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Chronica d'El-Rei D. Affonso III cover

Chronica d'El-Rei D. Affonso III

Chapter 12: CAPITULO I
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About This Book

A royal chronicle by a contemporary court historian presents a chronological account of a king's reign, focusing on military campaigns to seize southern towns and castles, sieges and skirmishes, actions by religious military orders, and the consolidation of royal authority through territorial expansion and administrative decisions. Alongside battle narratives it records dynastic arrangements, local governance, and the author's reflections on sources and the challenges of reconstructing past events.

The Project Gutenberg eBook of Chronica d'El-Rei D. Affonso III

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Title: Chronica d'El-Rei D. Affonso III

Author: Rui de Pina

Release date: April 21, 2005 [eBook #15674]
Most recently updated: December 14, 2020

Language: Portuguese

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team. This eBook is based on images generously provided by the Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt)

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Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading

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BIBLIOTHECA

DE

*Classicos Portuguezes*

Proprietario e fundador

MELLO D'AZEVEDO

BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

Proprietario e fundador—MELLO D'AZEVEDO

(VOLUME LIV)

CHRONICA

D'EL-REI D. AFFONSO III
POR
RUY DE PINA

ESCRIPTORIO

147=RUA DOS RETROZEIROS=147
LISBOA

1907

CHRONICA

DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE
D. AFFONSO III
QUINTO REY DE PORTUGAL,
COMPOSTA
POR RUY DE PINA,

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.

FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,

Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

OFFERECIDA
A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY
D. JOAOO V.
NOSSO SENHOR.
POR MIGUEL LOPES FERREYRA

LISBOA OCCIDENTAL

Na Officina FERREYRIANA.

M.DCC.XXVIII.

Com todas as licenças necessarias.

SENHOR

Continuando com a edição das Chronicas dos Senhores Reis de Portugal, gloriosos Predecessores de V. Magestade, continuo tambem na precisa obrigação de as offerecer a V. Magestade. Nesta do Senhor Rei D. Affonso III verá V. Magestade os caminhos que buscou a Providencia Divina para que empunhasse o Scetro um Principe, que para ter menos esperanças do trono se achava cazado em França, e verá V. Magestade a felicidade, com que soube estabelecer nos seus descendentes a Monarchia, que acrescentou com Estados novos, e que soube segurar com a total expulsão dos Africanos. Sirva-se V. Magestade de amparar o meu zelo com a sua Real benignidade, para que animado com tão soberano favor possa dar á luz as Chronicas que faltam. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos muitos annos como dezejamos.

Miguel Lopes Ferreira

AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

*D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*

Quinto Conde da Ericeira, do conselho de Sua Magestade, Sargento mór de Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados, Perpetuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Ancião, oitavo Senhor da Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa Christina de Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de Frazão, S. Payo de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas na Ordem de Christo. Academico da Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores della.

Meu Senhor aonde não chega a confiança propria, é necessario buscar o amparo alheio. É tão elevada a Magestade, que nem ainda obsequioso me atrevo a chegar a ella: e por esta cauza procuro o patrocinio de V. Excellencia para que com a sua pessoa consiga o que por mim não posso. Espero que V. Excellencia se digne de me fazer esta mercê, porque a continuação dos seus estudos, e a grande livraria que tem junto a sua erudição, justamente me desculpa para lhe pedir a protecção para um livro, que como de Historia da Patria precede a todos na lição, e porque sendo offerecido a Sua Magestade pela mão de V. Excellencia terá a acceitação que dezejo. Deus guarde a V. Excellencia muitos annos.

Criado de V. Excellencia

Miguel Lopes Ferreira

*AMIGO LEITOR*

Não me podes accuzar de falto de palavra, pois vês que te dou agora a Chronica del-Rei D. Affonso III que foi o Quinto Rei desta Monarchia. De serem breves as narrações das suas vidas, e summamente compendiadas as noticias dos seus governos, não tenho eu a culpa, tem-na os Chronistas que, ou não quizeram, ou não souberam. Tudo podia ser, porque a falta em semelhante materia procede umas vezes de não haver quem informe, e outras de não escreverem, o que todos sabem. Donde nasce que deste principio experimentamos o dano, porque desprezaram escrever o que era sabido, e desta sorte padecemos uma involuntaria ignorancia. Cazou este Principe em França donde esteve, e assistiu alguns annos, e sendo impossivel que não fizesse naquelle tempo acções dignas da sua pessoa, ou na paz, ou na guerra, tudo ficou sepultado em um profundo silencio, de que são reos os que escreveram primeiro. Ainda depois de nomeado Governador de Portugal, e ainda depois de ser Rei não houve aquelle cuidado nas penas dos Chronistas, que merecia a sua politica, que não foi nesta grande arte inferior aos maiores. Lê, e espera que brevemente te busque com a Chronica de seu filho o famoso Rei D. Diniz.

Vale.

LICENÇAS

DO
SANTO OFFICIO

Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental o primeiro de Outubro de 1726.

Fr. Lancastre. Cunha. Teixeira. Silva. Cabedo.

DO ORDINARIO

Vista a informação, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 4 de Outubro de 1726.

D. J. A. L.

DO PAÇO

Approvação do Doutor Manuel de Azevedo Soares, Cavalleiro professo na Ordem de Christo, do Dezembargo de Sua Magestade, Desembargador da Casa da Supplicacão, Juiz dos Contos do Reino, e Caza, Academico da Academia Real da Historia Portugueza, &c.

SENHOR

Esta Chronica del-Rei D. Affonso III que pertende imprimir Miguel Lopes Ferreira assás recomendação tinha em o nome de seu Author para facilitar a licença que se pede: porque sendo Ruy de Pina Chronista de tão grande opinião, por ella só, ficavam approvadas as suas obras, sendo superfluos todos os encomios com que justamente se podiam encarecer.[1] Não falta com tudo quem affirme que nem todas as obras, que se divulgam por suas, o são. E se em alguma póde ter lugar a conjectura de que o não seja, é esta uma dellas ao que parece; porque sem passar do Capitulo terceiro, se encontra uma inverosimilidade, certamente muito alhea do entendimento de tão grande homem. Diz que sabendo a Condessa de Bolonha Mathilde, que seu marido era obedecido por Rei pacificamente, e não sabendo nada do seu cazamento, confiando, que se elle a visse, a trataria, e honraria como sua verdadeira mulher, aprestara Naos, e que bem acompanhada, e com um filho, que se disse ter do dito seu marido, se embarcara para este Reino, e chegando a Cascaes donde soubera logo, que elle estava em Friellas, e cazado com outra mulher, recebendo grande indignação, e tristesa, arrependida de ter vindo, especialmente depois de saber da condição da segunda mulher, tomando parecer, mandára dous Cavalleiros principais dos que trazia comsigo, para que participassem a El-Rei a sua vinda, e a sua queixa; e pela reposta, que trouxeram, se voltara para França, deixando o filho, segundo diziam uns, e que por certa lembrança achara, o havia levado comsigo, e que depois o mandara a este Reino, com outras mais circumstancias, que se referem no dito Capitulo. Não reparo em que faça menção de filho, e nem ainda que a Condeça tomasse a resolução de vir a este Reino sem premeditar as contingencias do successo, como se foi assim, lhe mostrou a experiencia, porque muitos Historiadores seguiram aquella tradição com circumstancias mais inverosimeis; cujo erro se acha novamente refutado com demonstrações, e authoridades evidentes, pelo eruditissimo Academico o P. D. Joseph Barbosa.[2] Reparo sómente em que se diga, que a Condeça não sabia nada do cazamento de seu marido, porque demais de se affirmar o contrario por muitos Historiadores, sendo aquelle cazamento tão escandaloso, e sendo a grandeza dos delinquentes, a que mais vulgariza os seus delictos,[3] como é crivel o ignorasse a Condeça; e mais por ser entre pessoas de tão alta jerarquia; com instrumentos de dote publicos, e havendo tão pouca distancia para a noticia, como de Portugal a França. Quando ainda os segredos dos Principes, mais reconditos, estão sugeitos á infidilidade dos mesmos a que se confiam,[4] se obrigava a um tal excesso, o seu affecto, sendo deste inseparavel a desconfiança,[5] como é verosimil, se lhe ocultase a sua offensa.[6] Disto sem duvida se origina o pouco credito, que tem muitas historias, porque devendo ser a verdade o seu essencial fundamento,[7] notando-se-lhes algum erro em parte regularmente perdem a fé de todo.[8] E ainda que pelo Historiador a que foram commettidas as memorias deste Monarcha na Real Academia, que V. Magestade instituio para que resuscitassem na memoria dos seculos futuros, aquelles heroes, que sendo na vida esclarecidos, os escureceu a morte, sepultando-os nas tenebrosas urnas de um ingrato esquecimento[9] se restituirá de todo á verdade aquelle successo, conforme a empresa da mesma Academia: com tudo sendo na opinião de Santo Augustinho util que se publiquem livros repetidos sobre a mesma materia, com diversidade de estylo,[10] ainda me parece se póde conceder a licença, que se pede, sendo V. Magestade servido, porque sempre ficará illesa a fama do Author da Historia, na opinião dos que o conhecem, distinguindo na obra o que póde ser parto do seu entendimento. Lisboa Occidental 20 de Julho de 1727.

