The Project Gutenberg eBook of As Netas do Padre Eterno
Title: As Netas do Padre Eterno
Author: Alberto Pimentel
Release date: July 19, 2020 [eBook #62706]
Most recently updated: October 18, 2024
Language: Portuguese
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N.º 32—COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
AS NETAS DO PADRE ETERNO
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
AS NETAS
DO
PADRE ETERNO
ROMANCE ORIGINAL
POR
Alberto Pimentel
LISBOA
LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA—EDITOR
50, 52—Rua Augusta—52, 54
1895
LISBOA—Typ. e Stereotypia Moderna—Apostolos, 11, 1.º
I
Desde a primavera até ao inverno de 1873, decorre, na historia da moderna Hespanha, um periodo de rubra agitação demagogica, em que tanto a abandonada coroa da velha Monarchia de S. Fernando como o recente barrete phrygio da Republica fluctuam n’um mar de sangue, golphado do proprio coração d’esse bello paiz meridional, e sinistramente illuminado pelos reflexos coruscantes dos incendios de Alcoy, que eram o facho tristemente glorioso da insurreição cantonal.
Nação essencialmente catholica, a Hespanha viu profanados os seus templos, principalmente em Barcelona, onde as mulheres, n’uma infrene orgia de bacchantes, envergavam as vestes sacerdotaes, entoando cantares obscenos, e derramando por sobre os altares o vinho que trasbordava das taças.
Nas ruas, as allucinações da musa popular, terrivelmente revolucionaria, alternavam-se com as detonações dos fuzilamentos, e aos dithyrambos entoados á beira dos altares correspondiam, fóra dos templos, trovas sacrilegas, dissolventes, anarchicas:
É certo que na alma popular da Hespanha não estavam de todo pervertidos os sentimentos cavalheirescos da raça castelhana, mas a revolução ia alastrando dia a dia o seu dominio,—em Sevilha era incendiada a calle de las Sierpes, em Cadiz punha-se em almoeda a custodia do Corpus Christi, em Málaga dois bandos rivaes porfiavam em horrores de barbarie, em Granada os desenfreamentos do vandalismo desmoronavam as instituições e os templos, como acontecia em Barcelona, em cujos campos os bosques incendiados chammejavam como enorme fornalha: por isso só timidamente a musa das ruas ousava contrapôr um grito de justa indignação aos desvarios da demagogia que golpeava o coração da patria, enodoando de sangue as mais bellas paginas da historia nacional.
D’esses timidos gritos de reacção popular não se perdeu comtudo a nota caracteristica, que ainda hoje póde encontrar ecco na apreciação imparcial d’esse periodo demagogico:
Um illustre escriptor hespanhol, o sr. Vicente Barrantes, emigrando n’essa epocha para Portugal, escreveu sob o titulo de Dias sin sol, um livro interessante, em que estão consignadas as dolorosas impressões que as desgraças da Hespanha punham no coração dos seus angustiados filhos. Uma pagina d’esse livro diz:
«Com mão debil e porventura timida empunhou o tribuno Emilio Castellar as redeas da dictadura, ao tempo que a fronteira portugueza, onde eu me achava, offerecia um lancinante espectaculo. Cerrada a do norte pelos carlistas, era aquella a unica porta para escapar d’este inferno de Hespanha, e cada trem do caminho de ferro iberico parecia barcada de Acheronte, como aquellas que rangendo os dentes e blasphemando até dos paes de seus paes viu passar o grande poeta da Edade-Média pelo lodoso lago que ao inferno conduz... De Madrid, de Alcoy, de Cartagena, de Valencia, de Cadiz, de Sevilha, de Jerez chegavam por centenas familias dispersas, como quem foge de uma peste; e isto um dia e outro dia, e mezes inteiros; e récuas e caravanas de inoffensivos lavradores, de pacificos artistas, de laboriosos industriaes desembocavam simultaneamente por todas as povoções da fronteira, desde Barrancos a Setubal, desde Elvas a Lisboa, desde Zamora e Ciudad-Rodrigo ao Porto: misero formigueiro de emigrantes de todas as classes e condições, com os olhos voltados para Hespanha, mas receiando, a cada hora que o horror os convertesse em estatuas, como á mulher da Biblia.»
Setubal, pela amenidade do seu clima, e pela belleza dos seus campos, hospedou uma importante colonia hespanhola, atravez da qual eu passeei algumas vezes os meus ocios de touriste. Principalmente no verão, em julho, que foi a epocha mais calamitosa da revolução, a affluencia de emigrados era numerosissima ali. E o que é verdadeiramente notavel é que os havia de todas as côres politicas, porque o perigo era egual para todos. A revolução não curava de perscrutar as opiniões de cada um. Perseguia, roubava, incendiava, fuzilava indistinctamente. Já não era pequena felicidade poder fugir á morte, salvar a vida. Dos emigrados, conheci alguns ricos, poucos, e esses eram os que tinham logrado liquidar a tempo os seus haveres, antes que a santa federal se encarregasse da liquidação. D’este numero era a familia Saavedra, de Sevilha, que tem de figurar n’esta historia. Tres pessoas apenas: pae, mãe e filha.
O pae, o sr. D. Enrique Saavedra, havia collocado uma somma importante n’um Banco inglez. Era um industrial acreditado, e teve o bom senso de fechar as suas fabricas mal que soaram os primeiros rugidos da insurreição cantonal. Se não tivesse procedido assim, haveria decerto succumbido ás mãos dos seus proprios operarios. Em politica, era francamente monarchico; principalmente, partidario dos Bourbons. «Qué broma! dizia-me elle, D. Izabel está exilada. Mas ou a revolução aniquila de vez a Hespanha, ou a Hespanha ainda chamará a rainha». Com effeito, em pouco se enganou D. Enrique: um filho de Isabel II occupou o throno de S. Fernando. Os Bourbons voltaram.
Quem se não importava grandemente com os acontecimentos politicos de Hespanha, era sua filha, Soledad, a mais salerosa individualidade de mulher que é dado phantasiar na vaga idealisação de uma noite de serenata.
Bocage, quando do alto do seu monumento a viu, estremeceu.
Setubal ficou encantada, não obstante ter-se iberisado então pelas relações commerciaes que mantinha com a colonia dos emigrados. E digo commerciaes, porque os hespanhoes eram os primeiros a queixar-se que só tratassem com elles os setubalenses nas transacções ordinarias da vida: dá cá, toma lá. De resto os emigrados entretinham-se uns com os outros, com duas ou tres pessoas da terra, e com as que eram de fóra.
O ideal de Soledad era uma tertulia ou, como hoje dizemos á franceza, uma soirée. Por muito tempo procurou desesperadamente uma tertulia, e se alguma vez ouvia tocar piano, parava de subito, attentava o ouvido e, com uma graça vivaz, picante, exclamava: Qué! És una tertulia? Era apenas um piano que tertuliava uma valsa... platonicamente.
Chegára o verão, começaram a apparecer os banhistas, muita gente do Alemtejo. Ao fim da tarde sentavam-se na praia, olhando para o mar, e ou fallavam dos seus montados e das suas courellas, ou descahiam em somnolencia mazomba. Alguns d’elles, de faces rosaceas, abdomen enxundioso, e instinctos retemperados pela bella fibra suina tinham exclamações carnaes quando a hespanhola passava, e digo a hespanhola, porque era assim que toda a gente fallava d’ella, sem embargo de que n’esse momento outras muitas estivessem em Setubal. Era, porém, como se se dissesse: a bella hespanhola, a formosa por excellencia.
Das pessoas da terra foram poucas as que romperam com a tradição local de retraimento bisonho, arrastadas pela fascinação. E essas poucas, eram homens. As senhoras visitavam-se então em Setubal difficilmente, e esta difficuldade augmentava para com os estrangeiros, cuja procedencia era quasi impossivel esquadrinhar, a não se fazer obra pelas informações dos seus patricios, suspeitas para o caso.
Um dia, porém, Soledad comprehendeu que os seus olhos podiam, elles mesmos, em toda a parte, improvisar uma tertulia; que no seu sorriso alegre e resplendente de andaluza havia encantos de sobra para fazer conhecidos e namorados, e desde esse momento ella zombou poderosamente da semsaboria setubalense, trazendo comsigo, a toda a hora, de manhã ou á noite, uma tertulia completa, attrahida pelo iman da sua formosura, rebocada pela sua fascinação iberica. Era a sua côrte, a sua coterie, o seu séquito. Por accordo tacito, conferiu-se-lhe o sceptro das Hespanhas, que a princeza de la Cisterna havia deposto. Vassalos enthusiastas rodeavam-n’a como nunca os tivera a rainha Maria Victoria. Cada dia que passava trazia um novo alliado. Alguem que vinha a Lisboa, dizia: «Que bella hespanhola que está em Setubal!»—«O que?!» perguntavam no Chiado.—«Unica! incomparavel! sublime!» era a replica. Os curiosos iam, e ficavam. Creio que os generos alimenticios chegaram a encarecer em Setubal. Mas o que embarateceu foi a poesia. N’aquelle tempo, ainda o verso era o vehiculo do amor, e com razão se julgava que para uma mulher de um paiz ardente não havia para inflammar-lhe a phantasia como uma metralha de alexandrinos.
Em redor da bella andaluza, fallava-se um hespanhol mascavado, que ás vezes parecia ser-lhe ainda de mais difficil comprehensão do que o vasconço o é para o commum dos hespanhoes. Mas que se importava Soledad com as palavras? Ella já sabia o que lhe diziam, o que por força se havia de dizer ao pé d’ella: que a amavam. Sorria, e respondia com os olhos, augmentando a fascinação, sem se comprometter: este segredo que só os olhos das hespanholas possuem. As portuguezas, com habitarem a mesma peninsula e serem da mesma raça, affirmam ou negam com os olhos, compromettem-se pelo olhar. Os olhos das hespanholas fallam sempre, mas raras vezes para affirmar ou negar. A duvida atiça o amor, e ella espalhava a duvida com o olhar. Não era bem prometter, não era bem recusar, seria tudo isso talvez, ou, ainda melhor, nada d’isso seria. Semeava esperanças, atirava flores e olhares ao acaso, emquanto o pae fallava dos assassinatos de Montilla, dos incendios de Alcoy e dos sacrilegios de Barcelona, e emquanto a mãe, que se morria por peixe, e era ainda arrebitada, ia por ali fóra, deixando vêr no sorriso uns dentes alvissimos, marchando com um desembaraço verdadeiramente hespanhol, em direcção á Ribeira, para comprar um safio ou uma corvina. Assim mesmo é que era; sem ficelles realistas, pela minha parte.—Ah! ditoso safio! ah! venturosa corvina! diziam muitos, que não podendo occupar o coração de Soledad, se contentariam com achar logar no seu estomago. Eu nunca fui d’esta opinião; não pelo acto em si mesmo, mas pelas consequencias. Todavia ha paladares para tudo...
Alguns entendiam que o melhor modo de conquistar a filha era captivar a mãe—pela bocca. Offereciam-lhe carregações de peixe-espada, cardumes de salmonetes, cabazes de laranjas—e então aquellas laranjas, as de Setubal! Um adorador setubalense mandou-lhe de uma vez um presente de sal, que chegava bem para salgar uma geração inteira. Outro attaché, lisboeta, riu do caso, fazendo notar que quem possuia uma filha assim tinha mais sal do que todas as marinhas do Sado.
Para brindar Soledad, os seus admiradores iam colhêr as melhores flores das quintas de Brancannes, que dispunham em graciosos bouquets e lindas corbeilles, recorrendo ao velho estratagema amoroso de esconder entre as flores uns versos ou uma carta, se bem que ella parecesse ás vezes gostar muito mais de laranjas que de flores.
O proprio D. Enrique era obsequiado com garrafas de excellente moscatel, e seja dito em abono da verdade que o moscatel de Setubal parecia ter o condão de lhe aligeirar os desgostos causados pelas desgraças da patria.
De dia para dia se tornava cada vez mais numerosa e obsequiadora a côrte em que a bella andaluza era rainha absoluta, omnipotente. Soledad sabia, como ninguem mais, conservar a illusão, a duvida ao mesmo passo cruel e deleitosa, que traz suspensos os namorados entre a esperança e o desalento. Não se deixava comprehender: esse era o seu grande segredo. A maior desgraça que póde acontecer a uma mulher é o ser comprehendida por todos. Umas vezes, parecia enlevada em extasis romanticos, tinha vagas abstracções, o seu olhar pairava no azul luminoso da noite. Que bella es la luna! dizia. Dos seus labios adejava um suspiro, que era impossivel interpretar. Outras vezes, quando lhe faziam notar a belleza da lua, ria com desdem petulante, replicando que já estava enfastiada de ouvir fallar da lua de Portugal e da revolução de Hespanha.
Emquanto uns fallavam a Soledad, vogando na ondulação das suas esperanças, ora afagadas, ora combatidas, D. Estanislada, a mãe, discorria a proposito do peixe-espada que tinha comido ao jantar com salada de alface e azeitonas, e D. Enrique discursava sobre a queda dos Bourbons ou sobre a frasqueira do sr. Fonseca, de Azeitão.
Eu não posso dizer quantos e quaes fossem os satellites de Soledad a esse tempo. Eram muitos. Citarei apenas os que me forem lembrando. Um jornalista de Lisboa, o Goes, que mandava mais versos do que laranjas, e um morgado de Reguengos, que mandava mais laranjas do que versos. Um proprietario das Alcaçovas que se atirava ao coração de Soledad com sorrisos e presuntos. Um rapaz de Setubal, o Vianninha, que recorria ao auxilio das flôres, e que deixára pela bella hespanhola uma menina da terra, a Sequeira, que estava padecendo horriveis hysterismos por se vêr abandonada. O conselheiro Antunes, de Santarem, pessoa grave e dinheirosa, que se dirigia principalmente á mãe, não se sabia se para ficar por ahi, se como ponto de partida para se aproximar da filha. Um morrinhento hespanholito, tambem emigrado, D. Ramon Mendoza, que recitava versos como quem está a solfejar cantochão. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas, de caçadores 1. Um sueco, que estava ali a negocio: alto, louro, rosado e inintelligivel. Um marialva do Chiado, que fôra a uma corrida de touros, e não se demorára menos de quinze dias. Um estudante de Alcacer, Julio de Lemos, que tinha ido a férias, e não chegára a casa. Mas, francamente, é-me completamente impossivel enumerar todos os cortezãos da bella andaluza, tanto mais que todos os dias pareciam multiplicar-se como as cabeças da hydra de Lerna e os algarismos da divida fluctuante.
Em face de tão numeroso cortejo, terá decerto perguntado já o leitor a si proprio como é que elles podiam conviver uns com os outros, sem desatar á descompostura e ao murro. A todos os trazia illudidos a esperança, como a duzentos candidatos que requerem o mesmo emprego. Fallavam-se, como os pretendentes se fallam debaixo da Arcada. Cada um tratava de metter memorial, e de arranjar as suas coisas. Havia hotel, o Escoveiro por exemplo, onde dormiam dois a dois, por falta de leitos. Ás vezes intrigavam-se. Finalmente, estavam em Setubal a amar a bella hespanhola como podiam estar em Lisboa a amar o deputado do circulo.
Todos elles possuiam o retrato de Soledad, reproduzido do cliché que um photographo ambulante, temporariamente estabelecido no largo das Almas, durante a estação de banhos, punha ao serviço do amor, na razão de 1$500 réis por photographia. O retratista estava fazendo um grande negocio; parecia ter fome, quando ali chegou, mas, passados dias, ia todas as manhãs á praça do Sapal comprar uma bella posta de carne de vacca e um chouriço, levando tudo para casa n’uma folha de couve.
Estes retratos duravam só mais quatorze manhãs do que a rosa de Malherbe. Quando muito, ao cabo de tres semanas a imagem desapparecia, apagava-se. Os enamorados iam fornecer-se de novo, n’uma grande anciedade amorosa, da qual o photographo ambulante desentranhava chouriços no dia seguinte.
Á hora da ceia, na longa meza dos hoteis, um grupo de amorosos, n’uma orgia de moscatel, brindava pelo amor e pela esperança, havendo cada um encostado á garrafa ou á compoteira o retrato de Soledad. Então extasiavam-se, soltando hurrahs perante o seu talhe mignon, o seu collo de pomba, os seus bellos cabellos negros, caprichosamente amontoados sob as rendas brancas da mantilha, os seus olhos penetrantes como punhaes de Toledo e vivos como carvões accesos, o seu gracioso ar petulante, illuminado por essa luz mysteriosa, que se projecta sobre as mulheres hespanholas, e que se chama—o salero.
O conselheiro Antunes, que tambem estava n’um hotel, não tomava parte n’estas bacchanaes amorosas, condemnava-as mesmo, e tiravam-lhe o somno, quer fosse pelo ciume ou pela algazarra. No dia seguinte queixava-se de persevejos.
O sueco, esse, embebedava-se com kirsch, e tornava-se inintelligivelmente gárrulo. Punha os olhos no tecto, parecendo recitar as mais sentimentaes estrophes da Scandinavia, ao passo que os portuguezes choravam de riso ao vel-o arroubado, e perguntavam entre si: «Que diabo estará a dizer este pedaço de bruto!»
Uma noite, havia dado uma hora na egreja de S. Julião, e no Hotel Escoveiro o grupo dos enamorados abordava a setima garrafa de moscatel, tendo cada um o retrato de Soledad em frente do seu prato, quando de repente, á porta da sala, uma figura inesperada apparece.
Era D. Enrique Saavedra.
O estudante d’Alcacer, que receiou uma tragedia de colera paterna em cinco actos e outras tantas bengaladas, lembrou-se de apagar o candeeiro.
Fez-se um silencio profundo, que o sueco, alheio ao que se passava, e grandemente enkirschado, interrompeu começando a declamar palavras de quinze syllabas, longas e sibilantes como um comboyo.
De repente, a voz de D. Enrique troveja:
—Hombres, por Dios, atencion!
O estudante foi tacteando a meza, ás escuras, para esconder os retratos, e aconteceu-lhe metter uma das mãos dentro de uma chicara de café.
O sueco calou-se, porque o proprietario das Alcaçovas lhe deitou as mãos ás guelas.
O jornalista lisboeta gritou que deixassem ouvir.
Então D. Enrique declarou o que queria: Procurar o cirurgião ajudante de caçadores 1, para acudir a D. Estanislada, que estava afflictissima com uma indigestão de peixe-espada e salada d’alface.
II
No dia seguinte, Julio de Lemos, o estudante de Alcacer do Sal, passeiava a sua paixão escholastica sob as arvores do largo das Almas, quando de repente lhe apparece, de physionomia completamente transtornada, o photographo ambulante. Que se encontrava n’uma situação afflictissima, disse-lhe o retratista. Um agiota de Lisboa, a quem devia cem mil réis, sabendo que estava fazendo interesses em Setubal, cahira sobre elle de chofre, tendo chegado no comboyo da manhã, para exigir-lhe o prompto reembolso de uma parte da divida. Que elle photographo se havia esquecido realmente de satisfazer as prestações estipuladas, que a mulher e os filhos gostavam muito de bifes, e que elle gostava não só de bifes mas tambem de moscatel de Azeitão. Que não tinha dinheiro algum de que podesse dispôr, e que o agiota queria retirar-se para Lisboa no comboyo da tarde, levando algum dinheiro. Sou um homem muito desgraçado! exclamava o photographo. E acrescentava: Portugal é um paiz perdido para os artistas! São todos como eu. (Referia-se certamente á pobreza, não ao moscatel e aos bifes).
O estudante ouviu-o tendo nos labios um sorriso de extranha superioridade, com as mãos nos bolsos das calças, enfunando-as á hussard. E perguntou ao retratista:
—O senhor viu alguma vez a Cora em D. Maria II?
—Vi, sim, respondeu promptamente o photographo. E acrescentou:—Uma só vez, sabe Deus com que sacrificio! para vêr o panorama do Mississipi, que me tinham gabado muito,—por amor da arte!
—Pois bem. Lembra-se como o Cesar de Lima fechava um acto?...
—O senhor já viu alguma vez a Providencia? Pois a Providencia sou eu! Parece-me que era isto.
—Exactamente. É essa a phrase, observou Julio de Lemos. Em Lisboa a Providencia é o Cesar de Lima; em Setubal, sou eu.
—O senhor!
—Eu mesmo, me adsum.
E tirou do bolso do frak todos os retratos que na vespera á noite havia podido encontrar sobre a mesa do Hotel Escoveiro, para que D. Enrique Saavedra os não visse. Mostrou-os ao photographo dizendo-lhe:
—Vê isto?
—Vejo. São os retratos da senhorita Soledad, como o photographo, no seu calão de circo, costumava chamar sempre á bella andaluza. Mas não comprehendo!
—Pois não comprehende! extranhou o estudante. Vai comprehender. Hontem á noite, estando nós a ceiar no Hotel Escoveiro e tendo os retratos de Soledad sobre a mesa, entrou inesperadamente D. Enrique Saavedra.
—Oh diabo! exclamou o photographo. E elle soube que sou eu quem os tiro?!
—Qual historia! Quando elle entrou, eu tive a idéa luminosa de apagar o candeeiro...
—Então não foi luminosa, exclamou o photographo já tranquillo, e contente de si, por ter feito um dito gracioso.
—É boa! exclamou o estudante, rindo estrepitosamente, e dando dois piparotes no estomago do photographo. Apanhou-a bem!...
—É que d’estas coisas de luz, um photographo entende sempre.
E riram de novo.
—Ora bem, continuou Julio de Lemos. Eu tive a escura idéa de apagar o candeeiro, e de procurar em cima da mesa os retratos de Soledad. Durante a viagem das minhas mãos por sobre a toalha, introduzi uma d’ellas dentro de uma chicara de café, e estive para partir uma garrafa. Mas, felizmente, pude apanhar todos os retratos. São estes.
O photographo começou a comprehender; sorria velhacamente.
—Hoje, continuou o estudante, todos os hospedes do Hotel Escoveiro irão a sua casa procurar retratos de Soledad, e o sr. venderá estes mesmos, exceptuando o meu, se quizer acceitar as condições que lhe vou propôr.
O photographo ouvia attentamente, com uma curiosidade cheia de pontos de interrogação.
—As condições são dar-me a commissão de vinte por cento em cada um d’esses retratos...
Nos labios do photographo passou rapidamente um movimento de despeito. Litteralmente traduzida, essa crispação quereria dizer: Ah! maroto, que me comeste!
Mas em voz alta:
—Vá feito.
—Espere lá,—continuou o estudante, que havia tres dias estava sem dinheiro—o meu amigo ainda não pensou na possibilidade de ir alguem a Lisboa mandar copiar qualquer d’estes retratos, de modo a poder-se reproduzir um cliché por um preço muito inferior a 1$500 réis o cartão?
—Sim... lá isso... mas a despeza do caminho de ferro?... e o incommodo?... e sobretudo... o ter que ausentar-se da senhorita Soledad, deixando o campo livre ao inimigo!
Esta ultima advertencia do photographo tinha visivelmente por fim ferir a corda sensivel do coração do estudante, que se deu pressa em responder:
—Ora o meu amigo excede na arte de não saber photographar o proprio Marcel das Scenas da vida da bohemia (o livro predilecto do estudante) que tirava retratos aos granadeiros de Pariz com a similhança garantida por um anno. A imagem das suas photographias só pode ser garantida por quinze dias, o maximo. Portanto, d’aqui a oito dias, estes retratos estarão completamente apagados, o meu amigo terá novas encommendas, e eu continuarei a receber a commissão de vinte por cento, com direito a um retrato gratuito.
O photographo transigiu, pactuou. O estudante entregou-lhe os retratos de Soledad, que n’esse mesmo dia foram vendidos aos seus admiradores—pela segunda vez.
No dia seguinte, o photographo ia, com o producto d’esta receita inesperada, fazer uma patuscada a Azeitão, levando comsigo a mulher, a sogra, e os pequenos. O agiota de Lisboa tinha sido uma fabula inventada pelo desejo com que o photographo accordára de dar um rega-bofes a toda a familia. E o estudante habilitava-se a comprar ao feitor de uma quinta de Brancannes um bello ramo de flores com que corrêra a presentear Soledad, por isso que, inopia pecuniae, se havia deixado preterir n’este genero de galanteria idyllica.
D. Estanislada estava inteiramente restabelecida. O cirurgião ajudante de caçadores 1 fôra felicissimo na prompta applicação de um copinho de genebra de Hollanda, que pôde quebrantar os impetos do peixe-espada no estomago da afflicta senhora. Es usted un doctor completo! dizia ao outro dia D. Enrique Saavedra ao cirurgião, passeiando com elle na praia, e impingindo-lhe a centessima edição da historia oral dos acontecimentos de Hespanha. E como o doutor cahisse ingenuamente em dizer que andava fazendo estudos sobre a historia da poesia revolucionaria na peninsula, D. Enrique Saavedra começou a repetir-lhe, com uma facundia verdadeiramente hespanhola, varias quadras callejeras, como elle dizia, taes como estas:
Entretanto, D. Estanislada, Soledad e o grupo dos admiradores da bella andaluza haviam-se encaminhado para o Passeio da praia de Troino. Era convidativo o local, e a grande serenidade do Sado punha no horisonte da paizagem uma vaga doçura inexplicavel.
O sueco sentia-se bem deante do aspecto grandioso das aguas do rio, e do mar que se avistava ao longe. Era, em toda a sua pujança, n’esse momento, um homem do norte, habituado a vêr os grandes rios e os grandes lagos, sem se arripiar de frio, graças ao habito do clima septentrional e... ao kirsch. Como Soledad parasse ao pé do lago para lhe atirar uma pedrinha, que desappareceu descrevendo á superficie da agua ondulações concentricas, o sueco disse-lhe, na sua linguagem arrevesada, que se ella visse o lago Moelar, em Stockholmo, semeado de pequenas ilhas, ficaria verdadeiramente encantada, e baixo, ao ouvido, acrescentou: Senhora poderr irr comiga, se querr casa mim.
Como fosse o sueco quem n’essa tarde parecia ter adiantado terreno, os outros iam despeitados, e alguns, n’um grupo, faziam troça e iam chasqueando das suas calças curtas, das suas grandes botas rugosas, do seu passo de pachiderme, e da sua gaucherie amorosa. O conselheiro Antunes, fallando com D. Estanislada, aconselhava-lhe que para a outra vez se abstivesse do peixe-espada, que na sua opinião era muito reimoso.
Chegados á beira do rio, Soledad sentou-se, poz os olhos na corrente plácida do Sado, e tirou da sua alma de andaluza um suspiro que mandou ao Guadalquivir. Explicou ao sueco que a cidade de Sevilha ficava á margem do Guadalquivir, um bello rio, o mais formoso de todo o mundo! exclamou ella n’uma arrojada hyperbole hespanhola. O sueco sentiu-se ferido na corda do patriotismo, e replicou: Nó! nó! E procurou justificar a negativa citando os principaes rios da Scandinavia, enumerando o Tornea, o Lulea, o Pitea e o Umea. E o estudante, troçando, acrescentou do lado com ruidoso applauso dos circumstantes, e com a rapidez de quem está declinando nomes latinos: E o Gelea, o Gouvea, o Obrea, e o Lamprea.
O sueco fez-se encarnado como uma cereja, sem perceber ao certo senão que estavam rindo d’elle, e Soledad vibrou uma gargalhada sonora como um tinido de crystaes, que se houvessem encontrado na sua garganta.
Era que o estudante de Alcacer estava verdadeiramente desesperado. N’esse mesmo dia em que havia ido comprar um bouquet a uma quinta, a cuja porta um grande cão arremettêra contra elle ladrando encolerisado, n’esse mesmo dia em que com varia fortuna tivera a vantagem de só elle offerecer flores e a contrariedade das iras do cão, via-se preterido pelo sueco.
O estudante procurou desesperadamente no seu espirito uma idéa salvadora, que pudesse restituir-lhe a importancia que visivelmente ia perdendo. Queria a todo o custo deslocar o sueco da bella posição em que se encontrava, e pretendeu despertar na alma de Soledad as tendencias devaneadoras que por vezes se caracterisavam n’uma intermittencia de romanticismo. Propoz um passeio ao oratorio de Mendoliva, um sitio poetico, na encosta da serra de S. Filippe, quasi á beira-mar. Com effeito, o espirito da bella andaluza exaltou-se promptamente. Ella não sabia o que era Mendoliva, nem qual fosse a belleza d’esse local. Mas o seu delicado instincto de mulher e de andaluza adivinhou que se tratava de uma tradição romantica, de uma lenda nacional, e abraçou o alvitre.
O estudante delirou de alegria, julgou-se victorioso.
D. Estanislada perguntou a que distancia ficaria o oratorio. Indicou-lhe a direcção o Vianninha, o rapaz de Setubal, aquelle por quem a Sequeira estava bebendo anti-hysterico todas as noites. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas affirmaram que o sitio era delicioso. Mas o conselheiro Antunes recordou a D. Estanislada o preceito da eschola de Salerno:
e aconselhou-lhe que ficasse, que elle lhe faria companhia, com muito gosto e muita honra—palavras suas—, minha senhora. D. Estanislada acceitou a advertencia—por causa do estomago e de outros orgãos.
Partiu em direcção ao oratorio de Mendoliva o alegre rancho da bella andaluza e dos seus cavalleiros servientes. O caminho, á beira-mar, é em verdade delicioso. O sol, n’uma grande explosão de luz, lançava sobre o mar uma chuva de oiro. Manchas encarnadas, de um colorido á Rubens, punham no horisonte uns tons de purpura, que davam ao sol uma magestade olympica, como as cortinas de um throno asiatico. Chegaram com effeito ao local da antiga ermida de S. Braz, onde em outro tempo um soldado portuguez se elevou em extasis de asceta, havendo trocado a espada pelo habito.
Soledad gostou muito, comprehendeu a vaga poesia que se respirava ali, e pediu ao estudante a lenda do sitio.
Pobre estudante! Viu-se entalado, sem saber como havia de tirar-se d’aquelle mau passo. Concluiu por dizer que o sitio não tinha lenda. Foi um golpe de espada de Alexandre. O alferes Ruivo e o tenente Epaminondas foram da mesma opinião: que o sitio não tinha historia. O proprietario das Alcaçovas acrescentou com uma rudeza brutal que não podia ser assim: que Mendoliva havia por força de dizer alguma coisa. O morgado de Reguengos acudiu em auxilio do patricio, pela honra do Alemtejo: que Mendoliva havia de ter uma significação qualquer. Então o jornalista Aurelio Goes, que se havia conservado calado, com um sorriso de ironia nos labios, poz-se em evidencia: disse que o chronista Ruy de Pina contava que Mendo Gomes de Seabra fôra um cavalleiro do tempo de D. João I, que, mais tarde, já depois do desastre de Tanger, se apartára do mundo ermando ali, e que, passados annos, fundára o mosteiro de Alferrara.
Julio de Lemos, desesperado, apopletico de colera, observou que o jornalista estava confundindo Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares Pereira, que fôra quem depois de ter militado nos exercitos de D. João I resolvêra vestir o habito monastico, e que provavelmente o povo setubalense confundiu os dois individuos na mesma lenda.
Aurelio Goes despeitou-se, e perguntou ao estudante se elle já havia feito exame de historia portugueza. O Lemos respondeu insolentemente: que sim, mas que talvez a tivesse desaprendido lendo os jornaes. O jornalista perguntou se se referia ao jornal de que elle era redactor. E o Lemos, querendo nivelar-se á altura de um Cid campeador perante a bella andaluza, respondeu que não podia referir-se a outro jornal, visto que o seu redactor confundia Mendo Gomes de Seabra com D. Nuno Alvares Pereira. Aurelio Goes ainda avançou para o estudante, mas o proprietario das Alcaçovas deitou-lhe a mão ao braço, como na vespera havia deitado as mãos ás guelas do sueco.
Soledad acompanhou com os seus bellos olhos penetrantes todos os episodios d’este conflicto. Comprehendeu perfeitamente tudo o que se havia passado, e quiz dissipar a nuvem negra que subitamente se formára. Lembrou que o sitio era encantador, que convidava á poesia, e pediu ao estudante que recitasse uns versos. Julio de Lemos desculpou-se, que estava indisposto, que se não lembrava de versos nenhuns. Ella insistiu, com imperiosa meiguice. Que não, que não podia, tornou o estudante. Soledad redobrou de instancias. O estudante, com as faces rubras como papoulas e os olhos congestionados, teve que ceder e começou a recitar, com uma precipitação colerica:
Completamente fóra de si, fez uma longa pausa, procurando visivelmente lembrar-se da segunda quadra. Depois ia continuar com igual precipitação:
e, olhando n’este momento para Aurelio Goes, viu que elle sorrira. Sem mesmo perceber que se havia enganado, e dito uma tolice, o estudante exclamou: «Oh! é de mais!» Subitamente, Soledad levantou-se e disse com uma gravidade que ninguem podia decerto esperar: Caballeros, hagan usteds favor de acompañarme.
Seguiram-n’a todos, n’um cortejo silencioso. Mas, poucos passos andados, Soledad desfechou uma gargalhada crystallina, e, voltando-se para D. Ramon Mendoza, declamou com ares mysteriosos, com uma graça verdadeiramente andaluza:
As gargalhadas eram estrondosas, resoantes; o estudante, tendo dado o braço ao alferes Ruivo, dizia-lhe a meia voz, cheio de colera: «O que elle não sabe é que tem de se bater comigo! Por força!»
Sahiram-lhes ao encontro D. Estanislada e o conselheiro Antunes, aos quaes se haviam juntado D. Enrique Saavedra, e o cirurgião ajudante de caçadores 1.
—É bonito? perguntou D. Estanislada á filha, em hespanhol, ainda a certa distancia.
—Formosissimo! respondeu Soledad.
—Sabes tu! disse D. Estanislada, temos aqui um insigne cosinheiro, e indicou o conselheiro Antunes. Iremos ámanhã comer uma grande caldeirada... aonde?... como se chama aquillo? e apontou para a outra margem do rio.
—Troia, respondeu o conselheiro com a gravidade de um Páris de cincoenta annos.
—Excellente! commentou o morgado de Reguengos. As laranjas, essas, ficam por minha conta.
—Havemos de bater-nos, por força, tornou o estudante a dizer a meia voz ao alferes de caçadores.
III
N’essa noite, foi no Club Setubalense que se improvisou a tertulia. Soledad e mais tres senhoras hespanholas constituiam todo o feminino da sala; mas por muitos que fossem os satellites, e por mais brilhante que palpitasse o lume de seus olhos castelhanos, Soledad, o bello astro da praia, a todos offuscaria com a graça picante dos seus sorrisos, dos seus olhares, e do seu desembaraço andaluz. Não havia, portanto, necessidade de mais senhoras ali. Em estando Soledad, ella só bastava a encher de torrentes de vida a sala e os corações. A irradiação da sua belleza era como a da lua, nas formosas noites de verão.
No elemento masculino notava-se, porém, uma certa agitação n’essa noite. Os admiradores de Soledad entravam e sahiam frequentemente da sala, cheios de uma certa preoccupação mysteriosa. O proprio conselheiro Antunes desapparecêra. Algumas pessoas envenenavam este facto, fazendo notar que Dona Estanislada não estava presente. Mas bem podia ser que o conselheiro Antunes, entrando nas suas funcções de cosinheiro, corresse a cidade em todas as direcções, procedendo aos preparativos indispensaveis para a caldeirada do dia seguinte. Elle comprehendia perfeitamente que todos os conselheiros portuguezes ficariam compromettidos na sua respeitabilidade de classe, se o pic-nic disparasse n’um enorme fiasco culinario. De mais a mais, a sua reputação individual de Vatel amador, affirmada por muitas vezes nas patuscadas aristocraticas de Santarem, encontraria nas areias de Troia um verdadeiro Waterloo, uma deploravel ruina.
Isto pelo que respeita ao conselheiro. Quanto aos outros, a causa da sua preoccupação era diversa. Sentia-se effectivamente que andava no ar um acontecimento extranho, extraordinario, alarmante. N’um gabinete interior conferenciava-se em tom discreto; entravam uns, sahiam outros, e o marcador do bilhar, que espreitava cheio de curiosidade por um pequeno buraco do tabique, chegou a suspeitar de que estivessem bebendo á socapa,—julgando-se até certo ponto desconsiderado por lhe não haverem distribuido o papel de Ganimedes do festim.
O marcador era um tolo, um guloso, para não dizer um borracho. Ali, no gabinete, não se tratava de beber vinho; se havia sêde, era de sangue. O estudante de Alcacer queria sugar as veias do jornalista de Lisboa, escorropichar-lhe as arterias, mastigar-lhe o coração. Uma carnificina! O alferes Ruivo dirigia os preliminares do duello, e dizia facetamente que, coisas d’esta natureza, em que elle entrasse, haviam de acabar por força em sarrabulho. Que não era para brincadeiras, que tinha uma farda, que devia honral-a, e que estava n’essa firme convicção. Que o duello havia de ser de morte, a poucos passos de distancia, á pistola, pelo menos; por não estar em costume bater-se ninguem a canhão, porque seria esse o meio mais racional de dois sujeitos se metralharem.
No botequim da praia contava-se, commentava-se o escandalo d’aquelle dia. Que o Lemos e o Goes não só se haviam insultado de palavras, na presença de Soledad e por causa d’ella, mas que tinham mesmo chegado a vias de facto, arrancando os cabellos, e não sei se os olhos, um ao outro. Alguns curiosos foram ao lugar do conflicto para verificar se havia no chão nodoas de sangue, e algum olho perdido. Não encontraram nada. Acrescentava-se que o administrador do concelho já tinha tomado conhecimento do facto, que o poder judicial receberia participação, e todo este escandalosinho era saboreado a pequenos goles, como um vinho generoso. Em Setubal, quando algum acontecimento extraordinario occorre, põem-n’o de escabeche para durar mais tempo. Sabem tratar muito bem do peixe e do escandalo de conserva. Depois, os commentarios saltavam. Uns velhos sacudiam o seu caruncho em phrases desdenhosas: «Que tolos! são uns asnos! Tudo isto por causa de uma hespanhola que os anda a comer!» E outros, mais philosophos: «Todas as mulheres são da mesma massa, tanto faz que sejam hespanholas como portuguezas.» E um bregeirote, do lado: «Se ella fosse de massa não se massavam elles tanto!...» «Aquillo é para lavar e durar!» commentava um capitão de navios, vermelho e grosso, já entrado na genebra de Hollanda, que bebia aos copinhos, de um só sorvo.
No gabinete do Club resolveram que era melhor o estudante apparecer na sala da dança, para dissipar suspeitas. Quando o marcador o apanhou na casa do bilhar, depois de haver sabido por um frequentador do botequim, que ali entrara a historia exagerada do conflicto na praia, chegou-se-lhe ao ouvido, e disse com os ares de superioridade de quem está de posse de um segredo: «Então o senhor tira a desforra, hein?» «Chut! respondeu Julio de Lemos. Eu cá sou assim, ha de ser duello de morte!» O marcador ficou entalado: «De morte?» perguntou. E como o estudante lhe voltasse as costas, saboreando a sua reputação de duellista, o marcador foi vêr ao livro dos fiados a quanto montava a divida do estudante. E sommou: Cinco partidas de bilhar, dois charutos, um copo de vinho do Porto: total, 360 réis. O Lemos fez a sua entrada na sala, apparentando uma serenidade heroica, a serenidade fria de um Cassagnac; julgava-se circumdado de um resplendor glorioso. Mas Soledad parecia não o haver comprehendido, mostrava-se uma digna representante de um paiz de antigos brigões de capa e espada, e de modernos toureiros audaciosos. Não fez caso do heroe. Estava apertando a cravelha amorosa ao sueco, conseguindo extrahir d’elle, do Stradivarius que todo o homem tem no coração, notas de uma melifluidade assombrosa nas raças do norte. Ella tinha-o embriagado com o Kirsch-Wasser dos seus olhos. Estava tonto de amor o sueco, bebado de salero, e, no grand’-chaine dos Lanceiros, as suas mãos enormes, duras e grossas, pareciam ter uma delicadesa de sensitiva, as contracções nervosas dos tentaculos de um caranguejo, ao colherem os dedos avelludados e finos de Soledad.
Depois da dança, rendeu-se culto á poesia. O estudante, que estava sempre na vanguarda dos recitadores, menos do que nunca se fez rogar n’essa noite. Recitou versos de Alvares de Azevedo, o mais genial, o mais nacional dos poetas brazileiros, talvez. E de pé, tendo na voz todas as commoções ao mesmo passo epicas e lyricas do homem que vae expôr-se heroicamente á morte, estando psychologicamente mais vivo do que nunca, declamou: