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Cantos

Chapter 80: A LUA.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

HYMNOS.


A LUA.

Figlia del ciel, sei bella!
Ma verrà notte ancor, che tu, tu stessa
Cadrai per sempre, e lascierai nel cielo
Il tuo azzurro sentier!
CESAROTTI.
Salve, ó Lua candida,
Que traz dos altos montes
Erguendo a fronte pallida,
Dos negros horisontes
As sombras melancolicas
Vens ora afugentar!
Salve, ó astro fulgido,
Que brilhas docemente,
Melhor que o lume tremulo
D’estrella inquieta, ardente,
Melhor que o brilho esplendido
Do sol ferindo o mar!
Salve, ó reflexo tenue
Da eterna luz preclara
Nas nossas noites horridas;
Qual sol que em lympha clara
Desponta os raios vividos,
Em tarja multicor;
Es como a virgem púdica,
Que amor no peito encerra;
Mas só, mas solitaria,
Vagando aqui na terra,
Treplíca o sello mystico
Do não sabido amor!
Eu te amo, ó Lua candida,
No gyro somnolento,
E o teo cortejo madido
De estrellas, e do vento
O sopro merencorio,
Que á noite dá frescor.
Por teos influxos magicos
Minha alma aos sons do canto
Revive; e os olhos humidos
Gotejão triste pranto,
Que orvalha a chaga tepido,
Que mingua a antiga dôr!
Em gelido sudario
De neve alvi-nitente,
Por terras vi longinquas,
Durante a noite algente,
A tua luz benfica
Luzir meiga do céo.
Nos mares solitarios
Tão bem a vi!—nas vagas
Brincava o lume argenteo,
Cantava o nauta as magas
Canções, no voluntario,
Cançado exilio seo!
Tão bem a vi na limpida
Corrente vagarosa;
Tão bem nas densas arvores
De selva magestosa,
Coando os raios lubricos
No lobrego palmar.
E eu só e melancolico
Sentado ao pé da veia,
Que a deslisar-se timida
Beijava a branca areia;
Ou já na sombra tetrica
Da mata secular;
Em devaneio placido
Velava, em quanto via
Ao longe—os altos pincaros
Da negra serrania,
—Disformes atalaias,
Que sempre alli serão!
No rórido silencio
Minha alma se exaltava;
E das visões phantasticas,
Que a lua desenhava,
Seguia os traços aureos,
Tremendo em negro chão!
Pensava ledo, improvido,
Até que de repente
Da minha vida misera
Se me antolhava á mente
A quadra breve e rapida
Do malfadado amor.
Então fugia attonito
O bosque, a selva, a fonte,
E as sombras, e o silencio;
Bem como o cervo insonte,
Que ás setas foge pavido
Do fero caçador!
Salve, ó astro fulgido,
Que brilhas docemente,
Melhor que o lume tremulo
D’estrella inquieta, ardente,
Melhor que o brilho esplendido
Do sol ferindo o mar.
Eu te amo, ó Lua pallida,
Vagando em noite bella,
Rompendo as nuvens turbidas
Da rispida procella;
Eu te amo até nas lagrimas
Que faces derramar.

A NOITE.

