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Cantos

Chapter 51: IDEIA DE DEOS.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

HYMNOS.

Singe dem Herrn mein Lied, und du, begeisterte Seele,
Werde ganz Jubel dem Gott, den alle Wesen bekennen!
WIELAND.

MESQUINHO TRIBUTO DE PROFUNDA AMIZADE
AO DR. J. D. LISBOA SERRA.


O MAR.

Frappé de ta grandeur farouche
Je tremble ... est-ce bien toi, vieux lion que je touche,
Océan, terrible océan!
TURQUETY.
Oceano terrivel, mar immenso
De vagas procellosas que se enrolão
Floridas rebentando em branca espuma
N’um pólo e n’outro pólo,
Emfim ... emfim te vejo; emfim meos olhos
Na indomita cerviz tremulos cravo,
E esse rugido teo sanhudo e forte
Emfim medroso escuto!
D’onde houveste, ó pelago revolto,
Esse rugido teo? Em vão dos ventos
Corre o insano pegão lascando os troncos,
E do profundo abysmo
Chamando á superficie infindas vagas,
Que avaro encerras no teo seio undoso;
Ao insano rugir dos ventos bravos
Sobresáe teo rugido.
Em vão troveja horrisona tormenta;
Essa voz do trovão, que os céos abala,
Não cobre a tua voz.—Ah! d’onde a houveste,
Magestoso oceano?
Ó mar, o teo rugido é um echo incerto
Da creadora voz, de que surgiste:
Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas
As vagas compelliste.
E á noite, quando o céo é puro e limpo,
Teo chão tinges de azul,—tuas ondas correm
Por sobre estrellas mil; turvão-se os olhos
Entre dois céos brilhantes.
Da voz de Jehovah um echo incerto
Julgo ser teo rugir; mas só, perenne,
Imagem do infinito, retratando
As feituras de Deos.
Por isto, a sós comtigo, a mente livre
Se eleva, aos céos remonta ardente, altiva,
E d’este lodo terreal se apura,
Bem como o bronze ao fogo.
Férvida a Musa, co’os teos sons casada,
Glorifica o Senhor de sobre os astros
Co’a fronte além dos céos, além das nuvens,
E co’os pés sobre ti.
O que ha mais forte do que tu? Se erriças
A coma perigosa, a náo possante,
Extremo de artificio, em breve tempo
Se afunda e se anniquila.
Es poderoso sem rival na terra;
Mas lá te vás quebrar n’um grão d’areia,
Tão forte contra os homens, tão sem força
Contra coisa tão fraca!
Mas n’esse instante que me está marcado,
Em que hei de esta prisão fugir p’ra sempre,
Irei tão alto, ó mar, que lá não chegue
Teo sonoro rugido.
Então mais forte do que tu, minha alma,
Desconhecendo o temor, o espaço, o tempo,
Quebrará n’um relance o circl’o estreito
Do finito e dos céos!
Então, entre myriadas de estrellas,
Cantando hymnos d’amor nas harpas d’anjos,
Mais forte soará que as tuas vagas,
Mordendo a fulva areia;
Inda mais doce que o singelo canto
De merencoria virgem, quando a noite
Occupa a terra,—e do que a mansa brisa,
Que entre flôres suspira.

IDEIA DE DEOS.

Gross ist der Herr! Die Himmel ohne Zahl
Sind seine Wohnungen!
Seine Wagen die donnernden Gewölke,
Und Blitze sein Gespann.
KLEIST.

I.

