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Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) cover

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)

Chapter 81: CAPITULO CCX
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About This Book

A crónica descreve episódios militares e políticos do reinado de D. Afonso V, com foco em campanhas em África e cercos como o de Alcácer e Ceuta, a organização de defesas e a construção de fortificações. Regista escaramuças, estratégias, avisos e traições, o papel de comandantes como D. Duarte, actos de lealdade e recompensas pelos serviços. Interliga relatos táticos e logísticos com decisões da corte, além de apontar deslocações dinásticas e pretensões de título, oferecendo um relato detalhado dos conflitos e da administração militar e política daquele período.

De como se ordenaram e trataram as pazes entre Portugal e Castella, e por quaes pessoas, e com que condições e cousas sustancialmente



N'este tempo depois do destroço do Bispo e ante d'elle havia já n'este reino de gente, armas, e cavallos, e principalmente de dinheiro, que é o sustancial nervo da guerra, manifestas necessidades, e estas mesmas com outros maiores receios tambem não falleciam em Castella. Porque como os grandes e senhores principaes d'aquelle reino, por sua natural condição sempre sejam amigos de novidades e divisões, com quanto publicamente desserviam El-Rei D. Affonso; porém por fazerem seus partidos mais esforçados, nunca leixavam de trazer com elle praticas e cometimentos secretos, para outra vez o retornarem com a Rainha D. Joana a Castella. O que não ficava por saber a El-Rei D. Fernando, e á Rainha D. Isabel sua mulher, que com toda sua prosperidade eram por isso postos em terror e cuidado. Pelo qual por occultos meios de pessoas virtuosas e de santa tenção, que entre os Reis e o reino cometeram as pazes, houve de uma parte e da outra taes intelligencias, e para isso tão chegadas a conclusão, que a Rainha D. Isabel por concerto se veio á villa d'Alcantara em Castella, onde a Infante D. Briatiz de Portugal sua tia, por prazer d'El-Rei D. Affonso e do Principe D. João, se foi vêr com ella, e alli ambas tomaram assento de as pazes todavia se fazerem e concordarem n'este reino de Portugal; porque assi se houve por mais favor e mór honra d'El-Rei e de seus reinos, aos quaes a Infante com esta determinada conclusão se tornou, para execução da qual o Principe a que o negocio e cargo dos tratos e assentos das ditas pazes, por prazer d'El-Rei seu padre foi em todo cometido, por concerto já praticado se foi á villa das Alcaçovas d'entre Tejo e Odiana, onde veio por só embaixador e procurador d'El-Rei e da Rainha de Castella o doutor Rodrigo Maldonado, que vulgarmente se dizia de Tallaveira, que juntamente com D. João da Silveira, barão d'Alvito, que foi só procurador d'El-Rei e do Principe de Portugal, praticaram e concordaram as capitulações das pazes, que foram perpetuas sem alguma limitação de tempo, em que sustancialmente se tomaram estas conclusões principaes, que se concordaram e capitularam na dita villa das Alcaçovas, a quatro dias de Setembro de mil e quatrocentos e setenta e nove.

Primeiramente que El-Rei D. Affonso leixasse o titulo dos reinos de Castella e Lião. E assi mesmo El-Rei D. Fernando e a Rainha D. Isabel leixasse o titulo de Portugal, de que sem algum fundamento de direito em seu ditado se intitulavam. E a Rainha D. Joana leixasse todolos titulos de Castella e de Lião e de Portugal, de que se intitulava, e de hi em diante não se chamasse Rainha, Princesa, nem Infante, salvo depois que fosse casada, se casasse com o Principe D. João de Castella, como podia ser e ao diante se dirá.

Outro si n'estas pazes encorporaram e reformaram os capitulos das pazes antigas, feitos entre El-Rei D. João o primeiro d'estes reinos de Portugal com El-Rei D. João o segundo de Castella quando outra vez tiveram guerra. E além da aprovação das ditas pazes antigas, foi mais concordada e firmada outra nova adição e capitulação, que esta nova concordia especialmente requeria, em que sustancialmente foram declaradas e determinadas estas cousas.

Que as cidades, villas e castellos que de um reino a outro fossem tomadas, e assi os prisioneiros todos de qualquer sorte e condição que fossem, se restituissem e entregassem, e soltassem livremente, e que os Reis de Castella perdoassem como perdoaram em geral e especial a todos seus naturaes, que depois da morte d'El-Rei D. Anrique por qualquer maneira serviram e seguiram a El-Rei D. Affonso e ao Principe D. João seu filho até a publicação das pazes, e assim lhes restituissem em Castella todas suas villas, castellos, terras, lugares, e todalas rendas, officios, beneficios, e cousas para os terem e possuirem indistintamente, assi como os tinham e possuiam ao tempo que com os ditos Reis e Principe se ajuntaram.

E por alguns cavalleiros e pessoas particulares se fizeram algumas capitulações especiaes, as quaes por cautellozos e não proprios entendimentos que lhes os Reis de Castella davam, nunca depois perfeitamente se cumpriram, e assi os ditos Rei e Principe uns aos outros se remetteram, perdoaram, e quitaram todalas mortes, danos, malles, e roubos que em guerra ou tregoa de uma parte ou de outra por qualquer maneira se fizeram, e que assi se derribassem como derribaram as fortalezas que nos estremos dos reinos, de um reino e do outro novamente se fizeram.

