhã, vimos os tres montes isolados, em triangulo, um á nossa direita, outro á nossa esquerda, o terceiro ao fundo, em face de nós, erguendo magnificamente ao céo os seus cimos resplandecentes de neve. Um tojo em flôr, d’um escarlate ardente, cobria as poderosas fraldas dos tres montes--e seguia ainda, como um tapete igual e continuo, pelos grandes descampados que os cercavam. A fita branca da estrada de Salomão cortava a direito até á Feiticeira central, a que formava a ponta do triangulo, onde findava brusca e mysteriosamente. Ahi, junto d’esse monte, estavam as fabulosas minas, que tinham sido o fim de tantos miseros destinos, o do velho fidalgo portuguez, o do seu descendente, e decerto o d’aquelle que nós vinhamos procurando desde o sul e por quem correramos tanto perigo e tanta aventura! Todo o que buscar essas minas fabulosas (dizia Gagula) encontrará desillusão e desastre. Seria essa a nossa sorte? Nós chegavamos sob a protecção do rei, cercados de serviçaes e de guardas... E apesar d’isso sentiamos pesar-nos sobre o coração, tristemente, a prophecia da horrenda mulher.

No emtanto, quando nos puzemos a caminho, era tão viva a anciedade de chegar e de vêr, que os carregadores da liteira de Gagula mal podiam acompanhar a nossa carreira. A cada instante a velha bruxa gritava, estendendo para nós, por entre os pannos da liteira, os braços descarnados, as mãos em garra:

--Não vos apresseis, homens brancos! A morte está á vossa espera e não foge! Para que vos esfalfar, correndo para ella? Certa e segura a tendes!

Dava então uma risadinha que nos arripiava. Insensivelmente abrandavamos o passo... Depois bem cedo o estugavamos de novo sob o impulso irresistivel da curiosidade e da esperança!

Gastaramos assim hora e meia, trilhando a estrada de Salomão, e tendo já deixado á nossa direita e á nossa esquerda as duas Feiticeiras que formam a base do triangulo--quando chegamos junto d’uma immensa cova circular, em funil, offerecendo talvez trezentos pés de profundidade e meia milha de circumferencia. Entre a herva e tojo, que interiormente a forravam, surgiam grandes pedaços de greda azulada: quasi ao fundo corria um canal para agua, talhado na rocha viva; e abaixo do nivel d’essa obra estavam alinhadas umas poucas de mesas de pedra, polidas e gastas pelo tempo. A cova, as mesas, a disposição do canal, a natureza da greda azulada, tudo era semelhante ao que eu muitas vezes vira no sul, nas minas de diamantes de Kimberley. Assim o disse aos amigos:--e para mim ficou certo que alli houvera, em tempos, fossem nos de Salomão, fossem n’outros mais recentes, uma mina de diamantes.

A estrada, ao abeirar-se da cova, dividia-se em dois ramos que a circumdavam; e a espaços, esta via circular era feita de enormes lages de pedra, com o fim certamente de solidificar as bordas da mina, e impedir que se esboroassem. Mas o que mais nos surprehendia era, do outro lado da vasta cova, um grupo de tres objectos, que se destacavam como tres pequenas torres ou tres marcos colossaes. A curiosidade quasi nos fez correr, deixando atraz Gagula e Infandós; e bem depressa percebemos que o grupo era formado por tres immensas estatuas. Conjecturamos logo que deviam ser os Silenciosos, esses idolos, tão temidos pelos Kakuanas, e a quem offereciam os sacrificios sangrentos. Mas só ao chegar junto d’elles pudémos apreciar a estranha e terrivel magestade d’essas vetustas figuras.

Separadas por uma distancia de vinte passos, erguidas sobre immensos pedestaes de pedra negra onde corriam caracteres desconhecidos, e olhando a direito para a estrada de Salomão que através de sessenta milhas de planicie seguia até Lú--enchiam um grande espaço as tres gigantescas fórmas, duas de homem, uma de mulher, todas tres sentadas, medindo talvez cada uma a altura de vinte pés.

A figura de mulher, toda núa, com dois cornos, como os de um crescente de lua, sobre a testa, era de uma maravilhosa belleza--infelizmente estragada pelas injurias do tempo durante longos seculos. As duas figuras de homem, talvez por estarem vestidas em longas roupagens, pareciam mais bem conservadas. Um d’elles tinha uma face medonha, feita para inspirar terror, como a de um demonio malefico; mas a do outro parecia talvez mais assustadora ainda, na sua fria expressão de dura indifferença, de uma indifferença de rocha, que nenhuma prece póde abrandar, ou nenhum soffrimento apiedar. Todos tres juntos formavam na realidade uma Trindade pavorosa, assim sentados, immoveis, com os olhos vaga e perpetuamente estendidos para a planicie sem fim. Que imagens seriam estas? Deuses? Demonios? Reis de povos cujo nome esqueceu? Eu por mim, das minhas reminiscencias da Biblia, colligia que deviam ser talvez os falsos Deuses que adorou Salomão--«Asthoreth deusa dos Sidonios, Chemosh deus dos Moabitas, e Milcolm deus dos filhos de Amnon». Assim diz o Livro Santo.

--Que lhe parece, barão?

--Talvez, concordou o nosso amigo que recebera grau em Litteraturas classicas. A Asthoreth, de que fallam os Hebreus, é a Astarté dos Phenicios, os grandes commerciantes do tempo de Salomão. De Astarté fizeram os Gregos a sua Aphrodite, que se representava com o crescente da meia lua na cabeça... Se Salomão tinha aqui as suas minas, era natural que fossem dirigidas por engenheiros phenicios. De sorte que provavelmente esses homens ergueram, como padroeira da mina, a estatua da sua Deusa. Quem póde saber?

Quando estavamos assim contemplando estas extraordinarias reliquias de uma remota antiguidade, Infandós, que caminhára sem se apressar, chegou junto de nós, e saudou reverentemente com a lança os Silenciosos. Vinha saber se queriamos penetrar immediatamente na caverna, ou tomar primeiro a refeição da manhã. Como não eram ainda onze horas, e a nossa curiosidade flammejava, decidimos desvendar logo os mysterios, levando comnosco provisões para se lá dentro a fome excitada pelas emoções nos assaltasse. Infandós fez então signal aos carregadores para que se acercassem com a liteira de Gagula; e Fulata preparou dentro de um cesto, para levarmos, uma porção de caça fria e duas cabaças d’agua. Nós entretanto deramos uma volta em torno ás tres figuras de pedra. Por traz d’ellas, a uns cincoenta passos, erguia-se aquella das Feiticeiras que formava o bico do triangulo; na sua base, como incrustada n’ella, corria uma muralha de pedra: e ahi, ao centro, podiamos distinguir um arco escuro, como a entrada de uma galeria subterranea. Esperamos que os carregadores tirassem Gagula da liteira. Apenas no chão, a horrenda creatura agarrou o cajado, e dobrada em duas, com passos tremulos e vivos, largou em silencio para o arco escuro. Nós seguimos, calados, tambem.

Á entrada, o monstro parou, voltado para nós, com um riso livido na caveira.

--Homens das estrellas, estaes decididos? Quereis realmente penetrar na cova onde as pedras reluzem?

--Estamos promptos, Gagula, disse eu, alegremente.

--Bem, bem! Entrai! E pedi força aos corações para affrontar as coisas que ides vêr! E tu, Infandós, que trahiste teu amo, vens tu tambem?

O velho guerreiro franziu terrivelmente o sobr’olho:

--Não me compete a mim entrar nos sitios sagrados. Mas tu, Gagula, tem cautela, e treme! Os homens que vão comtigo são os amigos do rei! Por elles me respondes tu. E se tanto como a perda de um só cabello lhes succeder em mal, nem todos os teus feitiços te livrarão de morrer em tormentos. Comprehendeste?

