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Cantos

Chapter 160: SAUDADES.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

HYMNO.


O MEU SEPULCHRO.

Elève-toi, mon ame, au-dessus de toi-même,
Voici l’épreuve de ta foi!
Que l’impie, assistant à ton heure suprême,
Ne dise pas: Voyez, il tremble comme moi!
LAMARTINEHarmonies.
Quando, os olhos cerrando á luz da vida,
O extremo adeus soltar ás esperanças,
Que na terra nos guião, nos confortão
E espação do porvir a senda estreita;
Quando, isento de miseros cuidados,
Disser adeus ás illusões douradas,
Mas com ellas tambem ás dores cruas
Da existencia—aos espinhos ponteagudos,
Com que a verdade o coração nos roça;
Quando tocada não sentir minha alma
Da luz, dos sons, das cores, das magias,
Que a natureza prodiga derrama
No regaço da terra—mais ditoso
Serei acaso então?—Quando o meu corpo
Á terra, mãe commum, pedindo abrigo
Dos sepulchros no valle em paz descance;
Hei de ser mais feliz porque m’o cobre
Pomposo mausoleu, em vez da pedra
Sem nome, em vez do tumulo de cespedes,
Que s’ergue junto á estrada, e ao viandante
Ao que alli passa, uma oração supplíca?
Oh! não!—ao encalmado é grata a sombra;
Grato descanço aos membros fatigados
Presta igualmente a relva das campinas
E os torrões pelo sol enrigicidos.
Como o trabalhador que a sésta aguarda,
O meu termo fatal sem medo espero!
Eu então pedirei silencio á morte,
E fresca sombra á sepultura humilde,
Que me receba,—e á cuja superficie
Morrão sem echo da existencia as vagas.
Humilde seja embora! Que m’importa
Que a mão d’habil artista me não talhe
Mentiroso epitaphio em preto marmor!
O moimento faustoso, que se erige,
Arranco da vaidade, sobre a campa
De um corpo transitorio, acaso empece
Aos que alli pascem, vermes esfaimados
De roerem-lhe as visceras?!—Solemnes
São da campa os mysterios; mas terrivel
É da morte a rasoura, que nivela
O rico ao pobre, e os berços differentes
Torna um féretro, um leito de Procusto,
Capaz de quanta dôr os homens soffrem:
Tão depressa o cadaver se corrompe
Nas amplas dobras do velludo involto,
Como embrulhado na mortalha exigua,
Que a religiosa caridade amiga,
O pudor dos sepulchros venerando,
Lança do pobre aos restos desprezados.
Os felizes do mundo, acobardados
Ante a imagem da morte, que os assalta,
Temem deixar a terra, onde tranquilla,
Quasi livre de dôr, entre delicias,
Como um rio caudal lhes corre a vida.
Horrorisão-se timidos,—supplicão
Á cruel, que os não leve, que os não roube
Á senda matisada, onde os seus passos
Deslisão-se macios—ás caricias
D’um seio, que lhes presta brando encosto.
O fio da esperança os liga forte
A um corpo que declina, como os lios
De enrediça tenaz prendida á copa
D’uma arvore comida: amedrontados,
Como das fauces negras d’um abysmo,
Do pavoroso tumulo recuão.
Mas eu, que vago solto, como a folha,
Como o fumo subtil; que não limito
Nos terminos da terra os meus desejos,
Folgo de vêr os renques dos sepulchros
No chão da morte largamente esparsos!
Quasi me alegra vel-os. Tal no exilio
Contempla á beira-mar o degradado
Devolverem-se as vagas,—e saudoso
Da patria sua tão distante—as conta;
Uma por uma as interroga, e pensa
Qual d’aquellas será que o leve e atire,
Naufrago embora e semimorto, ás praias,
Porque chorão seus olhos.—No desterro
Me contemplo tambem,—como elle, choro
A patria, o íman dos meus sonhos gratos.
Abra-se funda a cova ante os meus passos:
Um só delles da morte me separe!...
E esse passo andarei, como quem pisa,
Depois de viajar remotos climas,
O patrio solo, e as auras perfumadas
Do bosque, amigo seu na leda infancia,
Bebe de novo, e de as gozar se applaude.
Hora do passamento! es da existencia
O momento mais sancto, o mais solemne:
Assim o rubro sol, quando no occaso
Em turbilhões de purpura se afunda,
Nos morredouros, despontados raios
Saudoso, extremo adeos á terra envia.
Tal o esposo se aparta suspiroso
E nas azas da brisa manda um beijo
Á esposa, que de o ver partir se enluta,
Rola que vaga na amplidão das selvas.
Cheio de melancholica incerteza,
Dir-te-hei: bem vinda,—ó morte! quando os olhos
Voltar atraz na percorrida estrada;
E chorarei talvez, como quem deixa
O carcere medonho, onde engastada
Nas escamas da dôr gemeu sua alma
Largos annos de antigo soffrimento;
O carcer qu’inda as lagrimas lhe verte
Das humidas paredes, cujos echos
Inda parecem, na soidão da noite,
Repetir seus tristissimos accentos.
Oh! quão formosa a vida se revela
A quem já bate as portas do infinito,
Encostado aos umbraes da eternidade,
A vez extrema contemplando o mundo!
A folha já myrrada, a pedra solta,
A flôr agreste, a fonte que murmura
E as cantoras do céo, as ledas aves
De variado esmalte, e as suspirosas
Brisas da noite e as do romper da aurora,
A estrella, o sol, o mar, o céo, a terra,
A planta, os animaes, tudo então vive,
Tudo comnosco sympathisa,—tudo,
Como orchestra afinada por nossa alma,
Acorde aos nossos sentimentos vibra,
Revelando ao que morre os fins da vida.
Dalli melhor compr’hende-se a existencia,
Mais vasta perspectiva se desdobra
Ante os olhos, que a extrema vez lampejão:
E as scenas que a illusão junca de flores,
Que o desejo nos mostra, que nos pinta
Cubiçoso, irisante,—que a esperança
Fugaz de varios modos nos matisa;
Gloria, ambição, prazer, fallaz ventura,
Tudo se olvida e apaga—semelhante
Á fugitiva estrella ou clarão breve
D’um relampago estivo, que um momento
Se mostra e fulge, logo immerso em trevas.
Que importa que eu não tenha uma só c’rôa,
Um myrrado laurel, uma só folha,
Que ás novas gerações diga o meu nome
E sollicite as attenções futuras?
Sou como o passarinho, quando passa
Á flôr de um lago e a sombra vacillante
No liquido crystal debalde estampa.
Ou semelhante ao viajor que bate
Da vida a estrada pulvurenta, e nota
Como os seus rastos mal impressos cobre
O pó que de seus passos se levanta.
Ah! que dos louros me não dóe a ausencia
Mas de lagrimas, sim, que me orvalhassem
A sepultura humilde,—á cujas gotas
Meus ossos de prazer estremecidos
De as sentir se alegrassem...—mas em troco
Dessa pia oblação, que tantas vezes
Mente ao finado, que as espera eterno,
As lagrimas terei da noite fria,
O fresco humor da chuva, que me eduquem
A agreste flôr, que a natureza obriga
A despontar na solitaria campa.
Ninguem virá com titubantes passos
E os olhos lacrimosos, procurando
O meu jazigo; e em falta de epitaphio,
«Elle aqui jaz!» o coração lhe diga,
E alli se curve então, fundos suspiros
Dando aos echos do funebre recinto,
Involtos na oração que alegra os mortos.
Certo, ninguem virá; porêm tão pouco
Ouvirei maldições, onde escondido,
Já pasto aos vermes, jazerá meu corpo.
Se deixo sobre a terra alguma offensa,
Se alguma vida exacerbei, se acaso
Alguma simples flôr trilhei passando;
Essas, depois d’eu morto, convertidos
Os odios em piedade—«Em paz descança»
Dirão ante o meu tumulo, e voltando
A um lado o rosto,—deixarão dos olhos
Compassiva uma lagrima fugir-lhes!
Tu, Senhor, tu, meu Deos, tu me recebe
Na tua sancta gloria: alarga as azas
Do teu sancto perdão, que ao teu conspecto
Humilhado me sinto, como a grama,
Que o pé do viajor sem custo abate.
A ti volvo, ó Senhor,—bem como o filho,
Que ao sopro paixões soltando as velas
Da juventude ardente, foge ao tecto
E ao lar paterno, onde por fim se acolhe,
Consumido o thesouro da innocencia,
Com rubor dos andrajos da pobreza,
Que o vexa,—para ver do pae o rosto,
Para escutar-lhe a voz, embora tenha
Sobre a cabeça a maldição pendente.