Outrosi que o senhorio de Guiné, que é dos cabos de Não e do Bojador até os Indios inclusivamente, com todos seus mares ajacentes, ilhas, costas descobertas e por descobrir com seus tratos, pescarias e resgates, e assi as ilhas da Madeira, e dos Açores, e das Flôres, e do Cabo Verde, e assi a conquista do reino de Fez ficasse insollido, e para sempre ao dito Rei e Principe de Portugal, e a todos seus herdeiros e sobcessores para sempre, e que as ilhas das Canarias logo nomeadas, com a conquista do reino de Grada ficassem outrosi insollido aos Reis de Castella, e a seus sobcessores para sempre.

A qual capitulação, adoção e reformação nova, com todas estas cousas de Guiné e conquitas mais declaradas, o Papa Sixto quarto a requerimento e suplicação do Principe D. João depois de ser Rei, confirmou e ratificou por sua Bulla, ad perpetuam rei memoriam, em que as ditas capitulação e cousas de verbo a verbo foram todas encorporadas, com penas e excomunhões e maldições, aos que em qualquer maneira para sempre as quebrantassem, além das outras conteudas nas Bullas das doações que os outros Papas pozeram, concederam e declararam, quando d'este senhorio primeiramente a requerimento do Infante D. Anrique fizeram doação a este Rei D. Affonso, e a todos seus herdeiros e sobcessores para sempre, como na morte do dito Infante D. Anrique brevemente atrás apontei.

Outrosi que para maior seguridade e firmeza das ditas pazes, o Infante D. Affonso filho primeiro do Principe D. João de Portugal, tanto que fosse em idade de sete annos casasse por palavras de futuro, e em idade de quatorze annos por palavras de presente, com a Infante D. Isabel, filha maior dos ditos Rei e Rainha de Castella, e além dos corregimentos de sua pessoa, casa e camara, houvesse em dote quarenta contos ou milhões de reaes, pagos em certo modo e tempo, em que os vinte contos d'elle entravam em satisfação pelas despezas que El-Rei D. Affonso tinha feitas na guerra, os quaes em todo caso este reino de Portugal sempre havia d'haver, posto que os outros vinte contos por algum caso que sobreviesse houvessem de ser restituidos a Castella.

E que d'hi a certo tempo nos contratos conteudo a dita Senhora D. Joana, com todalas escripturas que tivesse, e se podessem haver ácerca do que tocava á sua subcessão de Castella, e assi os ditos Infantes fossem postos em terçaria na villa de Moura em poder da dita Infante D. Briatiz, na qual estivessem até serem perfeitamente casados. Porque outrosi foi acordado que o Principe D. João, filho dos ditos Rei e Rainha de Castella, tanto que fosse em idade de sete annos casasse por palavras de futuro com a dita Senhora D. Joana, e em idade de quatorze annos casasse com ella por palavras de presente, e então se chamaria Princesa, e haveria d'arras vinte mil florins d'Aragão, além das rendas com que bem podesse manter seu estado, e que sendo caso que o dito Principe aos ditos tempos com ella não se quizesse esposar e casar, que então ella fosse livre da terçaria, e lhe fossem entregues suas escripturas, e mais houvesse para si em Castella d'El-Rei e da Rainha cem mil dobras d'ouro de banda, pagas em dois annos, ou a cidade de Touro a penhor d'ellas, com suas rendas e jurdições sem descontar até lhe serem pagas, e podesse então despoer de si o que quizesse.

E porém que a dita Senhora D. Joana logo se pozesse em terçaria, em poder da Infante D. Briatiz com todalas ditas escripturas que fossem em seu favor, ou entrasse em religião em um de cinco moesteiros, ou em Santa Clara de Santarem, ou de Coimbra, ou no moesteiro de Christus d'Aveiro, ou no Salvador de Lisboa, ou na Conceição de Beja, em cada um dos quaes recebesse o habito, e estivesse um anno que se dizia da aprovação. Acabado o qual de necessidade escolheria uma de duas cousas, ou fazer inteira profissão, e ser freira professa no habito da ordem que recebesse, ou ir-se pôr nas terçarias de Moura com os ditos infantes D. Affonso e D. Isabel, para n'ellas estarem em poder da Infante D. Briatiz até se cumprirem os tempos e cousas dos capitulos que para cada uma d'ellas eram concordados, para que a dita Infante em sua vida e por seu fallecimento a Senhora D. Fellipa sua irmã, ou D. Diogo duque de Vizeu, e o Senhor D. Manuel seus filhos com seus alcaides e capitães e cavalleiros fossem os sós e principaes mantedores e seguradores das ditas terçarias, e n'ellas haviam de poer as guardas e officiaes á sua vontade, sem os Reis nem Principe poderem a ellas ir durando o tempo d'ellas, e para o melhor poderem fazer, houveram dos ditos Rei e Principe autentica faculdade e licença para d'elles se desnaturarem. Por tal que sem cahirem em caso, lhes fizessem cumprir todo o que por bem dos ditos tratos e capitulações fossem obrigados, das quaes cousas todas se fizeram capitulações e escripturas juradas e firmadas pelos ditos Reis.


