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Cantos

Chapter 119: A PASTORA.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

POESIAS DIVERSAS.


NENIA
Á MORTE SENTIDISSIMA DO SERENISSIMO PRINCIPE IMPERIAL O SENHOR D. PEDRO.


Á SUA MAGESTADE O IMPERADOR.


I.

Morreste, como a folha verde e linda,
Que não vio murcho o esmeraldino encanto;
Bem como um ai que melindroso finda,
Em quanto as faces não roreja o pranto!
Bem como a flôr inda em botão cortada,
Em quanto aromas recendia pura;
Bem como a onda quando mal formada,
Nos brancos frisos do areal murmura!
Bem como a aurora timida que morre,
Em quanto os céos de rosicler matisa;
Bem como o sopro de ligeira brisa,
Que entre os olores da manhã discorre!
Mimosa espr’ança do Brasil, batendo
Ás ferreas portas da existencia, viste
O mundo afflicto e a humanidade triste
Seu negro fado e sua dôr soffrendo!
Cheio de compaixão atraz voltaste
Do horrifico espectaculo, tapando
Com as azas do anjo o rosto brando,
E no seio do Eterno te asylaste.
Morreste! como aurora sem poente,
Como flôr, que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda, que apenas se formava!
Morreste! como a folha verde e bella
N’um tronco forte a despontar louçã,
Não arrancada á sanha da procella,
Mas leve solta aos beijos da manhã.
Morreste! como lampada brilhante,
Inda virgem, sem dar mystica luz;
Ou turib’lo d’incenso crepitante,
Esquecido nos braços de uma cruz.
Morreste! e os anjos da eternal morada
Levárão entre palmas e capellas
Tua alma, como uma harpa não tocada,
Áquelle, cujo throno é sobre estrellas.
Morreste! como aurora sem poente,
Como flôr que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda que apenas se formava.
Nenhum bulcão toldou a aurora maga,
Em quanto no horisonte apavonou-se,
A brisa em vendaval não transtornou-se,
A folha em cinza, nem a onda em vaga.

II.

Não ouviste, ó bello anginho,
Na hora do passamento
Para abrandar teu tormento
Do berço teu ao redor,
Dos teus irmãos a phalange
Com opas de luz brilhante,
Nas harpas de diamante
Cantar hosanna ao Senhor?
Teu espirito innocente,
Tocado da luz divina,
Que a fraca mente illumina
Dos resplendores de Deos,
Não antevio outros gozos,
Não correu nos frouxos ares,
Não foi roçar nos palmares,
Nas rosas puras dos céos?
Viste-os, sim; porêm voltando
Outra vez á vida escassa,
Tua alma triste esvoaça
Sobre os teus restos mortaes;
E entre os rostos que divisas,
Que a tua vida pranteião,
Entre quantos te rodeião,
Tu não enchergas teus paes!
Corres então a trazer-lhes
Nas meigas azas brilhantes
Dos teus ultimos instantes
O teu alento final;
E em redor delles choraste
De não ter deixado a vida,
Por extrema despedida,
N’um amplexo paternal!
Vai, ó anjo, sobe, vôa,
Deixa a terra ingrata e rude;
Vai onde móra a virtude,
E premio a innocencia tem;
Mas nos divinos prazeres,
Mas no celeste cortejo,
Terás o materno beijo,
Não serás orphão tambem?

III.

Desprega tuas azas de cores suaves,
Adeja no espaço, procura o teu Deos:
O aroma das flores, o canto das aves,
O que ha de mais puro se entranha nos céos.
Oh! foge da terra: bem como a neblina
Que em rolos de neve, que espuma figura,
Mais frouxa, mais leve, na luz matutina,
Qual nuvem d’incenso, do céo se pendura.
Mas quando a balança dos nossos destinos,
Na grávida concha dos nossos peccados
Sumir-se no abysmo—dos raios divinos
Os golpes apára nos contos dourados.
Não caia do Eterno a justa inclemencia
No povo, que soube teu berço guardar;
Ampara-o nas azas da tua innocencia,
Que os prantos de um anjo nos podem salvar.
Desdobra tuas azas de cores suaves,
Adeja no espaço, procura o teu Deos:
O aroma das flores, e o canto das aves
E o que ha de mais puro se perde nos céos.

IV.

