Morreste, como a folha verde e linda,
Que não vio murcho o esmeraldino encanto;
Bem como um ai que melindroso finda,
Em quanto as faces não roreja o pranto!
Bem como a flôr inda em botão cortada,
Em quanto aromas recendia pura;
Bem como a onda quando mal formada,
Nos brancos frisos do areal murmura!
Bem como a aurora timida que morre,
Em quanto os céos de rosicler matisa;
Bem como o sopro de ligeira brisa,
Que entre os olores da manhã discorre!
Mimosa espr’ança do Brasil, batendo
Ás ferreas portas da existencia, viste
O mundo afflicto e a humanidade triste
Seu negro fado e sua dôr soffrendo!
Cheio de compaixão atraz voltaste
Do horrifico espectaculo, tapando
Com as azas do anjo o rosto brando,
E no seio do Eterno te asylaste.
Morreste! como aurora sem poente,
Como flôr, que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda, que apenas se formava!
Morreste! como a folha verde e bella
N’um tronco forte a despontar louçã,
Não arrancada á sanha da procella,
Mas leve solta aos beijos da manhã.
Morreste! como lampada brilhante,
Inda virgem, sem dar mystica luz;
Ou turib’lo d’incenso crepitante,
Esquecido nos braços de uma cruz.
Morreste! e os anjos da eternal morada
Levárão entre palmas e capellas
Tua alma, como uma harpa não tocada,
Áquelle, cujo throno é sobre estrellas.
Morreste! como aurora sem poente,
Como flôr que perfume inda exhalava,
Como o sopro da brisa recendente,
Como a onda que apenas se formava.
Nenhum bulcão toldou a aurora maga,
Em quanto no horisonte apavonou-se,
A brisa em vendaval não transtornou-se,
A folha em cinza, nem a onda em vaga.