WeRead Powered by ReaderPub
Cantos cover

Cantos

Chapter 104: SOLÁO DE GONÇALO HERMIGUEZ.
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Viverão aquelles mouros
Depois desta occasião,
Muitos annos bem logrados,
Em amor e devação;
Louvor ao sancto baptismo!
Louvor ao nome christão!
Mas quando foy que nos veio
Aquella peste primeira,
Seta que o alvo attingia
De bem talhada e certeira,
Chegou ao christão novato
Hora vital derradeira.
E a moira por este evento,
Cheia de muita afflicção,
Recolheo-se irmã noviça
No convento d’Azeitão,
Onde viveo muitos annos
Em aturada oração.
Madres d’aquelle convento
Dizem que a virão rezar,
Em extasis jubilosas,
Suspensa, erguida no ar;
Favor do esposo divino,
Milagres do muito amar!
Ouvindo aquelles extremos,
Commigo logo assentei
Que eu fôra hum pastor perdido,
Que nas sombras divaguei,
Té qu’huma ovelha esgarrada,
Mercê de Deos, encontrei!
E a moira que eu tanto amára,
Desly se me figurou
Candida lã d’ovelhinha,
Que a sarça agreste cardou;
Ficou na sarça prendida,
Ao vento se meneou.
E alguem que ally divagava,
Felpas da lã recolheo,
Bateo-as na fonte pura,
E em branca tela as teceo;
Depois no altar consagrado
Ao Senhor Deos off’receo.
A mão de Deos poderoso
Bem claro se vê então,
Quando o torpe ismaelita
Faz-se devoto christão:
Só elle hum bom diamante
Póde fazer do carvão.
Mudar o vicio em virtude,
E a fraqueza em valor,
E o calor em frescura,
E a frescura em calor,
E tudo assi por davante,
Só elle, que é Deos Senhor.
Louvor a Deos nas alturas!
E aos homens de bom talante
Na terra paz e ventura;
Paz e ventura constante,
Senão na vida que passa,
Na vida que sempre dura.

SOLÁO
DO SENHOR REY DOM JOÃO.

Ora pois direi hum feito
Do senhor rey Dom João,
Segundo que foy do nome,
Primeiro na devação,
Primeiro mais que o primeiro,
Mais que nenhum rey christão.
Nem sempre rezar no côro,
Nem sempre velar convem;
He mister algum descanço,
Alguma folga tambem,
Entre o labor já passado
E o novo, que perto vem.
Ao duro mal que passamos
Algum remedio he mister:
E se a nenhum conhecemos,
Que mais nos ha de valer
Que recordar o passado
E contos delle fazer?
He assi que no mar alto
O cançado mareante
Luta em vão contra a tormenta
E contra o vento inconstante;
Negras vagas se encapellão,
Negra morte tem diante.
Quando n’aquelle deserto
Languidos olhos estende,
Vê mar que ferve revolto
E chuva que do céo pende:
Como deixou seu alvergue,
O triste não comprehende!
Sembrão-lhe então formidaveis
Os p’rigos que elle affrontou;
Figura risonhos quadros
Dos gozos que já gozou,
Do que na terra o convida,
Dos que na terra deixou.
Do que outrora foy passado
E mais do que vai passando,
Medonho e máo parallelo
Vai o mesquinho traçando;
Dôr de espinhos penetrantes
O peito lhe está varando.
Dias lembrar já passados
E já passada ventura,
Quando o viver he tormento,
Tormento que sempre dura,
He certo desdita grande
E muito grande amargura.
Mas vede o que val a vida!
He aquella aventurada,
Se dizemos verdadeiros:
Houve hum dia, huma hora, hum nada,
Não do pezar combatida,
Mas do prazer bafejada.
Simelha quem pola calma
O dia inteiro vagou,
Depois no marco da estrada
Cançado e triste quedou;
Ally thesouro sem dono,
Ventura sua, encontrou.

