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Cantos

Chapter 72: OS SUSPIROS.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Il accuse et son siècle, et ses chants, et sa lyre,
Et la coupe enivrante où, trompant son délire,
La gloire verse tant de fiel,
Et ses voeux, poursuivant des promesses funestes,
Et son coeur, et la Muse, et tous ces dons célestes,
Hélas! qui ne sont pas le ciel!
V. HUGO.
Tão bem vaguei, Cantor, por clima estranho,
Vi novos valles, novas serranias,
Vi novos astros sobre mim luzindo;
E eu só! e eu triste!
Ao sereno Mondego, ao Doiro, ao Tejo
Pedi inspirações,—e o Doiro e o Tejo
Do misero proscripto repetirão
Sentidos carmes.
Repetio-mos o placido Mondego;
Talvez em mais de um peito se gravárão,
Em mais de uns meigos labios murmurados,
Talvez soárão.
Os filhos de Minerva, novos cysnes,
Que a fonte dos amores meigos cria,
E alguns de Lyzia sonorosos vates,
Sisudos mestres;
Ouvindo aquelle canto agreste e rudo
Do selvagem guerreiro,—e a voz do piaga
Rugindo, como o vento na floresta,
Prenhe d’augurios;
Benignos me olharão, e aos meos ensaios
Talvez sorrirão; porém mais prendeo-me,
Quem soffrendo como eu, chorou commigo;
Quem me deo lagrimas!
Eu pois, que nesta vida hei aprendido
Só cantar e soffrer, não vejo embalde
Ao conto a dôr unida,—e os repassados
Versos de pranto.
Do triste poleá choro a desdita,
Choro e digo entre mim: «Pobre Canario
Que fado máo cegou, por que soltasse
Mais doce canto;
Pobre Orpheo, nestes tempos mal nascido,
Atraz d’um bem sonhado pelo mundo
A vagar com lyra—um bem que os homens
Não podem dar-te!
Se quer esta lembrança a dôr te abrande:
A vida é breve, e o teo cantar simelha
Vagido fraco de menino enfermo,
Que Deos escuta.

PALINODIA.

O céo não te dotou de formosura,
De attractivo exterior, e a natureza
Teo peito inficionou co’a vil torpeza
D’ingrata condição fallaz e impura!
BOCAGE.
Se só por vós, Senhora, corpo e alma,
Apezar da aversão que tenho ao crime,
Inteiro me embucei nos seos andrajos,
Em tremedal de vicios;
Se só por vós descri do que era nobre,
Por que involto em torpeza immunda e feia,
As vestes da virtude immaculada
Rebolquei-as no lodo;
Se só por vós persegue-me o remorso,
Que os dias da existencia me consome,
E entre angustias crueis minha alma anceia,
—Ludibrio dos meos erros:
Consenti que a moral os seos direitos
Reivendique uma vez, e que a minha alma
Das lições que bebeo na pura infancia
Uma hora se recorde!
Agora, agro censor, hão de os meos labios,
Duras verdades trovejando em verso,
Fazer de vós, o que a razão não pôde,
—Mulher ou estatua!
Mentistes quando amor tinheis nos labios,
Mentistes a compor meigos sorrisos,
Mentistes no olhar, na voz, no gesto...
Fostes bem falsa!...
Falsa, como a mulher que em bruta orgia
Finge extremos de amor que ella não sente,
E o rosto off’rece á osculos vendidos,
Ao sigillo da infamia.
Quantas vezes, Senhora, não cahistes
Humilhada, á meos pés, desfeita em pranto,
Chorando—e que choraveis?—a jurar-me...
—Que juraveis então?
Se pois sentistes compaixão amiga
A cahir gota a gota dos meos labios
No que eu suppunha cicatriz recente,
E que era ulcera funda;
Se me vistes os olhos incendidos,
Sangrar-me o coração no peito afflicto
Ao fel das vossas dôres, que azedaveis
Co’o pranto refalsado.
Ouvi!—não ereis bella,—nem minha alma
Vos amou, que um modello de virtudes,
—Um sublime ideal—amou somente;
Vós o não fostes nunca.
Que uma alma como a vossa, já manchada,
Aos negros vicios mais que muito affeita,
Já feia, já corrupta, já sem brilho....
Amal-a eu, Senhora!
Deitar-me sob a cópa traiçoeira,
Que ao longe espalha a sombra, o engano, a morte;
Recostar-me no seio onde outros dormem,
Que por ninguem palpita!
Beijar faces sem vida, onde se enxerga
Visgo nojento d’osculos comprados;
Crêr no que dizem olhos mentirosos,
Em prantos de loureira!
Antes curvar o collo envilecido
Ao jugo vil da escravidão nefanda;
Beijar humilde a mão que nos offende,
Que nos cobre de opprobrio!
Antes, possesso d’imprudencia estupida,
Brincando remecher no açafate,
Onde por baixo de mimosas flores,
O aspide se esconde!
Mas eu, nos meos accessos de delirio,
Voz importuna de continuo ouvia,
Cá dentro em mim, a repr’hender-me sempre
De vos amar ... tão pouco!
Assim o cego idolatra se culpa,
Nos espasmos d’ascetica virtude,
De não amar assaz o vão phantasma,
De suas mãos feitura.
Porém se luz melhor de cima o aclara,
Cóspe affronta e desdem, e á chamma entrega
O cepo vil, que não merece altares,
Nem d’offrendas é digno!
Releva-se a imprudencia feminina,
Inda um erro, uma culpa se perdôa,
Se a desvaira a paixão, se amor a cega
No mar de escolhos cheio.
O Deos, que mais perdôa a quem mais ama,
Talvez da vida a negra mancha apaga
A quem as azas de algum anjo orvalha
De lagrimas contritas.
Mas não á aquella, em cujo peito móra
Torpeza só,—onde o amor se cobre
De vicios—a nutrir-se d’impurezas,
Como vermes de lodo.
Se porém te aproveita o meo conselho,
Á quem, mais do que a mim, tens offendido,
Que entre os risos do mundo, vê tua alma
E lê teos pensamentos;
Se não crês n’outra vida alem da morte,
Roga se quer a Deos, que te não rompa
Á luz do sol divino da Justiça
A mascara d’enganos!
Que a rainha da terra inamolgavel,
—A dura opinião—te não entregue,
Sosinha, e núa, e d’irrisão coberta,
Á popular vindicta!

OS SUSPIROS.

Mucha pena ¿verdad? mucha amargura
Guardaba allá en sus senos escondida
A despedir-te el alma dolorida,
Hijo de su cariño y su ternura.
ROMEA.
Muitas vezes tenho ouvido,
Como languidos gemidos,
Frouxos suspiros partidos
D’entre uns labios de coral:
A fina tez lhes deslustrão,
Bem como o alento que passa
Sobre o candor d’uma taça
De transparente crystal.
Ouvido os tenho mil vezes
Do coração arrancados,
Sobre labios desmaiados
Susurrando esvoaçar!
Como flôr submarinha
Da funda gleba arrancada,
De vaga em vaga arrastada,
Correndo de mar em mar!
Ouvido os tenho mil vezes,
Em quanto a lúa fulgura,
Quando a virgem d’alma pura
Fita seos olhos no céo:
Notas de mundo longinquo
Repassadas de harmonia,
Diamante que alumia
A tela de um fino véo!
Tu, virgem por que suspiras?
Quando suspiras que scismas?
Em que reflexões te abysmas?
—Do passado ou do porvir;
Mas não tens passado ainda,
Tudo é flores no presente,
Brilha o porvir docemente,
Como do infante o sorrir.
Tu, virgem, por que suspiras?
—Murmura trepida a fonte,
De relva se cobre o monte,
As aves sabem cantar;
O ditoso tem sorrisos,
O desgraçado tem pranto,
A virgem tem mais encanto
No seo vago suspirar!
Suspirar, ó doce virgem,
É da alma a voz primeira,
A expressão mais verdadeira
Da sina e do fado teo!
Vago, incerto, indefinido,
Tem um quê de inexplicavel,
Como um desejo insondavel,
Como um reflexo do céo.
Eu amo ouvir teos suspiros,
Ó doce virgem mimosa,
Como nota harmoniosa,
Como um cantico de amor;
Mais do que a flôr entre as vagas
Sem destino fluctuando,
Folgo de os ver expirando
Em labios de rubra côr.
Mais que a longinqua harmonia,
Que o alento fraco, incerto,
Que o diamante coberto,
Scintillando almo fulgor;
Fólgo de ouvir teos suspiros,
Ó doce virgem mimosa,
Como nota harmoniosa,
Como um cantico de amor!

QUEIXUMES.

I.

Onde estás, meo senhor, meos amores?
A que terras—tão longes!—fugiste?
Onde agora teos dias se escoão?
Por que foi que de mim te partiste?

II.

Não te lembras! quando eu te rogava
Não te fosses de mim tão azinha,
Prometteste-me breve ser minha
Tua vida, que o mar me roubava.

III.

Tão amigo do mar foste sempre,
Por que amigos talvez não achaste!
Nem carinhos, nem prantos te ameigão?
Nem por mim, que te amava, o deixaste?

IV.

Vejo além o logar onde estava
Tua esbelta fragata ancorada,
Mal soffrida jogando afagada
Do galerno que amigo a chamava.

V.

Da partida era o funebre instante,
Breve instante de afflictos terrores,
Quando o mar traiçoeiro, inconstante,
Me roubava meos puros amores!

VI.

Inda chóro essa noite medonha,
Longa noite de má despedida!
Teo amor me deixaste nos braços,
Nos teos braços levaste-me a vida!

VII.

Oh! cruel, que então foste commigo,
Que te hei feito que punes-me assim?
Teo navio que tantos levava,
Não podia levar mais a mim?

VIII.

Mas a mim!—que importava que eu fosse?
Não me ouvira a tormenta chorar,
E morrer me seria mais doce
Junto a ti,—que o meo triste penar!

IX.

Junto a ti me era a vida bem cara,
Oh! bem cara!—se ledo sorrias,
Se pensavas sosinho e profundo,
Se agras dôres comtigo curtias;

X.

Eu te amava, senhor!—Nem podia
Dentro em mim, convencer-me que fosse
Outra vida melhor, nem mais doce,
Nem que o amor se acabasse algum dia!

XI.

Mas o mar tem lindezas que encantão,
Tem lindezas, que o nauta namora,
Tão bem dizem que vozes descantão
No silencio pacato desta hora!

XII.

São de nymphas os mares pejados,
Tão bem dizem, que sabem magia,
Que suscitão cruel calmaria,
Só d’em torno dos seos namorados!

XIII.

Alta noite, bem perto, apparece,
Como leiva juncada de flôres,
Ilha fertil em faceis amores,
Onde o nauta da vida se esquece!

XIV.

Não te esqueças de mim!—Por Sevilha
Quando o peito de branco marfim
Perceberes na preta mantilha,
Sombreado por leve carmim;

XV.

Quando vires passar a Andalusa
Pelos montes, com ar magestoso,
Decantando nas modas de que usa
As loucuras do Cid amoroso;

XVI.

Quando vires a molle Odalisca.
De belleza e de extremos fadada,
Respirando perfumes da Arabia,
Em sericos tapises deitada;

XVII.

Quando a vires co’a fronte bem cheia
De riquezas, de graças ornada,
Pelo andar do elefante embalada,
Que alta escolta de eunuchos rodeia;

XVIII.

Quando vires a Grega vagando
Pelas Ilhas de Cós ou Megára,
Em sua lingoa, tão doce, cantando
Seos amores que o Turco roubara;

XIX.

Quando a vires no Carro de Homero,
Bella e grave e sisuda lavrando,
Pelos montes melifluos do Hymeto
A parelha de bois aguilhando;

XX.

Não te esqueção meos duros pesares,
Não te esqueças por ellas de mim,
Não te esqueças de mim pelos mares,
Não me esqueças na terra por fim!

XXI.

Se eu fosse homem, tão bem desejára
Percorrer estes campos de prata,
E este mundo, na tua fragata,
Co’uma esteira cingir d’onda amara.

XXII.

Qu’ria ver a andorinha coitada
Nos meos mastros fugida poisar,
E achar no convez abrigada,
Quando o vento começa a reinar!

XXIII.

Ver o mar de toninhas coberto,
Ver milhares de peixes brincar,
Ver a vida nesse amplo deserto
Mais valente, mais forte pular!

Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,
Ou fosse tempestade ou calmaria,
Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,
Só de ti, só de ti me lembraria!
O mar suas ondas inconstante volve,
Sem que o seo curso o mesmo rumo leve,
Assim dos homens a paixão se move,
Fallaz e vária, assim no peito ferve!
Meditados enganos sempre encobre
O mesmo que ao principio ardente amava;
Oxalá não diga eu que me enganava,
Que teo peito julguei constante e nobre!
Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses,
Ou fosse tempestade ou calmaria,
Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia,
Só de ti, só de ti me lembraria!

AO ANNIVERSARIO DE UM CASAMENTO.

A MRS. A. N. V. DA G.

A filha d’Albion bem vinda seja
Ao solo brasileiro!
Bem vinda seja ás margens florescentes
Do Rio hospitaleiro!
Qu’importa que te acene a Patria ao longe,
Que vejas incessante
As memorias, os templos, os palacios
Da Cidade gigante?
A patria é onde quer que a vida temos
Sem penar e sem dôr;
Onde rostos amigos nos rodeião,
Onde temos amor:
Onde vozes amigas nos consolão
Na nossa desventura,
Onde alguns olhos chorarão doridos
Na erma sepultura;
A patria é onde a vida temos presa:
Aqui tão bem ha sol!
Tão bem a brisa corre fresca e leve
Da manhã no arrebol!
Aqui tão bem a terra produz flores,
Tão bem os céos têm côr;
Tão bem murmura o rio, e corre a fonte,
E os astros têm fulgor!
Aqui tão bem se arrelva o prado, o monte,
De mimoso tapiz;
Nas azas do silencio desce a noite
Tão bem sobre o infeliz!
A filha d’Albion bem vinda seja
Ao solo brasileiro;
Bem vinda seja ás margens florescentes
Do Rio hospitaleiro!
Compridos annos e folgados viva
Neste ditoso clima,
E veja á par dos filhos seos queridos
Crescer do esposo a estima!
Possa eu tão bem do seo feliz consorcio
De novo em cada anno
Soltar um hymno de amizade extreme,
Um canto mais que humano!

24 de Março.


CANTO INAUGURAL.
Á MEMORIA DO CONEGO JANUARIO DA CUNHA BARBOSA.

Onde essa voz ardente e sonorosa,
Essa voz que escutámos tantas vezes,
Polida como a lamina d’um gladio,
Essa voz onde está?
No rostro popular severa e forte,
No pulpito serena, amiga e branda,
Pelas naves do templo reboava,
Como oração piedosa!
E a mão segura, e a fronte audaciosa,
Onde um vulcão de ideias borbulhava,
E o generoso ardor de uma alma nobre
—Onde párão tão bem?
Novo Colombo audaz por novos mares,
A sonda em punho, os olho nas estrellas,
Co’as bronzeas quilhas retalhando as vagas
Do inhospito elemento;
Porfioso e tenaz no duro empenho,
No manto do porvir bordava ufano,
Sob os tropheos da liberdade sacra,
Os destinos da Patria!
Nocturno viajor que andou vagando
A noite inteira, a revolver-se em trevas,
Onde te foste, quando o sol roxeia
Nuvens de um céo mais puro?
Seccou-se a voz nas fauces resequidas,
Parou sem força o coração no peito,
Quando somente um pé firmava a custo
Na terra promettida!
E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe,
Inda a vejo pendente, sobre os paginas
Da patria historia, onde gravou seo nome
Tarjado em letras d’oiro.
Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida
Talvez quadro maior lhe affigurava
Que a luta acerba do Titan brioso,
Ultima prole de Saturno.
Inveja Claudiano pincel valido,
Que nos retrata o cataclysmo horrendo,
Que elle—poeta—não achou nos combros
Da ignivoma Tessalia!
Inveja!... mas ás formas do Gigante
Sorri-se o grande Homero;—e o cego Bardo
Da verde Erin, entre os heróes famosos
Prazenteiro o recebe!

Dorme, ó lutador, que assaz lutaste!
Dorme agora no gelido sudario;
Foi duro o afan, asperrima a contenda,
Será fundo o descanço.
Dorme, ó lutador, teo somno eterno;
Mas sobre a lousa do sepulchro humilde,
Como na vida foi, surja o teo busto
Austero e glorioso.
Columna inteira em combros derrocados,
Rolo encerado, que já beija as praias
Do remoto porvir,—seguro e salvo
Dos naufragios d’um seculo;
Dorme!—não serei eu quem te desperte,
Meos versos ... não serão:—palmas sem graça,
Ou pobre ramo d’arvore funerea,
Pyramidal cypreste.
São flôres que desfolha sobre um tumulo
Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro,
Piedosa mão de peregrino extranho,
Que alli passou acaso!

TABYRA.


DEDICATORIA

AOS PERNAMBUCANOS.

Salve, terra formosa, ó Pernambuco,
Veneza Americana, transportada
Boiante sobre as agoas!
Amigo genio te formou na Europa,
Genio melhor te despertou sorrindo
Á sombra dos coqueiros.
Salve, risonha terra! são teos montes
Arrelvados, innumeros teos valles,
Cujas veias são rios!
Doces teos prados, tuas varzeas ferteis,
Onde reluz o fructo sasonado
Entre o matiz das flores!
Outros, patria d’heroes, teos feitos cantem,
E a bella historia de colonia exaltem,
E os nomes forasteiros;
Não eu, que nada almejo senão ver-vos,
Tu e Olinda, ambas vós, co’os olhos longos,
Expraiados no mar!
Ambas vós, sobre tudo americanas,
Doces flores dos mares de Colombo,
Filhas do norte ardente!
Virgens irmãs, que vão de mãos travadas
Sorrirem d’innocencia á propria imagem,
Que luz em claro arroyo.
Andei, por vós somente, em vossas matas,
Colhendo agrestes flores na floresta,
Não respiradas nunca,
Singelas, como vós,—como vós, bellas,
Ennastrei-as em forma de grinalda
Fino, extremoso amante!
Não vivem muito as flores: são meos versos
Ephemeros como ellas; côr sem brilho,
Ou perfume apagado,
Ou trino fraco d’ave matutina,
Ou echo de um baixel que passa ao longe
Com descante saudoso.

TABYRA.
(POESIA AMERICANA.)

Les peaux rouges, plus nobles, mais plus infortunées
que les peaux noires, qui arriveront un jour á la
liberté par l’esclavage, n’ont d’autre recours que la
mort, parce que leur nature se refuse à la servitude.

* * *

I.

É Tabyra guerreiro valente,
Cumpre as partes de chefe e soldado;
É caudilho de tribu potente,
—Tobajaras—o povo senhor;
Ninguem mais observa o tratado,
Ninguem menos de p’rigos se aterra,
Ninguem corre aos acenos da guerra
Mais depressa que o bom lidador!

II.

Seo viver é batalha aturada,
Dos contrarios a traça aventando;
É dispor a cilada arriscada,
Onde o imigo se venha metter!
Levão noites com elle sonhando
Potiguares, que o virão de perto;
Potiguares, que assellão por certo
Que Tabyra só sabe vencer!

III.

Mil enganos lhe têm já tecido,
Mil ciladas lhe têm preparado;
Mas Tabyra, fatal, destemido,
Tem feitiço, ou encanto, ou condão!
Sempre o plano da guerra é frustrado,
Sempre bravo fronteiro apparece,
Que os enganos crueis lhes destece,
Face a face, arco e setas na mão.

IV.

Já dos Luzos o troço apoucado,
Paz firmando com elle traidora,
Dorme illeso na fé do tratado,
Que Tabyra é valente e leal.
Sem Tabyra dos Luzos que fôra?
Sem Tabyra que os guarda e defende,
Que das pazes talvez se arrepende
Já feridas outr’ora em seo mal!

V.

Chefe stulto d’um povo de bravos,
Mas que os piagas victorias te fadem,
Hão de os teos, miserandos escravos,
Taes triunfos um dia chorar!
Caraibas taes feitos applaudem,
Mas sorrindo vos forjão cadeias,
E pesadas algemas, e peias,
Que traidores vos hão de lançar!

VI.

Chefe stolido, insano, imprudente,
Sangue e vida dos teos malbaratas?!
Mingua as forças da tribu potente,
Vencedora da raça Tupi!
Hão de os teca, acoçados nas matas
Mal feridos, sangrentos, ignavos,
Não podendo viver como escravos,
Dar o resto do sangue por ti!

VII.

Vivem homens de pel’ côr da noite
Neste solo, que a vida embelleza;
Podem, servos, debaixo do açoite,
Nenias tristes da patria cantar!
Mas o indio que a vida só preza
Por amor dos combates, e festas
Dos triunfos sangrentos, e sestas
Resguardadas do sol no palmar;

VIII.

Ocioso, indolente, vadio,
Ou activo, incançavel, fragueiro;
Já nas matas, no bosque erradio,
Já disposto a lutar, a vencer;
Ama as selvas, e o vento palreiro,
Ama a gloria, ama a vida; mas antes
Que viver amargados instantes,
Quer e pode e bem sabe morrer!

IX.

Eis, avante! ó caudilho valente!
Potiguares lá vêm denodados;
Tão cerrado concurso de gente,
Ninguem vio nestas partes assim!
Poucos são, mas briosos soldados;
Não são homens de aspecto jocundo!
Restos são, mas são restos d’um mundo;
Poucos são, mas soldados por fim!

X.