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Cantos

Chapter 64: O AMOR.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

SEGUNDOS CANTOS.


CONSOLAÇÃO NAS LAGRIMAS.

Las lágrimas puras que entónces se vierten,
Acaso divierten
En vez de doler.
ZORRILLA.
Como é bello á meia noite
O azul do céo transparente,
Quando a esphera d’alva lua
Vagueia mui docemente,
Quando a terra não ruidosa
Toda se cala dormente,
Quando o mar tranquillo e brando
Na areia chora fremente!
Como é bello este silencio
Da terra todo harmonia,
Que aos céos a mente arrebata
Cheia de meiga poesia!
Como é bella a luz que brilha
Do mar na viva ardentia!
Este pranto como é doce
Que entorna a melancolia!
Esta aragem como é branda
Que enruga a face do mar,
Que na terra passa e morre
Sem nas folhas susurrar!
Os sons d’aereo instrumento
Quizera agora escutar,
Quizera magoas pungentes
Neste silencio olvidar!
O azul do céo, nem da lua
A doce luz reflectida,
Nem o mar beijando a praia,
Nem a terra adormecida,
Nem meigos sons, nem perfumes,
Nem a brisa mal sentida,
Nem quanto agrada e deleita,
Nem quanto embelleza a vida;
Nada é melhor que este pranto
Em silencio gotejado,
Meigo e doce, e pouco e pouco
Do coração despegado;
Não soro de fel, mas sancto
Frescor em peito chagado;
Não espremido entre dores,
Mas quasi em prazer coado!

CANÇÃO.

Yo no soy mas que un poeta,
Sin otro bien que mi lira.
ZORRILLA.
Tenho uma harpa religiosa,
Toda inteira fabricada
De madeira preciosa
Sobre o Libano cortada.
Foi o Senhor quem m’a deo,
De sanctas palmas coberta,
Que as notas suas concerta
Aos sons do salterio hebreo!
Tenho alaúde polido
Em que antigos Trovadores,
Em tom de guerra atrevido,
Cantavão trovas de amores.
Mas chegando a Sancta Cruz,
De volta do meo desterro,
Cortei-lhe as cordas de ferro,
Cordas de prata lhe puz.
Tenho tão bem uma lyra
De festões engrinaldada,
Onde minha alma afinada
Melindres d’amor suspira.
Nas grinaldas, nos festões,
Nas rosas com que s’inflora,
Goteja o orvalho da aurora
Dictámo dos corações.
Eis o que tenho, ó Donzella,
Só harpa, alaúde e lyra;
Nem vejo sorte mais bella,
Nem coisa que lhe eu prefira.
Votei assim ao meo Deos
A minha harpa religiosa,
A ti a lyra mimosa,
O grave alaúde aos meos!

LYRA.

Coeur sans amour est un jardin sans fleur.

L. HALLEVY.

Se me queres a teos pés ajoelhado,
Ufano de me ver por ti rendido,
Ou já em mudas lagrimas banhado;
Volve, impiedosa,
Volve-me os olhos;
Basta uma vez!
Se me queres de rojo sobre a terra,
Beijando a fimbria dos vestidos teos,
Calando as queixas que meo peito encerra,
Dize-me, ingrata,
Dize-me: eu quero!
Basta uma vez!
Mas se antes folgas de me ouvir na lyra
Louvor singelo dos amores meos,
Por que minha alma ha tanto em vão suspira;
Dize-me, ó bella,
Dize-me: eu te amo!
Basta uma vez!

AGORA E SEMPRE.

Pone me pigris ubi nulla campis
Arbor aestiva recreatur aura,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Dulce ridentem Lalagen amabo,
Dulce loquentem.
HORACIO. OD.
Ponhão-me embora na crestada Libya,
Ou lá nas zonas em que o gelo mora,
Alli tua alma viverá commigo,
Alli teo nome!
Ponhão-me em terras que leões só crião,
Nas altas serras que o condor habita;
Alli ainda viverá comtigo
Minha alma ardente.
Faminto e triste na região deserta,
Co’os pés em sangue de esfarpada estilha,
Cortado o rosto de gelado vento,
Madida a coma:
Alli aos urros do leão sedento,
Aos crebros gritos do condor alpestre,
Ardendo em chamas deste amor sem termo
Direi: Eu te amo!
Duros ferrolhos de prisão medonha
Escute embora sepultar-me em vida;
Embora sinta roxear-me os pulsos
Ferreas algemas;
Embora malhos de tortura infame
Quebrem-me os ossos no medroso equuleo;
Agudos dentes de tenaz raivosa
Mordão-me as carnes:
Nas feias sombras da cruel masmorra,
Nos duros tratos da tortura bruta,
Quer só commigo, quer em meio ás gentes,
Direi: Eu te amo!
Mas nunca o gelo, nem a fragoa ardente,
Nem brutas feras, nem crueza humana
Farão que eu soffra mais agudas dôres,
Nem mais penadas!
Reclina-se outro em teo nevado seio,
Cinge-te o corpo em divinaes caricias,
Beija-te o collo, beija-te o sorriso,
Goza-te e vive!
E eu no entanto extorso com dores!
Praguejo o inferno que nos poz tão longe,
Louco bravejo, misero soluço...
Desejo e morro!