Era na sancta semana,
Semana de devação!
Com jejuns e penitencias
Apresta-se o bom christão
Pera os mysterios mais altos
Da mais alta religião.
Quantas coizas que nos fallão
N’aquelle passo sagrado
D’aquelle homem divino,
D’aquelle Deos humanado,
Que por amor de seos filhos,
Ingratos, foy maltratado!
Não foy por odio ou vingança,
Mas por dinheiro trahido!
Por hum homem refalsado,
Por hum discip’lo querido;
Trahido por meio infame!...
Hum falso beijo vendido!
Foy mister por mór tormento,
Que morresse polos seos!
Entregue por hum eleito
Nas garras dos Fariseos,
Homem morreo polos homens,
Morreo judeo por judeos.
C’roou a fronte sagrada
C’roa d’espinhos tecida,
Correrão dados infames
Em taboa vil, denegrida;
Em hastea foy rematada
Tunica em sangue tingida.
Tormentos, baldões e mófa
Quem mais do qu’elle soffreo?
Quem mais comprido marteyro,
Quem mais affronta e labéo?
Tal foy que o homem divino
O rosto ao calix torceo.
Tal foy que o Deos humanado
Disse ao Deos, que era seu pay:
«Senhor Deos, s’inda he possivel,
Do vosso intento tornai;
Este calix de amargura
Dos labios meos affastai!»
Carpindo males alheios,
Quantos não vemos per hy,
Que nem siquer se recordão
De quanto soffreo por si,
Hum Deos na cruz affixado,
Mil dores soffrendo ally!
Ante esta victima augusta
Da mais feroz crueldade,
Cala quanto o homem soffre,
Quanto soffre a humanidade:
Tormento não foy como elle,
Não foy como ella impiedade.
E comtudo alguns increos
E refalsados atheos,
Guardão n’as extasis todas
E mais os transportes seos,
Pera Socrates que morre,
Que não pola dôr de hum Deos!
E não vê a cega gente,
Imiga de toda luz,
Que longe que vai do Grego
Ao Nazareno Jezus,
E da masmorra ao calvario,
E da cicuta a huma cruz!
E aos effeitos da morte
Não attenderão tambem:
Se emparelhamos idéas
Ás coizas que corpo tem;
Entre elles vai mór distancia,
Que vai da Grecia á Belem.
Morre o Grego, e não dá fruitos;
Morre Jezus por nos dar
A ley do céo pera a terra;
Ley que só pôde lavrar
O sangue do bom cordeiro
Dos falsos Deoses no altar.
Vivem algozes d’aquelle,
E huns homens apenas são;
Em quanto os algozes deste,
Em que povo de eleição,
Sumirão-se, como argueiro
Nas azas d’hum furacão.

Era na sancta semana,
Semana de devação:
Comsigo mesmo propunha
O senhor rey Dom João:
«Confessarei minhas culpas,
Que alem de rey, sou christão.
«Ao Senhor, pay de nós todos,
Meos erros confessarei;
Que me dê força indomavel
Pera guardar minha ley,
Pera punir os culpados;
Que alem de christão, sou rey.»
Azinha chamando hum pagem
Lhe diz, e lhe ordena assi:
«Hide aos Padres Dominicos
(Melhor lhes quero que a mi)
Dir-lhes-heis que sou lá prestes,
Que vou commungar ally.»
Veio logo o mensageiro
Com a mensagem real;
Recado qu’el-rey lhe dera,
Dá elle ao Provincial.
«He certo mercê mui grande,
Responde,—tenho-a por tal.»
Ao padre Thomaz da Costa
Chama n’huma Ave-Maria;
Sabia o bom do Prelado
O muito qu’el-rey lhe qu’ria:
De tam lisongeiro acerto
Comsigo mesmo sorria.
Demais que o bom do Prelado
Dizia com bem justeza:
«Prazer aos Reis cá da terra
Não he nenhuma vileza;
Praz a Deos que lhes prazamos,
Pois vem delle a realeza.»
Apresta-se com trigança
Tudo quanto era mister:
Sabia o Padre Thomaz
Encargos do seo dever;
«Vergar colossos, dizia,
Quem tem posses de o poder?
«Sob as mãos do jardineiro
Torto arbusto lá se ageita;
Mas onde existe essa força
Que hum rudo tronco sugeita,
Se a força he balda no tronco,
Se o tronco a força regeita?
«Em bem do pastor sagrado,
Que por mercê divinal
Vive no ermo escondido,
Como hum singelo zagal;
Cúra pastor de pastores,
Não de pessoa real.
«He facil o seo encargo,
Pejo, nem dôr lhe não traz;
Não he assi nos palacios,
Onde só vejo disfraz:
Vêm logo as razões de estado,
Inventos de Satanaz.
«Vêm logo as leys cá da terra
Contrapor-se ás leys dos céos:
Sêde christãos, reys senhores,
Ou então de todo incréos!
Leys dos homens não se cazão,
Não seguem ás leys de Deos.
«Não ligueis n’hum só consorcio
Terra feia e céo luzente:
Leys da terra a terra buscão,
Como a raiz da semente;
Leys do céo os céos procurão,
Como flor que o sol presente.»

Era aly na pedra raza
O senhor rey Dom João;
Ante o velho sacerdote
Fazia a sua oração,
As mãos em cruz sobre o peito,
Giolhos postos no chão.
Armas que sempre cingia,
Todalas tinha despido;
Não tinha sedas, nem joias,
Mas peito d’aço batido:
Era qual homem vivente
Em ferrea prizão mettido.
Curva-se hum rey poderoso
Perante hum homem de pé;
Perante hum Padre coitado,
Que nada tem, nada he:
Licção profunda e subida,
Preceitos da nossa fé!
Portas á dentro do templo,
Onde Deos eterno habita,
Onde aquelle amor sem zelos
Somente os peitos agita,
Nas differenças do mundo
Fiel christão não cogita.
Foy assi na antiga Roma
Polas festas saturnais,
Folgavão, senhor e servo,
Como se forão iguais;
Mas o que lá foy licença,
Aqui são leys divinais:
Aqui são todos curvados,
Todos—o servo, o senhor;
Aquelles que a vida fruem,
E aquelles que só tem dôr;
Pobres, que almejão a morte,
Ricos, que á morte hão pavor.
Nem he por vil comezaina,
Que ally reunidos estão;
Mas sim, por que a Deos importa
Que não haja distincção
Entre irmãos, no patrio abrigo,
Rezando a mesma oração.
Sóbe assi aquella prece
Da multidão apinhada,
Qual lisongeiro perfume
Das flores d’huma grinalda;
Tem huma odor, outra espinhos,
Outras tem côr, outras nada.

