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Cantos

Chapter 31: I. PRODIGIO.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

VISÕES.


I.
PRODIGIO.

N’aquelle instante em que vacilla a mente
Do somno ao despertar, quando pejada
Vem doutros mundos de visões ethereas:
Quando sobre a manhã surge brilhante
A luz da madrugada,—eu vi!... nem sonhos
Era a minha visão, real não era;
Mas tinha d’ambos o talvez.—Quem sabe?
Foi caprixo fallaz da phantasia,
Ou foi certo aventar d’eras venturas?
A ira do Senhor baixou tremenda
Sobre uma vasta capital!—em pedra
Tomou-se a gente impura. Muitos homens
As portas ferreas, largas, vi sentados.
Melhor do que um pintor ou statuario
A morte, que de subito os colhera
No ardor, no afan da vida, conservou-lhes
A acção—partida em meio, com tal força,
Que a mente seo máo grado a completava.
Um tinha os labios entre-abertos; outro
Parecia sorrir; mais longe aquelle
Derramava um segredo, baixo, á medo,
Nos ouvidos do amigo; austero o guarda
Com rosto carregado e barba hirsuta
Nas mãos callosas sopesava a lança.
Dos mercadores na comprida rua
Passavão muitos compradores;—este
Contava montes d’oiro;—á luz aquelle
Expunha a seda do Indostão, de Tyro
A purpura brilhante, a damasquina
Custosa tela entretecida d’oiro.
Cortez sorrindo, o mercador gabava
As cores vivas, o tecido, o corpo
Do estofo que vendia. Nos serralhos
Era o Eunucho imperfeito; das Mesquitas
Bradava á prece o Muezzin...
—N’um largo,
Fofo e vasto divan sentado, um velho
Os versos lia do Alcorão;—só elle
D’entre tanto punir ficára illeso.

II.
A CRUZ.

Era um templo d’arabica structura,
Magestoso, elegante;—alem das nuvens
Se entranhava nos céos subtil a agulha;
Sobre o zimborio retumbante e vasto
Ondas e ondas de vapor crescião.
Dentro corrião tres compridas naves
Sobre dois renques de columnas, onde
Baixos relevos da sagrada historia
Da base ao capitel se emmaranhavão.
Ardia a luz na alampada sagrada;
No sagrado instrumento o som dormia.
Junto á cruz—da fachada egregia pompa—
Muitos homens eu vi de torvo aspecto;
Muitos outros, servís, com mão armada
Profundos golpes entalhavão nella.
Um daquelles no emtanto assim fallava:
«Quando esta humilde cruz rojar por terra;
«Levando a crença de Jesus comsigo
«Nós outros, da verdade Sacerdotes,
«Nós Doutores do mundo, nós Luzeiros
«Que desvendamos a impostura, o erro,
«A mentira sagaz, a crença louca,
«Entrada facil da razão no templo
«Teremos todos; e de então no throno,
«Do nescio vulgo imparciaes sob’ranos,
«Sanctos juises da verdade sancta,
«Pregaremos o justo, a paz, concordia
«E os seus deveres que dimanão faceis
«Do amor do lucro e do interesse; todos
«—Vasallos da razão, nossos vassallos—
«Um eden terreal farão do mundo.»
No emtanto aos crebros golpes do machado
A cruz pendia obliqua sobre a terra.
Creando novas forças com tal vista,
Os operarios mais frequentes golpes
Repetem, vibrão, continuão;—sôa
Por toda a parte o echo,—o som, mais longe,
Retumba, morre—e novamente echôa.
Nisto a cruz—geme—estrala; um grito sóbe
Unisono e geral!...
Como sois grande,
Senhor, Senhor meo Deos!—Eu vi, morrendo
Os obreiros cahir; e a cruz erguer-se,
Como aos raios do sol a flor mimosa
Que a raiva do tufão vergára insana.

