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As Netas do Padre Eterno / Romance original

Chapter 8: VII
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About This Book

Set during a period of violent political upheaval in a neighboring country, the narrative follows waves of refugees arriving in a Portuguese coastal town and traces daily life among émigrés and locals. Through the fortunes of a displaced family that preserved some wealth and of a vivacious young woman who seeks social gatherings and romantic attention, the work examines the disruption caused by insurrection, the mingling of cultures, and the fragile accommodations between hospitality and suspicion. Vivid passages depict ruined institutions, public disorder, and the small rituals and tensions of exile, while attention to local customs and seasonal rhythms frames personal desires against collective unrest.

VII

No dia seguinte, pela manhã, appareceu affixado nas esquinas de Setubal o seguinte pasquim:

A roda que andou em Troia,
Andou bem, quem o diria!
Nem mesmo a da Santa Casa
É tão boa loteria.
O premio grande de Hespanha
Ficou na Hespanha. Era justo.
E o sueco, derreado,
Inda assim, salvou-se... a custo!
O Alemtejo, que a sopapo
Tudo escaca e tudo arrasa,
Não apanhando a taluda,
Ficou bem, ficou em casa.
Setubal, n’esta partilha,
Tem motivos d’alegria,
Porque a sorte, previdente,
Deu-lhe sal na loteria.
Só Minerva e Guttemberg,
Marte e a junta geral,
Por não beberem azeite,
Ficam olhando ao signal.

Este pasquim attraiu a curiosidade, produziu risota, foi lido com vivo interesse.

Como era natural, todos procuraram interpretar as allusões n’elle contidas, e assim aconteceu que não só o facto principal, o sorteio, se tornou ao dominio publico, mas tambem tiveram grande notoriedade todos os episodios que accidentaram alegremente o pic-nic da vespera.

De pergunta em pergunta todos ficaram sabendo o que se tinha passado, e entendendo cabalmente o pasquim, com excepção de uma só quadra.

Não restou duvida a ninguem de que Minerva se referia ao estudante, Guttemberg ao jornalista, e Marte ao alferes e ao tenente de caçadores.

Uma só passagem permaneceu obscura por muito tempo, o sentido da quarta quadra ficava em suspenso, pois que não podia atinar-se com a allusão ao sal no ultimo verso.

Que aquillo era com o Vianninha, percebia-se, visto ser elle o unico setubalense que tinha assistido a caldeirada. Mas o sal, sublinhado, era um problema, um enygma, um hieroglipho.

Alguns curiosos roiam as unhas parados ás esquinas, matutando deante dos pasquins. Que diabo de sal era aquelle? O que queria dizer aquillo?

Alguem lembrou que o Castanha, mestre-escola, apezar de vesgo, via bem as charadas. Era um alho para as decifrar. Chamou-se o Castanha, que estava a dar aula, decifrando enygmas do Almanach de Lembranças, emquanto os pequenos se entretinham uns com os outros.

Era como elle dava aula sempre.

O Castanha veio quasi em triumpho até á primeira esquina,—essa esquina que devia, em breve, converter-se para elle n’um monumento de gloria... salvo o mictorio.

Explicaram-lhe o caso, o que se tinha passado, e a duvida em que estavam quanto ao vocabulo sal.

O Castanha enviezou o olhar strabico ao cartaz, deteve-se um momento a engulir em sêcco, até que de repente, com a sagacidade de um charadista que combina idéas, perguntou:

—Elle como se chama ella?

O Castanha tinha o costume de anteceder pelo pronome—elle—todas as phrases interrogativas.

—Ella, quem? perguntaram-lhe.

—A madama que sahiu ao Vianninha?

—Salomé.

E o Castanha, desfiando as syllabas, Sa-lo-mé, monologava:

—Não pode ser isso!

Mas, de subito, exclama:

—É isso, é!

—Então é ou não é? perguntaram.

—Não vêem, disse elle triumphalmente, não vêem que o nome—Salomé—principia por sal?!

