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Chapter 27: DELIRIO.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Y el llanto que en su cólera derrama,
La hoguera apaga del antiguo amor!
ZORRILLA.
Amor! delirio—engano.... Sobre a terra
Amor tão bem fruí; a vida inteira
Concentrei n’um só ponto—ama-la, e sempre.
Amei!—dedicação, ternura, extremos
Scismou meo coração, scismou minha alma,
—Minha alma que na taça da ventura
Vida breve d’amor sorveo gostosa.
Eu e ella, ambos nós, na terra ingrata
Oásis, paraiso, eden ou templo
Habitámos uma hora; e logo o tempo
Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto,
Doce encanto que o amor nos fabricára.
E eu sempre a via!... quer nas nuvens d’oiro,
Quando ia o sol nas vagas sepultar-se,
Ou quer na branca nuvem que velava
O circulo da lua,—quer no manto
D’alvacenta neblina que baixava
Sobre as folhas do bosque, muda e grave,
Da tarde no cahir; nos céos, na terra,
A ella, a ella só, vião meos olhos.
Seo nome, sua voz—ouvia eu sempre;
Ouvia-os no gemer da parda rola,
No trepido correr da veia argentea,
No respirar da brisa, no susurro
Do arvoredo frondoso, na harmonia
Dos astros ineffavel;—o seo nome!
Nos fugitivos sons de alguma frauta,
Que da noite o silencio realçavão,
Os ares e a amplidão divinisando,
Ouvião meos ouvidos; e de ouvil-o
Arfava de prazer meo peito ardente.
Ah! quantas vezes, quantas! junto d’ella
Não senti sua mão tremer na minha;
Não lhe escutei um languido suspiro,
Que vinha lá do peito á flor dos labios
Deslisar-se e morrer?! Dos seos cabellos
A magica fragrancia respirando,
Escutando-lhe a voz doce e pausada,
Mil venturas colhi dos labios d’ella,
Que instantes de prazer me futuravão.
Cada sorriso seo era uma esp’rança,
E cada esp’rança enlouquecer de amores.
E eu amei tanto!—Oh! não! não hão de os homens
Saber que amor, á ingrata, havia eu dado;
Que affectos melindrosos, que em meo peito
Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte!
Oh! não,—morra commigo o meo segredo;
Rebelde o coração murmure embora.
Que de vezes, pensando a sós commigo,
Não disse eu entre mim:—Anjo formoso,
Da minha vida que farei, se acaso
Faltar-me o teo amor um só instante;
—Eu que só vivo por te amar, que apenas
O que sinto por ti a custo exprimo?
No mundo que farei, como estrangeiro
Pelas vagas crueis á praia inhóspita
Exanime arrojado?—Eu, que isto disse,
Existo e penso—e não morri,—não morro
Do que outr’ora senti, do que ora sinto,
De pensar nella, de a revêr em sonhos,
Do que fui, do que sou e ser podia!
Existo; e ella de mim jaz esquecida!
Esquecida talvez de amor tamanho,
Derramando talvez n’outros ouvidos
Frases doces de amor, que dos seos labios
Tantas vezes ouvi,—que tantas vezes
Em extasis divino aos céos me alçárão,
—Que dando á terra ingrata o que era terra
Minha alma além das nuvens transportárão.
Existo! como outr’ora, no meo peito
Férvido o coração pular sentindo,
Todo o fogo da vida derramando
Em queixas mulherís, em molles versos.
E ella!... ella talvez nos braços d’outrem
Com sua vida alimenta uma outra vida,
Com o seo coração o de outro amante,
Que mais feliz do que eu, inferno! a goza.
Ella, que eu respeitei, que eu venerava
Como a reliquia sancta!—a quem meus olhos,
Receiando offendel-a, tantas vezes
De castos e de humildes se abaixárão!
Ella, perante quem sentia eu presa
A voz nos labios e a paixão no peito!
Ella, idolo meo, a quem o orgulho,
A força d’homem, o sentir, vontade
Propria e minha dediquei,—sugeita
Á voz de alguem que não sou eu,—desperta,
Talvez no instante em que de mim se lembra,
Por um osculo frio, por caricias
Devidas dum esposo!...
Oh! não poder-te,
Abutre roedor, cruel ciume,
Tua funda raiz e a imagem d’ella
No peito em sangue espedaçar raivoso!
Mas tu, cruel, que es meo rival, n’uma hora,
Em que ella só julgar-se, has de escutar-lhe
Um quebrado suspiro do imo peito,
Que d’éras ja passadas se recorda.
Has de escutal-o, e ver-lhe a côr do rosto
Enrubecer-se ao deparar comtigo!
Preza serás tambem d’átros cuidados,
Terás ciume, e soffrerás qual soffro:
Nem menor que o meo mal quero a vingança.

DELIRIO.

Quando dormimos nosso espirito véla.

ESCHYLO.

A noite quando durmo, esclarecendo
As trevas do meu somno,
Uma etherea visão vem assentar-se
Junto ao meu leito afflicto!
Anjo ou mulher? não sei.—Ah! se não fosse
Um qual véo transparente,
Como que a alma pura alli se pinta
Ao travez do semblante,
Eu a crêra mulher...—E tentas, louco,
Recordar o passado,
Transformando o prazer, que desfructaste,
Em lentas agonias?!
Visão, fatal visão, porque derramas
Sobre o meo rosto pallido
A luz de um longo olhar, que amor exprime
E pede compaixão?
Porque teo coração exhala uns fundos,
Magoados suspiros.
Que eu não escuto; mas que vejo e sinto
Nos teos labios morrer?
Porque esse gesto e morbida postura
De macerado espirito,
Que vive entre afflicções, que já nem sabe
Desfructar um prazer?
Tu fallas! tu que dizes? este accento,
Esta voz melindrosa,
N’outros tempos ouvi, porém mais leda;
Era um hymno d’amor.
A voz, que escuto, é magoada e triste,
—Harmonia celeste,
Que á noite vem nas azas do silencio
Humedecer as faces
Do que enxerga outra vida além das nuvens.
Esta voz não é sua;
É accorde talvez d’harpa celeste,
Cahido sobre a terra!
Balbucias uns sons, que eu mal percebo,
Doridos, compassados,
Fracos, mais fracos;—lagrimas despontão
Nos teos olhos brilhantes...
Choras! tu choras!... Para mim teos braços
Por força irresistivel
Estendem-se, procurão-me; procuro-te
Em delirio afanoso.
Fatídico poder entre nós ambos
Ergueo alta barreira;
Elle te enlaça e prende ... mal resistes...
Cédes emfim ... acórdo!
Acórdo do meo sonho tormentoso,
E chóro o meo sonhar!
E fecho os olhos, e de novo intento
O sonho reatar.
Embalde! porque a vida me tem preso;
E eu sou escravo seo!
Acordado ou dormindo, é triste a vida
Desque o amor se perdeo.
Ha comtudo prazer em nos lembrarmos
Da passada ventura,
Como o que educa flôres vicejantes
Em triste sepultura.

EPICEDIO.

Passa la bella donna e par che dorma.

TASSO.

Seo rosto pallido e bello
Já não tem vida nem côr!
Sobre elle a morte descança,
Involta em baço pallor.
Cerrárão-se olhos tão puros,
Que tinhão tanto fulgor;
Coração que tanto amava
Já hoje não sente amor;
Que o anjo bello da morte
A par desse anjo baixou!
Trocárão brandas palavras,
Que Deos sómente escutou.
Ventura, prazer, ledice
D’uma outra vida cantou;
E o anjo puro da terra
Prazer da terra engeitou.
Depois co’as azas candentes
O formoso anjo do céo
Roçou-lhe a face mimosa,
Cubrio-lhe o rosto co’um véo.
Depois o corpo engraçado
Deixou a terra sem vida,
De tenue pallor coberto,
—Verniz de estatua esquecida.
E bella assim, como um lirio
Murcho da sésta ao ardor,
Teve a innocencia dos anjos,
Tendo o viver d’uma flôr.
Foi breve!—mas a desgraça
A testa não lhe enrugou,
E aos pés do Deos que a creára
Alma inda virgem levou.
Sáe da larva a borboleta,
Sáe da rocha o diamante,
De um cadaver mudo e frio
Sáe uma alma radiante.
Não choremos essa morte,
Não choremos casos taes;
Quando a terra perde um justo,
Conta um anjo o céo de mais.

SOFFRIMENTO.

Meo Deos, Senhor meo Deos, o que ha no mundo
Que não seja soffrer?
O homem nasce, e vive um só instante,
E soffre até morrer!
A flôr ao menos, nesse breve espaço
Do seo doce viver,
Encanta os ares com celeste aroma,
Querida até morrer.
É breve o romper d’alva, mas ao menos
Traz comsigo prazer;
E o homem nasce e vive um só instante:
E soffre até morrer!
Meo peito de gemer já está cançado,
Meos olhos de chorar;
E eu soffro ainda, e já não posso alivio
Sequer no pranto achar!
Já farto de viver, em meia vida,
Quebrado pela dôr,
Meos annos hei passado, uns após outros,
Sem paz e sem amor.
O amor que eu tanto amava do imo peito,
Que nunca pude achar,
Que em balde procurei, na flôr, na planta,
No prado, e terra, e mar!
E agora o que sou eu?—Pallido espectro,
Que da campa fugiu;
Flôr ceifada em botão; imagem triste
De um ente que existio...
Não escutes, meo Deos, esta blasfemia;
Perdão, Senhor, perdão!
Minha alma sinto ainda,—sinto, escuto
Bater-me o coração.
Quando roja meo corpo sobre a terra,
Quando me afflige a dôr,
Minha alma aos céos se eleva, como o incenso,
Como o aroma da flôr.
E eu bemdigo o teo nome eterno e sancto,
Bemdigo a minha dôr,
Que vai além da terra aos céos infindos
Prender-me ao creador.
Bemdigo o nome teo, que uma outra vida
Me fez descortinar,
Uma outra vida, onde não ha só trevas,
E nem ha só penar.