Á voz de Jehovah infindos mundos
Se formárão do nada;
Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia,
E a noite foi creada.
Luzio no espaço a lua! sobre a terra
Rouqueja o mar raivoso,
E as espheras nos céos erguerão hymnos
Ao Deos prodigioso.
Hymno de amor a creação, que sôa
Eternal, incessante,
Da noite no remanso, no ruido
Do dia scintillante!
A morte, as afflicções, o espaço, o tempo,
O que é para o Senhor?
Eterno, immenso, que lh’importa a sanha
Do tempo roedor?
Como um raio de luz, percorre o espaço,
E tudo nota e vê—
O argueiro, os mundos, o universo, o justo;
E o homem que não crê.
E elle que póde anniquilar os mundos,
Tão forte como elle é,
E vê e passa, e não castiga o crime,
Nem o impio sem fé!
Porém quando corrupto um povo inteiro
O Nome seo maldiz,
Quando só vive de vingança e roubos,
Julgando-se feliz;
Quando o impio commanda, quando o justo
Soffre as penas do mal,
E as virgens sem pudor, e as mães sem honra,
E a justiça venal;
Ai da perversa, da nação maldicta,
Cheia de ingratidão,
Que ha de ella mesma sugeitar seo collo
Á justa punição.
Ou já terrivel peste expande as azas,
Bem lenta a esvoaçar;
Vai de uns a outros, dos festins conviva,
Hospede em todo o lar!
Ou já torvo rugir da guerra accesa
Espalha a confusão;
E a esposa, e a filha, de terror oppressa,
Não sente o coração.
E o pae, e o esposo, no morrer cruento,
Vomita o fel raivoso;
—Milhões de insectos vis que um pé gigante
Enterra em chão lodoso.
E do povo corrupto um povo nasce
Esperançoso e crente,
Como do podre e carunchoso tronco
Hastea forte e virente.

II.

Oh! como é grande o Senhor Deos, que os mundos
Equilibra nos ares;
Que vai do abysmo aos céos, que susta as iras
Do pelago fremente,
A cujo sopro a maquina estrellada
Vacilla nos seos eixos,
A cujo aceno os cherubins se movem
Humildes, respeitosos,
Cujo poder, que é sem igual, excede
A hyperbole arrojada!
Oh! como é grande o Senhor Deos dos mundos,
O Senhor dos prodigios.

III.

Elle mandou que o sol fosse principio,
E razão de existencia,
Que fosse a luz dos homens—olho eterno
Da sua providencia.
Mandou que a chuva refrescasse os membros,
Refizesse o vigor
Da terra hiante, do animal cançado
Em praino abrasador.
Mandou que a brisa susurrasse amiga,
Roubando aroma á flôr;
Que os rochedos tivessem longa vida,
E os homens grato amor!
Oh! como é grande e bom o Deos que manda
Um sonho ao desgraçado,
Que vive agro viver entre miserias,
De ferros rodeado;
O Deos que manda ao infeliz que espere
Na sua providencia;
Que o justo durma, descançado e forte
Na sua consciencia!
Que o assassino de continuo vele,
Que trema de morrer;
Em quanto lá nos céos, o que foi morto,
Desfructa outro viver!
Oh! como é grande o Senhor Deos, que rege
A maquina estrellada,
Que ao triste dá prazer; descanço e vida
Á mente atribulada!

O ROMPER D’ALVA.

