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Cantos

Chapter 110: IV. MARABÁ.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Um velho Tymbira, coberto de gloria,
Guardou a memoria
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E á noite, nas tabas, se alguem duvidava
Do que elle contava,
Dizia prudente:—«Meninos, eu vi!
«Eu vi o brioso no largo terreiro
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest’hora diante de mi’.
«Eu disse comigo: Que infamia d’escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como elle, não vi!
E á fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!»
Assim o Tymbira, coberto de gloria,
Guardava a memoria
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E á noite nas tabas, se alguem duvidava
Do que elle contava,
Tornava prudente: «Meninos, eu vi!»

IV.
MARABÁ.

Eu vivo sosinha; ninguem me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum d’entre os homens de mim não se esconde,
—Tu es, me responde,
—Tu es Marabá!
—Meus olhos são garços, são côr das saphiras,
—Tem luz das estrellas, tem meigo brilhar;
—Imitão as nuvens de um céo anilado,
—As cores imitão das vagas do mar!
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
«Teus olhos são garços,»
Responde anojado; «mas es Marabá:
«Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
«Uns olhos fulgentes,
«Bem pretos, retinctos, não côr d’anajá!»
—É alvo meu rosto da alvura dos lyrios,
—Da côr das areias batidas do mar;
—As aves mais brancas, as conchas mais puras
—Não tem mais alvura, não tem mais brilhar.—
Se ainda me escuta meus agros delirios:
«Es alva de lyrios»
Sorrindo responde; «mas es marabá:
«Quero antes um rosto de jambo corado,
«Um rosto crestado
«Do sol do deserto, não flor de cajá.»
—Meu collo de leve se encurva engraçado,
—Como hastea pendente do cactos em flor;
—Mimosa, indolente, resvalo no prado,
—Como um soluçado suspiro de amor!—
«Eu amo a estatura flexivel, ligeira,
«Qual duma palmeira,»
Então me respondem; «tu es Marabá:
«Quero antes o collo da ema orgulhosa,
«Que pisa vaidosa,
«Que as floreas campinas governa, onde está.»
—Meus loiros cabellos em ondas se annelão,
—O oiro mais puro não tem seu fulgor;
—As brisas nos bosques de os ver se enamorão,
—De os ver tão formosos como um beija-flor!—
Mas elles respondem: «Teus longos cabellos,
«São loiros, são bellos,
«Mas são annelados; tu es Marabá:
«Quero antes cabellos, bem lisos, corridos,
«Cabellos compridos,
«Não côr d’oiro fino, nem côr d’anajá.»

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem n’as direi?
O ramo d’acacia na fronte de um homem
Jámais cingirei:
Jámais um guerreiro da minha arasoya
Me desprenderá:
Eu vivo sosinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

V.
CANÇÃO DO TAMOYO.

(Natalicia.)

I.

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos,
Só pode exaltar.

II.

Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que enteza
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuya,
Condor ou tapyr.

III.

O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os timidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutão-lhe a voz!

IV.

Domina, se vive;
Se morre, descança
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte ha de vir!

V.

E pois que es meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoyo nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robuste, fragueiro,
Brasão dos tamoyos
Na guerra e na paz.

VI.

Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil commoção;
E tremão d’ouvil-o
Peor que o sibilo
Das seta ligeiras,
Peor que o trovão.

VII.

E a mãe nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos creados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dôr!

VIII.

Porêm se a fortuna,
Trahindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do imigo fallaz!
Na ultima hora
Teus feitos memora,
Tranquillo nos gestos,
Impavido, audaz.

IX.

E cae como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extenção;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X.

