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Chapter 101: LOA DA PRINCEZA SANCTA.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.

J’ai fait de ma chambre la cellule d’un cloître, j’ai béni et sanctifié ma vie et ma pensée; j’ai raccourci ma vue et j’ai éteint devant mas yeux les lumières de notre âge: j’ai fait mon coeur plus simple, et l’ai baigné dans le bénitier de la foi catholique; je me suis appris le parler enfantin du vieux temps: et j’ai écrit!...

STELLO.


LOA DA PRINCEZA SANCTA.

Bom tempo foy o d’outr’ora
Quando o reyno era christão,
Quando nas guerras de mouros
Era o rey nosso pendão,
Quando as donas consumião
Seos teres em devação.
Dava o rey huma batalha,
Deos lhe acudia do céo;
Quantas terras que ganhava,
Dava ao Senhor que lhas deo,
E só em fazer mosteyros
Gastava muito do seo.
Se havia muitos Iffantes,
Torneyo não se fazia;
He esse o estilo de Frandres,
Onde anda muita heregia:
Para os armar cavalleiros
A armada se apercebia.
Chamava el-rey seos vassallos
E em côrtes logo os reunia:
Vinha o povo attencioso,
Vinha muita cleregia,
Vinha a nobreza do reyno,
Gente de muita valia.
Quando o rey tinha-los juntos
Começava a discursar:
«Os Iffantes já são homens,
Vou-me ás terras d’alem-mar
Armal-os hy cavalleiros;
Deos Senhor m’ha de ajudar.»
Não concluia o pujante
Rey—de assi lhes propor,
Clamavão todos em grita
Com vozes de muito ardor:
«Seremos nessa folgança,
Honra de nosso Senhor!»
E logo todos em sembra,
Todos gente mui de bem,
Na armada se agazalhavão,
Sem se pezar de ninguem;
E os Padres de Sam Domingos
Hião com elles tambem.
Hião, si, os bentos Padres:
E que assi fosse, he rezão,
Que o sancto em guerras d’Igreja
Foy hum bom sancto christão:
Queimou a muitos hereges
No fogo da expiação!
Quando depois se tomava
Toda a frota pera cá,
Primeiro se perguntava,
«Que terras temos por lá?»
Quem em Deos tanto confia,
Sempre Deos por si terá.
El-rei tornava benino,
Como coisa natural:
«Temos Ceita, Arzilla ou Tangere,
«Conquistas de Portugal!»
E todos, a voz em grita,
Clamavão: real! real!
Bom tempo foy o d’outr’ora
Quando o reyno era christão;
Os moços davão-se á guerra,
As moças á devação:
Aquella terra de mouros
Vivia em muita afflicção.
Deo-nos Deos tantas victorias,
E tanto pera louvar,
Que os Padres de Sam Domingos
Ja não sabião rezar;
Todo-lo tempo era pouco
Pera louvores cantar!
Sendo tantas as batalhas,
Nem recontro se perdeo!
Aquelles Padres coitados
Não tinhão tempo de seo;
Levavão todo cantando
Louvores ao pay do céo.
Louvores ao pay do céo,
Que eu inda possa trovar,
Quando não vejo nos mares
Nossas quinas tremolar;
Mas somente o templo mudo,
Sem guarnimentos o altar!
Vejo os sinos apeados
Dos campanarios subtiz,
E a prata das sacristias,
Servida em misteres vis,
E ante os leões de Castella
Dobrada a Luza cerviz!
Cant’eu, em bem que sou Padre,
Diga que sou Portuguez:
Arço de ver nossas coizas
Hirem todas ao revez,
Arço de ver nossa gente
Andar comnosco ao envez.
Mercê de Deos! minha vida
He vida de muita dura!
Vivo esquecido dos vivos
Na terra da desventura;
Vivo escrevendo e penando
N’um canto de cella escura.
Do meo velho breviario
Só deixarei a leitura
Pera escrever estes carmes,
Remedio á nossa amargura;
O corpo tenho alquebrado,
Vive minha alma em tristura.