CAPITULO CCVII


Da publicação das pazes e das mais cousas que para cumprimento d'ellas se fizeram, principalmente ácerca da Excellente Senhora D. Joana



E no fim do mez de Setembro d'este anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e setenta e nove, as ditas pazes se publicaram logo no dito lugar das Alcaçovas, e des hi por todolos reinos de Portugal e Castela, onde de hi em diante se guardaram e cumpriram inteiramente. E porém o titulo de Rainha e estado que a Senhora D. Joana tinha, não lhe foi logo tirado até os seis dias d'Outubro logo seguinte; porque então se cumpriam seis mezes que a dita Senhora D. Joana teve de liberdade, para sem quebrantamento d'estas pazes se poder sair dos reinos de Portugal, mas em tal caso não podia d'elles, nem d'El-Rei e do Principe por alguma maneira receber ajuda nem soccorro, nem menos ser por elles intitulada Rainha, Princesa nem Infante, e porque isto não sobcedeo á dita Senhora em Castella como á sua honra, estado e desejo cumpria, sendo forçado escolher um de dois meios que para ella eram estremos de mortal sentimento, ou poer-se em terçaria ou entrar em religião, ella escolheu por melhor entrar em religião. Pelo qual estando ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dorosas lamentações suas e de todolos seus, leixou o titulo de Rainha e tomou nome de D. Joana, e despio seu corpo dos brocados e sedas que trazia, e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu agravo e magoa não lhe leixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assi entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.

E na execução d'estas cousas porque a necessidade d'outras muitas assi o requeria, o só e principal ministro era o Principe; porque El-Rei D. Affonso seu padre de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as leixou inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade El-Rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sobjeito.

Mas se o Principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a Senhora D. Joana, porventura mais do que por razão, piedade, e temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do casamento do Infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma esperança da sobcessão de Castella, a desaventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo Divino, pela culpa do Principe se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos innocentes Principe e Princesa, depois de novamente casados, sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de Santarem, que contra a Senhora D. Joana foi o talho d'esta primeira sua crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o Principe D. João depois de ser Rei á vista da mesma Excellente Senhora vio a supita e desastrada morte do Principe D. Affonso seu filho, e a quem á primeira pareceo, que sendo vivo os reinos de Portugal sem os de Castella lhe não abastariam, elle o vio logo morto, e de uma pouca de terra para sempre sobjeito e contente, e a triste e innocente Princesa sua mulher ante de bem casada se vio logo ser viuva, privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos, e ollandas delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua conversação, e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos esposada cuberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e trotões á vista de todos. E saindo logo d'elles viuva, cuberta de vaso e almafega, em cima d'azemolas, escondida de todos.

Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes, soffrei-vos um pouco, cá para outro mais proprio lugar estaes reservadas.

Nem a culpa do solemne, mas simulado e cautelozo juramento que El-Rei e a Rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta Senhora com o Principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceo que se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do Principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle em que com esta Senhora prometeram e juraram de o casar; porque elle já então era casado com Madama Margarida, filha do Rei dos romãos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes Principes de que os Reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento faziam, ficar algum ligitimo herdeiro descendente que os subcedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados.


CAPITULO CCVIII


Da grande pestelença que sobreveio a estes reinos, e como se fez a profissão á Excellente Senhora D. Joana



El-Rei D. Affonso e o Principe com toda a côrte se foram logo a Lisboa, d'onde no Janeiro do anno que vinha de mil e quatrocentos e oitenta se partiram, por causa da grande e mui crua pestenença que na cidade sobreveio, a qual em todo este reino durou bem dezasete annos, que se acabaram nos primeiros dias em que El-Rei D. Manuel nosso Senhor depois começou de reinar, que foi no tempo em que como catholico Principe de todo tirou e arrancou de seus reinos a velha lei de Moysés, e a errada seita de Mafamede, lançando fóra d'elles os judeus que não quizeram ser christãos, e assi os mouros, como infernaes ministros e discipulos d'ellas.

El-Rei D. Affonso se foi a Viana d'Alvito, e o Principe e Princesa a Beja, e a Excellente Senhora porque Santarem da mesma pestenença foi logo contaminado, com gente d'armas que a sempre guardou, foi levada ao mosteiro de Santa Clara d'Evora.

E porque o Principe no anno passado ante das pazes soube que certa armada era ida de Castella resgatar contra sua defesa á Mina, armou contra ella outra de que por uma vez foi capitão mór Jorge Corrêa, comendador do Pinheiro, e da outra Mem Palha, homens honrados e bons cavalleiros. Os quaes toparam na Mina os castelhanos, e assi os cometeram que muito a seu salvo lhes tomaram sua frota, com muito ouro e mercadorias, e trouxeram suas pessoas presos e captivos a Lisboa, que por condição das pazes foram soltos, e o ouro que foi muita soma assi como vinha em joias e arrieis foi levado a Beja, de muita parte do qual o Principe fez mercê aos embaixadores de Castella, que depois a Moura vieram sobre o concerto das terçarias.

E porque Evora no verão d'este anno começou corromper-se de pestenença, foi logo d'ella tirada a Excelente Senhora, e levada com sua guarda ao Vimieiro, onde o Principe veio, e d'alli a levaram ao mosteiro de Santa Clara de Coimbra. E El-Rei D. Affonso se foi a Villa Viçosa, e de hi na entrada do inverno a Coimbra, e o Principe após elle.

E porque n'aquelle mesmo tempo se cumpria o anno de aprovação, que á Senhora D. Joana fôra dado para no cabo d'elle escolher, ou entrar em terçaria em poder da dita Infante D. Briatiz, ou fazer profissão, chegaram alli por embaixadores e procuradores d'El-Rei e da Rainha de Castella o Prior de Prado, que depois foi o primeiro Arcebispo de Grada, e o doutor Affonso Manuel, para serem no auto e execução de qualquer d'estas cousas que a dita Senhora escolhesse.

E n'este tempo e na mesma cidade de Coimbra adoeceu El-Rei D. Affonso de grande infermidade, de que esteve á morte, e a causa d'ella segundo seus acidentes era sómente reportada a nojo e padecimentos que recebia por a mudança e cousas da Excellente Senhora, para que era constrangido. A qual forçada para dois estremos á sua alma tão amargosos e tristes, não fiando nem segurando sua vida na entrada das terçarias, não por duvidar da bondade, conciencia e virtudes da Infante D. Briatiz, mas receando-se da continua conversação e familiaridade de castelhanos contrairos, que não podia escusar, e assi movida por outros respeitos, escolheu por melhor fazer de todo profissão no mesmo habito de Santa Clara que trazia, e n'elle servir a Deos antes que tomar partido tão incerto, e para sua vida e sua honra tão duvidoso. E na bespora do dia em que foi ordenado a dita Senhora fazer profissão, foi no mosteiro tamanho pranto de seus criados e criadas que alli ocorreram, como se a houveram de soterrar. E com isto em alguma maneira foi de seu proposito revolta para não fazer profissão, a que o Principe acudio, e assi a soube temperar com esperanças de futuro bem, e com palavras assi brandas e prudentes, que de todo a confirmou em despejadamente fazer a dita profissão, a qual fez dentro no dito mosteiro, a quinze dias do mez de Novembro do dito anno de mil e quatrocentos e oitenta.

E ao auto da dita profissão esteve o Principe sem El-Rei, e com elle foram a ella presentes os ditos embaixadores de Castella, e todolos grandes senhores, Prelados e fidalgos da côrte de Portugal, perante os quaes depois de ser reconhecida por a mesma Senhora D. Joana, ella com uma paciencia e segurança com que a muitos commovia a muitas lagrimas, das mãos de Frei Diogo d'Abrantes recebeu o veo preto, na fórma, e com a solenidade e cerimonias que a dita ordem manda. Do qual todos os ditos embaixadores logo pediram publicos estromentos, que depois lhe foram dados á sua vontade.

N'este tempo foi a cidade de Rodes cercada de turcos, e posta em grande afronta, sendo Gram Mestre D. Frei Pedro d'Ahábusam, a cujo socorro foi d'estes reinos D. Diogo Fernandes d'Almeida que trazia o habito da dita Ordem, e era eleito para ser como foi Prior do Crato, e foi bem armado e aparelhado, e no caminho e em Rodes ganhou muita honra, sendo ferido pelejando com gallés, e fazendo ricas presas como homem de nobre sangue, a que em todas suas cousas d'antes e depois nunca falleceu discressão, bondades, e grande esforço de coração.


CAPITULO CCIX


De como se fizeram as entregas do Infante D. Affonso e da Infante D. Isabel nas terçarias de Moura



E feita a dita profissão, o Principe se partiu de Coimbra, e mui aforrado chegou a Beja onde era a Princesa sua mulher e o Infante D. Affonso seu filho, que ainda não era de cinco annos.

E porque no mesmo dia se cumpria o tempo em que o dito Infante havia de ser entregue em Moura em poder da Infante D. Briatiz como era sob grandes penas capitulado, na mesma hora que o Principe chegou, logo por prazer da Princesa o inviara mui honradamente a Moura. E não partiu d'ante elles com menos dôr e saudade que se lhes levara os corações d'ambos, e o arrancaram de sua propria carne, e não era sem causa; porque alem de ser só filho ainda, n'elle havia em tudo tantas e tão angelicas perfeições, que o privar de sua vista e conversação assi o merecia. Mas por cumprirem o que como bons e verdadeiros Principes deviam, posta a natural dôr que o contradizia, despensando com a privação do filho pela piedade do reino, permitiram que o primeiro caminho que seus mui tenros pés fizessem, fossem com risco de sua vida ir tirar a guerra e a morte dos reinos, porque então já esperavam.

E com tanta aflição do corpo e d'alma, não havia quem a estes Principes mais confortasse que a fé e verdade que a Deus e ao mundo sem cautella sempre mantiveram com grande cuidado; porque n'estas que eram suas proprias virtudes, para sua consolação e descanso ora buscavam ante elles rasões e confortos, com que lhe alimpavam as reaes lagrimas, que sua humanidade não podia escusar.

E como o Infante D. Affonso foi assi entregue, logo o Principe e a Infante D. Briatiz, por Rodrigo Affonso e por Ruy de Pina notificaram sua entrega, e a profissão da Senhora D. Joana á Infante D. Isabel e aos Senhores de Castella que a traziam e com ella estavam na villa da Fonte do Mestre, para ella vir e ser tambem entregue na dita terçaria, como era capitulado. E feita a dita notificação, logo D. Affonso de Cardenas, Mestre de Santiago, e D. Diogo Furtado de Mendonça, Bispo de Pallença, e D. Affonso d'Afonseca, Bispo de Avyla, e outros senhores que com ella eram se vieram a Freixinal.