A VIRGEM.

—Tiene mas de vaporosa sombra,
De inefable vision que de mujer.
ZORRILLA.
Linda virgem simelha a linda rosa,
Que se abre ao romper d’alva;
Encapellão-se as petalas mimosas,
Lacradas de pudor com rubro sello:
Cego mortal só lhe respira o incenso;
Mas della a abelha extrahe seo mel mais puro.
Seo nobre coração é como um templo,
Onde só Deos habita;
Alli reina o misterio involto em sombras,
E maga placidez involta em cantos:
Só vê isto o profano; mas o antiste
De Deos a sombra vê, e a voz lhe escuta.
É como um lago de marmoreo leito
Sua alma ingenua e bella:
No fundo não se enxerga o verde limo,
E a lisa face nos amostra os astros.
E onde o humilde pastor só vê luzeiros,
Os anjos la dos céos contemplão mundos.
E se eu a vejo nos saráos ruidosos,
C’roada de belleza,
E a sombra da tristeza irresistivel
Tingir-lhe o rosto, e desbotar-lhe o riso;
Na mulher, que outros vêm, descubro o anjo,
Que as azas d’oiro, que perdeo, lamenta!
Então como que sinto arrebatar-me,
Sympathica attracção!
Quizera doces carmes de ternura
Nas mais delgadas cordas da minha Harpa
Cantar-lhe, e assim dizer-lhe: «Um canto ao menos
O acerbo exilio teo torne mais brando!»
Baldado empenho! Começado apenas,
Afrouxa-se-me o canto;
Debaixo dos meos dedos mal palpita
A corda melindrosa da minha Harpa;
E como em espaço, que até d’ar carece,
Tangida, o extremo som morre sem echo!

ROSA NO MAR!

Rosa, rosa de amor purpurea e bella,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa!
GARRETT.
Por uma praia arenosa,
Vagarosa
Divagava uma Donzella;
Dá largas ao pensamento,
Brinca o vento
Nos soltos cabellos della.
Leve ruga no semblante
Vem n’um instante,
Que n’outro instante se alisa;
Mais veloz que a sua ideia
Não volteia,
Não gira, não foge a brisa.
No virginal devaneio
Arfa o seio,
Pranto ao riso se mistura;
Doce rir dos céos encanto,
Leve pranto,
Que amargo não é, nem dura.
Nesse logar solitario,
—Seo fadario,—
De ver o mar se recreia;
De o ver, á tarde, dormente,
Docemente
Suspirar na branca areia.
Agora, qual sempre usava,
Divagava
Em seo pensar embebida;
Tinha no seio uma rosa
Melindrosa,
De verde musgo vestida.
Ia a virgem descuidosa,
Quando a rosa
Do seio no chão lhe cahe:
Vem um’onda bonançosa,
Qu’impiedosa
A flôr comsigo retrahe.
A meiga flôr sobrenada;
De agastada,
A virge’ a não quer deixar!
Bóia a flôr; a virgem bella,
Vai trás ella,
Rente, rente—á beiramar.
Vem a onda bonançosa,
Vem a rosa;
Foge a onda, a flôr tão bem.
Se a onda foge, a donzella
Vai sobre ella!
Mas foge, se a onda vem.
Muitas vezes enganada,
De enfadada
Não quer deixar de insistir;
Das vagas menos se espanta,
Nem com tanta
Presteza lhes quer fugir.
N’isto o mar que se encapella
A virgem bella
Recolhe e leva comsigo;
Tão fallaz em calmaria,
Como a fria
Polidez de um falso amigo.
Nas agoas alguns instantes,
Fluctuantes
Nadárão brancos vestidos:
Logo o mar todo bonança,
A praia cança
Com monotonos latidos.
Um doce nome querido
Foi ouvido,
Ia a noite em mais de meia:
Toda a praia perlustrárão,
Nem achárão
Mais que a flôr na branca areia.

O AMOR.

Amare amabam.
S. AGOST.
Amor! enlevo d’alma, arroubo, encanto
Desta existencia misera, onde existes?
Fino sentir ou magico transporte,
(O quer que seja que nos leva a extremos,
Aos quaes não basta a natureza humana;)
Sympathica attracção d’almas sinceras
Que unidas pelo amor, no amor se apurão,
Por quem suspiro, serás nome apenas?
A inutil chamma reseccou meos labios,
Mirrou-me o coração da vida em meio,
E á terra fez baixar a mente errada
Que entre nuvens, amor, por ti bradava!
Não te pude encontrar!—em vão meos annos
No louco intento esperdicei; gelados,
Uns após outros á cahir precipites
Na urna do passado os vi; eu triste,
Amor, por ti clamava;—e o meo deserto
Aos meos accentos reboava embalde.
Em vão meo coração por ti se fina,
Em vão minha alma te compr’hende e busca,
Em vão meos labios sofregos cubição
Libar a taça que aos mortaes off’reces!
Dizem-na funda, inexgotavel, meiga;
Em quanto a vejo rasa, amarga e dura!
Dizem-na balsamo, eu veneno a sorvo:
Prazer, doçura,—eu dôr e fel encontro!
Dobrei-me ás duras leis que me impozeste,
Curvei ao jugo teo meo collo humilde,
Feri-me aos teos ardentes passadores,
Prendi-me aos teos grilhões, rojei por terra...
E o lucro?... forão lagrimas perdidas,
Foi roxa cicatriz qu’inda conservo,
Desbotada a illusão e a vida exhausta!
Celeste emanação, gratos effluvios
Das roseiras do céo; bater macio
Das azas auri-brancas d’algum anjo,
Que roça em noite amiga a nossa esphera,
Centelha e luz do sol que nunca morre;
Es tudo, e mais do qu’isto:—es luz e vida,
Perfume, e vôo d’anjo mal sentido,
Peregrinas essencias trescalando!...
Tão bem passas veloz,—breve te apagas,
Como d’uma ave a sombra fugitiva,
Desgarrada voando á flôr de um lago!

SEMPRE ELLA.

Per noctem quaesivi, quam diligit
anima mea, et non inveni illam.
CANT. CANT.
Eu amo a doce virgem pensativa,
Em cujo rosto a pallidez se pinta,
Como nos céos a matutina estrella!
A dôr lhe ha desbotado a côr das faces,
E o sorriso que lhe roça os labios
Murcha ledo sorrir nos labios d’outrem.
Tem um timbre de voz que n’alma echôa,
Tem expressões d’angelica doçura,
E a mente do que as ouve, se perfuma
De amor profundo e de piedade sancta,
E exala effluvios d’um odor suave
De aloes, de myrrha ou de mais grato incenso.
E nessas horas, quando a mente afflicta,
De dôr occulta remordida, anceia
Desabrochar-se em confidencia amiga,
«Neste mundo o que sou?—triste clamava;
«Pérsica involta em pó, entre ruinas,
«Erma e sosinha a resolver-me em pranto!
«Flôr desbotada em hastea já roída,
«De cujo tronco as outras amarellas
«Já rójão sobre o pó, já murchas pendem!
«É sentir e soffrer a minha vida!»
Merencoria dizia, erguendo os olhos
Aos céos d’um claro azul, que lhes sorrião.
Náda o mudo alcyon por sobre os mares,
E proximo a seo fim desata o canto;
A rosa do Sarão lá se despenha
Nas agoas do Jordão: e como a rosa,
Como o cysne, do mar entre os perfumes,
Aos sons d’uma Harpa interna ella morria!
E como o pastor que avista a linda rosa
Nas agoas da corrente, e como o nauta
Que vê, que escuta o cysne ir-se embalado
Sobre as agoas do mar, cantando a morte;
Eu tambem a segui—a rosa, o cysne,
Que lá se foi sumir clima estranho.
E depois que os meos olhos a perdérão,
Como se perde a estrella em céos infindos,
Errei por sobre as ondas do oceano,
Sentei-me a sombra das florestas virgens,
Procurando apagar a imagem della,
Que tão inteira me ficára n’alma!
Embalde aos céos erguendo os olhos turvos
Meo astro procurei entre os mais astros,
Qu’outr’ora amiga sina me fadára!
Com brilho embaciado e luz incerta
Nos ares se perdeo antes do occaso,
Deixando me sem norte em mar d’angustias.

MIMOSA E BELLA.

N’UM ALBUM.

De anno em anno se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.
CALDAS.

I.

Tão bella es, tão mimosa,
Qual viçosa
Fresca rosa,
Que em serena madrugada,
Despontada,
Rorejada
Foi pelo orvalho do céo;
E a aurora que tudo esmalta,
Brilha reflexos de prata
No orvalho que alli prendeo.

II.

Quando um penar afflictivo,
Sem motivo,
D’improviso
Tua alma occupa e entristece,
Que padece,
Que esmorece
Com aquelle imaginar;
Augmenta a tua belleza
Languido véo de tristeza,
Pallor de quem sabe amar.

III.

Assim murcha a sensitiva,
Sempre viva,
Sempre esquiva;
Assim perde o colorido
Por um toque irreflectido,
Mal sentido:
Assim vai o nenuphar,
Como que soffre e tem magoas,
Esconder-se em fundas agoas,
Té que o sol torne a brilhar.

IV.

Mas tão bem a flôr brincada,
Perfumada,
Debruçada
Sobre a tranquilla corrente;
Logo sente
Vir a enchente
Longe, longe a rouquejar,
Que a pobrezinha desfolha,
Sem lhe deixar uma folha,
Sem deixal-a em seo logar.

V.

Não consintas pois que as magoas,
Como as agoas,
Que das fragas
Furiosas vem tombando,
Vão tomando,
Vão levando
A flôr do teu coração!
Ha na vida u’ amor somente,
Um só amor innocente,
Uma só firme paixão.

VI.

Sê antes flôr bemfadada,
Suspirada,
Bafejada
Pela brisa que a namora,
Pela frescura da aurora,
Que a colora:
Á luz do sol se recreia,
E de noite se retrata
Da fonte na lisa prata,
Quando o céo de luz se arreia.

AS DUAS AMIGAS.

. . . . . . . Vivamos juntas
N’um só logar!
N’um só logar, ou sejão mansos ares,
Se alli te exaltas;
Ou sejão campos, se é alli que a relva
De pranto esmaltas.
V. HUGO. TRAD.
Já vistes sobre a flôr de manso lago
Duas aves brincando solitarias,
Já pousadas na lisa superficie,
Já levantando o vôo?
Já vistes duas nuvens no horisonte,
Brancas, orladas com listões de fogo,
A deslumbrante alvura cambiando
Ao pôr de sol estivo?
Já vistes duas lindas mariposas,
Abrindo ao romper d’alva as longas azas,
Onde reflecte o sol, como um prisma,
Bellas, garridas côres?
Nem as pombas que vagão solitarias,
Nem as nuvens do occaso, nem as vagas
Borboletas gentis que adejão livres
Em valle ajardinado;
Tanto não prazem, como doces virgens,
Airosas, bellas, com sorrir singelo,
Da vida negra e má duros abrólhos
Impróvidas calcando.
Quanto ha no mundo d’illusões fagueiras,
De perfume e de amor, guardão no peito,
Quanto ha de luz no céo mostrão nos olhos,
Quanto ha de bello—n’alma.
Como um jardim seo coração se mostra,
Seos olhos como um lago transparente,
Sua alma como uma harpa harmoniosa,
Seu peito como um templo!
Mas um fraco arruido espanta as aves,
Uma brisa ligeira as nuvens rasga,
E uma gota de orvalho ensopa as azas
Das leves mariposas.
Desgarradas voando as aves fogem,
Dos castellos dos céos perdem-se as nuvens,
Nem mais adejão borboletas vagas
Sobre o esmalte das flôres.
Pois quem resiste ao perpassar do tempo?
Depois que derramou grato perfume
Sobre as azas dos ventos que a bafejão,
A flôr tambem definha.
Mas um nobre sentir que se enraiza
No peito da mulher, que menos ame,
É como essencia preciosa e grata,
Que se lacrou n’um vaso.
Repassa-o: depois embora o esgotem;
Leves emanações, gratos effluvios
Ha de eterno verter da mesma essencia,
Talvez porêm mais doces.

SONHO.

Ah! frown not, sweet lady, unbend your soft brow
Nor deem me too happy in this!
If I sin in my dream, I atone for it now,
Thus doom’d but to gaze upon bliss.
BYRON.
Sonhava esta noite, Donzella formosa,
Já quando as estrellas tombavão no mar,
Que eu via a meu lado uma esbelta figura
Divina e mimosa....
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!
Divina e mimosa, co’um véo se cobria
D’estrellas fulgentes de brilho sem par;
O rosto era vosso, era vossa a estatura,
E o anjo dizia....
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!
E o anjo dizia co’um geito celeste:
«Affectos que em outro não pude encontrar
«Por fim me rendérão,—paixão lisa e pura.»
Que tanto soffreste...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!
«Pois tanto soffreste, não devo impiedosa
«Fineza tão grande por fim mal pagar!»
Eis sinto um abraço estreitar-me a cintura,
E uns labios de rosa...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!
E uns labios de rosa cobrirem-me a fronte
Com tepidos beijos de férvido amar!
Prazer tão subido após tanta amargura.
Não sei como o conte!...
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!
Não sei como o conte!—nos labios de rosa
Vivi encantado sem ver, nem pensar,
Em quanto apertava a ligeira cintura,
Cintura mimosa....
Sonhar é ventura;
Deixai-me sonhar!
Cintura mimosa!—depois vos tecia
Grinalda que a fronte vos fosse adornar,
E um cinto de amores com bróche esmaltado
De meiga poesia!...
Quem tão bem fadado
Vivera a sonhar!
De meiga poesia, meo bem, minha amada,
Já pago de quanto me fazeis penar,
Então vos tangia descantes na lyra,
Na lyra afinada!
O sonho é mentira;
Não quero sonhar!

SOLIDÃO.

Solo e pensoso i più deserti campi
Vo misurando a passi tardi e lenti
E gli occhi porto per fuggire intenti
Ove vestigio human l’arena stampi.
PETRARCA. Sonetti.
Se queres saber o meio
Por que as vezes me arrebata
Nas azas do pensamento
A poesia tão grata;
Por que vejo nos meos sonhos
Tantos anginhos dos céos;
Vem commigo, ó doce amada,
Que eu te direi os caminhos,
Donde se enxérgão anginhos,
Donde se trata com Deos.
Fujamos longe das villas,
Das cidades populosas,
Do vegetar entre as vagas
Destas côrtes enganosas;
Fujamos longe, bem longe,
Deste viver cortesão!
Fujamos desta impureza,
Só vês cordura por fóra;
Mas nunca o vicio que mora
Nas dobras do coração!
Fujamos! que nos importa
Rodar do carro que passa,
Esta orgulhosa vã gloria,
Que se resolve em fumaça?
Estas vozes, estes gritos,
Este viver a mentir?
Fujamos, que em taes logares
Não ha prazer innocente,
Só alegria que mente,
Só labios que sabem rir!
Fujamos para o deserto;
Vivamos alli sosinhos,
Sosinhos, mas descuidados
Destes cuidados mesquinhos;
Tu o azul do espaço olhando
E eu só a rever-me em ti!
Quando depois nos tomarmos
Á terra serena e calma,
Aqui acharei tua alma,
E tu me acharás aqui.
Ou corramos o oceano
Que d’immenso a vista cança;
Dormirei no teu regaço
Quando o tempo for bonança,
Quando o batel for jogando
Em leve ondular sem fim.
Mas nos roncos da procella,
Nossos olhos encontrados,
Nossos braços enlaçados,
Hei de cantar-te, inda assim!
Ou se mais te praz, zombemos
Das setas que arroja a sorte;
Vivamos nas minhas selvas,
Nas minhas selvas do norte,
Que gemem nenias sentidas
No seio da escuridão.
Não tem doçura o deserto,
Não têm harmonia os mares,
Como o rugir dos palmares
No correr da viração!
Tu verás como a luz brinca
Nas folhas de côr sombria;
Como o sol, pintor mimoso,
Seos accidentes varia;
Como é doce o romper d’alva,
Como é fagueiro o luar!
Como alli sente-se a vida
Melhor, mais viva, mais pura,
N’aquella eterna verdura,
N’aquelle eterno gozar!
Vem commigo, oh! vem depressa,
Não se esgota a natureza;
Mas desbota-se a innocencia,
Divina e sancta pureza,
Que dá vida aos objectos,
Feituras da mão de Deos!
Vem commigo, ó doce amada,
Que são estes os caminhos,
Donde eu enxergo os anginhos,
Que tu vês nos sonhos meus.

A UM POETA EXILADO.