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Cantos

Chapter 143: RETRACTAÇÃO.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

The flow and ebb of each recurring age.
BYRON.
Triste licção de experiencia deixão
Os evos no passar, e os mesmos actos
Renovados sem fim por muitos povos,
Sob nomes diversos se encadeião:
Aqui, além, agora ou no passado,
Amor, dedicação, virtude e gloria,
Baixeza, crime, infamia se repetem,
Quer gravados no socco de uma estatua,
Quer em vil pelourinho memorados.
Eis a historia!—rainha veneranda,
Trajando agora sedas e velludos,
Depois vestindo um sacco despresivel,
D’immunda cinza apolvilhada a fronte.
Se as virtudes do pobre não tem preço,
Tambem dos vicios seus a nodoa exigua
Não conspurca as nações; mas ai dos grandes,
Que trilhão senda errada, a cujo termo
Se levanta a barreira do sepulchro,
Onde se quebra a adulação sem força.
Se virtuoso, as gerações passando
As cinzas lhe beijarão; se malvado,
Cospem-lhe affrontas na vaidosa campa,
Jámais de amigas lagrimas molhada.
E qual do Egypto nos festins funereos,
Maldizem bons e máos sua memoria,
Lançando á face da real mumia
Dos crimes seus a lacrymosa historia.
Talvez, porêm, um infortunio grande,
Um exemplo sublime de virtude,
Cobre dourada pagina, que aos olhos
Pranto consolador sem custo arranca.
Eis a historia! um espelho do passado,
Folhas do livro eterno desdobradas
Aos olhos dos mortaes;—aqui sem mancha,
Além golfeja sangue e súa crimes.
Tal foi, tal é: retrato desbotado,
Onde se mira a geração que passa,
Sem côr, sem vida,—e ao mesmo tempo espelho,
Que ha de ser nova copia á gente nova,
Como os annos aos annos se succedão.
Ondas de mar sereno ou tormentoso,
As mesmas na apparencia, que se quebrão
Sobre as d’areia fluctuantes praias.

A CONCHA E A VIRGEM.

Linda concha que passava,
Boiando por sobre o mar,
Junto a uma rocha, onde estava
Triste donzella a pensar;
Perguntou-lhe:—Virgem bella,
Que faces no teu scismar?
—E tu, pergunta a donzella,
Que fazes no teu vagar?
Responde a concha:—Formada
Por estas aguas do mar,
Sou pelas aguas levada,
Nem sei onde vou parar!
Responde a virgem sentida,
Que estava triste a pensar:
—Eu tambem vago na vida,
Como tu vagas no mar!
—Vais d’uma a outra das vagas,
Eu d’um a outro scismar;
Tu indolente divagas,
Eu soffro triste a cantar.
—Vais onde te leva a sorte,
Eu, onde me leva Deos:
Buscas a vida,—eu a morte;
Buscas a terra,—eu os céos!

SEI AMAR.

Amor amore.
Proverbio.
Sei amar com paixão ardente e fida,
Como o nauta ama a terra, como o cego
A luz do sol, como o ditoso a vida.
Sim, sei amar; porêm do immenso pégo
D’uma existencia misera e cançada,
Quero uma hora, um instante de socego.
Dera a vida a uma alma apaixonada,
A um peito de mulher que me entendesse,
Onde eu pousasse a fronte acabrunhada.
Porêm, que fosse minha, e que eu soubesse
Que os labios que beijei são meus somente,
Nem pensa em outro, nem de mim se esquece.
Nem vai de prompto derramar demente
N’outros ouvidos a palavra, o accento,
Que em extasis de amor criei fervente.
Nem corre o seu volatil pensamento,
Quando fallo, a pensar n’outros amores,
N’outra voz, n’outros sons, n’outro momento.
Demais, acostumado a teus rigores,
Não me queixo, bem vês, mas despedaço
A prisão vil, embora occulta em flores.
Se entro furtivo, onde outro mais de espaço
Como senhor campeia—ao mais querido
Cede o ingresso, ao mais ditoso o passo.
Não me contenta um coração partido,
Um só amor que a dous pertence,—um peito,
Que bate por dous homens, fementido.
Se eu unico não sou,—vil, não aceito
Ser segundo em amor,—inteiro é nobre,
Vale um throno;—partido, é dom tão pobre,
Qu’eu pobre, como sou, de altivo engeito.