III.
PASSAMENTO.

Era um quarto espaçoso;—alli se vião
Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas,
Ricos tapetes multicor bordados,
E franjas complicadas d’um céo d’oiro
Pendentes,—vastos rases narradores
De lenda pia ou de briosos feitos.
Mas de tanto luzir, de tanto ornato
Ora por mãos aváras depredado
O vasto d’área revelava aos olhos,
Tendo n’um canto escuro um leito apenas.
Do leito alguem rasgára o cortinado.
E da curva amação polida e bella
Aqui, alli, pendia a seda em fios,
Bem como tranças de mulher formosa
Por sobre o seio nú.—Alli no leito
Jazia um moribundo; em torno os olhos
Cheios de pasmo e de terror volvia,
Bebendo pelos sofregos ouvidos
Mal sentido rumor d’outro aposento.
Confusas vozes, altercar ruidoso,
E o tinir de metal ouvia apenas!
Então por vezes tres no leito afflicto
Erguer-se maquinou de raiva insano!
Por tres vezes cahio, gemendo, sobre
O leito que da queda se sentia.
Da morte o cru torpor nos membros frios
Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso
Da vida o amor debate-se nas ancias
Desse passo fatal...
—Eis nisto á porta.
Um Padre assoma,—d’entre as mãos erguidas
Da hostia sancta resplendor luzia;
E palavras de paz, de amor, divinas,
Que nos labios do justo Deos entorna,
Abundantes soltava. Longos annos
De piedoso soffrer o corpo enfermo
Alquebrárão por fim; as cãs nevadas
Raras tremião sobre a testa, como
Tremia na garganta a voz cançada.
Dizia o bom do velho:—«Irmão, nas ancias,
«No extremo agonisar da morte amiga
«Ergue os olhos ao céo;—do céo te venha
«Esse divino amor, que só lá mora,
«Que filtra por nossa alma, que nos deixa
«Mais celeste prazer, mais doce arroubo,
«Do que a terra sóe dar...
«Infames, trédos,
«Bufarinheiros de palavras, corvos
«De negro, feio agoiro, que esvoação
«Com grito grasnador por sobre o campo,
«Onde a peleja de reinar começa;
«Dizes-me tu—a mim! a mim que ao fóro
«Caminho inda hoje entre alas de clientes,
«Que so me visto de velludo e d’oiro,
«Em quanto vives de burel coberto,
«Co’os labios sobre o pó mordendo a terra!
«Dizes-me tu—a mim!...»
Ergueo-se,... e o corpo
Cahio de fraco sobre o leito; o velho
No emtanto humilde orava, que alma sancta
Do mal cabido insulto não se offende.
Jehovah, que entre myriadas
Vives de estrellas formosas,
Que das flôres melindrosas
Da terra—os anjos formaste;
Jehovah, que pela agoa
Lustrar quizeste o Messias,
Que ao beato, ao sancto Elias
Nas chammas purificaste;
Jehovah, que a mente apuras
No fogo do soffrimento,
Que divino, alto portento
Déste fazer á Moisés,
Quando a negra rocha dura
Tocando co’a tenue vara,
Rebentou a lympha clara,
Lambendo-lhe mansa os pés;
Jehovah, que eterno existes,
Cujo ser em si se encerra,
Que formaste o céo e a terra,
Que te chamas—o que é,[2]
—Faz, Senhor d’altos prodigios,
Com que a mente empedernida
Não se aparte desta vida
Sem sentir a sancta fé.
E tu, Christo, que soffreste
Martyrios por nosso amor,
Tu que foste o Salvador,
Salva-o, Senhor, por quem es.
Dá que em palavras piedosas
Se derrame contristado,
Como o rochedo tocado
Pela vara de Moisés.
E o confuso rumor do outro aposento
Crescia mais e mais.—Do moribundo
Os cúpidos herdeiros dividião
Por si a vasta herança; os torvos olhos
Ião de rosto a rosto, fusilando
Ameaças de morte.
No entanto o velho exanime e sem forças
Curtia amargos transes, que avarento,
E tendo a vida inutil presa a terra
Com toda a força d’alma,—agora em ancias
Sentia o halito vital fugir-lhe,
E a terra abandonal-o.
Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!...
Só não chorava, que do pranto a fonte
Jazia extincta; mas pensava triste:
—Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos
Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo
Do extremo agonisar.
E a mente, já medrosa, em feio quadro
Lhe pintava os seos feitos;—a vingança,
Que tão grande prazer lhe tinha sido,
Ora em martyrios se tomava; a chusma
Dos homicidios seus crescia torva,
E no leito o cercava.
Crença infantil! dizia; loucos, cegos
Prejuizos do vulgo;—e assim dizendo
Os vãos phantasmas repellir buscava.
Mas a crença infantil, os prejuizos
Do nescio vulgo, rispidos tornavão,
Como insecto importuno.
Debalde por não ver cerrava os olhos,
Sobre os olhos debalde as mãos crusava,
Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão,
E mais distinctas se pintavão n’alma
—Tão bem molesta, qual se pinta o corpo
Do espelho no polido.
E do seo passamento o caso infando
Narrava uma após outra, sobre o peito
Mostrando o golpe funebre e cruento;
Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo
Parecia sorrir!... era qual louco
Que soffre e um riso finge.
E das visões indo a fugir se arroja
De sobre o leito delirante; as sombras
Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão.
O moribundo a esta, a aquella, a todas
Volvo o pavido rosto, no mover-se
Progressivo, incessante.
E preso ao duro embate da vertigem.
As mestas sombras ao redor com elle
Fugir sentia; o pavimento, a casa
Rapido rodava; a terra e tudo,
Como aos soluços d’um vulcão tremendo,
As forças lhe tolhião.
E o orgulhoso que feliz vivera,
Movendo a seo bom grado mil escravos,
Querendo a terra dominar co’um gesto;
Ora mesquinho, solitario e louco,
Face a face lutando com seos crimes,
Morria impenitente.

IV.
——

Era o vulto de um homem morto que afastando o sudario se hia erguer do tumulo para revelar alguns dos temerosos mysterios, que encerra a apparente quietação dos sepulchros.

O PRESBYTERO.

O negrume da noite avulta; e cresce
Mais feia a escuridão
Á luz da sacra pyra que derrama
Frouxo e tibio clarão.
Calou-se o canto, a prece,—é mudo o templo;
Apenas fraco sôa
Da torre o bronze, que a nocturna brisa
De rumores povôa.
Mas eis que de um sepulchro a pedra fria
S’ergue e sobre outras cáe.
Não se escuta rumor!—da campa livre
Medroso espectro sáe.
O rosto ossificado em torno volve,
Volve a suja caveira;
Do liso craneo os longos dedos varrem
A funebre poeira.
Mas inda inteiro o coração se via
Do peito nas cavernas,
Inda sangrento lagrimas chorava
De negro sangue eternas.
E caminhando, qual se move a sombra,
Ao orgão e assentou!
Já não dormem os sons, não dormem echos...
—O triste assim cantou:
«Onde estás, meo amor, meos encantos
Por quem só me pezava morrer,
Doce encanto que a vida me prendes,
Que inda em morto me fazes soffrer?
«Doce amor, minha vida no mundo,
Desse mundo em que parte serás;
Em que scismas, que pensas, que fazes,
Onde estás, meo amor, onde estás?
«Ah! debalde na campa gelada
Fria morte me poude deitar!
Foi debalde,—que eu sinto, que eu ardo;
Foi debalde, que eu amo a penar.
«Ah! si eu triste no mundo podesse
Como outr’ora viver, respirar....
Não soubera dizer-te os ardores
Que o sepulchro não poude apagar.
«Onde estás?—Já da morte o bafejo
Por teo rosto divino roçou;
Já na campa descanças finada,
Que o teo corpo sem vida tragou?
«Mas a morte não poude impiedosa
Crua foice vibrar contra ti!
Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro
Crús ardores quaes sempre soffri.
«E eu não posso o teo nome á noitinha
Entre as folhas saudoso cantar,
Nem seguir-te nas azas da brisa,
Nem teo somno de sonhos doirar.
«Nem lembrar-te os queridos instantes
Que a teo lado arroubado passei,
Sem cuidados de incerto futuro,
Só cuidoso da vida que amei.
«Não te lembras da noite homicida
Em que um ferro meo peito varou,
Quando a facil conversa de amores
Teo marido cioso quebrou?!
«Desde então hei penado sósinho,
Verte sangue meo peito—de então;
Poude a morte acabar-me a existencia,
Mas delir-me não poude a paixão!
«Nosso adultero affecto no mundo
Não se acaba;—assim quiz o Senhor!
Não se acaba...—qu’importa?—hei gozado
Teos encantos gentis, teo amor.
«Por te amar outras fragoas soffrera,
Outros transes e dôr e penar;
Oh! poder que eu podesse outra vida
E outro inferno soffrer por te amar!»
Mas da aurora ja raiava
Macio e brando clarão;
Macia e branda a canção
Do negro espectro soava.
E medroso se collava
Ao orgão seo negro véo,
Que imiga não se ajuntava
Ao seo vulto a luz do céo.
Pouco a pouco se perdia
O negro espectro; a canção
Pouco a pouco enfraquecia:
Do dia ao tenue clarão,
Era o cantar um soído
Fraco, incerto e duvidoso;
Era o vulto pavoroso
D’uma sombra vão tremido.

V.
A MORTE.

Dans sa douleur elle se trouvait malheureuse d’être immortelle.

FÉNÉLON.

Da aurora vinha nascendo
O grato e bello clarão;
Eu sonhava! já mais brandos
Erão meos sonhos então.
Condensou-se o ar n’um ponto,
Cresceo o subtil vapor;
Vi formada uma belleza,
Cheia de encantos, de amor.
Mas na candura do rosto
Não se pintava o carmim;
Tinha um quê de cera juncto
Á nitidez do marfim.
—Quem es tu, visão celeste,
Bello Archanjo do Senhor?
Respondeo-me:—Sou a Morte,
Cru phantasma de terror!
—Ah! lhe tornei: Es a morte,
Tão formosa e tão cruel!
—Correndo o mundo sósinha
No meo pallido corsel,[3]
Assim dizia—«Tu julgas
Que não tenho coração,
Que executo os meos deveres
Sem pesar, sem afflicção?
—Que inda em flôr da vida arranco
Ao joven, sem compaixão,
Á donzella pudibunda
Ou ao longévo ancião?
—Oh! não, que eu soffro martyrios
Do que faço aos mais soffrer,
Soffro dôr de que outros morrem,
De que eu não posso morrer;
—Mas em parte a dôr me cura
Um pensamento, que é meo,—
Lembro aos humanos que a terra
É só passagem pr’a o céo.
—Faço ao triste erguer os olhos
Para a celeste mansão;
Em labios que nunca orárão
Derramo pia oração.
—É meo poder quem apura
Os vicios que a mente encerra,
Ao fogo da minha dôr;
Sou quem prendo aos céos a terra,
Sou quem prendo aos céos a terra,
Ao ser do seo Creador.
—Mas qu’importa? Sem descanço
É-me forçoso marchar,
Abater impías frontes,
Regias frontes decepar.
—Passar ao travez dos homens
Como um vento abrasador;
Como entre o feno maduro
A foice do segador.
—E prostrar uma após outra
Geração e geração,
Como peste que só reina
Em meio da solidão.»—
Desponta o sol radioso
Entre nuvens de carmim;
Cessa o canto pesaroso,
Como corda aurea de Lyra;
Que se parte, que suspira
Dando um gemido sem fim.

O VATE.

NO ALBUM DE UM POETA.

Moi ... j’aimerai ta victoire;
Pour mon coeur, ami de toute gloire,
Les triomphes d’autrui ne sont pas un affront.
Poète, j’eus toujours un chant pour les poètes,
Et jamais le laurier qui pare d’autres têtes
Ne jeta d’ombre sur mon front.
V. HUGO.
Vate! vate! que es tu?—Nos seos extremos
Fadou-te Deos um coração de amores,
Fadou-te uma alma accesa borbulhando
Hardidos pensamentos, como a lava
Que o gigante Vesuvio arroja ás nuvens.
Vate! vate! que es tu?—Foste no principio
Sacerdote e propheta;
Erão nos céos teos cantos uma prece,
Na terra um vaticinio.
E elle cantava então:—Jehovah me disse,
Magestoso e terrivel.
«Vês tu Jerusalém como orgulhosa
«Campêa entre as nações, como no Libano
«Um cedro a cuja sombra a hyssope cresce?
«Breve a minha ira transformada em raios
«Sobre ella cahirá;
«Um fero vencedor dentro em seos muros
«Tributaria a fará;
«E quando escravos seos filhos, sobre pedra
«Pedra não ficará.»
E os reprobos de sacco se vestião;
Em pó, em cinza involtos;
E collando co’a terra os torpes labios,
E açoitando co’as mãos o peito imbelle,
Senhor! Senhor!—clamavão.
E o vate emtanto o pallido semblante
Meditabundo sobre as mãos firmava,
Supplicando ao Senhor do interno d’alma.
Forão sanctos então.—Homero o mundo
Creou segunda vez,—o inferno o Dante,—
Milton o paraiso,—forão grandes!
E hoje!... em nosso exilio erramos tristes,
Mimosa esp’rança ao infeliz legando,
Maldizendo a soberba, o crime, os vicios;
E o infeliz se consola, e o grande treme.
Damos ao infante aqui do pão que temos,
E o manto além ao misero rachitico;
Somos hoje Christãos.

Á MORTE PREMATURA DA ILLma Sra D.....

(No album de seo Irmão Dr. J. D. Lisboa Serra.)

Il semble que le ciel aux coeurs les plus magnanimes
Mesure plus de maux.
LAMARTINE.
Perfeita formosura em tenra idade
Qual flôr, que anticipada foi colhida,
Murchada está da mão da sorte dura.
CAMÕES, Soneto.
Lá, bem longe d’aqui, em tarde amena,
Gozando a viração das frescas auras,
Que do Brazil os bosques brandamente
Fazião balançar,—e que espalhavão
No ether encantado odor, pureza—
Do que a rosa mais bella,—meiga e casta,
Como as virgens do sol,
Que de vezes não foi ella pendente
Dos braços fraternaes em meigo abraço;
Como mimosa flôr presa, enlaçada
A tenro arbusto que a vergontea debil
Lhe ampara docemente!...
E o Irmão que só n’ella se revia,
O Irmão que a adorava, qual se adora
Um mimo do Senhor;
Que a tinha por pharol, conforto e guia,
Os seos dias contava por encantos;
E as virtudes co’os dias pleiteavão.
E ella morreo no viço de seos annos!...
E a lagem fria e muda dos sepulchros
Se fechou sobre o ente esmorecido
Ao despontar de vida
Tão rica de esperanças e tão cheia
De formosura e graças!...
Campa! campa! que de terror incutes!
Quanto esse teo silencio me horrorisa!
E quanto se assemelha a tua calma
A do cruel malvado que impassivel
Contempla a sua victima torcer-se
Em convulsões horriveis, desesp’radas;
Crúas vascas da morte!...
Quem tão má te creou?
Tu que tragas o ente que esmorece
Ao despontar de vida
Tão rica de esperanças e tão cheia
De formosura e graças?!
O pharol se apagou! a luz sumio-se!
Como o fugaz clarão do meteóro,
Extinguio-se a esperança;—e o mal-fadado
Sobre a terra deserta em vão procura
Traços d’essa que amou, que tanto o amára;
Da joven companheira de seos brincos,
Pezares e alegrias.
Elle a procura!... o viajor pasmado
Nos campos de Pompéia, alonga a vista
Pela amplidão do praino,
Destroços e ruinas encontrando,
Onde esperava movimento e vida.
Não poder eu a troco de meu sangue
Poupar-te dessas lagrimas metade!
Oh! poder que eu podesse!—e almo sorriso,
Que tanto me compraz ver-te nos labios,
Inda uma vez brilhasse!
E essa existencia,
Que tão cara me é, t’a visse eu leda,
E feliz como a vida dos Archanjos!
Infeliz é quem chora: ella finou-se,
Porque os anjos á terra não pertencem;
Mas lá dos immortaes sobre os teos dias
A suspirada irmã vela incessante.
Vinde, candidas rosas, açucenas,
Vinde, roxas saudades;
Orvalhai, tristes lagrimas, as c’roas,
Que hão de a campa adornar por mim depostas
Em holocausto á victima da morte.
Innocencia, pudor, belleza e graça
Com ella n’essa campa adormecêrão.
Anjo no coração, anjo no rosto,
Devera o amor chorar sobre o teo seio,
Que não grinaldas funebres tecer-te;
Devera voz d’esposo acalentar-te
O somno da innocencia,—não grosseira
Canção de trovador não conhecido.
COIMBRA, Junho de 1841.

A MENDIGA.

Donnez:—
Et quand vous paraîtrez devant le juge austère,
Vous direz: J’ai connu la pitié sur la terre,
Je puis la demander aux cieux!
TURQUETY.

I.

Eu sonhei durante a noite...
Que triste foi meo sonhar!
Era uma noite medonha,
Sem estrellas, sem luar.
E ao travez do manto escuro
Das trevas, meos olhos vião
Triste mendiga formosa,
Qu’infortunios consumião.
Era uma pobre mendiga,
Porém candida donzella;
Pudibunda, affavel, doce,
Amorosa, e casta, e bella.
Vestia rotos andrajos,
Que o seo corpo mal cubrião;
Por vergonha os olhos d’ella
Sobre ella se não volvião.
Pelas costas descobertas
Cortador o frio entrava;
Tinha fome e sede,—e o pranto
Nos seus olhos borbulhava.
E qual vemos dos céos descendo rapido
Um fugaz meteóro, vi descendo
Um anjo do Senhor;—parou sobre ella,
E mudo a contemplava.—Uma tristeza
Sympathica, indizivel pouco e pouco
Do anjo nas feições se foi pintando:
Qual tristeza de irmão que a irmã mais nova
Conhece enferma e chóra.—Ella no peito
Menor sentiu a dôr, e humilde orava.

II.

De um vasto edificio nas frias escadas
Eu vi-a sentada;—era um templo, dizião
Secreto concilio de socios piedosos,
Que o bem tinha juntos, que bem só fazião.
Defronte um palacio soberbo se erguia,
E d’elle partia confuso rumor:
—A dança girava, e a orchestra sonora
Cantava alegria, prazeres e amor.
E quando ao palacio um conviva chegava,
Rugindo-se abria o ruidoso portão;
Effluvios de incenso nos ares corrião
Da rua esteirada com vivo clarão.
E a triste mendiga alli ’stava ao relento,
Com fome, com frio, com sede e com dôr;
E eu vi o seo anjo, mais triste no aspecto,
Mais baço, mais turvo da gloria o fulgor.
E á porta do vasto sombrio edificio
Um vulto chegou.
—Senhor, uma esmola!—bradou-lhe a mendiga:
E o vulto parou.
E rude no accento, no aspecto severo,
Lhe disse:—O teo nome?—
Tornou-lhe a mendiga:—Senhor, uma esmola,
Que eu morro de fome.
—Não dizes teo nome?—lhe torna o soberbo.
—Sou orphã, sosinha;
Meo nome qu’importa, se eu soffro, se eu gemo,
Se eu chóro mesquinha!
Em vís meretrises não cabe esse orgulho,
Tornou-lhe o Senhor,
Que á noite, nas trevas, contractão no crime,
Vendendo o pudor.
E a porta do templo—erguido á piedade
Com força batia;
Co’o peso do insulto accrescido a crueza
A triste gemia.

III.

Ouvi depois um rodar que a todo o instante
Mais distincto se ouvia; e logo um forte,
Fascinador clarão por toda a rua
Se derramou soberbo.—Infindos pagens
Ricas librés trajando, mil archotes
Nos ares revolvião;—fortes, rapidos,
Fumegantes corseis, sorvendo a terra,
Tiravão rica sege melindrosa.
Sobre a terra saltou airosa e bella
A dona, em frente do festivo paço;
E a mendiga bradou:—Senhora minha,
Dai uma esmola, dai!—Á voz dorida
Volveo-se o rosto d’anjo, porém d’anjo
Não era o coração;—foi-lhe importuno,
Mais que importuno ... da mesquinha o grito!
E da mendiga o protector celeste
Parecia fallar em favor d’ella;
E a rica dona o escutava, como
Se ouvisse a interna voz que dentro mora.
E eu dizia tambem:—Ó bella Dona,
Dai-lhe uma esmola, dai;—de que vos serve
Um óbolo mesquinho, que não póde
Siquer um diche sem valor comprar-vos?
Ah! bella como sois, que vos importão
Custosas flôres, com que ornais a fronte?
Para a salvar do vortice do crime,
O preço d’ellas, de uma só, da coisa,
Que sem valor julgardes, é bastante.
Sabeis?—Além da vida, além da morte,
Quando deixardes o oiropel na campa,
Quando subirdes do Senhor ao throno,
Sem andrajos siquer, tambem mendiga,
Alli tereis as lagrimas do pobre,
A benção do affligido, a prece ardente
Do que soffrendo vos bemdice,—ó Dona...
........................................
Fechou-se a porta festival sobre ella!
E a donzella se ergueo, córou de pejo,
Lançando os olhos pela rua escusa,
E segura no andar, e firma, á porta
Do palacio bateo—entrou—sumio-se.
E o anjo, como afflicto sob um peso,
Um gemido soltou; era uma nota
Melancolica e triste,—era um suspiro
Mavioso de virgem,—um soído
Subtil, mimoso, como d’Harpa Eolia,
Que a brisa da manhã roçou medrosa.

IV.