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Cantos

Chapter 4: PRIMEIROS CANTOS.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

PRIMEIROS CANTOS.

PROLOGO DA PRIMEIRA EDICÇÃO.

Dei o nome de “Primeiros Cantos” ás poesias que agora publíco, porque espero que não serão as ultimas.

Muitas dellas não tem uniformidade nas strophes, porque menospreço regras de mera convenção; adoptei todos os rhythmos da metrificação portugueza, e usei delles como me parecérão quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.

Não tem unidade de pensamento entre si, porque forão compostas em epochas diversas—debaixo de céo diverso—e sob a influencia de impressões momentaneas. Forão compostas nas margens viçosas do Mondego e nos pincaros ennegrecidos do Gerez—no Doiro e no Tejo—sobre as vagas do Atlantico, e nas florestas virgens da America. Escrevi-as para mim, e não para os outros; contentar-me-hei, se agradarem; e se não ... é sempre certo que tive o prazer de as ter composto.

Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena politica para lêr em minha alma, reduzindo á lingoagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéas que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano—o aspecto emfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento—o coração com o entendimento—a idéa com a paixão—colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia—a Poesia grande e sancta—a Poesia como eu a comprehendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.

O esforço—ainda vão—para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Publico o julgará; tanto melhor se elle o despreza, porque o Auctor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.

Rio de Janeiro—Julho de 1846.