AMANHÃ.

Amanhã!—é o sol que desponta,
É a aurora de roseo fulgor,
É a pomba que passa e que estampa
Leve sombra de um lago na flôr.
Amanhã!—é a folha orvalhada,
É a rola a carpir-se de dôr,
É da brisa o suspiro,—é das aves
Ledo canto,—é da fonte o frescor.
Amanhã!—são acasos da sorte;
O queixume, o prazer, o amor,
O triumpho que a vida nos doura,
Ou a morte de baço pallor.
Amanhã!—é o vento que ruge,
A procella d’horrendo fragor,
É a vida no peito mirrada,
Mal soltando um alento de dôr.
Amanhã!—é a folha pendida,
É a fonte sem meigo frescor,
São as aves sem canto, são bosques
Já sem folhas, e o sol sem calor.
Amanhã!—são acasos da sorte!
É a vida no seu amargor,
Amanhã!—o triumpho, ou a morte;
Amanhã!—o prazer, ou a dôr!
Amanhã!—o que val’, se hoje existes!
Folga e ri de prazer e de amor;
Hoje o dia nos cabe e nos toca,
De amanhã Deos sómente é Senhor!

POR UM AI.

Se me queres ver rendido,
De joelhos, a teus pés,
Por um olhar que me deites,
Por um só ai que me dês;
Se queres ver o meu peito
Rugindo como um vulcão,
Estourar, arder em chammas,
Ferver de amor e paixão;
Se me queres ver sugeito,
Curvado e preso á tua lei,
Mais humilde que um escravo,
Mais orgulhoso que um rei;
Meus olhos sobre os teus olhos,
Meu coração a teus pés;
Por um olhar que me deites,
Por um só ai que me dês:
Oiça, feliz, dos teus labios
Esta só palavra—amor!—
Estrella cortando os ares,
Abelha sobre uma flôr.
Então verás dos meus olhos,
Que o pezar me não cegou,
Rebentarem de alegria
Prantos, que a dôr estancou;
Então verás o meu peito
Como outra vez se incendia;
Era a folha verde e fresca,
Onde o sol se reflectia!
Murcha e triste pende agora;
Cahiu, jaz solta, está só:
Exposta ao fogo, arde em chammas,
—Deixai-a, desfaz-se em pó!
Hei de sentir outra vida,
Outra vez meu coração
Escutarei palpitando
De amor, de fogo e paixão.
Lascado tronco sem graça,
Tal fui, tal me ves agora!
Mas venha o orvalho celeste,
Venha o bafejo da aurora;
Venha um raio de alegria
Dar-lhe ás raizes calor;
Revive de novo, e brota
Folhas, galhos e verdor.
Do cimo erguido e copado
Outra vez se dependurão
Mil flores,—alli mil aves
Nos seus gorgeios se apurão.
Não quero palavras falsas,
Não quero um olhar que minta,
Nenhum suspiro fingido,
Nem voz que o peito não sinta.
Basta-me um gesto, um aceno,
Uma só prova,—e verás
Minha alma, presa em teus labios,
Como de amor se desfaz!
Ver-me-has rendido e sugeito,
Captivo e preso á tua lei,
Mais humilde que um escravo,
Mais orgulhoso que um rei!

PROTESTO.
Imitação de uma poesia Javaneza.