E d'hi se emaderam mais e juntamente por embaixadores d'El-Rei e da Rainha de Castella, aos outros que foram a Coimbra, o Bispo de Coria D. João de Ortiga, e o licenceado d'Ilhescas, os quaes todos quatro sem a Infante se vieram diante a Moura, onde com o Infante D. Affonso e com a Infante D. Briatiz, eram já o duque de Vizeu D. Diogo, e o duque de Bragança D. Fernando, e o conde de Faram D. Affonso, e o senhor D. Alvaro, com outros senhores e fidalgos do reino, e por procuradores d'El-Rei e do Principe D. João de Mello, Bispo de Silves, e D. João da Silveira, barão d'Alvito, para todos concordarem e praticarem as menagens, seguridades e desnaturamentos, e cousas que para entrega e vinda da dita Infante D. Isabel cumpriam. Nas quaes por parte dos dois derradeiros embaixadores de Castella, contra a opinião e voto dos outros primeiros se moveram e apontaram de novo tantas duvidas e condições para dilatarem a entrega da dita Infante, com que foi necessario ir algumas vezes consulta ao Principe, que era em Beja; porque todo este negocio sobre elle pendia, o qual anojado de suas importunações e injustas delongas, finalmente enviou aos ditos embaixadores dois escriptos, com duas palavras feitas de sua mão, e em um dizia Paz, e no outro Guerra, e mandou que no Conselho onde os de um reino e do outro cada dia se juntavam fossem os ditos escriptos apresentados aos ditos embaixadores, e que logo em nome dos Reis seus Senhores escolhessem um d'elles, qual quizessem, e que se tomassem o da guerra, que mais seria d'ella contente por ser uma guerra, que de paz, que tantas guerras lhe dava. E que se quizessem o da paz, que d'elle tambem lhe prazia sem mais negociações das que já eram concordadas, e que para isso logo trouxessem e entregassem a Infante.

Os quaes dois escriptos do Principe, com sua determinação tão perantoria tiveram no Conselho tanta força, que os embaixadores todos sem mais altercações se conformaram e acordaram a entrega da dita Infante, que foi a onze dias do mez de Janeiro de mil e quatrocentos e oitenta e um, a que a Infante D. Briatiz com toda a frol e gentileza de Portugal que alli foi junta sahio, e a uma legoa de Moura junto com a quintã que dizem da Coroada, e no meio de um ribeiro que alli corre, das mãos dos ditos senhores e embaixadores de Castella recebeu a dita Infante D. Isabel. E entregou a elles o Senhor D. Manuel seu filho, que com a gente que á sua honra e estado cumpria, levaram á côrte dos Reis de Castella em lugar do duque D. Diogo seu irmão, que por contrato das terçarias houvera primeiro de ser entregue, mas por a este tempo o duque ser doente, ficou por então até ser são, mas verdadeiramente assi foi muita razão, e ainda pareceu quere-lo assi Deos, que o Senhor D. Manuel primeiro fosse arrefens e segurança da paz e assessego dos reinos de Portugal, pois elle por graça Divina primeiro os havia de sobceder com a mesma paz e assessego como sobcedeu, e ao diante se dirá.

E porém o duque foi depois a Castella, e o Senhor D. Manuel tornou a Portugal, como em seus tempos e lugares será declarado.

E porque a villa e fortaleza de Moura em que terçarias foram logo ordenadas, e em que o Principe á sua custa para os Infantes mandou fazer honrados aposentamentos, era nos verãos naturalmente muito doentia e perigosa, requereu o Principe a El-Rei e á Rainha de Castella e á Infante D. Briatiz, que para segurança das vidas e pessoas dos ditos Infantes, houvessem por bem as ditas terçarias pelas mesmas condições se mudarem á villa de Beja, que de seu sitio era sã e de bons ares.

E por algum consentimento, que com razão os ditos Senhores Reis e Infantes logo para isso deram, o Principe mandou fazer grandes percebimentos de pedraria e madeiras e officiaes, para no castello de Beja se fazerem outros aposentamentos. E elle e a Princesa se foram de Beja ter a Pascoa da Resurreição a Torres Novas, onde era El-Rei D. Affonso. Mas porque a Infante D. Briatiz por conselhos e induzimentos não verdadeiros, com que pareceu que foi enganada, mudou este proposito, e com todo o grande perigo de Moura quiz ficar no primeiro de se não mudar da dita villa, o Principe começou tomar d'ella alguns descontentamentos, pelos quaes logo desejou desfazer ou mudar as ditas terçarias em outra maneira.


CAPITULO CCX


Do socorro que pelo Bispo d'Evora foi enviado contra o Turco, quando tomou a cidade do Tranto em Italia



E por quanto no anno passado de mil e quatrocentos e oitenta, o exercito do Gran Turco com seus capitães passou em Italia no reino de Napoles, e por força tomou na Pulha a cidade de Tranto com outras villas e castellos, com grande e piadoso estrago de christãos, e D. Affonso duque de Callabria, filho d'El-Rei de Napoles era já em cerco sobre a cidade para a cobrar; o papa Sixto quarto, que então era presidente na Igreja de Deos, por atalhar á destruição de Italia e Roma, que se aparelhava, enviou pedir socorro e ajuda a todolos Reis e Principes christãos, para que outorgou certas dizimas que mandou lançar pela clerezia, pela qual El-Rei D. Affonso e o Principe seu filho estando em Torres Novas, por obedecer ao Padre Santo em obra tão santa e tão piadosa, e que de seus corações e legitima devoção não era alheia, depois de as dizimas serem ordinariamente tiradas, e elles darem para isso toda outra ajuda necessaria, enviaram para a dita expunação do Tranto e resistencia do Turco o Bispo d'Evora D. Garcia de Menezes com grande frota, e muita e mui nobre gente de seus reinos, que de caminho tocando em Barcellona onde eram os Reis de Castella, foi a gente de Portugal e suas armas e gentileza muito louvada. E de ahi foi a Ostia, porto de Roma, por onde entrou pelo Tibre acima, e o Papa o recebeu e ouviu em S. Paulo, onde o Bispo porque entre os bons oradores de Italia era singular orador, lhe fez uma elegante, e para o caso mui louvada oração.

E em fim por acabar primeiro com o Papa seus feitos, e haver com o bispado d'Evora, que tinha, o da Guarda que juntamente houve, fez alli, e depois em Napoles indo já caminho do Tranto tanta demora, que não sómente não foi onde era ordenado, mas ainda por sua longa estada lhe adoeceo e morreu muita gente. E porque alli veio certa nova que pela morte do Turco que então de peçonha morrera em Grecia, os que em seu nome tinham a cidade de Tranto desesperados de soccorro, por partido se deram ao dito duque de Calabria, o dito Bispo d'Evora cessou de sua ida. E depois de despedir em Roma suas cousas, se veio a estes reinos depois da morte d'El-Rei D. Affonso.


CAPITULO CCXI


De como o duque de Vizeu foi a Castella, e se tornou a Portugal o Senhor D. Manuel seu irmão



E o duque de Vizeu tanto que de sua doença convalleceo, com estado de grande Principe, e acompanhado de muitos fidalgos e d'outra muita escolhida gente sua e d'El-Rei, indo-se á côrte dos Reis de Castella como era concordado, adoeceu outra vez em Caceres, onde por mandado dos ditos Reis tinha cargo de o acompanhar e servir D. Pedro Portocarreiro, senhor de Palma. E de hi com algum melhoramento se foi a Madril, d'onde o Senhor D. Manuel seu irmão que alli era, se despedio d'elle, e se tornou a estes reinos a Moura.

O duque de Vizeu ficou para cumprir o tempo que era capitulado, e foi a tempo que El-Rei de Castella então se partira socorrer e abastecer a gram pressa a villa d'Alfama do reino de Grada, que o marquez de Callez então tomara, e porém a Rainha vio o duque de Vizeu secretamente; porque outra vista sua e recebimento publico se fez depois em Cordova, d'onde o duque sahio a receber El-Rei o dia que n'ella entrou, vindo anojado e descontente do cerco de Loxa, em que por aquella vez sua ida e victoria não sobcedeo á sua vontade, porque foi pelos mouros feito em sua gente grande destroço, e mataram-lhe o mestre de Calatrava, com outra nobre gente.


CAPITULO CCXII


De como foi a morte d'El-Rei D. Affonso



E depois da profissão da Excellente Senhora; porque El-Rei D. Affonso em Coimbra foi em ponto de morte como disse, nunca mais foi alegre, e sempre andou retraido, maginativo e pensoso, mais como homem que avorrecia as cousas do mundo, que como Rei que as estimava. Pelo qual no seguinte verão elle foi a Beja vêr o Principe seu filho e a Princesa D. Leanor sua mulher, e alli tiveram o pae e o filho entre si praticas secretas, em que El-Rei determinou querer no fim d'este anno se vivera fazer côrtes geraes em Estremoz; porque em Lisboa e Evora morriam, e leixar a inteira governança dos reinos ao Principe seu filho, e elle em habitos honestos de leigo e não com obrigação de religião se retraer no mosteiro de Varatojo junto com Torres Vedras, que elle de novo fundou para alli servir a Deos e em sua vida temperar e remediar os odios e dissenções que já entendia que por sua morte entre o Principe seu filho e os da casa de Bragança se não podiam escusar, e cousa justa fôra permitir então a bondade e misericordia de Deos este bem, porque tanto mal depois se não seguia, e porém o Principe ficou em Beja para d'alli continuadamente mandar visitar e prover o Infante D. Affonso seu filho, e a Infante D. Isabel que eram na terçaria em Moura, como sempre fez.

E El-Rei D. Affonso na entrada d'Agosto se foi a Cintra, onde adoeceu de febre muito aguda, de que o Principe sendo avisado, a gram pressa foi logo com elle, que achou já em desposição mortal e sem esperança de vida. Na qual El-Rei tendo feito seu testamento, e recebendo todolos sacramentos alli acabou como bom e catholico christão, dando sua alma a Deos a vinte e oito dias d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor Jesu Christo de mil e quatrocentos e oitenta e um. E na propria casa em que nasceo, ali morreu e acabou. Foi seu corpo logo metido em um ataude, e posto sobre uma azemola que com cruzes, tochas, e clerigos foi pelo conde de Monsanto, que hi era, e por outros fidalgos levado ao mosteiro da Batalha, e enterrado na casa do cabido, onde jaz até haver sua solemne merecida sepultura.


