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Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

Chapter 9: Oitava lição - p
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About This Book

Apresenta um método prático para ensinar a ler baseado na língua viva: inicia-se pelas vogais, combina-as com consoantes e forma palavras inteligíveis em lições graduais, evitando o sílabo mecânico e a soletração isolada. Destina-se a mães e professores, defendendo a aprendizagem por leitura de palavras e exercícios orais, com orientações sobre pronúncia, valores das letras, distinção entre vogais e consoantes e a sequência de elementos a ensinar. Contém exemplos, repetições graduadas, regras e sugestões didáticas para tornar o ensino mais natural, acessível e menos fatigante para a criança.

The Project Gutenberg eBook of Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

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Title: Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

Author: João de Deus

Release date: July 19, 2014 [eBook #46334]
Most recently updated: October 24, 2024

Language: Portuguese

Credits: Produced by Júlio Reis, Keith Edkins, Biblioteca Municipal
de Alcobaça and the Online Distributed Proofreading Team
at http://www.pgdp.net

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CARTILHA MATERNAL; OU, ARTE DE LEITURA ***
Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1876.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.

O «typo lavrado» do livro mostra-se no italico:

>> auxiliarias

CARTILHA MATERNAL

OU

ARTE DE LEITURA

POR

JOÃO DE DEUS

Les mères et les institucteurs, voilà

ceux qui jettent dans le monde presque

toutes les semences du bien et du mal.

Ambroise Rendu (Fils).

As sementes do bem e do mal, quem

as lança no mundo quasi todas, são as

mães e os mestres.

PORTO

TYP. DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62, Rua da Cancella Velha, 62

1876

Este systema funda-se na lingua viva. Não apresenta os seis ou oito abecedarios do costume, senão um, do typo mais frequente, e não todo mas por partes, indo logo combinando esses elementos conhecidos em palavras que se digam, que se ouçam, que se intendam, que se expliquem; de modo que, em vez do principiante apurar a paciencia numa repetição banal, se familiarisa com as letras e os seus valores na leitura animada de palavras intelligiveis.

Assim ficamos livres do syllabario, em cuja interminavel serie de combinações mecanicas não ha penetrar uma idéa!

Esses longos exercicios de pura intuição visual constituem uma violencia, uma amputação moral contraria á natureza. Seis mezes, um anno e mais de vozes sem sentido basta para imprimir num espirito nascente o sello do idiotismo.

Porque razão observamos nós a cada passo nos filhos da indigencia meramente abandonados á escola da vida uma irradiação moral, uma viveza rara nos martyres do ensino primario?

Ás mães, que do coração professam a religião da adoravel innocencia e até por instincto sabem que em cerebros tão tenros e mimosos todo o cansaço e violencia póde deixar vestigios indeleveis, offerecemos neste systema profundamente prático o meio de evitar a seus filhos o flagello da cartilha tradicional.

PRIMEIRA LIÇÃO

Consistindo a leitura na combinação das letras, basta ir aprendendo as letras que se podem ir combinando; o mais é confusão; e não podendo haver combinação sem vogal, comecemos pelas vogaes (deixando de fóra o ypsilon para não surprender logo no principio o alumno com duas letras que se leem do mesmo modo, tendo diverso nome e fórma). Chamemos essas letras pelos seus nomes, á, é, í, ó, ú, que depois iremos determinando os seus diversos valores.

a           e

i

o           u

Estas letras aprendem-se facilmente: representando a quinta parte do abecedario quanto ao numero, estão fóra de representar a vigesima, quanto aos embaraços; porque são homogeneas, todas se pronunciam com a bôca aberta, e filiam-se naturalmente na voz e na memoria. É por isso tambem que apresentamos todas cinco duma vez.

Ora a verdadeira palavra do homem é a palavra escrita, porque só ella é immortal. Mas emquanto o ensino da palavra fallada é o encanto de mães e filhos, o ensino da palavra escrita é o tormento de mestres e discipulos. Extranha diversidade em coisas tão irmãs!

Deus na sua providencia não o podia determinar assim. Ha-de haver meio facillimo, grato, universalmente accessivel, de espalhar essa arte, ou antes faculdade, sem a qual o homem não passa de um selvagem.

Esse meio ou esse methodo não póde ser essencialmente differente do methodo encantador pelo qual as mães nos ensinam a fallar, que é fallando, ensinando-nos palavras vivas, que entreteem o espirito, e não letras e syllabas mortas, como fazem os mestres. Pois apressemo-nos tambem nós a ensinar palavras; e acharemos a mesma amenidade.

Com aquellas cinco letras já se podem formar quatro palavras muito usuaes, e que por uma feliz coincidencia se pronunciam todas do mesmo modo, isto é, carregando na inicial.

Lede-as, e nunca soletreis; que mal sabeis como a soletração confunde o principiante (quando lhe não deprava o raciocinio com sommas falsas). Lede-as acompanhando fielmente com o ponteiro a letra que estais pronunciando; e vereis a facilidade, o gosto e a admiração com que a criança vos segue e vos imita, reconhecendo em sua consciencia a palavra retratada no papel.

Convem deixar estabelecida nesta lição, a proposito da ultima palavra ia, a regra que o a no fim vale â (a fechado, igual ao que tantas vezes no dia pronunciamos separadamente: a casa, a mesa, etc.), regra que podemos figurar da fórma seguinte:

~~~a = â

Mas em portuguez as vogaes são quasi tantas como todas as consoantes juntas. Por isso antes de passar a lêr, podeis lisongear o alumno mostrando-lhe em qualquer livro ou pagina de boa letra o muito que elle já sabe. E nesta mesma distracção o acabais de confirmar nesses cinco elementos que são a alma da escrita e da leitura.

ai

ui

eu           ia

SEGUNDA LIÇÃO

Iniciámos no mecanismo da escrita o principiante com grande e justa maravilha sua. Elle percebeu, sentiu mais ou menos lucidamente o engenho do homem, que estudando os sons de que as palavras se compõem, inventou para cada som um signal, e depois, conforme a palavra consta de taes ou taes sons, assim na escrita põe taes ou taes signaes!

Mas aqui vem a proposito admirar como esta arte fundada numa base tão singela tenha sido o martyrio de tantos innocentes e passe ainda na opinião das multidões por uma sciencia ardua!

É verdade que tal correspondencia não é perfeita; mas essa imperfeição pouco embaraça os filhos do paiz sendo bem dirigidos. A criança, acostumada a ler palavras, não lê por exemplo tódo nem môdo; lê tôdo e módo, como tem dito e ouvido dizer. Assim tambem acha o valor das consoantes caprichosas.

Vamos agora combinar com as vogaes uma das consoantes mais perfeitas que é o v; porém não lhe haveis de chamar ú-consoante, que é uma falsidade, e vai desmentir todas as combinações. Chamai-lhe, como se usa modernamente, , ou ainda melhor, e por ora, chamai-lhe o que elle vale, simplesmente v... pronunciando sem despegar o beiço inferior dos dentes de cima, sem vogal, sem voz, o simples sopro aspero e sonoro.

Ensinai a proferil-o; e depois não tendes mais que ir apontando na palavra successivamente as letras que ides lendo, demorando-vos na pronuncia de cada uma o tempo que quizerdes, porque essa consoante é tão prolongavel como as vogaes.

          v

vá     vai

vi     via     viu

vivi       vivia

viveu     viva

uva

viuva

TERCEIRA LIÇÃO

Cada um tem as suas traças de facilitar o ensino, e ajudar o principiante nas difficuldades. Nós temos achado util cobrir e descobrir alternativamente o v nas palavras vai, via, etc, fazendo ler ora ai, ora vai e assim o mais, a fim de certificar o principiante do papel que o v representa na escrita.

Deste ou doutro modo estamos que vos não enfastiou a lição passada, onde pela primeira vez combinámos vogaes e consoantes. Mas que differença haverá entre vogal e consoante, e porque iriamos nós ao fim do abecedario buscar o v para esse primeiro exercicio?

Quando dizemos á, soltamos essa voz da garganta; mas se dissermos , soltamos essa voz, despegando os labios; e se dissermos mal, despegamos os labios ao soltal-a e no fim damos com a lingua no ceu da bôca.

Donde se vê que as palavras se compõem de vozes e tambem duns modos de começar ou acabar a voz.

As vozes pertencem á garganta, e representam-se nas vogaes; os modos pertencem aos orgãos mudos, como labios, dentes, lingua etc., e representam-se nas outras letras.

Vai uma grande differença da voz, ao modo de começar ou acabar a voz; vai portanto uma grande differença de vogal a consoante.

Mas esses modos, uns consistem num toque ou despego rapido, num simples movimento, numa funcção instantanea que se póde repetir, mas que se não póde prolongar, como succede nas seguintes palavras:

bocado golilha maninho preto
(bqd, gl lh, mn nh, pr t).

Outros consistem numa disposição em que a gente póde insistir o tempo que quizer, como nas seguintes palavras:

favo siso chá jarro
f...v... ç...z... x...j...rr...

Ora quando a voz é modificada com aquelles modos instantaneos, de sua natureza improlongaveis, a voz e o modo constituem para o principiante uma somma difficil de reduzir aos seus elementos, e portanto confusa: pelo contrario quando o modo é prolongavel, o principiante demora-se na voz ou no modo o tempo que lhe apraz sem falsear a syllaba, sem desfigurar a palavra; e o papel que a consoante representa na escrita é evidente e distincto. por exemplo, contando os pontos por momentos, podemos levar cinco momentos a pronunciar, v.....á, ouvindo-se afinal perfeitamente . O mesmo não acontece em , , , , etc.

Logo, por onde haviamos nós de começar, pelas consoantes contínuas ou pelas consoantes instantaneas? É claro que pelas consoantes contínuas, prolongaveis, que deixam ao principiante apreciar melhor os elementos da syllaba.

Ora, dessas consoantes a menos equivoca, ou antes, a inequivoca, a unica que não tem equivalentes, a mais perfeita em summa, é o v: começámos pelo v.

Mas em que consiste o v, como se pronuncia o v?

Nós, mesmo com a bôca fechada, podemos fazer uma especie de gemido, respirando pelo nariz; mas se, em logar de respirar pelo nariz, fazendo esse gemido, respiramos por entre o labio inferior unido aos dentes de cima, pronunciamos v...