SENHOR, se na afflicção que te consome,
Na dôr immensa, que teu peito acanha,
Póde erguer-se do bardo a voz sentida
E aos teus soluços misturar seu pranto;
Se a dôr do pae não absorve inteiro
O peito augusto do Monarcha excelso,
Enxuga as tristes lagrimas que vertes!
Melhor, talvez, que o throno é ver chorando
Um povo inteiro em torno de um sepulchro,
Um vacuo berço de seu pranto enchendo!
Á sorte pois te curva, e á lei d’aquelle
(Involta em seus reconditos designios)
A quem aprouve nivelar, cortando
Co’o mesmo golpe as esperanças de ambos,
—A dôr de um pae e as afflicções de um povo!—
JANEIRO 10 de 1850.

OLHOS VERDES.

Elles verdes são:
E tem por usança,
Na côr esperança,
E nas obras não.
CAM., Rim.
São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos côr de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como duas esmeraldas,
Iguaes na forma e na côr,
Tem luz mais branda e mais forte,
Diz uma—vida, outra—morte;
Uma—loucura, outra—amor.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
São verdes da côr do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflammão,
Tão meigamente derramão
Fogo e luz do coração;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
São uns olhos verdes, verdes,
Que podem tambem brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da côr do prado,
Mas verdes da côr do mar.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como se lê n’um espelho
Pude lêr nos olhos seus!
Os olhos mostrão a alma,
Que as ondas postas em calma
Tambem reflectem os céos;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós, ó meos amigos,
Se vos perguntão por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos côr de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Vio uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da côr do mar:
Erão verdes sem espr’ança,
Davão amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mi!
Não pertenço mais a vida
Depois que os vi!

CUMPRIMENTO DE UM VOTO

Feito ás Sras. de Itapacorá, que abrilhantarão a festa do Illm. Sr. ANTONIO JOSÉ RODRIGUES TORRES.

PORTO DAS CAIXAS—25 de agosto 1850.

Se ao misero cantor vos praz mandar-lhe
Cantar voltas de amor, á graça tanta
Será mudo o cantor, nem ha de aos echos
A cythara incivil fallar de amores?
Mandaes, que sois, senhoras, minhas musas;
Quando a senhora manda, o escravo cumpre
E ás supplicas da musa o vate cede!
Afinada por vós a lyra humilde,
Já desafeita aos sons que o peito abrandão,
Á nova esphera se remonta agora.
O frescor juvenil dos vossos annos,
E as, que vos ornão, deleitosas graças,
Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumal-as,
Dictar-lhe os faceis, inspirados carmes.

A estrella, que fulge no céo anilado,
Com placido brilho de noite s’inflamma;
Na fonte e no prado
Reflexos luzentes esparge e derrama.
Nos ramos cobertos de ameno rocio
As aves descantão á luz da alvorada,
E a meiga toada
Repetem aos echos do bosque sombrio.
Na gleba virente, do sol bafejada,
Recende perfumes a flôr matutina,
Que á luz da alvorada
Ao sopro da brisa de leve s’inclina.
A flôr que trescala perfumes suaves,
A estrella que brilha no céo anilado,
E o canto das aves,
Que sôa no bosque virente e copado;
Se cantão, perfumão, despedem fulgores,
É tal o seu fado:—vós sois qual são ellas,
Sois como as estrellas,
Na graça e no canto, sois aves, sois flôres.
Como ellas, pagai-vos de ver quão fugaces
Encurtão-se as horas de nosso viver,
De ver como as faces,
Que tendes em torno, resumbrão prazer.

Estes versos na mente susurravão
Do vate, cuja lyra merencoria
Foi por vós de festões engrinaldada;
Por vós, cujo sorriso mavioso
Melhor perfume exhala, do que as notas
Concertadas com arte; dai um riso
Dos vossos, um volver dos brandos olhos,
Aos alegres convivas; e um reflexo
Do vosso meigo olhar e brando riso
Venha morrer na lyra do poeta,
Como do astro-rei, quando no occaso
Doura no campo as folhas mais humildes.

LYRA QUEBRADA.