--Comprehendi, comprehendi, Infandós! Ganiu ella, com um risinho gelado e lento. Não receies! Eu vivo só para fazer a vontade do rei. Tenho feito a vontade de muitos reis, em muitas gerações! E os reis findaram sempre por cumprir a minha vontade! Todos passaram, todos morreram... E eu aqui estou, para os ir visitar agora no palacio da morte, e para lhes fallar dos tempos que foram! Vinde, vinde! A lampada está accesa!

Tinha tirado debaixo do manto de pelles que a cobria uma cabaça cheia de oleo com uma grossa torcida de vime:--e a luz que ella aproximou do arco negro pareceu desmaiar e tremer.

--Vens tu tambem, Fulata? Exclamou John, volvendo os olhos em redor, inquieto.

--Tenho medo, meu senhor, murmurou a rapariga.

--Bem. Então dá cá o cesto!

--Não, meu senhor, para onde fôrdes, vou eu tambem!

--Bem! Pensei eu commigo, ahi levamos tambem o trambolho da rapariga para dentro da mina!

No emtanto Gagula mergulhára na galeria, que dava apenas logar para dois caminharem de frente. As trevas eram absolutas. Azas de morcegos batiam-nos nas faces. E seguiamos menos a luz bruxuleante da lampada, que a voz de Gagula, que repetia n’um tom lugubre:

--Avançai, avançai! A morte está perto!

De repente distinguimos uma vaga claridade. E momentos depois paravamos no mais maravilhoso sitio que olhos humanos têm contemplado.

A nada o posso comparar melhor do que ao interior de uma immensa cathedral, uma cathedral de sonho ou de lenda, sem janellas, alumiada por uma luz diffusa e mysteriosa que parecia cahir das alturas da abobada. Ao comprido d’esta vasta nave, como na nave de um verdadeiro templo, corriam renques de gigantescas columnas, d’uma côr algida de gêlo e de magnifica belleza. Alguns d’estes nobres pilares estavam, por assim dizer, interrompidos no meio--um pedaço erguendo-se do sólo, como a columna quebrada de uma ruina grega, outro pedaço pendente da remota abobada. Aos lados da nave abriam-se, com dimensões diversas, cavernas á semelhança de capellas, tendo tambem as suas filas de columnas, algumas tão pequeninas e finas como feitas para um brinquedo de creança. Aqui e além havia construcções estranhas, da mesma substancia algida que parecia gêlo--uma da fórma de uma vasta taça, outra offerecendo a vaga apparencia d’um pulpito com lavores pendentes. Um ar de indescriptivel frescura circulava dentro da vasta nave:--e por toda a parte sentiamos, na penumbra, o ruido lento de gottas de agua cahindo.

Não tardamos em perceber que estavamos simplesmente n’uma caverna de stalactites, de inigualavel belleza. Cada uma d’aquellas gottas de agua, que cahia, com um som humido e triste, era mais uma columna que se estava formando. Ha quantos seculos andava a Natureza trabalhando n’aquella obra maravilhosa? Sobre uma das columnas incompletas notei eu uma rude inscripção entalhada decerto por algum obreiro phenicio das minas, que alli escrevera o seu nome, ou talvez alguma facecia phenicia. Pois, desde esse dia, em tres mil annos pelo menos, a columna apenas crescera para cima da inscripção uns tres pés e meio. E ainda estava em via de formação, porque eu distinctamente senti, emquanto a examinava, cahir sobre ella, das profundidades da abobada, uma lenta gotta de agua! Quantos centos de milhares de annos levaram pois a crescer, a formar-se, assim largas, massiças, altas como torres, as columnas innumeraveis que se enfileiravam na nave? Nunca, como alli, eu comprehendi a espantosa velhice da Terra.

Gagula porém não nos deixou muito tempo n’esta curiosa contemplação. Inquieta, batendo o chão com o cajado, a lampada erguida sobre a cabeça, a cada instante nos apressava, com ganidos sinistros.

--Vamos, vamos, que a Morte está á nossa espera!

O capitão John ainda tentava gracejar com a atroz creatura. Mas quando ella nos conduzia ao fundo da nave, diante d’uma pequena porta semelhante ás dos templos egypcios, e nos perguntou se estavamos bem preparados a entrar a morada da Morte--todos estacamos, inquietos, mudos, sem ousar o primeiro passo.

--Isto está-se tornando sinistro, murmurou o barão. Os mais velhos adiante. Passe lá, Quartelmar!

Entrei a porta egypcia e achei-me n’um corredor inclinado, todo de abobada, horrivelmente negro. A lampada de Gagula esmorecia. O bater do seu cajado dava um echo lugubre. E a meu pezar parei, dominado por um presentimento de desastre e de morte.

--Para diante! Para diante! Murmurou John, que trazia Fulata agarrada pela mão.

Com um esforço desesperado venci o receio, alarguei o passo. E, quasi collados uns aos outros, desembocamos n’uma sala subterranea, evidentemente excavada outr’ora por poderosos obreiros no interior da montanha.

Esta sala não tinha uma luz tão clara como a cathedral de stalactites; e tudo o que eu pude descobrir a principio foi uma enorme e massiça mesa de pedra, tendo no topo uma colossal figura, que parecia presidir outras figuras abancadas em torno. Depois, sobre a mesa, no centro, distingui uma fórma encruzada. E quando emfim, acostumado á penumbra, percebi o que eram aquellas fórmas, voltei costas, e largaria a fugir como uma lebre--se o barão não me agarrasse pelo braço fortemente. Cedi, tremendo todo. Mas a esse tempo o barão tambem se habituára á luz diffusa, comprehendera tambem, e largando-me o braço, com uma exclamação, ficou a meu lado, quedo, arripiado, limpando o suor que lhe cobrira a testa. A pobre Fulata, essa, dava gritos, agarrada ao pescoço de John. E Gagula triumphava, com sinistra zombaria.

O que tinhamos, com effeito, ante os olhos apavorados, era terrivel. Alli, no topo da longa mesa de pedra estava a Morte--a propria Morte, um medonho e gigantesco esqueleto, de pé, todo debruçado para diante, com um dos braços apoiado ao rebordo da pedra como se acabasse de se erguer do seu assento, e com o outro levantando no ar uma enorme lança, que parecia arremessar sobre nós; o craneo da caveira alvejava lugubremente; das covas das orbitas sahia um fulgor negro: e as maxillas estavam entreabertas, como se fosse fallar, e desvendar o seu segredo.

--Santo Deus! Murmurei eu, tranzido. Que póde isto ser?

--E estas figuras, em redor? Balbuciava John.

--E além, aquella coisa, no meio? Exclamou o barão apontando para a inexplicavel figura encruzada sobre a mesa.

Então Gagula poisou a lampada e agarrando o braço do barão, com o dedo estendido para a fórma encruzada:

--Avança, Incubú, homem forte na guerra! Avança, e contempla aquelle que tu mataste e que está agora junto aos seus avós!

O barão deu um passo, e recuou abafando um grito. Sobre a mesa, inteiramente nú, com as pernas encruzadas, e a cabeça que o barão cortára poisada em cima dos joelhos, estava Tuala, ultimo rei dos Kakuanas!... Sim, Tuala, sustentando solemnemente sobre os joelhos a sua hedionda cabeça decepada, e com as vertebras a sahirem-lhe para fóra do pescoço encolhido e como resequido! Sobre todo o corpo negro tinha já uma especie de pellicula gelatinosa e vidrada, que o tornava mais pavoroso, e cuja natureza eu não podia comprehender--até que senti tic, tic, tic, um fio de gottas de agua, que, cahindo da abobada, lhe escorria pelo pescoço, e d’alli pelo corpo, para se escoar depois por um buraco cavado na mesa. Então percebi tudo--o corpo de Tuala estava sendo convertido n’uma stalactite!