Ainda quando os homens te odiassem,
E anath’ma contra ti bradasse o mundo,
Por ti sentira amor, te amára sempre,
Te amára eternamente.
Este affecto jámais ha de alterar-se;
Embora gemeos sóes ardão no espaço,
Ou gemeas noites, em cegueira eterna,
Me roubem o prazer de ver teus olhos.
Entranha-te na terra, hei de afundar-me;
Passa ao travez do fogo, irei comtigo;
Aos céos remonta, hei de seguir-te sempre,
Ver-me-has sempre a teu lado.
De ti não póde a força desprender-me,
Nem separar-me o fado. Em ti só vivo;
E quem dos dias teus souber o termo,
Que a vida me deixou tambem conheça.
Quando nas azas da esperança corro,
Onde me acenas, onde amor me aguarda,
Parece-me que vôo aos ledos campos,
Onde a esperança mora.
Não ha que possa comparar-se aos extasis,
Que tanto ao vivo meu amor revelão;
Um gesto, um som dos labios teus mimosos
Mil vezes na minha alma se repete.
Quer irritada contra mim te mostres,
Quer do teu seio irosa me repillas,
Teu rosto na minha alma se retrata,
E eu te amo sempre!
Quer durma, quer descance, ou vele ou soffra,
Em tudo quanto sinto, em quanto vejo,
Risonha tua imagem me apparece,
E eu julgo sempre que te fallo e escuto.
Seja eu longe da patria infindas legoas,
A distancia de um mundo entre nós corra,
Em quanto além divago, preso fica
Meu coração comtigo.
Se pois souberes que os meus dias findão,
Não creias que o destino inexoravel
M’os corta—antes me tem, antes me julga
Morto por ti de amores!

FADARIO.

Procura o íman sempre
Do pólo a firme estrella,
De viva luz o insecto
Se deixa embellezar;
E a nave contrastada
Das furias da procella,
Procura amigo porto,
No qual possa ancorar.
O íman sou constante,
A nave combatida,
O insecto encandeado
Com fulgido clarão;
E tu—a minha estrella,
A luz da minha vida,
O porto que me acena
Por entre a cerração.
Assim, por desgostar-me,
Severo no semblante,
No olhar, na voz—debalde
Me opprime o teu rigor;
Se fujo dos teus olhos,
Se mostro-me inconstante,
Na ausencia e no desterro
Me vai crescendo o amor!
Assim o insecto volta
Á luz que o já queimára,
E o íman na tormenta
Procura o norte seu;
Assim a nave rota,
Que o vento contrastára,
Entrando o porto, esquece
Que males já soffreu.
Debalde, pois, tua alma,
Que a minha dôr encherga,
Se mostra aspera e dura
Á voz do meu penar;
Aquelle verde ramo,
Que facilmente verga,
Resiste ao peso, emquanto
Não torna ao seu lugar.
Se, pois, te irrita e cança
De o ver revel comtigo,
Do tronco seu virente
Separa-o de uma vez:
Mais qu’elle venturoso
Me julgo, se consigo
Morrer vendo os teus olhos,
Cahir junto a teus pés.
Mas, inda assim, não creias,
Se finda o meu tormento,
Que nem lembrança minha
Terás de conservar:
A nave, que não toca
No porto a salvamento,
Talvez os rotos mastros
Atira á beira-mar.
Assim quando jazendo
Me achar na campa fria,
Talvez tenhas remorsos,
Da tua ingratidão;
Talvez que por mim sintas
Alguma sympathia;
Que em lagrimas desfeita
Me dês amor então.

O ASSASSINO.

Pero una sola lágrima, un gemido
Sobre sus restos á ofrecer no van,
Que es sudario d’infames el olvido...
Bien con su nombre en su sepulcro están!
ZORRILLA.
Eil-o! seu rosto pallido se encova;
Incerto, mais que os vôos dum morcego,
Seu andar, ora lento, ora apressado,
Profunda agitação revela aos olhos.
Crespos os cenhos, enrugada a fronte,
Simelha luz de tocha mortuaria
A luz que os olhos seus despedem torvos.
Ha momentos em que seo rosto fero
De tal arte s’enruga e se transtorna,
Que os seus proprios amigos o fugírão
E a propria mãe teméra unil-o ao seio!
Quando os labios descerra, só murmura
Frases, cujo sentido não se alcança,
Ou blasfemias a Deos, que o soffre em vida!
O que amou n’outro tempo, agora odeia;
Despreza o que estimou, evita, foge
Quanto afanoso procurava outr’ora:
Receia a luz do sol, da noite as trevas,
A voz do crime, da innocencia o grito!
A cholera de Deos cahio tremenda
Sobre o seu peito, e o coração lhe opprime,
De cuja interna chaga em jorros salta
O sangue e a podridão: horrendo e fero,
A victima das furias do remorso,
Terrivel e cobarde, e ao mesmo tempo
Rebelde contra a mão, que o vexa e pune,
Em quanto a Deos maldiz, blasfema, irrita,
D’uma voz, d’uma sombra se amedronta.
Não póde supportar seus pensamentos
A sós comsigo, e aborrecendo os homens,
De os ver e de os não ver soffre martyrios.
Na cidade, suspeita esposa, amigos,
A mãe e os filhos;—um terror, um pasmo,
Cuja causa recondita se ignora,
Na voz, no rosto e gesto o denuncião
Como escravo do crime ou da miseria.
No ermo a propria voz o sobresalta!
O som dos passos, do seu corpo a sombra,
Das fontes o correr por entre as pedras,
Da brisa o suspirar por entre as folhas,
Quanto vê, quanto escuta o intimida.
Minaz lhe brada a natureza inteira,
Soluça um nome, que lhe erriça a coma
E o frio do terror lh’immerge n’alma.
O mar nas ondas crespas, que se enrolão,
Batidas pelo açoite da procella,
Troveja o mesmo nome; as vagas dizem-no,
Quando passão, cuspindo-lhe o semblante;
E Deos, o proprio Deos no espaço o grava
Nos fuzis que os relampagos centelhão.
Tem pavor, quando sonha e quando vela.
Deixando o leito em seu suor banhado,
No silencio da noite—á horas mortas,
Levanta-se medonho á voz do crime!
Nas mãos convulsas um punhal aperta
E a lamina buida e os olhos torvos
Agoureiro clarão despedem juntos.
Soltando roucos sons com voz sumida,
Apalpa cauteloso as densas trevas,
E vai ... caminha ... attende ... de repente
Apunhala um phantasma!—solta um grito,
Larga o punhal convulso e arrepiado!
N’um ferrete de sangue lê seu fado,
Um ferrete, que a dôr desfaz nunca,
Nem lava o pranto, nem consome o tempo.
Miseravel, provando o fel da morte,
Ante o passo medonho se horrorisa;
Odeia o mundo que fugir não póde,
Regeita a religião que o não consola,
Odeia e teme a Deos,—teme a justiça
De quem na fronte vil do fratricida
Nodoa eterna gravou do crime infando.

A UNS ANNOS.

14—Janeiro.

No segredo da larva delicada
A borboleta mora,
Antes que veja a luz, que estenda as azas,
Que surja fóra!
A flôr, antes de abrir-se, se recata;
No botão se resume,
Antes que mostre o colorido esmalte,
Que espalhe o seu perfume.
E a flôr e a borboleta, após a aurora
Breve—da curta vida,
Encontrão nas manhãs da primavera
A luz do sol querida.
De graças cheia, a delicada virgem
Da vida no verdor,
Semelha a borboleta melindrosa,
Semelha a linda flôr.
Tudo se alegra e ri em torno della,
Tudo respira amor,
Que é a virgem formosa semelhante
Á borboleta e á flôr.
Mas para estas o sol breve se esconde,
Passão prestes os dias;
Em quanto a cada sol e nova quadra
Tu novas graças crias!

QUANDO NAS HORAS.

And dost thou ask, what secret woe
I bear, corroding joy and youth?
And wilt thou vainly seek to know
A pang e’en thou must fail to soothe?
BYRON.

I.