Manoel de Azevedo Soares.

Que se possa imprimir visto as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e depois de impressa torne á mesa para se conferir, e taxar, e sem isso não correrá. Lisboa Occidental, 7 de Agosto de 1727.

Pereira. Oliveira. Teixeira.

[Nota de rodapé 1: Super vacanci laboris est laudare conspicuos. Symach.
I*. 3. Epistol. 48.]

[Nota de rodapé 2: Catalog. Chronolog. das Rainhas de Portugal á n. 241.]

[Nota de rodapé 3: Dum in imis est quispiam, ejus quodam modo vitia delitescunt; cum vero ad dignitatis culmen ascendit in superficiem mox erumpunt, et quæ fuerant catenus inaudita jam per ora rumigeruli populi trita vulgantur S. Petr. Damian. Epist. 20 ad Cadol. Qui magno imperio præditi, in excelso ætatem agunt, eorum facta cuncti mortales novere. Salust.]

[Nota de rodapé 4: Areana Regu ipsi predunt Satellites Gruterus.
Florileg. c. 2]

[Nota de rodapé 5: Vel alieni amoris æmulus, quod frequentissimum est in amore vitium. Guillielm. Castellus apud Textor. in Epithet.]

[Nota de rodapé 6: Ita Zelotipus in omnes ahorum gressus assiduo intentus totidem suspicionum umbras producit, quoties illos è loco moveri animadvertunt Picinel. mund. Symbol. 1. 16. n. 66.]

[Nota de rodapé 7: Non ostentationi, sed fidei, veritati que componitur Plinio Jun. 1. 6. Epist. 16. lux et evangelium veritatis Cassan. catal. glor. mund. p. 10. consid. 46.]

[Nota de rodapé 8: Et si per currantur horum historicora scripta, tacite reperiuntur multa falso ab eis conscripta, quot fit, ut falsus in uno, in cæteris fide perdant. Menoch. cos. 112. v. 71. Paris. consil. 23. n. 253.]

[Nota de rodapé 9: Historia reru que gestarum descriptio, tubæ clangor, quo jam olim mortui velut e sepulcro excitati, in mediu producuntur. Nicetas. Quia hoc quotidianu, et vulgare est, multi famosi in vita, et clari post obitu, sunt incogniti, et obscuri. Petraca de prosper. fortun. Dialog. 117.]

[Nota de rodapé 10: Utile esse plures libros a pluribus diverso stilo, de eisdem quæstionibus fieri, ut ad plurimos res ipsa perveniat ad alios quidem sic, ad alios vero sic. D. August. in quæstion. de Trinit. c. 3.]

Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. Affonso III quinto Rei de Portugal

CAPITULO I

Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como accrecentou os Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque

Por falecimento del-Rei Dom Sancho deste nome o segundo, a que disseram Capello, porque delle não ficou herdeiro do Reino legitimo descendente, que o succedesse, foi alevantado, e obedecido por Rei na Cidade de Lisboa o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, seu irmão, a que o Reino de Portugal por sucessão direitamente pertencia, em idade de trinta e oito annos na era de mil e duzentos e quarenta e sete, (1247) o qual era, filho legitimo del-Rei Dom Affonso o Segundo, irmão menor do dito Rei Dom Sancho, por cujos defeitos, e por não reger como devia elle veo de Bolonha a este Reino de Portugal, e o governou, e defendeo dous annos, não se chamando Rei, mas Procurador, e Defensor delle por mandado do Papa, como na Coronica del-Rei Dom Sancho claramente se disse, e depois que o dito Rei Dom Affonso Reinou durando os primeiros annos de seu Reinado, e antes de ter cazado a segunda vez com a Rainha Dona Breatiz, sua sobrinha, filha del-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de Castella, se intitulou sómente Rei de Portugal, e Conde de Bolonha, e trouxe seu Escudo com as sós Quinas sem a Orla, e bordadura dos Castellos, assi como os outros Reis de Portugal até este tempo trouxeram, segundo eu Coronista o vi nos sellos pendentes de algumas suas Cartas, que naquelle tempo passaram, e as achei na Torre do Tombo destes Reinos, de que por o officio sou Guarda-mór.

Porque depois que com a dita Rainha Dona Breatriz lhe foram dadas as Villas, e Castellos do Reino do Algarve, elle foi o que primeiro se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e poz na orla do dito Escudo, e Quinas os Castellos dourados em campo vermelho, que logo elle, e depois os outros Reis de Portugal que delle decenderam sempre atégora trouxeram, e esto afirmo assi por declaração da duvida, que por muitos sobre os ditos Castellos já ouvi mover, a saber, se são Castellos por esta rezão, que disse, ou pelos de Riba de Coa, que a este Reino creceram, ou se eram com folões, ou bandeiras, que se dizem as Armas do Condado de Bolonha, e assi disputar sobre o numero dos ditos Castellos, a que digo, e afirmo que não podem ser Castellos pelos de Riba de Coa, porque El-Rei Dom Diniz filho del-Rei Dom Affonso os ganhou, e houve depois que Reinou, como em sua Coronica se dirá, nem menos pareçam, que sejam por respeito das Armas de Bolonha, que por seu cazamento, posto que em sua vida as trouxesse, ellas não ficavam, nem podiam ficar depois de sua morte á Coroa Real do Reino de Portugal, quanto mais que a honestidade, e rezão contrariavam elle trazer em Portugal as Armas de Bolonha, por memoria da Condeça sua molher de que contra direito, e em desprezo della se apartou, e nunca depois a quiz ver, por onde é mui certo que sómente são pelos ditos Castellos do Reino do Algarve como disse.

Os quais Castellos, posto que na primeira doação del-Rei de Castella ficam del-Rei Dom Affonso, seu genro a seus filhos, estão por numero certo, e assinados, nem por isso obrigam serem trazidos nas Armas por aquelle numero certo, porque naquelle tempo El-Rei de Castella lhe deu os mais que ganhasse, como ganhou sem os declarar, assi que estes Castellos são postos na Orla, não por numero certo, mas o que nella em boa proporção bem podesse caber, e porém El-Rei Dom Affonso logo como Reinou, e assi depois que a segunda vez cazou foi bom Rei, verdadeiro, e prudente, e de coração mui esforçado, e muito amigo da Justiça, por a qual a muitos mal feitores, que foram prezentes, e em seus crimes comprehendidos, deu suas devidas penas, com medo das quaes outros se foram da terra, e regeo bem o Reino com devida, e inteira equidade, e proveo o povo em inteira Justiça, e sua real Caza, e Fazenda com singular regra, e louvada ordenança, e fez muitas boas, e novas povoações em muitas partes do Reino, que eram despovoradas, e mandou lavrar, e aproveitar os termos de muitas Villas, e Castellos para repairo, e culto da terra, que dos tempos passados estava mui denificada, e quaes foram as obras dinas de memoria que fez além dos feitos grandes darmas de sua conquista do Algarve, no fim desta sua Coronica em soma particular estão declaradas.

