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Ás Mulheres Portuguêsas

Chapter 13: A miseria do Povo
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About This Book

A series of essays examines the social position of women in Portugal, arguing for feminist reforms through expanded education, legal and economic rights, and public participation. The author critiques traditional domestic roles, marital and civil-code constraints, and social vanity that limits female autonomy, analyzes motherhood, poverty, and the effects of ignorance, and considers women's labor and political engagement. Science and reason are invoked to dispute claims of intellectual inferiority. Across prologues and topical chapters, the text blends social observation, legal critique, and moral appeal to encourage responsibility, improved instruction, and structural change to enable women to contribute equally to family and society.

A mulher de ha trinta annos e a mulher de hôje

Se perguntarmos aos que ora entram com desplante na vida, julgando que nada devem ao passado, que o presente é obra sua, e o futuro lhes pertence, o que era a ilustração da mulher portuguêsa de ha trinta annos, não haverá ahi rapaz ou rapariga de mediana educação que não solte uma gargalhada escarninha, ou que, ao menos, não franza a bôca num tregeitar de troça.

É que essa época de romantismo agudo avulta a nossos olhos a turba desgrenhada das jovens que recitavam ao piano, com os olhos no infinito; que dormiam de colete para adelgaçarem a cinta, defumavam o rosto para obterem a palidez interessante que a moda reclamava ás heroinas tisicas, que sonhavam com o menestrel choroso que por noites luarentas as viria buscar para um eterno duo de amôr, na cabana ideal onde se vivia... do ar.

Essas eram as exageradas de todas as escolas, as desvairadas de todos os tempos. Mas ao lado dellas, as sãs, as ajuisadas, que liam os mesmos livros e conheciam as mesmas poesias, não se deixavam levar em excessos de romantismos piegas, mas amavam os seus poetas e comprehendiam a literatura do seu tempo.

Não ha por ahi senhora da geração de nossas mães, rudimentarmente educada que fosse, que não tenha chorado com os romances de Camillo, que não tenha discutido e amado Julio Diniz, que não conheça Garrett e Herculano, que se não lembre com saudade da Lua de Londres, que não tenha recitado Soares de Passos, Castilho, Palmeirim e Thomaz Ribeiro, que não tenha cantado essas poesias, que entraram no ouvido de todos em modilhas e cantatas, compostas por musicos ignorados.

Isto numa época em que a mulher não tinha, como a de hôje, facilidade em se instruir, em que a instrução por essas provincias fóra era um caso esporadico, em que os liceus lhe não eram franqueados e nas escolas superiores se falava do exemplo de Publia Hortensia de Castro, que cursou a Universidade vestida de homem, como dum caso fabuloso, porventura menos provavel do que a sabedoria de Minerva, a deusa mitologica da sciencia.

O que significa que a mulher joven ha trinta ou quarenta annos, sem ter a alta cultura duma grande dama da côrte brilhante de D. Manuel, era, sem dúvida, muito superior á de hôje, que não conhece os seus escriptores nem comprehende os seus poetas.

Se bem que a Arte, embora na sua fórma mais intelectual,—a literatura—não possa dar á mulher o grau de conhecimentos, a soma enorme de noções exatas da sciencia que são necessarias para constituir hôje a educação de qualquer criatura regularmente culta, é bem certo que eleva as almas e constitue um dos mais nobres ideais da existencia humana.

«A mulher desconhece os escriptores do seu tempo e deixou de se preocupar pela literatura, porque não temos romancistas que a interessem e os poetas deixaram de lhe falar ao coração...—costuma dizer-se para desculpar uma falta que todos reconhecem e da qual ninguem se confessa culpado.

Seguramente que a maior, se não a unica responsavel, é a mulher que assiste, sem comprehender, ao avançar victorioso da civilisação, que hade expulsar os ignorantes como párias inuteis numa sociedade que se encaminha para a luz.

Poetas e prosadores deixaram, é certo, a azinhaga florida do romantismo para seguirem pela estrada arejada de um novo ideal estético, para uma fórma mais verdadeira e humana. Mas porque os não seguem as mulheres? Porque se quedam numa indiferença que as distanceia do seu tempo, que as torna tão alheias a tudo quanto interessa o homem do seu paiz, da sua sociedade, do seu proprio lar?

Não lêr porque não ha quem escreva a seu gosto no nosso paiz é... apenas uma desculpa. Temos hôje, como sempre tivémos, quem escreva bem. Todos os annos, a par da grande alluvião de livros sem valôr que ficam nos depositos das casas editoras para serem vendidos ao peso do papel, ou dados como brinde a quem compra outros livros, publicam-se os bastantes para saciar a curiosidade vulgar em quem tem o habito da leitura.

O que falta não são os escriptores nem as suas obras.

Falta o público que dê no seu aplauso ou no seu desagrado o incitamento de que precisa todo o artista para fazer obra em que pônha toda a alma, toda a energia do seu espirito, na inspiração de progredir e vencer a concorrencia, que então se dá material e áspera, mas compensadora para os triunfantes.

Quem lê no nosso paiz? Uma minoria de intelectuaes, que preferem a literatura estrangeira, e que a maior parte das vezes não compram sequer os livros portuguêses, que poderão ler de emprestimo ou oferecidos.

Lê o povo bastante, mas o povo das cidades, e principalmente os operarios, os livros dos propagandistas, as brochuras que os chamam á consciencia da sua grande miseria; ou lê os romances sensacionaes, ultimamente, e por felicidade, substituidos pelos grandes romances historicos ás cadernetas, ilustrados, que têm a enorme vantagem—quando não tenham outra—de ser portuguêses e não habituar o povo a dizer nomes disparatados e ridiculos que lhe servem nas traduções.

Não lê no nosso paiz, a grande maioria dos homens, porque não encontram para isso tempo que lhes sobre dos seus afazeres ou da vida dispersada por cafés e clubs, na conversa de conhecidos e amigos encontrados sempre nas horas de sobejo.

Não lêem as mulheres, o que é muito peor. Porque é em toda a parte o grande publico feminino quem lê os poetas e os romancistas, quem assigna os magasines e revistas, quem conhece as mais interessantes brochuras de viagens, quem discute os seus autores, quem faz, emfim, uma reputação literaria.

Entre nós, a não ser nos centros intelectuais de que as mulheres só raramente fazem parte, não se fala em literatura, não se conhecem os escriptores e não ha—o que é significativo—o menor desejo de os conhecer.

Para muitas senhoras que lêem e gostam de lêr é um facto desconsolador o pensarem que serão ridicularisadas e que os ignorantes as alcunharão de sabichonas e doutoras, se por acaso entram em conversa que transponha os limites literarios dos folhetins dos jornaes ou da secção das modas.

Mas será isto motivo bastante para se desinteressarem tão completamente pela literatura do seu paiz?

Fugindo do ridiculo com que fôram tão cruelmente perseguidas as romanticas de ha vinte annos, as mulheres deixaram de lêr com receio de que as chamassem literatas—o epiteto mais desagradavel que podia ser dito a uma senhora que era vista com um livro na mão.

Pararam, indecisas, isto é retrogradaram, porque em civilisação não ha paragens que não sejam retrocessos.

E foi este o motivo porque se deu o afastamento cada vez mais pronunciado da mulher portuguêsa pela arte e pelos artistas do seu paiz e do seu tempo. É desolador este simptoma porque nos mostra como é feita sem elevação moral, nem intellectual, a educação das mulheres que hão de ser as educadoras das futuras gerações. Numas, as que se dizem educadas, os seus conhecimentos são apenas um mostruario vistoso de habilidades e conhecimentos superficiaes, que não iludem ninguem. Outras, conservam-se na mais boçal ignorancia, na mais completa indiferença pelas coisas do espirito.

Mas dando de barato que, por uma estranha repugnancia de espirito, os escriptores de hôje não agradem ás mulheres, porque despresam tudo quanto de grande e bello tinha a do tempo de nossas mães?

Por acaso deixaram os livros de Camillo de ser os mais humanos, os mais portuguêses, de quantos tem escripto e sentido um grande talento português? Por acaso já secaram, como fonte despresada em campo maninho, os lindos olhos das mulheres do nosso paiz, que já não se arrasam de lagrimas na partida de Simão Botelho para o desterro e na morte da linda Thereza e da tragica e simples Marianna?!

Tão perdido vai o seu gosto artistico, que já os seus labios se não abrem jocundos sobre as paginas de eterna graça, que o incomparavel escriptor espalhou por toda a sua grande obra?!

Tão adversas a preocupações de espirito, que se não familiarisem com todo esse mundo amoravel e risonho que nos deixou o romancista que deveria ser, por excellencia, o preferido das mulheres, Julio Diniz?!

Tão esquecida que já não leia toda essa pleiade brilhantissima de poetas e prosadores que foi a de Garrett e Herculano, até João de Deus, Anthero, Crespo, Eça, e tantos outros que a morte levou; sem falar nos que, por graça de Deus, ainda vivem e trabalham nesta Patria que devia ser o nosso orgulho e é o tormento de quem a ama e a vê tão outra do que devia ser?

Não, a falta não é dos escriptores, a falta é só da mulher que não está educada bastantemente (apesar de certos criticos acharem que o está já demais!...) para discernir e escolher o bom caminho que o mais vulgar senso commum lhe indica: uma educação séria e fundamentada, começando nas coisas práticas e uteis da vida, acabando na literatura e na arte em geral, que é por assim dizer a alma falante d'um povo.

É urgente que se convençam de que a mulher ignorante é o mais triste e aborrecido verbo de encher que a sociedade agasalha. Se é bonita, elegante, e veste bem, começa por ser um prazer para os olhos e acaba por se tornar um desprazer maior para o espirito, quando responde com o mutismo da ignorancia convicta, ou com a tagarelice da ignorancia atrevida, a uma simples conversa em que pessôas cultas jogam com ideias e conhecimentos como as crianças com as irisadas bolas de sabão que tanto as alegram.

Isto olhando-a pelo lado social, que na vida familiar os efeitos da ignorancia feminina são ainda de mais tristes e deleterias consequencias.