As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

VI.
A MANGUEIRA.

Já viste cousa mais bella
Do que uma bella mangueira,
E a doce fruta amarella,
Sorrindo entre as folhas della,
E a leve copa altaneira?
Já viste cousa mais bella
Do que uma bella mangueira?
Nos seus alegres verdores
Se embalança o passarinho;
Todo é graça, todo amores,
Decantando seus ardores
Á beira do casto ninho:
Nos seos alegres verdores
Se embalança o passarinho!
O cançado viandante
Á sombra della acha abrigo;
Traz-lhe a aragem susurrante,
Que lhe passa no semblante,
Talvez o adeos d’um amigo;
E o cançado viandante
Á sombra della acha abrigo.
A sombra que ella derrama
Todas as dores acalma;
Seja dôr que o peito inflamma,
Ou voraz, nociva chamma
Que nos mora dentro d’alma,
A sombra que ella derrama
Todas as dores acalma.
O mancebo namorado
Para ella se encaminha;
Bate-lhe o peito açodado,
Quando chega o praso dado,
Quando ao tronco se avisinha,
E o mancebo namorado
Para o tronco se encaminha.
Sob a copa deleitosa
Mil suspiros se entrelação,
E d’uma hora aventurosa
Guarda a prova a casca annosa
Nas cifras que alli se abração:
Sob a copa venturosa
Mil suspiros se entrelação.
Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem,
Deixa-me ouvir teos cantores,
Admirar teos verdores;
Presta-me abrigo tambem,
Grata estação dos amores,
Abrigo dos que o não tem!

VII.
A MÃE D’AGUA.

«Minha mãe, olha aqui dentro,
Olha a bella creatura,
Que dentro d’agoa se vê!
São d’ouro os longos cabellos,
Gentil a doce figura,
Airosa, leve a estatura;
Olha, vê no fundo d’agua
Que bella moça não é!
«Minha mãe, no fundo d’agua
Vê essa mulher tão bella!
O sorrir dos labios della,
Inda mais doce que o teu,
É como a nuvem rosada,
Que no romper da alvorada,
Passa risonha no céo.
«Olha, mãe, olha depressa!
Inclina a leve cabeça
E nas mãosinhas resume
A fina trança mimosa,
E com pente de marfim!...
Olha agora que me avista
A bella moça formosa,
Como se fez toda rosa,
Toda candura e jasmim!
Dize, mãe, dize: tu julgas
Que ella se ri para mim!
«São seus labios entre-abertos
Semilhantes a romã;
Tem ares d’uma princesa,
E no emtanto é tão medrosa!...
Inda mais que minha irmã.
Olha, mãe, sabes quem é
A bella moça formosa,
Que dentro d’agua se vê?»
—Tem-te, meu filho; não olhes
Na funda, lisa corrente:
A imagem que te embelleza
É mais do que uma princesa,
É menos do que é a gente.
—Oh! quantas mães desgraçadas
Chorão seus filhos perdidos!
Meu filho, sabes porquê?
Foi porque derão ouvidos
Á leve sombra enganosa,
Que dentro d’agua se vê.
—O seu sorriso é mentira,
Não é mais que sombra vã;
Não vale aquillo que eu valho,
Nem o que val tua irmã:
É como a nuvem sem corpo,
De quando rompe a manhã.
—É a mãe d’agua traidora,
Que illude os faceis meninos,
Quando elles são pequeninos
E obedientes não são;
Olha, filho, não a escutes,
Filho do meu coração:
O seu sorriso é mentira,
É terrivel tentação.—

Junto ao rio chrystallino
Brincava o ledo menino,
Molhando o pé;
O fresco humor o convida,
Menos que a imagem querida,
Que n’agua vê.
Cauteloso de repente,
Ouve o concelho prudente,
Que a mãe lhe dá;
Não é anjo, não é fada;
Mas uma bruxa malvada,
E cousa má.
Ella é quem rouba os meninos
Para os tragar pequeninos,
Ou mais talvez!
E para vingar-se n’agua
Da causa tanta magoa,
Remeche os pés.
Turba a fonte n’um instante,
Já não vê o bello infante
A sombra vã,
E as brancas mãos delicadas
E as longas tranças douradas
Da sua irmã.
O menino arrependido
Diz comsigo entristecido:
—Que mal fiz eu!
Minha mãe, bem que indulgente,
Só por não me ver contente,
Me repr’hendeu.—
Era figura tão bella!
E que expressão tão singela,
Que riso o seu!
Oh! minha mãe certamente
Só por não me ver contente,
Me repr’hendeu!
Espreita, sim, mas duvída
Que a bella imagem querida
Torne a volver;
E na fonte crystallina
Para ver todo se inclina
Se a póde ver!
Acha-se ainda turbada,
E a bella moça agastada
Não quer voltar;
Sacode leve a cabeça,
Em quanto o pranto começa
A borbulhar.
E de triste e arrependido
Diz comsigo entristecido:
—Que mal fiz eu!...
—Leda ao ver-me parecia,
—Era boa, e me sorria....
—Que riso o seu!

