Como quando elevados nas alturas
Descobrimos incognitas paisagens,
Densas florestas, aridas planuras
E de rios caudaes virentes margens;
Assim da vida o sonho te arrebata,
Rasgando o veo do tempo e do infinito,
E uma scena vistosa te retrata,
Que vai da Arabia ao portentoso Egypto.
Vê como o filho teu, feroz guerreiro,
Nos prainos do deserto eleva as tendas,
E, posto a seus irmãos sempre fronteiro,
Provoca e trama asperrimas contendas!
São doze os filhos—doze reis potentes—
Com elles Ismael tudo avassalla;
Sua espada é a lei das outras gentes,
Seus decretos os campos da batalha.
A sorte seus designios favoneia,
Segue seus passos a benção divina,
Povôa-se Faran, surge d’areia
De Meca o templo, os paços de Medina.
Crescem, dominão: largo reino ingente
Mesquinha habitação presta a seus netos,
Convertida em nação a grei potente,
Que opprime a cerviz mobil dos desertos.
Mas entre os filhos seus de nomeada,
Sup’rior dos heróes á grande altura,
Na sinistra o alkorão, na dextra a espada,
A effigie torva de Mahomet fulgura.
Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina
Á sua lei, da Persia o reino antigo;
Escutão Asia e Africa a doutrina
Do embusteiro que em Meca achou jazigo:
Mensageiro divino se declara
Aquelle que illudido o mundo adora;
Agar é mãe,—pela vergontea cara,
Entre orgulhosa e triste, a Deos implora.
Peccou; porêm da gloria que o circunda
A roxa luz, que o meteóro imita,
De vivo resplendor a fronte inunda,
Commove o peito a misera proscripta.
Curvado ao jugo seu todo o oriente,
Inda cubiça a Europa o Ismaelita;
E em frente á cruz, o pallido crescente
Apparece nas torres da mesquita.
Oh! quanto humano sangue derramado!
Que de prantos e lagrimas vertidas!
Entre irmãos o combate é porfiado,
A raiva intensa, as lutas mal feridas.
De avistar esse quadro tão medonho,
Embora no porvir todo escondido,
A escrava tenta orar; porêm no sonho
Resume a prece em languido gemido.
Geme de vêr em furia carniceira
A esposa de Mahomet desrespeitada,
E do seu genro a dynastia inteira
Por duro asar de guerra contrastada.
Succedem-se os Omiades valentes;
Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha
O sangue na mesquita: entre essas gentes
Vinga o punhal a sorte da batalha.
O vencedor então, não poucas vezes,
Chegando á bocca a taça corrompida,
Exp’rimenta os tristissimos revezes,
De quem sobre os tropheos exhala a vida!
Tudo é silencio e luto:—um só evita
O negro olvido,—ao templo da memoria
Vôa Al-Reschid,—unindo á gloria avita
O louro da sciencia e o da victoria.
Com seu vizir á noite, pelas ruas
Escuta dos estranhos mercadores
A gloria d’outros reis, menor que as suas,
E espreita do seu povo occultas dores!
Se ouviu a narração d’uma desgraça,
Se o pobre vê curvado a prepotencia,
Se o convidão a entrar, quando elle passa,
No abrigo do infortunio e da innocencia,
Entrou e viu! mas o fulgor crastino
Ri-se mais brando aos peitos soffredores;
Passa o rei, como orvalho matutino,
E, por onde passou, rescendem flores!
Mudado o sonho, a fugitiva escrava
Estranhos povos nota, estranhas terras,
Que o Darro ensopa e o Guadalete lava,
Nadando em sangue de cruentas guerras.