Ah! ya agostada
Siento mi juventud, mi faz marchita,
Y la profunda pena que me agita
Ruga mi frente de dolor nublada.
HEREDIA.
Pede cantos aos ledos passarinhos,
Pede clarão ao sol, perfume ás flores,
Ás brisas suspirar, murmurio aos ventos,
Doces querelas ao correr das fontes;
E o sol, a ave, a flôr, a brisa, os ventos
E as fontes que murmurão docemente,
Na festa da tua alma hão de seguir-te,
Como um som pelos echos repetido.
Mas não peças á lyra abandonada
Um alegre cantar,—já murchas pendem
As grinaldas gentis, de que a toucárão
Donzeis louçãos, enamoradas virgens.
Hoje mal partem roucos sons dos nervos,
Que amargo pranto destendeu sem custo;
Quem ha que se não dóe de ouvir cantados
Uns versos de prazer entre soluços?
Não peças pois um hymno ao triste bardo!
Verde ramo d’uma arvore gigante
O raio no passar queimou-lhe o viço,
Deixando-o por escarneo entre verdores.
Uma febre, um ardor nunca apagado,
Um querer sem motivo, um tedio á vida
Sem motivo tambem,—caprichos loucos,
Anhelo d’outro mundo e d’outras coisas;
Desejar coisas vãs, viver de sonhos,
Correr após um bem logo esquecido,
Sentir amor e só topar frieza,
Scismar venturas e encontrar só dores;
Fizerão-me o que vês: não canto, soffro!
Lyra quebrada, coração sem forças
De poetico manto os vou cobrindo,
Por disfarçar desta arte o mal que passo.
Mas se inda tens prazer á luz da aurora,
Se te ameiga fitar longos instantes,
Sentada á beira mar, na paz de um ermo,
Uma flôr, uma estrella, os céos e as nuvens;
Pede cantos aos ledos passarinhos,
Á brisa, ao vento, á fonte que murmura;
Mas não peças canções ao triste bardo,
A quem té para um ai já falta o alento.

A PASTORA.

Forão as trevas fugindo,
E luzindo
Nasce o sol sobre o horisonte;
Quando a pastora formosa
E mimosa
Já caminho vai do monte!
A relva tenra e molhada,
Orvalhada,
Que de noite despontou,
Se levanta melindrosa,
Mais viçosa
Depois que o sol a afagou!
Nos ramos cantão, trinando
E saltando,
As aves seu casto amor;
Aqui, alli, scintillante
E brilhante
Desabrocha a linda flôr.
E a pastorinha engraçada,
Bem fadada,
Na fresca manhã de abril,
Vai cantando maviosa,
E saudosa
Pensando no seu redil.
Para as serras do Gerez
Toca a rez,
Toca a rez, gentil pastora;
Lá te aguarda o bom pastor,
Teu amor,
Que te chama encantadora.
Vai, pastora, vai depressa,
Já começa
O sol no valle a brilhar;
Vai, que as tuas companheiras,
Galhofeiras,
Lá ’stão com elle a folgar!
Pela aldeia entre os pastores
Vão rumores
De que tens uma rival,
Nessa Alteia, a tua antiga,
Doce amiga,
Que te quer hoje tão mal!
Tu não sabes que os amores
São traidores,
Que o homem não sabe amar;
E que diz: Esta é mais bella;
Mas aquella
É que me sabe agradar!
Tenho d’Alteia receios,
Que tem meios
De prender um coração;
É viva, bella, engraçada,
Festejada
Nos cantares do serão.
Como a neve em seus lavores,
Nos amores
Que caprichosa não é!
Zomba delle quando o topa,
E o provoca
De mil maneiras, á fé!
Té dizem—será mentira—
Que lhe atira
Seus motetes muita vez;
Dizem mais, que ha prendas dadas
E trocadas:...
Não sei; mas será talvez!
Triste de ti, se assim fôra,
Ó pastora,
Triste de ti sem amor!
Foras alvo dos festejos,
Dos motejos,
E do canto mofador!
Cheia de pudico medo,
Ao folguedo
Do domingo festival,
Não irias, ó formosa,
Vergonhosa
Dos olhos d’uma rival!
Para as serras do Gerez
Toca a rez,
Toca a rez, gentil pastora;
Lá te aguarda o bom pastor,
Teu amor,
Que te chama encantadora!
GEREZ....

A INFANCIA.

A Mlle J. PICOT.

I.

