ama, ame, amei, amo, tribu
E aqui chamamos grave o a, que chamámos fechado, a páginas 11. Veremos a razão disso.
|
q
fique fiquei toque toquei ataquei pique ataque piquei duque loque baque jaqueta applique appliquei aquelle aquella aqui aquillo quieta quieto qual qualidade |
DECIMA QUINTA LIÇÃO
É evidente que havendo consoantes certas e incertas, n'um methodo, se havia de começar pelas certas. Ora conhecidas e combinadas pelo nosso discipulo essas dez consoantes, que na ordem alfabetica são:
| b | . | d | f | . | . | j | k | l | . | . | p | q | . | . | t | v | . | . | |
| restam: | . | c | . | . | g | . | . | . | . | m | n | . | . | r | s | . | . | x | z |
Porem que ordem seguiremos agora? Como vimos a páginas 19 e 23, todas estas oito são de dois valores, excepto s x, que são de quatro. Ora a última das certas, em que ficámos, foi q; ao qual se seguem naturalmente c g, não só porque uma tem um valor identico; e a outra, um valor similhante, guttural; mas porque ambas igualmente, com e i, offerecem especialidade.
Portanto o logar de c g está marcado. Depois seguir-se-hão m n, que teem igualmente dois valores? Não convém; ambas essas consoantes servem muitas vezes de til, o que é duro de explicar; e accresce que n se combina com h; podendo-nos portanto servir de transição para as fórmas compostas lh, ph, ch, etc. que devem ser as últimas.
Por outro lado, se advirtirmos que z tem dois valores de s, assim como s tem tres valores de x; conviremos que estas tres consoantes se devem succeder. Resta r, que tendo dois valores, as deve preceder.
Logo a ordem mais conveniente é
c g, r, z s x, m n.
Veremos que o h não passa dum accento, quando serve de alguma cousa.
Ora o c tem dous valores; um, sibilante e prolongavel, ç...; outro instantaneo guttural, q.
Como lhe havemos de chamar? Como o mestre quizer. O discipulo a estas horas está bem no caso de não confundir o nome com os valores: quanto mais que não se admittindo solletração, elle é forçado a empregar valores. Por isso é que já em respeito a k e q deixámos em aberto esse ponto. Todavia é mais racional que chamemos a essas gutturaes o que valem, q'; isto é, designal-as pelo seu valor; ou querendo-se-lhes dar nome, derival-o d'esse valor, e chamar, a uma e outra, qê. Similhantemente, dos valores de c, deriva o nome cêqe. Embora a experiencia nos mostre a inutilidade dessas designações formaes, e o methodo aconselhe de preferencia citar-se a letra pelos simples valores, podemos admittir nomes verdadeiros, que indiquem as funcções da letra.
Em todo o caso, o essencial é ensinar os valores e as regras. Antes da lição que segue, deve passar-se, entre mestre e discipulo, este ou similhante diálogo:
—Que letra é esta?—Cêqe.
—Porque se chama cêqe?—Porque vale ç... e q.
—Quando vale ç...?—Em vindo com e, i, ou cedilhado.
—E em não vindo com e, i, ou cedilhado?
—Vale q.
O ç (cedilhado) não confunde o alumno; antes, pela necessidade ou inutilidade da cedilha, como se póde exemplificar em aço, caco etc., lhe ajuda a fixar as alternativas d'esta consoante caprichosa.
|
c
cebo cebola cedo ceia face alface foice bacia cidade = q cá cal caldo calvo culpa caco cacei cace calcei cacetada ç aço beiço buço caça cabaça cabeça coça calça calçada |
DECIMA SEXTA LIÇÃO
Segue-se o g, igualmente de dois valores, como o c, um prolongavel e outro instantaneo: o prolongavel é j...; e o instantaneo é g', guttural. D'estes dois valores deriva logicamente o nome jêg'e. Isto supposto, dialoguemos com o nosso discipulo:
—Que letra é esta?—Jêg'e.
—Porque se chama jêg'e?—Porque vale j... e g'.
—Quando vale j...?—Em vindo com e, i.
—E quando vale g'?—Em não vindo com e, i.
—Mas ha palavras onde soa g'é, por exemplo malagueta; e ha palavras onde soa g'i, por exemplo guita.—Qual é o modo de escrever estas syllabas?—E escrevendo gúé, e escrevendo gúi.
—E, assim, fica bem escrito?—Não; porque o u não se lê; mas entende-se bem a palavra.
—E se tirassemos o u?—Era peór; lia-se malajeta, lia-se jita, que faz mais differença.
Ora os casos em que o u se lê, nestas syllabas gue, gui, são rarissimos: por isso podemos ensinar a desprezal-o, como fizemos a respeito de que qui, numa regra similhante:
—Visto gúé gúí valer quasi sempre g'é g'i, lendo-se d'este modo, quasi sempre se acerta.
Na lição vai uma excepção, guela.
Mas deixai tambem o discipulo ler uma ou outra palavra como está escrita, para ver que ainda lendo em rigor, a palavra transparece claramente. Esta certeza desafronta-o dos equívocos em que póde cair.
Vê-se pois que admittimos nomes de letras, conformando-nos com a opinião commum, que tendo tudo nome, tambem as letras o devem ter. Embora; e nesta altura não ha inconveniente para o nosso discipulo: mas seja um nome adequado, e não um nome falso. Chamando ao c cêqe, e ao g jeg'e (ou escrevendo como se usa, gêgue), conformamo'-nos com aquelle principio, com o costume, e satisfazemos, pelo menos, ás mais imperiosas exigencias do methodo. Comtudo ainda podemos ajustar mais aquellas denominações aos valores das letras, dizendo ceqe jeg'e, como diriamos duas vezes a particula de: de Francisco, de Pedro: de de; je-g'e, ce-qe.