—É verdade! exclamaram vozes.

—É isso! applaudiram bôccas.

E o Castanha, muito enchicharrado, muito vesgo na commoção nervosa do triumpho, apartava os grupos para passar, charadista glorioso.

Durante todo esse dia o sueco, o estudante, o jornalista e os dois officiaes de caçadores estiveram recebendo bilhetes de visita, a pesames, com palavras de sentimento, expressões de condolencia, pelo desgosto que acabavam de soffrer.

Foi uma scie medonha, que partia do café Esperança, dizia-se, e dos outros officiaes de caçadores, rapazes alegres, que gostavam de divertir-se e não tinham muitas occasiões para isso.

O sueco embatucou, deu sorte com a chalaça. Desappareceu de repente. Constou que tinha vindo para Cintra, a fim de evitar que a troça o perseguisse.

Não se conheciam ainda outras consequencias d’aquella brincadeira fatal. Parecia que D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas não aconteceu inteiramente assim.

Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso o conselheiro Antunes.

Fallando com o estudante, extranhou, com palavras severas, que se rifasse uma senhora casada. Textual. Accrescentou que, se D. Enrique o soubesse, poderia haver uma tragedia de sangue. Tambem textual. Pela sua parte, apenas sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado a occasião para um tão grave desacerto, inventando a caldeirada. Que o caso ja havia dado de si, porque o respeitavel snr. sueco, um cavalheiro digno de toda a estima, se havia auzentado, desgostoso.

Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não tinha passado de uma brincadeira inoffensiva, que em nada podia affectar a honra das cinco damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—rifa—era violento, porque a rifa presuppunha immediata adjudicação do objecto rifado, e não se dava esse caso.

Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua opinião, descobriu um pouco as baterias. Deixou perceber que a expressão do pasquim—junta geral—o tinha maguado pessoalmente. E como o estudante se lembrasse de dizer que a junta geral do pasquim não era a do districto de Santarem, mas a collectividade dos pretendentes amorosos das trez Rodartes e da hespanhola (velhacamente, o estudante ia pondo de parte D. Estanislada para lisongear o seu interlocutor) o conselheiro, muito formalisado, disse que não era pretendente á mão de nenhuma dama, que apenas se considerava um solteirão aposentado. Que se tivesse querido casar, o poderia ter feito ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras de Santarem, de Almeirim e de Alpiarça. Que não só receiava que D. Enrique o viesse a saber, e se desgostasse, mas tambem que o venerando Rodarte, um modelo de cortezia e prudencia, se chocasse com essa brincadeira de mau gosto, que envolvia o nome das suas tres netas.

No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi visto no Sapal, passeiando e lendo, peripateticamente, uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado. O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique disse-lhe que ia passar alguns dias a Lisboa. Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se ia só ou acompanhado. Mas não se atreveu a tanto. E logo conjecturou que era um pretexto de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde. Aqui está, pensou o conselheiro com os seus excellentissimos botões, o que aquelles diabos arranjaram com a brincadeira da rifa!

Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo, principalmente aos implicados na patuscada de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as consequencias d’aquelle grave desacerto; que D. Enrique ia á Lisboa ou, segundo elle suspeitava, para Lisboa, d’onde talvez não voltasse, desgostoso.

A noticia correu rapidamente. Alguns logistas, que tinham rido com o pasquim, começaram a queixar-se de que por uma imprudencia alheia estivessem arriscados a perder freguezes importantes.

O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e foi á estação vêr partir o comboyo para Lisboa. D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada ficava, portanto, só, em Setubal, durante alguns dias. Oh felicidade! exclamou mentalmente o conselheiro.

De tarde, na Praia, o conselheiro parou a conversar com alguns grupos.

—Então, D. Enrique sempre se retira para Lisboa?

—Creio que sim, respondia elle; supponho que parte ámanhã.

O velhaco! O que elle não queria era que se soubesse que o hespanhol já tinha partido, e que D. Estanislada ficára.

