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Cantos

Chapter 99: A MORTE É VÁRIA.
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About This Book

This collection gathers lyrical poems that range from intimate meditations on love and longing to expansive evocations of landscape and cultural identity. The verse combines melodious Romantic diction with classical forms and folkloric touches, alternating concise songs and longer narrative or reflective pieces. Recurring motifs include nostalgia, nature imagery, the tension between personal feeling and public life, and an elegiac awareness of social decline alongside hope for renewal. Occasional prose pieces frame the poems with commentary on literary life and the responsibilities of the poet. Overall the volume balances ardent emotion with formal polish, moving between private lyricism and broader cultural reflection.

Por que ficasse a vida
Por o mundo em pedaços repartida.
CAMÕES CANÇ. X.
Ouvi-a! A sua voz me despertava
Tudo quanto de bom conservo n’alma.
Retratado o pudor no rosto,
E um suave dizer, um timbre doce
De voz, uma piedade extreme e sancta,
Que as mais profundas chagas animava,
D’ambrozia e de mel lhe ungia os labios.
Ouvi-a! A sua voz era mais branda,
Mais impressiva que o cantar das aves!
A aragem qu’entre flores se deslisa
E mal remeche a timida folhagem,
A veia de chrystal que triste sôa,
O saudoso arrulhar de mansas pombas,
As proprias notas d’um cantar longinquo
Ou de instrumento a conversar co’a noite,
Menos que a sua voz impressionavão!
Menos que a sua voz!—Os dois mais fortes,
Os dois mais puros sentimentos nossos
—A saudade e o amor,—as mais profundas
Das merencorias solidões da terra
—As florestas e o mar,—um scismar vago,
Um devaneio, uns extasis sem termo
D’alma perdida por um céo de amores,
Tanto como a sua voz não arroubavão!
Tanto como a sua voz!—somente o forão
Dulces notas de mysticos salterios
Té nós de um astro em outro repetidas.
Foi isto o que senti, quando a escutava,
Fluente, armoniosa, discorrendo
Em pratica singela, sobre assumptos
Diversos, sobre flores, menos bellas
Do que o seo rosto, e céos, como ella, puros.
Mas quem n’a ouvira conversar de amores
Trouxera n’alma como uma harpa eolia,
Dia e noite vibrando,
Como um cantar dos anjos
Do coração a estremecer-lhe as fibras!

SE SE MORRE DE AMOR!

Meere und Berge und Horizonte zwischen den Liebenden—aber die Seelen versetzen sich aus dem staubigen Kerker und treffen sich im Paradiese der Liebe.

SCHILLER. Die Räuber.

Se se morre de amor!—Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surprende
De ruidoso saráu entre os festejos;
Quando luzes, calor, orchestra e flores
Assomos de prazer nos raião n’alma,
Que embellezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
Sympathicas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabellos,
Um quê mal definido, acaso podem
N’um engano d’amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delirio,
Devaneio, illusão, que se esvaece
Ao som final da orchestra, ao derradeiro
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamão,
D’amor igual ninguem succumbe á perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração—abertos
Ao grande, ao bello; é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr’hender o infinito, a immensidade,
E a natureza e Deos; gostar dos campos,
D’aves, flores, murmurios solitarios;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E á branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o miserrimo dos entes:
Isso é amor, e desse amor se morre!
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses thesouros
Inexgotaveis, d’illusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr’hender, sem lhe ouvir, seos pensamentos,
Seguil-a, sem poder fitar seos olhos,
Amal-a, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seos vestidos,
Arder por afogal-a em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
Se tal paixão porêm emfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em reciproco affecto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procurão,
Entendem-se, confundem-se e penetrão
Juntas—em puro céo d’extasis puros:
Se logo a mão do fado as torna extranhas,
Se os duplíca e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;
Que será do que fica, e do que longe
Serve ás borrascas de ludibrio e escarneo?
Póde o raio n’um pincaro cahindo,
Tornal-o dois, e o mar correr entre ambos;
Póde rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Signaes mostrando da alliança antiga;
Dois corações porêm, que juntos batem,
Que juntos vivem,—se os separão, morrem;
Ou se entre o proprio estrago inda vegetão,
Se apparencia de vida, em mal, conservão;
Ancias crúas resumem do proscripto,
Que busca achar no berço a sepultura!
Esse, que sobrevive a propria ruina,
Ao seo viver do coração,—ás gratas
Illusões, quando em leito solitario,
Entre as sombras da noite, em larga insomnia,
Devaneiando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que á dôr tamanha não succumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seos o desejado termo!

A MORTE É VÁRIA.

(TRADUCÇÃO.)

A morte é vária e multiforme, e múda
De trajes e de mascaras mais vezes
Qu’uma cançada actriz;
Nem sempre é, qual se pinta, o negro espectro
D’ironico sorriso e brancos dentes,
E d’horrido cariz.
Nem todos seus vasallos são poeira
No resalto de pedra adormecidos
Por sob as arcarias;
A pallida libré nem todos vestem,
Nem sobre todos jaz murada a porta
Nas cryptas sombrias!
Diversa a natureza é d’outros mortos:
Nestes que a sanie e podridão consomem,
Vê-se o nada palpavel;
Vê se o enojo, o horror, a sombra espessa
E o esfaimado esquife, abrindo as fauces,
Qual monstro insaciavel!
Cabe a outros porêm que sem dôr vemos
Passar, gyrar no turbilhão dos vivos,
De carne inda vestidos,
O nada inda encuberto; cabe a interna
Morte, que ninguem sabe, nem chóra,
Nem mesmo os mais queridos!
Pois, se vamos a ver nos cymiterios
As campas, ou illustres ou sem nome,
De marmore ou torrão;
Ou tenhamos alli amiga palpebra,
Ou não,—do teixo á sombra descançada,
Quer choremos, quer não!
«Jazem» dizemos. Os nomes desparecem
Sob a relva; o verme nesses olhos
Enréda a teia crúa!
Por entre as pranchas do caixão despontão
Hirtos cabellos, e em pó funereo envolta
Branqueja a ossada núa.
Os herdeiros não temem que mais vólte;
Esquecerão-n’o já: seos cães se lembrão,
Soltando uivos de dôr!
Acama-se a poeira em seos retractos:
Já não tem mais rivaes, não tem amigos,
Nem odios, nem amor!
Da morte o anjo, em lagrimas de pedra
Vemos sosinho e mudo a pranteal-o,
Estatua da afflicção:
A cova toma o corpo, o olvido o nome,
Tem por lençóes seis pés d’humida terra....
Mortos, bem mortos são!
E dos olhos talvez se vos deslise
O pranto sobre a relva, pelo orvalho
E chuva humedecida;
Que na triste mansão os regozije,
E por essa oblação enternecidos
Um resto achem de vida.
Mortos do coração ninguem os chóra,
Ninguem, se a um destes vê, lhe diz piedoso:
«Seja o Senhor comtigo.»
Curão do morto, lavão-lhe as feridas;
Mas a alma estala sem que alguem se dôa,
Nem mesmo o mais amigo!
Ha comtudo pungentes agonias
Nunca sabidas, dores horrorosas
Mais do que se não crê;
Almas ha que tem cruz e passamento,
Sem aureola d’oiro e a mulher pallida
E desgrenhada—ao pé.