Que armada de tantas velas,
Que armada he essa qu’hy vem?
Vem subindo Tejo acima,
Que fermosura que tem!
Nas praias se apinha o povo,
E as cobre todas porêm.
Dão signays as fortalezas,
Respondem signays de lá:
Vem el-rey victorioso!
Quem de gaudio se terá?
O mar he todo bonança,
O céo mui sereno está!
Ôco bronze fumo e fogo
Já começa a despejar;
Acordão alegres echos
Os sinos a repicar;
Grita e folgança na terra,
Celeuma e grita no mar!
Vinde embora mui depressa
Senhores da capital!
Vinde ver Affonso quinto,
Rey, senhor de Portugal;
Vem das terras africanas
Dar-vos festança real.
Nossos reys forão outr’ora
Fragueiros de condição;
Dormião quasi vestidos,
Espada nua na mão;
Nem repoisavão de noite
Sem fazer sua oração.
Empresa não commettião
Sem primeiro commungar,
Sem fazer voto á algum sancto
De tenção particular;
Porêm victorias houverão,
Que são muito de espantar!
Os vindouros esquecidos
Da protecção divinal,
Conhecerão os poderes
Da benção celestial,
Se contarem os mosteyros
Das terras de Portugal!
Nossas capellas que temos,
Nossos mosteyros custosos,
São obras sanctas de Sanctos,
Obras de reys mui piedosos;
São brados de pedra viva,
Que prégão feitos briosos.
Alguns já agora escarnecem
Dos templos edificados;
Dizem que foram mal gastos
Os bens com elles gastados:
Eu creio (Deos me perdôe)
Que são incréos disfarçados!
E mais prasmão dos feitios
De pedra, que Memphis tem,
Sem ter olhos pera Mafra,
Pera Batalha ou Belem!
Oh! se a estes conheceras,
Meo Frey Gil de Santarem!
N’aquella villa deserta
Ainda se me afigura
Ver elevar-se nas sombras
Tua válida estatura,
E ouvir a voz que intimava
Ao rey a sentença dura!
E mais a tacha que tinha
Era ser fraco, e não mais!
Tu, meo Sancto, que fizeras,
Se ouviras a estes tais,
Que nos assacão motejos
Ás nossas obras reais!
Mas vós, quem quer qu’isto lerdes
Relevai-me esta tardança;
São achaques da velhice:
Vivemos de remembrança
E em longas fallas fazemos
De tudo commemorança.

Já el-rey Affonso quinto
Nas suas terras pojou:
Alegre o povo o recebe,
Alegre el-rey se mostrou;
Abrio-se em alas vistosas,
El-rey entre ellas passou.
Vem os muzicos troando
Nos atabales guerreiros,
Tangem outros istromentos
Desses climas forasteiros,
E traz elles vêm marchando,
Passo a passo, os prisioneiros.
São elles mouros gigantes
De bigodes retorcidos,
Caminhão a passos lentos,
Com sembrantes de atrevidos.
Causa medo vêl-os tantos,
Tam membrudos, tam crescidos!
São homens de fero aspeito,
Homens de má condição,
Que vivem na lei nojenta
Do seo nojento alkorão,
Que—vinho? nem querem vê-lo,
Só por que o bebe um christão!
Vêm as moiras depois delles,
Rostos cobertos com véos;
Bem que filhas d’Agarenos,
São tambem filhas de Deos;
Se forão christans ou freiras,
Serião anjos dos céos.
Luzião os olhos dellas
Como pedras muito finas;
Devião ser nas bruxas,
Inda qu’erão bem meninas,
Que estas moiras da mourama
Nascem já bruxas cadimas
Huma dellas que lá vinha
Olhou-me á travez do véo!...
Foy aquillo obra do demo,
Quasi, quasi me rendeo!
Pensei nella muitas vezes,
Valerão-me anjos do céo!
Via as largas pantalonas,
E o pesinho delicado...
Como póde pensar nisto
Hum pobre frade cançado,
Hum padre da Observancia,
Que sempre come pescado?!
Emfim, dizer quanto vimos
Não cabe neste papel;
Vinhão muitas alimarias,
Como achadas a granel;
Vinha o infante brioso,
Montado no seo corsel.
Vinhão pagens e varletes,
Vinhão muitos escudeiros,
Vinhão do sol abrazados
Nossos robustos guerreiros;
Vinha muita e boa gente,
Muitos e bons cavalleiros!

A Princesa Dona Joanna
Sahio dos Paços reais;
Era moça, e muito airosa,
E dona de partes tais,
Que todos lhe qu’rião muito,
Estranhos e naturais!
Foy requerida de muitos
E muito grandes senhores,
Por fama que della tinhão,
E por copia de pintores,
Que muitos vinhão de fóra
Ao cheiro de seos louvores.
E diz-se d’hum rey de França,
Ludovico, creio eu:
Hum pobre frade mesquinho
Só trata em coisas do céo;
Sabe elle que muito sabe,
Se a bem morrer aprendeo.
Pois diz-se do rey de França,
O onzeno do nome seo,
Que vendo hum retrato destes
Pera si logo entendeo,
Qu’era prodigio na terra
Quem tanto tinha do céo.
E logo sem mais tardança
Cahio, giolhos no chão,
No feltro traz arreliquias,
Assi uza hum rey cristão;
O seo feltro poz diante,
E fez hy sua oração!