Dizia-nos um dia o aio dos principes: bom é o methodo, mas de qualquer maneira se aprende a ler.
Intendamo'-nos: de qualquer maneira se pode aprender a ler; de facto, não se aprende de qualquer maneira. Dos senhores de si, poucos são os que tentam, e quasi todos esses desistem: os outros... que remedio! A questão é de tempo e de tormento. E essa não é ainda a questão principal.
Todo o estudo involve, afóra a instrucção, educação de espirito; por isso a geometria passa pela melhor das logicas. E no primeiro de todos os estudos, quando o espirito está mais ductil e inconciente, como póde um processo racional, ou insensato, ser indifferente aos habitos da intelligencia?
Voltemos ao nosso caminho. Querendo-se que o discipulo intenda os symbolos, diz-se-lhe que os tres pontos designam o valor prolongavel: a consoante simples, ou com apóstrofo, indica o valor instantaneo. É claro.
|
g
gebo geito foge tigela vigia collégio
jogue pague folgue cegue guia guita aluguel guela gago água egua igual gallo galgo golpe pulga cego acelga giga gagueja |
DECIMA SETIMA LIÇÃO
Vamos ao r, terceira das consoantes incertas e, como as duas primeiras c g, igualmente de dois valores, um prolongavel e outro instantaneo.
Ponhamos em diálogo a doutrina:
—Que letra é esta?—Rêr.
—Porque se chama rêr?—Porque vale rr... e r'.
—Quando vale rr...?—Em vindo no princípio ou dobrado.
—E em não vindo no princípio, ou dobrado, o que vale, ou como se lê?—R'.
Não é necessario trazer para aqui as vogaes, como se costuma: isso impõe ao principiante uma distincção inutil, porque tanto vale o r entre vogaes, como entre vogal e consoante. Escusa tambem ensinar as excepções ao discipulo: como o r, se profere tocando a lingua no ceo da boca, e o rr... consiste na repetição desse toque (gemendo ou vozeando ao mesmo tempo), a affinidade desses dois valores, e o mesmo estylo da lingua leva o discipulo a reforçar a inflexão, quando lhe destoa proferida simplesmente. Difficuldade acharia elle em o não fazer, por exemplo, em carne e melro, ou vice versa em tenro e arlequim: pois antes ou depois de l, o r é guttural. E o mesmo podemos dizer a respeito de n; mas advertindo que, por exemplo em tenro, não é necessario que o n sôe como letra (ou inflexão); basta representar de til.
Estas observações dirigem-se ao mestre: e ainda ao mestre, á excepção de alguma indicação prática, o mais que deixamos nestas notas não merece especial reparo; nomeadamente as razões de ordem. Chamando a isto methodo, cabe-nos mostrar que o é; mas para fazer breve e commoda jornada por uma estrada recta e plana, não é necessario saber como a traçaram e construiram.
O r guttural é inflexão instantanea porque se reduz em última anályse a um toque de lingua no ceo da bôca; é inflexão prolongavel porque se forma repetindo esse toque indeterminadamente; e é voz porque o gemido (como lhe temos chamado) com que proferimos v, z, j, e de que igualmente depende o r guttural, não é senão o fôlego elevado ao grau de vibração, ao grau de voz. Propriamente fallando, a voz só se emitte de bôca mais ou menos aberta, e sem intervenção sensivel dos orgãos mudos. Mas á parte esta intervenção e a propriedade do termo, n'aquellas quatro inflexões ha voz. Tanto assim que bem podemos esboçar distinctamente qualquer melodia, modulando-a n'alguma das inflexões v, z, j, r...
Estas são verdadeiramente as letras semi-vogaes: não—aquellas cujo nome começa e acaba por vogal. O que terá o nome com a cousa!
A letra r, pela sua frequencia e pelos seus accidentes de posição e número, merece uma lição com consoantes certas, e outra com consoantes incertas. Em seguida daremos, para desfastio do alumno, um pequeno diálogo. Se o mestre não julgar inutil este exercicio, applique ás palavras a, o, a regra do a, o, finaes; e diga que o e simples lê-se i. O alumno reconhece as maiusculas, e a pontuação não o embaraça. Appliquem-se as regras conhecidas.
|
r rei rua raio raiva rijo rato ferro jarro terra burro ira vara fera furo jura puro ar ir vir for flor dar ver verde perda pardo perto preto prato bruto pobre irar virar varrer ferrar raro retiro rir roer ratar repartir recibo receio rico róca ruço carro garrafa garra guerra cera cerol cara caracol corda açorda geral gôro agora agouro certo carta garfo grito gritar córar cear receber regedor rogar cerrar correr agarrar gorar carregar recordar |
|
—Ó Pedro, que é do livro de capa verde, que te deu o avô? —Já o dei ao Jorge a guardar. —Vai lá pedil-o. —Para quê? —Para a tia Carlota ver a gravura do caçador. —Ouve cá: a pobre da Clara ia abrir a porta do quarto, caíu, quebrou a garrafa do petróleo, e ficou ferida. Vou agora á botica; levo aqui a receita: á tarde logo fallo ao Jorge, e digo que t'o dê. —Palavra? —Palavra, Julio, fica certo. —Vê lá, cuidado! |
DECIMA OITAVA LIÇÃO
Ao r segue-se o z, embora esta consoante seja mais simples: porque o r dobra-se, e tambem se combina com outras consoantes; o que não succede ao z: mas as razões de analogia não são menos attendiveis que as de simplicidade.
