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Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

Chapter 13: CAPITULO IV
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About This Book

The chronicle assembles older documents, oral traditions and learned revisions into a narrative that mixes verified events and legend about the kingdom's early struggles to assert autonomy. It recounts campaigns against neighboring rulers and Muslim forces, sieges and fortress-taking, and highlights celebrated traditions and moral episodes such as the loyalty of Egas Moniz, the knight whose grave yielded a palm, the preservation of Saint Vincent's relics, and a detailed marriage description. The author frames these materials as both historical record and refined narrative language.

The Project Gutenberg eBook of Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

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Title: Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

Author: Duarte Galvão

Release date: March 20, 2006 [eBook #18026]

Language: Portuguese

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO HENRIQUES ***

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed

Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador—Mello d'Azevedo

(VOLUME LI)

Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

POR
DUARTE GALVÃO

ESCRIPTORIO

147—Rua dos Retrozeiros—147

LISBOA

1906

Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador

Mello d'Azevedo

Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador—Mello d'Azevedo

(VOLUME LI)

Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

POR
DUARTE GALVÃO

ESCRIPTORIO

147—Rua dos Retrozeiros—147

LISBOA

1906

PROLOGO

A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affonso Henriques, do fundador de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradições; agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram convenções sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de fabulas. As brigas com a mãi, a violencia feroz com o legado de Roma offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras.

Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas baseadas em factos. As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e porfiadas com os sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar o reino e garantir-lhe a independencia são factos averiguados.

A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente, guardado pelo corvo, são lendas ou tradições antigas acreditadas já na funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por antiquissimos escriptos. A descripção do casamento de D. Mafalda, filha de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto mui antigo que o chronista soube approveitar.

É interessante attender á maneira como os historiadores trataram do fundador do reino; Duarte Galvão no começo do seculo XVI; Antonio Brandão no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos de trabalho vão crescendo, e o entendimento humano apura-se; vê-se mais e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. Não devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma summidade no seu tempo. Antonio Brandão foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de attenção.

Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no
dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de
Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag.
CXXVII).

==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517 «carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins.

El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade. E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano, seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460, ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis, seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de mór importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui sufficiente, conforme o reputa Rui de Pina.

Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus he elle qualificado por Damião de Goes. Raro em sciencia e valor o denomina João Pinto Ribeiro; homem douto, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se modernamente:

Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC. XXVI.==fol.

«Nesta Chronica, que Duarte Galvão diz, que fez de novo (são palavras de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção, como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel, assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de emendar escritos alhêos, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão sómente lhe apurára a lingoagem antiga em que estava escrita

«E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim:

«Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques, que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava, como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes, Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita Chronica==.

Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias desta Chronica. A marcada B—12—8 tem no final a data 1568. Bello exemplar é a B—4—2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca a B—4—4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas notas e explicações do texto.

Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos.

Antes d'isto a publicação da Monarquia Lusitana, pòde suppôr-se, tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão.

Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto (1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes.

Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte
Galvão

A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela 1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726.

«O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana, «se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma copia fiel Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos».

A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da asserção de que a copia fiel gozou da luz publica.

No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo seguinte:—«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor, senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada.

Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu Duarte Galvão.»

Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente e delicado. São suas palavras:

«Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas como vejo riscado nella alguns capitulos, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr. Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»…

A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada.

Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da Monarchia Portugueza.

Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle dedicado um capitulo inteiro ao texto e á refutação das fabulas da Chronica velha[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original.

Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o—1824). Ahi encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez».

Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza nos metteria para a qual não temos forças.

Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de D. Affonso Henriques—seu casamento com D. Fernando Peres de Trava, Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem já era casada) a usurpou,[2]—suas desavenças com seu filho e guerras que contra elle suscitou,—a jornada que por causa do exito de uma destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;—a prisão a que D. Affonso Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com o Papa:—todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado, como fortemente combatido.

Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D. Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa—1825), assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto d'um dos nossos antigos Chronistas.

Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada, nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a verdade de toda a narrativa de Galvão.

Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão d'infamias á propria irmã dessa mesma princêza, com quem igualava em nobreza!

Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D. Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para certificar-se do que era verdade.

Sobre o Bispo negro não deixa de parecer especiosa a explicação que offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:—

«Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a mal tramada Fabula do Bispo Negro. Este foi D. Bernardo, Francez de Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma D. Tello) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge nunca depôz o habito dos Negros como então chamavão aos que professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um Bispo Negro, para não dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo».

Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285.

Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura.

A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os Codices que se guardavão na Torra do Tombo.

A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia daquelles tempos.

Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de
D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas
Manuscriptas. A maior parte são compilações.

Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==.

Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura.

G. Pereira.

CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL,

COMPOSTA POR DUARTE GALVAÕ,

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu
Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

OFFERECIDA
Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOAÕ V. NOSSO SENHOR
POR MIGUEL LOPES FERREYRA

LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA.

M. DCC. XXVI.

Com todas as licenças necessarias.

SENHOR

Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe offereço a Chronica do Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo Duarte Galvão, tão estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D. Manoel quinto Avô de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior admiração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que desta sórte animado possa continuar com a impressão das outras Chronicas dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V. Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister.

Miguel Lopes Ferreira.

AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

*FERNÃO TELLES DA SILVA*

Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vêdor de sua fazenda, Embaixador extraordinario á Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico, e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.

Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso Henriques a El-Rei Nosso Senhor, não podia ter duvida em que fosse Vossa Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos em que elles respondiam, justamente dezejo a protecção de Vossa Excellencia para um Oraculo tão Soberano, que o merece ser de todo o mundo. A proporção é o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não póde Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe peço, offereça este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois é para este fim um meio tão proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como desejo.

Criado de Vossa Excellencia

Miguel Lopes Ferreira

MIGUEL LOPES FERREIRA

AO LEITOR

Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural, cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras, que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem, elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis, e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão rara como desejada.

Vale.

PROLOGO

DO AUTHOR

Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal, seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande louvor destos mesmos Reis de Portugal.

Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida, nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem parecer adulação o que digo.

Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros, em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas, terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio, poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes, grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes, outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos, para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e proseguimentos de seus maravilhosos effectos.

Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar, e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram, pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar, que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se, assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama, e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu, e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo, que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo fazer, me não pude, nem soube negar.

LICENÇAS

DO SANTO OFFICIO

Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726.

Rocha.—Fr. R. de Allencastre.—Cunha.—Teixeira.—Silva.—Cabedo.

DO ORDINARIO

Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da mesma Ordem nestes Reinos, &c.

Illustrissimo e Reverendissimo Senhor

Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira, dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros, capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim, em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos, com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha, porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar, e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos, porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes, uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal, realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine».

Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade, um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de 1726.

Fr. José de Sousa.

Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.

D. F. Arcebispo de Lacedemonia.

DO PAÇO

Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c.

SENHOR

Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N. Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726.

D. Jose Barbosa C.R.

Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726.

Pereira.—Galvão.—Teixeira.—Bonicho.

Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal

CAPITULO I

Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por Condado com certas condições.

Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal, fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D. Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França, e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por El-Rei D. Affonso recebidos.

Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias, por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador, donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira, cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D. Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa, dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe aprouvesse, como de cousa sua propria.

CAPITULO II

Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e donde se chamou Portugal.

Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos, e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha; porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D. Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi, que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D. Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi, era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja, por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal, pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em tanto gráo illustrados.

CAPITULO III

Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo.

Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso Senhor de mil noventa e quatro.

Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego; porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D. Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria, de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança, com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos amor, e cuidado como se fora são.

E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos, lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz, e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos da Fé».

Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre, como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda aleijão, como se nunca tivera nada della.

Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando, e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade, que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei ser seu nacimento como disse.

CAPITULO IV

Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu filho ante que falecesse.

Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez, (1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem, conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.

«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego, porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça, nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma braçada.

«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo, e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante, ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita honra prosperada».

CAPITULO V

Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi Dona Tareja.

Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes, e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D. Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D. Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D. Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao Principe D. Affonso Anriques com sua mãi.

CAPITULO VI

Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a sua mãi com elle.

Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher, e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou». Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate, ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso filho, se mais poder que nós».

Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior poder temos que elle».

A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi». Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja».

Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra, e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi.