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Chapter 48: QUADRAS DA MINHA VIDA. RECORDAÇÃO E DESEJO.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

E a mortifera peste luctuosa
Do inferno rebentou,
E nas azas dos ventos pavorosa
Sobre todos passou.
E o mancebo que via esperançoso
Longa vida futura,
Doido sentio quebrar-lhe as esperanças
Pedra de sepultura.
E a donzella tão linda que vivia
Confiada no amor,
Entre os braços da mãi provou bem cedo
Da morte o dissabor.
E o tremulo ancião qu’inda esperava
Morrer assim
Como um fructo maduro destacado
D’arvore emfim,
Sentio a morte esvoaçar-lhe em torno,
Como um bulcão,
Que affronta o nauta quando avista a terra
Da salvação.
Era deserta a villa, a casa, o templo—
Ar de morte soprou!
Mas a casa dos vis nos seos delirios
Ebria continuou!
«E Deos maldisse a terra criminosa,
«Maldisse os homens d’ella,
«Maldisse a cobardia dos escravos
«Dessa terra tão bella.»

IV.

Eis o aço da guerra lampeja,
Do fogoso corsel o nitrido,
Eis o bronzeo canhão que rouqueja,
Eis da morte represso o gemido.
Já se aprestão guerreiros luzentes,
Já se enfreião corseis bellicosos,
Já mancebos se partem contentes,
Augurando a victoria briosos.
Brilha a raiva nos olhos;—nas faces
O interno rancor pódes ler;
Eia, avante!—clamarão os bravos,
Eia, avante!—ou vencer ou morrer!
Eia, avante!—briosos corramos
Na peleja o imigo bater;
Crua morte na espada levamos!
Eia, avante!—ou vencer ou morrer!
Eis o aço da guerra lampeja,
Do corsel bellicoso o nitrido,
Eis o bronzeo canhão que rouqueja
E da morte represso o gemido.

V.

E a selva vomitou homens sem conto
A voz do omnipotente,
Como a neve hibernal que o sol derrete,
Engrossando a corrente.
E em redor d’essa villa se estreitarão,
Cingidos d’armadura;
E a villa se doeo no intimo seio
De tão acre amargura.
Mas os fortes bradarão:—Eia, avante!—
Promptos a batalhar;
Mas o braço e valor ante os imigos
Se vierão quebrar.
E um anno inteiro sem cessar lutarão,
Cheios de bizarria,
Como dois crocodilos que brigassem
D’um rio a primazia!
E renderão-se emfim, mas de famintos,
De sequiosos;
Valentes lidadores forão elles,
Se não briosos.

VI.

E o exercito contrario entra rugindo
Na villa, que as suas portas lhe franqueia:
Rasteiro corre o incendio e surdamente
O custoso edificio ataca e mina.
Eis que a chamma roaz amostra as fendas
Das portas que se abrasão; descortina
O torvo olhar do vencedor—apenas—
Lá dentro o incendio só, fóra só trevas!
Urros de frenesi, de dôr, de raiva
Escutão dos que, ás subitas colhidos,
Contra os muros em brasa se arremeção;
Dos que, perdido o tino, intentão loucos
Achar a salvação, e a morte encontrão.
Lá dentro confusão, silencio fóra!
São carrascos aqui, victimas dentro.
Geme o travejamento, estrala a pedra,
Cresce horror sobre horror, desaba o tecto,
E o fumo ennegrecido se ennovella
Co’o vertice sublime os céos roçando.
Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens,
Como ignea columna que da terra
Hiante rebentasse,—tal se eleva,
Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce
A labareda portentosa; e baixa,
E desce á terra, e o edificio enrola,
E o sorve inteiro, qual se forão vagas
Que a dura rocha do alicerce abalão,
Que a enlação, como a prêa,—e ao fundo pégo
Levão, deixando o mar branco d’espuma.
No horror da noite, sibilando os ventos,
Lingoas pyramidaes do atroz incendio,
Fumosas pelas ruas estalando,
Tingem da côr do inferno a côr da noite,
Tingem da côr do sangue a côr do inferno!
—O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.

VII.

E aquelles que inda sãos e immunes erão,
Os que a peste engeitou,
Que fome e sede e privações soffrerão...
A espada decepou.
E a donzella tremeo, da mãi nos braços
Não salva ainda,
Que incitava os prazeres do soldado
A face linda.
E o fido amante, que de a ver tão bella
Sentio prazer,
Sente martyrios por que a vê formosa
No seo morrer.
Coisa alguma escapou!—Já tudo é cinzas,
Tudo destruição:
A columna, o palacio, a casa, o templo,
O templo da oração!
Meninos, homens e mulheres,—todos
Já rojão sobre o pó;
Mas o Deos, o Deos bom já está vingado,
Por ella já sente dó.
E a villa d’outr’ora mais ruidosa,
Lá resurgio cidade;
Por que o Deos da justiça, o das armadas,
O Deos é de bondade.

QUADRAS DA MINHA VIDA.
RECORDAÇÃO E DESEJO.

AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.

Sol chi non lascia eredità d’affetti
Poca gioia ha dell’urna.
FOSCOLO.

I.

Houve tempo em que os meos olhos
Gostavão do sol brilhante,
E do negro véo da noite,
E da aurora scintillante.
Gostavão da branca nuvem
Em céo de azul espraiada,
Do terno gemer da fonte
Sobre pedras despenhada.
Gostavão das vivas côres
De bella flôr vicejante,
E da voz immensa e forte
Do verde bosque ondeante.
Inteira a natureza me sorria!
A luz brilhante, o susurrar da brisa,
O verde bosque, o rosicler d’aurora,
Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra,
D’esperança e d’amor minha alma ardente,
De luz e de calor meu peito enchião.
Inteira a natureza parecia
Meos mais fundos, mais intimos desejos
Perscrutar e cumprir;—almo sorriso
Parecia enfeitar co’os seos encantos,
Com todo o seo amor compor, doiral-o,
Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no,
Porque minha alma de o sentir folgasse.
Oh! quadra tão feliz!—Se ouvia a brisa
Nas folhas susurrando, o som das agoas,
Dos bosques o rugir;—se os desejava,
—O bosque, a brisa, a folha, o trepidante
Das agoas murmurar prestes ouvia.
Se o sol doirava os céos, se a lua casta,
Se as timidas estrellas scintillavão,
Se a flôr desabrochava involta em musgo,
—Era a flôr que eu amava,—erão estrellas
Meos amores sómente, o sol brilhante,
A lua merencoria—os meos amores!
Oh! quadra tão feliz!—doce harmonia,
Acordo extreme de vontade e força,
Que atava minha vida á natureza!
Ella era para mim bem como a esposa
Recem-casada, pudica sorrindo;
Alma de noiva—coração de virgem,
Que a minha vida inteira abrilhantava!
Quando um desejo me brotava n’alma.
Ella o desejo meo satisfazia;
E o quer que ella fizesse ou me dissesse,
Esse era o meo desejo, essa a voz minha,
Esse era o meo sentir do fundo d’alma,
Expresso pela voz que eu mais amava.

II.

Agora a flôr que m’importa,
Ou a brisa perfumada,
Ou o som d’amiga fonte
Sobre pedras despenhada?
Que me importa a voz confusa
Do bosque verde-frondoso.
Que m’importa a branca lua,
Que m’importa o sol formoso?
Que m’importa a nova aurora,
Quando se pinta no céo;
Que m’importa a feia noite,
Quando desdobra o seo véo?
Estas scenas, que amei, já me não causão
Nem dôr e nem prazer!—Indifferente,
Minha alma um só desejo não concebe,
Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde
Do meo imaginar as puras azas
Cercear, desprender-lhe as niveas plumas,
Roja-las sobre o pó, calca-las tristes?
Perante a creação tão vasta e bella
Minha alma é como a flôr que pende murcha;
E qual profundo abysmo:—embalde estrellas
Brilhão no azul dos céos, embalde a noite
Estende sobre a terra o negro manto:
Não póde a luz chegar ao fundo abysmo,
Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face;
Não póde a luz á flôr prestar mais brilho,
Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!

III.

Houve tempo em que os meos olhos
Se extasiavão de ver
Agil donzella formosa
Por entre flôres correr.
Gostavão de um gesto brando,
Que revelasse pudor;
Gostavão de uns olhos negros,
Que rutilassem de amor.
E gostavão meus ouvidos
De uma voz—toda harmonia,—
Quer pesares exprimisse,
Quer exprimisse alegria.
Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem
Indolente ou fugaz—alegre ou triste,
Da vida a estreita senda desflorando
Com pé ligeiro e animo tranquillo;
Improvida e brilhante parecendo
Seos dias desfolhar, uns após outros,
Como folhas de rosa;—e no futuro—
Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora.
Era deleite e dôr vê-la tão leda
Do mundo as afflicções, angustias, prantos
Affrontar co’um sorriso; era um descanso
Interno e fundo, que sentia a mente,
Um quadro em que os meos olhos repousavão,
Ver tanta formosura e tal pureza
Em rosto de mulher com alma d’anjo!

IV.

Houve tempo em que os meos olhos
Gostavão de lindo infante,
Com a candura e sorriso
Que adorna infantil semblante.
Gostavão do grave aspecto
De magestoso ancião,
Tendo nos labios conselhos,
Tendo amor no coração.
Um representa a innocencia,
Outro a verdade sem véo;
Ambos tão puros, tão graves,
Ambos tão perto do céo!
Infante e velho!—principio e fim da vida!—
Um entra neste mundo, outro sae delle,
Gozando ambos da aurora;—um sobre a terra,
E o outro lá nos céos.—O Deos, que é grande,
Do pobre velho compensando as dôres,
O chama para si; o Deos clemente
Sobre a innocencia de continuo vela.
Amei do velho o magestoso aspecto,
Amei o infante que não tem segredos,
Nem cobre o coração co’os folhos d’alma.
Amei as doces vozes da innocencia,
A rispida franqueza amei do velho,
E as rigidas verdades mal sabidas.
Só por labios senis pronunciadas.

V.

Houve tempo, em que possivel
Eu julguei no mundo achar
Dois amigos extremosos,
Dois irmãos do meu pensar;
Amigos que compr’hendessem
Meo prazer e minha dôr,
Dos meos labios o sorriso,
Da minha alma o dissabor;
Amigos, cuja existencia
Vivesse eu co’o meo viver:
Unidos sempre na vida,
Unidos—té no morrer.
Amizade!—união, virtude, encanto—
Consorcio do querer, de força e d’alma—
Dos grandes sentimentos cá da terra
Talvez o mais reciproco, o mais fundo!
Quem ha que diga: Eu sou feliz!—se acaso
Um amigo lhe falta?—um doce amigo,
Que sinta o seo prazer como elle o sente,
Que soffra a sua dôr como elle a soffre?
Quando a ventura lhes sorri na vida,
Um a par d’outro—ei-los lá vão felizes;
Quando um sente afflicção, nos braços do outro
A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos,
Encontra doce alivio o desditoso
No thesouro que encerra um peito amigo.
Candido par de cysnes, vão roçando
A face azul do mar co’as niveas azas
Em deleite amoroso;—acalentados
Pelo sereno espreguiçar das ondas,
Aspirando perfumes mal sentidos,
Por vesperina arajem bafejados,
É jogo o seo viver;—porém se o vento
No frondoso arvoredo ruge ao longe,
Se o mar, batendo irado as ermas praias,
Crusadas vagas em novello enrola,
Com grito de terror o par candente
Sacode as niveas azas, bate-as,—fogem.

VI.

Houve tempo em que eu pedia
Uma mulher ao meo Deos,
Uma mulher que eu amasse,
Um dos bellos anjos seos.
Em que eu a Deos só pedia
Com fervorosa oração
Um amor sincero e fundo,
Um amor do coração.
Qu’eu sentisse um peito amante
Contra o meu peito bater,
Sómente um dia ... sómente!
E depois delle morrer.
Amei! e o meo amor foi vida insana!
Um ardente anhelar, cauterio vivo,
Posto no coração, a remorde-lo.
Não tinha uma harmonia a natureza
Comparada a sua voz; não tinha côres
Formosas como as della,—nem perfumes
Como esse puro odor qu’ella esparzia
D’angelica dureza.—Meos ouvidos
O feiticeiro som dos meigos labios
Ouvião com prazer; meos olhos vagos
De a ver não se cansavão; labios d’homens
Não poderão dizer como eu a amava!
E achei que o amor mentia, e que o meo anjo
Era apenas mulher! chorei! deixei-a!
E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo,
A sorte, boa ou má, levou-m’os longe,
Bem longe quando eu perto os carecia.
Conclui que a amizade era um phantasma,
Na velhice prudente—habito apenas,
No joven—doudejar; em mim lembrança;
Lembrança!—porém tal que a não trocára
Pelos gozos da terra,—meos prazeres
Forão só meos amigos,—meos amores
Hão de ser neste mundo elles sómente.

VII.

Houve tempo em que eu sentia
Grave e solemne afflicção,
Quando ouvia junto ao morto
Cantar-se a triste oração.
Quando ouvia o sino escuro
Em sons pesados dobrar,
E os cantos do sacerdote
Erguidos junto do altar.
Quando via sobre um corpo
A fria lousa cahir;
Silencio debaixo della,
Sonhos talvez—e dormir.
Feliz quem dorme sob a lousa amiga,
Tepida talvez com o pranto amargo
Dos olhos da afflicção;—se os mortos sentem,
Ou se almas tem amor aos seos despojos,
Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia,
E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos,
Hão de lembrar-se com prazer dos vivos,
Que chorão sobre a campa, onde já brota
O denso musgo, e já desponta a relva.
Lagem fria dos mortos! quem me dera
Gozar do teo descanço, ir asilar-me
Sob o teo sancto horror, e nessas trevas
Do bulicio do mundo ir esconder-me!
Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse
No teo silencio fundo asilo eterno!
Ahi não pulsa o coração, nem sente
Martyrios de viver quem já não vive.