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Cantos

Chapter 157: AGAR NO DESERTO.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Eis que tomba da abobada celeste
O archanjo audaz, o seraphim manchado,
Desenrolando o corpo volumoso,
Despenhado precipite,—qual mundo
Dos eixos arrancado,—como um vivo
Dos céos fragmento enorme, eil-o cahindo!
Cahia lá d’aquelles céos brilhantes,
Donde inda os seos iguaes lançavão raios;
Cahia!—e a cerviz no espaço ardendo
As espheras dos sóes de côr de sangue,
Passando, avermelhava.
Eil-o, o maldicto, o archanjo da blasfemia,
Rival do creador!—té o imo peito
Pelas frechas da anáthema varado,
Como n’um turbilhão, desce rodando;
Ondas d’um mar de fogo o vem cercando,
E elle occulta a cabeça,
Como que procurasse
Nas entranhas da noite
Esconder seu desdoiro.
Clamavão—longe—os mundos com voz forte:
«Que insensato! onde vae? Nesse arrojado,
Frenetico voar, que vento o impelle,
Que de astro em astro vae, d’um céo em outro?
Vede como é sombrio!
Oh! quão outro que está d’aquelle archanjo
De tão bello semblante,
Lucifer radiante,
Cujo sopro era como o romper d’alva,
Que as portas da manhã nos céos abria,
Trazendo comsigo a aurora,
Que o seo alento accendia!
Acaso o reconhecestes?
Era hontem brilhante, novo e bello;
E hoje é feio e nu e descalvado,
Nas azas da tormenta balouçado,
Nas azas dos bulcões;
E os seos olhos fulminados
Já sem pupillas fumegão,
Quaes crateras de vulcões!»
O archanjo os escutava, ameaçando-os
Co’o olhar fulminante;
Que cheio d’impio orgulho já sentia
Uma c’rôa de rei cingir-lhe a fronte.
Todos os astros que no espaço gyrão
Seos olhos d’irritados fascinavão;
E os astros todos de terror tremião,
Saudando a coruscante realeza.
E já os céos sem fim, estrellas, mundos
Traz delle se perderão;
E nas profundas solidões do espaço
O archanjo abandonado apenas via
A noite, e sempre a noite!
Tem medo, olha, procura....—Um astro! um astro!
Transviado nos céos!—O archanjo o avista!
Estende a mão convulsa arrepellando-o:
Segura, arrasta-o, e d’um só pulo hardido
Tral-o potente ao limiar do inferno,
Alentando açodado.
O errante cometa duas vezes
Ao tetro boqueirão levou comsigo,
E duas vezes, como um negro abutre,
Lutando corpo a corpo, de cançaço
Sentio-se esmorecer.
Duas vezes tambem o astro victima,
Supplicando medroso, as igneas azas
Bateu, sublime grito aos céos mandando.
O nome do Senhor por duas vezes
O rebelde venceo,—elle sosinho
Cahio no fundo abysmo.

CANÇÃO DE BUG-JARGAL.

(TRADUCÇÃO.)

Maria, porque me foges,
Porque me foges, donzella?
Minha voz! o que tem ella,
Que te faz estremecer;
Tão temivel sou acaso?
Sei amar, cantar, soffrer.
E quando ao travez dos troncos
Descubro d’altos coqueiros,
Junto as margens dos ribeiros,
A sombra tua a vagar;
Julgo vêr passar um anjo,
Que os meos olhos faz cegar.
E dos labios teos se escuto
Deslisar-se a voz, Maria,
Cheio de estranha harmonia
Pulsa o peito meo queixoso,
Que mistura aos teos accentos,
Tenue suspiro afanoso.
Tua voz! eu quero ouvir-t’a
Mais do que as aves cantando,
Que vem da terra voando,
Em que eu a vida provei;
Da terra onde eu era livre,
Da terra onde eu era rei!
Liberdade e realeza,
Hei de perder da lembrança;
Familia, dever, vingança...
Té a vingança m’esquece,
Fructo amargo e deleitoso,
Que tão tarde amadurece!
Es, Maria, qual palmeira,
Altiva, esbelta, engraçada,
No tronco seo balançada
Por leve brisa fagueira;
No teo amante a rever-te,
Como na fonte a palmeira.
Mas não sabes?—Do deserto
A tempestade valente
Corre as vezes de repente
Por acabar apressada
Com seo halito de fogo
A palmeira, a fonte amada!
E a fonte já mais não corre!
Sente a verdura sumir-se
A palmeira, e contrahir-se
A palma sua ao redor,
Que de cabellos dava ares,
De c’rôa tendo o esplendor.
D’Hespaniola, ó branca filha,
Teme por teo coração;
Teme a força do vulcão
Que vai breve rebentar!
Que, depois, amplo deserto
Só poderás contemplar!
Talvez que então te arrependas
De me haveres desdenhado,
Porque houveras encontrado
Salvação no meo amor;
Como o kathá leva á fonte
O sedento viajor.
Porque assim tu me desdenhas,
Não, Maria, não o sei;
Que d’entre as frontes humanas,
Entre as frontes soberanas,
Levanto a fronte; sou rei.
Sou preto, sim, tu es branca;
Mas qu’importa? Junto ao dia
A noite o poente cria
E cria a aurora tambem,
Que mais luzentes bellezas,
Mais doces do que ambos tem.

AGAR NO DESERTO.

Et abiit, seditque e regione procul quantum potest arcus jacere: dixit enim: non videbo morientem puerum: et sedens contra, levavit vocem suam et flevit.

Genesis, Cap. 21, 16.

Pallido o rosto e queimado
Pelo sol do Egypto ardente,
Sahia a escrava innocente
Co’ o filho innocente ao lado
Da tenda patriarchal.
A pobresinha chorava!
Alguns pães e um frasco d’agoa
E um peito cheio de magoa!...
Vê, contempla, ó triste escrava,
Teo sepulchro no areal.
Abrahão se compadece;
Mas debalde o sollicita
Piedade sancta,—de afflicta
Sem queixar-se, lhe obedece
A triste escrava do amor.
Quizera talvez detel-a...
Porêm que?—Sarai lh’implora,
Deos lhe ordena:—vae-te embora,
Vae-te escrava; e a tua estrella
Te depare outro senhor.
O sol brilhante nascia
Sobre as tendas alvejantes;
E n’outros pontos distantes
Combros d’areia feria,
Outr’ora leito d’um mar;
Esse caminho procura,
Que nas ondas do deserto
Talvez ache por acerto
Patria, abrigo, amor, ventura
A prole infausta d’Agar.
Vae, caminha; mas ao passo
Que no deserto s’entranha,
Arde o sol com furia estranha,
Racha a areia o pé descalço,
Cresta o vento os labios seos;
E ao lado o filho innocente
Soltava tristes gemidos,
Co’os olhos humedecidos
Fitando a mãe ternamente,
Que os olhos tinha nos céos!
Procura terras do Egypto;
Porêm debalde as procura:
Vae a triste, sem ventura,
Lento o passo, o rosto afflicto,
Pela inculta Bersabé.
Seo Ismael desfallece;
No deserto immenso, adusto,
Não encherga um só arbusto:
Jehovah delles s’esquece!
Cresce a dôr, e mingua a fé.
Pede sombra o triste infante:
Não ha sombra,—agoa supplíca;
Exhaurido o vaso fica,
Pede mais d’instante a instante....
Pobre escrava, oh! quanto dó!
Podesses rasgar as veias,
Tomar agoas innocentes
Tuas lagrimas ardentes;
Mas só vês d’um lado areias,
D’outro lado areias só.
Pois não ha quem o proteja,
Diz a escrava lá comsigo,
Vendo o fado seu imigo,
Meu filho morrer não veja,
Bem qu’eu tenha de morrer.
A um tiro d’arco distante
Se arrasta com lento passo,
Tomba o corpo infermo e lasso,
E amargo pranto abundante
Deixa dos olhos correr.
Deos porêm ouvira a prece
Da escrava, da mãe coitada,
E da celeste morada
Librado um archanjo desce
Nas azas da compaixão.
Expira em torno ar de vida,
Um aroma deleitoso,
E n’um sonho aventuroso
Agar seus males olvida,
Olvida a sua afflicção.
Dorme e sonha, ó triste escrava,
Deos senhor sobre ti vela!
Dorme e sonha:—a tua estrella
Nasce como um romper d’alva
Sobre os netos d’Ismael.
Esquece a sorte mesquinha,
Que te vexa,—esquece tudo;
Deos senhor é teu escudo;
Já não es serva, es rainha
D’outro reino d’Israel.

Como quando elevados nas alturas
Descobrimos incognitas paisagens,
Densas florestas, aridas planuras
E de rios caudaes virentes margens;
Assim da vida o sonho te arrebata,
Rasgando o veo do tempo e do infinito,
E uma scena vistosa te retrata,
Que vai da Arabia ao portentoso Egypto.
Vê como o filho teu, feroz guerreiro,
Nos prainos do deserto eleva as tendas,
E, posto a seus irmãos sempre fronteiro,
Provoca e trama asperrimas contendas!
São doze os filhos—doze reis potentes—
Com elles Ismael tudo avassalla;
Sua espada é a lei das outras gentes,
Seus decretos os campos da batalha.
A sorte seus designios favoneia,
Segue seus passos a benção divina,
Povôa-se Faran, surge d’areia
De Meca o templo, os paços de Medina.
Crescem, dominão: largo reino ingente
Mesquinha habitação presta a seus netos,
Convertida em nação a grei potente,
Que opprime a cerviz mobil dos desertos.
Mas entre os filhos seus de nomeada,
Sup’rior dos heróes á grande altura,
Na sinistra o alkorão, na dextra a espada,
A effigie torva de Mahomet fulgura.
Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina
Á sua lei, da Persia o reino antigo;
Escutão Asia e Africa a doutrina
Do embusteiro que em Meca achou jazigo:
Mensageiro divino se declara
Aquelle que illudido o mundo adora;
Agar é mãe,—pela vergontea cara,
Entre orgulhosa e triste, a Deos implora.
Peccou; porêm da gloria que o circunda
A roxa luz, que o meteóro imita,
De vivo resplendor a fronte inunda,
Commove o peito a misera proscripta.
Curvado ao jugo seu todo o oriente,
Inda cubiça a Europa o Ismaelita;
E em frente á cruz, o pallido crescente
Apparece nas torres da mesquita.
Oh! quanto humano sangue derramado!
Que de prantos e lagrimas vertidas!
Entre irmãos o combate é porfiado,
A raiva intensa, as lutas mal feridas.
De avistar esse quadro tão medonho,
Embora no porvir todo escondido,
A escrava tenta orar; porêm no sonho
Resume a prece em languido gemido.
Geme de vêr em furia carniceira
A esposa de Mahomet desrespeitada,
E do seu genro a dynastia inteira
Por duro asar de guerra contrastada.
Succedem-se os Omiades valentes;
Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha
O sangue na mesquita: entre essas gentes
Vinga o punhal a sorte da batalha.
O vencedor então, não poucas vezes,
Chegando á bocca a taça corrompida,
Exp’rimenta os tristissimos revezes,
De quem sobre os tropheos exhala a vida!
Tudo é silencio e luto:—um só evita
O negro olvido,—ao templo da memoria
Vôa Al-Reschid,—unindo á gloria avita
O louro da sciencia e o da victoria.
Com seu vizir á noite, pelas ruas
Escuta dos estranhos mercadores
A gloria d’outros reis, menor que as suas,
E espreita do seu povo occultas dores!
Se ouviu a narração d’uma desgraça,
Se o pobre vê curvado a prepotencia,
Se o convidão a entrar, quando elle passa,
No abrigo do infortunio e da innocencia,
Entrou e viu! mas o fulgor crastino
Ri-se mais brando aos peitos soffredores;
Passa o rei, como orvalho matutino,
E, por onde passou, rescendem flores!
Mudado o sonho, a fugitiva escrava
Estranhos povos nota, estranhas terras,
Que o Darro ensopa e o Guadalete lava,
Nadando em sangue de cruentas guerras.

Quem foi que as altas portas
Abriu d’Hespanha aos mouros;
Que poz os verdes louros,
Dos reis godos conquista,
Ás plantas do infiel?
De tantos males causa
Tu foste, ó rei Rodrigo,
Tornando infesto, imigo,
O nobre conde, outr’ora
Vassallo teo fiel.
Debalde o affecto encobres
Do refalsado peito,
Se vais furtivo ao leito
Da virgem, que se mostra
Rebelde ao teo amor:
Qu’es godo e rei t’esqueces!
E o nobre resentido
Da offensa que ha soffrido,
No teu exemplo aprende
A ser tão bem traidor.
Em quanto pois devassas,
Com torpes pensamentos,
Os regios aposentos
Da nobre moça,—a c’rôa
Te cae da fronte ao chão;
E o pae, que a affronta punge,
Turbado, ardendo em ira,
Aos pés do mouro a atira.
O rei, que planta crimes,
Recolha vil traição.
Sus, ó rei, ás armas!
Empunha a larga espada,
E a fronte sombreada
Co’o negro elmo—deixa
Tingir-se em nobre pó:
D’encontro as alas densas
Do barbaro inimigo
Debalde, ó rei Rodrigo,
Te arrojas!—vence á força,
Foges vencido e só!
Vai só; mas occultando
No manto d’um soldado
O rosto demudado,
Emquanto passa o campo,
Escasso leito aos seos:
Ai! triste rei cahido!
Na solitaria ermida,
Que abriga a inutil vida,
No pó collada a fronte,
Lembra-te emfim de Deos.
Lembrem-te os muitos erros
E o crime grave, emquanto
As mães godas em pranto
O nome teu maldizem,
E ao céo clamando estão.
Emquanto pela Iberia
O arabe audaz e forte,
Espalha o susto, a morte,
Por onde quer que solta
Ao vento o seu pendão.
Passão avante, calcão
Dos Pyrenêos as serras,
Levando cruas guerras
Ao dilatado imperio
Do intrepido gaulez.
Debalde o grande Carlos
Oppõe-se-lhes,—que a historia
Nos traz inda á memoria
Dos tristes Roncesvalles
O misero revez.
Porêm do largo imperio
De Cordova e Granada
A c’rôa cahe pesada
Na fronte amollecida
Do moço Boabdil.
O fraco teme os echos
Ouvir da accesa guerra,
E perde a nobre terra
Ganhada em mil batalhas
Com pranto feminil.
Depois, inda outros quadros
Enxerga no futuro;
Mas é um ponto escuro,
São formas vagas, postas
Em duvidosa luz.
Já naves são, já hostes,
Tropel de varia gente,
Que parte do occidente,
Em cujos peitos brilha
De Christo a roxa cruz.
Agar emfim acorda!
Sustendo o filho caro,
Pelo deserto avaro
S’entranha novamente,
Mais solto o coração.
Parece que já sente
No rosto ao bello infante
A gloria radiante,
Que espera os descendentes
Da forte geração.
E como Deos lhe ha dito,
Seus filhos são guerreiros,
Que a seus irmãos fronteiros
Cruentos prelios movem:
Temidos são; porêm
As filhas desses bravos,
Da vida sequestradas,
Escravas são coitadas,
Que da materna origem
Recordão-se no Harem.

Vai, caminha, oh triste escrava,
Deos Senhor sobre ti vela;
Vai, caminha: a tua estrella
Nasce como um romper d’alva
Sobre os netos d’Ismael.
Esquece a sorte mesquinha
Que te vexa, esquece tudo,
Deos Senhor é teu escudo:
—Já não es serva, es rainha
D’outro reino d’Israel.