E as outras figuras sentadas em torno da mesa eram igualmente reis dos Kakuanas, já transformados em stalactites! Havia trinta e sete--sendo o ultimo o pae de Ignosi. É esta, desde tempos immemoraveis, a maneira por que os Kakuanas conservam os seus reis mortos. Petrificam-nos, expondo-os, durante um longo periodo de annos, a uma queda de agua siliciosa que, lentamente e gotta a gotta, os transforma em estatuas geladas. Estavamos assim diante do mais maravilhoso e exotico Pantheon Real que existe decerto na terra. E nada póde igualar a terrifica impressão que causava aquella série de reis, pertencendo a muitas dynastias, amortalhados n’uma camada de gelo que mal lhes deixava já distinguir as feições, alli sentados, á volta da immensa mesa, em espectral e pavoroso concilio, presididos pela Morte!

E a Morte, o maravilhoso esqueleto, quem o esculpira? Não decerto os Kakuanas. A sua composição, o seu trabalho revelavam uma arte perfeita. Era obra dos artistas phenicios? Fôra collocada alli em tempo de Salomão, para guardar, pelo terror da sua lança, a entrada dos Thesouros? Não sei. Nem sei mesmo contar, com verdade, as estranhas sensações por que passei n’aquella camara sinistra.

CAPITULO XIV

O THESOURO DE SALOMÃO

No emtanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e agil) trepára para cima da mesa e acercára-se do cadaver de Tuala, a quem pareceu fallar mysteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis, dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas e graves que não comprehendiamos. Por fim, tendo chegado em frente da Morte, cahiu de bruços, com os braços estendidos, e ficou como mergulhada em oração.

Era um espectaculo tão arripiador, n’aquella penumbra de sepulchro, a hedionda creatura, mais velha que todas as creaturas, fazendo supplicas ao enorme esqueleto--que eu, já enervado, lhe gritei que viesse, nos levasse ao logar dos thesouros.

Immediatamente, a horrivel bruxa saltou da mesa, como um gato, e passando por traz das costas da Morte, ergueu a lampada, mostrou a parede de rocha:

--Entrai, homens brancos, entrai, se não tendes medo!

Olhamos, procurando a entrada. Só vimos a rocha solida e negra.

--Gagula, disse eu com os dentes cerrados, não zombes de nós que te mato!

--Mas a porta é aqui, homens brancos, a porta é aqui! Gania ella, com as costas apoiadas á muralha, onde roçava de leve uma das suas mãos descarnadas.

E então, á luz bruxuleante da lampada, vimos que um bocado da muralha, do feitio e tamanho d’uma porta, se ia erguendo lentamente do sólo, e desapparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a receber. Não pesava menos aquella massa de pedra de vinte a trinta toneladas---e era certamente movida por algum machinismo, fundado n’um equilibrio de peso, que uma móla, collocada n’um logar secreto da muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, n’esse momento, arrancar a Gagula o segredo da móla, que erguia a pedra! Pasmados, viamos a immensa massa subir, devagar, muito devagar, até que desappareceu, deixando diante de nós um grande buraco negro.

Estava emfim aberto, para nós n’elle penetrarmos, o caminho que levava aos thesouros de Salomão. A emoção foi tão intensa, que eu, por mim, comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu pedaço de papel, o velho D. José da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, destinadas a nós, as maiores riquezas que jámais um rei accumulou na terra? Poderiamos nós vêr, tocar, agarrar e levar em sacos, o thesouro que fôra de Salomão, maravilha dos Livros santos? Assim parecia--e para isso bastava dar um passo.

Dei esse passo--e com explicavel sofreguidão. Mas Gagula defendia ainda com os braços o buraco negro:

--Escutai, homens das estrellas! Escutai o que é necessario saber! As pedras que brilham, que vós ides vêr, foram tiradas da cova circular não sei por quem, e guardadas aqui não sei por quem. A gente que, de geração em geração, tem vivido n’esta terra, sabia da existencia do thesouro, mas ninguem conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tambem das estrellas, que foi bem recebido e bem agasalhado pelo rei d’então, que era o quinto, além, sentado á mesa de pedra. Com elle vinha uma rapariga kakuana; ambos percorreram estas cavernas; e succedeu que por acaso essa mulher, que talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco pequeno de couro onde ella levava de comer. Ao sahirem, o homem agarrou na mão outra pedra, maior que todas...

E aqui a bruxa parou com os olhos coruscantes cravados em nós.

--Continúa! Exclamei eu, que escutára sem respirar. O homem era D. José da Silveira. Que se passou mais?...

A velha feiticeira recuou espantada.

--Como lhe sabeis o nome? Ah! Sabes-lhe o nome!... Pois bem, ninguem póde dizer o que succedeu. Mas o homem teve medo de repente, atirou para o chão o saco cheio de pedras, e fugiu, levando só agarrada a pedra maior que tinha na mão. É a que Tuala trazia no diadema. É a que tu déste a Ignosi!

--E ninguem mais entrou aqui?

--Ninguem. Mas os reis ficaram sabendo o segredo da porta... Nenhum porém entrou, porque dizem prophecias já muito antigas que aquelle que aqui entrar morrerá antes d’uma lua nova. Esta é a verdade, homens das estrellas. Entrai agora! Se eu não menti a respeito do homem que se chamava Silveira, vós encontrareis no chão, á entrada da porta, cahido, o saco de couro cheio de pedras... E se as prophecias mentem ou não sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, vós mais tarde o sabereis...

E sem mais, a hedionda creatura mergulhou no corredor tenebroso, erguendo ao alto a pallida lampada. Nós, no emtanto, olhavamos uns para os outros com hesitação, quasi com medo--bem natural de resto em nervos abalados por tantas emoções estranhas. Foi John o mais corajoso:

--Acabou-se! Cá vou! Era ridiculo ficarmos apavorados com as tonterias d’uma velha macaca! Adiante!

E avançou seguido por Fulata e por nós dois, em silencio. Mas dados alguns passos ouvimos uma medonha praga. Era John que tropeçára, quasi cahiria por sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula erguera mais a lampada:

--Não receeis!... São pedras que a gente d’outr’ora tinha ahi accumulado para tapar o corredor para sempre... Mas fugiram, ao que parece, não tiveram tempo!

E com effeito havia alli como umas obras interrompidas--pedras serradas e esquadradas, um monte de cimento, e uma picareta e uma trolha, semelhantes ás que ainda hoje usam os pedreiros. Contemplei com reverencia estas antiquissimas ferramentas. No emtanto Fulata, que desde a nossa entrada na caverna não cessára de tremer de medo, sentou-se sobre uma pedra, e declarou que desmaiava, não podia mais caminhar... Alli a deixámos, com o cesto de provisões ao lado, até que ella ganhasse alento. E seguimos.

Uns quinze passos adiante, demos de repente com uma porta de pau, curiosamente pintada a côres, e toda aberta para traz. E no limiar da porta, lá estava, cahido no chão--um pequeno saco de couro que parecia cheio de seixos!

--Então, brancos, que vos disse eu? Ganiu Gagula em triumpho, brandindo a lampada. Olhai bem! Ahi tendes o saco que o homem deixou cahir! Ahi está ainda, desde gerações! Que vos disse eu?

John ergueu o saco. Era pesado e tinia.

--Santo Deus! Está cheio de brilhantes! Balbuciou elle quasi com medo.

E com effeito, meus amigos! A idéa d’um saco de couro repleto de diamantes--é de causar medo!

--Para diante, para diante! Exclamou o barão, com subita impaciencia. Dá cá tu a lampada, bruxa!

Arrancou a luz das mãos de Gagula. E de tropel com elle, sem sequer pensar mais no saco que John atirára outra vez para o chão, transpozemos a porta. Estavamos dentro do thesouro de Salomão.