Quand ta corde n’aurait qu’un son,
Harpa fidèle, chante encore
Le Dieu que ma jeunesse adore,
Car c’est un hymne que son nom.
LAMARTINE.
Do vento o rijo sopro as mansas ondas
Varreo do immenso pego,—e o mar rugindo
Ás nuvens se elevou com furia insana;
Ennovelladas vagas se arrojárão
Ao céo co’a branca espuma!
Raivando em vão se encontrão soluçando
Na base d’erma rocha descalvada;
Em vão de furias crescem, que se quebra
A força enorme do impotente orgulho
Na rocha altiva ou na arenosa praia.
Da tormenta o furor lhe accende os brios,
Da tormenta o furor lh’enfreia as iras,
Que em teimosos gemidos se descerrão;
Da quieta noite despertando os echos
Além, no valle humilde, onde não chega
Seo sanhudo gemer, que o dia abafa.
Mas a brisa susurrando
A face do céo varreo,
Tristes nuvens espalhando,
Que a noite em ondas verteo.
Além, atraz da montanha,
Branda luz se patenteia,
Que d’alma a dôr afugenta,
Se dentro sentida anceia.
Branda luz, que afaga a vista,
De que se ama o céo tingir,
Quando entre o azul transparente
Parece alegre sorrir;
Como es linda!—Como dobras
Da vida a força e do amor!
—Que tão bem luz dentro d’alma
Teo luzir encantador!
No teo ameno silencio
A tormenta se perdeo,
E do mar a forte vida
Nos abysmos se escondeo!
Porque assim de novo agora
Que o vento o não vem toldar,
Parece que vai queixoso
Mansamente a soluçar?
Porque as ramas do arvoredo,
Bem como as ondas do mar,
Sem correr sopro de vento,
Começão de murmurar?
Sobre o tapiz d’alta relva,
—Rocio da madrugada—
Destilla gotas de orvalho
A verde folha inclinada.
Renascida a natureza
Parece sentir amor;
Mais brilhante, mais viçosa
O calix levanta a flôr.
Por entre as ramas occultas,
Docemente a gorgear,
Acordão trinando as aves,
Alegres, no seo trinar.
O arvoredo n’essa lingoa
Que diz, porque assim susurra?
Que diz o cantar das aves?
Que diz o mar que murmura?
—Dizem um nome sublime,
O nome do que é Senhor,
Um nome que os anjos dizem,
O nome do Creador.
Tão bem eu, Senhor, direi
Teo nome—do coração,
E ajuntarei o meo hymno
Ao hymno da creação.
Quando a dôr meo peito acanha,
Quando me rala a afflicção,
Quando nem tenho na terra
Mesquinha consolação;
Tu, Senhor, do peso insano
Livras meo peito arquejante,
Seccas-me o pranto que os olhos
Vertendo estão abundante.
Tu pacificas minha alma,
Quando se rasga com pena,
Como a noite que se esconde
Na luz da manhã serena.
Tu es a luz do universo,
Tu es o ser creador,
Tu es o amor, es a vida,
Tu es meo Deos, meo Senhor.
Direi nas sombras da noite,
Direi ao romper da aurora:
—Tu es o Deos do universo,
O Deos que minha alma adora.
Tão bem eu, Senhor, direi
Teo nome—do coração,
E ajuntarei o meo hymno
Ao hymno da creação.

A TARDE.

Ave Maria! blessed be the hour!
The time, the clime, the spot where I so oft
Have felt that moment in its fullest power
Sink o’er the earth so beautiful and soft....
BYRON.
Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores,
Mãe da meditação, meo doce encanto!
Os rogos da minha alma emfim ouviste,
E grato refrigerio vens trazer-lhe
No teo remansear prenhe de enlevos!
Em quanto de te ver gostão meos olhos,
Em quanto sinto a minha voz nos labios,
Em quanto a morte me não rouba á vida,
Um hymno em teo louvor minha alma exhale,
Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores!

I.

É bella a noite, quando grave estende
Sobre a terra dormente o negro manto
De brilhantes estrellas recamado;
Mas nessa escuridão, nesse silencio
Que ella comsigo traz, ha um quê de horrivel
Que espanta e desespera e geme n’alma;
Um quê de triste que nos lembra a morte!
No romper d’alva ha tanto amor, tal vida,
Ha tantas côres, brilhantismo e pompa,
Que fascina, que attrahe, que a amar convida;
Não pode supportal-a homem que soffre,
Orfãos de coração não podem vel-a.
Só tu, feliz, só tu, a todos prendes!
A mente, o coração, sentidos, olhos,
A ledice e a dôr, o pranto e o riso,
Folgão de te avistar;—são teos,—es d’elles.
Homem que sente dôr folga comtigo,
Homem que tem prazer folga de ver-te!
Comtigo sympathisão, porque es bella,
Qu’es mãe de merencorios pensamentos,
Entre os céos e a terra extasis doce,
Entre dôr e prazer celeste arroubo.

II.

A brisa que murmura na folhagem,
As aves que pipitão docemente,
A estrella que desponta, que rutila,
Com duvidosa luz ferindo os mares,
O sol que vai nas agoas sepultar-se
Tingindo o azul dos céos de branco e d’oiro;
Perfumes, murmurar, vapores, brisa,
Estrellas, céos e mar, e sol e terra,
Tudo existe comtigo, e tu es tudo.

III.

Homem que vive agro viver de côrte,
Indifferente olhar derrama a custo
Sobre os fulgores teos;—homem do mundo
Mal pode o desbotado pensamento
Revolver sobre o pó; mas nunca, oh nunca!
Ha de elevar-se a Deos, e nunca ha de elle
Na abobada celeste ir pendurar-se,
Como de rosea flôr pendente abelha.
Homem da natureza, esse contemple
De purpura tingir a luz que morre
As nuvens lá no occaso vacillantes!
Ha de vida melhor sentir no peito,
Sentir doce prazer sorrir-lhe n’alma,
E fonte de ternura inexgotavel
Do fundo coração brotar-lhe em ondas.
Hora do pôr do sol!—hora fagueira,
Qu’encerras tanto amor, tristeza tanta!
Quem ha que de te ver não sinta enlevos,
Quem ha na terra que não sinta as fibras
Todas do coração pulsar-lhe amigas,
Quando d’esse teo manto as pardas franjas
Sóltas, roçando a habitação dos homens?
Ha hi prazer tamanho que embriaga,
Ha hi prazer tão puro, que parece
Haver anjos dos céos com seos acordes
A misera existencia acalentado!

IV.

Socia do forasteiro, tu, saudade,
N’esta hora os teos espinhos mais pungentes
Cravas no coração do que anda errante.
Só elle, o peregrino, onde acolher-se,
Não tem tugurio seo, nem pae, nem ’sposa,
Ninguem que o espere com sorrir nos labios
E paz no coração,—ninguem que extranhe,
Que anceie afflicto de o não ver comsigo!
Cravas então, saudade, os teos espinhos;
E elles, tão pungentes, tão agudos,
Varando o coração de um lado a outro,
Nem trazem dôr, nem desespero incitão;
Mas remanso de dôr, mas um suave
Recordar do passado,—um quê de triste
Que ri ao coração, chamando aos olhos,
Tão espontaneo, tio fagueiro pranto,
Que não fora prazer não derramal-o.
E quem—ah tão feliz!—quem peregrino
Sobre a terra não foi? Quem sempre ha visto
Sereno e brando deslisar-se o fumo
Sobre o tecto dos seos; e sobre os cumes
Que os seos olhos hão visto á luz primeira
Crescer branca neblina que se enrola,
Como incenso que aos céos a terra envia?
Tão feliz! quando a morte involta em pranto
Com gelado suor lh’enerva os membros,
Procura inda outra mão co’a mão sem vida,
E o extremo scintillar dos olhos baços,
De um ente amado procurando os olhos,
Sem prazer, mas sem dôr, alli se apaga.
O exilado! esse não; tão só na vida,
Como no passamento ermo e sosinho,
Sente dôres crueis, torvos pezares
Do leito afflicto esvoaçar-lhe em torno,
Roçar-lhe o frio, o pallido semblante,
E o instante derradeiro amargurar-lhe.
Porém, no meo passar da vida á morte,
Possa co’a extrema luz d’estes meos olhos
Trocar ultimo adeos com os teos fulgores!
Ah! possa o teo alento perfumado,
Do que na terra estimo, docemente
Minha alma separar, e derramal-a
Como um vago perfume aos pés do Eterno.

O TEMPLO.

....Jéhovah déploie autour de nos demeures
Le linceul de la nuit, et la chaîne des heures
Tombe anneau par anneau.
TURQUETY.

I.

Estou só n’este mudo sanctuario,
Eu só, com minha dôr, com minhas penas!
E o pranto nos meos olhos represado,
Que nunca vio correr humana vista,
Livremente o derramo aos pés de Christo,
Que tão bem suspirou, gemeo sosinho,
Que tão bem padeceo sem ter conforto,
Como eu padeço, e soffro, e gemo, e choro.
Remorso não me punge a consciencia,
Vergonha não me tinge a côr do rosto,
Nem crimes perpetrei;—porque assim choro?
E direi eu por que?—Antes meu berço,
Que vagidos de infante vividouro,
Os sons finaes de um moribundo ouvisse!
Que esperanças que eu tinha tão formosas,
Que mimosos enlevos de ternura,
Não continha minha alma toda amores!
Esperanças e amor, que é feito d’elles?
Um dia me roubava uma esperança,
E sosinho, uma e uma, me deixárão.
Morrerão todas, como folhas verdes
Que em principios do inverno o vento arranca.
E o amor!—podia eu sentil-o ao menos;
Quando eu via a desdita de bem perto
Co’ um sorriso infernal no rosto squalido,
Com fome e frio a tiritar demente,
Acenando-me infausta?—quando vinda
Minha hora já sentia, em que os meus labios,
Tremendo de vergonha, soluçassem
Ao f’liz com que eu na rua deparasse,
De mãos erguidas: Meo Senhor, piedade!
Eis porque soffro assim, porque assim gemo,
Porque meo rosto pallido se encova,
Porque sómente a dôr me ri nos labios,
Porque meo coração já todo é cinzas.
Menti, Senhor, menti!—porque te adoro.
No altar profano de belleza esquiva
Não queimo incenso vão;—tu só me occupas
O coração, que eu fiz hostia sagrada,
Apuro de elevados sentimentos,
Que o teo amor somente asilão, nutrem.
Quando ao sopé da cruz me chego afflicto,
Sinto que o meo soffrer se vae mingoando,
Sinto minha alma que de novo existe,
Sinto meo coração arder em chammas,
Arder meos labios ao dizer teo nome.
Assim a cada aurora, a cada noite,
Virei consolações beber sedento
Aos pés do meo Senhor;—virei meo peito
Encher de religião, de amor, de fogo,
Que além de infindos céos minha alma exalte.

II.

Quem me dera nas azas d’este vento,
Que agora tão saudoso aqui murmura,
Agitando as cortinas, que me encobrem
Do teo rosto o fulgor, que me não cegue,
Subir além dos sóes, além das nuvens
Ao teo throno, ó meo Deos; ou quem me désse
Ser este incenso que se arroja em ondas
A subir, a crescer, em rolo, em fumo,
Até perder-se na amplidão dos ares!
Não qu’ria aqui viver!—Quando eu padeço,
Surdez fingida a minha voz responde;
Não tenho voz de amor, que me console,
Corre o meo pranto sobre terra ingrata,
E dôr mortal meo coração fragoa.
Só tu, Senhor, só tu, no meo deserto
Escutas minha voz que te supplica;
Só tu nutres minha alma de esperança;
Só tu, ó meu Senhor, em mim derramas
Torrentes de harmonia, que me abrasão.
Qual orgão, que resôa mavioso,
Quando segura mão lhe opprime as teclas,
Assim minha alma, quando a ti se achega
Hymnos de ardente amor disfere grata:
E, quando mais serena, inda conserva
Effluvios d’esse canto, que me guia
No caminho da vida aspero e duro.
Assim por muito tempo reboando
Vão no recinto do sagrado templo
Sons, que o orgão soltou, que o ouvido escuta.

TE DEUM.

Nós, Senhor, nós te louvamos,
Nós, Senhor, te confessamos.
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto,
Immenso é o teo poder, tua força immensa,
Teos prodigios sem conta;—e os céos e a terra
Teo ser e nome e gloria preconisão.
E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,
E o côro dos prophetas, e dos martyres
A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto.
Na innocencia do infante es tu quem fallas;
A belleza, o pudor—es tu que as gravas
Nas faces da mulher,—es tu que ao velho
Prudencia dás,—e o que verdade e força
Nos puros labios, do que é justo, imprimes.
Es tu quem dás rumor á quieta noite,
Es tu quem dás frescor á mansa brisa,
Quem dás fulgor ao raio, azas ao vento,
Quem na voz do trovão longe rouquejas.
Es tu que do oceano á furia insana
Pões limites e cobro,—es tu que a terra
No seo vôo equilibras,—quem dos astros
Governas a harmonia, como notas
Acordes, simultaneas, palpitando
Nas cordas d’Harpa do teo Rei Propheta,
Quando elle em teo louvor hymnos soltava,
Qu’ ião, cheios de amor, beijar teo solio.
Sancto! Sancto! Sancto!—teos prodigios
São grandes, como os astros,—são immensos
Como arêa delgada em quadra estiva.
E o archanjo forte, e o serafim sem mancha,
E o côro dos prophetas, e dos martyres
A turba eleita—a ti, Senhor, proclamão,
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes grande.

ADEOS
AOS MEOS AMIGOS DO MARANHÃO.

Meos Amigos, Adeos! Já no horizonte
O fulgor da manhã se empurpurece:
É puro e branco o céo,—as ondas mansas,
—Favoravel a brisa;—irei de novo
Sorver o ar purissimo das ondas,
E na vasta amplidão dos céos e mares
De vago imaginar embriagar-me!
Meos Amigos, Adeos!—Verei fulgindo
A lua em campo azul, e o sol no occaso
Tingir de fogo a implacidez das agoas;
Verei horridas trevas lento e lento
Descerem, como um crepe funerario
Em negro esquife, onde repoisa a morte;
Verei a tempestade quando alarga
As negras azas de bulcões, e as vagas
Soberbas encastella, esporeando
O curto bojo de ligeiro barco,
Que geme, e ruge, e empina-se insoffrido
Galgando os escarceos,—bem larga esteira
De phosphoro e de luz traz si deixando:
Generoso corsel, que sente as cruzes
Agudas de teimosos acicates
Lacerarem-lhe rabidas o ventre.
Inda uma vez, Adeos! Curtos instantes
De ineffavel prazer—horas bem curtas
De ventura e de paz frui comvosco:
Oasis que encontrei no meo deserto,
Tepido valle entre fragosas serras
Virente derramado, foi a quadra
Da minha vida, que passei comvosco.
Aqui de quanto amei, do que hei soffrido,
De tudo quanto almejo, espero, ou temo
Deslembrado vivi!—Oh! quem me dera
Que entre vós outros me alvejasse a fronte,
E que eu morresse entre vós! Mas força occulta,
Irresistivel, me persegue e impelle.
Qual folha instavel em ventoso estio
Do vento ao sopro a esvoaçar sem custo;
Assim vou eu sem tino,—aqui pegadas
Mal firmes assentando—além pedaços
De mim mesmo deixando. Na floresta
O lasso viandante extraviado
Por todo o verde bosque estende os olhos,
E cançado esmorece,—cáe, medita,
Respira mais de espaço, cobra alento,
E nas solidões de novo eil-o se entranha.
Vestigios mal seguros sopra o vento,
Ou nivella-os a chuva, ou relva os cobre:
Talvez que folhas asperas de arbusto
Mordão vellos da tunica, e denotem
(Duvída o viajor, que os vê com pasmo)
Que errante caminheiro alli passasse.
E eu parti!—Não chorei, que do meo pranto
A larga fonte jaz de ha muito exhausta;
Ha muito que os meos olhos não gotejão
O repassado fel d’acre amargura;
E o pranto no meo peito represado
Em cinza o coração me ha convertido.
É assim que um vulcão se torna fonte
De lympha amarga e quente; e a fonte em ermo,
Onde não crescem perfumadas flôres,
Nem tenras aves seos gorgeios soltão,
Nem triste viajor encontra abrigo.
Rasgado o coração de pena acerba,
Transido de afflicções, cheio de magoa,
Miserando parti! tal quando reprobo,
Adão, cobrindo os olhos coas mãos ambas,
Em meio a sua dôr só descobria
Do Archanjo os candidissimos vestidos,
E os lampejos da espada fulminante,
Que o Eden tão mimoso lhe vedava.
Porém quando algum dia o colorido
Das vivas illusões, que inda conservo,
Sem força esmorecer,—e as tão viçosas
Esp’ranças, que eu educo, se afundarem
Em mar de desenganos;—a desgraça
Do naufragio da vida ha de arrojar-me
Á praia tão querida, que ora deixo.
Tal parte o desterrado: um dia as vagas
Hão de os seos restos regeitar na praia,
D’onde tão novo se partira, e onde
Procura a cinza fria achar jazigo.