WeRead Powered by ReaderPub
Cantos cover

Cantos

Chapter 129: AS FLORES.
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Sim, eu te amo; porêm nunca
Saberás do meu amor;
A minha canção singela
Traiçoeira não revela
O premio sancto que anhela
O soffrer do trovador!
Sim, eu te amo; porêm nunca
Dos labios meus saberás,
Que é fundo como a desgraça,
Que o pranto não adelgaça,
Leve, qual sombra que passa,
Ou como um sonho fugaz!
Aos meus labios, aos meus olhos
Do silencio imponho a lei;
Mas lá onde a dôr se esquece,
Onde a luz nunca fallece,
Onde o prazer sempre cresce,
Lá saberás se te amei!
E então dirás: «Objecto
Fui de sancto e puro amor:
A sua canção singela,
Tudo agora me revela;
Já sei o premio que anhela
O soffrer do trovador.
«Amou-me como se ama a luz querida,
Como se ama o silencio, os sons, os céos,
Qual se amão cores e perfume e vida,
Os paes e a patria, e a virtude e a Deos!»

AS DUAS CORÔAS.

Hermosa, en tu linda frente
El laurel sienta mejor,
Que con su regio esplendor
Corona de rei potente.
G. y S.
Ha duas c’rôas na terra,
Uma d’ouro scintillante
Com esmalte de diamante,
Na fronte do que é senhor;
Outra modesta e singela,
C’rôa de meiga poesia,
Que a fronte ao vate alumia
Com a luz d’um resplendor.
Ante a primeira se curvão
Os potentados da terra:
No bojo, que a morte encerra,
Sobre a liquida extensão,
Levão náos os seus dictames
Da peleja entre os horrores;
Vis escravos, crús senhores,
Preito e menagem lhe dão.
E quando o vate suspira
Sobre esta terra maldicta,
Ninguem a voz lhe acredita,
Mas riem dos cantos seus:
Os anjos, não; porque sabem
Que essa voz é verdadeira,
Que é dos homens a primeira,
Em quanto a outra é de Deos!
Se eu fora rei, não te dera
Quinhão na regia amargura;
Nem te qu’ria, virgem pura,
Sentada sob o docel,
Onde a dôr tão viva anceia,
Tão cruel, tão funda late,
Como no peito que bate
Sob as dobras do burel.
Não te quizera no throno,
Onde a mascara do rosto,
Cobrindo o interno desgosto,
Ser alegre tem por lei;
Manda Deos, sim, que o rei chore;
Mas que chore occultamente,
Porque, se o soubera a gente,
Ninguem quizera ser rei!
Mas o vate, quando soffre,
Modula em meigos accentos,
Seus doridos pensamentos,
A sua interna afflicção;
E das lagrimas choradas
Extrahe um balsamo sancto,
Que vale estancar o pranto
Nos olhos do seu irmão.
Se eu fôra rei, não quizera
Roubar-te á senda florida,
Onde corre doce a vida
No matutino arrebol;
Gozas o sopro das brisas
E o leve aroma das flores,
E as nuvens, que mudão cores
No nascer, no pôr do sol.
Gozão disto as que repousão
Em taboas de vis grabatos;
Não quem vive entre os ornatos
D’um throno d’ouro e marfim!
No solio triste, sentada,
Não viras um rosto amigo,
Nem mais viveras comtigo,
Fôras escrava—por fim!
Vive tu teu viver simples,
Mimosa e gentil donzella,
D’entre todas a mais bella,
Flôr de candura e de amor!
C’rôa melhor eu t’offreço,
D’ouro não, mas de poesia,
C’rôa que a fronte alumia
Com a luz d’um resplendor!

HARPEJOS.