Este som depende do folego emittido com certa força; sem essa força, emittindo o simples folego e conservando a mesma posição de labio e dentes, em logar de v... pronunciamos f...

Ora havendo tanta analogia entre estes dois elementos, sendo o f um v abafado, soprado, silencioso, passemos do v ao f.

            f

fui

fia       fiava

afia       afiava

fava

QUARTA LIÇÃO

Os modos de começar e acabar a voz chamam-se ordinariamente inflexões e articulações, por serem como uns eixos, umas juntas da voz que lhe dão contorno e melodia. A palavra lampada, por exemplo, é muito airosa; mas tirando-lhe a parte que nella tomam a lingua, os beiços e os dentes reduz-se a um vozeio de mudo, monotono e desengraçado: ãââ.

Donde se vê que a voz é como a perola que realça no engaste; e que as inflexões, intermeando e recortando a voz, apezar da sua obscuridade não são menos preciosas na palavra que as proprias vozes. Só a voz se canta, só a voz se alteia e expande, segundo o folego e garganta de cada um, a ponto de encher um templo, de retumbar no valle do alto da montanha; pelo contrario as inflexões a poucos passos de distancia somem-se: todavia uma lingua só de vozes seria uma lingua barbara.

Ora nós já sabemos que as inflexões na escrita se representam pelas consoantes; mas em logar de haver tantas consoantes como inflexões, correspondendo a cada inflexão a sua consoante, não succede assim.

Vejamos as inflexões contínuas de quantos modos se escrevem:

f... (fé  afflição  phoca) f  ff  ph
v... (vai) v
ç... (suisso  ceo  aço  maximo) s  ss  c  ç  x

z...

(aza  uso  existe) z  s  x
x... (eixo  chega  ais  faz) x  ch  s  z
j... (ja  geme  osga) j  g  s
rr... (rua  erro  rhetorica) r  rr  rh

Achareis, para representar as sete inflexões continuas, vinte e duas formas que, descontando repetições, se reduzem a dezeseis; mas, destas dezeseis, sete teem diversos valores, a saber:

s c seu
z uso
x triste
j tisna
x ch eixo
z existe
ç proximo
sexo
c ç ceo
k cai
... acto
g gelo
agua
ch x chefe
k chimica
z z zelo
x fiz
r era
raio

Ora destas formas de valor incerto nenhuma convinha para os primeiros exercicios. Das outras, uma tem valor certo e exclusivo, que é v: as mais não teem valor exclusivo mas teem valor certo, que são f, ff, ph, ç, ss, j, rr, rh; mas embora tenham valor certo, as compostas não seria bom methodo antecipar ás simples; ç é uma letra anomala; ff comprehende-se em f. Isto tudo supposto restam v f j.

Começámos pela mais perfeita, v, que maiuscula ou minuscula conserva a mesma forma, nunca se annulla dobrando-se debalde ou escrevendo-se por amor da etymologia, tem sempre o mesmo valor e só ella tem esse valor, presta-se com as vogaes a muitas combinações familiares, e representa uma inflexão gemida, isto é, duplamente apreciavel ao ouvido do principiante pela continuidade e pela intensidade.

Do v passámos ao f, pela analogia da pronuncia. Passamos agora ao j.

Os antigos punham o valor da letra no primeiro elemento do nome que lhe davam; razoavel systema de designações principalmente para as consoantes instantaneas, que mal se podem proferir em separado sem lhes exagerar o valor. Jota e xiz são os nomes que temos n'esse genero (preferiveis a éfe éle, etc. onde a inflexão vem encravada em duas vozes dum modo obscuro); mas taes nomes constituem excepção, e impõem a necessidade de fazer distincção entre o nome e o valor, o que o alumno embora perceba facilmente, não deixa por isso de se embaraçar na prática, porque lhe occorrem as duas cousas, nome e valor. Aquellas designações antigas fundadas numa base até certo ponto filosofica, eram nomes geralmente compostos, verdadeiros nomes, com toda a melodia da lingua, sem aquella simplicidade d'algumas denominações nossas como , ; por isso peores de conciliar com a soletração. Ao d, por exemplo, chamavam daleth, ao a aleph, ao l lamed. Em quantos annos chegaria o desgraçado alumno a soletrar (claro está, inconscientemente, de memoria, á força de repetições sem conto) daleth aleph lamed, dal?!

(daleth

aleph

lamed,

Somma... dal)

Em cinco e seis annos como ainda hoje a infancia israelita; com manifesto prejuizo da sua educação logica.

Mas seria mais irracional essa soletração que por exemplo a nossa cê á, ? Não! ao menos alli, dada a chave do enigma, descoberto o segredo, achavam-se as parcellas da somma, os elementos da syllaba á frente dos tres nomes das letras. Em cê á, , é impossivel perceber donde veio k, a inflexão guttural que soa na syllaba ká.

Todavia ensina-se assim a ler! Não ensinemos nós a ler assim. Chamemos ao jota j...

            j

fuja

veja

viaja     viajava

QUINTA LIÇÃO

A leitura, nestas palavras de vogaes e consoantes contínuas, é tão clara, funda-se em elementos tão distinctos, estão os seus passos por assim dizer tão bem marcados, a syllaba constitue sempre uma somma tão evidente, que o principiante, compenetrado da base do systema orthografico e talvez até exagerando a simplicidade da arte, deve-se a estas horas achar disposto a receber as outras consoantes, combinando-as com o mesmo conhecimento de causa.

A experiencia abona esta supposição. É notavel a facilidade e consciencia com que o alumno, em tão poucas lições, começa a ler as syllabas compostas de elementos confusos e quasi inseparaveis.

Mas que ordem havemos de seguir na combinação dos novos elementos? Assim como na lição passada buscámos as formas pelas inflexões, vejamos de quantas formas se escrevem as doze inflexões instantaneas da nossa lingua (que foi nossa intenção mnemonisar nas palavras bocado golilha maninho preto; bkd, gl lh, mn nh, pr t):

b (boa  abbade) b  bb
k (kilo  qual  chimica) k  q  ch  c
d (addido  adhesão) d  dd  dh
g (aggregado) g  gg
l (libello) l  ll
lh (ilha) lh

m

(meu m ~  ambos
m  meu
...  commenda)
m
n
(não n ~  anda
n  não
...  annel)
n
nh (unha) nh
p (appropriado) p  pp
r (ar) r
t (attonito  theoria) t  tt  th

Contando achareis, para representar as doze inflexões instantaneas da nossa lingua, vinte e duas formas (não escogitando muito, pois por exemplo, gu para representar g guttural bem se podia considerar uma nova forma). Destas formas já conheciamos por incertas c, ch, g, r; e conhecemos agora como taes m, n: ora primeiro se hão de apresentar as certas. As formas lh, nh, dh, th são compostas; e primeiro se hão de apresentar as simples. Tiradas incertas e compostas, restam certas mas dobres, isto é, que ás vezes se dobram inutilmente b, d, l, p, t; certas e simples, isto é, que nunca se dobram k, q.

Por aqui haviamos de começar, se com o q não se annullasse muitas vezes o u, o que é absurdo; e se tivessemos palavra usual onde apresentar o k sem dependencia de letra desconhecida; mas só temos kilo, onde entra l que, portanto, ha de vir antes.

Mas b, d, p é o mesmo caracter invertido; approximemol-as: d, t, são irmãs na pronuncia.

Disto resulta que podemos ter por boa ordem a seguinte: t, d, b, p, l, k, etc.

Vamos ao t. Explicai, se quizerdes, a sua pronuncia ou simplesmente lêde-o na syllaba: o alumno vos seguirá.

          t

tu     teu

tua     tia

ata     atava

fita     fatia

fatiota

SEXTA LIÇÃO

Quando agrupámos as inflexões contínuas de duas em duas (f...v..., c...z..., x...j...), quizemos indicar o parentesco de cada par; isto é, que a primeira se pronuncía como a segunda, na mesma disposição de orgãos, com a differença que na primeira ha só folego e na segunda ha essa meia voz a que chamámos gemido.

O j é um x mais forte, um x gemido, vozeado.

Mas ahi bem se explica a differença. Agora as inflexões t e d são mais do que parentas, são irmãs. Por isso do t passamos naturalmente ao d.

          d

dia

dó     doi

dá     deu     dada

dava     deva

vida     duda

ida     idiota

judia     judeu

ajuda

fiada     afiada

SETIMA LIÇÃO

O leitor havia de notar na lição passada a palavra duvída com accento. Nós temos aos signaes prosodicos uma especie de aversão, chegando os nossos mais esmerados escritores a não accentuarem muitas vezes até as palavras equívocas. Mas esse é o facto. Em theoria ninguem sustenta esse exagero. Donde se segue que podemos, e devemos, por exemplo, escrever sempre duvída ou dúvida, e nunca simplesmente duvida.

O principio de accentuar só as palavras equívocas é bambo. Tudo é equívoco para quem não sabe. Nada mais equívoco para um extrangeiro, que as tres primeiras vogaes de cama casa e cada, identicas na escrita, diversas na pronuncia (ã, á, â). Todavia nunca se accentuaram. Mas sendo essa a prática constante, não se devem dar a ler escritas doutro modo. Porém as palavras equívocas alguns accentuam-nas systematicamente, e muitos, embora sem especial cuidado, teem occasião de as differençar na escrita. Queremos dizer com isto que rejeitando e reprovando nas cartilhas uma accentuação artificial armada a facilitar a leitura, iremos empregando os devidos signaes nas palavras duvidosas, conforme a razão e os bons exemplos.

É inadmissivel a doutrina de escrever as palavras de maneira que, em separado, os mesmos portuguezes não saibam o que ellas são.

Mas, voltando ao nosso caminho, vamos ao b, que se profere despegando os labios, como p, m; e por isso chamam, a estas letras e inflexões, labiaes.

          b

boi

boa

aba     baba

beba

bata     batia

bateu     batida

bota     batata

abata     abatia

abatida

abafa     abafava

abafada

OITAVA LIÇÃO

Na lição passada figurava em boi e boa a letra o com um valor diverso do que se infere de seu nome. É tempo de admittir essa novidade.

Nós temos julgado inutil dizer que o criterio fundamental da nossa prosodia é—-ler como se diz: criterio sofistico, que não resiste á analyse mas que felizmente a criança na sua simplicidade admitte de boamente. A criança folga de rectificar uma leitura fundada no rigor dos dados, pelo que ouve e costuma dizer. Um certo instincto prático, um sentimento de utilidade a leva a achar muito bem fundado aquelle dictame futil. Bói não se diz; bói não é nada, gostosamente corrige e diz bôi.

E o caso é que emquanto outros, acostumados a syllabas vãs, naturalmente estropeiam as palavras mais logicamente escritas; o nosso alumno mettido naquelle caminho prático, e habituado a intender sempre o que lê, tende naturalmente a dar sentido e alma ás combinações da orthografia mais duvidosa, achando uma palavra corrente.