CAPITULO II

Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em França a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella

Este Rei Dom Affonso sendo casado com Dona Matildes Condessa de Bolonha em França, elle a leixou no dito Condado, e se veo a Portugal, como na Coronica del-Rei Dom Sancho seu irmão é declarado, e depois de sua vinda a poucos annos casou outra vez com a Rainha Dona Breatiz, filha bastarda del-Rei de Castella, a qual elle houve em Dona Mayor Guilhelme de Gosmão, sua manceba, a que foi muito afeiçoado, e a que fez mui firmes, e grandes doações de muitas Villas, Castellos, e rendas de Lugares no Reino de Castella, para depois de sua morte ficarem á dita Rainha D. Breatiz sua filha, e a seus filhos herdeiros para sempre, porque, segundo parece pelas palavras do testamento que o dito Rei Dom Affonso fez, elle antre todolos filhos, e filhas que teve, a esta Rainha Dona Breatiz, sua filha mostrou elle querer mór bem, e a que mais se devia por serviço e beneficios, e soccorros que della em suas tribulações mais que doutro algum tinha recebidos, e a que mais desejou galardoar, e dar muito do seu se pudera, o qual casamento del-Rei, e da Rainha Dona Breatiz, quando se concertou, e se fez foi assás maravilha dos homens que o sabiam, assi pela grandeza do dote delle, não sendo a Rainha filha legitima, como principalmente por casar em tempo, que a Condessa, sua primeira molher ainda era viva, e sobre este passo se acha por lembrança que um privado del-Rei Dom Affonso havendo este casamento por estranho, e muito contrairo a sua conciencia lhe disse que não fizera bem em casar com a rainha Dona Breatiz, pois sabia que era cazado com a Condessa de Bolonha, com quem já se muito contentára, e honrára de cazar, e que El-Rei lhe respondera, que se não espantasse do que tinha feito; porque ao outro dia ainda cazaria com outra molher, se com ella lhe dessem outra tanta terra, porque mais acrescentasse em Portugal.

CAPITULO III

Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu marido a não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez

E passados alguns annos depois que El-Rei Dom Affonso partiu de Bolonha a Condessa sua molher, soube lá o falecimento del-Rei Dom Sancho, e assi como o Conde seu marido pacificamente era alevantado, e obedecido por Rei de Portugal, e não sabendo nada do cazamento del-Rei, e confiando que elle se a visse a trataria, e honraria como a verdadeira sua molher, que era, fez-se logo prestes, e em Naos bem aparelhadas, e de Cavalleiros, e nobre gente, e doutras gentes bem acompanhada, e com um seu filho, que se diz que tinha de seu marido, partio de sua terra, e veo ancorar ante a Villa de Cascais, cinco legoas de Lisboa, onde perguntando ella, e os seus por El-Rei onde era? Foi logo certificada que El-Rei estava em Frielas, duas legoas de Lisboa, cazado já com outra molher, com as quaes novas a Condessa recebeo muita torvação, e grande tristeza, e pezou-lhe muito de sua vinda, e assi aos de sua companhia, especialmente depois que soube o estado, e condição da segunda molher, que era filha del-Rei de Castella.

E tendo concelho ácerca do que neste caso faria, acordaram, que antes de tudo era bem que fossem a El-Rei dous seus Cavalleiros principaes, que vinham com ella e delle eram bem conhecidos e a que por seus serviços, que nas guerras de França lhe tinham feitos, e por outros merecimentos, queria grande bem, e que estes lhe fizessem saber da vinda da Condessa, e assi o nojo, e espanto que por seu cazamento tinha com rezão recebido, e soubessem delle finalmente a detreminação de sua vontade. Estes Cavalleiros em chegando a El-Rei foram logo delle por seu conhecimento mui bem recebidos, mas depois que lhe propuzeram a Embaxada da Condessa com a graveza, e estranhamentos, que ella mandou, e disseram o mortal sentimento, e deshonra em que estava, e lhe pedia que por comprir sua bondade, e conciencia a recebesse no Reino, e tratasse por sua molher como merecia.

El-Rei avendo-se delles por escandalizado, por ouzarem de lhe trazer em tal tempo tal mensagem com o rostro irado lhes disse, que de não perderem as vidas com suas cabeças cortadas os relevava naquella ora o grande bem que lhes queria, e os muitos serviços que lhe tinham feitos, e que porém não fizessem ante elle mais detença, antes que logo se tornassem á Condessa, e lhe dissessem que não saisse em seu Reino, mas que delle logo sem nenhuma delonga se partisse, e se tornasse para sua terra donde viera, que se o assi não fizesse elle teria com ella tal maneira de que lhe muito pezaria.

Com esta reposta chea de tanta aspereza, e fóra de toda a humanidade, os Cavalleiros se tornaram para a Condessa, a qual maravilhada, e atemorizada da sem rezão, e indignação del-Rei, e das mais cousas, que elles em seu cazo mais passaram, e lhe contáram; mandou fazer prestes suas naos, e embarcou nellas, e se tornou para Bolonha, e o tempo que a Condessa veo a Cascais se diz, que ella trazia um filho seu, e del-Rei Dom Affonso, como já disse, cujo nome, vida, nem feitos não achei declaradamente escritos, porque uns dizem, que quando a Condessa se partio de Cascais, que o leixou em terra, para que o levassem a seu pai, dizendo que não quizesse Deos, que com ella tornasse cousa del-Rei, e por outra certa lembrança achei, que ella tornou a levar seu filho comsigo, e que depois o mandou a Portugal, onde El-Rei o mandou bem criar, e que saio muito bom Cavalleiro, e mui amado del-Rei, e dos Nobres do Reino, e que foi cazado com uma filha do Ifante Dom Pedro de Castella, que era a mais fermosa molher Despanha; mas qual era este Ifante Dom Pedro, e sua filha, e os nomes delles, e em que tempo cazaram, e que terra tiveram, e o que se delles fez depois eu o não soube.

A Condessa como chegou á sua terra manifestou logo sua querella a seus parentes, que eram Nobres, e grandes homens no Reino de França, por cujo concelho, e ajuda, ella se enviou logo querelar ao Papa, que então era em França, noteficando-lhe largamente todo o que com seu marido passára no Reino de Portugal, pedindo a Sua Santidade que com suas Excommunhões, e Cençuras mandasse apartar El-Rei Dom Affonso seu marido, da Rainha Dona Breatiz, que como Christãos, não podiam cazar, como cazaram; e mandasse que recebesse a ella para ter a honra, dinidade, e terras que de direito, como sua verdadeira molher lhe pertencia. E o Papa maravilhado da novidade por seu Breve o enviou muito estranhar a El-Rei Dom Affonso, e lhe rogou, e amoestou com palavras catholicas, e mui honestas, que logo se apartasse do segundo cazamento, e quizesse estar pelo primeiro, conforme a justiça, e petição da Condessa, e porque El-Rei não satisfez com efeito aos mandados Apostolicos, o Papa enviou sua comissão ao Arcebispo de San-Tiago, porque lhe mandou que outra vez requeresse, e amoestasse El-Rei Dom Affonso ácerca de seu apartamento, e quando logo o não fizesse, que o citasse, e emprazasse, que a quatro mezes parecesse em pessoa perante elle em sua Côrte, para ser ouvido com a Condessa, e estar a todo comprimento de Justiça, e o Arcebispo fez inteiramente todo o que neste cazo o Papa lhe mandou, mas El-Rei não foi á citação em pessoa, mas cresse que mandaria seu Procurador por elle sobre este negocio. Foi na Corte do Papa ordenado processo, e foi por elle tanto procedido que em favor da Condessa, e contra El-Rei foi dada sentença do apartamento seu, e da Rainha Dona Breatiz, e porque não obedeceram a ella, foi pelo Papa posto antredito em todo o Reino que durou muitos annos, acabados os quaes andando a era em mil e duzentos sessenta e dous (1262), a Condessa de Bolonha Dona Matildes faleceo em França, por morte, que em Portugal foi logo sabida.

CAPITULO IV

Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com El-Rei Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhos que della houvesse

Logo todos os Prelados, e Nobres homens, e povo do Reino enviaram sopricar ao Papa, e pedir-lhe que pois a dita Condessa era falecida mandasse alevantar o antredito que no Reino por muitos annos era posto, e quizesse dispenssar sobre o cazamento del-Rei com a Rainha Dona Breatiz, porque ambos como marido, e molher podessem licitamente viver, e ficassem lidimos os filhos, que já tinham havidos, e os que dahi por diante ouvessem, para com sua despensação poderem direitamente soceder no Reino de Portugal, depois da morte del-Rei seu padre, e assi quizesse revogar todalas doações que El-Rei Dom Sancho Capelo em fraude, e detrimento da Coroa de Portugal em suas necessidades tinha feitas ao Ifante Dom Affonso de Molina, e a outras quaesquer pessoas, por quam sem cauza, e contra direito eram, a que o Papa em todo logo satisfez, sobre que mandou passar suas Provisões Apostolicas, que vieram a este Reino, e estão em guarda na Torre do Tombo, sómente se acha que pela legitimação do Ifante Dom Diniz filho primeiro, e erdeiro, porque nacera em vida da Condessa de Bolonha, El-Rei Dom Affonso seu pai deu em especial, muita parte de seu thesouro.

El-Rei Dom Affonso houve da Rainha Dona Breatiz sua molher estes filhos, a saber o Ifante Dom Diniz, que foi depois seu herdeiro, e sucessor, e nasceo em Lisboa dia de São Diniz, a nove dias de Outubro de mil duzentos sessenta e um annos (1261), e por a devação deste Santo, em cujo dia nasceu, elle mandou depois fazer o seu Moesteiro de São Diniz de Odivellas, onde se mandou sepultar, como em sua Coronica direi mais inteiramente. E ouve mais o Ifante Dom Affonso, que foi Principe mui honrado, e de grande estima, e teve neste Reino boas Villas, e Castellos, e terras, e foi cazado com Dona Violante, filha do Ifante Dom Manoel de Castella, e da Ifante Dona Costança Daragão, de que houve um filho barão, e tres filhas, que foram grandemente cazadas em Castella, de que na Coronica del-Rei Dom Diniz farei mais larga declaração; e assim houve mais El-Rei Dom Affonso da Rainha Dona Breatiz a Ifante Dona Branca, que sendo mui moça, foi recebida por Senhora do Moesteiro de Lorvão, assi como o fora a Rainha Dona Thareja, sua tia que nelle jaz, e o reformou, como já tenho dito, e depois do falecimento del-Rei Dom Affonso seu pai, ella foi recebida por Senhora das Olgas de Burgos, onde sem cazar faleceo, e ahi jás sepultada; e della porém se acha que um Cavalleiro dito o Carpiteiro houve um filho, que houve nome Dom João Nunes do Prado; e este foi Cavalleiro da Ordem de Calatrava, e depois foi Mestre della, quando Dom Garcia Lopes, que era Mestre, foi por seus desmerecimentos privado de Mestre.

E com tudo esta Ifante Dona Branca foi Princeza de mui louvadas virtudes, e teve em Castella boa terra, e neste Reino boa fazenda, porque ella foi senhora de Montemór-o-Velho, por doação del-Rei seu pai, que em seu testamento lhe leixou mais dez mil livras, que são quatro mil cruzados, e assi foi senhora de Campo Maior, que El-Rei Dom Diniz seu irmão lhe deu em sua vida, e El-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de Castella, seu avô tambem lhe leixou em seu testamento muito dinheiro, e alguns dizem que ella jás em Lorvão, mas eu vi Cartas e Provisões, que ella nos derradeiros dias de sua vida passou para Portugal, feitas dentro no Moesteiro das Olgas de Burgos, onde tambem recolheo algumas filhas do Ifante Dom Affonso de Portugal seu irmão. E assi houve mais El-Rei Dom Affonso a Ifante Dona Costança sua filha, a qual a Rainha Dona Breatiz sua madre levou comsigo a Sevilha, quando foi ver El-Rei Dom Affonso seu pai, e lá faleceo, e foi trazida a Alcobaça, onde jás sepultada. E houve mais um filho bastardo, que houve nome Dom Fernando, que foi Cavalleiro da Ordem do Templo, e jás sepultado em S. Bras de Lisboa.

CAPITULO V

Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este casamento

Pelo cazamento del-Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Breatiz muitas Villas, e terras do Reino de Castella creceram, e se ajuntaram a este Reino de Portugal, e destas as que são na Comarca de Riba Dodiana, a saber Moura, Serpa, Mourão, Noudar, Olivença, Campo Maior, e Ouguela, direi na Coronica del-Rei Dom Diniz, porque em seu tempo elle por concordias, e por escambos as houve, e depois atégora sempre pacificamente, e sem contradição foram, e são pussuidas por a Coroa de Portugal, mas porque é claro, e mui notorio que por bem do dito cazamento, ainda creceram mais ao Reino de Portugal, o Reino do Algarve; de que este Rei Dom Affonso nova, e primeiramente se intitulou, e por cujo respeito em ladeo a borla dos Castellos ás Quinas de Portugal, como atraz já toquei, para dizer os principios que teve, para boa declaração dos que esto virem farei meu fundamento um pouco mais alto, que será verdadeiro, e breve, como se segue.

El-Rei Dom Fernando de Castella deste nome o segundo, depois de ter pacificos os Reinos de Castello, e de Lião, que nelle a segunda vez se ajuntaram, ganhou dos Mouros a Cidade de Cordova, na era de mil e duzentos e trinta e cinco annos, (1235) na qual tomada foi com El-Rei Dom Fernando Dom Payo Correa, natural de Portugal, Mestre da Ordem Daviz, que é a de San-Tiago em Castella, por mui principal e de grande Caza, e mui esforçado guerreiro contra os imigos da Fé, e porque El-Rei Dom Fernando desejou muito de cobrar a Cidade de Sevilha, e assi a terra Dandaluzia, que toda era de Mouros, tornando-se para Castella leixou por Fronteiro contra ella Dom Payo Correa em São Lucar Dalbayda, e um Dom Rodrigo Alveres das Asturias, em Alcalá da Guardara, donde com muitas gentes que tinham, e com a guerra aturada, que faziam, poseram a Cidade de Sevilha em tanta estreiteza que o Rei della lhe deu gram soma de ouro, por tregoa de um anno, qua os ditos Freires lhe outorgaram, dentro do qual os Mouros com fundamento de se proverem por muitos annos, semearam todo o pão, e sementes que tinham de que esperavam haver novidades, com as quaes recolhidas lhes pareceo que se segurariam, e manteriam por vinte annos, ainda que nelles fossem guerreados, e cercados, o qual os ditos Fronteiros notificaram logo a El-Rei Dom Fernando, e o avizaram, que para ter esperança de cobrar em breve a Cidade antecipasse logo a guerra contra os Mouros, ou a colheita das ditas novidades para si mesmo, o qual logo El-Rei satisfez, e com grande poder, que ajuntou por mar, e por terra, veo cercar a Cidade, e depois de estar dezaseis mezes sobre ella, com cerco bem afrontado a tomou, ca se deu por partido, com segurança das vidas, e fazendas em dia de São Clemente, vinte e dous dias de Novembro, na era de mil duzentos quarenta e oito annos, (1248) treze annos depois da tomada de Cordova; e o dito Rei Dom Fernando, por mais segurança da terra, não sahio mais de Sevilha, e ahi faleceo no anno de mil duzentos e cincoenta e dous, tres annos e meio depois da tomada de Sevilha, e ahi jás sepultado.[1]

E foi logo alevantado, e obedecido por Rei de Castella, e de Lião, El-Rei Dom Affonso seu filho, sogro deste Rei Dom Affonso Conde de Bolonha; e o meio tempo que houve antre a tomada de Cordova, e Sevilha, e em que o Mestre Dom Payo Correa, era Fronteiro em Andaluzia contra os Mouros, elle guerreando e correndo as terras dos imigos, que eram a sua frontaria conjuntos, entrou pela Lusitania junto do campo Dourique, que dentro era da conquista de Portugal, Reinando ainda Dom Sancho Capello, e por força de armas o dito Mestre tomou em desvairados tempos as Villas de Aljustrel, e de Mertola, que eram de Mouros, as quaes a requerimento do dito Rei Dom Sancho, e por mandado del-Rei Dom Fernando de Castella, seu primo com Irmão, foram entregues ao dito Rei Dom Sancho por pertencerem a Portugal, o qual por sua devação, e pelas almas de seu pae e de sua mãi segundo diz em sua doação, e assi por comprir ao dito Mestre Dom Payo Correa, que era seu servidor, as deu logo á Ordem de San Tiago, cujas hoje são.

[Nota de rodapé 1: Está beatificado por Santo.]

CAPITULO VI

Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de conquistar o Algarve, que era dos Mouros

Depois que o Mestre Dom Payo tomou estes logares da conquista de Portugal, até se ganhar o Algarve, passaram dous tempos em que reinaram dous reis de Castella, a saber o dito Rei D. Fernando, em cujo tempo o dito Mestre tomou primeiramente Tavilla, e Silves e alguns outros Lugares do Algarve, e apoz elle Reinou o sobredito Rei Dom Affonso seu filho, que reinando em Castella depois de fazer sua doação para sempre a El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha seu genro, e a Dom Diniz, seu filho se ganharam todolos outros Lugares do Algarve, em que tambem foi o dito Mestre como Vassallo, e Compadre, que era do dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, e foi por esta maneira. Quando o Mestre Dom Payo Correa ganhou dos Mouros Aljustrel, como é dito, se acha, que estando ainda no dito Lugar, elle como bom Cavalleiro, e catholico guerreiro, desejando conquitar esta parte do Algarve, que confinava com Portugal, que toda era de Mouros, para saber se o poderia fazer, e como o faria, teve concelho com seus Cavalleiros, em que não achou conforme acordo, assi porque alguns contrariavam a empreza, e passagem da terra do Algarve, como porque era mui povorada, e os Mouros della tinham pelo mar seu grande soccorro e ajuda Dafrica.

Mas o Mestre, cujo coração era já favorecido da vontade de Deos, prepoz entender na conquista, e não a leixar, e para esso falou apartado com Garcia Rodrigues, Mercador, que de contino tratava neste Algarve com os Christãos, e com os Mouros suas mercadorias, e secretamente lhe disse que seu desejo era com a ajuda de Deos, e por seu serviço cobrar dos Mouros esta terra do Algarve se podesse, para que então havia singular disposição pelo desvairo, e discordia em que sabia que estavam os Reis, e Senhores, que os senhoreavam, mas que o não commettia porque não sabia, nem tinha quem soubesse as entradas, e caminhos da terra, e por tanto lhe rogava pois elle esto tudo sabia que lhe dicesse seu parecer verdadeiro, como delle por Christão, e bom homem confiava. E Garcia Rodrigues, em que havia bom espirito, lhe deu para esso tão bom concelho, e tanto esforço, e tal aviamento, que o Mestre apartou logo alguns seus corredores por maneira dalmogavaria, para que fossem adiante, os quaes partiram Daljustrel, e passaram á terra pela Torre Dourique, e andaram de noite mui attentadamente por os Mouros não aventarem delles alguns sentimentos; e o primeiro Lugar a que chegaram foi á Torre Descoubar, que por estar despercebida, e sem algum receo de Christãos prouve a Deos, que sem muita força, nem perigo foi logo tomada, donde enviaram logo recado ao Mestre, o qual não com menos alegria, que pressa fez prestes seus Cavalleiros, que nas armas trazia assás costumados, e bem ensinados, com que logo partio, e com suas guias que levava, chegou á dita Torre, que era tomada, e dahi sem muita detença cobrou mais o Lugar Dalvor, que é antre Silves e Lagos, e destes Lugares ambos depois de serem de Christãos se fazia grande guerra aos Mouros, que estavam em Silves, e nos outros Lugares comarcãos.

Sentindo-se os Mouros do Algarve mui perseguidos, e assás denificados do Mestre, elles sobre consultação, que antre si fizeram, lhe commetteram, que selle quizesse lhe dariam o Lugar de Cacella junto com Tavilla por os Lugares Destombar, e Alvor, que tinha tomados, e a conciração, que os Mouros tiveram foi dos Lugares tomados, por serem no meo do Reino, e mais juntos do Cabo de São Vicente, onde a terra era então mais povorada se podia fazer, e fazia mais dano, que de Cacella, que era mais no fim da terra, e principalmente junto com Tavilla, que por ser Lugar forte, e de grande povoração os Mouros, e visinhos, e moradores delle poderiam mais facilmente lançar os Christãos, do qual partido, e escambo prouve muito ao Mestre, que logo entregou aos Mouros os Lugares tomados, e cobrou para si Cacella, que era Lugar forte, e bom, onde se fez logo prestes, e sahio com suas gentes para ir cercar, e tomar Paderne.

E como quer que até li os Mouros eram antre si em grandes desconcertos, como atraz se disse, porém á necessidade, e perigo em que a ida do Mestre os poz, os fez logo amigos, e concordes para com iguaes corações defenderem suas pessoas e terras, pelo qual sabendo os Mouros de Farão e Tavilla, e assi os dos outros Lugares de redor, como o Mestre era fóra de Cacella, para correr, e guerrear sua terra, avisaram tambem os de Loulé para que todos no dia seguinte tivessem ao Mestre o passo, e pelejassem com elle, os quaes ao outro dia sobre este acordo se ajuntaram, e partindo foram dormir contra a serra a um logar que dizem o desbarato, e deste ajuntamento, e acordo não sendo sabedor o Mestre passou de noite mui secretamente por Loulé sem ser sentido, seguindo seu caminho direito, que vem para Tavilla, porque as suas escutas que iam de diante sentiram os Mouros naquelle lugar onde jaziam, o Mestre não quiz mais abalar, e ali de noite se deteve, e ao outro dia, como foi manhã o Mestre com sua singular, e costumada destreza de guerra ordenou suas gentes em batalhas, e guiados de sua bandeira, que levavam tendida não andaram muitos passos que logo não houveram vista dos Mouros, que jaziam em um valle escuro, os quaes vendo a pouca gente dos Christãos em comparação da muita sua que tinham, foram mui alegres, ca tiveram grande esperança de haverem victoria.

E o Mestre sem mais detença rijamente deu nelles, em que logo achou grande esforço, e mui perigosa resistencia, pelo qual antre todos se travou mui crua e bem ferida batalha, em que a victoria por grande espaço esteve em balança, mas em fim não podendo os Mouros já soffrer aos Christãos nem ás mortes, e feridas, que de suas mãos recebiam, volveram-lhe as costas, e com desacordada fogida, cada um procurou de salvar sua vida. Nesta batalha foram dos Mouros muitos mortos, e feridos, e os que escaparam acolheram-se a um Lugar, que chamam o Furadoiro, que vem donde foi esta peleja caminho da fonte que ora dizem do Bispo, e porém os Christãos por a qualidade da fronta não ficaram sem sua parte de dano, mas este não acho escrito quanto seria, sómente que o Mestre e os seus pelo grande trabalho, e muito cançasso da batalha não seguiram o alcanço dos Mouros, e se recolheram.

CAPITULO VII

Do acordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram com elle batalha em que foram vencidos

Os Mouros de toda a terra, por este destroço, e desbarato, que houveram mostraram muito nojo, e grande tristeza, em especial os de Tavilla, porque tinham imigos tão fortes junto comsigo, os quaes naquella ora juntos em seu concelho diceram: «Estes christãos não temem, antes nos menos prezam, e não é sem rezão, porque ou por nossa muita fraqueza, ou por nossa grande dezaventura sempre somos delles vencidos, mas agora porque elles eram seguros, e despercebidos pela victoria, que hontem de nós houveram, cuidam já que não ha em nós esforço, nem acordo para nossa vingança, ajuntemo-nos outra vez, e sem medo os vamos commetter e sem duvida nós os desbarataremos, e com sua perda os lançaremos da terra, que é nossa».

E no outro dia o Mestre, que destas consultas, e ardis, não foi nem podia ser avisado, partio do lugar, onde fora a batalha para Cacella, e vindo por seu caminho direito, que dizem o Almargem, junto do qual os Mouros estavam prestes com seu ardil de os saltearem, e o Mestre já não trazia toda sua gente, que salvou da peleja, porque alguma leixara no monte, em que agora é Crasto Marim, para dahi recolherem alguns seus, que passavam pela ribeira, e porém em chegando ao logar do Salto, onde os Mouros os esperavam, elles sahiram a elle tão de supito, e o commetteram com tantas gritas, e forças, que o poseram em muita torvação, e perigo, pela qual conveo ao Mestre e aos seus por força se recolherem a um monte alto, que é junto de Tavilla, a que depois chamaram a Cabeça do Mestre, donde pela fortaleza do lugar se defendiam dos Mouros milhor, e os ofendiam com mais sua aventagem.

Mas comtudo elles não afrouxavam os Christãos, antes por todalas maneiras de fazer mal os combatiam, trabalhando com todas forças por lhes cobrar o monte, que os salvava, e com tanta fortalesa afrontavam o Mestre, que se não sobreviera a noite que os apartou elle, e os seus se despunham, e estavam em mortal perigo, e os Mouros apartados do combate lançaram-se ao pé do monte alongados da vista dos Christãos, logo com determinação de ao outro dia tornarem á peleja, mas elles neste primeiro proposito não perseveraram, porque praticando antre si sobre as gentes que ao Mestre logo viriam em seu socorro, e o perigo, que nesso corriam alevantaram-se, e foram-se tristes para os logares donde partiram, o que assi fizeram sem vista nem sabedoria do Mestre, o qual na noite passada já tinha avisada sua gente, que leixara em Cacella para que e viessem socorrer, como logo vieram com fundamento de dar batalha aos Mouros se o esperassem, quando soube que eram partidos alegre, e a seu salvo se foi para Cacella.

CAPITULO VIII

Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que fundamento cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete Cavalleiros Martyres, e o Mestre tomou Tavilla

Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das outras Villas seus comarcãos, vendo-se perseguidos, e mal tratados do Mestre, por seus meos que antre si tiveram concordaram, que por quanto a este tempo estavam já cerca do mez de Junho em que haviam de recolher seus pães, e dahi a pouco se achegava o outro de seu alacil para secarem e aproveitarem suas passas, e fruitas, era bem de procurarem poer com o Mestre tregoas até o São Miguel de Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam inteiramente de recolher suas novidades, e dahi por diante teriam milhor disposição para lhe fazer a guerra, e o lançar fóra da terra. Da qual tregoa que pelos Mouros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, e lha deu, de que fizeram suas certidões com fundamento, que não sómente neste tempo daria descanço aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados, mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, que para o dezejado fim de sua empreza lhe eram neccessarias.

E sendo por bem desta tregua os Christãos, e os Mouros de uma parte, e da outra seguros, D. Pedro Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que era na companhia do Mestre dice aos outros Cavalleiros, que por seu desenfadamento, pois estavam em tregoa fossem com suas aves á caça ao lugar das Antas, que era terreno de Tavilla, e está dahi tres legoas. Ao que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrairo, dizendo-lhe que escusassem em tal tempo sua ida, porque os Mouros, por suas condições, não eram menos ciosos da terra que das molheres, e por esto com qualquer paixão destas sendo homens sem fé, e sem verdade lhe poderiam fazer dano, que custaria depois mui caro. A que o Commendador-mór tornou dizendo, que pois estavam com os Mouros em treguas delles tão desejadas e requeridas, que não havia rezão para elles se recearem, quanto mais que elles para segurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra.

Com esta confiança o Commendador, e cinco outros Cavalleiros com elle a cavallo se partiram de Cacella, e trazendo o caminho direito de Tavilla, passaram pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da praça da Villa, e chegaram ás Antas, lugar da caça, que é uma legoa da Villa a cerca da ribeira, onde começaram de caçar, e haver prazer sem alguma maginação nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, porque os Mouros de Tavilla quando daquella maneira viram passar os Christãos, havendo que era em seu manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, porque sua vista lhes fizera viva lembrança das mortes, e males, que delles já muitas vezes tinham recebidos, e diceram antre si: «Certamente os homens, que somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo quanto estes Christãos com soberba nos fazem são mais que mortos, e não tem siso, vergonha nem coração, assi passam por aqui os Christãos nossos imigos tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores da nossa Villa».

Sobre as quaes palavras de murmuração se ajuntaram muitos com grande honra, e determinaram ir logo como foram com grande ira, e com passos mui apressados sobre os Christãos, os quaes andano á caça, quando viram tantos Mouros, ca a grande sua pressa, e alvoroço com que iam, em cazo que ainda fosse de longe logo presumiram a má, e indinada tenção, com que vinham, pelo qual leixadas as aves, e seu officio ocioso se ajuntaram, e diceram: «Claro é que estes Mouros vem sobre nós, e o principal remedio é o de Deos, que por sua piedade nos queira esforçar, e soccorrer, e apoz este concelho seja que nos percebamos, e esperemos como Cavalleiros qualquer afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que pois somos Christãos, que não sómente nos defenderemos, mas que com sua ajuda os venceremos, e quando a ventura for tão contraira que não possamos salvar as vidas, ao menos vínguemol-as primeiro com mortes destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu serviço».

Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro com grande trigança pedindo lhe que os soccorresse, e com aquella pressa, e deligencia que em tão breve tempo foi possivel, e para elles em tanto se defenderem e pelejarem, fizeram um palanque de paos de figueiras velhas a que se recolheram, onde os mouros com muita furia os vieram logo commetter, em que acharam muito esforço, e grande resistencia, e não tão leves como elles cuidavam, e estando os Christãos nesta afronta acertou-se, que Gracia Rodrigues, o Mercador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda do Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavilla com suas cargas de mercadorias segundo costumava, quando vio o desassosego, e ajuntamento dos Mouros seguio o fio delles para saber o que era, e quando vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos estavam, volveu rijamente onde deixara suas cargas, e dice aos seus servidores: «I vos e leixai essas arrecovas, e tomai essas mercadorias que partireis antre vós, ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se morrer esso me basta, pois é em serviço de Deus».

E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao palanque, e dentro delle se ajuntou com os Christãos, e que ajudou e esforçou quanto a um bom homem era possivel, onde por grande espaço se defenderam, e pelejaram, dando e recebendo muitas feridas, e assi eram afrontados, e por tantas partes combatidos, que um não podia dar fé do que o ouro fazia, e em fim por as forças dos Christãos serem já de grande trabalho vencidos, o seu palanque foi roto, e entrado, e elles todos sete por desfalecimento da virtude corporal cortados de mortaes feridas acabaram as vidas como Cavalleiros, e bons Christãos, o que não foi sem publica vingança de suas mortes, de que os corpos dos Mouros sem almas déram alli verdadeiro testemunho.

Durando a peleja dos Christãos chegou seu recado ao Mestre que era em Cacella, donde com grande trigança logo partio com desejo de os soccorrer, porque bem sabia que os Cavalleiros eram taes, que sem medo, nem outro seu desfalecimento, ou haviam de viver, ou morrer, e seguiu o caminho porque elles vieram, e sem contradição, nem defeza dalguma pessoa entrou pela Villa, e praça della, e tão intento, e acezo ia no dezejo que levava de soccorrer aos Chrystãos, que passando por ella não lhe lembrou, que dessa vez livremente, e sem perigo a podia tomar se quizera, e quando chegou ás Antas, onde achou, e vio todolos seus Cavalleiros mortos, anojado e mui iroso por tão feio feito houve com os Mouros, que ainda topou mui crua peleja, onde matou tantos, que os ossos delles foram depois por longos tempos ali vistos em grande soma, e aos outros, que fogiram, foi seguindo o alcance fazendo nelles grande estrago até á Villa, cujas portas os Mouros acháram fechadas, porque os visinhos, e gentes que em ella ficaram, quando viram passar o Mestre ao soccorro dos Cavalleiros a que ia, bem entenderam qual seria sua determinação como soubesse parte do cazo.

E por esso cerraram bem suas portas, que não quizeram abrir aos seus que vinham fogindo, e sómente lhe abriram um postigo pequeno, e escuro, que está contra a mouraria, sobre que deu o Mestre e os ferio tão rijo, e com tanta braveza, que não tendo elles acordo para se defenderem, nem de cerrar a porta entrou por ella o Mestre de volta com elles, e cobrou a Villa, e apoderou-se della dentro da qual, e fóra della o Mestre, e os seus fizeram nos Mouros grande estrago. E era neste tempo senhor de Tavilla Abenfalula, Mouro que não se sabe se morreo nestas pelejas, se ficou no lugar, como outros alguns ficaram. E esta batalha, e os Cavalleiros mortos, e a Villa tomada foi tudo a nove dias de Junho de mil e duzentos e quarenta e dous (1242). E o Mestre como de todo foi apoderado da Villa, e a leixou com boa segurança, com alguma gente darmas tornou ás Antas onde os Cavalleiros mortos jaziam, e chorando por elles muitas lagrimas, e dando grandes gemidos e tristes sospiros os mandou apartar dantre os corpos dos Mouros que elles mataram, e cheos todos de muito sangue das grandes feridas de que morreram, os fez levar á Villa, e na mesquita, que o Mestre fez consagrar em Egreja da Envocação de Nossa Senhora mandou logo fazer um grande Moimento de pedra, em que se pintaram sete Escudos, todos com as vieiras de San-Tiago, e nelles os seis Cavalleiros, e Gracia Rodrigues com elles foram todos sete sepultados, e seus nomes são estes, Pedro Rodrigues Commendador mór, Mem do Vale, Durão Vaz, Alvaro Gracia, Estevam Vaz, Beltram de Caya, e o Mercador Gracia Rodrigues, cujos corpos foram depois havidos em grande reverencia, e devação, e piedosamente não era sem cauza, porque como Martyres espargeram seu sangue, e como fieis Catholicos perderam as vidas pela Fé de Jesu Christo N. Senhor.

CAPITULO IX

Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque partidos a leixou dos Mouros

O Mestre Dom Payo Correa por tomar Tavilla dos Mouros, como é dito, por ella ser Cabeça, e a principal cousa do Algarve, foi mui alegre, e deu por esso muitas graças a N. Senhor, e porque sentio que elle com sua graça, e ajuda nesta sua empreza sempre o favorecia, não quiz estar por longo tempo ocioso, mas fez prestes suas gentes, e depois de leixar Tavilla em boa guarda, e segurança, sahio della, e foi sobre Selir, e o tomou por força, e assi Alvor outra vez, dahi foi logo cercar Paderne, que era Castello mui forte, e tinha boa Comarca, que é antre Albofeira, e a Serra, e estando em cerco sobre elle apartou de si algumas gentes, que mandou ao termo de Silves, onde tomaram outra vez a Torre Destombar, que já fora sua, e Abenafaam, que era Rei daquella terra estava em Silves, quando soube que os Christãos tomaram Estombar, crendo que seria hi o Mestre, ajuntou tambem as mais gentes que pode, e sahio com proposito de vir sobre elle, e dar-lhe batalha. Da qual cousa sendo o Mestre logo avizado alevantou o cerco de sobre Paderne, e por caminho desviado se veio lançar sobre Silves, e o Rei Mouro indo para Estombar, como soube que na terra não havia outras gentes, salva as que tomaram, e defendiam, receando-o ser acommettido dalgum ardil do Mestre, fez logo volta com grande trigança sobre Silves, onde o Mestre lhe tinha feita cilada, que sabendo de certo recolhimento que o Rei Mouro havia de fazer lhe tomou todalas portas da Cidade, em cada uma das quaes pôs gentes assás que as guardasse, e El-Rei Abenafaam, quando ao recolher achou embargo, e resistencia em todalas portas, commetteo de por força entrar pela porta, que dizem Dazoya, que lhe pareceo mais despejada, que todalas outras, onde se encontrou com o Mestre, que de fóra tinha a guarda della.

E em um campo junto da Villa em que está a Egreja de Santa Maria das Martes houveram ambos mui travada, e ferida peleja, em que o Mestre pola pouca gente que comsigo tinha se vio em grande pressa, porque os Mouros eram muitos, e mui juntos, e feriram-no mui rijamente, e punham todas suas forças por cobrar a entrada da porta, que o Mestre defendia, e procuravam os Mouros de se meter debaixo da Torre Dazoia que é saída em arcos para fóra, por tal que os Mouros de cima os defendessem, mas não o poderam fazer, e porque os Mouros de dentro quando viram o Rei Mouro á porta, e com grande avantagem de gente sobre o Mestre, sahiram alguns cuidando de o meter, e salvar por ella, e ao recolher, que quizeram fazer, foram dos Christãos tão apertados, que de volta se meteram com elles dentro na Cidade, e não sem crua peleja, e grande perda de homens de uma parte, e da outra, que ali ficaram mortos.

E segundo se diz, mais Christãos morreram nesta entrada, que em outro Lugar do Algarve que se tomasse, e El-Rei Mouro vendo que a Cidade era já por aquella porta entrada, andou correndo a cavallo em torno della experimentando todolos lugares convenientes para sair, e quando não achou remedio quiz-se lançar por um postigo da treição do alcacer, que era seu apozentamento, onde morava, e porque o achou empedido commetteo outra porta em que tambem achou contradição, pelo qual já como desesperado da honra, e da vida ferio apressadamente seu cavalo das esporas, e fogio, e passando por um pego do rio afogou-se nelle, onde depois o acharam morto, e deste cazo accidental chamam áquelle Lugar o pego de Benefaam. Os Mouros que na Cidade ficaram vivos, se acolheram ao alcacer, e mostravam suas forças para o defender, mas o Mestre não o quiz combater, antes lhes deu segurança, que vivessem na Villa se quizessem, e aproveitassem suas Cidades, e com obediencia, e tributos lhe conhecessem aquelle Senhorio, que conheceram a El-Rei Mouro, e elles Mouros assi o concordaram, e foram do partido contentes, e esta maneira se diz que o Mestre sempre teve nos Lugares do Algarve, que tomou, cujos alcaceres não combateo, e deu segurança aos Mouros porque as Villas fossem milhor aproveitadas, e senão despovorassem, e não tardou muito que nesta cidade foi fundada Sé, e Egreja Catedral, e Bispo della a que foi dada toda a jurdição Ecclesiastica daquelle Reino.

CAPITULO X

Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado

Tanto que o Mestre pôs em Silves suas gentes, que a guardassem, e defendessem, e a proveo das outras cousas que a ella eram necessarias, se partio, e tornou a poer o cerco que alevantara de sobre Paderne, e porque logo os Mouros se não quizeram dar a bom partido que lhe cometiam, elle os combateo, e por força tomou a Villa e o alcacere sem os receber a concordia, nem algum partido de piedade, antes por dous bons Cavalleiros que lhe ali mataram da Ordem, mandou que todolos Mouros da Villa andassem, como andaram á espada, e a gente desta Villa de Paderne, cujos grandes edeficios ainda parecem, alguns dizem, por sua má disposição se mudou depois á Villa de Albofeira, que o Mestre Daviz depois tomou como adiante vai, e atraz deixei apontado.

Como a Conquista do Algarve que primeiramente fez D. Payo Correa Mestre de San-Tiago de Castella, por nação e linhagem Portuguez, foram em dous tempos, a saber, em tempo del-Rei D. Fernando de Castella, e depois em tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, e agora declaro que os Lugares, que até qui se ganharam pelo dito Mestre foram em tempo del-Rei Dom Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevilha, porque claramente consta, que este Mestre de San-Tiago era com El-Rei ao tomar della, e para tal feito foi havido, e estimado por mui principal, e para feitos darmas mui asinado, e estes Lugares do Algarve estiveram da mão do Mestre á obediencia del-Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, que como Reinou teve grande afeição ao dito Mestre, e lhe deu de si muita parte, e o mandou tornar ao Algarve, para nelle estar por segurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles havia muitos dos Mouros. E neste tempo era já cazado este Rei Dom Affonso Conde de Bolonha com a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso de Castella, e a maneira porque depois seu marido, e ella houveram este Reino do Algarve é a seguinte.

El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi cazado com a filha del-Rei de Castella, sabendo que o Mestre de San-Tiago tinha ganhado dos Mouros as ditas Villas, e Lugares do Reino do Algarve, que eram da conquista, e Senhorio de Castella, e estavam pela parte do Campo Dourique mui conjuntos ao Reino de Portugal, e vendo que contra os Mouros Despanha já não tinham livre alguma propria conquista dezejando acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e assi por ter em que servir a Deos em semelhante guerra piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e sendo ambos em um dezejo e tenção conformes, ella por seu prazer, e por concelho de seu marido, foi logo a El-Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava em Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e alegria, porque como aigumas vezes já dice sempre por palavras, e obras, elle mostrou que lhe tinha muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e havendo depois tempo, e lugar para o cazo conveniente, a Rainha com as palavras, e rezões que seu dezejo e necessidade lhe aprezentaram, dice a seu pai a cauza principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, em nome del-Rei seu marido, e seu, que désse a elles, e a seus netos, que cada dia creciam a Conquista do Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o Mestre de San-Tiago eram já nelle tomados, e porque o Reino de Portugal, que tinham, era para elles muito pequeno, e a este tempo o Ifante Dom Diniz, que a poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus filhos já eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de riba de Coa, ainda não eram de Portugal; porque depois se houveram, como nesta Coronica, e na del-Rei Dom Diniz ao diante se dirá.

Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom Affonso, que por Reaes condições que muitos lhe entrepetraram a vaidades, e desordenada cobiça de gloria foi o mais nobre Rei de Castella, e querendo em todo satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo passar sua Carta patente, e selada de seu selo de chumbo, por a qual fez solenne, e firme doação ao dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, seu genro, e ao Ifante D. Diniz seu filho, e a todolos filhos, e filhas que delles decendessem para sempre do Reino do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos Lugares delles ganhados, e por ganhar, com tal condição que o sobredito Rei de Portugal, e seus filhos, fossem obrigados a dar de ajuda ao dito Rei Dom Affonso de Castella em sua vida sómente cincoenta Cavalleiros, quando lhos requeressem, contra todolos Reis Despanha, e além desta doação El-Rei de Castella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom Payo Correa, e para outros grandes Cavalleiros, que com elle andavam no Algarve, porque lhe notificou esta doação, que tinha feita, e lhes mandou que a comprissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com a vista, e conversação da Rainha sua filha pola grande afeição que a ella tinha não lhe deu lugar que logo se tornasse a Portugal como ella quizera, pelo qual elle mandou as sobreditas Provisões a El-Rei Dom Affonso seu marido, que como as recebeo alegre com tamanha, e tão honrada, e tão dezejada doação, notificou tudo ao Mestre Dom Payo Correa, a que desso prouve muito, porque tinham antre si muito conhecimento, e grande amizade.

E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei de Portugal, e do Algarve, e ao Escudo dos cinco Escudos de Portugal, que seu bisavô El-Rei Dom Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por titolo, e posse deste Reino em adeo Orla, e borladura dos Castellos douro em campo vermelho, como depois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, e trazem, segundo atraz brevemente dice.

CAPITULO XI

Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o Algarve, tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D. Payo Correa

E por El-Rei Dom Affonso não estar ouciozo de fazer alguma parte verdadeira a tenção com que pedira esta terra, mandou com grande diligencia preceber a gente de seu Reino, com a qual junta, e para logo ir ao Algarve, elle a gram pressa se foi a Beja, e da hi a Almodovar do Campo Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi levou seu caminho direito para a Villa de Farão, que era do Senhorio de Miramolim, que era Rei de Marrocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór, que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, outro Mouro principal dito Abombarram, aos quaes para sua segurança não faleciam dentro grandes percebimentos de muita gente, armas, e mantimentos, e mais no alcacer da Villa tinham uma fusta, que por um arco, que era feito no muro a lançavam ao mar quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu Rei, quando delle, e de suas ajudas tinham alguma necessidade, e por esta cauza, e porque a Villa era mui forte os Mouros della estavam muito esforçados, e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom Payo Correa, que por prazer del-Rei de Castella era já Vassallo del-Rei Dom Affonso de Portugal, sabendo de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, e o Mestre lhe fez sua devida reverencia, e acatamento, e El-Rei a elle muita honra, com sinaes de grande amor, porque eram Compadres, e dali com suas gentes concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, sobre que pozeram fortes estancias, e repartiram seus ordenados combates por esta maneira, a saber, o primeiro combate tomou El-Rei para si no alcacer, e um lanço do muro da Villa até a porta, que agora dizem dos Freires, e o segundo combate do Mestre de San-Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos Freires com outro lanço do muro até a porta da Villa, e ca um rico homem, e bom Cavalleiro, que havia nome Pedro Estaço, mandou El-Rei dar outro lanço do muro até uma terra que depois chamaram de João de Buim, e a este mesmo João de Buim, que era pessoa de grande estima, foi dado outro lanço desta sua terra até o alcacer, onde era o primeiro combate del-Rei.

E além destes Capitães aqui nomeados, eram com El-Rei outros Cavalleiros, e pessoas mui principaes do Reino de Portugal, a saber, Dom Fernão Lopes, Prior do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom João Davinhão, e Mem Soares, e João Soares, e Egas Coelho, e outros, e por estes lugares, e lanços mandou El-Rei combater a Villa, ca tão aturadamente o fizeram, que de dia, e de noite nunca os combates, e afrontas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, e repouzo, e porque perdessem a grande esperança, e ajuda, e socorro, que tinham no mar, El-Rei lha tirou; porque mandou sua frota de Navios grossos estar no mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atraveçassem outros Navios fortes, e bem armados, e forrados de couros da banda do mar, por tal, que se por cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairas, e entrassem no Rio, que ellas com fogo, ou com outros engenhos não denificassem os Navios dos Christãos, e desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar onde tinham o ponto principal de sua salvação e socorro era de todo impedido, e atalhado, e assi não podendo já sofrer os aficados, e perigosos combates que com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, e que posto que bem, e esforçadamente se defendessem, como faziam, não tinham emfim esperança de se salvarem, ouveram por bem commetter partido, a El-Rei para que sahiram de dentro os sobreditos Alcaides, e Alxarife, que na Villa eram dos Mouros as maiores cabiceiras.

E andando elles nestre trato sem amostrarem aos do Arraial, que era acabado, El-Rei foi falando com elles até o alcacer, onde por concerto já antre elles praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no dito Castello com os que elle quiz, que seriam até dez Cavalleiros, e como El-Rei entrou, porque assi era corcordado, logo o alcacer foi livre de todolos Mouros que nelle estavam, e se recolheram para a Villa, e por mais segurança, o alcacer foi logo buscado e despejado por aquelles Cavalleiros del-Rei, de maneira, que dentro delle não ficaram dos Mouros salvo os sobreditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cumprir aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato com mais assecego não deu desta parte ao Mestre de San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que tinham os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo que era dentro no alcacer, não sendo certos de sua vida, e segurança, antes vendo, que contra sua vontade, e por seu mal o retinham, foram por esso anojados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvoroço com que (posposto todo o perigo) determinaram os Christãos combater a Villa, que sem embargo da resistencia, e setas, e pedras dos Mouros, que o contrariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, e as gentes do Mestre trouxeram logo muita lenha, e outros materiaes ás portas da Villa para com o fogo as queimaram, e entrarem por ellas, e por este dezavizo, de que não sabia a verdade morreram nestes cometimentos, que poderam ser escuzados muitos Mouros, e mais Christãos.

El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do arraial, e soube a causa delles, logo com grande trigança se sobio em uma torre, e dando-se a conhecer alçou o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves do alcacer, que já tinham a seu serviço, e com esso mandou o Mestre, e a todolos outros Capitães, que logo cessassem de seus combates, e porque já era em concerto com os Mouros, e assi o Alcaide Mouro Abembarram sahio do alcacer, e dice aos Mouros da Villa, que fossem seguros, e não fizessem algum mal aos de fóra, e com esto ficaram todos assossegados, e El-Rei mandou lançar pregões pelo raial que algum Christão não fizesse nojo aos Mouros, posto que antre os Christãos andassem, nem entrassem pelas portas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o Mestre, e outros Capitães, porque estes entrariam com aquelles, que quizessem, e que os outros Christãos estivessem sobre as portas dos combates, e estancias, que lhe foram ordenadas.

E o concerto que El-Rei fez com os Mouros foi, que elles Mouros da Villa lhe fizessem, dessem e pagassem juntamente aquelle mesmo foro, e serviço, e todalas outras cousas, que faziam, e pagavam ao seu Rei Amiramolim, e que com elles ficassem todas suas cazas, vinhas, e Cidades assi como dantes as tinham, e que El-Rei os amparasse, e deffendesse assi de Mouros como de quaesquer outras gentes, e nações, que lhe mal, e nojos quizessem fazer, e que aquelles que para alguns Lugares de Mouros se quizessem ir, que livremente com todas suas cousas o podessem fazer, e andassem com El-Rei quando lhe comprisse, e que lhe fizesse por esso bem, e mercê. E por esta maneira cobrou El-Rei a Villa de Farão no mez de Janeiro de mil duzentos e setenta (1270).