O r tem dois valores que se reduzem a uma fórmula bastante simples (no princípio e dobrado, rr). O x tem quatro valores, que se esquivam a regra. É portanto claro que o r devia preceder ao x; mas devendo preceder ao x, devia preceder aos caracteres a que o x está associado por identidade de valores.
| Na verdade, em zaz vê-se que z vale | z x |
| Em sisudos vê-se que s vale | ç z x |
| Em sexo auxilio exilio xale vê-se que x vale | kç ç z x |
Valem todas tres z, x; duas valem mais ç; e uma vale ainda mais kç. É como uma escada de tres degraus que o methodo, que é todo escada, não podia desmanchar.
Por isso a todas tres precede o r; e agora ao r, segue-se a mais simples das tres.
A theoria relativa ao z, encerra-se nas seguintes perguntas e respostas:
—Que letra é esta?—Zêxe.
—Porque se chama zêxe?—Porque vale z... e x...
—Quando vale z...?—Em não vindo no fim.
—E quando vale x...?—Em vindo no fim.
Isto é o bastante.
O discipulo está agora atravessando um terreno escabroso. Por maiór circumspecção com que vamos guiando os seus passos, não o livramos de caír: salvo tecendo-lhe de proposito lições faceis, e desviando-lhe tropeços; mas então o resultado seria um progresso illusorio.
Vistes nas lições do r como por uma escala de combinações chegámos a accumular dentro da mesma palavra muitas dúvidas. Assim convem preparar o discipulo para a leitura usual e prática onde, a cada linha, encontra essas accumulações. A amenidade do methodo não póde levar-se até á esterilidade. Se as lições agora são mais embaraçadas, vá o alumno ensaiando a sua reflexão. Adiante da palavra mais duvidosa, está a prevenção da regra e a advertencia do mestre.
O magisterio é de sua natureza offício de abnegação e de paciencia. O mestre que se ira corrompe o coração do alumno. E se o alumno, pela sua tenra idade, é incapaz de aprender regras e de as applicar, então a sua presença na escola apenas attesta a ignorancia dos paes e a incuria da autoridade. Até aos sete e oito annos de idade todos andamos numa fervorosa elaboração corporal, que só reclama alimento, movimento e somno; assim como andamos nesse profundo e immenso estudo da lingua, e nessa insaciavel investigação do mundo exterior, que absorve totalmente a faisca mais brilhante que possa alumiar uma cabeça infantil. Complicar esse duplo movimento quasi vertiginoso com o ensino primario—leitura, escrita e contas—passa de absurdo a cruel.
Como os valores do z são novos, só podemos indicar nos symbolos em que logar o apresentamos.
zelei zelou zelar azia azul azeite azedar vazia luziu luzir fazer jazer jazia jazigo azar azougue ~~~z az faz fiz fez vez jaz juiz luz diz puz pôz paz capaz lapuz quiz giz gaz arroz retroz rapaz feroz traz cruz zaz |
DECIMA NONA LIÇÃO
Vamos ao s, quinta das consoantes incertas, e segundo degrau da escada, de que fallámos na lição passada.
Esta consoante é frequentissima: nella acabam metade das vozes dos nossos verbos, todos os nossos pluraes de nomes, pronomes, participios, e de quasi todos os adjectivos; não fallando nos infinitos casos em que figura no principio e meio de palavra, já antes, já depois de vogal; e tambem antes e depois de consoante, como em sciencia e psalmo.
Póde-se estabelecer a regra que o s no fim de palavra ou syllaba, vale x...; por exemplo, custas. Mas cumpre advertir que isto, sendo geralmente verdadeiro, não é exacto; porque o s (assim como z e x finaes), vindo no fim de palavra á qual se siga immediatamente vogal, vale z...; por exemplo, os olhos, que se lê como se estivesse escrito ozolhos; e seguindo-se-lhe immediatamente consoante, que não seja ç, f, p, q, t (ou equivalente de ç e q), então vale j; por exemplo as vozes, que lemos como se estivesse escrito aj vozes.
Mas estas advertencias são puramente theoricas ou antes, escusadas no ensino; pois não se trata de ensinar a ler a estrangeiros, e sim a portuguezes mais ou menos práticos na lingua. Pela nossa parte não costumamos prevenir os nossos discipulos, para a lição do s, com mais doutrina que a contida no seguinte diálogo:
—Que letra é esta?—Sezêxe.
—Porque se chama sezêxe?—Porque vale ç... z... x...
—Quando vale ç...?—No princípio e dobrado.
—Quando vale z...?—Entre vogaes.
—E quando vale x...?—No fim de palavra ou de syllaba.
Com este pouco temos o bastante para o nosso discipulo acertar as mais das vezes, e senão, para o convencermos de que desmentiu a regra, o que em geral nos é tão agradavel como se a observasse, pois nos dá occasião de o fazermos raciocinar.
Por exemplo, trata-se da palavra uso, que o discipulo lê uço. Em logar de emendarmos sem mais explicações, preferimos questionar.
—Que consoante é essa?—Sezêxe.—Quando vale ç?—No princípio e dobrado.—Está no princípio ou dobrado?—Não.—Portanto não é uço.
E quando vale z?—Entre vogaes.—Está entre vogaes?—Está.