Durante um momento olhámos vagamente em redor, n’um silencio apavorado. Á luz debil e mortiça da lampada só percebemos, ao principio, que o quarto ou camara era excavado na rocha viva. Depois a um dos lados vimos distinctamente alvejar, sobrepostos em camadas até á abobada, uma porção immensa de dentes de elephante, de inigualavel riqueza. Haveria talvez uns quinhentos ou seiscentos dentes. Só aquelle marfim nos poderia tornar a todos ricos para sempre. Era d’esse espantoso deposito que Salomão fizera talvez o «grande throno de marfim», de que fallam os livros santos! Toquei um dente de leve, depois outro, com veneração, como reliquias sagradas! E o suor cahia-me em bagas.

--Alli estão os diamantes, gritou John. Trazei a luz!

Corremos para o recanto que elle indicava. E a lampada que o barão baixára mostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito compridas, pintadas de escarlate. A tampa d’uma, tão antiga que mesmo n’aquelle ar sêcco de caverna tinha apodrecido, apresentava vestigios d’arrombamento. Pelo menos no meio havia um buraco. Enterrei a mão através, e tirei-a cheia, não de diamantes, mas de moedas de ouro, como nós nunca viramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e palmeiras e torres em relevo no cunho.

--Justos céos! Murmurei suffocado. Aqui devem estar milhões! Isto nem se acredita!... Naturalmente era o dinheiro para pagar as ferias aos mineiros... Estaremos nós a sonhar?

--Mas os diamantes, exclamava John, percorrendo sofregamente o quarto. Onde estão por fim os diamantes? Só se o portuguez os metteu todos no saco!

Gagula decerto comprehendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente:

--Além, além, onde é mais escuro! Lá estão os tres cofres de pedra, dois sellados, um aberto!

A sua aguda voz tomára um som cavo e sinistro. Mas quê! Onde ia agora, diante de tão inverosimeis riquezas, o medo das prophecias mortaes? Era além, no recanto escuro? Para lá corremos, sondando com a lampada.

--Aqui, rapazes, gritou John, na maior excitação. Aqui. Oh meu Deus! São tres arcas de pedra!

E eram! Eram tres arcas de pedra que nos davam pela cintura, occupando os tres lados d’uma especie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas com immensas tampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada á muralha. Baixamos a lampada para dentro. Não pudémos distinguir nada ao principio, deslumbrados por uma vaga refracção prateada que faiscava e tremia. Quando os olhos se habituaram áquelle brilho estranho, vimos que a arca immensa estava cheia até ao meio de diamantes brutos! Mergulhei as mãos n’elles. Com effeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de diamantes! Não havia duvida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquelle macio especial que em Kimberley, nas minas, chamam sabonaceo! Era uma arca cheia de diamantes!

Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. Á frouxa luz da lampada eu via as faces dos meus amigos perfeitamente lividas. E não havia em nós nenhuma alegria. Era um torpôr, como se a alma nos ficasse bruscamente esmagada, sob a fabulosa infinidade d’aquella riqueza.

Eu murmurei com um suspiro de creança:

--Somos os homens mais ricos d’este mundo!

John passava os dedos pelo queixo, n’uma distracção quasi melancolica:

--Eu sei lá!... Os diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro!

--E transportal-os? E transportal-os? Dizia o barão, abanando a cabeça.

De repente sentimos por traz uma risada que nos estarreceu. Era Gagula. Gagula que ia, vinha, ás voltas, na sala escura, como um morcego, de braço estendido para nós:

--Hi! Hi! Hi! Ahi está satisfeito o desejo vil dos vossos corações, homens das estrellas! Hi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares d’ellas! E todas vossas! Agarrai n’ellas! Rolai por cima d’ellas! Hi! Hi! Hi! Comei as pedras! Hi! Hi! Hi! Bebei as pedras!

Havia alguma coisa de tão grotesco n’aquella idéa de beber diamantes e comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, desbragadamente. E por contagio, os meus companheiros desataram tambem a rir, a rir, ás gargalhadas. E alli ficámos todos, de mãos nas ilhargas, perdidos a rir, a rir, a rir! Riamos de quê? Nem sei. Riamos dos diamantes--d’aquelles diamantes que, milhares de annos antes, os mineiros de Salomão tinham escavado para nós, que os agentes de Salomão tinham armazenado para nós... Pertenciam a Salomão... Mas onde ia Salomão? Eram nossos agora, os seus diamantes! Não tinham sido para Salomão, nem para David, seu pae, nem para nenhum rei de Judá! Não tinham sido para o atrevido e velho fidalgo portuguez, nem para nenhum dos portuguezes que vinham singrando de leste em caravelas armadas! Tinham sido para nós! Só para nós! Para nós aquelles milhões e milhões de libras, que, n’este seculo, em que o dinheiro tudo domina, nos tornavam tão poderosos como outr’ora Salomão. De facto eramos Salomões!

De repente o accesso de riso findou. E ficamos a olhar uns para os outros, estupidamente.

--Abri as outras arcas! Gania no emtanto Gagula. Estão tambem cheias! Todas as pedras são vossas! Fartai-vos, fartai-vos!

Em silencio, com uma sofreguidão brutal, arremessamo-nos sobre as outras arcas, quebrando os sellos, empuxando as tampas, n’um desesperado esforço! Hurrah! Cheias tambem! Cheias até cima!... Não, a terceira estava quasi vasia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas, d’um peso, d’um tamanho inacreditaveis. Havia-as como ovos pequenos. As maiores todavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarello. Eram «diamantes de côr», como elles dizem em Kimberley, nas minas.

Tinha eu um d’estes na mão, enorme, quando de repente ouvimos gritos afflictos do lado do corredor. Era a voz de Fulata:

--Acudam! Acudam! Que a porta de pedra está a cahir!

Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente:

--Larga-me, rapariga, larga-me!

--Acudam! Acudam! Ai Gagula que me matou!

Como contar o brusco, pavoroso lance? Corremos. Á luz frouxa da lampada vimos a porta de pedra descendo, e junto d’ella Gagula e Fulata enlaçadas n’uma lucta furiosa. De repente Fulata cae, coberta de sangue. Gagula atira-se ao chão, para fugir como uma cobra através da fenda que havia ainda entre o chão e a porta. Mette a cabeça e os hombros!... Justos céos! Era tarde. A pedra immensa apanha-a, e a creatura uiva de agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o corpo já preso. Vem d’elle gritos e gritos, como eu jámais ouvira--até que ha um som horrivel de coisa esborrachada, e a porta immensa fica immovel, fechada, justamente quando nós, correndo sempre, esbarramos de roldão contra ella!

Isto durára quatro segundos--quatro seculos. Voltamos então para Fulata. A pobre rapariga tinha uma grande facada e estava a morrer.

--Ah Boguan! (era assim que os Kakuanas chamavam a John). Ah Boguan! exclamou, suffocada, a bella creatura. Gagula sahiu fóra. Eu não a vi, estava meia desmaiada. Então a porta começou a descer... Ella ainda entrou, foi olhar para vós... Depois tornava a sahir, quando eu a agarrei, e ella me deu uma facada, e agora morro!

--Pobre rapariga! Minha pobre rapariga! Gritava John.

E como não podia fazer outra coisa, começou a dar-lhe beijos, longos beijos.

Ella sorria, arfando, com as palpebras cerradas. Depois:

--Macumazan, estás ahi?... Ja mal vejo... Estás ahi?...

--Estou, Fulata. Que queres?

--Falla por mim, Macumazan. Dize a Boguan que não me comprehende bem. Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro dia, que o amo... Mas que morro contente, porque elle não se podia prender a uma rapariga como eu... O sol não se casa com a noite.

Teve um suspiro. A sua mão errante procurava em redor.

--Macumazan, estás ahi? Dize-lhe que me aperte mais contra o peito, para eu sentir os seus braços. Assim, assim... Dize-lhe que um dia hei de tornar a vêl-o nas estrellas... Que hei de ir de estrella em estrella, á procura d’elle. Macumazan, dize-lhe ainda que o amo, dize-lhe ainda...

Os labios sorriam, sem fallar. Estava morta.