Quando nas horas que comtigo passo,
Do amor mais casto, do mais doce enlevo.
Sentindo um raio d’esperança amiga,
Que as densas trevas da minha alma aclara;
Teus meigos olhos sobre os meus se fitão.
Sorvo o perfume que tua alma exhala,
Gozo o sorriso que os teus labios vertem
E as doces notas que o prazer m’entranhão:
Tu me perguntas por que um riso amargo,
Funebre e triste me descora os labios;
Por que uma nuvem de pezares gravida
Tolda o meu rosto;
Por que um suspiro de abafada angustia,
Um ai do peito, que exhalar não ouso,
O meigo encanto dos teus sonhos quebra
N’um breve instante!
Raio de amor, que sobre mim resplendes,
Ou sol que bates n’um profundo abysmo,
E a verde-negra superficie tinges
De côr chumbada com reflexos d’oiro;
Se vês luzente a superficie amiga,
E á luz que espalhas aclarar-se o abysmo,
Sol bemfazejo, que te importão fezes,
Se lá no fundo adormecidas jazem?
Talvez se as viras, encobrindo os olhos,
De horror fugindo ao temeroso aspecto,
Os brandos lumes, d’onde amor distillas
Breve apagáras.
Não me perguntes por que soffro triste,
Por que da morte o negro espectro invoco,
Por que, cansado desta vida, almejo
A paz dos tumulos.
Nem ver procures a cratera hiante
Do peito meu, qu’inda fumega em cinzas,
Do peito meu, onde crueis travárão
Pleitos, não crimes, mas paixões que abrasão.
Dá que nas horas que comtigo passo
Do amor mais casto e do mais doce enlevo,
Durma o passado e do porvir m’esqueça,
E o meu presente de te amar se ameigue.

II.

Se algum suspiro de abafada angustia,
Se um ai do peito que exhalar não ouso,
O meigo encanto dos teus sonhos quebra;
Tu me perdôa.
Cansado e triste de viver soffrendo,
Da morte amiga o negro espectro invoco,
Affiz-me as dores, e só torva ideia
Me apraz agora.
Talvez na pedra d’um sepulchro frio
Melhor folgára de me ver deitado,
Sentir nos olhos estancado o pranto
E amodorrado o padecer no peito.
Talvez folgára minha sombra triste,
Vagando em tomo d’uma campa lisa,
De ver-te as formas, de contar teus passos,
E de escutar tua oração piedosa.
Talvez folgára, quando pranto amargo
Dos olhos teus me rorejasse a campa,
Dos meigos labios, onde amor temperas,
Meu nome ouvindo!
Oh! sim, folgára de sentir a brisa,
Correndo em tomo ao moimento meu,
E tu sósinha no sepulchro humilde,
Guardando os tristes deslembrados ossos!
Junto ao meu corpo guardarei teu leito,
Onde os teus restos junto aos meus descancem;
E o mesmo sol, e a mesma lua e brisa
Juntos nos vejão.
E quando o anjo espedaçar as campas
Ao som da trompa de fragor horrendo,
Que ha de o lethargo despertar dos mortos
Na vida eterna;
Primeiro em ti se fitarão meus olhos:
Hei de alegrar-me de te ver commigo,
E as nossas almas subirão reunidas
Á eterna face do juiz superno.
E deste amor, por que ambos nós passamos,
O galardão lhe pediremos ambos,
Viver unidos na mansão dos justos,
Ou nos tormentos da eternal gehenna!

III.

No em tanto a vida soportar já devo,
Soffrer o peso da existencia ingloria,
E revolvendo o coração chagado,
Nos seus estragos numerar meus dias.
Na terra existo, como um som queixoso,
Um echo surdo, que entre as fragas dorme,
Ou como a fonte, que entre as pedras corre,
Ou como a folha sob os pés calcada.
Uma alma em pena, que procura os restos
Não sepultados,—uma flôr que murcha,
D’uma harpa a corda, que por fim rebenta,
Ou luz que morre.
Prazer não acho de avistar lua
Pallida e bella na soidão do espaço;
Nem vivos astros, nem perfumes gratos
Me dão consolo.
Nada percebo nos confusos roncos
Do mar, que bate as solitarias praias;
Nem nos gemidos da frondosa selva,
Que o sopro amigo de uma aragem move.
Conviva infausto d’um festim, que odeio,
Ás proprias galas que vaidosa ostenta
A natureza—não se ri minha alma,
Nem de as notar meu coração se alegra.
E sinto o mesmo que sentira o frio,
Mudo cadaver dos festins do Egypto,
Se ver pudesse, contemplando o nada
Das vãs grandezas.
Mas já que os olhos sobre mim pousaste,
Teus meigos olhos, donde o amor lampeja;
Pois que os teus labios para mim se abrirão,
Teus meigos labios;
Já que o perfume da tua alma d’anjo
Embalsamou-me o coração de aromas;
Já que os prazeres da eternal morada
De longe, em sonhos, antevi comtigo:
Já posso a vida supportar, já devo
Sofrer o peso da existencia inutil;
Já do passado e do porvir me esqueço,
E o meu presente de te amar se ameiga.