Era aly na pedra raza
O senhor rey Dom João;
Já disse as culpas que tinha,
Já fez a sua oração:
O Padre vai ministrar-lhe
A hostia da communhão.
Tem no rosto grave e serio
Expressão nobre e subida;
Maneiras cheias de brio
Em postura comedida,
Parece que vão mostrando
Quanto val o pão da vida.
Parece que mostra, quanto
Por vil e baixo se tem,
Merecendo honra tamanha,
Que a não merece ninguem;
Dahy lhe vem ser humilde,
Nobreza dahy lhe vem.
Perfez-se o rito sagrado,
Vai ser dado o sacramento;
Principia el-rey—confiteor,—
Quando n’aquelle momento
Surge ao pé delle um guerreiro
De marcial hardimento.
Tinha feroz catadura,
Só aço e ferro vestia,
Polas grades da vizeira
Raios de luz despedia:
Medonho e fero apparato
Nas sombras da sacristia.
Era o rey brioso e forte,
Homem de muito valor,
Mas olhos lançou á espada
A furto!... seja o que for,
Não creio que homens d’aquelles
Possão jamais ter pavor.
Em voz carregada e forte
Assi começa o guerreiro:
«Em nome do Senhor Deos,
Meo Padre, aqui vos requeiro;
O senhor rey não commungue,
Pois que não he justiceiro.»
A hostia das mãos do Padre
Cahio do calix no fundo;
El rey carrega os sobr’olhos...
Certo não era jocundo
Affrontar de rosto a rosto
As sanhas de João segundo.
Era então fresca a memoria
De hum caso máo, miserando:
De noite se ergueo a forca;
Mas quando o sol foy raiando,
Não vio ninguem mais a forca,
Nem mais ao duque Fernando!
Comtudo o bravo guerreiro
Sanhas do rey não quiz ver;
Não ha que lhe ponha embargos,
Nem que lhe possa empecer:
«Senhor, sou Padre Tavares!»
Fita-o el-rey sem querer.
Depois lhe diz (que tal nome
Quebrára a furia real):
«Em bem, meo bravo guerreiro!
Mas esse trem, de que val?
Somos em terras d’Hespanha,
Ou somos em Portugal?»
—«Senhor, não uzo brocados
Vedes-me assi, e he razão,
Que havedes os meos haveres
Sem me deixardes, senão
Armas comidas no peito,
Armas gastadas na mão.
—«Fui ter ao vosso palacio,
Ninguem me não conheceo;
Quantos ally são comvosco,
Eu vos direi, senhor meo:
Nunca os eu vi nos combates,
Nunca na guerra os vi eu!
—«Voltei d’ally, protestando
Jamais não voltar ally;
Conheceis as minhas armas,
Se não conheceis a mi;
Vesti-me á modo de guerra,
Vim ter comvosco,—eis-me aqui!
—«As minhas alcaydarias
De Portal’gre e Assumar,
Senhor rey, vós m’as tirastes,
O que se chama tirar;
Ficavão perto da raya,
Máo azo de guerrear.
—«Das minhas alcaydarias
Eu tinha as rendas reais;
As guerras já são passadas,
Porque ora m’as não tornais?
Mal cabe em reys a cubiça,
Senhor, se m’as cubiçais.
—«Nem porque o velho guerreiro
Já nada vos presta e val,
Vos deveis portar com elle,
Qual dono pouco leal,
Que o seo corsel de batalla
Despreza no almargeal.
—«Assi que, Senhor, vos digo
Que vos não peço mercê;
Aquillo que me he devido,
Só peço que se me dê!—»
Prouve ao rey aquelles ditos
E mais o geito que vê.
Depois a mão estendendo
Ao seo leal lidador:
«Nós vos faremos justiça,
Assi como justo for;
Tendes a nossa palavra,
Seja-vos ella penhor!»
Alegre o Padre Thomaz
O seo mister rematou;
Hostia tomada do calix
Aos labios do rey chegou,
El-rey d’hum copo doirado
Hum gole d’agoa tomou.
Mimoso tempo d’outrora
Qual nunca mais o verei,
Nem tam inteiros sugeitos,
Hum ao outro dando a ley:
No Paço o rey ao vassallo,
Na Igreja o vassallo ao rey!

SOLÁO
DE GONÇALO HERMIGUEZ.

