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Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I) cover

Chronica de El-Rei D. Affonso V (Vol. I)

Chapter 96: FIM DO I VOLUME
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About This Book

A palace chronicle presents a narrative of a monarch's reign, blending documentary evidence, eyewitness reports, and the chronicler's commentary. It traces the sovereign's formative years amid court rivalries and the accumulation of patronage that later provoked political conflict. The narrative recounts military expeditions and overseas ventures, highlights maritime exploration and naval action, and emphasizes the assertion of royal authority. Legal, economic, and social conditions receive attention through accounts of popular unrest, urban struggles, and administrative reforms. Portraits of leading nobles, clerics, and royal relatives appear alongside a prologue that urges rulers to learn from recorded exemplars.

De como o Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se daria, fez côrtes geraes


Estes accidentes tão apressados pozeram o Infante D. Pedro em muito cuidado; porque eram taes, que de necessidade ou teria guerra, ou por fraco perderia toda sua honra e estima; porque por isto foi certificado que ao povo de Castella em ajuntamento de côrtes prouve por industria dos Infantes que para restituição da Rainha se fizesse guerra a estes reinos, e para isso se fizessem apurações e lançassem pedidos, que se logo lançaram.

E porém o Infante disse aos embaixadores que os casos de seu requerimento eram de calidade, a que se não podia dar direita resposta sem accordo de todo o reino, e portanto lhes rogava que tivessem assi até se fazerem côrtes, onde elles tornariam a ser ouvidos e respondidos, como a todos bem parecesse.

Os embaixadores foram d'isto mui contentes; porque viram levemente o effeito do principal fundamento e desejo que traziam, que era por semearem temor divulgar-se sua embaixada por todo o reino.

Assignou o Regente as côrtes na cidade d'Evora, onde por suas cartas mandou que os procuradores do povo se juntassem no Janeiro do anno que começava, de mil e quatro centos e quarenta e dois. Notificando-lhe logo a sustancia e causa de sua vinda; e porque lhe parecia que a guerra se não poderia escusar, e não fossem com algum improviso dano salteados por negligencia, determinou que os Infantes a que tambem escreveu, fossem logo ás frontarias de suas comarcas, e provessem todalas fortalezas da raia e as fizessem velar, armar, bastecer e repairar, como para tal necessidade cumpria se sobreviesse, e assim mandassem arredar os gados e provisões dos estremos. E defender os mercadores que não entrassem em Castella; e assi se cumpriu e se poz em todo o reino tanto resguardo, como se a guerra fôra claramente rota, e aos Infantes e grandes e pessoas principaes do conselho que não podiam vir a ser presentes, enviou a sustancia de toda a embaixada, e a cada um ácerca do que responderia pediu seu conselho e parecer em escripto, como sempre costumou.

Partiu-se o Regente para Evora, e assi os embaixadores, e ao dia que tinha posto foram juntos os procuradores, onde o Infante por si lhes propoz com largo recontamento a necessidade que o movera aos chamar, e assi lhes apresentou a embaixada presente, resumindo as outras passadas da mesma sustancia, cuja conclusão era que El-Rei de Castella requeria que por bem e paz d'este reino, El-Rei e seus irmãos fossem entregues á Rainha, com inteira governança do reino, se não com força e por guerra de Castella se faria, rogando-lhe que sobre todo consirassem, e como bons portuguezes e leaes vassallos d'El-Rei lhe dissessem o que devia dizer e fazer; havendo sempre respeito ao que mais fosse serviço de Deus e honra d'El-Rei e bem de seus reinos. Apontando a necessidade que havia de dinheiro, para que sua ajuda cumpria.

E leixando alguns rumores e alvoroços que em continente logo houve, e muitos dos que sem aquella consiração e resguardo que deviam bradavam por guerra e a requeriam, finalmente os procuradores recolhidos em seu consistorio e praticando com muita madureza o caso, tornaram ao Regente seu parecer, que sustancialmente foi todo remetido a seu juizo, por todo confiarem de sua lealdade, siso, e esforço, e para as necessidades que occorriam outorgaram tres pedidos.

E conformando-se o Regente com o parecer dos procuradores e assi com as respostas que em escripto houve dos ausentes, deu em nome de El-Rei resposta aos embaixadores, escusando-se por muitas causas a não dever cumprir, nem haver por bem o que requeriam, e que assi era dos do reino aconselhado, e que se por isso El-Rei de Castella quizesse mover guerra contra estes reinos, que lhe pesaria muito por ser entre christãos tão conjunctos em sangue e amigos. Porém quando tão sem razão a movesse, e como imigo quizesse n'elles entrar, fosse certo que a contenda não duraria muito; porque no campo o havia de receber e não o esperar de trás das paredes. E que esperava em Deus pois era justo, que na victoria o faria tão herdeiro, como fizera a El-Rei D. João, de cujos lombos sahira.

Com esta resposta despediu os embaixadores de Castella, que com todas suas ameaças passadas não publicaram a guerra como mostravam.

FIM DO I VOLUME