As lagrimas cahiam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John.

--Morta! Murmurava elle, agarrando ainda as mãos de Fulata. Já me não ouve! E não a tornar a vêr, não a tornar a vêr!

O barão disse então, devagar, e n’uma estranha voz:

--Não tardará, amigo, que a tornes a vêr.

--Como assim?

--Oh homens, pois não percebestes ainda que estamos enterrados vivos?

Foi então, só então, que pela primeira vez comprehendi o indizivel horror do que nos succedia! Sim, com effeito! A enorme massa de pedra estava fechada. O unico sêr que lhe conhecia o segredo jazia esborrachado por ella, sob ella. Forçal-a, só se tivessemos alli massas de dynamite! Estava fechada para sempre! E nós alli fechados detraz d’ella!

Durante momentos ficamos mudos, com os cabellos em pé, junto do cadaver de Fulata. Toda a força de homens, a coragem de homens, fugia de nós bruscamente. Eramos sêres inertes. E comprehendiamos agora todo o plano monstruoso de Gagula--as suas ameaças, as suas ironias, o seu sinistro convite para bebermos e comermos diamantes. Sim, era o que tinhamos para beber e comer! Desde Lú, decerto, ella viera planeando a traição--e só nos trouxera á caverna, para nos deixar lá dentro, morrendo junto dos thesouros que appeteceramos!

--É necessario fazer alguma coisa, exclamou o barão, n’uma voz rouca. Animo, rapazes! A lampada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos achar o segredo, a móla que move a rocha.

Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre Fulata, rompemos a apalpar anciosamente a porta e as paredes do corredor. Não achamos nada, em mais d’uma hora de desesperada busca, que nos esfolou as mãos.

--A móla, se tal móla ha, está do lado de fóra, disse eu. Foi por isso que Gagula sahiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, é porque se queria certificar que estavamos bem entretidos com os diamantes... Malditos sejam elles, e maldita seja ella!

--De resto, lembrou o barão, se a infame bruxa tentou fugir pela fenda é que sabia bem que pelo lado de dentro não podia levantar a rocha. Não ha nada a fazer com a porta. Vamos vêr outra vez, na camara.

Levantamos então com respeito e cuidado o corpo da pobre Fulata, fomol-o collocar dentro, no chão, com os braços em cruz, junto das arcas de dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provisões. E sentados junto dos cofres de pedra atulhados de riquezas que nos não podiam salvar, dividimos as provisões em doze pequenos lotes, que, a dois repastos por dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Além da caça fria e das carnes sêccas tinhamos duas cabaças d’agua.

--Bem, jantemos, disse o barão, que é talvez o nosso penultimo jantar n’este mundo.

Pouco era o appetite, naturalmente. Mas havia horas que estavamos em jejum, e aquella parca comida, molhada com avaros goles d’agua, reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperança. Começamos então a examinar systematicamente as paredes da nossa prisão, contando com a remota possibilidade de que existisse, além da porta da rocha, outra sahida. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas, batemos as muralhas, sondamos o sólo, exploramos a abobada. Ficamos exhaustos sem achar nada. A lampada espirrava e amortecia. Quasi todo o oleo estava chupado.

--Que horas são, Quartelmar? Perguntou o barão.

Tirei o relogio. Eram seis horas. Tinhamos entrado ás onze na caverna.

--Infandós ha de dar pela nossa falta, lembrei eu. Se nos não vir voltar esta noite, decerto nos vem procurar...

--E então? Exclamou o barão. De que serve? Infandós não conhece o segredo da porta, ninguem o conhecia senão Gagula. Ainda que conhecesse a porta, não a podia arrombar. Nem todo o exercito dos Kakuanas, com as suas azagaias, póde furar cinco pés de rocha viva. Ninguem nos póde salvar senão Deus!

Houve entre nós um longo, grave silencio. De repente a luz flammejou, mostrando, n’um relevo forte, todo o interior da camara, o grande monte dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo da pobre Fulata estirado diante d’ellas, o saco de couro cheio de diamantes, a vaga refracção que sahia dos cofres de pedra abertos, e as lividas faces de nós tres, alli sentados a um canto, á espera da morte. Depois a luz bruxuleou e morreu.

CAPITULO XV

NAS ENTRANHAS DA TERRA

Não me é possivel descrever com exactidão as agonias d’aquella noite. E ainda assim a divina Misericordia permittiu que dormissemos a espaços. Mas o brusco acordar, a cada instante, era pungente. Por mim, o que mais me torturava era o silencio. Um silencio tenebroso, tangivel, absoluto,--o silencio d’uma sepultura cavada nas profundidades rocheas do globo, e onde todas as artilherias troando, e as trovoadas do céo estalando, não poderiam fazer chegar a menor vibração de som, fosse elle ao menos tão leve como um leve zumbir de mosca... E então, acordado, a monstruosa ironia da nossa situação ainda mais me acabrunhava. Em torno de nós jaziam riquezas incontaveis, bastantes para pagar as dividas de muitos estados, construir frotas de couraçados, erguer palacios todos feitos de ouro, saciar todas as fomes, satisfazer todas as imaginações... E de que nos serviam? Uma pouca de pedra bruta sem valor, mas que nós não podiamos quebrar com as nossas mãos, tornavam-nas inuteis, tão sem valor como a propria pedra! Uma arca inteira de diamantes dariamos nós com infinito prazer por um pouco de pão, ou por outra cabaça d’agua. Mais! Dariamos todas as arcas de diamantes pelo privilegio de morrer de repente, sem sentir, sem soffrer! Na verdade, o que é a riqueza? Sonho, estupida illusão!

--John, disse o barão, do seu canto, n’um dos momentos em que eu assim pensava, quantos phosphoros te restam?

--Oito.

--Accende um, vê as horas.

A chamma quasi nos deslumbrou depois da intensa treva. Eram cinco horas no meu relogio. A alvorada estaria agora clareando as alturas da serra! A brisa espalharia o aroma do rosmaninho em flôr! Os soldados d’Infandós começariam agora a mexer-se nas suas mantas, junto das fogueiras apagadas--e as nascentes d’agua, junto d’elles, cantariam de rocha em rocha. De assim pensar, as lagrimas humedeceram-me os olhos.

--Era melhor comermos alguma coisa, suggeriu o barão.

--Para que? Exclamou John. Quanto mais depressa acabarmos com isto, melhor!

--Emquanto Deus permitte a vida, é que permitte a esperança! Respondeu o barão gravemente.

Repartimos uma pouca de carne sêcca e d’agua. Emquanto comiamos, um de nós lembrou que nos avisinhassemos da porta, e gritassemos com toda a força, porque talvez Infandós, andando já na caverna á nossa procura, ouvisse o remoto som das nossas vozes. John, que, como marinheiro, tinha o habito de gritar, desceu o corredor ás apalpadellas, e começou a berrar furiosamente. Nunca decerto ouvi uivos iguaes: mas foram tão inefficazes como um murmurio de insecto. O resultado unico foi que John voltou com a garganta resequida, e teve de chupar um trago da pouca agua que restava. Gritar só nos fazia sêde. Desistimos d’esse esforço inutil.

De sorte que nos agachamos de novo junto dos cofres cheios de diamantes, n’aquella horrivel inacção que era um dos nossos maiores tormentos. E eu então cedi ao desespero. Deixei cahir a cabeça no hombro do barão, e desatei a chorar. Do outro lado o pobre John soluçava tambem.

Grande alma, e corajosa, e dôce, era a do barão. Se nós fossemos duas creancinhas assustadas, e elle a nossa mãe, não nos teria animado e consolado com maior carinho. Esquecendo a sua propria sorte, fez tudo para nos serenar, contando casos de homens que se tinham encontrado em lances terrivelmente iguaes, e que milagrosamente tinham escapado. Depois levava-nos a considerar que, no fim de tudo, nós estavamos simplesmente chegando áquelle fim a que todos têm de chegar, que tudo em breve acabaria, e que a morte por inanição é suave (o que não é verdade). E emfim, com um modo differente, pedia-nos que nos abandonassemos á misericordia de Deus, e lhe rogassemos, na nossa miseria, um olhar dos seus olhos piedosos. Natureza adoravel, a d’este homem! Quanta serenidade, e quanta força! Eu por mim acolhia-me a elle como a um grande refugio. E por sua exhortação, rezei e serenei.