Não ha mais d’aquelle tempo,
Em que era tudo lhaneza!
Acções e vida e costumes
Desta gente portugueza,
Por tal geito se trocárão,
Que he hoje tudo impureza.
Não trato d’este ou d’aquelle,
Pois ha em tudo exeições;
Mas trato da grande lépra
Que vejo hy nos corações:
Desprêso do amor da gloria
E apêgo ás ruins tenções.
Outrora, sabeis vós como
Garboso Donzel se havia
Por captar nobres extremos
Da moça que requeria,
Sempre grave, honesto e brando,
Sempre uzando cortezia?
Não trescalava pivetes,
Fitas, nem laços comprava,
Nem toda a manhã divina
Seos enfeites concertava,
Nem nos chapins se revia,
Nem nos cabellos primava.
Não corria seca e meca
Traz de mimosa donzella,
Que nas ruas lobrigava;
E por ver mais perto a bella
Não hia ao templo sagrado,
Somente por amor della.
Nem as noites janeirinhas
Mais compridas e mais frias,
Levava mono amante,
Por baixo das gelozias,
Desenfiando hum rosairo
De trovas e ninharias.
Jamais não foy esse o estilo
Do moço em armas novel,
Em que experto dedilhasse
Na lyra do menestrel,
No tempo em que, não domada,
Lutava a gente infiel.
Por mais que amores amasse,
Por mais que fosse gentil,
Ninguem n’o vira a deshoras,
Como homem de tenção vil,
Como hum ladrão que de medo
Vai passo e manso e subtil.
Não pedia manto ás sombras,
Nem ao silencio mercê,
Nem do sol se arreceiava,
Como homem que pouco vê,
Nem da lua appellidada
A casta, não sei porquê.
Mas antes no amphitheatro,
Coberto de espectadores,
Onde mais povo corria,
Mais bellas e justadores,
Na arena se apresentava
Com letra e tenções d’amores.
No meio d’aquella chusma
D’arautos e passavantes,
Mantenedores do campo
Reys d’armas e circunstantes,
Feixes d’armas resplendentes,
Ondas de plumas brilhantes:
Entrava o novel guerreiro
No cerco dos justadores!
De alguma dona sizuda
Na charpa trazia as cores,
Tinhão amores ás claras,
Por que erão nobres amores.
Silencio! que sôa a trompa,
A justa vai começar!
Entre si ferem mil lutas
Guerreiros a par e par:
Da lança feita pedaços
Voão estilhas ao ar.
Levão logo mão da espada;
Que feios golpes se dão!
Abolão-se capacetes,
Talhão-se arnezes; e a mão
Certeira ao travez da malha,
Vai direita ao coração.
La sôa de novo a trompa,
Proclama-se o vencedor,
Que aos pés da bella entre as bellas
O seo trophéo vem depor:
Ao mais valente a mais bella,
Ao mais gentil mais amor.
Era a ley,—e até parece
De acordo co’a natureza,
Que se compraz no consorcio
Da força co’a gentileza;
Mais alma com mais coragem,
Mais brio com mais nobreza.
A abelha construe seos favos
Em troncos alevantados;
E eis a hera graciosa,
Que em abraços apertados
Não cinge mesquinho junco,
Mas carvalhos alentados.
Boa era a ley!—mas eu creio
Que lhe descubro hum senão;
Quem nos diz que o mais valente
Deva de ter mais razão,
Porque seja a sua dona
Como hum vaso d’eleição?
Seria coiza de ver-se,
E coiza de mui folgar,
Ver um dragão de mulher,
Chamada a bella sem par,
Á pura força de espada,
Sem mais pôr, nem mais tirar!
He bella: e al não digais,
Sob pena d’hum fendente,
Que vem do céo, como hum raio,
Provar ao villão que mente,
Co’os dentes que tem na bocca,
Como hum perro maldizente!
Fosse o caso como fosse,
He certo que d’ahy vem
Ás nossas donas de agora,
Aquelle sestro que têm
De amarem a militança
Melhor do que a nenhum bem.
Qual não gosta de ser bella,
Ao menos de o parecer?
Em quanto muitas ... Deos meo,
Eu me sei compadecer,
Soffro o mal que os outros passão,
Mais talvez que o meo soffrer.
Muitas ha hy, que eu conheço,
Que aqui na terra não são,
Senão porque as vós mandastes,
Meo Deos, por occasião
De tedio e nojo ao peccado,
E morte da tentação.
Té os moços, que as namorão,
Dirão no confessional,
Jurando por Deos eterno
E pola vida eternal,
Que se fallão delle e della,
He puro aleive e não al.
Vede pois qual não seria
O pasmo dessa donzella,
Proclamada ao meio dia
Fermosa como huma estrella,
Sem que houvesse ahy no mundo
Coiza melhor, nem mais bella!
Logo no fraco bestunto
Julgára, sem mais razão,
Que n’este mundo mesquinho
He tudo engano e buzão,
E té que a propria belleza
He coiza de convenção!
Era assi que n’outras eras
Garboso donzel se havia
Por captar nobres extremos
Da moça que requeria,
A ponta de fina espada
E arrojos de valentia.

No tempo de Alphonso Henriques,
Que foy nosso rey primeiro,
Havia na sua côrte,
Côrte de rey mui fragueiro,
Hum tal Gonçalo Hermiguez,
Destemido cavalleiro.
Era moço e mui donoso,
De mui boa nomeada:
Fiava el-rey muito delle,
E a raynha Mafalda
Folgava de ouvir-lhe os cantos
Aos sons da lyra afinada.
Portas a dentro do Paço
Não tinha nenhum rival
Em compor trovas mimosas;
E no campo e no arrayal
Não n’o havia mais valente,
Mais forte, nem mais leal.
Quanta sanha que elle tinha,
Votára a gente infiel,
Porque o pay lhe havião morto,
Era elle ainda novel;
Vel-os porêm não podia,
Nem pintados no papel.
Era o mesmo ver a hum destes
E entrar logo em sanha tal,
Que era força ter mão d’elle,
Ou saltava-lhe ao gorjal
Pera torcer-lhe o gasnate,
Como se fôra hum pardal.
Mas se tinhão tento n’elle,
Era outro conto ruim!
Cabia logo em desmaios,
Que era hum desmaio sem fim!
Dó era ver tal sugeito
Prostrado e defuncto assi.
Andava sempre occupado
Em perpetua correria
Polas terras do mourisco,
E muito mal lhes fazia;
Dava porêm mór realce
Ao nome que já trazia.

Como fosse e os companheiros
Em hum saráo folgazão,
Lembrou-se que perto vinha
A noite de Sam João,
Azado ensejo de aos Mouros
Fazer-se affronta e lezão.
Cheia de bello hardimento,
Aquella nobre nobreza
Por amor de seos amores
Commette tam grande empreza,
Qual a de hir terras de Mouros
Com feros, ronco e braveza.
Qual apresta o seo ginete,
Qual a fita dependura
No collo nunca domado;
Qual a pesada armadura
Inverga, e ahy se recolhe,
Como em arce mui segura!
Qual a Deos por testemunha
Toma da sua tenção,
Qual aos pés da sua dona
Requer-lhe extremo condão,
Extremo volver dos olhos,
Extremo apertar da mão!
Qual desly toma algum nome
Por grito de accommetter,
Que nas lidas e pelejas
Saberá fazer valer!
Qual sente o nojo futuro,
Em mal, que lá vai morrer!
Mas nunca será que o rosto
Mostre o que n’alma lhe mora:
Quem vio a morte passar-lhe
De perto, já não descora
Por hum presagio funesto,
Sendo ella coiza d’huma hora.

Aquelles bons cavalleiros
Azinha promptos estão;
Lá se partem de Coimbra,
Montes alem já lá vão!
Ninguem vio mais escolhido,
Nem mais luzido esquadrão.
Entre elles por mais robusto
Gonçalo Hermiguez campeia;
Diz seo porte sublimado,
Que de nada se arreceia,
Mas antes que a todos repta,
De tanto que o collo alteia!
Caminho vão de Lisboa
Com todo apercebimento!
Não convem que se aprecatem
D’aquelle accommettimento
Mouros que vivem na regra
Do seo alkorão nojento!
Sabeis a regra qual seja?
He viver dentro do harem,
Dizendo mal do toicinho
E mais do vinho tambem,
Sem que lhe pêze este mundo,
Sem que lhe pêze ninguem!
He vegetar entre flores,
He viver vida folgada,
Aspirando incenso e odores
Em molleza effeminada,
Nem que fosse huma odalisca,
Ou mulher alambicada.