Era um quarto espaçoso;—alli se vião
Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas,
Ricos tapetes multicor bordados,
E franjas complicadas d’um céo d’oiro
Pendentes,—vastos rases narradores
De lenda pia ou de briosos feitos.
Mas de tanto luzir, de tanto ornato
Ora por mãos aváras depredado
O vasto d’área revelava aos olhos,
Tendo n’um canto escuro um leito apenas.
Do leito alguem rasgára o cortinado.
E da curva amação polida e bella
Aqui, alli, pendia a seda em fios,
Bem como tranças de mulher formosa
Por sobre o seio nú.—Alli no leito
Jazia um moribundo; em torno os olhos
Cheios de pasmo e de terror volvia,
Bebendo pelos sofregos ouvidos
Mal sentido rumor d’outro aposento.
Confusas vozes, altercar ruidoso,
E o tinir de metal ouvia apenas!
Então por vezes tres no leito afflicto
Erguer-se maquinou de raiva insano!
Por tres vezes cahio, gemendo, sobre
O leito que da queda se sentia.
Da morte o cru torpor nos membros frios
Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso
Da vida o amor debate-se nas ancias
Desse passo fatal...
—Eis nisto á porta.
Um Padre assoma,—d’entre as mãos erguidas
Da hostia sancta resplendor luzia;
E palavras de paz, de amor, divinas,
Que nos labios do justo Deos entorna,
Abundantes soltava. Longos annos
De piedoso soffrer o corpo enfermo
Alquebrárão por fim; as cãs nevadas
Raras tremião sobre a testa, como
Tremia na garganta a voz cançada.
Dizia o bom do velho:—«Irmão, nas ancias,
«No extremo agonisar da morte amiga
«Ergue os olhos ao céo;—do céo te venha
«Esse divino amor, que só lá mora,
«Que filtra por nossa alma, que nos deixa
«Mais celeste prazer, mais doce arroubo,
«Do que a terra sóe dar...
«Infames, trédos,
«Bufarinheiros de palavras, corvos
«De negro, feio agoiro, que esvoação
«Com grito grasnador por sobre o campo,
«Onde a peleja de reinar começa;
«Dizes-me tu—a mim! a mim que ao fóro
«Caminho inda hoje entre alas de clientes,
«Que so me visto de velludo e d’oiro,
«Em quanto vives de burel coberto,
«Co’os labios sobre o pó mordendo a terra!
«Dizes-me tu—a mim!...»
Ergueo-se,... e o corpo
Cahio de fraco sobre o leito; o velho
No emtanto humilde orava, que alma sancta
Do mal cabido insulto não se offende.
Jehovah, que entre myriadas
Vives de estrellas formosas,
Que das flôres melindrosas
Da terra—os anjos formaste;
Jehovah, que pela agoa
Lustrar quizeste o Messias,
Que ao beato, ao sancto Elias
Nas chammas purificaste;
Jehovah, que a mente apuras
No fogo do soffrimento,
Que divino, alto portento
Déste fazer á Moisés,
Quando a negra rocha dura
Tocando co’a tenue vara,
Rebentou a lympha clara,
Lambendo-lhe mansa os pés;
Jehovah, que eterno existes,
Cujo ser em si se encerra,
Que formaste o céo e a terra,
Que te chamas—o que é,
[2]
—Faz, Senhor d’altos prodigios,
Com que a mente empedernida
Não se aparte desta vida
Sem sentir a sancta fé.
E tu, Christo, que soffreste
Martyrios por nosso amor,
Tu que foste o Salvador,
Salva-o, Senhor, por quem es.
Dá que em palavras piedosas
Se derrame contristado,
Como o rochedo tocado
Pela vara de Moisés.
E o confuso rumor do outro aposento
Crescia mais e mais.—Do moribundo
Os cúpidos herdeiros dividião
Por si a vasta herança; os torvos olhos
Ião de rosto a rosto, fusilando
Ameaças de morte.
No entanto o velho exanime e sem forças
Curtia amargos transes, que avarento,
E tendo a vida inutil presa a terra
Com toda a força d’alma,—agora em ancias
Sentia o halito vital fugir-lhe,
E a terra abandonal-o.
Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!...
Só não chorava, que do pranto a fonte
Jazia extincta; mas pensava triste:
—Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos
Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo
Do extremo agonisar.
E a mente, já medrosa, em feio quadro
Lhe pintava os seos feitos;—a vingança,
Que tão grande prazer lhe tinha sido,
Ora em martyrios se tomava; a chusma
Dos homicidios seus crescia torva,
E no leito o cercava.
Crença infantil! dizia; loucos, cegos
Prejuizos do vulgo;—e assim dizendo
Os vãos phantasmas repellir buscava.
Mas a crença infantil, os prejuizos
Do nescio vulgo, rispidos tornavão,
Como insecto importuno.
Debalde por não ver cerrava os olhos,
Sobre os olhos debalde as mãos crusava,
Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão,
E mais distinctas se pintavão n’alma
—Tão bem molesta, qual se pinta o corpo
Do espelho no polido.
E do seo passamento o caso infando
Narrava uma após outra, sobre o peito
Mostrando o golpe funebre e cruento;
Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo
Parecia sorrir!... era qual louco
Que soffre e um riso finge.
E das visões indo a fugir se arroja
De sobre o leito delirante; as sombras
Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão.
O moribundo a esta, a aquella, a todas
Volvo o pavido rosto, no mover-se
Progressivo, incessante.
E preso ao duro embate da vertigem.
As mestas sombras ao redor com elle
Fugir sentia; o pavimento, a casa
Rapido rodava; a terra e tudo,
Como aos soluços d’um vulcão tremendo,
As forças lhe tolhião.
E o orgulhoso que feliz vivera,
Movendo a seo bom grado mil escravos,
Querendo a terra dominar co’um gesto;
Ora mesquinho, solitario e louco,
Face a face lutando com seos crimes,
Morria impenitente.