SAUDADES.

A MINHA IRMÃ.

J. A. de M.

I.

Eras criança ainda; mas teu rosto
De ver-me ao lado teu se espanejava
Á luz fugaz de um infantil sorriso!
Eras criança ainda; mas teus olhos
De uma brandura angelica, indizivel,
De sympathicas lagrimas turbavão-se
Ao ver-me o aspecto merencorio e triste;
E amigo refrigerio me sopravão,
Um balsamo divino sobre as chagas
Do coração, que a dôr me espedaçava!
A luz de uma razão que desabrocha,
As leves graças, que a innocencia adornão,
Os infantis requebros, as meiguices
De uma alma ingenua e pura—em ti brilhavão.
Eu, gasto pela dôr antes de tempo,
Conhecendo por ti o que era a infancia,
Remoçava de ver teu rosto bello.
Pouco era vel-o!—em ti me transformava;
Bebendo a tua vida em longos tragos,
Todo o teu ser em mim se transfundia:
Meu era o teu viver, sem que o soubesses,
Tua innocencia, tuas graças minhas:
Não, não era ditoso em taes momentos,
Mas de que era infeliz me deslembrava!

Tinhas sobre mim poder immenso,
Indizivel condão, e o não sabias!
Assim da tarde a brisa corre a terra,
Embalsamando o ar e o céo de aromas:
Enreda-se entre flores suspirosa,
Geme entre as flores que o luar prateia,
E não sabe, e não vê, quantos queixumes
Apaga—quantas magoas alivia!
Assim, durante a noite, o passarinho
Em moita de jasmins derrama occulto
Merencorias canções nos mansos ares;
E não sabe, o feliz, de quantos olhos
Tristes, mas doces lagrimas, arranca!

II.

Perderão-te os meus olhos um momento!
E na volta o meu rosto transtornado,
As vestes luctuosas, que eu trajava,
O mudo, amargo pranto que eu vertia,
Annuncio triste foi de uma desdita,
Qual jámais sentirás: teus tenros annos
Pouparão-te essa dôr, que não tem nome.
De quando sobre as bordas de um sepulchro
Anceia um filho, e nas feições queridas
D’um pai, d’um conselheiro, d’um amigo
O sello eterno vae gravando a morte!
Escutei suas ultimas palavras,
Repassado de dôr!—junto ao seu leito,
De joelhos, em lagrimas banhado,
Recebi os seus ultimos suspiros.
E a luz funerea e triste que lançarão
Seus olhos turvos ao partir da vida
De pallido clarão cobrio meu rosto,
No meu amargo pranto reflectindo
O cançado porvir que me aguardava!

Tu nada viste, não; mas só de ver-me,
Flôr que sorrias ao nascer da aurora
No denso musgo dos teus verdes annos,
A procella imminente presentiste,
Curvaste o leve hastil, e sobre a terra
Da noite o puro aljofar derramaste.

III.

O encanto se quebrára!—duros fados
Inda outra vez de ti me separavão.
Assim dois ramos verdes juntos crescem
N’um mesmo tronco; mas se o raio os toca,
Lascado o mais robusto cahe sem graça
De rojo sobre o chão, em quanto o outro
Da primavera as galas pavoneia!
Já não ha quem de novo unil-os possa,
Quem os force a vingar e a florir juntos!

Parti, dizendo adeus á minha infancia,
Aos sitios que eu amei, aos rostos caros,
Que eu já no berço conheci,—áquelles
De quem máo grado, a ausencia, o tempo, a morte
E a incerteza cruel do meu destino,
Não me posso lembrar sem ter saudades,
Sem que aos meus olhos lagrimas despontem.
Parti! sulquei as vagas do oceano;
Nas horas melancolicas da tarde,
Volvendo atraz o coração e o rosto,
Onde o sol, onde a esp’rança me ficava,
Misturei meus tristissimos gemidos
Aos sibilos dos ventos nas enxarcias!

