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Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) cover

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

Chapter 14: CAPITULO XCI
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About This Book

The chronicle records diplomatic and military crises surrounding a disputed queen, recounting embassies exchanged between local rulers and neighboring monarchs, debates among the regent, the king and princes, and the counsel offered by envoys and nobles. Negotiations include offers of dowry, exile, and money to avoid war, detailed arguments about loyalty of towns and magnates, and deliberations over whether to accept the queen's governance or to resist by force. Episodes follow envoys' travels, royal councils weighing peace versus armed action, and the shifting alliances and mistrust that prolong the conflict, illustrating how legal claims, personal honor, and strategic calculations shape decisions that determine whether reconciliation or escalation prevails.

The Project Gutenberg eBook of Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

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Title: Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

Author: Rui de Pina

Release date: June 23, 2007 [eBook #21911]
Most recently updated: January 2, 2021

Language: Portuguese

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)

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BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

PROPRIETARIO E FUNDADOR
MELLO D'AZEVEDO

Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador—Mello d'Azevedo

CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO V

POR

Ruy de Pina

VOL. II

ESCRIPTORIO 147—Rua dos Retrozeiros—147 LISBOA

1902

CAPITULO LXXX

D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que houveram, e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da Rainha

E o Infante D. Pedro se foi com El-Rei á cidada do Porto, onde tornaram a elle sobre o mesmo caso da Rainha quatro embaixadores, dois em nome d'El-Rei de Castella, e dois em nome do seu povo; porque a Rainha D. Lianor, quando viu os primeiros embaixadores tornar com resposta á sua esperança e desejo tão contraira, começou claramente de conhecer os enganos em que caira, e lastimando-se d'isso aos Infantes seus irmãos, elles por em alguma maneira cumprirem com ella, fizeram com El-Rei que os procurados dos povos de seus reinos em côrtes ouvissem, como ouviram suas querellas e agravos contra o Regente, e com tal graveza se propozeram, que foi accordado enviar-se já por final aquella embaixada, em nome d'El-Rei e do povo com temerosas protestações, dizendo que quando aos requerimentos d'ella não se satisfizesse, poderiam então mover guerra, sem parecer que por sua parte as pazes se quebrantavam. Sobre a qual o Regente teve conselho, e enviou avisos aos Infantes e pessoas principaes do reino, e foi determinado que o Infante não desse determinada resposta aos embaixadores, e que por dilatar a remettesse, á que El-Rei seu Senhor enviaria, para que offereceria a El-Rei de Castella todo o que por contemplação sua e de seu povo á Rainha n'estes reinos se devia e podia fazer.

E com isto despediu os embaixadores, e se foi com El-Rei á villa de Tentuguel, que é no Campo Mondego. Onde accordou de enviar, como enviou por embaixadores a Castella, como ficara, a Lionel de Lima, que depois foi primeiro bisconde de Villa Nova de Caminha, e o doutor Ruy Gomes d'Alvarenga. Os quaes bem instructos e avisados do que haviam de dizer, se foram a El-Rei de Castella, com quem falaram em apartado as cousas de sua embaixada, em que sustancialmente concludiram que a Rainha por muitas causas, razões e impedimentos que apontaram, não devia vir a estes reinos, nem menos ter a governança d'elles, nem a criação d'El-Rei e seu irmão que requeria, e que o reino todo havia por tamanho inconviniente para o bem e assessego d'elle, que para o não consentir se despoeriam ante a todo trabalho e perigo; mas ainda que por direito não houvesse para isso obrigação, que por ser madre d'El-Rei seu Senhor, e por elle Rei o requerer, lhe dariam onde ella quizesse fóra de Portugal, seu dote e arras, e todas as cousas suas que n'este reino se achassem, que não fossem da Corôa, e mais dez mil dobras d'ouro para satisfação dos que a serviram. E com isto outras muitas razões, com exemplos de merecimentos passados, porque El-Rei devia amar muito mais El-Rei seu Senhor e ao Regente, que a Rainha D. Lianor nem a seus irmãos.

El-Rei de Castella depois de os ouvir, ante de lhe responder teve com os grandes do seu reino sobr'isso conselho, em que eram os Infantes d'Aragão e a Rainha, onde para a paz e para guerra houve votos e sentenças contrairas; e finalmente o conde de Faram, e um Bispo da Avila que eram presentes, com fundamentos e razões mui justas concludiram que por este negocio da Rainha, ainda que fosse irmã, nem filha d'El-Rei, que pelas pazes que com Portugal tinha feitas e juradas, não lhe podia nem devia fazer guerra, e que a mór ajuda que á Rainha podiam dar, assi era de rogos sómente; com os quaes dois senhores muitos outros se foram. E o conde de Faram aderençou sua falla para a Rainha, e lhe disse:

«Senhora, bem creiu em caso que o voto que dei seja contrairo a vosso desejo que não leixará vossa mercê de crêr que eu amo muito vosso serviço, e dos Senhores Infantes vossos irmãos, por cuja honra e estado eu trabalhei e padeci o que elles sabem, cá por isso o dei e o disse, e por isso vos quero bem conselhar. Soes primeiramente muito enganada em procurardes entrar em Portugal por guerra, e contra vontade do Regente e dos Infantes seus irmãos; pois sabeis que todo o reino por natureza os ama, e por obrigação e vontade os hão-de servir, e das mostranças que alguns lá fizeram de vos recolher e servir, já deveis de ser desenganada, e a concordia do conde de Barcellos e do Marechal com o Infante D. Pedro vos é para isso claro exemplo, e que vos pareça que a necessidade do tempo lh'o fez assi fazer, ainda não creaes, vendo elles as cousas revoltas que não sostenham a parte de seu Rei natural antes que a do estranho, e mais eu não sei que segurança tereis do amor do povo que guerreardes por fogo e sangue, que tal caso se não pode escusar, antes para vossa vida conseguireis odio, desamor e perigo, que por todas razões não deveis querer; não fallo já no grande trabalho e muita perda que estes reinos de Castella receberam com esperança de tão duvidosa victoria. Aquelle reino não é pequeno, e é mui forte e de gente leal e mui esforçada, e será mui máo de sogigar por força. E para melhor verdes esta impossibilidade, sabeis bem que um cavalleiro de duas fortalezas tem n'estes reinos coração de se levantar contra a obediencia e serviço d'El-Rei nosso Senhor; e quero dizer se o devo dizer, que não é poderoso de o cercar nem tomar, quanto mais que os Infantes vossos irmãos que aqui estão, de necessidade conviria terem n'estes reinos outra gente d'armas, e não pouca contra o Condestabre e o Mestre d'Alcantara seus imigos, e que seria impossivel ou com abatimento de suas honras e estados se sogigarem a elles, que seria grande vituperio em sangue real, que Deus nunca consinta, cá não haveis de duvidar que estes dois homens pela grande imizade que comvosco e com elles tem e pelas boas obras que do Regente em suas necessidades e affrontas tem recebidas, o hão sempre de servir e ajudar, por mais enfraquentar vosso poder, cá de todo são desconfiados de vossa concordia, e fazendo ainda esta empreza tão leve, que sem muita pena cobrassemos o reino de Portugal, não creaes que o dessemos a El-Rei vosso filho, nem a vós o Regimento d'elle; porque para cobrar novos reinos não ha fé nem verdade, cá é aos mortaes cobiça sobre todas, e sobre tudo com reverença e acatamento d'El-Rei nosso Senhor que aqui está, vos digo que sua Senhoria tem com gram razão grande amor ao Regente. E crêde que por só importunação de que por vós e vossos irmãos foi vencido, tem feito contra elle o que fez, n'estas embaixadas que enviou, cá não ha por sua vontade de proseguir cousa que em sua honra e estado muito desfaça, pelo qual Senhora, meu conselho é que pelo que a vosso habito, consciencia, e assessego pertence, acceiteis qualquer razoado partido que de Portugal vos fizerem, cá do contrairo sede certa, que cada vez recebereis mais dano, e mór paixão.

