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Cantos

Chapter 8: CANÇÃO DO EXILIO.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

PRIMEIROS CANTOS.

POESIAS AMERICANAS.

Les infortunes d’un obscur habitant des bois auraient-elles moins de droits à nos pleurs que celles des autres hommes?

CHATEAUBRIAND.


CANÇÃO DO EXILIO.

Kennst du das Land, wo die Citronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn?
Kennst Du es wohl?—Dahin, dahin!
Möcht’ ich ... ziehn.
GOETHE.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorgeião,
Não gorgeião como lá.
Nosso céo tem mais estrellas,
Nossas varzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em scismar, sósinho, á noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que taes não encontro eu cá;
Em scismar—sósinho, á noite—
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permitta Deos que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfructe os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
COIMBRA—Julho 1843.

O CANTO DO GUERREIRO.

I.

Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não gerão escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
—Ouvi-me, Guerreiros,
—Ouvi meo cantar.

II.

Valente na guerra
Quem ha, como eu sou?
Quem vibra o tacápe
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fataes, como eu dou?
—Guerreiros, ouvi-me;
—Quem ha, como eu sou?

III.

Quem guia nos ares
A frexa implumada,
Ferindo uma preza,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
—Guerreiros, ouvi-me,
—Ouvi meo cantar.

IV.

Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seos feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fataes, como eu dou?
—Guerreiros, ouvi-me:
—Quem ha, como eu sou?

V.

Na caça ou na lide,
Quem ha que me affronte?!
A onça raivosa
Meos passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céo.
—Quem ha mais valente,
—Mais dextro do que eu?

VI.

Se as matas estrujo
Co’os sons do Boré,
Mil arcos se encurvão,
Mil setas lá vôão,
Mil gritos rebôão,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
—Quem é mais valente,
—Mais forte quem é?

VII.

Lá vão pelas matas;
Não fazem ruido:
O vento gemendo
E as matas tremendo
E o triste carpido
D’uma ave a cantar,
São elles—guerreiros,
Que faço avançar.

VIII.

E o Piaga se ruge
No seo Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frexados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viverão,
Mil homens são lá.

IX.

E então se de novo
Eu tóco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal elles se escôão
Aos sons do Boré.
—Guerreiros, dizei-me,
—Tão forte quem é?

O CANTO DO PIAGA.

I.

Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da tribu Tupi,
Fallão Deoses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meos cantos ouvi.
Esta noite—era a lua já morta—
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrivel caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.
Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodigios que vi!
Arde o páo de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o accendi!
Eis rebenta a meos pés um phantasma,
Um phantasma d’immensa extensão;
Liso craneo repousa a meo lado,
Feia cóbra se enrosca no chão.
O meo sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro—ossos, carnes—tremi,
Frio horror me côou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.
Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Fallão Deoses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meos cantos ouvi!

II.

Porque dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a fallar,
Porque dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.
Tu não viste nos céos um negrume
Toda a face do sol offuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estridulos torva soltar?
Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem—vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?
E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te prohibe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não pódes augurios cantar?!
Ouve o annuncio do horrendo phantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugirão da Taba!
Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!

III.

Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, hi vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas taes monstros contêm.
Trás embira dos cimos pendente
—Brenha espessa de vario cipó—
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Taes e quaes, mas com folhas; é só!
Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas azas abrindo ao tufão,
Como um bando de candidas garças,
Que nos ares pairando—lá vão.
Oh! quem foi das entranhas das aguas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro...—o que vem cá buscar?
Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
Vem trazer-vos crueza, impiedade—
Dons crueis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.
Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribu Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos,
Mesmo o Piaga inda escravo ha de ser!
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por invio sertão;
Anhangá de prazer ha de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.
Vossos Deoses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugirão da Taba,
Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!

O CANTO DO INDIO.

Quando o sol vae dentro d’agoa
Seos ardores sepultar,
Quando os passaros nos bosques
Principião a trinar;
Eu a vi, que se banhava....
Era bella, ó Deoses, bella,
Como a fonte cristallina,
Como luz de meiga estrella.
Ó Virgem, Virgem dos Christãos formosa,
Porque eu te visse assim, como te via,
Calcára agros espinhos sem queixar-me,
Que antes me dera por feliz de ver-te.
O tacápe fatal em terra estranha
Sobre mim sem temor veria erguido;
Dessem-me a mim sómente vêr teo rosto
Nas agoas, como a lua, retratado.
Eis que os seos loiros cabellos
Pelas agoas se espalhavão,
Pelas agoas, que de vel-os
Tão loiros se enamoravão.
Ella erguia o collo eburneo,
Porque melhor os colhesse;
Niveo collo, quem te visse,
Que de amores não morresse!
Passára a vida inteira a contemplar-te,
Ó Virgem, loira Virgem tão formosa,
Sem que dos meos irmãos ouvisse o canto,
Sem que o som do Boré que incita á guerra
Me infiltrasse o valor que m’has roubado,
Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.
As vezes, quando um sorriso
Os labios seos entreabria,
Era bella, oh! mais que a aurora
Quando a raiar principia.
Outra vez—d’entre os seos labios
Uma voz se desprendia;
Terna voz, cheia de encantos,
Que eu entender não podia.
Que importa? Esse fallar deixou-me n’alma
Sentir d’amores tão sereno e fundo,
Que a vida me prendeo, vontade e força.
Ah! que não queiras tu viver commigo,
Ó Virgem dos Christãos, Virgem formosa!
Sobre a areia, já mais tarde,
Ella surgio toda núa;
Onde ha, ó Virgem, na terra
Formosura como a tua?
Bem como gotas de orvalho
Nas folhas de flôr mimosa,
Do seo corpo a onda em fios
Se deslizava amorosa.
Ah! que não queiras tu vir ser rainha
Aqui dos meos irmãos, qual sou rei delles!
Escuta, ó Virgem dos Christãos formosa.
Odeio tanto aos teos, como te adóro;
Mas queiras tu ser minha, que eu prometto
Vencer por teo amor meo odio antigo,
Trocar a maça do poder por ferros
E ser, por te gozar, escravo delles.

CACHIAS.

Quanto es bella, ó Cachias!—no deserto,
Entre montanhas, derramada em valle
De flores perennaes,
Es qual tenue vapor que a brisa espalha
No frescor da manhã meiga soprando
Á flor de manso lago.
Tu es a flor que despontaste livre
Por entre os troncos de robustos cédros,
Forte—em gleba inculta;
Es qual gazella, que o deserto educa,
No ardor da sésta debruçada exangue
Á margem da corrente.
Em molle seda as graças não escondes,
Não cinges d’oiro a fronte que descanças
Na base da montanha;
Es bella como a virgem das florestas,
Que no espelho das aguas se contempla,
Firmada em tronco annoso.
Mas dia inda virá, em que te pejes
Dos, que ora trajas, simplices ornatos
E amavel desalinho:
Da pompa e luxo amiga, hão de cahir-te
Aos pés então—da poesia a c’roa
E da innocencia o cinto.

DEPRECAÇÃO.

Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis;
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes déste da perda infeliz!
Tupan, ó Deos grande! teo rosto descobre:
Bastante soffremos com tua vingança!
Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,
Teos filhos que chórão tão grande mudança.
Anhangá impiedoso nos trouxe de longe
Os homens que o raio manejão cruentos,
Que vivem sem patria, que vagão sem tino
Tras do ouro correndo, voraces, sedentos.
E a terra em que pisão, e os campos e os rios
Que assaltão, são nossos; tu es nosso Deos:
Por que lhes concedes tão alta pujança,
Se os raios de morte, que vibrão, são teos?
Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis;
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes déste da perda infeliz.
Teos filhos valentes, temidos na guerra,
No albor da manhã quão fortes que os vi!
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça, no arco Tupi!
E hoje em que apenas a enchente do rio
Cem vezes hei visto crescer e baixar...
Já restão bem poucos dos teos, qu’inda possão
Dos seos, que já dormem, os ossos levar.
Teos filhos valentes causavão terror,
Teos filhos enchião as bordas do mar,
As ondas coalhavão de estreitas igáras,
De frexas cobrindo os espaços do ar.
Já hoje não cáção nas matas frondosas
A corça ligeira, o trombudo coati...
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça, no arco Tupi!
O Piaga nos disse que breve seria,
A que nos infliges cruel punição;
E os teos inda vagão por serras, por valles,
Buscando um asilo por invio sertão!
Tupan, ó Deos grande! descobre o teo rosto:
Bastante soffremos com tua vingança!
Já lagrimas tristes chorárão teos filhos,
Teos filhos que chórão tão grande tardança.
Descobre o teo rosto, resurjão os bravos,
Que eu vi combatendo no albor da manhã;
Conheção-te os feros, confessem vencidos
Que es grande e te vingas, qu’es Deos, ó Tupan!