Sweetest music!...
SHAKSPEARE.
Da noite no remanso
Minha alma se extasia,
E praz-me a sós commigo
Pensar na solidão;
Deixar arrebatar-me
De vaga phantasia,
Deixar correr o pranto
Do fundo coração.
Tudo é silencio harmonico
E doce amenidade,
E uma expansão suave
Do mais fino sentir;
Existo! e no passado
Só tenho uma saudade,
Desejos no presente,
Receios no porvir!
Como licor que mana
De cava, humida rocha,
Que o sol nunca evapora,
Nem limpa amiga mão;
A dôr que dentro sinto
Minha alma desabrocha;
Que livre o pranto corre
Da noite na solidão!
Attendo! ao longe escuto
D’uma harpa os sons queixosos,
Attendo! e logo sinto
Minha alma se alegrar!
Attendo! são suspiros
De seres vaporosos,
Que mil imagens vagas
Me fazem recordar!
Tu que eras minha vida,
Que foste os meus amores,
Imagem grata e bella
D’um tempo mais feliz,
Que tens, que assim chorosa
Suspiras entre as flores?
Teu sou,—do juramento
Me lembro, que te fiz.
Te vejo, te procuro,
Teus mudos passos sigo,
Em quanto, leve sombra,
Fugindo vais de mi’!
Unido ás notas da harpa
Percebo um som amigo,
Que me recorda o timbre
Da voz que já te ouvi!
Na brisa que soluça,
Na fonte que murmura,
Nas folhas que se movem
Da noite á viração,
Ainda escuto os echos
D’uma fugaz ventura,
Que assim me deixou triste
Em mesta solidão.
Prosegue, harpa ditosa,
Nas doces harmonias,
Que da minha alma sabes
A magoa adormecer;
Prosegue! e a doce imagem
Dos meus primeiros dias
Veja eu ante os meus olhos
De novo apparecer!
Ai, forão como a virgem
Que em sitio solitario
Acaso um dia vimos
Sósinha a divagar!
Memoria bemfazeja,
Que o gelido sudario,
Que a morte em nós estende
Só vale desbotar.

TRISTE DO TROVADOR.

E ella era esbelta e bem proporcionada; sua alma era como a sensitiva, e suas palavras erão doces e tinhão um perfume, que se não pode comparar.

(Duas noites de luar.)

E ella era como a rosa matutina
Formosa e bella,
Como a estrella que á noite ao mar se inclina,
Saudosa era ella.
Seus olhos negros, vivos e rasgados,
Eram delicias vel-os;
E co’ a alvura do rosto contrastava
A côr dos seus cabellos.
Quando alguem lhe fallava, então fallava
Com voz macia,
Que triste dentro d’alma nos filtrava
Doce alegria.
E o seu timbre de voz movia as fibras
Do coração,
Como sons que a mudez da noite quebrão
Na solidão.
Seu mais leve sentir patenteava
No rosto ameno;
Nuvemzinha da tarde, que se encherga
Em céo sereno.
Topou-a acaso pensativa, errante,
O trovador:
«Feliz, disse elle, quem gozára os mimos
Do seu amor!»
E ella deu-lhe do seio uma saudade
Murcha, e no em tanto bella;
E elle um culto votou, scismando extremos,
Á pallida donzella.
Como fosse, porêm, breve a sua vida
Como uma flôr,
Em breves dias era mudo e triste
O trovador.

Se alguma vez cantava,—então dizia
Ao seu anjo do céo, que lá morava,
Que de ter junto delle só pedia
A vida sua, que tão erma estava.

VELHICE E MOCIDADE.

Eu levo á sepultura, uns após outros,
A donzella gentil, o velho enfermo
E o mancebo que folga descansado
Á sombra da ventura.
...
«Minha filha, mais depressa,
Mais depressa um pouco andemos,
E da aurora que desponta
Saudavel frescor gozemos!
«Senta-me em baixo do chorão, que dobra
A verde rama sobre a campa núa
De um ser de peito bom, de rosto bello,
Que foi minha mulher, que foi mãi tua!
«O sol, nascendo apenas, vem primeiro
Seus raios nessa campa dardejar,
E á cançada velhice é bem fagueiro
Esses restos da vida desfructar.»

Um cego e triste velho que tremia
Á força dos invernos que passarão,
Á filha nova e bella, assim dizia,
Á filha que os amores cubiçarão.
E tinha o velho pae nos hombros della
A mão crestada e morta e já rugosa,
E ella ao pae, sollicita, extremosa,
Guiava como um anjo e alva e bella.

