WeRead Powered by ReaderPub
Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura cover

Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

Chapter 27: NOTA
Open in WeRead

About This Book

Apresenta um método prático para ensinar a ler baseado na língua viva: inicia-se pelas vogais, combina-as com consoantes e forma palavras inteligíveis em lições graduais, evitando o sílabo mecânico e a soletração isolada. Destina-se a mães e professores, defendendo a aprendizagem por leitura de palavras e exercícios orais, com orientações sobre pronúncia, valores das letras, distinção entre vogais e consoantes e a sequência de elementos a ensinar. Contém exemplos, repetições graduadas, regras e sugestões didáticas para tornar o ensino mais natural, acessível e menos fatigante para a criança.

VIII Cantantes ou vocaes;

VIII Toantes (rr... j... z... v...);

VIII Soantes (x... c... f...);

IIIV Mudos (bqd, gl, lh, etc.):

correspondem naturalmente quatro especies de letras susceptiveis das mesmas denominações segundo os seus valores.

Assim pois ha letras soantes e mudas, toantes e mudas; etc. X é toante (z...), soante (ç..., x...) e simultaneamente muda e soante (qç...).

Estas denominações e classificações tem utilidade, porque envolvem anályse, dão um conhecimento mais perfeito da palavra e da escrita, e proporcionam em muitos casos á doutrina do mestre uma precisão e clareza, que a distincção geral de vogaes e consoantes mal pode permittir.

Mas se se quizesse apenas essa distincção, era dividir as letras em vogaes e invogaes.

Ora contando as vozes ou elementos cantantes da nossa lingua, que se representam em mais do dôbro de maneiras, achamos dezesete. Ajuntando os quatro elementos toantes, os tres soantes e os doze mudos (todos tambem representados em muito maior número de caracteres) temos os trinta e seis elementos a que nos referiamos a pag. 53.

Mas voltando ao alfabeto, não recommendamos que o façam aprender de cór senão a discipulos que nutram a lisonjeira esperança de chegar um dia a folhear diccionarios, que é do que serve.

Em todo o caso ahi o tendes, á escolha, minusculo e maiusculo entremeado para confronto, e separado. Ainda nos parecia melhor, isto é, menos indigesto, encorporado em palavras, onde ao pé da maiuscula apparecesse a minuscula, e ao lado os nomes que nós damos ás letras.

Desses nomes ides ver alguns escritos dum modo mais sobrio ou mais usual mas equivalente; pois, por exemplo, lendo zêz como se costuma ler zaz, no fim soa x... que é o mesmo valor, embora mais exacto, que pretendiamos indicar no nome zêxe. Igualmente lendo á portugueza cêqes, soam tres inflexões, ç... q... x..., que são os valores do c simples, e accentuado de h. Nós tambem lemos zig-zag, dando ao g o valor guttural: porque não havemos de escrever semelhantemente gêg, para significar os dois valores desta toante e muda? Quizemos dar de barato aos partidarios dos nomes volumosos; agora permittam-nos essas modificações accidentaes.

Mas ao c tinhamos chamado cêqe: chamando-lhe agora cêqes, ha uma differença essencial. A razão é, como vêdes, para abranger no nome o novo valor que lhe trouxe o h. Assim vão tambem accrescentados os nomes de p, l, n: e dessa alteração convem dar conta e explicação ao alumno; se é que não preferis considerar nh, lh, ph, ch como formas elementares, chamando-lhes nhê, lhê, phê grego, xêq; o que é rasoavel mas pouco conforme ao que entre nós se entende por alfabeto.

E agora vem a proposito fallarmos de dh, que a pag. 23 incluímos nas formas compostas, e todavia não apparece na última lição. Dh é uma juncção casual, á similhança de nh por exemplo em inhabil inherente que se lê inábil inerente. As palavras que principiam por h, compostas de ad e in, affectam estas excepções ao nh, e aquella forma dh, não havendo em rigor nem uma nem outra cousa. Como porem mal se pode fallar ao alumno em preposições, e não deixava de convir praticamente considerar a cousa como parece, a isso nos dispunhamos, cedendo depois á verdade theorica.

Os quadros alfabeticos assim talhados, pelas cinco vogaes, em outras tantas regras ou linhas, estão indicando as porções em que se ha-de estudar o alfabeto. De alguma cousa havia de servir a posição alfabetica das vogaes. O alfabeto é uma ordem puramente material; o seu estudo, aborrecido; e não ha necessidade de molestar o alumno. Quantos terão renunciado á gloria de saber ler, pelo fastio invencivel dessa enfiada de nomes barbaros e desconnexos? É verdade que no princípio, que é quando o costumam ensinar, a essa desconnexão ajunta-se a absoluta ausencia de sentido; mas em todo o tempo a memoria se esquiva a encadear semelhante salsada.

Se acceitais a nossa nomenclatura, alternai com o discipulo as vezes necessarias, ou fazei repetir alternadamente os discipulos, accumulando de dia para dia os nomes decorados:

á, , cêqes, ;
é, , jêg, agá,
í, , grego, lêlh, metíl, nênhetíl;
ó, pêf, , rêr, sezêz, ;
ú, , qce-cezêz, i grego, zêz.

Adoptai esses nomes, que são verdadeiros e methodicos: não vos preoccupeis com o costume. O cozinheiro ri-se de ouvir chamar ao sal chlorureto de soda; os chimicos deixam-no rir.

Mas antes do alfabeto damos uma lição de esdruxulos, em que não deixa de convir ensaiar o discipulo.

Nós temos, em relação á syllaba dominante, tres generos de palavras, que são:

Agudas: onde se carrega na última (ou unica) syllaba: , arroz, fareis.

Inteiras: onde se carrega na penultima: dado, arrozes, farieis.

Esdruxulas: onde se carrega na antepenultima: esdruxulo, penultima, última, pallida, etc.

Os francezes não teem estas melodiosas palavras. Os hespanhoes teem-nas, e com razão accentuam sempre a vogal dominante. Nós que em materia de accentos só não poupamos o h, continuamos a escrever ultima, publica, replica, e o leitor que tire pelo sentido.

Mais uma razão para darmos uma lição de esdruxulos ao principiante, que tem o sentido distrahido na decifração de caracteres, alguns tão duvidosos.

Como acima alludimos aos elementos da lingua, e é por elles que se hão de classificar as letras, ahi os damos seguindo nos toantes e soantes a ordem fónica em escala descendente, e quanto aos mudos a ordem fysiologica dos labios para a garganta. Para exercicio especialmente das maiusculas damos uma lenda vertida do francez.

Vozes á, ã, â Voz
è, é, , ê, e grave
í, ĩ, i gr»
ó, õ, ô
ú, ũ, u gr»
Inflexões Toantes rr Voz e repique de lingua.
j lingua no ceo da bôca.
z dentes cerrados.
v labio inferior pegado aos dentes de cima.
 
Soantes x Fôlego e lingua no ceo da bôca.
c dentes cerrados.
f labio inferior pegado aos dentes de cima.
 
Mudas m Labios pegados.
b
p
 
d Lingua nos dentes.
t
 
r' Lingua no ceo da bôca.
l
lh
n
nh
 
g' Lingua contrahida na garganta.
q
Vozes
á, ã, â Voz
è, é, , ê, e grave
í, ĩ, i gr»
ó, õ, ô
ú, ũ, u gr»
Inflexões
Toantes
rr Voz e repique de lingua.
j Vo» e lingua no ceo da bôca.
z Vo» e dentes cerrados.
v Vo» e labio inferior pegado aos dentes de cima.
Soantes
x Fôlego e lingua no ceo da bôca.
c Fôle»o e dentes cerrados.
f Fôle»o e labio inferior pegado aos dentes de cima.
Mudas
m Labios pegados.
b
p
 
d Lingua nos dentes.
t
 
r' Lingua no ceo da bôca.
l
lh
n
nh
 
g' Lingua contrahida na garganta.
q

Palavras esdruxulas

Passaro, dúvida, número, hóspede, oculo, prestimo, sabbado, médico, polvora, lagrima, pallido, célebre, lampada, timido, camara, mácula, parocho, pecego, barbaro, cáustico, último. Kilometros, relampagos, alfandegas, telegraphos. Condiscipulo, evangelico.

Alphabetos

aA bB cC dD

eE fF gG hH

iI jJ kK lL mM nN

oO pP qQ rR sS tT

uU vV xX yY zZ

———————

a b c d

e f g h

i j k l m n

o p q r s t

u v x y z

———————

A B C D

E F G H

I J K L M N

O P Q R S T

U V X Y Z

Hymno de Amor

Andava um dia

Em pequenino

Nos arredores

De Nazaré,

Em companhia

De São Jo

O Deus-Menino,

O Bom-Jesús.

Eis senão quando

Vê num silvado

Andar piando

Arripiado

E esvoaçando

Um rouxinol,

Que uma serpente

De olhar de luz

Resplandecente

Como a do sol,

E penetrante,

Como diamante,

Tinha attrahido,

Tinha encantado.

Jesús, doído

Do desgraçado

Do passarinho,

Sai do caminho,

Corre apressado,

Quebra o encanto;

Foge a serpente;

E de repente

O pobresinho,

Salvo e contente,

Rompe num canto

Tão requebrado,

Ou antes pranto

Tão soluçado,

Tão repassado

De gratidão,

Duma alegria,

Uma expansão,

Uma vehemencia,

Uma expressão,

Uma cadencia,

Que commovia

O coração!

Jesús caminha,

No seu passeio;

E a avesinha

Continuando

No seu gorgeio,

Em quanto o via:

De vez em quando

Lá lhe passava

Á dianteira,

E mal pousava

Não afrouxava

Nem repetia,

Que redobrava

De melodia!

Assim foi indo

E o foi seguindo.

De tal maneira

Que noite e dia

Numa palmeira,

Que havia perto

Donde morava

Nosso Senhor

Em pequenino,

(Era já certo)

Ella lá estava

A pobre ave

Cantando o hymno

Terno e suave

Do seu amor

Ao Salvador!

FIM DA CARTILHA MATERNAL

NOTA

O leitor póde reparar em chamarmos ás vogaes simplesmente á, é, í, ó, ú; e depois darmos ás invogaes nomes compostos de todos os seus valores. A razão daquella excepção é não podermos sujeitar as vogaes ao mesmo systema de denominações; para o que basta ver que o e tem oito valores:

, pena; ê, d'este, dê;

è, dez; êi, lêa, negocea;

é, deste; e (grave), ave;

éi, idéa; i, ceou.

Tantos elementos vocaes não se prestam a nome. E que regras podiamos nós estabelecer a respeito de cada um delles?

Mas accresce que o estylo da lingua leva o principiante a achar a oscillação da vogal mais facilmente que, entre os valores da invogal differentes e até heterogeneos, aquelle que convem.

E já que fallamos em regras, haveis de notar que a pag. 81, o s figura nas duas últimas linhas dum modo não comprehendido no diálogo. Completai as regras explicando como o s tambem tem o primeiro valor entre vogal e invogal, e nas palavras compostas como girasol, resalva, etc., em occasião opportuna.

A pag. 31, e ainda mais provavelmente a pag. 91 haveis de extranhar a orthografia, em que damos a ler ao discipulo paipõi, dispõis.

A respeito de põi e dispõis, o i está indicado nos verbos. Todos escrevem taes, atais; dedaes, dais; leaes, leais (verbo); não ha pois razão de analogia para escrever caes, saes (verbos), em logar de cais, sais; nem põe, dispões em logar de põi, dispõis, que é tambem mais conforme á etymologia.

Pelas mesmas razões em nossa opinião é preferivel escrever pae. Todavia ha em todos os espiritos e em todas as linguas duas palavras soberanas—Deus e pae: tivemos pressa em que o discipulo lesse esta palavra tão frequente e tão amavel, antes da lição do e final, e não tivemos dúvida em seguir aquella orthografia, aliás muito usada.

A última palavra a pag. 39 devia estar accentuada; póde-se ler tôldo e tóldo. Preferindo o mais usual, convem traçar á penna o accento circumflexo, que escapou; mas vai na reproducção litographica em ponto grande das lições da Cartilha.

Declaração

É comproprietario desta obra, no Brazil, A. A. Lopes do Couto, Livraria Luso-Brazileira, rua da Quitanda, n.º 24, Rio de Janeiro.

FIM DA NOTA