E o discipulo lê uzo.
Syllaba é a palavra ou parte da palavra que se diz duma vez, n'um tempo. É, sé, seu, seus, são quatro syllabas, embora mais compostas umas que outras. Qual quer são duas syllabas, que podem formar duas palavras; e tambem, só uma. O discipulo adquire práticamente, pelas nossas lições de syllabas alternadas a typo liso e lavrado, uma idéa mais clara de syllaba, do que é facil dar-lhe por definições.
Quanto a vogaes, é melhor fazer-lh'as conhecer pelo valor, exemplificando e comparando, do que simplesmente pelo nome e de memoria.
|
s só safa silva passo tosse liso quasi bois dias teus soubesse desusados sós seus suas siso sisudos isto este esta está esteve visto vestes foste justo postas basta pastas peste leste listas valsa salsa falsos pulso socio sucia caso acesa faces cisco sege sigo seguir guloso guisados sogro grossa socegasses perseguisses ser saír sorte assar russo risses risada rosa riso raso russo grossos gritos gordos sagaz fizesse zurzisses rêzes luzisse |
VIGESIMA LIÇÃO
Assim como do z passámos ao s, que contem os dois valores do z; passamos agora do s ao x, que contém os tres valores do s.
Estes valores, a que alludimos, são ç... z... x... Porque é verdade que a paginas 19 attribuímos ao s tambem o valor de j...; mas este valor, embora no s se observe muito mais frequentemente, é accidente que soffrem as tres irmãs z, s, x, e não particularidade do s. Expliquemo-nos.
Se lermos e escutarmos as seguintes frases:
| faz | agua, | faz | ponto, | faz | damno; |
| as | aguas, | as | pontes, | as | damas; |
| calix | antigo, | calix | prateado, | calix | dourado: |
ver-se-á que z, s, x de faz, as, calix valem, primeiro, igualmente z...; segundo, igualmente x...; terceiro, igualmente j...
Examinai e vereis que z, s, x, lendo-se immediatamente antes de vogal, valem z...; e immediatamente antes de ç, f, p, q, t (ou equivalentes), j...: nos outros casos, x...
Porém como todos observam isto inconscientemente, e o mesmo ouvido se encarrega de guiar o alumno, é escusado dar taes regras.
Abstrahindo pois daquelle valor commum e tão accidental, j..., podemos sem rigorosa mas com bastante verdade chamar áquellas consoantes zêxe, sezêxe, kcecezêxe. Taes nomes designam os valores das letras, e são portanto definições, verdadeiros nomes, verdadeiros e mnemonicos, isto é, bons de fixar pela identidade e gradação de elementos.
O nosso systema não se funda nos nomes das letras: os faceis e notaveis resultados que elle tem dado em nossas mãos, e nas do editor, e que igualmente promette nas de outrem não dependem destas particularidades: mas é a razão que as dicta, e o methodo que as aconselha.
Xiz é um nome apenas insufficiente, não falso nem disparatado; porque do modo que o dizemos (xix...), principiando e acabando na inflexão x..., até se podia considerar symbolico; pois em princípio e fim de palavra, salvo o que deixamos dito, o x vale x... Mas que é dos outros valores? O nome não os indica; e não ha razões de preferencia: nem ha conveniencia alguma em obrigar o principiante a ir buscal-os a explicações avulsas, podendo-os achar no proprio nome da letra.
Vamos ás perguntas e respostas do costume:
—Como se chama esta letra?—Kcecezêxe.
—Porque se chama Kcecezêxe?—Porque vale kç... ç... z... x...
—Quando vale kç... ç... z...?—Não ha regra.
—E quando vale x...?—No princípio e fim de palavra.
Este mesmo valor já sabemos quanto é accidental no fim; e tambem não é certo no princípio. Parece pois que muito de proposito escolheram os mathematicos o x para symbolo da incognita... Mas ahi tendes mais uma razão para lhe darmos um nome que offereça por assim dizer, á escolha do principiante valores tão diversos e tão incertos.
|
x = kç fixo fixa fixar fluxo defluxo reflexo sexo = ç auxiliaste auxiliarias auxiliasses = z~~~ existe existir exercitarás exercitasses exercesses exacto = ~~~z xale luxo baixo deixar bexigosas eixos seixos sexta calix expressar |
VIGESIMA PRIMEIRA LIÇÃO
Das oito consoantes incertas faltam-nos duas, m, n: mas como estas servem tantas ou mais vezes de til que de letras, é chegado o tempo de fallarmos das vogaes nasaes. Ha cinco especies de vogaes: agudas, fechadas, abertas, graves, e nasaes.
Agudas são as que se proferem como se chamam á, é, í, ó, ú; ás quaes muitas vezes se applica e muitas mais se deixa de applicar aquelle traço obliquo da direita para a esquerda chamado tambem accento agudo.
Abaixo, por assim dizer, um ponto em força e clareza estão as fechadas, que se proferem com a bôca um pouco menos aberta.
O signal destas é o chamado impropria e alatinadamente circumflexo, que a maxima parte das vezes se omitte, mas algumas se emprega onde era necessario como em dê; onde convinha como em rôgo; onde era desnecessario como em flôr (porque or final vale geralmente ôr, e portanto bastava accentuar as excepções como maiór, peór); e tambem modernamente em palavras, onde não convinha, como vêmos, louvâmos, que em estylo culto e desaffectado se lêem nasalando as vogaes e, a; ás quaes portanto mais competia til que accento circumflexo.