«Nem sempre o que ora vês teu pae tem sido,
Oh filha da minha alma, oh meu thesouro,
Tambem um tempo foi que entretecido
Tive o fio vital de seda e d’oiro!
«Tambem meus olhos se expraiarão longe,
Pela vasta extensão destas campinas;
Tambem segui a tortuosa veia
Desta linda corrente que se perde
Além, por entre penhas;
E a esmeraldina côr, de que se arreia
A relva destes prados, destas brenhas,
Meus olhos juvenis encheu de gozo,
Que agora os olhos teus tambem recreia!
«E que prazer tão grande! o sol nascia
N’um mar de luz brilhante!
Levantava-se mais, brilhava, ardia,
No prado verdejante,
Na fonte e na devesa;
E o mundo e a natureza
De puro amor enchia!
Destoucavão-se os montes de neblina,
Que meiga e adelgaçada
Pendia, como um véo de gaza fina
Da celeste morada,
Quando n’um mar formoso o sol nascia!
«O mundo era então luz—hoje é só trevas!
O céo de puro azul via tingido,
Via a terra de cores adornada,
E na immensa extensão d’agua salgada
Via a esteira de luz do sol luzido!
«Breve as horas passei de ser ditoso
Aqui, neste lugar, ledo escutando
Tão amavel tua mãi, tão carinhosa,
Qu’instantes curtos me teceu fallando!
«Hoje existo somente porque existes,
Desfructo outro viver que não vivia,
Quando escutão-te a voz os meus ouvidos,
Como sons de celeste melodia.
«Oh falla, falla sempre.—É doce ao velho
Som d’argentina voz, que as fibras todas
Do semivivo coração abalão,
Como d’uma harpa antiga
As deslembradas cordas,
Que á mão experta e amiga
Do trovador, n’um canto alegre estalão.
«É doce ao solitario a voz de um anjo
Na sua solidão;
E ao velho pai a voz da casta filha,
Que falla ao coração.
«É doce, qual perfume matutino,
Que a flôr exhala,
Que pelo peito da mulher amante
S’interna e cala;
«É doce, como a luz que se derrama
Pela face do mar,
Quando brando luar, da noite amigo,
Vem nelle se espelhar.
«Falla, bem sei que amarga é tua vida,
Que amargo é teu penar;
No silencio da noite tenho ouvido
Teu peito a soluçar!
«Oh falla, tu bem vês que se a tormenta
Tetrica voa,
Ao ninho de seus paes o passarinho
Rapido voa.»

—Oh meu pai, como eu quizera
Meus pezares te esconder;
Mas tua filha, coitada,
Em breve tem de morrer!
—Sinto que alento me falta,
Que longe foge de mim;
Sinto minha alma rasgar-se
Por te deixar só assim;
Meu bom pai, como está breve
Da tua filha o triste fim!
—Alta noite, ouvi em sonhos,
A chamar-me um serafim;
Tinha alegria no rosto,
Mas chorava sobre mim;
Meu bom pai, como está breve
Da tua filha o triste fim!
—E tu cá ficas sosinho,
E tu cá ficas sem mim!
Oh que n’alma só me peza
Por te deixar só assim;
Meu bom pai, que é já chegado
Da tua filha o triste fim!—
E o velho, baixo fallando,
Tristemente assim dizia:
«Já fui feliz, já fui novo,
Já fui cheio de alegria!
«Eu tive paes extremosos,
Irmãos que m’idolatrarão,
Eu tive castos amores,
Que antes de mim se acabarão!
«Eu tive tantos no mundo
Quantos se póde chorar;
Perdi todos, tudo; ai, triste,
Só eu não pude acabar!
«Ao sopro da desventura
Só eu me não abalei,
Que a todos—novos e velhos—
Á campa todos levei!
«Minha filha me restava!
Eu já fantasma impotente,
Sobre os torrões tropeçava
Da cova aberta recente!
«Anjo de amor e bondade,
Porque me deixaste assim!
Tu morta, e na sepultura
Que eu tinha aberto pr’a mim!
«Deos, Senhor, quanto foi longo
O vaso em que fel traguei,
Findo o julguei; restão fezes,
As fezes esgotarei.»

E sobre a rosea face, ora amarella,
A aurora sempre bella radiava,
E o pai, ancião, que a dôr rasgava,
Cingia ao corpo seu o corpo della.
Nem pranto nos seus olhos borbulhava,
E nem nos labios seus a dôr gemia,
E sua alma, qual vaso em calmaria,
Entre vida e morrer n’um ponto estava.
O beijo paternal, por fim, lhe estampa
Na filha, que prazeres só lhe dera;
E filha e pensamento—alguem dissera
Ter juntos sepultado a mesma campa!
Nos céos não tens, Senhor, bastantes anjos,
Por que os venhas assim buscar á terra?
Brilhe a virtude, quando reina o crime,
O crime impune e vil, que ás tontas erra.

AS FLORES.

Ao Snr. JOSÉ PRAXEDES PEREIRA PACHECO, incançavel Botanico-florista, a quem devemos a introducção no paiz das mais bellas e curiosas especies de flores, que jámais aqui se virão.