Assim passou o dia (se tal treva se póde chamar dia), até que accendi outro phosphoro, olhei o relogio. Eram sete horas! Pensamos então em comer.

E quando estavamos dividindo a carne sêcca, occorreu-me de repente uma idéa estranha:

--Porque é, disse eu, que o ar aqui se conserva tão fresco? É um pouco espesso, mas é fresco.

--Santo Deus! Exclamou John erguendo-se com um pulo. Nunca pensei n’isso! Com effeito é fresco... Não póde vir de fóra pela porta de pedra, porque reparei perfeitamente que ella gira dentro de quelhas... Tem de vir de outro sitio. Se não houvesse uma corrente d’ar, deviamos ficar suffocados, quando aqui entramos hontem... Agora mesmo deviamo-nos sentir abafados. Evidentemente o ar é renovado. Vamos a vêr!

Ainda elle não findára, já nós andavamos, de gatas, ás apalpadellas, na escuridão, procurando sofregamente qualquer indicação de buraco ou fenda, por onde entrasse ar. Houve um momento em que pousei a mão no quer que fosse de gelado. Era a face da pobre Fulata, já rigida.

Durante uma hora ou mais, passamos assim apalpando todos os cantos, até que o barão e eu desistimos, esfalfados, e todos pisados de ter constantemente batido com a cabeça nos muros, nos dentes de elephante, e nas esquinas das arcas. Mas John continuou, sem perder a esperança, declarando que «era melhor aquillo que pensar na morte, de braços cruzados».

De repente, teve uma exclamação:

--Oh rapazes! Aqui! Vinde cá.

Com que precipitação corremos para o canto d’onde elle fallára!

--Quartelmar, ponha aqui a mão, onde está a minha. Ahi. Que sente?

--Parece-me que sinto um fio d’ar.

--Agora ouça!

Ergueu-se, e bateu com o pé no chão. Uma immensa esperança relampejou-nos n’alma. A lage soava ôco.

Com as mãos a tremer accendi um phosphoro. Estavamos n’um recanto, de que ainda não suspeitaramos--e aos nossos pés, na lage que pisavamos, e como encrustada n’ella, havia uma grossa argola de pedra. Não tivemos uma palavra, na immensa excitação que de nós se apoderou. John tinha uma navalha, com um d’esses ganchos que servem para extrahir pedras pequenas das ferraduras dos cavallos. Ajoelhou e começou a raspar com o gancho, em torno da argola. Raspou, raspou--até que conseguiu introduzir a ponta do gancho sob a argola, levantal-a pouco a pouco, pôl-a a prumo. Depois deitou-lhe as mãos, e puxou desesperadamente. Nada se moveu.

--Deixai-me vêr a mim! Exclamei com impaciencia.

Agarrei, pondo toda a minha força no puxão contínuo e intenso. Escalavrei as mãos. A pedra não se moveu. Depois foi o barão. Sentiamol-o gemer. A pedra não se moveu.

De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em redor a frincha por onde nós sentiamos como um debil halito de ar. Em seguida tirou um grosso lenço de sêda que lhe envolvia o pescoço, e passou-o na argola.

--Agora, barão! Mãos ao lenço, e puxar até rebentar! Quartelmar, agarre o barão pela cinta, e puxem ambos quando eu disser... Um, dois, !

Em silencio, com os dentes rilhados, puxámos, puxámos--até que eu sentia rangerem os ossos do barão. Era elle que fazia o esforço maior, com os seus enormes braços de ferro. E foi elle que sentiu a pedra mexer...

--Agora! Agora! Está cedendo! Mais! Ála, ála! Héh!

Um estalo, uma rajada brusca d’ar, e rolámos estatelados no chão, com a pedra por cima de nós. Fôra a immensa força do barão que fizera o prodigio. Que grande coisa, a força!

--Um phosphoro, Quartelmar! Exclamou elle, erguendo-se ainda arquejante.

Accendi o phosphoro. E, louvado Deus! Vimos diante de nós os primeiros degraus d’uma escada de pedra!

--E agora? Perguntou John.

--Descer! E confiar em Deus!

--Esperai! Gritou o barão. Quartelmar, veja se apalpa e acha o resto da comida e da agua. Quem sabe onde iremos parar?

Achei logo as provisões, que estavam junto da arca de pedra, cheia de diamantes. E já enfiára o cesto no braço, quando pensei nos diamantes... Porque não? Quem sabe? Talvez por mercê divina, achassemos uma sahida! Não fazia mal nenhum, á cautela, metter um punhado de diamantes na algibeira!... Se chegassemos a sahir d’aquella horrivel cova, não teriam sido ao menos inuteis todas as nossas angustias. Um punhado de diamantes nada pesava! E ao acaso, mergulhei a mão na arca e comecei a encher todos os bolsos da minha rabona. Depois atulhei as algibeiras das pantalonas. Já abalava, quando voltei ainda, com uma idéa, á arca onde estavam as pedras mais graúdas. E encafuei uma enorme mão cheia d’elles para dentro da algibeira do peito. O contacto vivo d’aquellas riquezas fez-me pensar nos outros.

--Oh rapazes! Não quereis levar uns poucos de diamantes? Eu enchi as algibeiras.

--Diabos levem os diamantes, disse do canto o barão, impaciente. Até me faz nauseas a idéa de diamantes! É marchar, é marchar!

Emquanto ao amigo John, esse nem respondeu. Creio que estava de joelhos, junto do corpo de Fulata, dando o ultimo adeus áquella que por elle morrera!

Quando nos achamos juntos do alçapão, já o barão descera o primeiro degrau.

--Eu vou adiante, segui devagar.

--Cuidado, gritei eu! Póde haver por baixo algum medonho buraco. Vá tenteando... Mão encostada sempre á parede...

O barão desceu contando os degraus. Quando chegára a «quinze» parou.

--É um corredor, gritou elle debaixo. Descei!

Quando chegámos ao fundo, accendi um dos dois phosphoros que nos restavam. Á luz que elle deu, vimos um pequeno espaço, onde se encontravam em angulo recto dois tunneis muito estreitos. O phosphoro morreu, queimando-me os dedos. E ficámos n’uma horrivel hesitação! Qual dos tunneis seguir? John então lembrou-se que a chamma do phosphoro se inclinára para a banda do tunnel da esquerda. Portanto o ar vinha pelo tunnel da direita. Era por esse que deviamos caminhar, demandando o lado do ar.

Aceitámos a idéa. E apalpando sempre a parede, não arriscando um passo sem tentear o sólo, seguimos n’esta nova e incerta aventura. Ao fim d’um quarto de hora de marcha lenta, esbarrámos n’um muro. Era outro tunnel transversal, por onde continuámos cosidos com o muro. Depois d’esse topámos outro, que o cruzava em angulo agudo. Depois havia outro, mais largo. E assim durante horas. Estavamos n’um labyrintho de rocha viva. Para que tivessem servido outr’ora estas innumeraveis passagens subterraneas, não sei dizer--mas tinham a apparencia de galerias de mina.

Finalmente parámos, esfalfados, com a esperança meia perdida. Comemos os restos das provisões, bebemos os derradeiros goles d’agua. Tinhamos escapado de morrer nas trevas d’uma cova de diamantes--para vir talvez morrer nas trevas d’uma mina vasia...

Quando assim estavamos sentados no chão, encostados ao muro, n’um infinito desalento--eu julguei ouvir um som, debil e vago, como a distancia. Avisei os outros, escutámos sem respirar. E todos muito claramente distinguimos um som. Era muito tenue, muito remoto,--mas era um som, um som murmurante e contínuo.

