SIRVA DE PROLOGO.
A collecção de poesias, que agora reimprimo, vae illustrada com algumas linhas de A. Herculano, a que devo a maior satisfação que tenho até hoje experimentado na minha vida litteraria.
Merecer a critica de A. Herculano, já eu consideraria como bastante honroso para mim; uma simples menção do meo primeiro volume, rubricada com o seo nome, desejava-o de certo; mas esperal-o, seria da minha parte demasiada vaidade.
Ora, em vez da critica inflexivel, que eu devera, mas não ousava receiar; em vez da simples noticia do apparecimento de um volume, que não seria de todo ruim, pois que teria merecido occupar a sua attenção; o illustre escriptor poz por alguns momentos de parte a severidade que tem direito de usar para com todos, quando é tão severo para comsigo mesmo,—e, benevolamente indulgente, dirigio me algumas linhas, que me fizerão comprehender quão alto eu reputava a sua gloria, na plenitude de contentamento, de que as suas palavras me deixarão possuido.
O escriptor conhecia-o eu ha muito, mas de nome e pelas suas obras: essas obras que todos nós temos lido, e esse nome que eu sempre ouvira pronunciar com admiração e respeito.
Se pois, n’aquella occasião, me fosse dado escolher auctor para esse artigo, não podia recahir em outro a minha escolha. Hoje, com mais razão. Tive ensejo de o conhecer pessoalmente, e a fortuna de encontrar nelle um d’aquelles poucos, d’alta intelligencia, que não perdem em serem admirados de perto, e cuja amizade se pode ambicionar como um thesouro: fortuna, digo, por que o é de certo, quando se admira o escripto, que se possa ao mesmo tempo estimar o escriptor; e ainda maior fortuna, quando queremos manifestar o nosso reconhecimento, que nos não remorda a consciencia, previnindo-nos, de que ainda quando digamos mais do que a verdade, ficaremos sempre aquem do que devemos.
Ahi vae o artigo tal qual o transcreveo e remetteo-me de Lisboa o meo bom amigo Gomes de Amorim.
Dresde 30 de Março de 1857.