RETRACTAÇÃO.

Son reo, non mi difendo;
Puniscimi, se vuoi!
METASTASIO.
Perdoa as duras frases que me ouviste:
Vê que inda sangra o coração ferido,
Vê que inda luta moribundo em ancias
Entre as garras da morte.
Sim, eu devera moderar meu pranto,
Soffrear minhas iras vingativas,
Deixar que as minhas lagrimas corressem
D’entro do peito em chaga.
Sim, eu devera confranger meus labios,
Mordel-os té que o sangue espadanasse,
Afogar na garganta a ultriz sentença,
Apagal-a em meu sangue.
Sim, eu devera comprimir meu peito,
Conter meu coração, que não pulsasse,
Apagado volcão, que inda fumega,
Que faz, que jorra cinzas?
Que m’importava a mim teu fingimento,
Se uma hora fui feliz quando te amava,
Se ideei breve sonho de venturas,
Dormido em teu regaço;
Luz mimosa de amor, que te apagaste,
Ou gota pura de crystal luzente
Filtrando os poros de uma rocha a custo,
Cahida em negro abysmo!
Devera pois meu pranto borrifar-te
Amigo e bemfazejo, como aljofar
De branco orvalho em perolas tornado
N’um calice de flôr;
Não converter-se em pedras de saraiva,
Em chuva de graniso fulminante,
Que em chão de morte as petalas viçosas
Desfolhasse entre-abertas.

Feliz o doce poeta,
Cuja lyra sonorosa,
Resoa como a queixosa,
Trepida fonte a correr;
Que só tem palavras meigas,
Brandos ais, brandos accentos,
Cuja dôr, cujos tormentos
Sabe-os no peito esconder!
Feliz o doce poeta,
Que não andou em procura
De terrena formosura,
Nem as graças lhe notou!
Que lhe não deu sua lyra,
Que lhe não deu seus cantares,
Que lhe não deu seus pezares,
Nem junto della quedou!
Antes na mente escaldada
Forma um composto divino
De algum ente peregrino,
De algum dos filhos dos céos;
E ante essa imagem creada,
Que vê sempre noite e dia,
Dobra as leis da phantasia,
Acurva os desejos seus.
É d’ella quando se carpe,
É d’ella quando suspira,
É d’ella quando na lyra
Entoa um canto feliz:
D’ella acordado ou dormido,
D’ella na vida ou na morte,
Tenha alegre ou triste sorte,
Seja Laura ou Beatriz!
Que talvez a doce imagem,
A scismada phantasia
Ha de o poeta algum dia
Junto de Deos encontrar;
E que havendo-a producido
Antes do mundo formado,
Dê-lhe um sonhar acordado
Por um viver a sonhar!

ANHELO.

No lago interior d’um peito virgem,
Que os ventos das paixões não agitárão,
Hei de em cifras de amor gravar meu nome,
Onde as nuvens do céo desenhão cores.
Nos meigos olhos, que embelleza o mundo,
De corrosivas lagrimas enxutos,
Meu pensamento gravarei n’um beijo,
Onde as luzes do céo reflectem brilhos.
Em sua alma, onde uma harpa melindrosa
Noite e dia seus canticos afina,
Hei de a vida entornar em doces carmes,
Onde imagens do céo sómente brilhão.
Que outra c’rôa melhor, que outra mais pura,
Que uma c’rôa d’amor em fronte virgem?!
Não peza sobre a fonte, não esmaga,
Não punge o coração,—é toda amores!
Que outra c’rôa melhor, que outra mais bella
Que a aureola, que Deos concede aos vates?
Com sorriso de amor, talvez com pranto,
Cede-a o vate á mulher, que mais o inspira!
Eu t’a cedo, eu t’a dou! C’rôo-te imagem
Resplendente, invejada entre as mulheres;
Um beijo só de amor tu me concedas,
Um suspiro sequer do peito exhales.

QUE ME PEDES.