Bello raio do sol da existencia,
Meninice fagueira e gentil,
Doce riso de pura innocencia
Sempre adorne teu rosto infantil.
Sempre tenhas, anginho innocente,
Quem se apresse a teus passos guiar,
E uma voz que o teu somno acalente,
E um sorriso no teu acordar.
Enlevada nos sonhos jucundos,
Voz etherea te venha fallar,
E visão d’outros céos, d’outros mundos,
Venha amiga tua alma encantar.

Leda infancia gentil! e quem não te ama?
Quem tão de pedra o coração não sente
Aos teus encantos meigos mais tranquillo?
Quem não sente memorias d’outras eras
Travarem-lhe da mente, ao recordar-se
Aquelle gozo puro e suavissimo
De vida, que jámais não tem logrado?
Recordações de um mundo adormecido
Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando,
Como harpejos de musica longinqua!
E a mente nos seus quadros embebida,
Por magica illusão enfeitiçada,
Como outr’ora, talvez sómente veja
Na terra—um chão de flôres estrellado,
E nos céos—outro chão de flôres vivas!

II.

Afagada e bem vinda e querida,
Travessuras scismando infantis,
Nos caminhos floridos da vida
Vai mimosa, imprudente e feliz!
É-lhe a vida continuo festejo,
Sonhos d’oiro só sabe sonhar,
Toda ella um afan, um desejo
D’outros jogos contente brincar.
Puro riso o semblante lhe adorna,
Logo pranto começa a verter,
E depois outro riso lhe torna,
E depois outro pranto a correr.

Tão perto jaz a fonte da amargura
Da fonte do prazer!—porêm tão doces
Essas lagrimas são!—tão abundantes,
Tão sem causa e sympathicas gotejão
N’uma tez de carmim, n’um rosto bello!
Quem a vê, que sorrindo as não enchuga?
Mas não todo consumas o thesouro
Unico e triste, que ao infeliz sobeja
Nas horas do soffrer; no tempo amargo,
No qual o rosto pallido se enruga,
E os olhos seccos, aridos chammejão,
Será talvez bem grato refrigerio
Uma lagrima só, em que arrancada
A força da afflicção dos seios d’alma.
Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida,
Como um rio entre flores, se deslisa
Macio, puro e recendendo aromas.

III.

Bello raio do sol da existencia,
Flôr da vida, mimosa e gentil,
Fonte pura de meiga innocencia,
Leve gozo da quadra infantil!
Quem fruir-te outra vez não deseja,
Quando vê sobre a veiga formosa
A menina travessa e ruidosa,
Borboleta, que alegre doudeja?
A menina é uma flôr de poesia,
Um composto de rosa e jasmim,
Um sorriso que Deos alumia,
Um amor de gentil serafim!

Folga e ri no começo da existencia,
Borboleta gentil! a flôr dos valles,
Da noite á viração abrindo o calix,
O puro orvalho da manhã te guarda;
Inda perfumes dá, que te embriagão,
Inda o sol quando aquece os vivos raios,
Nas azas multicores scintillando,
Com terno amor de pae, em torno esparge
Pó subtil de rubins e de safiras.
Folga e ri no começo da existencia,
Humano serafim, que esse perfume
São das azas do anjo, que s’impregnão
Dos aromas do céo, quando atear-se,
Roaz fogo de vida começando,
Quanto havemos de Deos consome e apaga.

IV.

Porêm tu, afagada e querida,
Com requebros donosos, gentis,
Vai contente caminho da vida,
Bello anginho, mimoso e feliz!
E do bardo a canção magoada,
Quando a possas um dia escutar,
Ha de ser como rota grinalda,
Que perfumes deixou de exhalar!
E esta mão talvez seja sem vida,
E este peito talvez sem calor,
E memoria apagada e sumida,
Talvez seja a do triste cantor!

URGE O TEMPO.

Move incessante as azas incansaveis
O tempo fugitivo;
Atraz não volta!
A. DE GUSMÃO.
Urge o tempo, os annos vão correndo,
Mudança eterna os seres afadiga!
O tronco, o arbusto, a folha, a flôr, o espinho,
Quem vive, o que vegeta, vai tomando
Aspectos novos, nova forma, em quanto
Gyra no espaço e se equilibra a terra.
Tudo se muda, tudo se transforma;
O espirito, porêm, como centelha,
Que vai lavrando solapada e occulta,
Até que emfim se torna incendio e chammas,
Quando rompe os andrajos morredouros,
Mais claro brilha, e aos céos comsigo arrasta
Quanto sentio, quanto soffreu na terra.
Tudo se muda aqui! sómente o affecto,
Que se gera e se nutre em almas grandes,
Não acaba, nem muda; vai crescendo,
Co’ o tempo avulta, mais augmenta em forças,
E a propria morte o purifica e alinda.
Simelha estatua erguida entre ruinas,
Firme na base, intacta, inda mais bella
Depois que o tempo a rodeou de estragos.