Nós reservamos lições especiaes para as grandes variações de valor nas vogaes; mas ó e ô não differem dum modo muito extranho.

Isto posto passemos ao p que é irmão de b no valor, e tambem se póde dizer que na figura.

          p

pai

pá     pó     pé

pua     pia     pipa

papa     papava

papada

peta     pata

patada

pita     pitada

topa

tapa     tapava

tapada

NONA LIÇÃO

Alguns chamam, ao e de saude, mudo. Antes o chamem que o façam, pois se o fazem não fallam portuguez. O u em guerra é mudo, e na maxima parte das palavras onde se escreve gue, gui, que, qui: e ainda n'outros casos como havemos de ver. Porem a vogal e representa sempre voz; e não ha vozes mudas. Deviam-lhe chamar e grave, que é já frase recebida, significando baixo, não agudo, que não soa alto, que não soa muito.

Isto supposto, as inflexões instantaneas por onde acabam palavras portuguezas são l, n, r: exemplo, tal, talisman, ter. Estas inflexões, parece que todas se proferem despegando a lingua do céo da bôca: porem, na sua qualidade de instantaneas não teem som proprio, e por isso, vindo no fim, se despegarmos a lingua durante a emissão da voz, em vez de ter, diremos tere; em vez de tal, tale, etc.: o que é vicioso.

Ora assim como saud' não é portuguez, tambem o não são taes palavras acabando em e grave, que a consoante não representa nem a inflexão póde comprehender.

A respeito do l, uma indicação podeis fazer muito clara e proficua, ao vosso alumno, e é que deixe a lingua pegada ao céo da bôca. Por um dos muitos mysterios da palavra, assim se profere elegantemente o l final, ou posterior á voz.

Não temos apresentado letras dobradas por falta de occasião; não, por systema. É um facto de observação que o principiante não se embaraça com isso, como ides ver.

                l

li     lia     leu     lua

luva     loja     luta

labuta     bitola

bola     bella

falla     fivella

lá     ólá     alli

vil     fel     fiel     tal

fatal     faval

paúl     papel

alva     alta

falta     volta

polpa     apalpa

apalpadella

DECIMA LIÇÃO

Estas notas são escritas ao correr da impressão; e, recebendo agora do Porto a primeira folha (que em Lisboa nem de graça, como chegámos a offerecer a um editor notavel, demais a mais poeta e prosador, conseguimos a publicação desta curiosidade) vemos nessa folha que na segunda lição, onde se trata da combinação do v com as vogaes, dissemos que vos podieis demorar na leitura de cada letra sem distincção, por serem todas igualmente prolongaveis. Assim é: mas esqueceu-nos advertir que haja cuidado em não separar a inflexão da voz; senão, basta a minima pausa para terdes de as ajuntar depois, o que vem a dar na mesma que soletrar. A advertencia era por ventura escusada.

No ensino individual, que é só onde temos experimentado este systema, com os resultados previstos (em lições manuscritas imitando letra redonda) costumamo-nos collocar a um canto da mesa, mais o alumno, elle dum lado á esquerda e nós do outro; pomos-lhe a lição diante convenientemente; e emquanto, nas primeiras quatro lições, percorremos com o ponteiro pela parte de cima as letras da palavra, imol-as simultaneamente pronunciando. Ora como do intervallo das letras naturalmente se abstrahe, nem esse intervallo é apreciavel na marcha do ponteiro, a palavra afigura-se aos olhos do principiante como uma pequena escala, cujas notas se vibram na sua ordem natural.

E o que é a leitura senão a pronúncia successiva dos elementos simples ou compostos, certos ou incertos da palavra escrita? Por isso é que a leitura é a verdadeira soletração; porque só na leitura se dá aos caracteres o seu justo valor.

Ha duas soletrações, a antiga e a moderna. A soletração antiga vai chamando as letras pelos seus nomes, para apresentar depois, não a somma desses nomes, mas a somma dos valores dessas letras. Esta soletração é absurda, e desmoralisa o raciocinio do principiante. Como quereis vós que uma alminha, ainda com aquella luz tão pura que traz de Deus, entenda que , agá, á, junto, sommado, é ?!

Isto será ensinar a ler, mas é ao mesmo tempo embrutecer. Ora mil vezes antes analfabeto que idiota.

Porem esta soletração, que aliás reina em Portugal e seus dominios, está condemnada. A outra, a soletração moderna que procede por valores, é incomparavelmente superior; mas ou é inexequivel ou escusada.

Modernamente, como se soletra chá? Deste modo: x', á, . Mas se o alumno sabe, pelo conhecimento das regras ou por intuição, o valor hypotetico de ch, lê igualmente ; e se não sabe, não pode soletrar á moderna. É claro.

Daqui resulta que a soletração é a leitura. Ensinemos as regras; e a pratica fará o resto.

Segue-se o k, pela ordem estabelecida; e como só o podemos apresentar em kilo, aproveitemos a occasião de exercitar o principiante no o final, ensinando-lhe que o o no fim vale u. Explicai-lhe o symbolo, se vos parecer: a curva ondeada indica as mais letras da palavra acabada em o, que faltam; as duas parallelas querem dizer vale.

  k

kilo

~~~o = u

vivo   viuvo

viajo   vejo

fujo   favo   fato

ato   bato   bafo

abafo   bafio

abalo   fallo

luto   lado   lido

pato   pavio

pulo   papalvo

baldo   baldio

bolo   lobo   lodo

ovo   tolo   tòldo

UNDECIMA LIÇÃO

Não tinhamos outra palavra conveniente senão kilo, onde apresentassemos o k, por ser esta consoante tão perfeita como rara.

Os gregos tinham uma inflexão irmã da que representa em portuguez o k, mas aspirada; e figuravam-na por certa letra bastante similhante ao k, e ainda mais similhante ao x.

Os romanos não tinham essa letra; e, como para elle c valia q, ajuntaram-lhe h para significar aspiração, e nas palavras gregas de origem, onde havia aquella inflexão guttural, escreviam ch com justificado motivo.

Mas isso, elles; nós só por imitação servil fazemos o mesmo; porque para nós nem o c vale q, e sim diversas inflexões; nem o h significa aspiração, que não ha em portuguez; nem ch tem valor definido. Quanto mais que em pontos de orthografia grega mais nos devia importar o grego que o latim; e se ha maneira de falsear aquella excellente orthografia é escrever dois caracteres representando um valor.

Donde resulta que em taes casos mais logica o etymologicamente se devera escrever k. Todavia, recebendo esta letra na adopção do systema metrico uma especie de cunho official, nem as graças do poder lhe valeram a benevolencia dos sabios: continúa em kilo (significando mil) a ter curso forçado; mas já em chylo (succo de alimentos digeridos) insistem os sabios a escrever ch, tendo a palavra igual origem e identica pronuncia.

É uma especie de antipathia, áquelle excellente caracter, que não se póde attribuir ás suas quatro pernas. A mesma França, que toda se empenha em disfarçar no apparato scientifico os absurdos da sua orthografia, expulsa o k de palavras a que elle pertencia par droit de naissance; reserva-o para os termos arabes; e nos proprios de origem grega escreve ch valendo, note-se, ora k ora x. Primores da coherencia etymologica!

Mas o alumno espera-nos. Ao k seguia-se o q segundo o nosso plano; mas já sabemos que esta consoante, embora certa, offerece circumstancias absurdas: servirá pois de introducção ás consoantes incertas; e vamos entretanto a outras regras sem excepção, em respeito a vogaes.

Ensinámos na lição passada que o final vale u. Ensinemos agora que ou vale ô.

Nas provincias do norte diz-se amôu, comprôu; mas em Coimbra, Lisboa e no mais Portugal não se profere tal ditongo. Escreve-se ou, mas o u é mudo, e o o soa como em avô.

Este é o facto e, por consequencia, a lei fundada, não diremos na melodia que é relativa, porem no uso mais autorisado e aliás mais vasto.

Com isto não queremos dizer que em tal ou tal logar, onde reine sem contradicção aquella variante, o professor se empenhe em arrancar aos seus discipulos talvez um hábito invencivel. A toada é singularmente ingrata a ouvidos estranhos e illegítima; porém não é essencial que os filhos do povo fallem classicamente; o essencial é fazel-os quebrar o circulo da animalidade e dar-lhes, por meio da leitura e da escrita, o horisonte infinito do homem. Em parte onde convier, exercitai-os no ditongo.

ou = ô

a

vou     aviou

viuvou     viajou

dou     atou     fiou

babou     piou

papou     apupou

tapou     pulou

fallou     alliviou

abafou     ouvi

ouvia     ouviu

ouvido     louva

louvo     louvou

poupa     poupo

poupou

DUODECIMA LIÇÃO

Já na lição passada nos referimos ao ditongo ou, usado nas provincias do norte, e que bem se póde ter por vicioso. Agora diremos que nas provincias do sul cerceiam o delicado ditongo ei, dizendo em logar de lêi lêito dêi dêitêi, simples e desengraçadamente lê lêto dê dêtê. Tambem é vulgar nestas provincias pai, primo; e não menos, jantí andí cantí, em vez de meu pai, teu primo, jantêi andêi cantêi.

Não imaginamos circumstancias que recommendem ao mestre contemplação alguma com essas crassas deturpações da lingua. Os mais rudes acceitam a emenda sem escandalo, e sem surpreza, lembrados duma ou outra pessoa culta que tem ouvido.

Mas voltando ao êi, objecto especial desta lição, bom é notar que esse ditongo nem sempre é expresso, mormente na orthografia antiga. Os antigos escreviam regularmente têa fêo cêa recêo: os modernos escrevem geralmente mais conforme a pronuncia. Seja como fôr, o estylo da lingua não admitte o ditongo êo êa; e em taes casos, esteja o i expresso ou não, ha de se ouvir o ditongo êi antes da voz final.

A razão popular, ainda mais que as academias, tende sempre a racionalisar a orthografia ajustando-a com a falla; e por isso, como já indicámos, hoje o mais ordinario é escrever-se feio receio teia aldeia. E ainda bem. Mas o que parece equívoco da parte dalguns autores é escreverem, por exemplo grangeiar receiar, porque em certas vozes (do presente do indicativo, imperativo e conjuntivo) de similhantes verbos soa êi. Sempre ouvimos dizer cêio e recêio; mas ainda não ouvimos dizer cêiêi e recêiêi. O i, que o estylo da lingua insinua naquellas vozes, é um accidente do verbo e não o mesmo verbo na sua forma primitiva. Se as alterações que soffrem as vogaes durante a conjugação dos verbos devessem figurar no infinito, não havia modo de os escrever. Escrever, por exemplo; segundo e, grave; escrevo, segundo e, agudo: velar, e, grave; velo, e, aberto; vele, e, agudo (o mesmo da primeira syllaba).

E sem fallarmos nos casos em que até as consoantes variam, como nos verbos acabados em gar e car, aqui se mostra que a lingua portugueza não guarda nos derivados a prosodia radical, por outra, que não é uma lingua etymologica, como era a latina: assim como não é uma lingua metrica, com syllabas longas e breves, como o latim; e assim como não é uma lingua declinavel, com sete, oito, nove, dez e mais formas do mesmo nome, pronome ou adjectivo, como havia no latim. Ora não sabemos que traços mais profundos de divergencia pode separar uma lingua de outra. Em que se fundam pois os argumentos de analogia com que o pedantismo nos tem sempre querido impor a orthografia latina? Bem fez a Hispanha que importando-lhe mais os seus grandes interesses, do que os embaraços do filologo em descobrir a origem e significação de Cristo escrito sem h, tem hoje a mais perfeita orthografia do mundo. E nisso se podem fundar boas esperanças da enorme civilisação que espera aquelle generoso povo, tantos seculos á espessa sombra da monarchia.

ei = êi

dê   lê

dei   lei   atei

papei   lavei

abalei   feita

feito   feitio

deito   deitou

deitei   babei

beija   beijo

beijou   beijei

dei-a   dei-o

veia   veio

feia   feio

leia   leio

peia   teia

DECIMA TERCEIRA LIÇÃO

Não tratamos aqui dos valores da letra e.

Tratamos das vozes similhantes que essa letra representa; que são quatro: e agudo, que se exprime no proprio nome dessa vogal, é; fechado, de que fallámos na lição antecedente, , dêi; aberto, que não tendo signal especial em portuguez, muitas vezes figura com o mesmo agudo, por exemplo, bello, pés: e ha um outro, de todos o menos parecido com o agudo ou nome da letra, chamado grave, do qual já tivemos occasião de fallar.

Este e, que mal podemos declarar por escrito, mas que o ouvido distingue perfeitamente, é frequentissimo no principio, no meio e no fim de palavras; mas tambem frequentemente mal proferido, e até supprimido, mormente no fim.

Pondo nisso especial cuidado; não deixeis o vosso discipulo dizer fal' em logar de falle, assim como lhe não deixeis dizer vile em logar de vil, papele em logar de papel, etc. Basta contar as syllabas, e não o deixar fazer, de duas, uma; e de uma, duas.

Ha numa linguagem viciosa não sabemos que mostras de má educação ou de rudeza. Devemo'-nos empenhar o mais possivel em aperfeiçoar o estylo dos nossos discipulos.

E voltando ao e aberto, que não tem signal especial, cumpre notar que se encontra nos classicos, muitas vezes, esse e com um accento opposto ao agudo, desta fórma: prègar, prègador (palavras que precisavam de especificação, pois ha tambem em portuguez, com e grave, pregar e o derivado pregador). Não o applicavam os autores, ou pelo menos os typografos, systematicamente; como faziam a todos os demais signaes; porem os modernos, em vez de o aproveitar convenientemente, aboliram-no. D'ahi resulta escrever-se e pés, e céo, com uma orthografia excellente para enganar quem lê.

Não se póde confundir o e de pes, plural de , com o de péz, cerol (ou de , que é o mesmo): tambem se não póde confundir com o de (nome vulgar da letra p); e muito menos com o e grave.

Temos portanto, não fallando no grave, tres especies de ee bem accentuados na pronuncia (pès, , ), que de facto se querem accentuar na escrita; mas, empregando-se nesse intento apenas dois signaes, por força algum e se havia de confundir com outro.

E assim succede. Quando o autor receia que leiam zelo (verbo), escreve zélo; e quando receia que leiam zelo (nome), escreve zélo: escreve sempre o mesmo. E como havia elle de escrever melhor? Escrevendo zêlo (nome) e zélo (verbo)? Errava em ambos os casos; no primeiro, onde não soa o e de ; e no segundo, onde não soa o e de . Tomando a responsabilidade daquella apparente innovação indo aos antigos buscar um signal desusado? É claramente o melhor recurso. Mas vamos ao nosso e grave, que é o que mais nos importa.

~~~e

ave     vive     tive

ate     ajude

tape     tope     pote

de     poude

bule     bole     bote

bate     bode     bofe

bife     folle     falle

lave     volte

falte     apalpe

pelle     pede

pedi     pediu

pellei     pellou

velei     velou

levou     dedal

DECIMA QUARTA LIÇÃO

Ao k segue-se a sua irmã na pronuncia e última das consoantes certas, o q: mas com esta já principiam as grandes inexactidões na escrita e os equivocos faceis na leitura.

Não se escreve q sem u; mas esse u, com e, i, quasi nunca se lê.

É a regra que podemos estabelecer. D'ella podemos tirar o seguinte dictame:

Visto qúé qúí valer quasi sempre qé qí, lendo-se d'este modo, quasi sempre se acerta.

Aconselhai o discipulo nesta conformidade; sem embargo de o deixardes ler uma ou outra palavra como está escrita, para ver que não faz differença essencial, e que embora leia ficuêi fícue, facilmente percebe o seu engano, e até se intende o que diz.

O alumno estranha com razão estas anomalias. Em satisfação á sua intelligencia bom é dizer-lhe (o que temos por certo) que antigamente lia-se sempre o u depois do q; com o tempo algumas palavras mudaram, continuando-se todavia a escrever do mesmo modo. Nem haja dúvida em accrescentar que, se a palavra mudou na pronuncia, devia mudar na escrita; e que uma vogal que se não lê não se devia escrever.

Se cada letra valesse um elemento da palavra fallada, nada mais facil que aprender a ler. A lingua portugueza reduz-se a trinta e seis elementos; para decifrar toda a nossa imprensa, bastaria fixar e distinguir trinta e seis caracteres. Quem não teria essa capacidade e paciencia?

Infelizmente, á parte os methodos, e a insufficiencia dos mestres que geralmente nas escolas são os mesmos discipulos, sobejam letras inuteis, letras dum valor commum, letras de valor múltiplo, combinações quasi fantasticas: e os proprios signaes, que haviam de marcar o tom da vogal, d'uns ha falta, d'outros sobra, e n'outros dúvida por desacôrdo nos autores, e quasi sempre no mesmo autor.

A este respeito diremos que em portuguez temos vogaes nasaes, agudas, fechadas, abertas e graves; ás quaes por sua ordem correspondem, e muitas vezes se applicam, os seguintes signaes:

nasal ou til (~) de ordinario supprido por m, n:
mão, mente, minto, monte, mundo;
agudo (´)
má, meu, mia, mó, amuo;
circumflexo (^)
amei, amei, ... amou, ...
aberto (`)
... mèta (baliza) ... ... ...

A este signal chamam os francezes grave; e á sua imitação muitos nossos, mas impropriamente, porque nunca se usou nas vogaes que nós chamamos graves similhante signal nem outro algum. Essas vogaes são, por exemplo, as últimas das seguintes palavras: