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Cantos

Chapter 39: A ESCRAVA.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Dos muros ao travez meos olhos virão
Soberba roda de convivas,—todos
Velludos, sedas, e custosas galas
Trajavão senhoris.—Reinava o jogo
Aváro e grave, leda e viva a dança
Em vortices girava, a orchestra doce
Cantava occulta; condensados, bastos,
Em redor do banquete estavão muitos.
A mendiga alli estava,—não trajando
Sujos farrapos, mas delgadas telas.
Chovião brindes e canções e vivas
Á Deosa airosa do banquete; todos
Um volver dos seos olhos, um sorriso,
Uma voz de ternura, um mimo, um gesto
Cubiçavão rivaes;—e alli com ella,
Como um raio do sol por entre as nuvens
Lá na quadra hibernal penetra a custo
Quasi sem vida, sem calor, sem força,
Menos brilhante vi seo anjo bello.
Nos curtos labios da feliz mendiga
Passava rapido um sorriso ás vezes;
Outras chorava, no volver do rosto,
Na taça do prazer sorvendo o pranto.
Encontradas paixões sentia o anjo:
Parecia chorar co’o seo sorriso,
Parecia sorrir co’o choro della.

A ESCRAVA.

O bien qu’aucun bien ne peut rendre,
Patrie, doux nom que l’exil fait comprendre!
MARINO FALIERO.
Oh doze paiz de Congo,
Doces terras d’além mar!
Oh! dias de sol formoso!
Oh! noites d’almo luar!
Desertos de branca areia
De vasta, immensa extensão,
Onde livre corre a mente,
Livre bate o coração!
Onde a leda caravana
Rasga o caminho passando,
Onde bem longe se escuta
As vozes que vão cantando!
Onde longe inda se avista
O turbante musulmano,
O Yatagan recurvado,
Preso a cinta do Africano!
Onde o sol na areia ardente
Se espelha, como mar;
Oh! doces terras de Congo,
Doces terras d’além mar!

Quando a noite sobre a terra
Desenrolava o seo véo,
Quando siquer uma estrella
Não se pintava no céo;
Quando só se ouvia o sopro
De mansa brisa fagueira,
Eu o aguardava—sentada
Debaixo da bananeira.
Um rochedo ao pé se erguia,
D’elle á base uma corrente
Despenhada sobre pedras,
Murmurava docemente.
E elle ás vezes me dizia:
—Minha Alsgá, não tenhas medo;
Vem commigo, vem sentar-te
Sobre o cimo do rochedo.
E eu respondia animosa:
—Irei comtigo, onde fores!—
E tremendo e palpitando
Me cingia aos meos amores.
Elle depois me tornava
Sobre o rochedo—sorrindo:
—As agoas d’esta corrente
Não vês como vão fugindo?
Tão depressa corre a vida,
Minha Alsgá; depois morrer
Só nos resta!...—Pois a vida
Seja instantes de prazer.
Os olhos em tomo volves
Espantados—Ah! tão bem
Arfa o teo peito anciado!...
Acaso temes alguem?
Não receis de ser vista,
Tudo agora jaz dormente;
Minha voz mesmo se perde
No fragor d’esta corrente.
Minha Alsgá, porque estremeces
Porque me foges assim?
Não te partas, não me fujas,
Que a vida me foge a mim!
Outro beijo acaso temes,
Expressão de amor ardente?
Quem o ouvio?—o som perdeo-se
No fragor d’esta corrente.
Assim praticando amigos
A aurora nos vinha achar!
Oh! doces terras de Congo,
Doces terras d’além mar!

Do rispido Senhor a voz irada,
Rabida sôa,
Sem o pranto enchugar a triste escrava
Pavida vôa.
Mas era em mora por scismar na terra,
Onde nascera,
Onde vivera tão ditosa, e onde
Morrer devera!
Soffreo tormentos, porque tinha um peito,
Qu’inda sentia;
Misera escrava! no soffrer cruento,
Congo! dizia.

AO DR. JOÃO DUARTE LISBOA SERRA.

23 de Agosto.

Mais um pungir de acerrima saudade,
Mais um canto de lagrimas ardentes,
Oh! minha Harpa,—oh! minha Harpa desditosa.
Escuta, ó meu amigo: da minha alma
Foi uma lyra outr’ora o instrumento;
Cantava n’ella amor, prazer, venturas,
Até que um dia a morte inexoravel
Triste pranto de irmão veio arrancar-te!
As lagrimas dos olhos me cahirão,
E a minha lyra emmudeceo de magoa!
Então aventei eu que a vida inteira
Do bardo, era um perenne sacerdocio
De lagrimas e dôr;—tomei uma Harpa:
Na corda da afflicção gemeo minha alma,
Foi meo primeiro canto um epicedio;
Minha alma baptizou-se em pranto amargo,
Na fragoa do soffrer purificou-se!
Lancei depois meos olhos sobre o mundo,
Cantor do soffrimento e da amargura;
E vi que a dôr aos homens circumdava,
Como em roda da terra o mar se estreita;
Que apenas desfructamos,—miserandos!
Desbotado prazer entre mil dôres,
—Uma rosa entre espinhos aguçados,
Um ramo entre mil vagas combatido.
Voltou-se então p’ra Deos o meo esp’rito,
E a minha voz queixosa perguntou-lhe:
—Senhor, porque do nada me tiraste,
Ou porque a tua voz omnipotente
Não fez seccar da minha vida a seve,
Quando eu era principio e feto apenas?
Outra voz respondeo-me dentro d’alma:
—Ardão teos dias como o feno,—ou durem
Como o fogo de tocha resinosa,
—Como rosa em jardim sejão brilhantes,
Ou baços como o cardo montesinho,
Não deixes de cantar, ó triste bardo.—
E as cordas da minha harpa—da primeira
Á extrema—da maior á mais pequena,
Nas azas do tufão—entre perfumes,
Um cantico de amores exaltárão
Ao throno do Senhor;—e eu disse ás turbas:
—Elle nos faz gemer porque nos ama;
Vem o perdão nas lagrimas contritas,
Nas azas do soffrer desce a clemencia;
Sobre quem chora mais elle mais vela!
Seo amor divinal é como a lampada,
Na abobada d’um templo pendurada,
Mais luz filtrando em mais opácas trevas.
Eu o conheço:—o cantico do bardo
É balsamo ao que morre,—é lenitivo,
Mas doloroso, mas funereo e triste
A quem lhe carpe infausto a morte crúa.
Mas quando a alma do justo, espedaçando
O envolucre de lodo, aos céos remonta,
Como estrada de luz correndo os astros,
Seguindo o som dos canticos dos anjos
Que na presença do Senhor se elevão;
Choro ... tão bem Jesus chorou a Lazaro!
Mas na excelsa visão que se me antolha
Bebo consolações,—minha alma anceia
A hora em que tão bem ha de asilar-se
No seio immenso do perdão do Eterno.
Chora amigo; porém quando sentires
O pranto nos teos olhos condensar-se,
Que já não póde mais banhar-te as faces,
Ergue os olhos ao céo, onde a luz móra,
Onde o orvalho se cria, onde parece
Que a timida esperança nasce e habita.
E se eu—feliz!—poder inda algum dia
Ferir por teo respeito na minha harpa
A leda corda onde o prazer palpita,
A corda do prazer que ainda inteira,
Que virgem de emoção inda conservo,
Suspenderei minha harpa d’algum tronco
Em off’renda á fortuna;—alli sosinha,
Tangida pelo sopro só do vento,
Ha de mysterios conversar co’a noite,
De acorde extreme perfumando as brisas;
Qual Harpa de Sião presa aos salgueiros
Que não ha de cantar a desventura,
Tendo cantos gentis vibrado n’ella.

O DESTERRO DE UM POBRE VELHO.

Et dulces moriens reminiscitur Argos.

VIRG.

O! schwer ist’s, in der Fremde sterben unbeweint!

SCHILLER.

A aurora vem despontando,
Não tarda o sol a raiar;
Cantão aves,—a natura
Já começa a respirar.
Bem mansa na branca areia
Onda queixosa murmura,
Bem mansa aragem fagueira
Entre a folhagem susurra.
É hora cheia de encantos,
É hora cheia de amor;
A relva brilha enfeitada,
Mais fresca se mostra a flôr.
Esbelta joga a fragata,
Como um corsel a nitrir;
Suspensa a amarra tem presa,
Suspensa, que vai partir.
Em demanda da fragata,
Leve barco vem vogando;
Nelle um velho cujas faces
Mudo choro está cortando.
Quem era o velho tão nobre,
Que chorava,
Por assim deixar seos lares,
Que deixava?
«Ancião, porque te ausentas?
Corres tu traz de ventura?
Louco! a morte já vem perto,
Tens aberta a sepultura.
«Louco velho, já não sentes
Bater frouxo o coração?
Oh! que o sente!—É lei d’exilio
A que o leva em tal sazão!
«Não ver mais a cara patria,
Não ver mais o que deixava,
Não ver nem filhos, nem filhas,
Nem o casal, que habitava!...
«Oh! que é má pena de morte,
A pena de proscripção;
Traz dôres que martyrisão,
Negra dôr de coração!
«Pobre velho!—longe, longe
Vás sustento mendigar;
Tens de soffrer novas dôres,
Novos males que penar.
«Não t’ha de valer a idade,
Nem a dôr tamanha e nobre;
Tens de tragar vis affrontas,
—Insultos que soffre o pobre!
«Nada acharás no degredo,
Que falle dos filhos teos;
Ninguem sente a dôr do pobre...
Só te fica a mão de Deos.
«O sol, que além vês raiando
Entre nuvens de carmim,
N’outros climas, n’outras terras
Não verás raiar assim.
«Não verás a rocha erguida,
Onde t’ias assentar,
Nem o som bem conhecido
Do teo sino has de escutar.
«Ha de cahir sobre as ondas
O pranto do teo soffrer,
E n’esse abysmo salgado,
Salgado, se ha de perder.»
Já chegou junto á fragata,
Já na escada se apoiou,
Já com voz intercortada
Ultimo adeos soluçou.
Canta o nauta, e sólta as velas
Ao vento que o vai guiar;
E a fragata mui veleira
Vai fugindo sobre o mar.
E o velho sempre em silencio
A calva testa dobrou,
E pranto mais abundante
O rosto senil cortou.
Inda se vê branca a vela
Do navio, que partio;
Mais além—inda se avista!
Mais além—já se sumio!

O ORGULHOSO.

Eu o vi!—tremendo era no gesto,
Terrivel seo olhar;
E o senho carregado pretendia
O globo dominar.
Tremendo era na voz, quando no peito
Fervia-lhe o rancor!
E aos demais homens, como um cedro á relva,
Se cria sup’rior.
E o pobre agricultor, junto a seus filhos,
Dentro do humilde lar,
Quizera, antes que os d’elle, ver de um Tigre
Os olhos fusilar:
Que a um filho seo talvez quizera o nobre
Para um Executor;
Ou para o leito infesto alguma filha
Do triste agricultor.
Quem ousaria resistir-lhe?—Apenas
Algum pobre ancião
Já sobre o seo sepulchro, desejando
A morte e a salvação.

Alguns dias apenas decorrêrão;
E eis que elle se sumio!
E a lagem dos sepulchros fria e muda
Sobre elle já cahio.
E o barbaro tropel dos que o servião
Exulta com seo fim!
E a turba applaude; e ninguem chora a morte
De homem tão ruim.

O COMETA.

AO SR. FRANCISCO SUTERO DOS REIS.

Non est potestas, quae comparetur ei
qui factus est ut nullum timeret.

JOB.

Eis nos céos rutilando igneo cometa!
A immensa cabelleira o espaço alastra,
E o nucleo, como um sol tingido em sangue,
Alvacento luzir vérte agoireiro
Sobre a pavida terra.
Poderosos do mundo, grandes, povo,
Dos labios removei a taça ingente,
Que em vossas festas gyra; eis que rutila
O sanguineo cometa em céos infindos!...
Pobres mortaes,—sois vermes!
O Senhor o formou terrivel, grande;
Como indocil corsel que morde o freio,
Retinha-o só a mão do Omnipotente.
Alfim lhe disse:—Vai, Senhor dos Mundos,
Senhor do espaço infindo.
E qual louco temido, ardendo em furia,
Que ao vento solta a coma desgrenhada,
E vai, nescio de si, livre de ferros,
De encontro ás duras rochas,—tal progrede
O cometa incansavel.
Se na marcha veloz encontra um mundo,
O mundo em mil pedaços se converte;
Mil centelhas de luz brilhão no espaço
A esmo, como um tronco pelas vagas
Infrenes combatido.
Se junto d’outro mundo acaso passa,
Comsigo o arrastra e leva transformado;
A cauda portentosa o enlaça e prende,
E a astro vai com elle, como argueiro
Em turbilhão levado.
Como Leviathan perturba os mares,
Elle perturba o espaço;—como a lava,
Elle marcha incessante e sempre;—eterno,
Marcou-lhe largo gyro a lei que o rege,
—As vezes o infinito.
Elle carece então da eternidade!
E aos homens diz—e magestoso e grande
Que jamais o verão; e passa, e longe
Se entranha em céos sem fim, como se perde
Um barco no horisonte!

O OIRO.

Oiro,—poder, encanto ou maravilha
Da nossa idade,—regedor da terra,
Que dás honra e valor, virtude e força,
Que tens offertas, oblações e altares,—
Embora teo louvor cante na lyra
Vendido Menestrel que pôde insano
Do grande á porta renegar seo genio!
Outro, sim, que não eu.—Bardo sem nome,
Com pouco vivo;—sobre a terra, á noite,
Meo corpo lanço, descançando a fronte
N’um tronco ou pedra ou mal nascido arbusto.
Sou mais que um rei co’o meo docel de nuvens
Que tem gravados scintillantes mundos!
Com a vista no céo percorro os astros,
Vagueia a minha mente além das nuvens,
Vagueia o meo pensar—alto, arrojado
Além de quanto o olhar nos céos alcança.
Então do meo Senhor me calão n’alma
D’amor ardente enlevos indiziveis;
Se tento ás gentes redizer seo nome,
Queimadoras palavras se atropellão
Nos meos labios;—prophetica harmonia
Meo peito anceia, e em borbotões se expande.
Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes
Tens prodigios, teo poder immenso:
O pae ao filho o diz, um sec’lo a outro,
A terra ao céo, o tempo á eternidade!
Do mundo as illusões, vaidade, engano,
Da vida a mesquinhez—prazer ou pranto—
Tudo esse nome arrastra, prostra e some;
Como aos raios do sol desfeito o gelo,
Que em ondas corre no pendor do monte,
Precipite e ruidoso,—arbustos, troncos
Comsigo no passar rompidos leva.

A UM MENINO.

OFFERECIDA Á EXma Sra D. M. L. L. V.

I.

Gentil, engraçado infante
Nos teos jogos inconstante,
Que tens tão bello semblante,
Que vives sempre a brincar,
—Dos teos brinquedos te esqueces
Á noitinha,—e te entristeces
Como a bonina,—e adormeces,
Adormeces a sonhar!

II.

Infante, serão as côres
De varias, viçosas flôres,
Ou são da aurora os fulgores
Que vem teos sonhos doirar?
Foi de algum ente celeste,
Que de luzeiros se veste,
Ou da brisa é que aprendeste,
Que aprendeste a suspirar?

III.

Tens no rosto afogueado
Um qual retrato acabado
De um sentir aventurado,
Que te ri no coração;
É talvez a voz mimosa
De uma fada caprichosa,
Que te promette amorosa
Algum brilhante condão!

IV.

Ou por ventura es contente,
Porque no sonho, que mente,
Phantasiaste innocente
Algum dos brinquedos teos!...
Senhor, tens bondade infinda!
Fizeste a aurora bem linda,
Creaste na vida ainda
Um’outra aurora dos céos.

V.

O som da corrente pura,
A folhagem que susurra,
Um accento de ternura,
De ternura divinal;
A indizivel harmonia
Dos astros no fim do dia,
A voz que Memnon dizia,
Que dizia matinal;

VI.

Nada d’isto tem o encanto,
Nada d’isto póde tanto
Como o risonho quebranto,
Divino—do seo dormir;
Que nada ha como a Donzella
Pensativa, doce e bella,
E a comparar-se com ella...
Só de um infante o sorrir.

VII.

Mas de repente chorando
Despertas do somno brando
Assustado e soluçando...
Foi uma revelação!
Esta vida acerba e dura
Por um dia de ventura
Dá-nos annos de amargura
E fragoas do coração.

VIII.

Só aquelle que da morte
Soffreo o terrivel córte,
Não tem dôres que supporte,
Nem sonhos o acordarão:
Gentil infante, engraçado,
Que vives tão sem cuidado,
Serás homem—mal peccado!
Findará teo sonho então.

O PIRATA.

(EPISODIO.)

Nas azas breves do tempo
Um anno e outro passou,
E Lia sempre formosa
Novos amores tomou.
Novo amante mão de esposo,
De mimos cheia, lh’off’rece;
E bella, apesar de ingrata,
Do que a amou Lia se esquece.
Do que a amou que longe pára,
Do que a amou, que pensa n’ella,
Pensando encontrar firmeza
Em Lia, que era tão bella!
N’esse palacio deserto
Já luzes se vêm luzir,
Que vem nas sedas, nos vidros
Cambiantes reflectir.
Os echos alegres sôão,
Sôa ruidosa harmonia,
Sôão vozes de ternura,
Sons de festa e d’alegria.
E qual ave que em silencio
A face do mar desflora,
Á noite bella fragata
Chega ao porto, amaina, ancóra.
Cáe da popa e fere as ondas
Inquieta, esguia falua,
Que resvala sobre as agoas
Na esteira que traça a lua.
Já na vacua praia toca;
Um vulto em terra saltou,
Que na longa escadaria
Preságo e torvo enfiou.
Malfadado! por que aportas
A este sitio fatal!
Queres o brilho augmentar
Das bodas do teo rival?
Não, que a vingança lhe range
Nos duros dentes cerrados,
Não, que a cabeça referve
Em mãos projectos damnados!
Não, que os seos olhos bem dizem
O que diz seo coração;
Terriveis, como um espelho,
Que retratasse um vulcão.
Não, que os labios descorados
Vociferão seo rival;
Não, que a mão no peito aperta
Seo pontagudo punhal.
Não, por Deos, que taes affrontas
Não as sóe deixar impunes,
Quem tem ao lado um punhal,
Quem tem no peito ciumes!
Subio!—e vio com seus olhos
Ella a rir-se que dançava,
Folgando, infame! nos braços
Porque assim o assassinava.
E elle avançou mais avante,
E vio ... o leito fatal!
E vio ... e cheio de raiva
Gravou no meio o punhal.
E avançou ... e á janella
Sosinha a vio suspirar,
—Saudosa e bella encarando
A immensidade do mar.
Como se vira um espectro,
De repente ella fugio!
Tal foge a corça nos bosques
Se leve rumor sentio.
Que foi?—Quem sabe dizel-o?
Forão vislumbres de dôr;
Coração, que tem remorsos,
Sente continuo terror!
Elle á janella chegou-se,
Horrivel nada encontrou...
Sómente, ao longe, nas sombras,
Sua fragata avistou.
Então pensou que no mundo
Nada mais de seo contava!
Nada mais que essa fragata!
Nada mais de quanto amava!
Nada mais!...—que lh’importava
De no mundo só se achar?
Inda muito lhe ficava—
Agoa e céos e vento e mar.
Assim pensava, mas n’isto
Descortina o seo rival,
Não visto;—a mão na cintura
Cingio raivosa o punhal!
Mas pensou...—não, seja d’ella,
E tenha zelos como eu!—
Larga o punhal, e um retrato
Na dextra mão estendeo.
Porém sentio que inda tinha
Mais que branda compaixão;
Miserando! inda guardava
Seo amor no coração.
Infeliz! não foi culpada;
Foi culpa do fado meo!
Nada mais de pensar n’ella;
Finjamos que ella morreo.
Por entre a turba que alegre
No baile—a sorrir-se estava,
Mudo, triste, e pensativo
Surdamente se afastava.
De manhã—quando o saráu
Apagava o seo rumor,
Chegava Lia a janella,
Mais formosa de pallor.
Chegou-se;—e além—no horisonte
Uma vela inda avistou;
E co’a mão tremula e fria
O telescopio buscou!
Um pavilhão vio na pôpa,
Que tinha um globo pintado;
E no mastro da mesena
Um negro vulto encostado.
Erão chorosos seos olhos,
Os olhos seos enxugou;
E o telescopio de novo
Para essa vela apontou.
Quem em o vulto tão triste
Parece reconheceo;
Mas a vela no horisonte
Para sempre se perdeo.

A VILLA MALDICTA, CIDADE DE DEOS.

AO SEO QUERIDO E AFFECTUOSO AMIGO

A. T. DE CARVALHO LEAL.

Peccata peccavit Jerusalem, et propter
ea instabilis facta est; omnes qui glorificabant
eam, spreverunt illam, quia viderunt ignominiam
ejus; ipsa autem gemens conversa est retrorsum.

LAMENT.

I.

O immenso aposento a luz alaga
Com soberbo clarão,
E as mezas do banquete se devolvem
Pelo vasto salão;
E os instrumentos palpitantes sôão
Frenetica harmonia;
E o côro dos convivas se levanta
Pleno d’ebria alegria!
Alli se ostenta o nobre vicioso
Rebuçado em orgulho,—o rico infame,
Cheio de mesquinhez,—o envilecido,
Immundo pobre no seo manto involto
De miserias, torpeza e villanias;
—A prostituta que alardêa os vicios,
Menospresando a castidade e a honra,
Sem pejo, sem pudor, d’infamia eivada.
E o livre dithyrambo, a atroz blasphemia,
Os cantos immoraes, canções impudicas,
Gritos e orgia involta em negro manto
De fumo e vinho,—os ares aturdião;
E muito além, no meio d’alta noite,
Nos echos, ruas, praças rebatião.

II.

Depois, ainda suja a bocca, as faces,
D’immundo vomitar,
Com vacillante pé calcando a terra
Os viras levantar.
A larga porta despedia em turmas
A nocturna cohorte;
Ouviu-se depois por toda a parte
Gritos, horror de morte!
E ninguem vinha ao retinir de ferro,
Que assassinava;
Porque era d’um valente o punhal nobre,
Que as leis dictava.
Outra vez a cahir se emmaranhavão
Da porta pelo umbral:
Tinhão tinctas de sangue a face, as vestes,
Em sangue tincto o punhal.
E vinha o sol manifestar horrores
Da noite derradeira;
E a morte vária revelava a furia
Da turba carniceira.
E o sacrilego padre só vendia
O tum’lo por dinheiro;
Vendia a terra aos mortos insepultos,
O vil interesseiro!
Ou lá ficavão, como pasto aos corvos,
Por sobre a terra núa;
E ninguem de tal sorte se pesava,
Que ser podia a sua!
«E Deos maldisse a terra criminosa,
«Maldisse aos homens della,
«Maldisse a cobardia dos escravos
«D’essa terra tão bella.»

III.