Sahio a real Princeza,
Sahio dos Paços reais
Nos pulsos ricas pulseiras,
Na fronte finos ramais;
De longe seguem-lhe a trilha
Muitos bons homens segrais.
Traçava hum mantéo vistoso
Sobolas suas espaldas,
E as largas roupas na cinta
Prendia em muitas laçadas;
Seos olhos valião tanto
Como duas esmeraldas.
Tinha elevada estatura
E meneyo concertado,
Solto o cabello em madeixas,
Pelas costas debruçado:
Cadeixo de fios d’oiro,
Franjas de templo sagrado.
Vinha assi a regia Dona,
Vinha muito pera ver:
O povo em si não cabia,
Quando a via, de prazer;
Era ella sancta ás occultas
E anjo no parecer!
Debaixo das telas finas
E dos brocados luzidos,
Trazia á raiz das carnes
Duros cilicios cozidos
E humas crinas muito agras,
Tudo extremos mui subidos.
Passava noites inteiras
No oratorio a rezar,
Dormia despois na pedra
Sem ninguem o suspeitar:
Extremos tais em princeza
Quem n’os ha de acreditar?
No dia de lava-pés
Ordenava ao seo Vedor,
Trazer-lhe doze mulheres;
E depois, com muita dôr,
Chorando os pés lhes lavava,
Honra de nosso Senhor!
E depois de os ter lavado,
Não perdia a occasião,
Despedia a todas juntas
Com sua esmola na mão:
Dizia que era humildade,
E obra de devação.
E as mendigas prasmadas
Sahião de tal saber,
E perguntavão, quem era
Aquella sancta mulher?!
Máos peccados que ella tinha
Só pera assi proceder!
O mesmo Vedor foy quem
Isto despois revelou,
Quando aquella humanidade
Em o Senhor descançou;
Dona Joanna era já morta,
Elle porêm m’o contou.
Mas sendo tanto o resguardo
Que guardava em coisas tais,
Sabião algo os estranhos
Por muitos certos signais,
Que o ar he todo perfume,
Se a terra he toda rosais.
He coisa de maravilha
Que me faz scismar a mi,
Que as donas d’hoje pareção
Huns camafêos d’alfim,
Não donas de carne e osso;
As donas d’outr’ora—si.
Hoje leigos de nonnada
(He lhes o demo caudel)
Praguejão a meza escaça
E as arestas do burel;
Querem mimos e regalos,
E jejuns a leite e mel.

Lá caminha Dona Joanna,
Regente de Portugal;
Traz sobre si muitas joias
Do thesouro paternal;
Deos lhe pôz graça divina
Sobre a graça natural.
«Acostou-se a comitiva,
Muito senhora de si:
Perante el-rey se agiolha,
Disse-lhe el-rey: não assi!
E ao peito a cinge dizendo:
Não a meos pés, mas aqui!»
«Sois hum bom pay, Senhor rey,
Tomou-lhe a sancta Princeza:
Eu que sou vassalla vossa
E filha por natureza,
Peço mercê como aquella,
Como esta peço fineza.»
Ficarão logo suspensos
Todolos que erão aly,
Ficarão como enleiados,
Enleio tal nunca vi!
Eis que a Princeza medrosa
Começa a propor assi.
El-rey não lhe respondera;
Que lhe havia responder?
Boa filha Deos lhe dera.
Que lhe havia defender?
Sorrio-se, o bom rey quizera
Muito por ella fazer.
A Princeza disse entonces:
«De alguns capitães antigos
Tenho lido, Senhor rey,
Que, vencidos os imigos,
Tornavão, a Deos fazendo
Sacrificios mui subidos.
«Vião as coisas melhores
Que dos seos reynos havião,
E logo lh’as offertavão;
E mercês tambem fazião,
No dia do seo triunfo
A los que justas pedião.
«Deslembrar a usança antiga
Fôra de grande estranheza;
Agora sobre maneira,
Perfeita tamanha empreza,
De tanto lustre aos do reyno,
De tal honra a vossa Alteza.
«Digo pois a vossa Alteza,
E digo com muita fé,
Deve a offerta ser tamanha
Quammanha foy a mercê,
Não do nobre rey pujante,
Mas do sancto rey qual he.
«A offerta que vos fizerdes,
Será mercê paternal:
Se quereis que corresponda
Ao favor celestial,
Deve ser coisa mui alta,
Deve ser coisa real.
«Ao Deos que vence as batalhas
Dai-lhe a filha muito amada;
Dai-lhe a só filha que tendes
Em tantos mimos criada:
Será a offerta bem quista
E do Senhor acceitada.
«E eu a quem mais custou
De medos, esta jornada,
Que muitas noitas orando
Passei em pranto banhada,
Sou eu, Senhor, quem vos peço
Ser a hostia a Deos votada.»
Que sancta que era a Princeza,
Que extremos de devação!
Nos sembrantes dos presentes
Vio-se, e não era razão,
Que a nenhum delles prazia
Deferir tal petição.
Sobr’esteve um pouco e mudo,
El-rey, por que muito a amava:
Aquelle dizer da filha
Todo o prazer lhe aguava,
Aquelle pedir sem dó
Todo o ser lhe transtornava.
Encostou-se ao hombro della
O pobre velho cançado,
Chorou o triunfo breve
E o prazer mal rematado,
Não como rey valeroso,
Mas como pay anojado.
El-rey despois mais tranquillo
Rompeo o silencio alfi’;
E entre afflicto e satisfeito
Disse á filha: Seja assi!...
Velhos guerreiros vi eu
Chorarem tambem aly.
Cant’eu perdido entre o vulgo
Não sei que tempo gastei,
Nem sei de mim que fizerão,
Nem tam pouco se chorei;
Foi traça da providencia:
Nisto commigo assentei.
Foy Jephté corajoso,
O forte rey de Judá;
Volta coberto de loiros,
Quem primeiro encontrará?
Sente a filha, torce o rosto...
Nada ao triste valerá.
Qual d’estes dois sacrificios
Soube a Deos mais agradar?
Vai a Hebrea constrangida
Depor o collo no altar,
Vai a christã jubilosa!
São ambas pera pasmar.