As aguas no em tanto de novo se aplacão,
A lisa corrente se espelha outra vez;
E a imagem querida no fundo apparece
Com mil peixes varios brincando a seus pés.
Do collo uma charpa trazia pendente,
Cortando-lhe o seio de brancos jasmins,
Um iris nas cores, e as franjas bordadas
De prata luzente, de vivos rubins.
Uma harpa a seu lado frisava a corrente,
Gemendo queixosa da leve pressão,
Como harpas ethereas, que as brisas conversão,
Achando-as perdidas em mesta soidão.
Sentida, chorosa parece que estava,
E o bello menino, sentado, a chorar
«Perdôa, dizia-lhe, o mal que te hei feito;
Por minha vontade não hei de tornar!»
A harpa dourada de subito vibra,
A charpa se agita do seio ao travez;
Das franjas garbosas as pedras reflectem
Infindos luzeiros nos humidos pés.
Os peixes pasmados de subito parão
No fundo luzente de puro crystal;
Fantasticos seres assomão ás grutas
Do nitido ambar, do vivo coral!
Em tanto o menino se curva e se inclina
Por ver mais de perto a donosa visão;
A mãe, longe delle, dizia:—Meu filho,
Não oiças, não vejas, que é má tentação.—

«Vem meu amigo, dizia
A bella fada engraçada,
Pulsando a harpa dourada:
—Sou boa, não faço mal,
Vem ver meus bellos palacios,
Meus dominios dilatados,
Meus thesouros encantados
No meu reino de crystal.
«Vem, te chamo: vê a limpha
Como é bella e crystallina;
Vê esta areia tão fina,
Que mais que a neve seduz!
Vem, verás como aqui dentro
Brincão mil leves amores,
Como em listas multicores
Do sol se desfaz a luz.
«Se não achas borboletas
Nem as vagas mariposas,
Que brincão por entre as rosas
Do teu ameno jardim;
Tens mil peixinhos brilhantes,
Mais luzentes e mais bellos
Que o oiro dos meus cabellos,
Que a nitidez do setim.»

Em tanto o menino se curva e se inclina
Por ver de mais perto a donosa visão;
E a mãe longe delle, dizia: meu filho,
Não oiças, não vejas, que é má tentação.

«Vem, meu amigo, tornava
A bella fada engraçada,
Vem ver a minha morada,
O meu reino de crystal:
Não se sente a tempestade
Na minha espaçosa gruta,
Nem voz do trovão se escuta,
Nem roncos do vendaval.
«Aqui, ao findar do dia,
Tudo rapido se accende,
E o meu palacio resplende
De vivo, ethereo clarão.
Mil figuras apparecem,
Mil donzellas encantadas
Com angelicas toadas
De ameigar o coração.
«Quando passo, as brandas aguas
Por me ver passar se afastão,
E mil estrellas se engastão
Nas paredes do crystal.
Surgem luzes multicores,
Como desses perilampos,
Que tu vês andar nos campos,
Sem comtudo fazer mal.
«Quando passo, mil sereias,
Deixando as grutas limosas,
Formão ledas, pressurosas
O meu sequito real:
Vem! dar-te-hei meus palacios,
Meus dominios dilatados,
Meus thesouros encantados
E o meu reino de crystal.»

Em tanto o menino se curva e se inclina
Para a visão;
E a mãe lhe dizia: Não vejas, meu filho,
Que é tentação.
E o bello menino, dizendo comsigo:—
Que bem fiz eu!
Por ver o thesouro gentil, engraçado,
Que já é seu:
Atira-se ás aguas: n’um grito medonho
A mãe lastimavel—Meu filho!—bradou:
Respondem-lhe os echos; porêm voz humana
Aos gritos da triste não torna:—aqui estou!