SOBRE O TUMULO DE UM MENINO.

25 de Outubro de 1848.

O involucro de um anjo aqui descança,
Alma do céo nascida entre amargores,
Como flôr entre espinhos!—tu, que passas,
Não perguntes quem foi.—Nuvem risonha,
Que um instante correu no mar da vida;
Romper da aurora que não teve occaso,
Realidade no céo, na terra um sonho!
Fresca rosa nas ondas da existencia,
Levada á plaga eterna do infinito,
Como off’renda de amor ao Deos que o rege;
Não perguntes quem foi, não chores: passa.

MENINA E MOÇA.

Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux!
CHENIER.
É leda a flôr que desponta
Sobre o talo melindroso,
E o arrebento viçoso
Crescendo em floreo tapiz;
É doce o romper da aurora,
Doce a luz da madrugada,
Doce o luzir da alvorada,
Doce, mimoso e feliz!
É bella a virgem risonha
Com seus musicos accentos,
Com seus virgens pensamentos,
Com seus mimos infantis;
Como quanto enceta a vida,
Que á luz sorri da existencia,
Que tem na sua innocencia
Da mocidade o verniz.
Vinga a flôr a pouco e pouco,
Cada vez mais bem querida,
Tem mais encantos, mais vida,
Tem mais brilho, mais fulgor:
De cada gota de orvalho
Extrahe celeste perfume,
E do sol no raio assume
Cada vez mais viva côr.
Assim á virgem mimosa,
Pouco e pouco, noite e dia,
Mais viva flôr de poesia
Do rosto lhe tinge a côr;
E um anjo nos meigos sonhos,
Do seu peito na dormencia
Derrama o odor da innocencia,
Um doce raio de amor!
Porque tudo, quando nasce,
Seja a luz da madrugada,
Seja o romper da alvorada,
Seja a virgem, seja a flôr;
Tem mais amor, tem mais vida,
Como celeste feitura,
Que sahe melindrosa e pura
D’entre as mãos do creador.
28 de Julho.

COMO EU TE AMO.

Como se ama o silencio, a luz, o aroma,
O orvalho n’uma flôr, nos céos a estrella,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá na extrema do horisonte assoma;
Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite na mudez os sons da flauta,
As canções saudosissimas do nauta,
Quando em molle vai-vem a náo fluctua;
Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céo com luzes, um jardim com flores,
Um canto quasi em lagrimas sumido;
Como se ama o crepusculo da aurora,
A mansa viração que o bosque ondeia,
O susurro da fonte que serpeia,
Uma imagem risonha e seductora;
Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céos,
Silencio, e cores, e perfume, e vida,
Os paes e a patria e a virtude e a Deos.

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-t’o os labios meus,—mais do que vale
Cantar a voz do trovador cançada:
O que é bello, o que é justo, sancto e grande
Amo em ti.—Por tudo quanto soffro,
Por quanto já soffri, por quanto ainda
Me resta de soffrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta occulta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não suppões, nem te eu revelo,
Só pode no silencio achar consolo,
Na dôr augmento, interprete nas lagrimas.

De mim não saberás como te adoro;
Não te direi jámais,
Se te amo, e como, e a quanto extremo chega
Esta paixão voraz!
Se andas, sou o echo dos teus passos;
Da tua voz, se fallas;
O murmurio saudoso que responde
Ao suspiro que exhalas.
No odor dos teus perfumes te procuro,
Tuas pegadas sigo;
Velo teus dias, te acompanho sempre,
E não me vês comtigo!
Occulto e ignorado me desvelo
Por ti, que me não vês;
Aliso o teu caminho, esparjo flôres,
Onde pisão teus pés.
Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras,
—Não pensa em mim, dirás:
Imagina-o, si o podes, que os meus labios
Não t’o dirão jámais!