Depois n’hum dia formoso,
Era no mez de Janeiro,
Houve huma scena vistosa
Dentro de hum pobre mosteyro;
Fundou-o Brites Leytoa,
Dona mui nobre d’Aveiro.
Huma princeza jurada,
Sobrinha d’altos Iffantes,
Filha de reys soberanos,
Senhora das mais pujantes,
Era a primeira figura,
Espantava os circunstantes.
Aly humilde e curvada,
Pezar de todos os seos,
Giolhos sobre o ladrilho
E as mãos erguidas aos céos,
Ouvi—exigua mortalha
Pedir polo amor de Deos.
Cantemos todos louvores,
Louvores ao Senhor Deos:
Os anjos digão seo nome,
Rostos cobertos com véos;
Leião-n’o os homens escripto
No liso campo dos céos.
Bom tempo foy o d’outrora
Quando o reyno era christão,
Quando nas guerras mouriscas
Era o rey nosso pendão,
Quando as donas consumião
Seos teres em devação.
«Isto escreveo Frei Antão
De vida mui alongada,
Nossa Senhora da Escada
O teve por Capellão.»

GULNARE E MUSTAPHÁ.

Deos Senhor foy quem nos céos
Pendurou milhões de estrellas,
Foy quem matisou a terra
De froles varias e bellas,
Quem ao mar por ser pujante
Areias deo por cancellas.
Mandou mais qu’arvoles fortes
Das sementes germinassem,
Que déssem froles mimosas,
Que perfumes trescalassem,
E mais fez que em tempo azado
As froles fructificassem.
Pois aquelle anjo das trevas,
Imigo da humanidade,
Nas arvoles poz carcoma,
Poz na frol muita ruindade,
Poz nos céos a nuvem negra,
Poz no mar a tempestade.
Nem só nas coisas terrenas
Damna, e faz mal o tredor,
A alma tambem por mil modos
Tenta com geito e sabor,
Que troca o prazer celeste
Em penas d’eterna dôr!
Mas não foy jamais que Deos
Em tal feito consentisse,
Senão porque suas posses
O homem bem claro visse;
Que sem elle fôra o mundo
Maldade só e sandice.
Mas que mal ha hy na terra
Que não venha pera bem?
Os d’aqui desta amargura
Dão coyta, e gloria porêm;
Dos outros que traz o demo
Deos o remedio lá tem.
Do mal que me foy commigo
Acontecido, al não sei,
Senão que por amor delle
Muito má vida levei,
Que me dá coyta mui grave
Do mal que me comportei.
Como já fiz penitencia,
Ora farei confissão;
Tal será, qual foy o escand’lo
De que fui occasião:
Não me tomem por modelo,
Mas tomem de mi licção.
Não he pera honra minha,
Mas pera honra dos céos,
Que eu direi publicamente
Os feios peccados meos;
Toda a vergonha foy minha,
Toda a honra cabe a Deos.
He uso assi na milicia
Celeste, e mais na d’aqui:
Dá batalha o cabo experto,
Desses muitos que ha per hy;
Toda a preza aos seos concede,
Só lôa quer pera si.

A Princeza Dona Joanna
Já vive dentro d’Aveiro;
Comsigo trouxe os escravos,
Que lhe trouxe o rey fragueiro;
O que ás terras africanas
Passou, e voltou primeiro.
Vierão aquelles feios
Netos d’Agar, inda mal!
Traçando vastas roupagens
Á maneira oriental;
Larga faxa na cintura,
Na faxa largo punhal.
Era pasmo vel-os juntos
Polas ruas passear,
Passo á passo—graves, mudos,
Com doairos d’espantar,
Profundas rugas na fronte
Rugas de máo meditar.
Levar traz si tanta gente
Nunca a ninguem vi assi;
Nem folias, nem cantares
Vi com tal cauda apoz si,
Bôdo, nem festa d’orago,
Bufão, e nem bolati’.
Mas quem vio acaso as turbas
Correrem traz algum bem?
Vão todas apoz engodos,
Apoz maldades tambem;
Mas seguir a Deos por gosto
Nem as vi, nem vio ninguem.
Com estes mouros descridos
Vierão tambem aquellas
Moiras, filhas da Mourama,
Donas, creio, muito bellas;
No trato e no galanteio
Outras que tais Magdanellas.
Vinha tambem a menina,
Aquella moira fatal,
Que nas ruas de Lisboa
Vi no cortejo real:
Cortejo del-rey Affonso
Vi-o eu, só por meo mal!
Quantas coisas que trazia,
Nulla rem lhe estava mal;
Dizião que tudo nella
Tinha graça natural,
Era coisa preciosa,
Como coisa oriental.
Aquella abelha sem dardo,
Aquella pomba sem fel
Passava noites inteiras
Tangendo n’hum arrabel,
Coando vivas saudades
Dos labios, em leite e mel.
E, alta noite, nas trevas
Ouvindo na solidão
Aquelle triste instrumento,
Al não disseras, senão
Que o mesmo demo voltado
Era n’aquella feição.
Zagales porêm da serra
Mil vezes, no fim do dia,
Polos montes não buscava
A sua ovelha erradia;
Mas no bordão apoiado,
De si mesmo se esquecia.
Cant’eu vendido e prasmado
De todos e mais de mi,
Mil vezes fugi da cella,
Té das matinas fugi,
Mil vezes, durante a noite,
Aquelle instrumento ouvi.
Mil vezes!... e não sei como
Isto foy, que o não sentia,
Quando mal me precatava,
Dava commigo que ouvia
Dilatar-se polos valles
Aquella doce harmonia.
Assi todo embevecido
Bons sonhos que então sonhei,
Boas venturas que tive,
Bons scismares que scismei!
Esqueci-me de ser frade!
Como isto foy, já não sei.
E se ás vezes me lembrava
Do juramento que dei,
Do encargo que me tomára,
E das vestes que eu tomei,
Chorava; e não sei bem como
Em pranto não me afundei.
Derramei n’aquellas brenhas,
Cheio d’extranha afoiteza,
Palavras dadas ao vento
Com muito feia crimeza,
Contra mi e contra todos,
Contra toda a natureza.
Polas serras, polos matos,
Polas voltas dos caminhos
Rojei nas sarças mordentes
E nos cardos montesinhos,
Rasgando os brancos vestidos
N’aquellas matas d’espinhos.
E não sei, oh! não sei como
Todo eu não fiquei aly,
Como eu que por tantas vezes
Rosto nas rochas feri,
Não perdi o ser de todo,
Nem siquer ensandeci.
Então ao Senhor clamava:
«Cegueira, Senhor, me dás!
Cinge-me os rins larga zona
De ferro, e bem me não traz;
Trago cilicios mordentes,
Usando burel mordaz.
«Abro e vejo o livro sancto,
E vejo que não sei ler!
Aquelles sanctos dictames
Já n’os não sei compr’hender;
Enojo occupa minha alma,
Hei pavor de me perder!»
Donde pois me vinha a mi
No proprio bem ver o mal?
Conheci no meo exemplo,
Que m’era do ser fatal:
Senhor, teo sancto remedio
He triaga cordial.
Bem como o ferro na fragoa,
No soffrer a alma se apura,
Assi que disse eu commigo
Que a triaga tambem cura,
Quanto mais amarga e punge,
Poder de sua amargura.