Revolvido e cavado o negro abysmo,
Rugia indomito a meus pés: sorvia
No fragor da procella os meus soluços.
Vago triste e sosinho sobre os mares,
—Dizia eu entre mim,—na companhia
De crestados, de rispidos marujos,
Mais duros que o seu concavo madeiro!
Ave educada nas floridas selvas,
Vim da praia beijar a fina areia.
Subitaneo tufão arrebatou-me,
Perdi a verde relva, o brando ninho,
Nem jamais casarei doces gorgeios
Ao saudoso rugir dos meus palmares;
Porêm a branca angelica mimosa,
Com seu candor enamorando as aguas,
Florece ás margens do meu patrio rio.

IV.

Largo espaço de terras estrangeiras
E de climas inhospitos e duros
Interpoz-se entre nós!—Ao ver nublado
Um céo d’inverno e as arvores sem folhas,
De neve as altas serras branqueadas,
E entre esta natureza fria e morta
A espaços derramadas pelos valles
Triste oliveira, ou funebre cypreste,
O coração se me apertou no peito.
Arrasados de lagrimas os olhos,
Segui no pensamento as andorinhas,
Nos invejados vôos!—procuravão,
Como eu tambem nos sonhos que mentião,
A terra que um sol calido vigora,
E em frouxa languidez estende os nervos.
Patria da luz, das flores!—nunca eu veja
O sol, que adoro tanto, ir afundar-se
Nestes da Europa revoltosos mares;
Nem tibia lua, involta em nuvens densas,
Luzindo mortuaria sobre os campos
De frios sues queimados.—Ai! dizia,
Ai d’aquelle que um fado aventureiro,
Qual destroço de misero naufragio,
A longinqua e remota plaga arroja!
Ai d’aquelle que em terras estrangeiras
Corta nas azas do desejo o espaço,
Em quanto a realidade o vexa entorno
E oppresso o coração de dôr estala!
Onde a pedra, onde o seio em que descance?
Que arbusto ha de prestar-lhe grata sombra
E olentes flores derramar co’a brisa
Na fronte encandecida? Peregrino,
Em toda a parte forasteiro o chamão!
Insensivel a dôr, na sua marcha,
Não, não attende ao termo da jornada;
Mas volta atraz o rosto,—e entre as sombras
Confusas do horisonte—encherga apenas
O debil fio da esperança teso,
E da ingrata distancia adelgaçado!

E todavia amei! pude um momento
Vêr perto a doce imagem debruçada
Nas aguas do Mondego,—ouvir-lhe um terno
Suspiro do imo peito, mais ameno,
Mais saudoso que as auras encantadas,
Que entre os seus salgueiraes morão loquaces!
Foi um momento só!—talvez agora
Nas mesmas aguas se repete imagem
Dos meus sonhos de então!—talvez a brisa,
Nas folhas dos salgueiros murmurando,
Meu nome junto ao seu repete aos echos,
Que eu, triste e longe della, escuto ainda!

Sim, amei; fosse embora um só momento!
Meu sangue, requeimado ao sol dos tropicos,
Em vivas labaredas conflagrou-se.
Feliz n’aquelle incendio ardeo minha alma,
Um anno, talvez mais! Qual foi primeiro
A soltar, a romper tão doces laços
Não podera dizel-o, em que o quizesse.
Tão louco estava então,—dores tão cruas,
Magoas tantas depois me acabrunharão,
Que desse meu passado extincta a idéa,
Deixou-me apenas um soffrer confuso,
Como quem de um máo sonho se recorda!
Assim, depois de arder um denso bosque
Dos ventos a mercê revôa a cinza
N’um paramo deserto! Nada resta;
Nem se quer a vereda solitaria,
A cuja extremidade o amor velava!

V.

Rotos na infancia os laços de familia,
Os fados me vedavão reatal-os,
Ter a meu lado uma consorte amada,
Rever-me na affeição dos filhos caros,
Viver nelles, curar do seu futuro
E neste empenho consumir meus dias;
Mas ao menos, pensava,—ser-me-ha dado
Amimar e suster nos meus joelhos
Da minha irmã querida a tenra prole,
Inclinal-a a piedade, e ao relatar-lhe
Os successos da minha vida errante,
Innocular-lhe o dom fatal das lagrimas!
Essa mesma esperança não me illude;
Ave educada nas floridas selvas,
Um tufão me expellio do patrio ninho.
As tardes dos meus dias borrascosos
Não terei de passar, sentado á porta
Do abrigo de meus paes,—nem longe delle,
Verei tranquillo aproximar-se o inverno,
E pôr do sol dos meus cançados annos!