Simples tributs du coeur, vos dons sont chaque jour
Offerts par l’amitié, hasardés par l’amour.
Les Jardins.DELILLE.
Tu que com tanto afan, com tanto custo,
Estudando, inquirindo, e meditando,
De estranhos climas transplantaste aos nossos
As flores varias no matiz, nas formas,
Modesto horticultor, dos teos desvelos
Este só galardão recebe ao menos!
Recebe-o: tambem eu gosto das flores,
Folgo tambem de as ver n’um campo estreito
De estranhas terras revelando os mimos
E as galas d’outros céos:—aqui perfumão
Nossos jardins de peregrina essencia!
Melhorão-se talvez, que as não contristão
Raios tibios do sol, nem turvos ares,
Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Em vós inspirações o bardo encontra,
Devaneios de amor a ingenua virgem,
A abelha o mel, a humanidade encantos,
Odores, nutrição, balsamo e cores.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Linda virgem no albor da vida incerta,
No meio das vivaces companheiras,
Em forma de capella as vai tecendo
Para cingir com ella a fronte e a coma,
Que os annos no passar não enrugarão,
Nem as cans da velhice embranquecerão.
Resplendor d’innocencia, onde casados
A açucena, e os jasmins aos brancos lirios
Um só perfume grato aos céos envia;
Meiga c’rôa d’angelica pureza,
Ornamento da vida—que se rompe
Ou quando os membros delicados vestem
O grosseiro burel da penitencia,
Ou do noivado as galas!—lá se acaba,
Por fim aos pés do thalamo ou n’um tumulo!
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Quantas vezes, nas horas da ventura,
A fallaz sensação d’um peito ingrato
Não julgamos eterna, immensa, infinda!....
Alli nossos anhelos se concentrão,
Nossa vida alli jaz:—cifra-se inteira
N’um brando volver d’olhos, n’um accento,
Que a ternura repassa, inspira, exhala!
Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto,
Valem thronos, e mais,—o mundo e a vida!
Mas esvae-se a paixão!... que fica? Apenas
Um saudoso lembrar d’éras passadas,
De scismadas venturas, não fruidas,
Ás vezes uma flor!...—Flor dos amores,
Quando extincta a paixão, porque inda existes?
Espinhos de uma rosa emmurchecida,
Porque sobreviveis ás folhas d’ella?
Mais firme, mais leal, mais vivedoura
Que a voluvel paixão, a flôr mimosa
Talvez irrita a dôr, talvez a acalma.
Emblemas do prazer, do soffrimento,
Mensageiras do amor ou da saudade,
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Geme a fresca odalisca entre ferrolhos,
Importuna presença a voz lhe tolhe
Do não piedoso eunucho;—e estatua negra
Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos:
Chora a guzla mourisca ao som dos ferros,
Lastima-se a cadeia ao som dos passos,
E a humana flôr definha entre as mais flores;
Mil ouvidos a voz lhe escutão sempre,
E cingidos de ferro, crús soldados
D’entorno ao mésto harem velão sanhudos!
Ruge, fero soldão! treplíca os bronzes
Da masmorra cruel:—a planta humilde,
E a escrava que recatas tão cioso,
Zombão dos feros teus! Muda e singela,
Ao través das prisões, dos teus soldados,
Passa a modesta flôr! Vai n’outro peito,
Mysterios não sabidos relatando,
Contar do infausto amor as provas duras,
Os martyrios da ausencia, as tristes lagrimas
Que chora—ao reiterar protestos novos!
Bem-fadadas do sol, do amor bemquistas,
O orvalho as cria, as lagrimas as murchão:
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Quem tem o coração a amor propenso,
Quem sente a interna voz que dentro falla,
Delicado sentir d’um brando peito,
Alma virgem que os homens não mancharão;
Quem soffre ou tem prazer, ou ama, ou espera
E vive e sente a vida, esse vos ama:
Encantos da existencia em quanto vivos,
Do revés, do triumpho companheiras,
No berço, no docel, no mudo esquife,
Sempre amigas eis vos encontramos.
Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Modesto horticultor, dos teus desvelos
Este só galardão recebe ao menos;
Paga-te sequer de ver mais bella,
Mais vaidosa, melhor, do sol na terra,
A flôr modesta, producção sublime
De estranhos climas transplantada ao nosso.
Rio, 29 de janeiro de 1849.

O QUE MAIS DÓE NA VIDA.

I cannot but remember such things were,
And were most dear to me.
SHAKESPEARE.
O que mais dóe na vida não é ver-se
Mal pago um beneficio,
Nem ouvir dura voz dos que nos devem
Agradecidos votos,
Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato,
Que as devera beijar!
Não! o que mais dóe não é do mundo
A sangrenta calumnia,
Nem ver como s’infama a acção mais nobre,
Os motivos mais justos,
Nem como se deslustra o melhor feito,
A mais alta façanha!
Não! o que mais dóe não é sentir-se
As mãos dum ente amado
Nos espasmos da morte resfriadas,
E os olhos que se turvão,
E os membros que entorpecem pouco e pouco,
E o rosto que descora!
Não! não é o ouvir d’aquelles labios,
Doces, tristes, compassivas,
Sobre o funereo leito soluçadas
As palavras amigas,
Que tanto custa ouvir, que lembrão tanto,
Que não s’esquecem nunca!
Não! não são as queixas amargadas
No triumphar da morte;
Que, se se apaga a luz da vida escassa,
Mais viva a luz rutila;
Luz da fé que não morre, luz que espanca
As trevas do sepulchro.
O que dóe, mas de dôr que não tem cura,
O que afflige, o que mata,
Mas de afflicção cruel, de morte amara,
É morrermos em vida
No peito da mulher que idolatramos,
No coração do amigo!
Amizade e amor!—laço de flores,
Que prende um breve instante
O ligeiro batel á curva margem
De terra hospitaleira;
Com tanto amor se ennastra, e tão depressa,
E tão facil se rompe!
Á mais ligeira ondulação dos mares,
Ao mais ligeiro sopro
Da viração—destranção-se as grinaldas;
O baixel se afasta,
Veleja, foge, até que em plaga estranha
Naufragado soçobre!
Talvez permitte Deos que tão depressa
Estes laços se rompão,
Por que nos peze o mundo, e os seus enganos
Mais sem custo deixemos:
Sem custo assim a brisa arrasta a planta,
Que jaz solta na terra!

FLÔR DE BELLEZA.

Não vejas!... se a vires...—Eu sei porque o digo:
Tu morres de amor.
MACEDO.
Se fosse rainha aquella
Em cuja fronte singela,
Como em tela delicada
Luz da belleza o condão,
Fôras rainha adorada;
Mas rainha seductora,
Que exige preitos n’uma hora
E n’outra hora adoração.
Fôras rainha! e ditosos
Teus vassallos extremosos,
Que a renderem-te seus preitos
Beijárão-te a nivea mão.
Pedes amor e respeitos!
Quem não ama a formosura,
Quem não respeita a candura
D’um sincero coração?
Mas antes que nos curvemos
Ante a belleza que vemos,
Tua angelica bondade
Conquista a nossa affeição:
Não es mulher, mas deidade,
Uma fada seductora,
Que nos pede amor agora,
Logo mais—adoração.
Quando pois, cheia de graças,
Entre a turba alegre passas,
Entre a turba sequiosa
De beijar-te a nivea mão;
Dizem uns: quanto é formosa!
Eu porêm, sei que es mais bella
Nos dotes da alma singela,
Nas prendas do coração.
Passa rapida a belleza,
Como flôr que a natureza
Cria em jardim melindroso,
Ou n’um agreste torrão:
Passa como um som queixoso,
Como felizes instantes,
Como as juras dos amantes,
Como extremos da paixão.
Mas d’alma a vida é mais fina,
Exhala essencia divina,
Que avigora e fortifica
O dorido coração;
Morto o corpo, ainda fica,
Como em rosal arrancado,
Leve aroma derramado,
Dos espaços na extensão.

O ANJO DA HARMONIA.

Respira tanta doçura
O teu canto, que por certo
Abranda a penha mais dura.
BOCAGE.
Revela tanto amor, tão branda sôa
A tua doce voz canora e pura,
Que o homem de a escutar sente no peito
Infiltrar-se-lhe um raio de ventura.
Solta-se a alma das prisões terrenas,
O mundo, a vida, o soffrimento esquece,
E embalada n’um ether deleitoso,
Como Alcyon nas aguas, adormece!
Da noite a placidez é menos grata
A quem sósinho e taciturno vela,
Quando, perdido n’outros mundos, nota
A meiga luz de fugitiva estrella.
Sensações menos doces, menos vagas,
Desperta o barco leve, que se avista
Ao pôr do sol, na extrema do horisonte,
Quando n’um mar de luz nos foge á vista.
Das aves o cantar é menos fresco,
É menos triste a fonte que serpeia,
Menos queixoso o mar, que enternecido,
Beija na praia a scintillante areia.
Vagas na terra, suspiroso archanjo,
Derramando torrentes de harmonia
Sobre as chagas mortaes,—balsamo sancto
Que as mais profundas magoas alivia.
Vagas na terra, merencoria e bella;
Mas quando deste mundo ao céo tornares,
Juntarás teus ternissimos accentos
Aos puros sons dos mysticos altares.
E os anjos na mansão das harmonias,
Encostados ás harpas diamantinas,
Folgarão de te ouvir celestes carmes
Deduzidos em notas peregrinas.
E dirão:—Nunca ás plagas do infinito
Subio mais terna voz, mais fresca e pura!
Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso,
Onde o incenso de Deos se afina e apura.

A HISTORIA.