A Princeza Dona Joanna
Já vive dentro d’Aveiro;
Comsigo trouxe os escravos,
Que lhe trouxe o rey fragueiro;
O que ás terras africanas
Passou, e voltou primeiro.
Vierão aquelles feios
Netos d’Agar, inda mal!
Traçando vastas roupagens
Á maneira oriental;
Larga faxa na cintura,
Na faxa largo punhal.
Era pasmo vel-os juntos
Polas ruas passear,
Passo á passo—graves, mudos,
Com doairos d’espantar,
Profundas rugas na fronte
Rugas de máo meditar.
Levar traz si tanta gente
Nunca a ninguem vi assi;
Nem folias, nem cantares
Vi com tal cauda apoz si,
Bôdo, nem festa d’orago,
Bufão, e nem bolati’.
Mas quem vio acaso as turbas
Correrem traz algum bem?
Vão todas apoz engodos,
Apoz maldades tambem;
Mas seguir a Deos por gosto
Nem as vi, nem vio ninguem.
Com estes mouros descridos
Vierão tambem aquellas
Moiras, filhas da Mourama,
Donas, creio, muito bellas;
No trato e no galanteio
Outras que tais Magdanellas.
Vinha tambem a menina,
Aquella moira fatal,
Que nas ruas de Lisboa
Vi no cortejo real:
Cortejo del-rey Affonso
Vi-o eu, só por meo mal!
Quantas coisas que trazia,
Nulla rem lhe estava mal;
Dizião que tudo nella
Tinha graça natural,
Era coisa preciosa,
Como coisa oriental.
Aquella abelha sem dardo,
Aquella pomba sem fel
Passava noites inteiras
Tangendo n’hum arrabel,
Coando vivas saudades
Dos labios, em leite e mel.
E, alta noite, nas trevas
Ouvindo na solidão
Aquelle triste instrumento,
Al não disseras, senão
Que o mesmo demo voltado
Era n’aquella feição.
Zagales porêm da serra
Mil vezes, no fim do dia,
Polos montes não buscava
A sua ovelha erradia;
Mas no bordão apoiado,
De si mesmo se esquecia.
Cant’eu vendido e prasmado
De todos e mais de mi,
Mil vezes fugi da cella,
Té das matinas fugi,
Mil vezes, durante a noite,
Aquelle instrumento ouvi.
Mil vezes!... e não sei como
Isto foy, que o não sentia,
Quando mal me precatava,
Dava commigo que ouvia
Dilatar-se polos valles
Aquella doce harmonia.
Assi todo embevecido
Bons sonhos que então sonhei,
Boas venturas que tive,
Bons scismares que scismei!
Esqueci-me de ser frade!
Como isto foy, já não sei.
E se ás vezes me lembrava
Do juramento que dei,
Do encargo que me tomára,
E das vestes que eu tomei,
Chorava; e não sei bem como
Em pranto não me afundei.
Derramei n’aquellas brenhas,
Cheio d’extranha afoiteza,
Palavras dadas ao vento
Com muito feia crimeza,
Contra mi e contra todos,
Contra toda a natureza.
Polas serras, polos matos,
Polas voltas dos caminhos
Rojei nas sarças mordentes
E nos cardos montesinhos,
Rasgando os brancos vestidos
N’aquellas matas d’espinhos.
E não sei, oh! não sei como
Todo eu não fiquei aly,
Como eu que por tantas vezes
Rosto nas rochas feri,
Não perdi o ser de todo,
Nem siquer ensandeci.
Então ao Senhor clamava:
«Cegueira, Senhor, me dás!
Cinge-me os rins larga zona
De ferro, e bem me não traz;
Trago cilicios mordentes,
Usando burel mordaz.
«Abro e vejo o livro sancto,
E vejo que não sei ler!
Aquelles sanctos dictames
Já n’os não sei compr’hender;
Enojo occupa minha alma,
Hei pavor de me perder!»
Donde pois me vinha a mi
No proprio bem ver o mal?
Conheci no meo exemplo,
Que m’era do ser fatal:
Senhor, teo sancto remedio
He triaga cordial.
Bem como o ferro na fragoa,
No soffrer a alma se apura,
Assi que disse eu commigo
Que a triaga tambem cura,
Quanto mais amarga e punge,
Poder de sua amargura.