É de notar que não ha u nem i fechado; porque o ouvido não distingue voz abaixo de u; nem differença de tom, e só de fôrça, dum i a outro i, como em cai e caí.
Aberta, ha só uma vogal assim chamada, o e, de que fallamos a paginas 49.
Graves são as vogaes que se proferem mais suavemente, como as ultimas de ama, ame, amei, amo, tribu; onde, se comparardes, vereis que o e u se confundem para o ouvido.
Quasi o mesmo succede entre a fechado e a grave, que só differem na fôrça; como por exemplo em câda. Mas attendendo a que esta differença é quasi inapreciavel, e devendo ser o tom a base desta classificação, póde-se estabelecer que ha só tres vozes graves, e, i, u, representadas em quatro vogaes, e, i, o, u; valendo estas duas últimas o mesmo.
Nasaes são as que se proferem, não asperamente fanhosas, como se tivessemos o nariz tapado ou as fizessemos eccoar nas fossas nasaes; mas dirigindo o fôlego como que ao ceo da bôca; podendo-se neste sentido chamar igualmente, e por ventura melhor, palataes.
Resumindo: todas as vogaes podem ser nasaes e todas podem ser agudas. Graves ha quatro e, i, o, u, representando tres vozes graves e, i, u. Fechadas ha tres, â, ê, ô. Aberta ha só uma, è.
As nasaes assignalam-se com ~, m, n. Hoje só é applicado o til a duas, a, o; mas a todas se encontra applicado frequentemente nas edições antigas.
Limitemos a nossa questão ao til.
—Como se chama este signal?—Til.
—De que serve?—De indicar voz nasal.
—Á, é, í, ó, ú são vozes nasaes?—São vozes puras.
—Como são nasaes?—Ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
Puras são todas as vozes não nasaladas, isto é, todas as agudas, fechadas, abertas e graves.
|
ã ẽ ĩ õ ũ vã lã rã sã são pão dão verão serão cão coração razão carvão sezão grão grãos sãos cães capitães sacristães põi dispõis pavões feijões feições acções ratões razões varões barões ladrão rações |
VIGESIMA SEGUNDA LIÇÃO
Estamos chegados á penultima das consoantes incertas, que é o m. Este caracter umas vezes é letra, outras vezes signal nasal, outras vezes nem uma cousa nem outra; e podemos accrescentar que outras vezes é ambas as cousas.
Quando é letra representa um despego de labios similhantissimo aos que representam b, p; como por exemplo em
mal, mel, mil, mola, mula.
É impossivel começar a ler estas palavras sem ser de bôca fechada. Os labios despegam-se á primeira voz; vindo portanto o m a representar um facto puramente mecanico, por si só inapreciavel ao ouvido. Não é isto particularidade do m, mas qualidade geral de todas as letras que valem inflexões instantaneas.
O m representa esta inflexão labial em tendo vogal adiante.
Quando é signal nasal, vale para a vogal antecedente o mesmo que til. Tanto importa para a leitura escrever:
| ambos, | embora, | impar, | ombria, | umbral; | |
| como | ãbos | ẽbora | ĩpar | õbria | ũbral: |
com a differença que esta orthografia era melhor, mais exacta e, por consequencia, mais elegante.
Por economia de espaço, e conveniencias typograficas, talvez mais que por espirito reformador duma orthografia incoherente, acha-se o til empregado nas edições antigas, frequentissimamente, onde agora pomos m ou n. Em boa hora volte e seja universalmente recebida aquella substituição. Mas os antigos, que escreviam (tambem mais logicamente) por exemplo amárão; querendo differençar o ão dominante do grave, á falta de signaes convenientes escreviam amaráõ, desvirtuando assim ao mesmo tempo os dois signaes agudo e nasal; pois nem o a é agudo, nem o o nasal. Daqui e, provavelmente ainda mais, da costumeira de solletrar á, ó, til, ão; parecendo ao principiante (e talvez ao mestre) que o til pertence ao o; resulta vermos até na capital grandes letreiros: Salaõ, Repartiçaõ de Instrucçaõ etc. (o que diga-se a verdade não é muito airoso para o pintor).
O m tem sempre este valor nasal quando se lhe não segue vogal.
Mas ás vezes não tem valor nenhum, e só se escreve por divisa etymologica, como por exemplo em
commenda, commissão, condemnado,
que se lêem exactamente como se escrevessemos comenda comissão condenado.
Estas taes divisas etymologicas, ou estas taes etymologias teem o grande inconveniente de fazer da escrita um privilégio, que nenhum homem liberal supporta sem repugnancia, etc. E ainda se os partidarios [ilegível............]! Mas elles não se entendem uns aos outros, e nem a si mesmos se entendem. Devia acabar esta affectação ridicula.
Continuando, não podemos dizer que mm estão no caso de bb, cc, dd, ff, gg, etc., que valem sempre assim dobradas o mesmo que simples: porque é tão commum o primeiro m não valer nada como valer de til: por exemplo:
| somma, | gomma, | emmalar, | emmassar | |
| equivale a | sõma, | gõma, | ẽmalar, | ẽmassar: |
vingando aqui a regra, que m sem vogal adiante vale de til.
Tambem o am final se póde dizer que não offerece nada de extraordinario quanto ao m. Ahi o m vale til; é regular: a forma orthografica sim que é viciosa; porque escrevemos ã para lermos ão. Nem o a nem o m podem representar o u que soa na leitura. É uma convenção caprichosa, e pouco sustentavel.