AS POBRES MÃES



As pobres mães

Porventura evocará este titulo míseras mulheres desgrenhadas, arrepanhando-se de dôr, ante a morte que lhes arranca dos braços os filhos estremecidos...

Ou a visão dolorosa das que os vêm partir, na força da vida, frementes de esperanças e ambições, chamados pela lei para a guerra odiosa...

Ou, ainda, pobres mulheres vagabundas, arrastando os seus farrapos pelas ruas e caminhos, mendigando baixinho, numa vergonha ou num pavôr, para os sêres informes que levam nos braços e pendurados ás saias, culturas para a dôr e para a doença, crimes e loucuras em fermentação...

E, entanto, não são essas as que merecem a epigrafe que encima estas palavras.

É mais dôce o seu viver, mais calma a sua existencia...

É ao recolhimento da vida burguêsa que iremos buscar essas pobres mães, que a sociedade moderna, no impulso avassalador e tiranico de necessidades e exigencias novas, vai fazendo martires pelo sentimento e pelo coração.

São essas mulheres naturalmente inteligentes, mas fundamentalmente ignorantes, que sofrem pelo afastamento progressivo dos filhos do seu amôr e do seu encanto, a par e passo que os vêm crescer em inteligencia e saber.

É á classe média, a mais numerosa e nacionalisada, a mais apegada a preconceitos e tradições, que vamos buscar o nosso exemplo, porque:—o povo operario, caminhando revoltósa e tumultuariamente para o futuro; o dos campos, muito perto ainda do primitivismo animal; a alta burguesia e os restos desmantelados das velhas aristocracias, despaízadas pela educação e pela existencia só de luxo e egoismo—não podem fornecer os elementos comprovativos para a nossa these.

Um dos muitos axiomas fabricados para satisfação da nossa vaidade, e que transmitimos gostosos pelo prazer de nos iludirmos e pela preguiça em nos emendarmos, é a conhecida frase—que faz comover sentimentalmente os mais áridos corações—a mulher portuguêsa é uma bôa mãe.

Ora se olharmos a maternidade apenas como a funcção animal de conceber, ter o filho, amamentá-lo e cuidá-lo materialmente, nos primeiros três ou quatro mêses da sua existencia, a mulher portuguêsa é, realmente, uma bôa mãe.

Tudo a predispõe para isso. A bondade natural da nossa raça, essa bondade passiva feita da indolencia atavica de sangue oriental que nos anda nas veias; a belleza efemera, quasi toda feita da frescura dos poucos annos e da delicadeza das linhas que a maternidade ainda não engrossou; o esmagamento duma longa série de gerações em que viveu no recolhimento freiratico da antiga vida portuguêsa, e ainda hôje sem os cuidados rudes de procurar a subsistencia, encargo exclusivo do homem...

Tudo predispõe a mulher, na doçura amolecedôra do nosso clima, para ser uma cuidadosa mãe: cheia de mimos para os seus pequenos; temendo vê-los chorar, como quem teme uma trovoada; muito ciosa das suas prerogativas, quando se trata do enxoval de bébé, da moda dos vestidos, dos chapéos e das bótas; sacrificando-se, em caso de doenças; tendo, emfim, todos os carinhos e todos os merecimentos duma bôa aia.

Mais tarde, procurará dar ás filhas uma educação primorosa, segundo o seu ponto de vista, não se poupando ainda a sacrificios para que toquem no seu piano, saibam prendas de mãos, e um bocadinho de francês para não se envergonharem numa sala...

Emquanto aos rapazes, cedo entregues aos professores que os levam a exame, ficam—graças a Deus—livres de toda a responsabilidade de educadora.

Para com as filhas é mais longa a sua missão, que não é desagradavel a espiritos que ficaram ignorantes das mais singelas regras de alta moral.

Quando as raparigas chegam á idade de procurar marido, ahi dos dezeseis para os dezoito, começa para a mulher o desempenho do papel, annos atrás a cargo da sua propria mãe, quando a acompanhou a todos os divertimentos, aguentou calôres e frios nos passeios da móda, cabeceou pelas reuniões dançantes, fez sacrificios para lhe comprar vestidos vistosos, despojou-se dos seus adornos para enfeitar as filhas, porque—e esta frase é bem caracteristicamente portuguêsa e lança toda a luz no módo de ser e nas aspirações da nossa pobre mulher—já agradou a quem tinha de agradar.

Agora é a vez da filha ir para a amostra, até encontrar senhor. Sujeitam-se a tudo: trabalham, quando não têm criadas, nos mesteres mais humildes, para que as filhas desempenhem o seu papel de princesinhas de contos á espera do principe encantado que as fará soberanas de deslumbrantes reinos imaginarios...

A rapariga, assim preparada, casa emfim, realisa a sua ambição, está finalmente arrumada—como é vulgarissimo dizer-se quando uma noiva passa, sorridente e confiada, dos mimos da casa paterna para os braços de um homem que na maior parte das vezes é quasi um desconhecido.

Pobres dellas!... O que julgam o fim é apenas o principio—da sua árdua missão de mãe de familia.

Deixou de ser uma criatura sem deveres nem responsabilidades, a quem tudo se perdôa e desculpa, para ser a pedra basilar desse sagrado templo que se chama o lar.

Vai sêr a mãe! Vai pertencer-lhe, só a ella, por longos e dolorosos mêses, viver da sua vida, alimentar-se com o seu sangue, sentir pelos seus nervos, um pequenino ser informe que é o seu filho, que será para o futuro um homem ou uma mulher, que poderão ser uns criminosos ou uns santos, doentes ou sãos, devido, em muito, aos cuidados, preocupações e higiene moral e material da mãe.

Nascido para a vida, é ainda o objecto dos seus cuidados e amôr. Treme pela sua fragil existencia, alimenta-o com o seu leite, acalenta-o no seu regaço,—continúa a viver da sua existencia, póde assim dizer-se.

A mãe sente-se satisfeita com esses cuidados que dispensa aos pequeninos seres, que lhe enchem de ternura e de encanto o coração; e, cuida, justamente, que ninguem será capaz de os tratar e amar como ella...

Mas esta mulher tão cuidadosa e carinhosa não é, não pode ser, uma bôa mãe! Só o instincto a guia, e o homem de hôje é por tal fórma o producto de costumes e civilisações sobrepostas, que deixou ha muito de ser o animal de instinctos, segundo a natureza, para ser um producto de arte e de trabalho e de paciente cultura.

Educar uma criança de hôje, não é manda-la para a escola para que saiba lêr e escrever; é muito mais do que isso!

Ainda antes de nascer, já a criança deverá ser respeitada e amada, cohibindo-se a mãe de muita coisa que a póde prejudicar, cuidando do seu proprio somno, da sua alimentação, e da sua higiene, para que a delicada planta humana desabroche vigorosa e possa resistir e desenvolver-se propiciamente.

Conhecem, por acaso, a maior parte das mães, a responsabilidade duma gravidez?

Sabe a mulher que casou com a educação que descrevemos, que do conhecimento e da prática de simples noções de hygiene póde evitar aos seus filhos terriveis males, quasi todo o estendal das doenças infantis, que levam para a terra centenares de corpinhos inermes: desde a enterite, que faz das mais lindas creanças pequenos cadaveres ambulantes, até á atrepsía que, sob as côres rosadas da saude, disforma o esqueleto, dobrando as pernas em arco, dando ás criancitas o andar grotesco de marrequinhos fóra da agua?

A propria tisica, a escrofulose, a anemia, como as inúmeras nevróses que desvairam a raça humana, são quasi sempre evitaveis se uma vida infantil regular e higienica tonificar o organismo e o preparar com a resistencia precisa para o triumfo dos principios vitaes.

Partindo do cuidado, quasi só material, dos primeiros dois ou três annos, a missão da mãe redobra a cada passo de dificuldades e requer toda a inteligencia e a tenacidade duma grande obra.

É então que todos os desvelos serão poucos para vigiar a consciencia que vai despertando, e que é necessario começar cedo a ser educada e dirigida para o bem.

Não faltará quem se ria ouvindo falar em educação duma criança de três ou quatro annos; e, no entanto, nada mais sério e nada mais util do que saber aproveitar a franquêsa dessa idade, que ainda não sabe mentir, para conhecer na criança o homem ou a mulher que será no futuro. É a ocasião de poder aproveitar todas as qualidades de um caracter e até os seus defeitos, e convertê-los em virtudes, sem torcer a vontade nem o temperamento individual.

E a mãe, a pobre mãe, que é a mulher da qual descrevemos o casamento, começa então a sentir que o seu filho se lhe escapa dos braços, arredando-se-lhe do coração, alheando-se-lhe do espirito.

Dahi em diante, a criança, pela vida e pela alegria da qual ella sacrificaria gostosamente a sua propria vida, dá cada dia um passo que a tornará uma estranha para aquella que lhe devia ser a mais certa e mais respeitada guia.

É quando, cheia de curiosidade, começa a abrir os olhos do espirito, que se não fartam de luz, e pergunta tudo quanto existe, tudo quanto lhe fere a atenção, sempre desperta e voluvel.

As coisas mais simples, como as coisas mais complexas, tudo procura saber e tudo é preciso que se lhe explique duma maneira comprehensivel. É o momento unico de lhe dar noções que nunca mais esquecem e que pela fórma estejam ao alcance dos seus poucos annos e rudimentar inteligencia, mas pela substancia resumem os conhecimentos e verdades que lhe serão uteis pela existencia fóra.

Se a mãe não responde, a criança desinteressa-se de coisas sérias e torna-se futil, ou vae fazer as suas perguntas ao pai, quasi sempre mais culto, e que por esse motivo passará a ser considerado superior á mãe ignorante. Se a mãe, não querendo passar aos olhos da criança por inferior, diz uma coisa ao acaso, que não é precisamente a verdade, o mal é ainda peor porque não tardará que a criança saiba, por estranhos, o contrario do que lhe disseram.

E não imaginem que ella esquecerá, não! Na primeira ocasião saberá mostrar a sua estranhesa.

Cresce: da escola para sujeição, onde a mãe a meteu por ser impossivel tê-la em casa desde os três annos, passa a frequentar as aulas públicas. Tem os seus compendios, que lhe falam de coisas de que não tinha a menor noção; cada passo é uma dificuldade, cada palavra um barranco, cada materia uma novidade, que o professor, entre tantos discipulos a reclamar-lhe a atenção, não tem tempo de aclarar-lhe o sentido. De lagrimas nos olhos, o livro na mão, a criança irá procurar aquella que mais estima, e que mais tem tido chegada ao coração desde que existe, para que lhe explique o que não comprehende. E a pobre mãe não saberá auxilia-la, terá de confessar a sua impotencia, a sua ignorancia, diante do filho que se desespera!

Quantas vezes, indo encontrá-lo a cabecear sobre o livro que não comprehende, a mãe não teria desejo de tirar-lh'o das mãos e, numa clara leitura e uma inteligente explicação, fazê-lo aprehender o sentido que lhe foge?!... mas... a pobre mãe não o poderá fazer, porque não sabe tambem! E quantas vezes a sua revolta de ignorante não se torna uma defesa para a criança mandriona, que repetirá o que lhe ouve:—Para que serve saber isto ou aquillo? Sem estudar tambem se come e bebe!...

Se a criança é estudiosa e inteligente, em vez de pensar com leviandade sobre o assumpto, com a aprovação da mãe, concentrará todo o seu espirito no estudo e irá perguntar aos estranhos o que em casa não poude saber.

A pobre mãe será, aos olhos de seu proprio filho, uma ignorante, uma inferior.

De dia para dia esta convicção se irá radicando no ânimo da criança, á medida que fôr adquirindo conhecimentos, desenvolvendo a inteligencia.

O trabalho que se faz no seu espirito é lento, mas é seguro. Homens e mulheres feitos, não deixarão de amar as mães—quem o duvída?—Mas com esse amôr protector que se tem a uma bôa e dedicada ama que nos acalentou e amimalhou na infancia, o amôr deprimente que se tem pelos inferiores; não o sagrado afecto do filho, que o é, triplicemente, pelo sangue, pela amamentação e pela inteligencia desabrochada ao calôr do ensinamento materno.

O convencionalismo, a mentira social, encobre com falsos sentimentos verdades que julga crimes, mas que a natureza, na sua rudesa primitiva, não considera tais. Assim, quando a uma criatura em evidencia, pela sua nova posição social, se descobre uma quasi vergonha que as faz esconder a inferioridade dos pais, todos se indignam e lh'o lançam em cara como sangrento insulto.

Parece-nos um crime contra a natureza, mas na realidade é um sentimento bem humano e desculpavel nessas criaturas roídas de ambições, na ânsia de fruir gosos inéditos para os nados e criados na pobresa.

Quanta superioridade de ânimo lhes seria precisa para fugir ao mesquinho ponto de vista duma sociedade, que, se por um lado exproba esses sentimentos como um crime, por outro lado ri impiedosa dos ridiculos familiares de que o individuo não é culpado. Quanta vaidade, quanto orgulho amachucado, curtirão esses que querem aparentar grandesa e se vêem acorrentados á ironia dos seus inimigos por uma longa série de criaturas inferiores que irremediavelmente os prendem á mediocridade!... É das mais tragicas e ao mesmo tempo das mais comicas situações que a civilisação democratica dos nossos dias trouxe á babugem das suas ondas, de envolta com os parvenus, tão invejados por uns como despresados por outros...

Podemos considerar uma inferioridade de espirito esse sentimento de vergonha pelos seus? Certamente.

Mas não é nobre e alto do coração quem o quer ser. Nós todos, com os nossos assomos de independencia, não somos mais do que o producto do meio em que vivemos e nos criámos, os productos duma bem ou mal orientada educação, um conjuncto de convenções e mentiras numa sociedade construida sobre aparencias e falsidades.

Não condemnemos pois o filho que no seu intimo despresa intelectualmente a mãe, que no entanto estima e até julga respeitar.

A mulher tem bastante intuição, mesmo quando é ignorante, para comprehender o sentimento que inspira aos filhos. Embora se resigne dôcemente, no seu apático papel de tutelada, essa convicção deve-lhe ser amargurosa.

Para seu bem, e, mais ainda, para bem da sociedade que não póde já dispensar-lhe o concurso, preciso se torna que a mulher sáia desta situação que a inferiorisa, e a inutilisa como factor importante da civilisação.

Comprehendendo a vida pelo estudo da grande mestra Natureza, é preciso que a mulher se convença de que se não é bôa mãe só porque se deu vida a uma criança, que no seu seio se gerou e completou e com o proprio leite se nutriu, rodeada de mimos e cuidados durante a infancia.

É preciso que a essa maternidade puramente material se alie a nobre maternidade do espirito e da educação—unica que lhe dará a garantia de possuir o respeito e o afecto confiado dos filhos, que sempre encontrarão nella avisado conselho.

Procurando nos animais o exemplo que nos oriente, vemos que todos elles desconhecem a mãe (porque o pai lhe é quasi sempre um estranho) desde que a criança se tornou forte e dispensou o ensinamento e a guia que nos primeiros passos lhe eram indispensaveis.

O mesmo succede ao homem, que se vai distanciando intelectualmente da mãe desde que deixa de lhe ser conselho e auxilio dos tenros annos.

Todo o falado amôr poetico pela mãe, é apenas o producto duma convenção sentimental adquirido pelo homem á medida que se foi civilisando.

Talvez até uma simples questão de moda trazida pelo romantismo, como os nefelibatas e simbolistas nos déram ultimamente nos seus lirismos as velhas criadas e as boas amas...

Durante o naturalismo forte da Renascença, a mãe é completamente esquecida pelos poetas e prosadores. Nas proprias telas a mãe glorificada pelo pincel dos mestres é a Virgem, a mãe fóra da humanidade!

Como reação ao culto da mulher amante, soberba da sua belleza e da sua força, veio o culto, bem mais postiço, da mulher, só porque o acaso a fez mãe.

A mulher póde e deve obstar, pelo esforço da sua energica vontade, á grande amargura que a espera quando a alminha radiosa do seu filho vai fugindo ao convivio do seu pobre espirito inculto para se lhe tornar quasi um estranho.

A mulher, na classe a que me tenho referido nestas paginas, pode educar-se a si mesma, que não lhe faltam meios para o fazer.

Se o não fizer abdica dos seus direitos, exactamente quando mais alegrias compensadoras lhe trariam.

Agora que o homem começa a olhá-la como sua igual e companheira, toda a responsabilidade lhe cabe no despreso intimo, embora inconfessado, que a sua ignorancia lhe merece.



A MISERIA DO POVO



A miseria do Povo

É incontestavel que um certo movimento altruista se propaga pelo paiz—secundando, ainda que frouxamente, o que nos outros se faz—em favôr dos pobres, principalmente da mulher e da criança.

Uma grande revolução se está preparando, e, como todas as grandes revoluções que têm transformado as sociedades, começa por revolucionar almas, formando um núcleo de espiritos que pelo bem dos outros se sacrificam sem esperar pagas nem incentivos de grosseiros interesses.

O mundo antigo, cheio de preconceitos e de injustiças, sente-se derruir, sem bases seguras onde se apoiar—esfacela-se lentamente até uma derrocada ingloria e completa.

A pouco e pouco, aqui e ali, algumas bôas obras de solidariedade humana têm surgido da iniciativa particular, sem que os governos tenham sequer suspeitado da sua existencia.

E bom é que assim seja, porque só a iniciativa particular, persistente, honesta nos seus processos, sem charlatanismos oficiaes nem interesses politicos a desprestigiá-la, póde fazer mais em poucos mezes do que cincoenta annos dos embaraçantes processos de todos os governos.

É della que tudo ha a esperar, é da acção especial dos governados que confiâmos, pois que dos governantes pouco ou nada póde vir neste sentido, nem é justo, verdade seja, que delles se espere tudo, como se um povo não fosse mais do que ingenuo e eterno bébé sugando a mamadeira que lhe apresenta a criadora.

Tudo esperar do poder central é mostrar que nada podemos individualmente, ou que estamos satisfeitos com o pouco que nos concedem.

Ora a verdade é que ninguem está satisfeito, porque nunca se viu situação mais desoladora, vida mais atropelada e miseravel.

É o nosso paiz aquelle em que mais caro se come, se veste, se viaja, e se tem morada; e aquelle em que menos se ganha, salvo pequenas excepções, que é facil apontar. De dia para dia os generos de primeira necessidade duplicam e triplicam de custo.

Não ha nada, desde o pão até á luz, que se não compre por alto preço; nada que não custe ao pobre incomportaveis amarguras e suores.

É por isso que não ha paiz nenhum em que a tisica, a anemia e a escrofulose tenham mais lauto banquete.

Fez-se, é certo, uma liga contra a tuberculose, patrocinada pelos governos, auxiliada por contribuições obrigatorias na capital, reclamada pelas mil tubas sonoras do jornalismo palaciano.

Não houve penna de escriptor, consagrado pelas gazetas, que se não puzesse ao serviço da bôa causa; não houve paladino que não quizesse descer á liça a romper lanças pelo triumfo da ideia que, partindo modesta e util de baixo, serviu depois muito interesse, deu aso a muita turiferação.

E no fim de tanto afan, tanto barulho, tanto elogio, o que ganhou de positivo e imediato o povo português, na sua grande massa?!

—Come porventura mais barato?

—Tem casas higienicas, onde se abrigue por módicos preços?

—Tem hospitais para todos os seus doentes?

—Asilos para todos os seus velhos?

—Sanatorios para todos os seus escrofulosos e tisicos?

—Escolas para todos os seus filhos?

Nada disso tem, nada disso lhe deram ainda, apesar de tanto que se tem apregoado os beneficios duma liga, que póde ser simpatica como esmola particular e arbitraria duma ou mais pessoas, fazendo pouco porque mesquinhos são os seus recursos, mas que se não deve querer fazer passar por medida de salvação publica...

Todos reconhecem ser pouco o que se tem feito, tão pouco que se torna inutil, para debelar um mal que vem da ruina dum povo e duma sociedade sem orientação; dum mal que está no sangue e no espirito e que ameaça assoberbar tudo e todos.

São incontaveis os escrofulosos, tisicos, anémicos e depauperados na classe pobre. As mulheres definham e morrem como flôres criadas em terra magra, sem ar nem luz; as crianças arqueiam os pobres arcaboiços, onde mal se desenvolvem pulmões predispostos á receptividade do microbio hostil; os homens avelhentam-se e enlividecem, numa aparente senilidade aos vinte ou trinta annos. E tudo porquê?!

Porque a vida é terrivelmente cara em Portugal, e a maior parte da gente não come o que necessita, vive em verdadeiras possilgas, não é preservada devidamente do contagio das molestias que a rodeia, não é iniciada nas mais rudimentares regras de higiene, não é educada de modo a preferir a alimentação e o conforto das casas ao luxo do trajar e demais exteriorisações vistosas.

O caminho a seguir por quem quizesse e pudesse remediar tanto mal, não se limitaria a fundar sanatorios onde se gastam muitos contos de reis e se abrigam, por empenhos, umas desenas de crianças—umas predispostas apenas.

Para essas, mesmo, o bem não é grande e, principalmente, não é duradoiro. Melhoradas pela higiene, pela alimentação e pelos simples remedios reconstituintes, voltam desse conforto e abundancia para a antiga e triste miseria das suas casas, tendo por destino a fatal renovação da doença, logo que deixe de ser combatida, e será agravada com o desespero de se vêrem privadas do bem a que já se haviam gostosamente e metodicamente habituado.

O primeiro passo a dar, para melhorar esta situação angustiosa, seria:—fazer baratear os generos alimenticios de primeira necessidade; estabelecer e auxiliar cooperativas; reduzir os impostos de consumo, que incidem principalmente sobre o pobre que compra a retalho, de modo a que todos pudessem comer quanto é necessario para alimentar uma vida saudavel.

Seria iniciar o sistema de cooperativas edificadoras, tão usado lá fóra; auxiliar grandes companhias que se propozessem dar casas higienicas e espaçosas por módico preço, aos pobres que não podem continuar a viver como hôje vivem em antros infectos e caros.

É mais do que tudo urgente acabar com a exploração dos senhorios que exigem por casas pessimas, loucas exorbitancias extorquidas asperamente á economia da familia pobre.

Ter o seu lar, a sua casa, onde cada prego representa um esforço de vontade e uma consolação de posse; a casa para onde entram os noivos com a alma florida de esperanças, onde nascem os filhos e se podem abrigar os velhos pais doentes; a casa onde põe todo o seu amôr o operario laborioso, que nas horas vagas cultiva no jardim os cravos e as rosas singelas, planta as hortaliças e levanta a parreira amiga que lhe dá a sombra e o vinho; a casa que a mulher limpa e adorna com esmero, porque é a sua, a companheira e amiga de todas as horas; a casa familiar, que deixa de ser uma coisa inanimada e indiferente para se tornar no grande sonho abençoado dos que vão para longe, e dos que ficam abrigados á sua dôce sombra; é para o trabalhador português uma ambição tão desmedida, que poucos a chegam a realisar.

É desta indiferença do povo que não vive comsigo nem se sabe recolher ao interior da sua habitação, ao seu lar, tornado o seu pequeno e querido universo, que não se identifica com as suas coisas e não lhes toma amôr, é deste viver disperso de povo meridional, que vive do ar e do sol, e num dia de passeata alegre pelos campos encontra compensação para todas as suas miserias; que o senhorio tem abusado elevando disfarçadamente, cada semestre um pouco, as rendas—que são hôje um verdadeiro crime social.

Se fossem precisos exemplos para afirmar uma coisa que toda a gente sabe, Setubal seria, para tudo quanto dizemos, um dos mais flagrantes.

Dotada com um luxuoso sanatorio, nem por isso a doença e a miseria a poupam mais.

A grande miseria da população (de vinte e três mil habitantes) é composta por operarios, dum e doutro sexo, que trabalham nas fabricas de conservas de peixe, de pescadores, e de gente de medianos recursos.

Com a afluencia de trabalhadores de fóra, as moradias têm subido a tal preço que uma só familia não tem recursos para as pagar, acumulando-se duas e três em antigos predios insalubres, dentro de ruas estreitas e nauseabundas, onde mal entram o ar e o sol—os grandes purificadores. Ha casas, se tal nome merecem, onde se não póde andar de cabeça erguida, sob pena de a partir no tecto, e onde a escuridão é quasi absoluta. Casinhotos terreos, ahi pelos suburbios, em que as divisorias são feitas com cortinas de chita, e pelos quais um mísero cavador paga por mês, dois mil réis, isto ganhando—quando ganha—quatrocentos réis diarios.

Ha miseraveis velhinhas pedindo pelas portas para pagarem dez tostões mensais pelo abrigo duma barraca forrada de folha de flandres ferrugenta, despresada pelo fabrico de conservas.

Não ha muitos invernos que numa barraca alugada pelo mesmo preço exorbitante a uma familia de pescadores, choveu tanto, em noite de temporal, que o marido e a mulher tiveram de abrigar-se sob um chapéo de chuva, metendo os filhos debaixo da cama para não ficarem completamente encharcados.

Chega a dar vontade de rir, mas do riso que é de lagrimas e de amarguradas censuras tecido; o mesmo riso que se nos esboça numa lástima vendo uma criança deslocar-se em acrobatices de circo.

Quantas gerações de miseria e servidão produziram a indiferença resignada com que se sofre uma existencia de tais alegrias entrétecida?!

Depois, se numa destas habitações se dá um caso de doença contagiosa, vem a policia, a pretexto de desinfeção, rouba aos pobres a sua unica cobertura, queima-lhe a unica enxerga, despedaça-lhe a pouca loiça, borrifando paredes, sobrados e moveis com sublimado corrosivo!...

Urgente seria organisar a fiscalisação sanitaria, de modo que a desinfeção fosse uma coisa séria e prática e não um vexame ou um ridiculo como é,—méra providencia policial quando se tóca a rebate numa ameaça de epidemia.

O que faz então o pobre, victima destas providencias policiaes? Para não ficar mais desnudado do que dantes, arrecada, esconde tudo quanto serviu aos doentes, não sabendo—na sua extrema ignorancia e desoladora miseria—que arrecada sôfregamente a morte, que não pára nem descança de trabalhar nesse fertil campo.

Não seria prático, simples, justo, e até quasi nada dispendioso, que nos proprios hospitaes se montassem estufas de desinfeção para as roupas de todos os doentes e de todos os que morrem de molestias contagiosas; e que a policia se encarregaria de fazer conduzir ali, para essas roupas serem reentregues quando já não constituissem um perigo para os seus possuidores?!

E se ainda os males fossem só estes! Mas a juntar a tantas desgraças que podemos chamar materiaes, ha outras e outras que se prendem de perto com as obrigações moraes dos dirigentes e dos educadores.

Ha, por exemplo, quem fiscalise as condições em que se realisa o trabalho das mulheres e dos menores? A lei que o regularisa é letra morta, e uns e outros trabalham nas peores condições higienicas e em todos os tempos e horas, inferiorisando-se fisicamente, deformando e afeando cada vez mais a nossa raça, que foi bella e fórte.

A mulher não tem quem a eduque e oriente, quem a ensine a respeitar-se e a respeitar em si mesma o futuro dos filhos; e ou não trabalha nada, porque o homem a sustenta e veste, ou se sujeita a tudo, desempenha os mais penosos serviços, quer livre quer em vesperas de ser mãe.

Filhos nascidos, quem pensou em lhes abrir as créches, as escolas-infantis ou maternaes, os asilos-oficinas?... Quem pensou em juntar essas mulheres, irmãs na desgraça, para lhes ensinar como, agremiadas, se poderiam socorrer e fugir á extrema miseria, á doença sem conforto, á fóme dos dias sem-trabalho?

Quem fez sentir aos operarios, a muitos que ganham bastante, mais do que qualquer empregado publico, que a sua grande força estaria na modestia do viver, no cuidado que puzessem em criar higienicamente e em educar os seus filhos?

Quem lhes faz sentir, sem azedume, o ridiculo do luxo que ostentam, nas mulheres e nos filhos, imitando as burguêsas que dizem despresar? Quem lhes incutiu, com as preocupações mais altas do espirito, o horror a essas festas em que a saúde e o dinheiro por igual sofrem um forte abalo?

Como quasi todos os portuguêses, não pensam quanto melhor seria possuirem a casa onde habitam e nasceram os filhos, que os viu sorrir e crescer, que lhes conhece as lagrimas e as alegrias. Quanto seria preferivel, á taverna que os envenena e fére toda a sua geração, o theatro que educa e diverte, criando uma atmosfera mais pura para o espirito. Quanto mais proveitoso lhes seria fundar e frequentar bibliothecas, serem emfim os iguais ou superiores aos que hôje imitam, não pelo trajar que é vaidade de pouca monta, mas pela educação e pela consciencia dos seus direitos e deveres!?

Cigarras imprevidentes e tagarelas, nos dias quentes de bôa féria, quem entre nós os póde criticar?

Defeito de educação, defeito endemico na nossa terra, que vem descendo do alto, num turbilhão de vaidades insatisfeitas, numa aspiração desenfreada de ser mais do que efectivamente se póde ser, pelas exteriorisações da vida faustosa, com vestidos ricos, numa inveja que faz imitar sempre os que julgam acima, na escala social...

Mais do que uma liga contra a tuberculose, tal como se tem manifestado, seria proveitosa á nossa raça devastada pela doença, uma liga contra a fóme e contra a ignorancia que tudo obscurece e preverte.


A IGNORANCIA DO POVO