--Santo Deus! Exclamou John. É agua a correr! Tenho a certeza que é agua a correr.

N’um instante estavamos de pé, caminhando para o som. A cada passo o sentiamos mais distincto, mais claro, na immensa mudez do tunnel. Sempre para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um ruido forte, o ruido d’uma corrente d’agua. Mas como podia haver agua corrente n’estas entranhas da terra?... E todavia, com certeza, alli perto corria agua com força. John, marchando adiante, jurava que lhe percebia já a humidade e o cheiro.

--Devagar, John, devagar! Gritou o barão. Devemos estar perto...

De repente um baque n’agua, um grito de John! Tinha cahido.

--John! John! Onde estás? Berrámos, perdidos de terror. Falla! Falla!

Que allivio, quando a voz d’elle nos veio de longe, suffocada.

--Salvo. Agarrei-me a uma pedra! Accendei um phosphoro para eu vêr onde estaes!

Raspei o meu ultimo phosphoro. Á sua luz tremula vimos aos nossos pés uma immensa massa d’agua, correndo com grande força. Que largura tinha não percebemos... Mas a distancia distinguimos a fórma vaga do nosso companheiro, pendurado d’um penedo agudo.

--Preparai para me agarrar, gritou elle de lá. Vou nadar para ahi!

Outro baque, uma grande lucta de braços batendo a agua. Depois junto de nós um resfolegar ancioso. E por fim uma exclamação do barão, que agarrára o nosso amigo pelas mãos, o puxára para dentro do tunnel, a escorrer.

--Irra! Balbuciava John, offegando. Estive por um fio. É uma corrente furiosa e parece-me que não tem fundo.

Evidentemente, d’este lado nada conseguiamos. De sorte que, depois de John descançar, de bebermos á farta d’aquella agua que era deliciosa, e de lavarmos a cara, deixámos as margens d’aquelle tenebroso rio, e retrocedemos ao comprido do tunnel, com John adiante, tiritando e pingando. Depois de andarmos um quarto de hora--chegámos a outro tunnel, que se inclinava para a direita e parecia mais largo.

--Seguimos este, disse o barão inteiramente desalentado. Todos elles são iguaes. O melhor é andarmos, andarmos, até cahir ahi para um canto, sem poder mais, á espera da morte.

Durante muito, muito tempo, mudos, em fila, arrastámos os passos na treva, atraz do barão, cujas fortes pernas já frouxeavam.

De repente esbarrámos com elle--que estacára, como attonito.

--Quartelmar! Exclamou elle, agarrando-me convulsivamente o braço. Eu estou a delirar ou aquillo além é luz?

Arregalámos desesperadamente os olhos. E com effeito, lá ao longe, ao fundo do tunnel, vimos uma pallida, vaga mancha de claridade, pouco maior do que um vidro de janella! Com outro alento de esperança estugamos o passo. Momentos depois toda a duvida cessára, deliciosamente. Era luz--uma desmaiada mancha de luz! Tropeçavamos uns contra os outros na nossa anciedade. Mais viva, cada vez mais viva a luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!... Mas de repente o tunnel estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou mais. Gatinhamos, de mãos no chão. E estreitou ainda, como uma toca de raposa. Fomos de rastos. Mas a rocha findára. Era terra, terra friavel, que se esboroava... Um empuxão, um gemido, e o barão furou, e John furou, e eu furei--e sobre as nossas cabeças luziam as bemditas estrellas, e na nossa face batia uma aragem dôce!

De repente faltou-nos o chão, e todos tres, á uma, rolámos, de escantilhão, por um declive abaixo, de terra molle e humida, entre capim e tojo... Agarrei uma coisa e parei. Estonteado, coberto de lôdo, berrei pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo, d’uma terra chã onde o barão fôra parar. Resvalei até lá, e fui encontrar o nosso amigo atordoado, sem folego, mas intacto. Gritámos então por John. E uns olás arquejantes guiaram-nos ao sitio onde uma raiz de arvore, em que ainda estava acavallado, o detivera no desesperado tombo.

Sentámo-nos então todos tres na relva--e vendo-nos fóra da funebre caverna, salvos, sãos, a respirar outra vez o ar da terra, a emoção foi tão forte que começámos a chorar de alegria. Seguramente fôra Deus misericordioso que nos guiára por aquelle tunnel, para aquelle buraco, que era a porta da Vida! E agora, a manhã que julgavamos nunca mais vêr, estava roseando o topo dos montes.

Á sua luz bemdita vimos então que nos achavamos no fundo, ou quasi no fundo, d’aquella immensa cova circular que fôra outr’ora a mina de Diamantes. Lá no alto, já podiamos distinguir as confusas fórmas dos tres colossos. Sem duvida aquelles corredores por onde tinhamos vagueado, tão angustiosamente, communicavam outr’ora com as Diamanteiras. E emquanto ao tenebroso rio... Mas que nos importava agora o rio? A luz do dia clareava. Estavamos envolvidos na luz do dia! Só isto era essencial e dôce de saber!

Não podiamos deixar todavia de pasmar para as nossas figuras. Escaveirados, esgazeados, rotos, cheios de pisaduras, com camadas de pó e de lama, sangue nas mãos e sangue nas faces--eramos, na verdade, tres espantalhos medonhos. Mas não havia a pensar em nos sacudirmos ou nos ageitarmos. Aquelle fundo da cova, humido e regelado, era perigoso para corpos como os nossos tão exhaustos. De sorte que começámos, com lentos e custosos passos, a trepar as ladeiras ingremes, através da greda azulada, agarrando-nos ás raizes, e agarrando-nos ao tojo, n’um esforço ultimo que nos esvaía. Ao fim d’uma hora estava terminada a façanha--e os nossos pés tremulos pisavam outra vez a estrada de Salomão. A umas cem jardas adiante brilhava uma fogueira junto de cabanas, e em volta d’ella estavam homens. Para lá caminhámos, amparando-nos uns aos outros, e parando, meio desmaiados, a cada passo incerto. De repente um dos homens que se aquecia ao lume ergueu-se, avistou-nos--e atirou-se de bruços ao chão, tremendo, gritando de medo.

--Infandós, Infandós, somos nós, teus amigos!

Elle levantou a cabeça, depois o corpo. Por fim correu para nós, com os olhos esbugalhados, e ainda tremendo todo:

--Oh meus senhores! Sois vós! Sois vós! Voltaes do fundo dos mortos!... Voltaes do fundo dos mortos!...

E o velho guerreiro, abraçando-se ao barão pelos joelhos, rompeu a soluçar de alegria.

CAPITULO XVI

A PARTIDA DE LÚ

Dez dias depois estavamos de novo em Lú--nas nossas confortaveis cubatas de Lú, á sombra dos machabelles. E poucos vestigios nos restavam d’aquella atroz aventura, além dos muitos cabellos brancos que eu trazia, e da melancholia em que cahira o nosso pobre John, com o coração ainda cheio de Fulata.

É inutil accrescentar que não tornámos a penetrar no thesouro de Salomão--apesar de sagazes e methodicas tentativas. N’aquelle dia em que Infandós nos acolheu como a resuscitados, nada fizemos senão comer, dormir, descançar, gozar o sol. Logo no dia seguinte porém, descemos com uma escolta á grande cova, na esperança de encontrar o buraco por onde tinhamos furado para a luz e para a vida. Foi debalde. Em primeiro logar chovera copiosamente de noite, e todas as nossas pegadas tinham desapparecido; mas além d’isso os declives em funil da enorme cava estavam por todos os lados cheios de buracos, uns naturaes, outros feitos por bichos. Qual d’elles nos salvára entre tantos milhares? Impossivel descobrir!

Depois d’isso voltámos á caverna de stalactites, affrontámos outra vez os horrores da Camara dos Reis Mortos: e durante muito tempo rondámos diante da muralha de pedra, para além da qual jaziam inaccessiveis para sempre os maiores thesouros da terra, para sempre guardados funebremente pelo esqueleto da pobre Fulata. Mas, apesar de examinarmos a muralha durante horas, de a apalpar, de martellar sobre ella, não nos foi possivel achar o segredo da porta,--sob a qual jaziam pulverisados os fragmentos da hedionda bruxa, que com a sua traição só ganhára a sua perda. Emquanto a forçar aquelles cinco pés de rocha viva, quem podia pensar em tal feito? Nem todo o exercito dos Kakuanas, trabalhando annos, lograria passar através. Só com dynamite,--ou trazendo pelo deserto poderosas machinas. E assim, lá estão ainda, n’esse remoto canto de Africa, os thesouros, que desde os tempos biblicos tanto têm fascinado a imaginação dos homens. Um dia talvez, quando a Africa toda estiver civilisada, cortada de estradas, coberta de cidades, alguem mais feliz que nós, e com os incalculaveis recursos da sciencia d’então, penetrará no vedado thesouro, e será rico além de toda a phantasia! Esse, se jámais existir, encontrará lá, como vestigio da nossa passagem, as arcas abertas e os ossos da pobre Fulata, e uma lampada apagada. A esse tempo já estará perdida a memoria d’este livro, contando a estranha aventura. E esse explorador futuro mal suspeitará então, ao dar com o pé n’esses ossos, ao remexer essas riquezas, que tres homens do seculo XIX passaram alli um dos mais tragicos lances que jámais foi dado a homem passar...

Devo todavia accrescentar que, materialmente, a nossa estada na caverna não foi de todo inutil. Como contei, ao abandonarmos o thesouro, eu tive a esplendida precaução de atulhar as algibeiras de diamantes. Muitos d’estes, e sobretudo os maiores, cahiram, ficaram perdidos, quando eu rolei pelos declives da cova. Mas ainda me restou nos bolsos uma enorme quantidade. Não lhe posso calcular o valor. Deve ser immenso! Supponho que trouxemos ainda diamantes bastantes para sermos todos tres millionarios, e possuirmos os tres mais ricos adereços de joias que existam no mundo. Em resumo, no ponto de vista economico, a aventura não gorou.

Em Lú, fomos acolhidos pelo rei Ignosi com grande amizade e regozijo. Apesar de fundamente absorvido nos cuidados d’um Reinado que começa (e sobretudo na reorganisação do exercito) estivera em grande inquietação durante a nossa longa demora nas Minas. E foi com ardente curiosidade que escutou a nossa maravilhosa historia.

A noticia da morte de Gagula foi para elle um allivio immenso.

--Quem sabe, murmurou elle, se depois de vos deixar morrer no sitio escuro, não acharia ainda artes de me matar a mim tambem!

Para commemorar a nossa volta Ignosi deu um banquete e uma dança. E foi n’essa noite, ao fim da festa, no terreiro real, onde brilhava o luar, que nós annunciámos ao rei o nosso desejo de deixar emfim o seu reino, e regressar á nossa patria.

Ignosi primeiramente pareceu espantado. Depois cobriu a face com as mãos:

--O que vós annunciaes, exclamou elle por fim, retalha o meu coração! Sempre pensei que de todo ficarieis commigo. Para que foi então, oh valentes, que me ajudastes a ser rei? O que quereis? O que vos falta? Mulheres? Campos? Gados? Toda a terra que é minha, é vossa. Escolhei! É uma casa como as que os brancos habitam no Natal que vos falta? Os meus homens, ensinados por vós, edificarão uma entre jardins... Dizei! E cada um dos vossos desejos tem já a minha promessa de rei.

--Não, Ignosi, não! Acudi eu. O que nós simplesmente desejamos é voltar para as nossas terras.

Elle então sorriu com amargura. Sim, bem percebia! Nos nossos corações nunca houvera amor por elle, mas só cubiça das pedras que brilham. Agora tinhamos as pedras para vender, para recolher dinheiro... Estava satisfeito o vil desejo do branco. Que importava pois o amigo que ficava chorando? Malditas fossem as pedras, e idos fossemos nós bem cedo!

Eu pousei-lhe a mão no braço:

--Escuta, Ignosi! As tuas palavras não vêm do teu coração. Escuta. Quando tu andavas exilado na Zululandia, e depois entre os homens brancos do Natal, não sentias tu o desejo da terra d’onde vieras, e de que tua mãe te fallava? Não se te voltavam os olhos para o Norte, para onde estavam os campos e as senzalas onde tu nasceras, onde brincáras com as ovelhas, onde os velhos que passavam no caminho tinham conhecido teu pae?...

--Assim era, Macumazan, assim era! Exclamou o rei commovido.

--Pois do mesmo modo o nosso coração deseja a terra em que nascemos.

Ignosi baixou a cabeça.

--As tuas palavras, como sempre, Macumazan, vêm cheias de verdade e razão. Sim, tendes de partir. E eu ficarei triste, porque não mais me chegarão noticias vossas, e vós sereis para mim como mortos!

Esteve um momento pensando, com o dedo pousado na testa. Depois chamou os chefes mais idosos, annunciou a nossa partida, ordenou que fossemos acompanhados pelo regimento dos Pardos até ás montanhas, e d’ahi com uma escolta e com guias levados pelo caminho do Oasis (de que elle só recentemente tivera noticia), e que nos pouparia todos os trabalhos da passagem das serras. Em seguida, erguendo a mão jurou ante os chefes que não permittiria jámais que nenhum branco entrasse no seu reino a procurar as pedras que brilham:--mas que nós poderiamos voltar sempre porque eramos os irmãos do seu coração! E por fim decretou que os nossos nomes fossem considerados sagrados como os nomes dos Reis Mortos--e que assim se proclamasse por todo o reino, de montanha em montanha.

--E agora ide! Ide antes que os meus olhos vertam lagrimas como os d’uma mulher. Quando estiverdes, longe, nas vossas casas, junto das vossas lareiras, pensai por vezes em mim... Adeus! Adeus para sempre, Incubú, Macumazan, Boguan, grandes homens e meus amigos!

Ergueu-se; esteve um momento olhando fixamente para nós, um por um; depois escondeu a cabeça no seu manto de pelle de leopardo, e fugiu para dentro da senzala real.

Nós afastamo-nos em silencio, e com o coração pezado.

Na madrugada seguinte partimos de Lú acompanhados por Infandós e pelo regimento dos Pardos. Apesar de tão cedo, as ruas estavam apinhadas de gente que nos lançava a saudação Krum, e nos desejava boa jornada! As mulheres atiravam-nos flôres ao passar. Todos os tam-tams resoavam. Era como uma grande ceremonia real.

Pelo caminho Infandós foi-nos explicando que havia, com effeito, uma passagem nas montanhas mais fácil do que aquella por onde vieramos--ou antes, que era possivel descer por aquella alta escarpa, que separa os dois «seios de Sabá» como um muro separa duas torres. Havia um anno, um bando de caçadores Kakuanas, indo ao deserto á procura do abestruz, tinham achado e seguido este caminho. Ao fim d’elle encontraram o deserto; e ao fundo, no horisonte, avistaram massiços de arvores. Levados pela sêde caminharam para lá, e acharam um largo e fertil oasis, cheio de fructa, de caça e d’agua. E d’ahi, diziam os caçadores, podiam-se distinguir no horisonte outros logares ferteis, formando como uma continuação de oasis. D’este modo era talvez possivel diminuir os horrores d’uma nova travessia no deserto.

Ao fim de quatro dias de marcha chegámos com effeito ao alto da escarpa--d’onde avistavamos, por leguas e leguas, outra vez, o medonho deserto amarello em que tanto soffreramos. Foi de madrugada que começámos a descida--e foi então que nos separámos do nosso amigo Infandós.