Este desengano do conde de Faram foi muito louvado, e muitos do conselho o seguiram, e El-Rei o approvou, pelo qual por parte da Rainha logo se apontaram alguns meios, em que para ella requereram uma grande somma de dobrões. E para alguns seus, casamentos assignados, e para outros satisfações de dinheiro, pago em certo modo e tempo, com outras cousas que tambem requereram, segundo que por escripto o apontaram, e com estes meios vieram os embaixadores a Portugal, com fundamento de logo tornarem com a concordia; e porque o Regente sem todo o reino e principaes d'elle não quiz n'elles tomar certo assento, seguiu-se no ajuntamento para isso tanta dilação, que n'estes reinos, e nos de Castella principalmente sobrevieram em tanto cousas de taes afrontas e necessidades, que as da Rainha ficaram de todo por acabar, até que com ellas acabou também sua vida, como se dirá.

CAPITULO LXXXI

De como o Infante D. João falleceu, e que filhos d'elle ficaram

No fim do mez de Outubro d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e dois, o Infante D. João em a villa d'Alcacere do Sal acabou sua vida de febre, d'onde levaram seu corpo ao mosteiro da Batalha, onde tem sua sepultura, dentro da capella d'El-Rei D. João seu padre, e foi sua morte com dôr e tristeza de muitos muito sentida; porque era Principe de grande casa, e em que havia muitas bondades e virtudes sem algum vicio que as minguassem, em especial era muito amigo do bem commum d'estes reinos, que por elle mostraram claros signaes da perda que n'elle perderam.

E o que de sua morte e privação mostrou sobre todos ser mais triste e anojado, foi o Infante D. Pedro que era em Coimbra, onde como soube de seu fallecimento, cahiu de verdadeiro nojo em cama á morte, não havendo em sua enfermidade outra causa, e não era sem razão; porque eram irmãos que sem cautella e mui verdadeiramenta se amaram, e foram sempre em todo mui conformes, e o amor que o Infante D. Pedro lhe tinha não ficou sem experiencia de ser mui conhecido; porque não sómente na vida, mas depois da morte muito mais claro em todas suas cousas lh'o mostrou; porque do Infante D. João ficaram tres filhas e um filho. O filho houve nome D. Diogo, a que o Regente logo em nome d'El-Rei fez Condestabre, e deu o Mestrado de Santiago com todalas rendas e cousas que o Infante seu padre tinha, e falleceu logo muito moço, e a filha maior a que chamavam D. Isabel, que de virtudes da alma e perfeições do corpo foi em todo cumprida, casou com El-Rei D. João de Castella, que sendo elle de edade de quarenta annos a houve por segunda sua mulher, de que nasceu real geração e sobre todas mui excellente. E a segunda filha do Infante D. João houve nome D. Breatiz, esta casou o Infante D. Pedro com o Infante D. Fernando, irmão d'El-Rei D. Affonso, de que houveram por filhos, a sobre todas mui virtuosa a Rainha D. Lianor, mulher que foi d'El-Rei D. João o segundo d'estes reinos de Portugal, e El-Rei D. Manoel nosso Senhor, que por fallecimento d'outro legitimo herdeiro, directa e ligitimamente os sobcedeu. E a terceira filha do Infante D. João se chamou D. Filippa, que sem casar, casando e fazendo muito bem a seus criados e criadas, acabou virtuosamente sua vida.

N'este anno estando o Regente com El-Rei na cidade d'Evora, falleceu sem herdeiros um D. Duarte, que foi senhor de Bragança, e tinha o castello d'Outeiro de Miranda; veiu logo á côrte o conde de Barcellos, e pediu este senhorio e castello ao Regente, o qual se escusou d'elle por o ter já promettido ao conde d'Ourem seu filho, que no requerimento se antecipara primeiro, e porém logo entre o pae e o filho houve n'isso tal concordia, que o conde d'Ourem por ser filho maior esperando todo sobceder, juntamente desistiu da promessa e por prazer do Regente a passou ao conde de Barcellos, que logo pelo dito Infante D. Pedro foi feito e intitulado duque de Bragança. Mas não se seguiu assi, porque o filho que era moço, falleceu primeiro que o pae que era já mui velho, como se dirá.

CAPITULO LXXXII

De como falleceu o filho do Infante D. João que era Condestabre, e como o filho maior do Infante D. Pedro foi d'aquella dinidade provido, que foi causa e fundamento da morte do dito Infante D. Pedro

E no começo do anno seguinte de mil e quatrocentos e quarenta e tres, falleceu de febre continua D. Diogo, filho do Infante D. João, cuja herança e casa passou logo a D. Isabel sua irmã maior, e depois porque casou com El-Rei de Castella, passou por contrato á filha segunda D. Briatiz, casada com o Infante D. Fernando, como disse.

E o Infante D. Pedro, porque do Infante D. João não ficara outro herdeiro barão, fez com El-Rei que proveu logo do Oficio de Condestabre a D. Pedro seu filho maior, e o conde d'Ourem fundando-se em razões que não provou, enviou pedir a mesma denidade ao Infante D. Pedro seu tio, dizendo-lhe, «que o seu avô o conde Nuno Alvares Pereira houvera este Oficio, para si e para todolos que d'elle decendessem. E que por quanto d'elle não ficara filho barão que o herdasse o houvera o Infante D. João, não como filho de Rei, mas como quem casou com sua neta, e que como quer que a elle conde d'Ourem mais que a outrem de razão pertencesse, por ser neto barão e maior do Condestabre; porém que o leixara então de requerer, porque para se haver não fizera diferença entre o Infante D. João e si mesmo; mas agora que por sobcessão de barão ficava distinto, e a elle pertencia como a principal ramo que do tronco do Condestabre ficava, lhe pedia que o provesse d'elle».

E o Regente lhe respondeu «que El-Rei seu Senhor tinha já d'elle feito mercê a D. Pedro seu filho, para quem elle o pedira, para em algum cargo de honra ter mais razão de o servir; porém que se hi houvesse doação ou cousa assi autentica por que parecesse este Oficio de direito lhe pertencer, que lh'a mandasse mostrar e que por alguma maneira lh'o não tiraria. Alegando-lhe mais para sua satisfação e contentamento a mercê de Bragança e de Castello d'Outeiro, que poucos dias havia que recebera, ainda que de sua vontade a trespassara em seu padre, o que elle assi consentira por ter razão de o mais cedo fazer duque depois da morte de seu padre, que por curso de natureza, segundo sua muita edade não podia já muito tardar, e que por hi elle ficaria duque, e tres vezes conde com outros senhorios e terras, de que para a estreiteza de Portugal se devia haver por muito acrecentado, honrado e contente. E que portanto lhe rogava, que por amor d'elle não se descontentasse em seu filho haver este Officio, em que bem cabia por muitos respeitos, e isto porém fosse quando não houvesse tal firmeza, porque de direito lhe pertencesse; porque se a houvesse fosse certo que seu filho lh'o leixaria».

E em fim o conde d'Ourem não mostrou o que por ventura não tinha; porém tamanho descontentamento e agravo mostrou que do Infante por isso recebia, que nunca depois quiz vir á sua casa, e menos á côrte d'El-Rei emquanto elle regeu, e este odio do conde d'Ourem foi a causa principal da morte e destruição do Infante D. Pedro, como se dirá.

CAPITULO LXXXIII

De como foi a morte do Infante D. Fernando que era captivo em Fez

E n'este anno outrosi de mil e quatrocentos e quarenta e tres, veiu certidão da morte do Infante D. Fernando, que era posto por arefens em Fez, e segundo o testemunho que de sua vida e morte deram os christãos que com elle ficaram, homens fidalgos e pessoas de muito credito, certo de crêr é piadosamente que morreu santamente, e com esperança de ser santo e bem aventurado. E porque Deus por sua piadade e em galardão de seus merecimentos, segundo fé de muitos fez evidentes milagres, e a morte antecipou os naturaes dias de sua vida com a aspereza do trato e máo captiveiro que padeceu por mandado de Lazarac Marym, crú e máo tirano de Fez, que por ser vil e de nenhum sangue real, com muita sede e grande fome o fazia servir em oficios baixos e vis, e com tal estreiteza, que em uma masmorra e prisão mui escura acabou n'este mundo a vida, para nosso Senhor lhe dar no outro outra melhor e mais viva, que em sua gloria durará para sempre.

A morte d'este Infante por sua calidade e desamparo foi muito sentida e pranteada n'este reino, e principalmente dos Infantes seus irmãos, que lhe mandaram fazer mui honradas e solemnes exequias e saimento, e seu corpo metido em um ataude, esteve muitos tempos pendurado por cadêas sobre uma porta da cidade de Fez, e depois por convenção que se fez, foram seus ossos trazidos a estes reinos em tempo d'este Rei D. Affonso, no anno de mil quatrocentos e LXXIII, e depois da tomada de Arzilla; os quaes de Lisboa foram levados com grande honra e solemnidade ao mosteiro da Batalha, em que tem sua sepultura especial e honrada na capella d'El-Rei D. João seu padre. Onde por signal que acabou como catholico e mui fiel christão, ha grande credito que nosso Senhor fez, e faz por elle muitos milagres.

Por morte d'este Infante D. Fernando ficou vago o Mestrado d'Avis, de cuja governança e administração, D. Pedro, filho do Regente, foi a suplicação d'El-Rei por auctoridade Apostolica provido.

CAPITULO LXXXIV

De como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando já para se tornar a Portugal

No anno de mil e quatrocentos e quarenta e quatro, vendo-se El-Rei de Castella em poder dos Infantes d'Aragão seus cunhados, roubado da liberdade e senhorio que a sua dinidade real pertencia, tinha a elles grande odio e desamor, e para se em alguma maneira d'elles isentar, ordenou por conselhos e modos do Condestabre D. Alvaro de Luna de mandar como mandou por visorei á comarca de Andaluzia ao Infante D. Anrique, provendo-o para isso de poderes fingidos com fundamentos falsos, dando-lhe a entender que assi cumpria para sua mais honra e mór segurança, onde por engenho do dito Condestabre e mestres de Alcantara e Calatrava seus contrairos, e com gente de Sevilha e outra muita que o Infante D. Pedro d'estes reinos lá mandou, foi em todo desobedecido, e em desbaratos que houve mui mal tratado, e d'esta vez se tomou Carmona, e em tanto se conformou o Condestabre com outros grandes senhores d'aquelle reino que para isso se ajuntaram por força d'armas, e tiraram El-Rei do poder e sobgeição d'El-Rei de Navarra, que segundo o que se via não o tratava, nem acatava como a rei superior se devia.

E d'estas voltas de fortuna que a Rainha D. Lianor viu padecer aos Infantes seus irmãos, foi da esperança que n'elles tinha desesperada de todo, e vendo-se já mal olhada d'El-Rei e da Rainha sua irmã, e com pouca sua ajuda, foi-se da côrte para a cidade de Toledo, d'onde constrangida já de grandes minguas que a apertavam, soltou quasi toda a gente que tinha, encommendando os filhamentos e vivendas de seus criados a aquelles senhores de Castella com que cada um mostrava ter mais contentamento de viver.

Alli veiu a Rainha a tanta necessidade e pobreza, que para seu suportamento lhe conveiu receber ajudas em pão e dinheiro d'alguns Prelados e donas viuvas d'aquelle reino, em especial de uma D. Maria da Silva de Toledo, senhora de nobre sangue e muita fazenda. E n'este reino e em Ceuta sendo de suas necessidades sabedor D. Fernando de Noronha, primeiro conde de Villa Real, e segundo capitão da dita cidade; porque era de real sangue e mui nobre coração; principalmente porque El-Rei D. Duarte o criara e acrecentara com muito amor, e asi por elle ter com a Rainha divido mui conjuncto, a mandou visitar e ajudar com uma boa somma d'ouro amoedado, de que por sua nobreza e bom conhecimento foi de todos cá e lá mui louvado. Pelo qual a Rainha sentindo-se já envergonhada de requerer, e cansada de esperar, vendo os caminhos e remedios de sua esperança, com as mudanças de seus irmãos de todo cerrados, houve-se de todo por mal aventurada, e sobretudo por enganos mal aconselhada, e suspirando já por Portugal, ao menos para lhe sua terra comer o corpo, fallou com Mossem Gabriel de Lourenço, seu capellão mór, e com suas crenças, instrucção e poder, o enviou a Albuquerque, d'onde por meio do conde d'Arrayollos tratasse alguma concordia com o Infante D. Pedro, ao qual Infante a Rainha com palavras e cousas assaz piadosas, enviava já pedir, ao mais consentimento e lugar para vir a estes reinos, e n'elles morrer, não como Rainha, mas como sua irmã menor que se queria poer em suas mãos, de que se contentaria receber o que elle quizesse, e lhe parecesse razão.

O conde d'Arroyollos, como era homem virtuoso e de justa tenção, acceitou com boa vontade o negocio, e o Regente a que o dito conde por Vasco Gil, seu secretario, o notificou, o ouviu e recebeu com muito melhor mostrança, e andando já em apontamentos com esperança de bôa conclusão, chegou recado certo ao Regente, como a Rainha D. Lianor fallecera na mesma cidade de Toledo, sexta-feira XIX dias de Fevereiro de mil quatrocentos e quarenta e cinco.

Foi sua morte arrebatada, sem ter uma hora de accordo para o que á sua alma e á sua fazenda cumpria, em que houve violenta presumpção que fôra de peçonha; porque em lhe lançando uma ajuda, que por ser um pouco achacada requerera, logo sem entrevalo nem repouso deu alma a Deus. E a opinião dos mais foi que esta morte lhe ordenara, não o Infante D. Pedro, como muitos maliciosos quizeram falsamente dizer, mas o Condestabre D. Alvaro de Luna, por meio de uma mulher da villa de Ilhescas, que em casa da Rainha tinha grande entrada e muita familiaridade. Receoso que, se a Rainha vivesse, estando em a cidade de Toledo, ordenaria como o Infante D. Anrique seu irmão, tornasse a ella, de que fôra já lançado. Porque foi avisado que ella o procurava e concertava já com Pero Lopez d'Ayala, que na cidade era alcayde mór, e cavalleiro mais principal, crendo que se o Infante fosse senhor de tal cidade, o Condestabre o havia por cousa muito contraira a seu desejo e proposito, que era destrui lo e desterra-lo do reino com seus irmãos, e por argumento d'isto, outro tanto se presumio do mesmo Condestabre, que ordenara á Rainha D. Maria, mulher d'El-Rei D. João, que após sua irmã não durou com vida mais de XV dias.

E esta Rainha D. Maria jaz sepultada na capella mór do mosteiro d'Aguadallupe.

O Regente como soubesse do fallecimento da Rainha, enviou logo pela Infante D. Joana, que ficara e estava em Toledo em grande desamparo, e a foi ao extremo receber, e trouxe mui honradamente para Lisboa, onde a poz em companhia da Infante D. Catharina sua irmã, em poder de Violante Nogueira, e tomou para El-Rei todolos criados que ficaram da Rainha, tirando alguns em que tinha suspeita e descontentamento.

CAPITULO LXXXV

Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra os Infantes d'Aragão, e do que se passou até tornar

Pela morte d'estas duas Rainhas o partido dos Infantes d'Aragão ficou em Castella mui fraco e abatido, e o Condestabre porque viu tempo que lh'o assi aconselhava, ordenou de os fazer lançar e desterrar fóra do reino, e acabou com El-Rei que escreveu ao Regente com as razões e causas com que sentio que o mais obrigaria, pedindo-lhe para isso ajuda de gente d'armas por seu messegeiro, o qual Infante teve sobre o caso bom conselho em Tentuguel, onde elle foi de sua vontade movido para ir em pessoa; e porque foi em contrairo aconselhado, determinou-se que enviasse o senhor D. Pedro seu filho que era Condestabre, em edade de XV annos, e a mais formosa nem melhor proporcionada creatura que se podia vêr de seu tempo, ao qual foram ordenados dois mil homens de cavallo, e quatro mil de pé, e com elle estes fidalgos principaes: D. Alvaro de Castro que depois foi conde de Monsanto, e Lopo d'Almeida que depois foi conde d'Abrantes, e D. Duarte de Menezes que depois foi conde de Viana, e Diogo Soarez d'Albergaria, e Fernão Coutinho, e João de Gouvêa, e outros muitos fidalgos e cavalleiros da côrte, em que ia a frol d'ella.

E porque o sr. D. Pedro não era cavalleiro, quiz o Infante seu padre que o fosse da mão do Infante D. Anrique seu tio, que era em Lagos, e foi para isso chamado a Coimbra, onde logo veiu e este ajuntamento se fez, e sobre qual dos Infantes devia fazer aquelle auto de Cavallaria, houve entre elles uma perciosa, mas mui honrada e maravilhosa contenda. Porque cada um parecia que minguava em seus merecimentos, por acrecentar nos do outro, e cada um se alegrava ser n'elles do outro vencido para que o fizesse, e em fim o cargo ficou ao Infante D. Anrique e não sem merecimento; porque em seu tempo muitos Principes foram de mais terras, gentes, e rendas, mas não houve em seus dias algum ante quem elle em perfeição de virtudes, e bondade d'armas, e esforço do coração se devesse contar por segundo, o qual com novas cerimonias e grandes festas, armou Cavalleiro o Condestabre seu sobrinho, no mosteiro de S. Jorge, que é junto com a cidade sobre o Mondego. D'onde logo partio com mais gentes de sua ordenança; porque alguma que falleceu, se refez toda com elle em Cidad Rodrigo, primeiro lugar de Castella por onde entrou. E certo d'armas, cavallos, livré e arreios, foi gente mui luzida e mui aparelhada para fazer um bom serviço.

El-Rei D. João de Castella, para execução do que desejava, tinha já cercados na villa de Olmedo a El-Rei de Navarra, e ao Infante D. Anrique seus cunhados, com muitos e grandes senhores de Castella. Os quaes esforçados na muita gente que comsigo tinham e confiados que pela antiga criação e conhecimento que tinham d'aquelle reino, e assi pelo desamor que geralmente tinham ao Condestrabre, que as gentes d'El-Rei quando os vissem em rompimento e perigo os ajudariam, e temendo outrosi a gente de Portugal, que tambem ia sobr'elles, e vendo que por isso o cerco por muitos inconvenientes lhe não cumpria, determinaram poer seus feitos em ventura, e dar, como deram, batalha a El-Rei, em que foram de todo vencidos, d'onde o Infante D. Anrique sahiu ferido em um braço, de que a poucos dias falleceu em Aragão. E El-Rei de Navarra se acolheu fugido a seu reino sem mais vir a Castella; ainda que o depois muito procurasse.

D'este caso assi como passara foi o senhor D. Pedro em Cidad Rodrigo avisado. Sobre o qual os do conselho d'El-Rei, que com elle eram, praticaram o que fariam. E acordaram que deviam todavia proseguir sua viagem como fizeram, e que do caso acontecido avisassem logo El-Rei seu Senhor, e a El-Rei de Castella notificassem sua ida. E com isto feito foram fazendo suas jornadas, até chegarem á cidade de Touro, onde o Condestabre D. Pedro houve resposta d'El-Rei de Castella, em que lhe rogava, que assi como vinha o fosse vêr, como foi, á villa de Maiorca, onde já com toda sua côrte estava, e em seu recebimento lhe foi feita honra mui assinada; porque El-Rei com toda sua côrte sahiu ao receber, mui contentes de vêr um Principe em todo tão proporcionado, em que muito acrecentava a graça das ricas armas em que ia vestido. E depois de passarem alguns dias, em que d'El-Rei e dos grandes de seu reino, foi com muitas honras e festas tratado, El-Rei com os aguardecimentes que em sua ida cabiam, lhe disse: «Que pois seu serviço lhe não era necessario, que se poderia tornar para Portugal. E como quer que o Condestabre muito insistisse para ficar e o servir; como d'El-Rei seu Senhor, e do Infante seu padre trazia ordenado, El-Rei não quiz, posto que lhe requereu e desejou que com a gente sómente que para o servir fosse necessaria ficasse aforrado em sua côrte. Mas aos fidalgos que com elle iam não pareceu razão leixa-lo assi, sem prazer do Regente. Pelo qual El-Rei o despediu com dadivas de joias e cavallos, e mullas e outras cousas de grande preço, e não falleceram outros muitos grandes senhores d'aquelle reino que lhe offereceram seus presentes, de cousas que sua idade e tempo requeriam. Mas para d'outrem algum não receber nada, salvo d'El-Rei, teve as mãos tão castigadas, como as fez soltas em dar e fazer grandes mercês a aquelles que semelhantes cousas lhe apresentavam, ainda que com ellas se tornassem, e d'esto se escusava com tanta humildade e cortezia, que bem parecia que não era por algum vicio de presumpção que n'elle coubesse.

E assi com sua gente na ordenança em que fôra, e com bandeiras tendidas se tornou a Portugal e entrou por Bragança, e na villa d'Aveiro achou El-Rei e com elle o Infante seu padre, d'onde despediram os fidalgos e a gente que com elle fôra, dando pelo serviço que fizeram muitos aguardecimentos com as mercês que cada um por sua confissão merecia, e isto passou no anno de mil e quatrocentos e quarenta e cinco.

CAPITULO LXXXVI

De como o Regente fez côrtes geraes, em que leixou a El-Rei a primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e como El-Rei lh'o tornou a dar

E consirando o Regente, como para o Janeiro do anno que logo entrava de mil e quatrocentos e quarenta e seis, El-Rei D. Affonso cumpria idade de XIV annos, em que, segundo fôro d'Espanha, qualquer Principe Real deve haver inteira posse e administração de seu reino e senhorio, e lembrando-se isso mesmo da obrigação em que por sua fé e juramento ficara de a este tempo livremente lhe entregar o reino, querendo inteiramente assi cumprir, fez para isso côrtes geraes e solemnes em Lisboa, e na salla grande dos paços, sendo El-Rei com os Infantes e senhores, e seus officiaes e procuradores, em sua costumada e antiga ordenança, o doutor Diogo Affonso Mangancha, em nome do Infante D. Pedro, fez uma louvada oração, cuja sustancia se concludio em quatro cousas.

«A primeira, apresentar e entregar alli El-Rei em tal disposição de sua pessoa, siso e entender, manhas e virtudes, como de sua edade não cria que no mundo outro tal houvesse; porque dava e dessem todos muitas graças a Deus. A segunda, que no regimento do reino que todos lhe deram, como quer que para o bem fazer, elle com todas suas forças, entender, e diligencia fizera muito a além do que podera; porém que pelo grande trabalho, que em nome d'outrem era reger, especialmente em tempos de tantos desvairos e balanços como no seu se seguiram, elle confessava tel-o feito muito áquem do que devia, de que pedia perdão. A terceira, em dar aguardecimentos áquelles, que no tal caso bem e lealmente serviram e ajudaram, guardando nas palavras o acatamento, mais e menos, segundo cabia nas calidades das pessoas e estados do reino que eram presentes. A quarta conclusão foi, que em caso que não fôra direito nem costume aos Principes de tão pequena edade, como eram a quatorze annos dar-se livre poder de per si regerem reinos e senhorios, que a El-Rei seu Senhor vista em todo sua perfeição, por graça especial lhe devia ser dado, como a outro que fosse de muitos mais dias. E que para isso lhe entregava alli mui livremente, e sem cautella, seu Regimento.» Metendo-lhe logo com rostro mui alegre a vara da justiça nas mãos, que em giolhos e com muito acatamento lhe beijou.

E depois d'El-Rei ser recolhido á sua camara, onde era o Infante D. Fernando, seu irmão, e o Infante D. Anrique, seu tio, com outros muitos senhores, o Infante D. Pedro, praticando com elle a maneira que d'hi em diante teria em reger, El-Rei depois de bem ouvir, lhe pediu que até vêr o que n'isso poderia fazer, elle inteiramente mandasse e fizesse em seu nome o que d'antes fazia; porque receava de per si só sem sua ajuda ou d'outrem não poder com tamanho cargo.

E de hi a tres dias se fez na ordenança passada outro ajuntamento, em que o mesmo doutor Diogo Affonso em nome d'El-Rei fez outra falla, porque sustancialmente se declarou «que havia por recebido em si do Infante D. Pedro seu tio e padre o inteiro regimento de seu reino, dando-lhe, por isso com largo recontamento de seus muitos serviços e merecimentos, grandes agardecimentos com muitos seus louvores, outorgando-lhe não sómente auctorisadas quitações de todo o tempo de sua governança; mas ainda por maior sua honra, que ficasse em registo por verdadeiro e claro testemunho, da obrigação em que por isso ficava a elle e a seus filhos, com todolos que d'elles descendessem; porque conhecia e declarava que nunca algum Principe fôra no mundo com tanto amor e em tanta perfeição criado, nem em manhas e costumes reaes tão bem ensinado, nem com tanta lealdade e obediencia servido e tratado, como elle sempre fôra do Infante D. Pedro seu tio e padre; porém porque elle ainda não tinha idade para per si só reger sem perigo de si mesmo e das cousas que regesse, nem tivera a pratica e esperiencia d'ellas como para Rei cumpria, e era por isso necessario tomar alguma pessoa que no regimento o insinasse e ajudasse, e por todos respeitos, causas e razões, não havia em todos seus reinos outro para isso mais pertencente que o mesmo Infante D. Pedro, que elle de seu proprio moto, sem lembrança nem requerimento d'alguem o escolhia para isso, e havia por seu serviço e por bem de seus reinos que elle Infante tornasse com elle a reger e governar seus reinos, assi como d'antes fazia, até elle se sentir em desposição para per si só o poder fazer, mandando que a obediencia que em regendo sempre lhe guardaram, essa d'hi em diante lhe guardassem muito mais inteiramente.»

E aos grandes e povos de seus reinos que eram presentes, em sua presença mandou muito agardecer por lhe requererem e darem por mulher a filha do Infante D. Pedro seu tio e padre, de que sobre todalas cousas do mundo, por muitas razões era mais contente; mas porque este seu casamento quando primeiramente foi em Obidos celebrado, por ventura por se fazer ante de haver idade cumprida e necessaria, para isso sem sua aprovação pareceria defeituoso, elle que então a tinha já para isso de todo perfeita, o aprovava e consentia, como se n'aquella hora de seu prazer, e com sua inteira liberdade novamente o fizesse.

CAPITULO LXXXVII

De como as filhas do Infante D. João foram casadas

E no começo do anno de mil e quatrocentos e quarenta e sete, o Infante D. Pedro se partiu com El-Rei da cidade d'Evora, para o lugar das Alcaçovas, onde por concerto veiu a Infante D. Isabel, mulher do Infante D. João, e trouxe comsigo duas suas filhas, que alli ambas juntamente casaram; D. Isabel que era maior com El-Rei de Castella, por Garcia Sanchez de Toledo, que como seu procurador e embaixador a recebeu, e D. Briatiz com o Infante D. Fernando, por elle mesmo. E do casamento que prometeu a El-Rei de Castella, que foi cem mil florins d'Aragão, se seguiu a este reino pouca despesa; porque os recebeu El-Rei de Castella em desconto do soldo que era obrigado pagar á gente do soccorro, e da ajuda que El-Rei de Portugal lhe enviou com o Condestabre seu primo, como atrás já disse.

E no Maio d'este anno, que era o tempo da entrega da Rainha, em que se concertaram El-Rei e o Infante seu irmão, com todolos senhores e pessoas principaes do reino, fizeram em Lisboa por honra da Rainha umas grandes festas, acabadas as quaes, o Infante D. Pedro, acompanhado grandemente, levou a Rainha a Coimbra, onde foi festejada, e d'hi á villa de Pinhel que é em Portugal, onde era concordado que El-Rei de Castella havia de vir em pessoa, para lhe ser alli entregue e a levar, e elle não veiu, de que com palavras honestas e de receber, se enviou escusar por certos senhores e grandes de seu reino, a que a Rainha com seu poder e auctoridade foi entregue, e lh'a levaram.

CAPITULO LXXXVIII

Como El-Rei por meio do duque e de seu filho o conde d'Ourem pediu ao Infante o Regimento do Reino, e como inteiramente lh'o leixou

O duque de Bragança, e conde d'Ourem, e o Arcebispo de Lisboa com outros de sua valia, não ficaram sem grande paixão de ser o Regimento do reino outra vez tornado ao Infante D. Pedro, e o duque publicamente por Gonçalo Pereira, que se dizia das armas, o contrariou nas côrtes por uns apontamentos que a ellas enviou. Mas não foi então ouvido; porque o coração d'El-Rei ainda não era de falsos testemunhos corrompido, nem cheio das erradas suspeitas contra o Infante, como ao diante foi. Mas em fim taes rodeios tiveram, principalmente o duque e conde d'Ourem, e taes incitadores buscaram e meteram secretamente ás orelhas d'El-Rei, que o comoveram para o que quizeram, que foi requerer, como requereu ao Infante D. Pedro que lhe leixasse livremente o regimento, porque só sem outrem queria reger.

E o Infante bem conheceu que tal movimento, e a tempo tão antecipado não nascera na propria vontade d'El-Rei, mas que fôra n'ella semeado por engenho de seus imigos. E porém lhe disse que elle era d'isso mais ledo e mais contente, do que por ventura lhe fariam crêr que o elle seria; porque quando elle nas côrtes que então foram, se escusava aceitar outra vez o regimento para que o forçava, bem via que lhe dera Deus tal siso e tal disposição, que per si sem outra ajuda poderia reger estes seus reinos e outros maiores; porém pois assi era sua vontade, que lhe pedia por mercê que com o regimento juntamente quizesse tambem tomar sua mulher, pois era em edade para isso; porque assim faria mais por sua honra e estado. No que El-Rei então consentiu; e ficou logo entre elles tempo assignado para isso, no qual o Infante se percebeu dos corregimentos e cousas que para a pessoa d'El-Rei e da Rainha, e assi para sua casa e camara cumpria; mas El-Rei por induzimentos d'alguns, e do Arcebispo de Lisboa principalmente, que de noite lhe ia falar, não esteve pela concordia em que ficara; porque antecipou o tempo, e tornou requerer o Infante, que logo leixasse o regimento; porque antes de casar elle inteiramente queria reger, cá em outra maneira não seria sua honra nem convinha a seu estado, ao que o Infante por não dar causa a mais danamento, logo satisfez e desistiu em todo do mandado e governança que tinha, em tanto que as cartas e provisões que d'antes foram por elle desembargadas, e eram feitas para se de seu nome assignarem, não as quiz mais assignar, nem entender em cousa que a regimento pertencesse.

E porém El-Rei no mez de Maio de mil e quatrocentos e quarenta e sete, em Santarem, tomou sua casa e sua mulher juntamente, com as benções e cerimonias pela Santa Igreja em taes casos ordenadas, e com alguma mostrança de festas, mas não foram n'aquella perfeição e cumprimento que o Infante quizera e tinha ordenado. Porque como leixou o regimento, logo todalas cousas ainda que fosse sem culpa sua, para seu desfavor lhe volveram as costas.

CAPITULO LXXXIX

Das cousas que o conde de Barcellos fez em abatimento do Infante D. Pedro depois que soube que já não regia, e para lançarem o Infante fóra da côrte

O duque de Bragança como soube que o Infante desistira do regimento, e que já El-Rei absolutamente regia, por imprimir e confirmar no povo a suspeita de desleal que contra o Infante tinha já com El-Rei principiada, partiu da Villa de Chaves, e com estrondo de gente armada se foi á cidade do Porto, e a Guimarães e Ponte de Lima, e a outros logares d'aquella comarca, onde aos criados do Infante tirou os officios que tinham d'El-Rei, e a todos com infamia de tredores lançou fóra, e com nome de receio do Infante mandou velar e roldar as villas e castellos, como se El-Rei e o Infante foram imigos e houvera já entre elles pregoada guerra, com outras oniões d'esta calidade, que no reino contra elle individamente se faziam.

Estas falsas novidades vinham logo ás orelhas do Infante, que feriam sua alma com muita dôr e tristeza, especialmente porque o remedio que n'ellas cabia e elle procurava, via que com desprezos lh'o denegavam.

Na côrte d'El-Rei andava a este tempo um Berredo, proto-notairo, filho de Gonçalo Pereira, de Riba de Vizela, mancebo avisado, que por estar já em côrte do Santo Padre tinha boa pratica, e por algumas letras que aprendera havia solta audacia de dizer. Este por astucia e conselho do duque e do conde d'Ourem, veiu á côrte bem avisado d'elles, do que secretamente diria a El-Rei para o fim que desejavam, que era meter El-Rei em odio com o Infante D. Pedro e tira-lo do regimento, e com achaque de despedir suas cousas para Roma, fallava com elle muitas vezes em apartado, por cujo malicioso meio e falsa informação que astuciosamente dava a El-Rei, se seguiu principalmente o maior damno que o Infante e suas cousas receberam. Porque com isto fazia-se grande servidor e muito familiar do Infante, a cuja casa, camara e mesa ia continuamente. D'onde maliciosamente trazia novidades e suspeitas a El-Rei, com que umas horas lhe fazia crêr que andava subgeito, e contra o que a seu estado cumpria, e outras que sentia do Infante que queria reinar e fazer seus filhos grandes, acautelando-se sempre que o que dizia a El-Rei, não era como imigo nem desservidor do Infante, de quem recebia honra e mercê; mas porque era portuguez leal a El-Rei a quem mais devia.

E assi o sabia entoar, que todo o que queria imprimia á sua vontade na molle e nova edade d'El-Rei, e por aviamento d'este se foi El-Rei vêr com o conde d'Ourem a Torres Novas. Onde com muitas razões, que para o caso com seus aderentes tinha compilladas, fez crêr a El-Rei camanho abatimento e quão grande sobgeição sua era andar mais o Infante na côrte, que cedo por isso não obedeceriam a El-Rei, e era razão que o fizesse; porque andando o regimento assi misturado, sempre seria de crêr que o Infante mandava e regia, o que a todos seus vassallos fazia grande escandalo, e que por isto e por outras causas muitas que alegavam, El-Rei com alguma mostrança de bem o devia despedir de si e de sua governança, e que para isso seria melhor, e com menos pejo seu não tornar mais a Santarem, e mandar por outrem dizer ao Infante sua tenção e vontade, por se escusarem quebras e descontentamentos d'entre ambos em pessoa.

El-Rei levemente consentiu no despedimento do Infante, mas disse «que não havia com tal engano despedir seu tio; porque seria sem duvida declarar de todo sua fraqueza e algum desconhecimento; mas que em pessoa o despediria como era razão».

E para em caso que o Infante a isso não obedecesse e refusasse sua partida, disseram que era bem que El-Rei levasse comsigo armados, como levou, os vassallos da comarca. E que por força em tal caso, como a revel o lançasse fóra da côrte, com aquella mais pena que por isso merecesse. Mas o Infante a que tudo isto se logo descobrio, quiz da força alheia fazer sua livre vontade, e como El-Rei tornou a Santarem foi-lhe logo falar, e encobrindo com uma falsa alegria de seu rostro uma verdadeira tristeza do coração que tinha; depois d'algumas praticas extraordinarias, publicamente lhe disse.

«Senhor, dez annos ha que n'este cargo, que vós e vosso reino me destes, vos servi como melhor pude e soube, nos quaes minhas terras por minha ausencia receberam de mim pequeno repairo, como todos sabem, e minha fazenda padeceu grande perda; porém tudo hei por bem empregado, pois tudo redundou em vossa perfeita creação e mui inteiro serviço. Agora pois vos Deos chegou a tal idade, e deu tal siso, entender e disposição para sem outra ajuda regerdes por vós vossos reinos ainda que fossem maiores, peço-vos por mercê que me deis licença para ir prover o meu, que de mim já tem grande necessidade, e quando nas cousas graves e pesadas, que em vosso reino e a vosso serviço occorrerem minha presença fôr necessaria, mandae-me chamar, e prazendo a Deos vós n'isso e em todo conhecereis que sobre todos vossos vassalos e servidores, eu vos amo e vos sou o mais obdiente e mais leal».

D'este cometimento do Infante ficou El-Rei descarregado e mui ledo; porque com elle se viu alivado do grande peso e cuidado que para isso trazia, e por sua humana e mui real condição, com tudo lhe pesava grandemente partir-se d'elle o Infante agravado nem descontente, e porém com palavras que pareciam de muito agardecimento e amor lhe outorgou a licença, e mais lhe mandou dar uma solemne quitação de todo o tempo que por elle regera seus reinos, com aprovação de todo o que em seu nome até então dera e fizera. O que alguns quizeram depois contrariar, dizendo que devia antes ser revogação que aprovação; mas por então sua contradição não aproveitou, por que todavia passou com toda solemnidade e perfeição.

O Infante como teve licença d'El-Rei e aviou as outras cousas que lhe cumpriam, se partiu de Santarem para Coimbra no fim do mez de Julho; e porque se receiou de gente que o conde em Ourem tinha junta, quiz n'aquella travessa segurar sua pessoa com outra gente sua que mandou perceber, com que até Thomar foi mui honradamente acompanhado, e d'alli a despediu e levou sómente comsigo os de sua casa, e dois seus filhos, D. Pedro o maior, e D. James que depois foi Cardeal.

E como o Infante leixou a côrte, logo o conde de Ourem, e o Arcebispo de Lisboa, e o conde D. Sancho com outros de sua opinião se foram a ella, onde todo seu cuidado foi inventar com El-Rei novidades e determinações que fossem em nojo e abatimento do Infante. E entre outras ordenaram que El-Rei para segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda tirasse, como logo tirou todolos officios que os criados de seu tio na côrte tinham de qualquer calidade que fossem, poendo suspeições e testemunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a El-Rei, segundo a cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou com esperança de galardão que lhe promettiam, á sua vontade o testemunhavam. Ajuntavam-se a isto os criados da Rainha D. Lianor, que para mais agravarem suas querellas diziam contra o Infante por conselho de seus imigos muitas cousas á verdade mui contrairas. E o fundamento d'estes era semear contra o Infante e contra os seus estas desleaes suspeitas; porque o amor e affeição que por seus beneficios e merecimentos El-Rei e o povo de Portugal lhe tinham, e era razão que tivessem, o convertessem em odio e desamor, com que celeradamente e sem se poder remedear lhe causassem a morte como fizeram; porque sabiam que sua vida se muito durasse, não sómente impediria o effeito das cobiçosas esperanças em que para seus maiores acrecentamentos andavam, mas ainda suas vidas ao diante não seriam isentas de perigo, por saberem que além da grandeza do Infante e grande saber, a que seria mui deficil resistir, tinha muitos no reino que por criação e por graças recebidas lhe tinham grande amor, e des-hi que tinha filhos que seriam grandes senhores, e sobre tudo a Rainha sua filha, de cujo amor e fruito de geração, se El-Rei fosse ao diante vencido, como de sua edade e por suas virtudes e perfeições se esperava, teriam para si mui duros contrairos. E por tanto trabalhavam de poer El-Rei por qualquer maneira que podessem, no derradeiro gráo de odio e imizade contra o Infante.

CAPITULO XC

Como o Infante D. Anrique entendeu nas cousas do Infante D. Pedro para seu favor, e assi o conde d'Abranches

Partiu-se El-Rei de Santarem para Lisboa, onde o Infante D. Anrique que era no Algarve lhe veiu fallar, e porque sentiu que a vida e honra do Infante seu irmão com maneiras falsas de seus imigos era maltratada, e se despunha a destruição e perigo, atalhou a isso algum tanto, mas não com aquella fortaleza e escarmento, que elle a seu irmão devia e o mundo esperava, o que lhe fôra bem possivel se quizera; porque achou contra o Infante artigos formados em que se afirmava que com cobiça de reinar matara El-Rei D. Duarte seu irmão, e em Castella dera ordem á morte da Rainha D. Lianor, e assi á do Infante D. João. Com outras muitas abominações de que se tiravam inquirições, em que por seu sobornamento lhe não falleciam testemunhas falsas com que parecia que o provavam. Mas o Arcebispo e o conde d'Ourem com outros de sua parcealidade, receiosos se o Infante D. Anrique segundo era no reino poderoso e de grande auctoridade pendesse á banda do Infante D. Pedro, que suas maginações ficariam com damno d'elles muito áquem de seu proposito, trabalharam de fazer a El-Rei suspeitosas suas muitas virtudes e segura lealdade, afirmando-lhe que nas desculpas do Infante D. Pedro o não devia crêr. Porque na culpa do engano e desterro da Rainha sua madre, e em outros desmandos que por morte d'El-Rei D. Duarte no reino se fizeram foram ambos causadores e participantes, mas como isto era falso, não damnava na limpeza do Infante D. Anrique.

CAPITULO XCI

Vinda do conde d'Abranches ás côrtes

A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta, o conde d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do Infante D. Pedro, e publico amigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não foi então d'El-Rei e de sua côrte assi agasalhado e honrado, como seus serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde assi como era de nobre sangue, assi não fallecia n'elle uma graciosa soltura de dizer, com mui esforçado coração e singular aguardecimento, com que ante El-Rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia muito a honra e estado do Infante D. Pedro, com claros exemplos e vivas razões de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande audacia os movimentos e maldades que seus imigos tão sem causa contra elle moviam.

E como quer que El-Rei fosse induzido, que não ouvisse o conde e o mandasse ir fóra de sua côrte, poendo-lhe que em todas as culpas do Infante elle era muito culpado, porém porque El-Rei era de alto coração, aceso no ardor de autos cavalleirosos, suspirando para grandes emprezas, folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si muita parte e acolhimento, especialmente porque o Infante D. Anrique ante El-Rei muites vezes por cousas muito assinadas em que o vira, dizia por elle, que não sómente Portugal, mas Espanha toda se devia de haver por honrada criar tal cavalleiro. E porque os imigos do Infante viram que a vontade d'El-Rei ácerca do conde não terçava por elles como desejavam, lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de credito que com resguardo de grande segredo o aconselhassem que se fosse fóra da côrte, e não entrasse em um conselho publico que se então fazia, avisando-o manhosamente que n'elle por cousas do Infante D. Pedro o haviam de prender. Mas o conde com a cara cheia d'esforçada segurança lhe disse:

«Amigos, certamente pelos muitos e grandes serviços que tenho feitos a esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais villas e castellos com que me acrecente, que prisões nem cadeias em que sem causa me ponha, e por tanto com todo o que me dizeis, sabei que não hei-de fugir do conselho e serviço d'El-Rei nosso Senhor, pois leal e verdadeiramente sempre o segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se move contra mim, sabei certo que em defender minha honra, e limpeza d'aquelle Senhor, eu me mostrarei hoje dino de ser confrade da Santa Garrotea que recebi, e espero em Deus que sem ociosidade de minhas mãos, os que me quizerem visitar antes seja na sepultura, que nos carceres nem cadeias, e por isso não hajaes dó nem compaixão de minha vida porque minha morte honrada a fará com louvor viver mui viva, e muito mais honrada nas memorias dos homens para sempre.»

Pelo qual o conde depois de com esta determinação despedir estes manhosos e dobrados conselheiros; porque a hora do conselho se chegava a que determinou ir, se vestiu de panos finos mui bem, e muito melhor d'armas secretas, com que entrou no paço, onde seus imigos vendo a segurança de sua pessoa, foram claramente certificados do esforço e bondade de seu coração.

E estando El-Rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores presentes e os principaes imigos do Infante, o conde com cara que mais parecia que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fôra revelada, e assi lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas cousas do Infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos, e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar; concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que fossem, que do contrairo tinham informado a El-Rei, eram com reverença e acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máos e tredores, e que com licença e consentimento de sua Senhoria os combateria por armas, e em campo a tres d'elles os melhores juntamente.

A resposta d'El-Rei para o conde foi então graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o máo fundamento dos que tratavam a morte do Infante foram mui tristes sinaes, e por arredarem El-Rei do Infante D. Anrique e do conde, que começavam ser causa que de todo impedia seu damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado.

CAPITULO XCII

De como o Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o Infante D. Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se seguiram

E o Infante e o conde d'Abranches vendo tempo para isso, foram vêr a Coimbra o Infante D. Pedro, que com tal vesitação pela estima e reputação em que o Infante D. Anrique era havido, elle e os seus mostraram receber muita alegria e grande favor.

Alli se juntaram os Infantes com alguns principaes seus adeptos que hi eram, e fallaram algumas vezes nas sem razões e agravos que o Infante D. Pedro tinha nas cousas passadas recebidos, e assi no remedio que se teria nos que se aparelhavam e estavam por vir, para acrecentamento dos quaes foram alli certificados que El-Rei como foi em Cintra logo por engenho do conde d'Ourem e dos outros ordenara em desfavor e quebra do Infante estas cousas. Uma foi que escreveu a todolos fidalgos e a cavalleiros do reino em que sentio que havia boa vontade para o Infante, que sob pena de caso maior por qualquer maneira o não fossem vêr. A outra que mandou poer e publicar editos por todo o reino, que todolos criados que foram da Rainha D. Lianor, que de suas fazendas e cousas por seu caso fossem privados, viessem requerer suas restituições, para que foi dado por juiz Lopo d'Almeida, que como quer que em todalas outras cousas fosse havido por homem justo e de são entender, n'esta a juizo de bons (por ventura, porque o tempo assi o queria) não guardou a ordem direita que devera; porque todo o que os damnificados por simples petição pediam lhe era sem exame nem resguardado de justiça julgado, e logo executado, em que ajuntavam muitas cousas fóra d'esta querella e d'esta calidade, de que a muitos se seguiu sem causa muito damno. A outra foi que El-Rei notificou ao Infante D. Pedro que o havia por degradado de sua côrte, e lhe mandava e defendia que sob pena de caso maior sem seu especial mandado não fosse a ella nem sahisse de suas terras.

E isto ordenaram assi os contrairos do Infante, porque se receiaram que elle com a vista e confiança do Infante D. Anrique tomaria por ventura atrevimento de se vir com elle á côrte, onde era certo que em pessoa alimparia ante El-Rei sua honra, o que a elles para seu desejo fôra mortal inconveniente.

Os Infantes descontentes e maravilhados da sem razão d'estas cousas acordaram de enviar sobr'ellas a El-Rei, como enviaram Gonçalo Gomez de Valladares, commendador da Ordem de Christo. O qual como quer que pelas cartas e instrução dos Infantes que levava em todo cumprisse seu officio; porém porque o juizo d'El-Rei por sua não madura edade, e pelas falsas opiniões em que o criavam andava de todo emnevoado, turnou-se aos Infantes sem alguma determinada resposta nem conclusão. Dilatando-a para outra pessoa que El-Rei disse que lhes enviaria, o que se não fez.

Partiu-se o Infante D. Anrique para a villa de Soure, e o Infante D. Pedro para Monte Mór-o-Velho, que são lugares d'onde cada dia se podiam vêr e avisar, e o mais certo e mais são remedio que n'estas alterações o Infante D. Anrique achou para seu irmão, em se d'elle despedindo lh'o leixou e encommendou, que foi sofrimento e paciencia que havia por armas mais seguras para n'este caso elle sempre vencer.

CAPITULO XCIII

De uma fórma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras cousas que contra o dito Infante se seguiram

E para mais acrecentarem cuidado e paixão ao Infante, vieram a elle logo D. Fernando, que por alcunha do povo se chamava Cagonho, e com elle Ruy Galvão, secretario d'El-Rei, pessoas que descubertamente em todo desserviam e desamavam ao Infante, estes trouxeram em escripto com signal e sêllo d'El-Rei uma fórma de concordia e amizade com corados fundamentos de bem, que sem saber nem consentimento do Infante, El-Rei fez entre elle e o duque de Bragança, requerendo estes messegeiros ao Infante que á mão direita do signal d'El-Rei pozesse n'elle seu signal, e tambem seu sêllo. Porque outro tanto era ordenado que o duque havia de fazer da outra banda; porque o d'El-Rei ficasse por marco de paz e segurança d'entre ambos. Mas o Infante pela fórma das palavras, que com pouca honra sua e muito abatimento vinham na concordia, e pela condição dos messegeiros que a traziam, claramente viu que eram tentações que seus imigos ordenavam para mais em breve indinarem El-Rei para sua destruição, e porém sem esperança que a concordia fosse verdadeira, assignou n'ella e a mandou assellar assi como lhe fôra requerido e ordenado. Porque o parecer e crença do conde d'Ourem, que isto inventou, foi que o Infante D. Pedro por sua forte e altiva condição não obedeceria em assignar tal concerto, e que sua desobediencia daria corada causa para El-Rei com mais razão ir sobr'elle e o destruir e castigar como a desleal; porque ao tempo que esta concordia se formava na côrte, se fizeram juntamente cartas de geraes percebimentos de guerra, para todalas cidades e villas e pessoas principaes do reino, salvo para o Infante e para seu filho o Condestabre, com o fundamento que se a isso não satisfizesse de irem logo sobr'elle; mas esta amizade assi como sem vontade de todos nunca entr'elles se guardou.

E porque isto por esta via não succedeu á vontade dos imigos do Infante, tentaram o negocio por outra, em que fizeram que El-Rei enviasse, como enviou ao Infante, Diogo da Silveira, que depois foi escrivão da puridade, o qual sem merecimento algum o reprendeu em nome d'El-Rei de cousas em que o Infante nunca tivera culpa, em especial lhe estranhou muito o açalmamento d'armas e mantimentos que se dizia que contra serviço d'El-Rei em seus castellos fazia, mas o Infante confiando em sua innocencia, depois de verdadeiramente se escusar das outras falsidades que lhe assacavam, mandou alli logo em continente mostrar-lhe todo o castello de Monte Mór, e assi o de Coimbra, que eram os principaes que tinha, em cujo despercebimento claramente viu a informação que se a El-Rei fizera ser em todo falsa e maliciosa.

E porém como Diogo da Silveira tornou á côrte, logo El-Rei ou por não ser por elle verdadeiramente informado, ou por outro algum respeito, tirou ao conde d'Abranches o castello de Lisboa, e a Aires Gomez da Silva o Officio de Regedor da justiça na casa do Civel, e a Luiz d'Azevedo o Officio de Vedor da Fazenda, sómente por serem amigos e servidores do Infante, tendo-lh'os já confirmados por suas cartas. E a D. Pedro seu filho pediu o conde d'Ourem o Officio de Condestabre, dizendo que era d'elle roubado, e lhe pertencia de direito. Mas por não lhe fazerem uma concessão tão fea, sendo seu imigo, El-Rei o deu ao Infante D. Fernando seu irmão.

CAPITULO XCIV

De como El-Rei enviou requerer ao Infante D. Pedro as suas armas, que tinha em Coimbra

Após estas que para o Infante eram mortaes perseguições, lhe ordenaram seus imigos outra maior, que foi enviar-lhe El-Rei com muita estreiteza requerer entrega das armas do seu almazem, que o Infante tinha em Coimbra, onde ficaram ao tempo que o Condestabre seu filho volveu de Castella, quando foi em ajuda d'El-Rei D. João contra os Infantes d'Aragão, que tinha em Olmedo cercados, como atrás já fica dito.

E do fundamento d'este requerimento se seguia uma das duas conclusões sem outro meio, ambas ao Infante e a sua honra mui perjudiciaes, cá se obedecendo entregasse as armas, ficava de todo com suas mãos e forças atadas sem alguma sua defensa, e se denegasse a entrega, cairia em caso de rebelião e desobediencia, contra quem a indinação d'El-Rei em tal caso pareceria justa e de mais razão. Mas o Infante a que estes movimentos de seus imigos não ficavam por entender, como quer que com receio d'elles se enviasse algumas vezes, e com muita razão e honestidade escusar, El-Rei não lhe conheceu de suas escusas, antes insistio em seu proposito e cada vez com mais graveza. A que o Infante finalmente respondeu:

«Que as armas em tal tempo não lh'as devia nem podia dar, pois em seu reino e com seus vassallos não tinha d'ellas necessidade, e muito menos com os estranhos, com quem elle tanta paz lhe procurara, pedindo-lhe por mercê pois as armas de sua innocencia, que eram as mais fortes, com a contrariadade de seus imigos ante elle o não defendiam, que estas materiaes e de ferro lhe leixasse por algum tempo para detensão de sua vida e honra, e que não somente d'estas mas d'outras mais, visto seu caso com seus merecimentos lhe devia fazer mercên; porque em seu poder e para seu serviço as teria sempre mais limpas e mais certas que no seu almazem, e que se sua nobreza e real condição começasse de embicar n'elle em tão pequena contia, sendo a outros em outras muito maiores mui liberal, que de duas cousas uma houvesse por bem, ou lhe desse tempo conveniente em que lhe fizesse trazer de fóra outras tantas e melhores, ou mandasse receber o preço d'ellas em dinheiro para o almoxarife de seu almazem mandar comprar e trazer outras á sua vontade.»

Mas El-Rei d'algum d'estes não mostrou ser contente nem satisfeito.

CAPITULO XCV

Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se damnavam mais

O conde d'Arrayolos a este tempo depois da morte do conde D. Fernando era capitão e governador da cidade de Ceuta, onde por ser muito amigo do Infante D. Pedro, sendo certificado do engano e malicia que n'estes feitos andavam, desejando o serviço d'El-Rei e doendo-se do Infante, para cuja perdição todalas cousas se inclinavam, se veiu d'Africa á côrte como homem virtuoso e de justa tenção, e como quer que seu pai e seu irmão tivesse por contrairos, começou de entender com muita diligencia na concordia entre El-Rei e o Infante. Mas o duque seu padre, e o conde d'Ourem seu irmão anojados muito de seu proposito, não o podendo d'elle desviar faziam com El-Rei que em muitas cousas o desfavorecesse. Especialmente não o ouvindo as vezes que o conde requeria e desejava.

E vendo elles com tudo que sua bondade não cansava, e que sem embargo das fortes contrariadades que recebia tomava por fundamento trazer á côrte o Infante para que per si mostrasse a limpeza de suas culpas, fizeram novas fingidas, e com côres e signaes que pareciam de certeza, que os mouros vinham poderosamente cercar, ou tinham cercado Ceuta, com que o fizeram volver sem alguma conclusão em Africa, d'onde não retornou, salvo depois da morte do Infante. Porque então leixou livremente a capitania a El-Rei, que a deu ao conde D. Sancho.

E não foi o conde d'Arrayolos só a que esta enganosa quebra d'El-Rei com o Infante parecesse assi mal como era razão. Porque muitos outros bons ás vezes publica, e as mais secretamente, quizeram com El-Rei em sua concordia entender, mas os imigos do Infante punham ao coração d'El-Rei com informações erradas taes defensivos, que a lembrança de seus merecimentos para seu galardão e limpeza nunca na memoria d'El-Rei podesse entrar. Pelo qual o Infante apressado em sua alma d'estes continos padecimentos, suspirando pelo conhecimento da verdade, que havia por mais principal remedio de sua salvação, escreveu a El-Rei por seus confessores, e por outras pessoas religiosas muitas vezes, pedindo-lhe em todas por mercê, com palavras de muita piedade e com grande acatamento e obedencia «que por testemunhos e induzimentos de seus imigos o não quizesse julgar nem tão maltratar, e houvesse por bem arreda-los de seus ouvidos, e assim manda-los sair de sua côrte, como a elle por menos causas fizera; porque sendo fóra, elle não haveria seus mandados e determinações contra si por tão graves nem tão suspeitas como então lhe pareciam, e as cumpriria sem agravo nem escandalo, e lhe obedeceria com muito amor e lealdade, e que lhe lembrasse a grande perfeição e amor em que o criara, e a muita verdade e acatamento com que o sempre servira, e ao pouco que durando seu regimento em sua fazenda e estado tinha acrecentado.» E principalmente por confirmação de sua boa vontade lhe pedia «que não se esquecesse que o casara com sua filha que tanto amava, e não fôra com fundamento e desejo de apagar, mas perpetuar sua vida e real geração.»

E com estas cousas que traziam fundamento de razão e verdade, e por a condição natural d'El-Rei ser inclinada a todo razoado bem, muitas vezes se despunha a lhe pesar dos procedimentos e agravos que contra seu tio fazia, e certo parecia que as cousas de seu damno e abatimento em que consentia eram confrangidamente e sem sua vontade. Porque algumas pessoas dinas de fé e autoridade afirmaram, que uma das causas principaes porque estes feitos entre El-Rei e o Infante mais se damnaram, foi por entrevirem n'elles cartas falsas; porque umas davam a El-Rei em nome do Infante, que o Infante nunca mandara, e outras recebia o Infante com signaes d'El-Rei, em que El-Rei nunca assignara, fazendo os contrairos do Infante poer n'ellas as sustancias com que os corações de uma parte e da outra mais se damnassem.

E por certo presumir-se assi não era sem caso; porque cotejadas as cartas que n'este tempo se acharam escriptas da mão d'El-Rei para o Infante com outras muitas feitas por escrivães que lhe mandavam, bem parecia que as da mão d'El-Rei eram proprias, e de filho para pae, e as dos escrivães muito alheias; porque mostravam ser de Rei imigo para vassallo desleal, e em tanta contradição de cartas de uma só pessoa para outra, e em um tempo e sobre uma mesma sustancia, claro se podia conhecer que aquellas em que parecesse a boa vontade eram proprias e verdadeiras d'El-Rei, e as outras eram acidentaes e postiças, ou o mais certo constrangidas.