Noite, melhor que o dia, quem não te ama!
Quem não vive mais brando em teo regaço!
FILINTO.
Eu amo a noite solitaria e muda,
Quando no vasto céo fitando os olhos,
Alem do escuro, que lhe tinge a face,
Alcanço deslumbrado
Milhões de sóes a divagar no espaço,
Como em salas de esplendido banquete
Mil tochas aromaticas ardendo
Entre nuvens d’incenso!
Eu amo a noite taciturna e quêda!
Amo a doce mudez que ella derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando:
Então, máo grado o véo que involve a terra,
A vista do que vela enxerga mundos,
E apezar do silencio, o ouvido escuta
Notas de ethereas harpas.
Eu amo a noite taciturna e quêda!
Então parece que da vida as fontes
Mais faceis correm, mais sonoras soão,
Mais fundas se abrem;
Então parece que mais pura a brisa
Corre,—que então mais funda e leve a fonte
Mana,—e que os sons então mais doce e triste
Da musica se espargem.
O peito aspira sofrego ar de vida,
Que da terra não é; qual flôr nocturna,
Que bebe orvalho, elle se embebe e ensopa
Em extasis de amor:
Mais direitas então, mais puras devem,
Calada a natureza, a terra e os homens,
Subir as orações aos pés do Eterno
Para afagar-lhe o throno!
Assim é que no templo magestoso
Rebôa pela nave o som mais alto,
Quando o sacro instrumento quebra a augusta
Mudez do sanctuario:
Assim é que o incenso mais direito
Se eleva na capella que o resguarda,
E na chave da abobada topando,
Como um docel, se expraia.
Eu amo a noite solitaria e muda;
Como formosa dona em regios paços,
Trajando ao mesmo tempo luto e galas
Magestosa e sentida;
Se no dó attentais, de que se enluta,
Certo sentis pezar de a ver tão triste;
Se o rosto lhe fitais, sentis deleite
De a ver tão bella e grave!
Considerai porêm o nobre aspecto,
E o pórte, e o garbo senhoril e altivo,
E as fallas poucas, e o olhar sob’rano,
E a fronte levantada:
No silencio que a véste, adorna e honra,
Conhecendo por fim quanto ella é grande,
Com voz humilde a saudareis rainha,
Curvado e respeitoso.
Eu amo a noite solitaria e muda,
Quando, bem como em salas de banquete
Mil tochas aromaticas ardendo,
Girão fúlgidos astros!
Eu amo o leve odor que ella diffunde,
E o rorante frescor cahindo em per’las,
E a magica mudez que tanto falla,
E as sombras transparentes!
Oh! quando sobre a terra ella se estende,
Como em praia arenosa mansa vaga;
Ou quando, como a flôr d’entre o seo musgo,
A aurora desabrocha;
Mais forte e pura a voz humana sôa,
E mais se accórda ao hymno harmonioso,
Que a natureza sem cessar repete,
E Deos gostoso escuta.

A TEMPESTADE.

Fervescere faciet, quasi ollam,
profundum mare.
JOB 41, 42.

I.

De côr azul brilhante o espaço immenso
Cobre-se inteiro; o sol vivo luzindo
Do bosque a verde coma esmalta e doira,
E na corrente dardejando á prumo
Scintilla e fulge em laminas doiradas.
Tudo é luz, tudo vida, e tudo cores!
Nos céos um ponto só negreja escuro!
Eis que das partes, onde o sol se esconde,
Brilha um clarão fugaz pallido e breve:
Outro vem apoz elle, inda outro, muitos;
Succedem-se frequentes,—mais frequentes,
Assumem côr mais viva,—inda mais viva,
E em breve espaço conquistando os ares
Os horisontes co’o fulgir roxeião.
Qual mancha d’oleo em tela assetinada
Que os fios todos lhe repassa e embebe;
Ou qual abutre do palacio aereo
Tombando acinte,—no descer sem azas
Um ponto só,—até que em meia altura
Abrindo-as, paira magestoso e horrendo:
Assim o negro ponto avulta e cresce,
E a cupola dos céos de côr medonha
Tinge, e os céos alastra, e o espaço occupa.
A abobada de trevas fabricada
Descança em capiteis de fogo ardente!
De quando em quando o vento na floresta
Silva, ruge, e morre; e o vento ao longe
Rouqueja, e brama, e cava-se empolado,
E aos pincaros da rocha ennegrecida
De iroso e mal soffrido a espuma arroja!
Raivoso turbilhão comsigo arrastra
O argueiro, a folha em vortice espantoso;
No valle arranca a flôr, sacode os troncos,
Na serra abala a rocha, e move as pedras,
No mar os vagalhões incita e crusa.

II.

Os sons da tempestade ao longe escuto!
Concentra a natureza os seos esforços
Primeiro que entre em luta; não lampeja
Invio fogo nos céos; não sopra o vento:
É tudo escuridão, silencio e trevas!
Somente o mar de soluçar não cessa,
Nem de rugir as ramas buliçosas,
Nem de soar confuso borborinho,
Incompr’ensivel, como que sem causa,
Immenso como o echo de mil vozes
No céo de extensa gruta repulsando.
Silencio! perto vem a tempestade!
Gravidas nuvens de fataes coriscos,
Sem rumo, como náo em mar desfeito,
Em muda escuridão negros phantasmas,
Indistinctos, sem forma,—ondulão, jogão.
Logo poder occulto impelle as nuvens,
Attrahem-se os castellos tenebrosos,
Embatem-se nos ares,—brilha o raio,
E o ronco do trovão após rimbomba!

III.

Ruge e brame, sublime tempestade!
Desprende as azas do tufão que enfreias,
Despega os élos do veloz corisco
E as nuvens rasga em rubidas crateras.
Os fuzis da cadeia temerosa
Desfaz e quebra; e o espaço e as nuvens
Do teo açoite aos lategos bramindo,
Occupem de pavor os céos e a terra.
Ruge, e o teo poder mostra rugindo;
Que assim por teos influxos me commoves,
Que todo me electrisas e me arroubas!
Qual foi Mazeppa no veloz ginete
Por desertos, por syrtes arenosas
Jungido e preso e attonito levado;
Assim minha alma sobe e vai comtigo,
E vinga os teos palacios mais subidos,
Contempla os teos horrores, e dos astros
No prazer, que lhe dás, toda embebida,
Máo grado teo horror, folga comtigo!
Parece que alli tem a regia c’roa
Que o feliz condemnado achou na Ukraina.
Ruge, ruge embora, ó tempestade!

IV.

Emfim descendo a chuva copiosa
Nuvens, bulcões desfaz; os rios crescem,
De perolas a relva se matisa,
O céo de puro azul todo se arreia,
Sorri-se a natureza, e o sol rutila!

V.

Assim, meo Deos, assim será no dia
Do final julgamento, quando o anjo
Soprar a tromba que desfez os muros
De Jerichó soberba!
O mar sobrepujando os seos limites,
Com roncos temerosos, nunca ouvidos,
Virá para sorver, com furia brava,
Ilhas e continentes.
O sol, perdendo o brilho e a natureza,
Não luz, mas puro fogo, ha de accender-se,
Como o fogo sagrado, que se prende
Nas cortinas do templo.
Os orbes dos seos eixos desmontados,
No abysmo hão de cahir com grande estrondo,
E, redomas de vidro, hão de partir-se
Em pedaços sem conto.
Do abysmo as solidões hão de acordar-se!
Flammivomos vapores condensados,
Té nós, e alem de nós, hão de elevar-se
Em pavoroso incendio.
O ar ha de accender-se, a terra em fogo
Tornar-se, como o ferro ardendo em fragoa.
Coalhar-se o mar e em aspera seccura
Converterem-se as ondas.
E nesta confusão de fumo e chammas,
Neste cháos, que a mente mal alcança,
Quando nada existir de quanto existe,
Será vencida a morte.
Logo, á um só dizer do Omnipotente,
O pó segunda vez ha de animar-se,
E os mortos, mal soffrendo a luz da vida,
Attonitos, pasmados;
Hão de erguer-se na campa, inteiros, vivos,
E como Adão, a tatear os membros,
Estranhos a existencia já vivida,
Perguntarão: Quem somos?
Então, Senhor, então,—tu o disseste—
Virás cheio de gloria e magestade,
Em solio de luzeiros resplendente,
E em celeste cortejo!
Virás, sol da justiça, em fins do mundo
Acalmar a procella, e quando aos mortos
Disseres tu, quem es,—lembrar-nos-hemos,
Senhor, do que já fomos.
Feliz então quem só viveo comtigo,
Quem n’ancora da fé prendeu sua alma,
Quem só em ti fundou sua esperança,
Pequeno e humilde!
Feliz então quem tua lei guardando,
Seos passos graduou nos teos caminhos;
Quem dia e noite revolveo comsigo,
Como aplacar-te.