Houve logo quem aventasse a ideia de que uma commissão do setubalenses viesse a Lisboa, no caso de D. Enrique partir, pedir-lhe que não desse importancia a uma mera brincadeira, e que voltasse.

O Rodarte, esse, parecia ignorar tudo o que se passava. Ninguem o informou de que tivessem apparecido pasquins; não ousou fazel-o ninguem. E elle, muito myope, não podia tel-os lido.

Conversando com o morgado de Reguengos apenas dissera que os pic-nics eram a mais arriscada de todas as distracções de uma praia. Que se felicitava por ter tido a boa ideia de deitar agua na fervura, fechando a serie dos brindes, que já estavam denunciando uma certa excitação dos convivas, quando julgou opportuno intervir.

O proprietario das Alcaçovas tambem, n’essa tarde, acompanhava o grupo do Padre Eterno e das netas, porque, tanto elle como o morgado, estavam resolvidos a fazer valer os direitos que a sorte lhes proporcionára.

Poderiam, ambos elles, ter supplantado a murro e a pontapé todos os outros concorrentes. Mas fazel-o seria violento... especialmente para as victimas. Os dois, homens fortes, de musculo tuchado, possuiam o bom humor e a prudencia que os nevroticos desconhecem.

A hespanhola impozera-se-lhes pela belleza, no primeiro momento. Mas depois appareceram as Rodartes, bellas mulheres, habituadas á vida do Alemtejo, ricas, bem educadas, e ambos elles, sem o terem communicado um ao outro, acharam preferivel jogar com tino, na banca do Amor, a aventurarem-se á conquista de uma hespanhola, que tinha o grande defeito de ser caprichosa e de saber quanto valia.

A primeira confidencia que os dois tiveram entre si foi á volta de Troia, quando o de Reguengos explicou ao das Alcaçovas que propozera a loteria, porque a sorte nunca deixára de o beneficiar sempre que a tentava.

—Eu estava certo, disse elle, de que me calhava a hespanhola ou a Hilda, que eu preferia á hespanhola. Em loterias tenho uma sorte brutal.

—Pois eu, respondeu-lhe o das Alcaçovas, sou infelicissimo em todos os jogos d’azar. Agora explico a minha sorte por termos sido parceiros no jogo.

E riram ambos, riram muito, tomando a brincadeira... a serio.

O Vianninha tambem n’essa tarde andou no grupo das Rodartes, arrastando a aza a Salomé, que o não recebia bem nem mal.

O estudante de Alcacer appareceu, mas sumiu-se logo que viu o morgado de Reguengos a passeiar ao lado de Hilda Rodarte.

—Então aquella grande besta, exclamou elle, toma a coisa a serio!

O jornalista, com os officiaes de caçadores, e outros, sentados fóra da porta do Lapido, bebiam gazosa e faziam a critica do grupo que ia passando.

D. Ramon Mendoza appareceu no botequim, e os da mesa da gazosa perguntaram-lhe com desfructe:

—Então o que é feito do premio grande d’usted?

—Eu sei lá! Nunca mais tornei a ver Soledad!

E, batendo as palmas, mandou vir gazosa.


VIII

Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi, muito disfarçado, bater á porta de D. Enrique.

Respondeu-lhe, do patamar, D. Estanislada, que perfeitamente lhe conheceu a voz.

—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad, disse ella, mas que subisse, que lhe dava com isso muito prazer.

Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o ditoso conselheiro. Que D. Enrique e a filha haviam sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade amavel com que D. Estanislada o recebia em sua propria casa, não estando o marido, era quasi promessa de felicidade... immediata.

O conselheiro, bastante manhoso para dissimular a alegria que esta risonha situação lhe causava, disse, parado ainda ao fundo da escada, algumas palavras aconselhadas por apparencias de conveniencia e respeito.

—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar...

—Que entrasse, que subisse, porque, de mais a mais, havia de gostar da companhia.