Antigamente dizia-se, por exemplo, amárũ; depois, com o correr dos tempos, amárõ; depois, amárã. Foi-se a musica da lingua, por assim dizer, aclarando. Hoje ainda muito povo diz amárõ, fállõ; mas o estylo correcto e literario é amárão, fállão.
Nisto devem os mestres não poupar insistencias, porque o tal õ é repugnante. E dizemos: não poupar insistencias, porque é necessario insistir: a maior parte dos alumnos teem esse vício muito arraigado. Mas quem diz cão, póde dizer fícão: seja a syllaba grave ou dominante, a pronuncia é organicamente a mesma.
Tempo houve que geralmente se escrevia ão no fim. Depois, talvez para evitar equivocos, e poupar accentos (no que sempre nos temos mostrado singularmente economicos), em vez de se progredir empregando, e até inventando os signaes necessarios a bem duma orthografia exacta, retrogradou-se. Quasi todos escrevem actualmente amam, fallam, quizeram, etc.
A dizer a verdade a boa orthografia não depende tanto da logica dos caracteres como da generalidade das regras; e se am final vale sempre o mesmo, embora mal represente o que vale, passe a incoherencia. Melhor orthografia é fállão, fallárão, fallarão, etc. Mas por exemplo pensão é equivoco; e escrever pénsão, não é logico; porque não temos na palavra e agudo. A falta dum signal para a vogal dominante, é uma razão a favor do am final: todavia, razão que pouco pode aproveitar aos que seguem (como nós aqui) a orthografia em am; pois escrevem sem escrupulo provém, contém e até porém. Logo que dúvida podiam ter em escrever pénsão, péndão, mándão, etc.? Melhor seria.
Mas dissemos nós que o m vale ás vezes de letra e de til. De facto acha-se uma especie de influencia nasal retroactiva no m (assim como no n). Nós lemos ama, temo, lima, Roma, uma, como se estivesse escrito ãma, tẽmo, lĩma, Rõma, ũma. Amamos, amemos; fazemos, façamos; vestimos, vistamos; pomos, ponhamos; nestas e outras vozes similhantes dá-se tambem o caso de nasalarmos a penultima vogal, sem til nem m que lhe pertença.
Mas destas e outras que taes advertencias não precisa o alumno. E limitando-nos ao que importa, na forma costumada:
—Como se chama esta letra?—Metíl.
—Porque se chama metíl?—Porque umas vezes vale m', outras vezes vale de til.
—Quando vale m'?—Com vogal adiante.
—E quando vale de til?—Com vogal atraz.
—Portanto, com a, e, i, o, u atraz, como se lê?—Ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
—Tambem se lê ã no fim de palavra?—No fim de palavra não se lê ã; accrescenta-se u; lê-se ão.
|
m meu umas mãos limões moças comer amigas gemer morrer mães maçãs irmãos queimaduras romãs mexer
em im om um vim fim sim assim algum alguem atum emfim quem tambem som com Joaquim riem limpem jejuem tomem afiem tremem caiem comem ardem fumem temem lêem compararem emmassarem emmalarão
iam durmam amam temam ficam raspam levam puxam viam zurziam tocam armam ligam sumam emmagreçam complicariam |
VIGESIMA TERCEIRA LIÇÃO
Chegámos finalmente ao n, última das consoantes incertas, que á similhança do m umas vezes é letra, representando inflexão; outras vezes é simples signal nasal, valendo de til; outras vezes nem representa inflexão nem vale de til; outras vezes vale de til e representa inflexão; e ainda outras vezes, accentuado ou carregado com o h, vale a inflexão conhecida, de que havemos de tratar.
Propriamente um caracter só é letra quando representa um elemento mais ou menos distincto da palavra fallada. Ninguem diz que vã se escreve com tres letras, porque nem a anályse nem o ouvido distinguem senão duas partes nessa palavra. Ora se em vã ha só duas letras, tambem ha só duas letras em van. Se chamamos letra a este último caracter, é referindo-nos ao papel que elle muitas vezes representa, e para não estarmos com explicações e rigores desnecessarios: mas fallando com exactidão, aqui o n não passa dum signal.
Quando é letra profere-se pegando a lingua ao ceo da bôca: pegando-se ou despegando-se; estes termos são geralmente reciprocos no valor fysiologico das letras; para se despegar, tem de se pegar. Mas se merecesse a pena levar a anályse a uma certa altura, diriamos que mais consiste aquella inflexão no apego que no despego, pois como se póde observar em iman, pollen, talisman, em summa nas palavras onde o n final vale inflexão, este n profere-se perfeitamente deixando a lingua pegada ao ceo da bôca: o mesmo que dissemos do l, ao qual, apezar da differença para o ouvido, se assemelha muito na pronuncia.
Por isso bom é recommendar ao alumno, na leitura do n final, o que dissemos a respeito do l.
Este n final valendo inflexão (e sempre tambem de til, pela influencia nasal retroactiva, que indicámos a respeito do m) é raro. Poucas são as palavras que assim acabam. E é só nessas palavras que a ortografia moderna o admitte. Caiu em desuso escrever van, lan, manhan. O n final valendo de til, foi com razão substituido pelo til.
Nesta qualidade de til, o mesmo que dissemos do m lhe é applicavel. Nasala a vogal anterior quando não tem vogal adiante, dando-se tambem casos excepcionaes como succede com o m, porém esta é a regra. Nós lemos:
anda, ente, indo, onda, unto, do mesmo modo que: ãda, ẽte, ĩdo, õda, ũto.
Como letra, nasalando ao mesmo tempo a vogal anterior, temos milhares de exemplos: todos lemos: ufano, pena, tina, tona, puna, como se estivesse escrito ufãno, pẽna, tĩna, tõna, pũna.
Escrito só por etymologia, tambem não escaceiam exemplos. Em annel, anniversario, annunciar, etc., o primeiro n não tem nenhum valor.
Resumindo esta doutrina ao nosso discipulo:
—Que letra é esta?—Netil.
—Porque se chama netil?—Porque umas vezes vale n', outras vezes vale de til.
—Quando vale n'?—Em tendo vogal adiante.
—E quando vale de til?—Em não tendo vogal adiante.
—Portanto com a, e, i, o, u atraz, como se lê?—Lê-se ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.
Adverte-se a excepção do n final.
|
n nós nau clina nomes manos nada meninos anões pernas imaginavam carne esquina afinação não somno iman
en in on un antes singelo anca segundo banco andam ancias brinco anjo trancam entendimento |
VIGESIMA QUARTA LIÇÃO
O nosso plano é o seguinte:
| I | Vogaes | a, e, i, o, u. | ||
| II | Consoantes certas | v, f, j, t, d, b, p, l, k, q. | ||
| Cons»antes incertas | c, g, r, z, s, x, m, n. | |||
| Cons»antes compostas certas | th, rh, nh, lh, ph, | (y). | ||
| Consoante composta incerta | ch, | |||
| III | Alfabeto maiusculo. | |||
| I | Vogaes a, e, i, o, u. |
||
| II | Consoantes certas v, f, j, t, d, b, p, l, k, q. |
||
| Consoantes incertas c, g, r, z, s, x, m, n. |
|||
| Consoantes compostas certas th, rh, nh, lh, ph, |
(y). | ||
| Consoante composta incerta ch, |
|||
| III | Alfabeto maiusculo. |
Daqui se vê que ás consoantes incertas seguem-se as compostas. É pois tempo de fallarmos do h; tempo e opportunidade, porque as duas últimas incertas, m, n, são muitas vezes simples signaes prosodicos; e o h, igualmente debaixo de todas as apparencias de letra, não passa dum signal.
Os gregos tinham vogaes e consoantes aspiradas, isto é, proferidas com aquelle esfôrço, aquella sobejidão de fôlego com que os hespanhoes proferem a inicial de José. Em portuguez, ha mais ou menos fôrça em vozes e inflexões; tanto, que é nisso e por isso que muitas se destinguem e se transformam dumas noutras: mas propriamente a chamada aspiração, certa aspereza e violencia, como de voz ou inflexão tossida, só (que nos conste) nas gargalhadas do snr. Rivara.
Ora na Grecia, onde só havia sete sabios, ninguem era obrigado, para ler e escrever grego, senão a saber grego. Naquella mina inexhaurivel de etymologias, não havia etymologias. Escrevia-se com a maxima exacção, salpicando-se a escrita de signalinhos, e entre esses figuravam os de aspiração, que eram umas virgulasinhas sobrepostas á vogal ou consoante accidentalmente aspirada.
Os latinos, em logar dessas virgulasinhas, tinham h, caracter improprio e indevidamente mettido na cathegoria das letras; mas elles, importando-lhes pouco tirar aos derivados os ares de familia, íam seguindo a sua orthografia, empregando o h, tanto em palavras de origem patria como de origem grega.
E como o portuguez é filho do latim na opinião dos sabios, apezar de não termos aspiração, cá temos tambem o h em palavras do latim, do grego (que não tinha culpa nenhuma da orthografia latina), e até em palavras de origem ou orthografia nossa, como sahir, cahir, chegar, fechar; servindo-nos o h de accento.
De tudo isto resulta que os gregos tinham a sua orthografia, os latinos a sua, e nós temos a dos latinos, sem o seu criterio e a sua coherencia.
A dizer a verdade não ha differença essencial entre aspiração e accentuação: ambas envolvem fôrça: mas ha a differença sobeja para não confundir nem os nomes nem os signaes.
O h em portuguez não vale aspiração; umas vezes é accento, outras vezes é signal etymologico, outras vezes é ambas as cousas.
Applica-se a todas as vogaes e á terça parte das consoantes, ou tanto monta, a metade do abecedario. A sua indole é carregar, accentuar, apezar das muitas excepções. Vejamos com as vogaes.
Ahi, ah, huivo lê-se como se escrevessemos aí, á, úivo: aqui vale accento agudo.
Heroe, honesto, hostil lê-se como se escrevessemos êroe, ônesto ôstil: aqui indica etymologia, valendo ao mesmo tempo de accento circumflexo.
Em raras palavras começadas etymologicamente por h, deixa a primeira vogal de ser mais ou menos fortemente accentuada.
Com as consoantes observa-se a mesma regra.
Em th, rh a presença do h é inutil; mas haveis de notar que as inflexões t, rr... são extremas, isto é, admittem, sem transformação, a pronuncia mais vehemente.
Por outro lado, se os etymologistas fossem etymologicos não escreviam catarrho, que não é orthografia portugueza nem latina nem grega; escreviam catarho, para se lêr do mesmo modo; vindo o h a servir tambem de accentuar o r.
Nh, lh é accentuação de n, l. Proferi alternativamente n, nh, e l, lh, sentireis a lingua, na pronuncia da forma dupla, adherir mais extensamente ao ceo da bôca, e despegar-se com mais custo.
A respeito de ph, todos apagam uma luz fazendo ou proferindo naturalmente pf... Esta dupla inflexão consiste em despegar os labios com um sôpro; o que corresponde a accentuar, carregar, tornar sensivel ou aspirar a inflexão negativa p'. É verdade que para nós ph não vale rigorosamente pf...; mas a differença é insignificante, e pouco desdiz a forma.
Em ch temos dois valores, um frequentissimo, x... e outro raro, k'. Reforçai a inflexão ç... e vereis, como facilmente se vos torna x... Quando ch vale k', pode-se dizer que o h indica o valor aspero, forte, guttural da consoante c.
Assim, ou similhantemente, convem desculpar as formas duplas, justificar, explicar o valor simples ou homogeneo dessas dualidades graficas. Porque certamente que todos os caracteres da escrita tem um valor convencional e arbitrario; mas, posto um valor, até a intelligencia infantil é impellida a inquirir se se é coherente.
E pois fallámos do h, do ph, do ch, fallemos do y, essa especie de companheiro de viagem que tantas vezes vem na caravana.
Os sabios chamam áquillo i grego. Se é grego, excellente razão para o excluir da nossa escrita.
Em grego havia uma vogal (que por signal não se sabe ao certo se valia i ou se valia u) que na forma maiuscula um tanto se assimilhava ao y: na forma minuscula, como quasi exclusivamente nos apparece o y, o caracter similhante era o gamma, o g'. De modo que se um grego resuscitasse, e aprendesse a ler portuguez, havia de se rir muito do nosso i grego. Não obstante ensinai a ler o vosso discipulo y, ph, mas recommendando-lhe que nunca escreva tão affectadamente.
Os hespanhoes, em logar do nosso nh, lh, teem ñ, ll. É melhor orthografia, mas ainda incoherente. Tanta razão ha de carregar ou dobrar num caso como no outro. Os polacos carregam o l.
Para nós o til não tinha applicação ao n. Interpretando os latinos e imitando os gregos o melhor seria carregar, accentuar simplesmente, com algum signal particular ou o mesmo agudo, n, l e até r, t, p, c. Vamos á practica.
Deveis ter tido occasião de ensinar ao discipulo o que é, e de que serve o accento agudo e circumflexo; senão, explicai-lhe, apresentando-lhe, como um novo accento embora de diversa forma, o h.
—Que é isto?—O accento agá.
—De que serve?—De carregar vogal ou consoante.
—Que vale n, l, p carregado?—N', nh'; l', lh'; p', pf...
—Mas lê-se pf...?—Lê-se só f...
—E que vale o c carregado?—x... e algumas vezes, q'.
cypreste mysterio symetria pyrilampo asylo abysmo cysne crystal lyceu tyranno estylo syllaba |
harpa homem hoje hombro hostias haver th rh sympathia rheumatismo catarrhal nh unha punham tinha nenhum ninho manhã vinha grunhir linha tenham fronha pinhão junho azenha lenha inhabil lh ôlho espelhos dá-lhe joelhos bulha ovelhas azelha grelha filhos ralham gralha trilhar alho palhinha ilha orelhinha
aphta pharol typho grypho phoca phrase esphera triumpharam typographia pharmacia phosphoros
chá cachorro chão chafariz chapa chegar cheio colchão = k Christo chrisma machinista eucharistia |
VIGESIMA QUINTA LIÇÃO
Ensaiado o nosso discipulo em todas as minusculas por sua ordem, resta apresentar-lhe as maiusculas. Bastava metade, pela similhança de
| C | I | J | K | O | P | S | U | V | X | Y | Z | |
| com | c | i | j | k | o | p | s | u | v | x | y | z. |
Mas uma cartilha sem alfabeto, sería um escandalo. Evitemol-o.
O alfabeto é um cahos.
Se olhais ao som, e quereis tomar por base o ouvido, achais as vogaes misturadas com as consoantes: se olhais á pronuncia, e quereis tomar por base os orgãos da palavra, achais gutturaes e labiaes, consoantes de valor extremo e opposto no meio d'aquella babel.
A velha divisão de vogaes e consoantes não tem melhor fundamento. Consoantes são as que se lêem com as soantes? Nesse caso a divisão natural sería soantes e consoantes. Mas nem as vogaes são unicamente soantes, nem são unicamente as soantes.
A inflexão x... soa. Os caracteres que a representam são soantes.
Ainda soa mais a inflexão rr...; e nessa ha mais do que som, ha tom, voz. Prolongai-a e, melhor, parai com a lingua, continuando o mesmo fôlego, ouvireis um tom apreciavel na escala, que até se pode tomar por tónica d'uma oitava: é a voz que o repique da lingua está abafando e embaraçando.
Porque toda a voz é essencialmente musical: a mais frouxamente proferida, em se prolongando, afina ou desafina com a nota d'um instrumento.
Não ha differença essencial entre a palavra e o canto; e com razão chamaram vogaes (ou vocaes) as letras que representam os principaes elementos da palavra.
Mas, por isso, chamar consoantes a todas as outras, envolve impropriedade. Todos os sons soam; dizer que as vozes soam, não é bastante: as vozes cantam. E alem de impropriedade, é uma syntese exagerada.
Porque na palavra ha vozes, ha tons, ha sons e ha simples modificações sem tom nem som, que se percebem na palavra como se percebe na nota da rabeca a unha ou o arco. Nem a unha nem as sedas do arco são elementos fonicos: fazem soar de certo modo, sem que por si soem. Ora a estes quatro elementos da palavra, que formam como uma escala: