WeRead Powered by ReaderPub
Cantos cover

Cantos

Chapter 24: TRISTEZA.
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

POESIAS DIVERSAS.


A LEVIANA.

Souvent femme varie,
Bien fol est qui s’y fie.
FRANCISCO I.
Es engraçada e formosa
Como a rosa,
Como a rosa em mez d’Abril;
Es como a nuvem doirada
Deslisada,
Deslisada em céos d’anil.
Tu es vária e melindrosa,
Qual formosa
Borboleta n’um jardim,
Que as flores todas afaga,
E divaga
Em devaneio sem fim.
Es pura, como uma estrella
Doce e bella,
Que treme incerta no mar;
Mostras nos olhos tua alma
Terna e calma,
Como a luz d’almo luar.
Tuas formas tão donosas,
Tão airosas,
Formas da terra não são;
Pareces anjo formoso,
Vaporoso,
Vindo da etherea mansão.
Assim, beijar-te receio,
Contra o seio
Eu tremo de te apertar;
Pois me parece que um beijo
É sobejo
Para o teo corpo quebrar.
Mas não digas que es so minha!
Passa azinha
A vida, como a ventura,
Que te não vejão brincando,
E folgando
Sobre a minha sepultura.
Tal os sepulcros colora
Bella aurora
De fulgores radiante;
Tal a vaga maripôsa
Brinca e pousa
D’um cadaver no semblante.

A MINHA MUSA.

Gratia, Musa, tibi; nam tu solatia praebes.
OVIDIO.
Minha Musa não é como nympha
Que se eleva das agoas—gentil—
Co’um sorriso nos labios mimosos,
Com requebros, com ar senhoril.
Nem lhe pouza nas faces redondas
Dos fagueiros anhelos a cor;
N’esta terra não tem uma esp’rança,
N’esta terra não tem um amor.
Como fada de meigos encantos,
Não habita um palacio encantado,
Quer em meio de matas sombrias,
Quer á beira do mar levantado.
Não tem ella uma senda florida,
De perfumes, de flores bem cheia,
Onde vague com passos incertos,
Quando o céo de luzeiros se arreia.

Não é como a de Horacio a minha Musa;
Nos soberbos alpendres dos Senhores
Não é que ella reside;
Ao banquete do grande em lauta mesa,
Onde gira o falerno em taças d’oiro,
Não é que ella preside.
Ella ama a solidão, ama o silencio,
Ama o prado florido, a selva umbrosa
E da rola o carpir.
Ella ama a viração da tarde amena,
O susurro das agoas, os accentos
De profundo sentir.
D’Anacreonte o genio prazenteiro,
Que de flores cingia a fronte calva
Em brilhante festim,
Tomando inspirações á doce amada,
Que leda lh’enflorava a eburnea lyra;
De que me serve, a mim?
Canções que a turba nutre, inspira, exalta
Nas cordas magoadas me não pousão
Da lyra de marfim.
Correm meos dias, lacrimosos, tristes,
Como a noite que estende as negras azas
Por céo negro e sem fim.
É triste a minha Musa, como é triste
O sincero verter d’amargo pranto
D’orfã singela;
É triste como o som que a brisa espalha,
Que cicia nas folhas do arvoredo
Por noite bella.
É triste como o som que o sino ao longe
Vai perder na extensão d’ameno prado
Da tarde no cahir,
Quando nasce o silencio involto em trevas,
Quando os astros derramão sobre a terra
Merencorio luzir.
Ella então, sem destino, erra por valles,
Erra por altos montes, onde a enchada
Fundo e fundo cavou;
E pára; perto, jovial pastora
Cantando passa—e ella scisma ainda
Depois que esta passou.
Alem—da chóça humilde s’ergue o fumo
Que em risonha spiral se eleva ás nuvens
Da noite entre os vapores;
Muge solto o rebanho; e lento o passo,
Cantando em voz sonora, porém baixa,
Vêm andando os pastores.
Outras vezes tambem, no cemiterio,
Incerta volve o passo, soletrando
Recordações da vida;
Roça o negro cipreste, calca o musgo,
Que o tempo fez brotar por entre as fendas
Da pedra carcomida.
Então corre o meo pranto muito e muito
Sobre as humidas cordas da minha Harpa,
Que não resôão;
Não chóro os mortos, não; chóro os meos dias,
Tão sentidos, tão longos, tão amargos,
Que em vão se escôão.
Nesse pobre cemiterio
Quem já me dera um logar!
Esta vida mal vivida
Quem já m’a dera acabar!
Tenho inveja ao pegureiro,
Da pastora invejo a vida,
Invejo o somno dos mortos
Sob a lage carcomida.
Se qual pegão tormentoso,
O sopro da desventura
Vae bater potente á porta
De sumida sepultura;
Uma voz não lhe responde,
Não lhe responde um gemido,
Não lhe responde uma prece,
Um ai—do peito sentido.
Já não têm voz com que fallem,
Já não têm que padecer;
No passar da vida á morte
Foi seo extremo soffrer.
Que lh’importa a desventura?
Ella passou, qual gemido
Da brisa em meio da mata
De verde alecrim florido.
Quem me dera ser como elles!
Quem me dera descansar!
Nesse pobre cemiterio
Quem me dera o meo logar,
E co’os sons das Harpas d’anjos
Da minha Harpa os sons casar!

DESEJO.

E poi morir.
METASTASIO.
Ah! que eu não morra sem provar, ao menos
Siquer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meo!
Dá, Senhor Deos, que eu sobre a terra encontre
Um anjo, uma mulher, uma obra tua,
Que sinta o meo sentir;
Uma alma que me entenda, irmã da minha,
Que escute o meo silencio, que me siga
Dos ares na amplidão!
Que em laço estreito unidas, juntas, presas,
Deixando a terra e o lodo, aos céos remontem
N’um extasis de amor!

SEOS OLHOS.

Oh! rouvre tes grande yeux dont la paupière tremble,
Tes yeux pleins de langueur;
Leur regard est si beau quand nous sommes ensemble!
Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble
Que tu fermes ton coeur.
TURQUETY.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrellas incertas, que as agoas dormentes
Do mar vão ferir;
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
Tem meiga expressão,
Mais doce que a briza,—mais doce que o nauta
De noite cantando,—mais doce que a frauta
Quebrando a soidão,
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.
São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travêssos;—causando tormento,
Com beijos nos págão a dôr de um momento,
Com modo gentil.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
Assim é que são;
A vezes luzindo, serenos, tranquillos,
As vezes vulcão!
As vezes, oh! sim, derramão tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes fallece,
E os olhos tão meigos, que o pranto humedece,
Me fazem chorar.
Assim lindo infante, que dorme tranquillo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, scismando mil coisas,
Não pensa—a pensar.
Nas almas tão puras da virgem, do infante,
As vezes do céo
Cae doce harmonia d’uma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se véste
De pranto co’um véo.
Quer sejão saudades, quer sejão desejos
Da patria melhor;
Eu amo seos olhos que chórão sem causa
Um pranto sem dôr.
Eu amo seos olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seos olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que fallão de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo essos olhos que fallão de amores
Com tanta paixão.

INNOCENCIA.

Sans nommer le nom qu’il faut bénir et taire.

S. BEUVE.

Ó meo anjo, vem correndo,
Vem tremendo
Lançar-te nos braços meos;
Vem depressa, que a lembrança
Da tardança
Me aviva os rigores teos.
Do teo rosto, qual marfim,
De carmim
Tinge um nada a côr mimosa;
É bello o pudor, mas chóro,
E deploro
Que assim sejas tão medrosa.
Por innocente tens medo
De tão cedo,
De tão cedo ter amor;
Mas sabe que a formosura
Pouco dura,
Pouco dura, como a flôr.
Corre a vida pressurosa,
Como a rosa,
Como a rosa na corrente.
Amanhã terás amor?
Como a flôr,
Como a flôr fenece a gente.
Hoje ainda es tu donzella
Pura e bella,
Cheia de meigo pudor;
Amanhã menos ardente
De repente
Talvez sintas meo amor.

PEDIDO.

Hontem no baile
Não me attendias!
Não me attendias,
Quando eu fallava.
De mim bem longe
Teo pensamento!
Teo pensamento,
Bem longe errava.
Eu vi teos olhos
Sobre outros olhos!
Sobre outros olhos,
Que eu odiava.
Tu lhe sorriste
Com tal sorriso!
Com tal sorriso,
Que apunhalava.
Tu lhe fallaste
Com voz tão doce!
Com voz tão doce,
Que me matava.
Oh! não lhe falles,
Não lhe sorrias,
Se então só qu’rias
Exp’rimentar-me.
Oh! não lhe falles,
Não lhe sorrias,
Não lhe sorrias,
Que era matar-me.

O DESENGANO.

Já vigilias passei namorado,
Doces horas d’insomnia passei,
Já meos olhos, d’amor fascinado,
Em vêr só meo amor empreguei.
Meo amor era puro, extremoso,
Era amor que meo peito sentia,
Erão lavas de um fogo teimoso,
Erão notas de meiga harmonia.
Harmonia era ouvir sua voz,
Era ver seo sorriso harmonia;
E os seos modos e gestos e ditos
Erão graças, perfume e magia.

E o que era o teo amor, que me embalava
Mais do que meigos sons de meiga lyra?
Um dia o decifrou—não mais que um dia—
Fingimento e mentira!
Tão bello o nosso amor!—foi só de um dia,
Como uma flôr!
Porque tão cedo o talisman quebraste
Do nosso amor?
Porque n’um só instante assim partiste
Essa annosa cadeia?
De bom grado a soffreste! essa lembrança
Inda hoje me recreia.
Quão insensato fui!—busquei firmeza,
Qual em ondas de areia movediça,
Na mulher,—não achei!
E da esp’rança, que eu via tão donosa
Sorrir dentro em minha alma, as longas azas
Doido e nescio cortei!
E tu vás caprixosa proseguindo
Essa esteira de amor, que julgas cheia
De flôres bem gentis;
Pódes ir, que os meos olhos te não vejão;
Longe, longe de mim, mas que em minha alma
Eu sinta qu’es feliz.
Pódes ir, que é desfeito o nosso laço,
Pódes ir, que o teo nome nos meos labios
Nunca mais soará!
Sim, vai;—mas este amor que me atormenta,
Que tão grato me foi, que me é tão duro,
Commigo morrerá!
Tão bello o nosso amor!—foi só de um dia
Como uma flôr!
Oh! que bem cedo o talisman quebraste
Do nosso amor!

MINHA VIDA E MEOS AMORES.

Mon Dieu, fais que je puisse aimer!

S. BEUVE.

Quando, no albor da vida, fascinado
Com tanta luz e brilho e pompa e gallas,
Vi o mundo sorrir-me esperançoso:
—Meo Deos, disse entre mim, oh! quanto é doce,
Quanto é bella esta vida assim vivida!—
Agora, logo, aqui, além, notando
Uma pedra, uma flôr, uma lindeza,
Um seixo da corrente, uma conxinha
A beiramar colhida!
Foi esta a infancia minha; a juventude
Fallou-me ao coração:—amemos, disse,
Porque amar é viver.
E esta era linda, como é linda a aurora
No fresco da manhã tingindo as nuvens
De rosea côr fagueira;
Aquella tinha um quê de anhelos meigos
Artifice sublime;
Feiticeiro sorrir dos labios della
Prendeo-me o coração;—julguei-o ao menos.
Aquella outra sorria tristemente,
Como um anjo no exilio, ou como o calix
De flôr pendida e murcha e já sem brilho.
Humilde flôr tão bella e tão cheirosa,
No seo deserto perfumando os ventos.
—Eu morrêra feliz, dizia eu d’alma,
Se podesse enxertar uma esperança
N’aquella alma tão pura e tão formosa,
E um alegre sorrir nos labios della.
A fugaz borboleta as flôres todas
Elege, e liba e uma e outra, e foge
Sempre em novos amores enlevada;
N’este meo paraiso fui como ella,
Inconstante vagando em mar de amores.
O amor sincero e fundo e firme e eterno,
Como o mar em bonança meigo e doce,
Do templo como a luz perenne e sancto,
Não, nunca o senti;—somente o viço
Tão forte dos meos annos, por amores
Tão faceis quanto indi’nos fui trocando.
Quanto fui louco, ó Deos!—Em vez do fructo
Sasonado e maduro, que eu podia
Como em jardim colher, mordi no fructo
Putrido e amargo e rebuçado em cinzas,
Como infante glotão, que se não senta
Á mesa de seos paes.
Dá, meo Deos, que eu possa amar,
Dá que eu sinta uma paixão,
Torna-me virgem minha alma,
E virgem meo coração.
Um dia, em qu’eu sentei-me junto della,
Sua voz murmurou nos meos ouvidos,
—Eu te amo!—Ó anjo, que não possa eu crer-te!
Ella, certo, não é mulher que vive
Nas fezes da deshonra, em cujos labios
Só mentira e traição eterno habitão.
Tem uma alma innocente, um rosto bello,
E amor nos olhos...—mas não posso crê-la.
Dá, meo Deos, que eu possa amar,
Dá que eu sinta uma paixão;
Torna-me virgem minha alma,
E virgem meo coração.
Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo
Terna voz lhe escutei:—Sonhei comtigo!
Ineffavel prazer banhou meo peito,
Senti delicias; mas a sós commigo
Pensei—talvez!—e já não pude crê-la.
Ella tão meiga e tão cheia de encantos,
Ella tão nova, tão pura e tão bella...
Amar-me!—Eu que sou?
Meos olhos enxérgão, em quanto duvída
Minha alma sem crença, de força exhaurida,
Já farta da vida,
Que amor não doirou.
Máo grado meo, crer não posso,
Máo grado meo que assim é;
Queres ligar-te commigo
Sem no amor ter crença e fé?
Antes vai collar teo rosto,
Collar teo seio nevado
Contra o rosto mudo e frio,
Contra o seio d’um finado.
Ou supplíca a Deos commigo
Que me dê uma paixão;
Que me dê crença á minha alma,
E vida ao meo coração.

RECORDAÇÃO.

Nessun maggior dolore....

DANTE.

Quando em meo peito as afflicções rebentão
Eivadas de soffrer acerbo e duro;
Quando a desgraça o coração me arrocha
Em circulos de ferro, com tal força,
Que delle o sangue em borbotões golfeja;
Quando minha alma de soffrer cançada,
Bem que affeita a soffrer, siquer não pode
Clamar: Senhor piedade;—e que os meos olhos
Rebeldes, uma lagrima não vertem
Do mar d’angustias que meo peito opprime:
Volvo aos instantes de ventura, e penso
Que a sós comtigo, em pratica serena,
Melhor futuro me augurava, as doces
Palavras tuas, sofregos, attentos
Sorvendo meos ouvidos,—nos teos olhos
Lendo os meos olhos tanto amor, que a vida
Longa, bem longa, não bastára ainda
Porque de os ver me saciasse!... O pranto
Então dos olhos meos corre espontaneo,
Que não mais te verei.—Em tal pensando
De martyrios calar sinto em meo peito
Tão grande plenitude, que a minha alma
Sente amargo prazer de quanto soffre.

TRISTEZA.

Que leda noite!—Este ar embalsamado,
Este silencio harmonico da terra
Que sereno prazer n’alma cançada
Não expreme, não filtra, não diffunde?
A brisa lá susurra na folhagem
D’espessas matas, d’arvores robustas,
Que velão sempre e sós, que a Deos elevão
Mysterioso côro, que do Bardo
A crença quasi morta inda alimenta.
É esta a hora magica de encantos,
Hora d’inspirações dos céos descidas,
Que em delirio de amor aos céos remontão.
Aqui da vida as lastimas infindas,
Do myrrado egoismo a voz ruidosa
Não chegão; nem soluços, risos, festas,
—Hilaridade vã de turba incauta,
Nescia de ruim futuro; ou queixa amarga
Do decrepito velho, enfermo, exangue,
Nem do mancebo os ais doídos, preso
Ao leito do soffrer na flôr da vida.
Aqui reina o silencio, o religioso,
Morno socego, que povôa as ruinas,
E o mausoléo soberbo, carcomido,
E o templo magestoso, em cuja nave
Suspira ainda a nota maviosa,
O derradeiro arfar d’orgão solemne.
Em puro céo a lua resplandece,
Melancolica e pura, simelhando
Gentil viuva que pranteia o extincto,
O bello esposo amado, e vem de noite,
Vivendo pelo amor, máo grado a morte,
Ferventes orações chorar sobre elle.
Eu amo o céo assim, sem uma estrella,
Azul sem mancha,—a lua equilibrada
N’um céo de nuvens, e o frescor da tarde,
E o silencio da noite adormecida,
Que imagens vagas de prazer desenha.
Amo tudo o que dá no peito e n’alma
Tregoas ao recordar, tregoas ao pranto,
Á v’hemencia da dôr, á pertinacia
Tenaz e acerba de crueis lembranças;
Amo estar só com Deos, porque nos homens
Achar não pude amor, nem pude ao menos
Signal de compaixão achar entre elles.
Menti!—um inda achei; mas este em ocio
Feliz descança agora, em quanto aos ventos
E ao cru furor das verde-negras ondas
Da minha vida a barca aventureira
Insano confiei; em céo diverso
Luzem com luz diversa estrellas d’ambos.
Ai! triste, que houve tempo em que eu julgava
As duas uma só,—co’o mesmo brilho
Uma e outra nos céos meigas brilhavão!
Hoje scintilla a delle, em quanto a minha
Entre nuvens, sem luz, se perde agora.
Meo Deos, foi bom assim! No immenso pégo
Mais uma gota d’amargor que importa?
Que importa o fel na taça do absyntho,
Ou uma dôr de mais onde outras reinão?

O TROVADOR.

Elle cantava tudo o que merece de ser cantado; o que ha na terra de grande e de sancto—o amor e a virtude.—

N’uma terra antigamente
Existia um Trovador;
Na Lyra sua innocente
Só cantava o seo amor.
Nenhum saráo se acabava
Sem a Lyra de marfim,
Pois cantar tão alto e doce
Nunca alguem ouvira assim.
E quer donzella, quer dona,
Que sentira commoção
Pular-lhe n’alma, escutando
Do Trovador a canção;
De jasmins e de açucenas
A fronte sua adornou;
Mas só a rosa da amada
Na Lyra amante poisou.
E o Trovador conheceo
Que era trahido—por fim;
Poz-se a andar, e só se ouvia
Nos seus labios: ai de mim!
Enlutou de negro fumo
A rosa de seo amor,
Que meia occulta se via
Na gorra do Trovador;
Como virgem bella, morta
Da idade na linda flôr,
Que parece, o dó trajando,
Inda sorrir-se de amor.
No meio do seo caminho
Gentil donzella encontrou:
Canta—disse; e as cordas d’oiro
Vibrando, a triste cantou.
«Teo rosto engraçado e bello
«Tem a lindeza da flôr;
«Mas é risonho o teo rosto:
«Não tens de sentir amor!
«Mas tão bem por esse dia
«Que viverás, como a flôr,
«Mimosa, engraçada e bella,
«Não tens de sentir amor!
«Oh! não queiras, por Deos, homem que tenha
«Tingida a larga testa de pallor;
«Sente fundo a paixão,—e tu no mundo
«Não tens de sentir amor!
«Sorriso jovial te enfeita os labios,
«Nas faces de jasmim tens rosea côr;
«Fundo amor não se ri, não é corado...
«Não tens de sentir amor;
«Mas se queres amar, eu te aconselho,
«Que não guerreiro, escolhe um trovador,
«Que não tem um punhal, quando é trahido,
«Que vingue o seu amor.»
Do Trovador pelo rosto
Torva raiva se espalhou,
E a Lyra sua, tremendo,
Sem cordas d’oiro ficou.
Mais além no seo caminho
Donzel garboso encontrou:
Canta—disse; e argenteas cordas
Pulsando, o triste cantou.
«Aos homens da mulher enganão sempre
«O sorriso, o amor;
«É este breve, como é breve aquelle
«Sorriso enganador.
«Teo peito por amor, Donzel, suspira,
«Que é de jovens amar a formosura;
«Mas sabe que a mulher, que amor te jura,
«Dos lindos labios seos cospe a mentira!
«Já frenetico amor cantei na lyra,
«Delicias já sorvi n’um seo sorriso,
«Já venturas fruí do paraiso,
«Em terna voz de amor, que era mentira!
«O amor é como a aragem que murmura
«Da tarde no cahir—pela folhagem;
«Não volta o mesmo amor á formosura,
«Bem como nunca volta a mesma aragem.
«Não queiras amar, não; pois que a ’sperança
«Se arroja além do amor por largo espaço.
«Tens, brillando ao sol, a forte lança,
«Tens longa espada scintillante d’aço.
«Tens a fina armadura de Milão,
«Tens luzente e brillante capacete,
«Tens adága e punhal e bracelete
«E, qual lúcido espelho, o morrião.
«Tens fogoso corsel todo arreiado,
«Que mais veloz que os ventos sorve a terra;
«Tens duellos, tens justas, tens torneios,
«Que os fracos corações de medo cerra;
«Tens pagens, tens varletes e escudeiros
«E a marcha afoita, apercebida em guerra
«Do luzido esquadrão de mil guerreiros.
«Oh! não queiras amar!—Como entre a neve
«O gigante volcão borbulha e ferve
«E sulfurea chamma pelos ares lança,
«Que após o seo cahir torna-se fria;
«Assim tu acharás petrificada,
«Bem como a lava ardente do volcão,
«A lava que teo peito consumia
«No peito da mulher—ou cinza ou nada—
«Não frio mas gelado o coração!»
E o Trovador despeitoso
De prata as cordas quebrou,
E nas de chumbo seo fado
A lastimar começou.
«Que triste que é n’este mundo
«O fado d’um Trovador!
«Que triste que é!—bem que tenha
«Sua Lyra e seu amor.
«Quando em festejos descanta,
«Rasgado o peito com dôr,
«Mimoso tem de cantar
«Na sua Lyra—o amor!
«Como a um servo vil ordena
«Um orgulhoso Senhor,
«Canta, diz-lhe; quero ouvir-te:
«Quero descantes de amor!
«Diz-lhe o guerreiro, que apenas
«Lidou em justas de amor:
«—Minha dama quer ouvir-te,
«Canta, truão trovador!—
«Manda a mulher que nos deixa
«De beijos murchada flôr:
«—Canta, truão, quero ouvir-te,
«Um terno canto de amor!
«Mas se a mulher, que elle adora
«Atraiçôa o seo amor;
«Embalde busca a seo lado
«Um punhal—o Trovador!
«Se escuta palavras della,
«Que a outros jurão amor;
«Embalde busca a seo lado
«Um punhal—o Trovador!
«Se vê luzir de alguns labios
«Um sorriso mofador;
«Embalde busca a seo lado
«Um punhal—o Trovador!
«Que triste que é n’este mundo
«O fado d’um Trovador!
«Pezar lhe dá sua Lyra,
«Dá-lhe pezar seo amor!»
E o Trovador n’este ponto
A corda extrema arrancou;
E n’um marco do caminho
A Lyra sua quebrou:
Ninguem mais a voz sentida
Do Trovador escutou!

AMOR! DELIRIO—ENGANO.