Esta phrase—gostar da companhia—pareceu maliciosa ao conselheiro. E, a seu ver, a promessa de immediata felicidade accentuava-se n’essa phrase.

Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente o coração, que lhe dava saltos dentro do peito.

Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado, como contrariado, vendo que D. Estanislada não estava só.

Ó desillusão! ó desapontamento!

D. Estanislada apresentou-lhe as suas visitas: a senhoria e a filha.

A senhoria, a sr.ª Magdalena, era uma mulher de cincoenta annos, viuva, muito devota e temente a Deus. A filha, a menina Ricardina, tinha vinte e dois annos, e um palmo de cara que não era desengraçado.

D. Estanislada alludia á menina Ricardina quando disse ao conselheiro que—havia de gostar da companhia.

A mulher que se sente amada tem d’estes falsos assomos de modestia, para experimentar o valor da affeição que inspirou, qualquer que seja a sua idade. Diz que todas as outras são mais bellas, mais tentadoras do que ella, porque se sente lisonjeada de triumphar da concorrencia de todas as outras.

D. Estanislada seguiu esta tactica.

Elogiou muito ao conselheiro a belleza da menina Ricardina, que se envergonhava dos gabos, côrando.

A mãe, a sr.ª Magdalena, rindo de satisfeita, repetia esta phrase:

—É sãsinha, graças a Deus!

O conselheiro, muito contrariado, procurava no seu espirito uma phrase com que, sem correr o risco de ser indiscreto, podesse dar a entender a D. Estanislada que, ao pé d’ella, o rosto de qualquer outra mulher lhe passava despercebido.

Finalmente, pareceu-lhe que tinha achado a phrase precisa, e disse-a:

—O rosto d’esta menina é realmente muito interessante, e eu felicito por isso a senhora sua mãe; porem não permittamos á sr.ª D. Estanislada que se esteja escondendo na sombra, qual timida violeta.

D. Estanislada gostou de se vêr tratada por violeta. E, saboreando a amabilidade, como se estivesse chupando um rebuçado, contestou:

Yo, pobrecita de mi, yo estoy hecha una vieja!

—Pelo amor de Deus! exclamou o conselheiro levantando os braços quasi até á altura da cabeça.

—Que não, acudiu a sr.ª Magdalena, que estava ainda muito fresca, muito bem disposta, que até parecia irmã mais velha da filha.

E a menina Ricardina accrescentava que a sr.ª D. Estanislada não devia dizer a ninguem que era mãe da señorita Soledad.

Este tiroteio de lisonjas, de que D. Estanislada foi alvo, durou alguns minutos.

O conselheiro, quando entre todos pareceu ficar decidido que D. Estanislada era qual timida violeta, sem que ella já ouzasse protestar, fingiu-se novamente admirado da ausencia de D. Enrique e de Soledad.

Fueron á Lisboa, respondeu D. Estanislada.

—Mas demoram-se pouco? insistiu o conselheiro.

Vuelven el lunes, no sé si por la mañana ó por la tarde.

—Ainda bem, pensou o conselheiro, e ainda mal! Ainda bem, porque D. Enrique ou não tinha lido o pasquim ou lhe não dava importancia: continuaria portanto a demorar-se em Setubal. Ainda mal, porque a ausencia era breve de mais para que elle conselheiro podesse encher a medida dos seus desejos.

Fez menção de levantar-se para sahir.

—Que não, que ficasse, insistiu D. Estanislada, que iam tomar chá, e que lhes désse o prazer da sua amavel companhia.

—Que não desejava ser importuno... que ia dar uma volta.

Mas D. Estanislada, com toda a sua intimativa de hespanhola, ordenou-lhe que ficasse, e o conselheiro Antunes ficou de muito bom grado.

Foram para a casa de jantar e abancaram para tomar chá.

D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua direita, e a sr.ª Magdalena á sua esquerda. A menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu... por cautela. Ella bem sabia quanto o conselheiro Antunes, apesar da sua grave encadernação de presidente da junta geral de Santarem, era lambareiro de mulheres.

Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso de D. Estanislada e do conselheiro, sobre coisas frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos pés.

Certamente que este dialogo nos interessa muito mais do que o outro. Vamos pois escutal-o.

A bota do conselheiro, explorando terreno:—Onde estás tu, adoravel pé de D. Estanislada? Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir ao mirante do castello escutar a minha serenata de amor...

O sapato de cordovão de D. Estanislada:—Eu fujo-te, menestrel audaz, para tornar mais intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber que toda eu sou a timida violeta de que fallaste ha pouco.

A bota:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo da meza tudo é sombra e mysterio. Estás, pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas, ó esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando ás escuras, como um cego d’amor.

O sapato:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena e a menina Ricardina dêem tino do que se está passando no soalho. Para entalação bem bastou já aquella mascarra que o teu beijo de Troia me deixou na face... Não me persigas, que me tentas, seductor!

A bota:—Eu sou discreto como um conselheiro, que me prézo de ser. Muitas vezes, na junta geral de Santarem, tenho tido necessidade de pisar o pé a um collega para o prevenir de qualquer maniversia politica, e a junta nunca deu por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora Estanislada! fica sabendo que a electricidade procura as extremidades: os meus pés estão, portanto, carregados da electricidade do meu coração. Chega-te, e verás.

O sapato, aproximando-se:—Quem póde resistir á fascinação das tuas palavras, e á discrição dos teus processos?! Pois que tudo se vae passar na sombra, com a cautela de que tu sabes usar, como conselheiro e como amante, consentirei que o meu sapato caminhe para a tua bota, com o pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher, e com a timidez que é propria de toda a violeta.

A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o ternamente:—Vem, vem finalmente cahir nas doces talas do amor, adorado pé! Quero apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava Julieta. Nas dôres physicas do amor, ha uma voluptuosidade que endoidece de deleite. Vem, ó pé feiticeiro! ó pé encantador!

O sapato:—Eis-me aqui, como um escravo que não póde resistir, que não ouza luctar.

Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes, tendo empolgado o pé direito de D. Estanislada, demora-se um momento como para certificar-se de tudo que se está passando em segredo. E, após esse momento de pausa, a bota do pé direito acode a comprimir ternamente, de accordo com o pé esquerdo, o sapato de D. Estanislada, que fica entalado entre as duas botas.

Toda a electricidade acode pois ás extremidades de um e outro.

D. Estanislada, com a perna direita torcida, offerece mais chá á sr.ª Magdalena, e o conselheiro Antunes, com ambas as pernas repuxadas para a esquerda, mette a colhér dentro da chicara, faz menção de não querer mais chá.

Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação de duas botas portuguezas junto de um sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se nenhum dos pés tinha calos.

A conversação foi-se arrastando á custa da sr.ª Magdalena, que entrou no seu assumpto predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim.

D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam com monossyllabos, interjeições, porque a electricidade, que acudia ás extremidades, os tinha n’uma vibração nervosa, que os entaramelava.

A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados havia pisado o pé, n’uma occasião em que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca, e as suas suspeitas foram-se accentuando em convicção, porque lhe não passou despercebido que o corpo do conselheiro estava visivelmente esguelhado para a esquerda e o de D. Estanislada enviezado para a direita.

Com essa subtil astucia que é propria da gente moça, a menina Ricardina imaginou tirar a prova real das suas suspeitas. Arrancando do dedo um annel de ouro, começou a brincar com elle sobre a mesa: fazia-o rodopiar, dançar, graças ao impulso combinado dos dedos indicadores.

A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel saltou ao chão.

—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se rapidamente para apanhal-o.

Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, e algo ruidosa, dos tres pés cumplices.

D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se branco. E a menina Ricardina, apanhando o annel, disse com o seu melhor ar de riso:

—Não se incommodem; já aqui está. Muito obrigada.

Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou a agradavel união iberica dos tres pés.

O conselheiro, levantando-se, disse que iam sendo horas da sr.ª D. Estanislada se recolher. A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir uma promessa ao Senhor do Bomfim.

Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se no patamar da escada, exclamou:

—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei o azeite. Mandaram-me dizer em telegramma que era expedido hoje mesmo ás onze horas.

Muchas gracias, respondeu ella encostando-se á porta da saleta.

Quando batiam em S. Julião as onze horas da noite, um embuçado, cosendo-se muito com a sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente para casa de D. Enrique. Era o azeite: o conselheiro. Mas teve de fazer torcicollos porque reconheceu o sueco, que estava contemplando as janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco, mal que viu aproximar-se um vulto, deitou a fugir.

O presidente da junta geral do districto de Santarem, lembrando-se da rifa, e, portanto, de que D. Estanislada havia sahido em premio ao sueco, teve uma forte commoção de ciume.

—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha ido para Cintra e apparece mysteriosamente em Setubal ás onze horas da noite!

E, como um Othello furioso, empurrou a porta de Desdémona e entrou.

Por dentro dos vidros da sua janella, a menina Ricardina, muito matreira, tendo apanhado no ar a phrase do azeite, estava á côca, e vira tudo o que se passára.


IX

O conselheiro Antunes, subindo a escada, deixou-se guiar mansamente, na treva, pela mão da hespanhola. Parecia um borrego amoroso comboyado pela respectiva cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de D. Estanislada e a luz da lamparina lhe aclarou a situação, o borrego transformou-se em lobo cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello.

Ora o que ali se passou, em rapidos momentos, foi pouco mais ou menos a famosa fabula do lobo e do cordeiro.

Othello accusou violentamente Desdémona: era o lobo que fallava.

Não alludiu á rifa, mas affirmou saber de boa origem que o sueco disfarçava com a filha as suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre lisonjeada e surprehendida, tomou o logar do cordeiro do apólogo, salvo o sexo. Procurou tranquillisar o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco não a pretendia a ella, mas á filha, que era mais nova. O lobo pediu provas, visto que só com provas importantes poderia desfazer a impressão que lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua, ás onze horas da noite, sendo certo constar em toda a cidade que Soledad tinha ido para Lisboa com o pae.

D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de uma prova. Era uma carta que n’aquella mesma tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a Soledad Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita, estrangeirada: naturalmente seria do sueco.

—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia a carta e, se effectivamente fosse do sueco, talvez a questão podesse ficar esclarecida.

Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com denodo. Era effectivamente do sueco.

Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma cómmoda, lêram-na ambos.

Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira torre de Babel, onde as linguas se confundiam e baralhavam: o sueco, o portuguez e o hespanhol andavam ali em cabriolas de amor de um coração polyglótta.

Soletrando, entendendo aqui, não entendendo acolá, chegaram á conclusão de que o scandinavo alludia a um desgosto que tivera no pic-nic de Troia, que o obrigára a retirar-se para o Barreiro, tendo aliás feito constar que ia para Cintra, afim de desorientar a perseguição dos trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o seu ardente amor e, para definir uma situação embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella ás onze horas da noite.

Esta carta providencial, que não chegou ao seu destino, esclareceu a situação, amansou as furias do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou da fabula, o lobo ficou vencido, e o cordeiro, salvo sempre o sexo, ficou vencedor.

Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada decifravam a carta, o sueco, o qual por sua vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido e, ardendo em zelos, esperava que a janella de Soledad se abrisse.

Estava elle ali parado, olhando para todos os lados, palpitante de anciedade e receoso da troça, quando sentiu abrir-se mansamente a porta de um rez-de-chaussée.

Teve medo de alguma insidia, não porque fosse um fraco, mas porque era um estrangeiro esmagado pela chacota indigena. Ouviu um psiu, tres vezes repetido, um psiu que não podia ser senão para elle, porque na rua não havia mais ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.

Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo menos, que era uma mulher, mas quem lhe podia affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou o Aurelio Goes ou algum ladino official de caçadores disfarçado em mulher? Hesitava, e teria talvez fugido, se não se convencesse de que era effectivamente uma voz de mulher que, depois de o ter chamado, lhe estava dizendo cautelosamente:

—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.

O sueco aproximou-se, e ficou encantado de se lhe deparar na janella uma rapariga de cerca de vinte annos, algo morena, mas sympathica. Os olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. E, ao vêr diante de si uma realidade agradavel, o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, e que a elle lhe soube tão bem como um copo de Kirsch-Vasser.

—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que está ali minha mãe a dormir.

—Ó encantadorra menina! exclamou elle.

—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella, o sr. estrangeiro anda aqui por causa da mãe ou da filha?

—Que dizerr menina?

—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro no grupo da hespanhola, mas não sei ao certo se anda arrastando a aza á señorita Soledad ou a D. Estanislada...

—Linda menina desfrructarr-me a mim?

—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe agradavel. Posso dar-lhe informações tanto a respeito da señorita como da mãe. Se é por causa da filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a perder o seu tempo...

—Porque dizerr linda menina isso?

—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa com o pae, e só volta depois d’amanhã.

—Mas quem serr então uma pessoa homem que andava esprreitando inda bocadinho?

—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que lhe vou contar?

—Oh! nó!

—Era o conselheiro Antunes.

—E onde estarr elle?

—Lá dentro.

—Aqui?

—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique.

—Mas estarr só?

—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada... O sr. desculpe...

—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr.

—É uma pouca vergonha como nunca se viu! Minha mãe tem alugado aquella casa a muitas familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão levantada da cabeça como esta! Entre mãe e filha venha o diabo e escolha!

—Mãe menina serr senhorria casa?

—Sim, senhor.

—Então menina terr visto tudo?

—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa. Ainda esta noite...

—Que terr visto menina esta noite?

—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada por imaginarmos que, estando o marido e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro Antunes. Ó sr. estrangeiro, aquillo foi mesmo uma pouca vergonha!

—Como serr?

—Debaixo da mesa...

—Como debaixo de mesa?!

—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada e o conselheiro! Estiveram toda a santa noite n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que ás onze horas vinha o azeite...

—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação entrre ambos!

—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam o ninho atraz da orelha, fiquei aqui á espreita por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro e pasmar-se para a casa de D. Enrique. Vi chegar depois o conselheiro Antunes. O sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou.

—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr lá?

—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro...

—Pouca verrgonha!

—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a mesma loiça! A filha, quando não anda pela rua com todos os namorados, está á janella a catrapiscar a um e a outro, a todos os que vão chegando! O sr. estrangeiro tambem tem feito bem bonitos papelinhos!

—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados?

—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer, elle é o tal das gazetas de Lisboa, elle é o hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha que tem a pobre da Sequeira a morrer por causa d’elle; elle são os officiaes de caçadores; elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva que andou ahi um tempo. E elle é tambem o sr. estrangeiro... disse Ricardina sorrindo.

—Eu serr brrincadeirra.

—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque quando o sr. voltava costas, a señorita e a mãe desatavam a rir pelas casas dentro.

—Pouca verrgonha!

—Pois olhe que é a pura da verdade!

—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr virr amanha á mesm’horra fallarr com menina aqui?

—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo? É porque está apaixonado pela señorita e deseja saber noticias...

—Nó! É por gostarr de menina.

—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma pobre rapariga!...

—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra. Linda menina, fazerr favorr esperrar mim?

E o sueco, apertando na sua manápula a mão de Ricardina, sentiu-se deliciosamente agitado por esse contacto, que era um triumpho amoroso cahido do céo.

Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de casa de D. Estanislada, sentia-se bem, feliz, por ter podido até certo ponto descarregar a electricidade que de lá trouxera.

O sueco era um homem sadio, de boas côres, e devia ter dinheiro, porque estava ali como commissario de uma importante casa da Suecia, importadora de sal.

De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres, lisonjeava-se de ter arrancado um vassallo ao coração da señorita, que estava absorvendo todas as attenções de Setubal.

O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi passear audaciosamente para a praia, como se já não temesse os ridiculos da troça.

Dados alguns passos, encontrou o estudante de Alcacer, que, muito noctivago, recolhia do café Esperança.

—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você não tinha ido para Cintra?!

O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha estado em Cintra, por passeio, e não porque se houvesse importado com a historia do pic-nic; que se estava rindo da señorita, que era uma tola, e até de D. Estanislada, que era a amante do conselheiro Antunes.

E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos que Soledad e D. Enrique tinham ido para Lisboa e que o conselheiro estava áquella hora em casa de D. Enrique.

—Está lá com certeza? perguntou o Lemos.

O sueco affirmou positivamente que estava; que tinha entrado ás onze horas.

—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos pregar uma partida a essa marafona da D. Estanislada.

E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando comsigo a reboque.

Depois que passára a tempestade do ciume, D. Estanislada e o conselheiro reconciliaram-se n’um longo idillio de amor. Tinham adormecido nos braços um do outro, e D. Estanislada sonhava afflictivamente que D. Enrique, voltando de Lisboa, estava batendo á porta.

Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante, olhando para o conselheiro que dormia tranquillamente e assobiava por um dos cantos da bôcca.

Agitada entre a impressão do sonho e da realidade, isto é, entre a imagem de D. Enrique e a pessoa do conselheiro, estava limpando o suor da testa, quando ouviu resoar tres pancadas na porta e uma voz roufenha dizer:

—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!

Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro, accordou-o, e elle, despertando aturdido, ouviu tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer:

—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!

Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado de pregar aos dois esta partida.


X

Tarde de domingo, lucida e serena como um crystal da Bohemia. O Sado dorme n’um azul tranquillo, n’um leito de saphira, que a menor aragem não agita, o que poucas vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se n’uma grande quietação bucolica, e os arvoredos circumjacentes recortam-se n’um fundo de stereoscópo longamente pittoresco...

As Rodartes foram passeiar a Brancannes: Hilda e Maria Ignez, de braço dado; Salomé guiando, como sempre, o avô,—Antigone que vae conduzindo Œdipo.

Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se bem na solidão dos campos, mais convidativos ali do que na sua arida provincia do Alemtejo.

O velho Padre Eterno não queria outra felicidade que a de vêr-se rodeado pelo grupo encantador das suas tres Graças: onde ellas estivessem, estava o céo.

Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido ainda, e não faziam falta a ninguem, nem mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde pareciam ter esquecido.

Salomé e o avô conversavam sobre negocios da administração da casa, porque aquella neta era o secretario particular do velho Rodarte: toda a correspondencia com os feitores e caseiros corria pela sua mão.

Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas, assumptos de Setubal, que lhes serviam para ir matando o tempo.

—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia Maria Ignez.

—Como sabes tu isso? perguntou Hilda.

—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia.

—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda viu nenhum dos seus pagens! Ou foram tambem para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar de saudade...

E riram ambas, sem despeito, apenas com a alegre ironia, que é uma feição caracteristica dos espiritos moços e despreoccupados.

—O sueco é que desappareceu da circulação!

—E o Lemos tambem!

—Não. O Lemos estava outro dia sentado á porta do café quando nós passamos.

—Parece que não está bem comnosco!

—Porquê?

—Eu sei lá! Deixal-o estar.

—E o jornalista?

O avô e Salomé haviam-se calado momentos antes.

—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me hoje a sua Trombeta.

—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria Ignez.

—Não, a d’elle, a Trombeta Ullyssiponense.

—Por signal, accrescentou Salomé, que vem lá uns versos d’elle, que não são feios.

—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens boa memoria, dize lá como são.

—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se Noites ao norte.