CAPITULO CCXIII


Das feições, bondades e virtudes d'El Rei D. Affonso



Foi El-Rei D. Affonso Principe mais de grande que meã estatura, e em todos seus membros bem feito e mui proporcionado, salvo que nos derradeiros dias foi algum tanto envolto em carne, e por encuberta d'isso costumava sempre vestiduras soltas; teve o rosto redondo, bem povoado de barba preta, e em todalas outras partes do corpo muito cabeludo, salvo na cabeça, em que depois de trinta annos começou de ser calvo.

Foi Principe de mui granciosa presença, grande humanidade, e doce conversação, mas foi em tanto extremo, que para Rei superior não foi muito de louvar; porque com grande familiaridade que de si, contra sua gravidade e estado real a muitos dava, além de lhe muitas vezes não guardarem aquella reverencia e acatamento que deviam, tomavam ainda atrevimento de lhe requerer, e elle vergonha de lhe não outorgar muitas e maiores cousas do que os merecimentos nem honestidade, nem do que o acrecentamento de patrimonio real requeriam, segundo todo Rei e Principe é obrigado. Foi de grande memoria e maduro entender, e de sutil engenho, remisso mais que trigoso nas graves execuções. Especialmente nas da justiça que tocavam contra grandes pessoas, as quaes mais folgava de dessimular ou temperar brandamente, que executal-as com rigor, e crê-se que isto procedia de sua grande humanidade, e assi por assessego de seus reinos. Suas palavras no que queria dizer eram sempre bem ordenadas, e entoadas com mui gracioso orgão, e por pena, de seu natural escrevia assi bem, como se por longo ensino e exercicio d'oratoria artificialmente o aprendera; foi amador de justiça e de ciencia, e honrou muito os que a sabiam.

Foi o primeiro Rei d'estes reinos que ajuntou bons livros, e fez livraria em seus paços, e tambem foi o primeiro Rei que pelas praças e lugares publicos das cidades e villas de seus reinos fez a todos mui familiar sua vista, porque até seu tempo os Reis d'estes reinos assi raramente o faziam, que quando alguma hora ante a face do povo sahiam, concorria de todalas ruas tanta gente para os vêr, como se fosse uma gram novidade, mas isto procedeo de sua humana condição, por as gentes mais facilmente lhe poderem pedir mercê e requerer justiça, em cujo despacho foi sempre mui liberal e atento.

Foi tão confiado de seu saber, que com dificuldade queria estar por alheios conselhos se contradiziam sua vontade, especialmente nas cousas da guerra dos mouros, em cujo proseguimento foi sempre tão aceso e inclinado, que ácerca d'isso todo seu apetito lhe pareciam vivas razões; foi Principe mui catholico e amigo de Deos, e mui fervente na fé; ouvia continuada e mui devotamente os Officios Divinos, e pela mór parte sem grandes pompas e cerimonias; deleitava-se com homens honestos religiosos e de bom viver, e com elles apartado muitas vezes, ao seu modo conversava, e com isto em seu tempo deu causa que muitos fingidamente quizeram parecer de fóra melhores do que eram de dentro, e esta especie de hypocrisia depois de sair das casas de Deos, entrou nas casas dos homens, que a muitos aproveitou, de que não faço alguma especificação por não ser odioso, pois não é necessaria.

Foi no comer, beber, e dormir mui regrado, e sobre tudo de mui louvada continencia; porque havendo não mais de XXIII annos, ao tempo que a Rainha sua mulher falleceu, sendo aquella idade de maiores pongimentos e alterações da carne, tendo para isso muita desposição e despejo, foi depois ácerca de mulheres muito abstinente, ao menos cauto.

Nos trabalhos do corpo que se lhe offereciam, ou elle por seu prazer queria tomar, não era delicado, antes os soffria bem e como outro homem robusto n'elles criado.

Folgou muito d'ouvir musica, e de seu natural sem algum artificio teve para ella bom sentimento.

Foi esmolador e de mui piedosa condição. E na nobreza e liberalidade teve sem medida tanta parte, que mais propriamente se podia dizer prodigo que verdadeiro liberal, especialmente nas cousas da corôa do reino, de que sem grandes merecimentos nem muita necessidade, mas por sós manhas e praticas que com elle os grandes usavam, a desguarneceo e minguou em não pouca parte. Poucas vezes e por poucas cousas recebia ira nem senha, e as semelhantes cousas porque se lhe causava, em que a consciencia o não contradizia, levemente as perdoava, e por ser Principe de mui alto e esforçado coração, foi sempre zelador de emprender cousas arduas, e prosegui-las por armas como cavaleiro, mais que de entender como Rei no regimento civel e politico de reinos.

Viveu quarenta e nove annos, de que foi Rei os quarenta e tres. E d'estes os XXXIII regeo persi o reino; porque dez annos primeiros de seu reinado, por sua pouca idade regeo por elle o Infante D. Pedro seu sogro e tio, como atraz fica.


FIM DO III E ULTIMO VOLUME




INDEX


1º VOLUME



capitulo pagina
I—Narração 12
II—Alevantamento d'El-Rei 14
III—De como começaram de entender nas cousas do reino e se viu o testamento d'El-Rei 17
IV—Da vinda do Infante D. Anrique á côrte, e das cousas que se logo acordaram 19
V—Como o Infante D. Fernando foi jurado por Principe, se El-Rei não houvesse filho legitimo 21
VI—Primeiro consentimento da Rainha para El-Rei seu filho casar com a filha do Infante D. Pedro 22
VII—Resposta do Infante D. Pedro á Rainha 23
VIII—Contradicção que houve em algumas pessoas no consentimento do casamento d'El-Rei com a filha do Infante D. Pedro 24
IX—De como se fez o saimento d'El-Rei no mosteiro da Batalha 26
X—Como ante de se fazerem as primeiras côrtes em Torres Novas, se fez uma conjuração contra o Infante D. Pedro 27
XI—Como se deu a obediencia e fizeram as menagens a El-Rei e se praticou sobre quem regeria 29
XII—Concordia feita entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do regimento 30
XIII—Da contradicção e mudança que houve n'este acordo 31
XIV—Apontamentos que publicamente se fizeram contra o testamento de El-Rei para a Rainha não dever reger 32
XV—Do meio que o Infante D. Anrique tomou entre a Rainha e o Infante D. Pedro acerca do Regimento 34
XVI—Como a Rainha por meio do conde de Barcellos enviou pedir ao Infante D. Pedro o alvará que lhe tinha dado sobre o casamento d'El-Rei 37
XVII—Como El-Rei se foi a Lisboa, onde o Infante D. João veiu a primeira vez 39
XVIII—Do despacho que se deu aos embaixadores de Castella 40
XIX—Como a Rainha começou de reger e ser em seu regimento prasmada 42
XX—Fallecimento da Infante D. Filippa 43
XXI—Nascimento da Infante D. Joana 43
XXI—Praticas que o Infante D. Pedro teve sobre descontentamentos que tinha da Rainha ácerca do regimento 44
XXII—Como o Infante D. Pedro e o Infante D. João ambos se viram e fallaram sobre o regimento 45
XXIII—Como a rainha lançou fora de sua casa certas donzellas por suspeitas a ella, e affeiçoadas ao Infante D. Pedro 48
XXIV—Do alvoroço que se seguiu contra a Rainha pela execução dos varejos de Lisboa 49
XXV—Ida do conde d'Arrayolos a Lisboa sobre assessego d'ella, e como não aproveitou 51
XXVI—Como o Infante D. Pedro foi a Lisboa reprender e assessegar as uniões da cidade 54
XXVII—Como a Rainha mandou secretamente preceber os de sua valia que viessem ás côrtes armados 56
XXVIII—Como o Infante D. Pedro e o Infante D. João sobre estas cousas se tornaram a vêr, e o que acordaram 58
XXIX—Como o Infante D. Pedro avisou e percebeu o reino sobre os alvoroços que se ordenavam 60
XXX—Como se o Infante despediu da Rainha, e da falla que como descontente lhe fez 61
XXXI—Como a Rainha com El Rei e seus filhos se foi a Alanquer, e do que se seguiu em Lisboa 62
XXXII—Acordo que o povo de Lisboa fez acerca do regimento 64
XXXIII—Como a cidade de Lisboa entendeu contra o Arcebispo D. Pedro pelos cubelos da alcaçova que tomou 65
XXXIV—Vinda do Infante D. João á cidade 67
XXXV—Como a Rainha escreveu a Lisboa e todo o reino sobre o assessego d'elle 67
XXXVI—Declaração que Lisboa fez de o Infante D. Pedro só reger o reino 68
XXXVII—Forma do acordo sobre o Regimento 70
XXXVIII—Notificação d'este acordo ao Infante D. João, que o approvou 72
XXXIX—Notificação do dito acordo á Rainha, que o contrariou, e assi aos Infantes e ao reino 73
XL—Partida do Arcebispo D. Pedro fóra do reino 75
XLI—Como o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e dado ao Infante D. João, e o que se n'isso seguiu 77
XLII—Mandou a Rainha velar e afortalezar Alanquer, onde tinha El-Rei 81
XLIII—Dissensão que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique 81
XLIV—Embaixada dos Infantes á Rainha 83
XLV—Recado da Rainha ao Infante D. Pedro quando de Coimbra vinha para Lisboa ás côrtes 85
XLVI—Entrada do Infante D. Pedro em Lisboa, e como ante as côrtes acceitou o Regimento 88
XLVII—Notificação do acordo passado á Rainha, que o não consentiu 91
XLVIII—Ida do Infante D. Anrique á Rainha para leixar vir El-Rei ás côrtes, e lh'o tornarem 92
XLIX—Entrada de El-Rei em Lisboa para as côrtes 93
L—De como se apontou e aprovou não ser bem El-Rei se crear em poder da Rainha 96
LI—Como a rainha teve pratica com os seus principaes sobre a ida dos Infantes a ella como se foi a Cintra e leixou El-Rei e seu irmão 101
LII—Como Lisboa cometeu de querer fazer uma estatua ao Infante D. Pedro pelo beneficio do relevamento das aposentadorias, e do que lhe respondeu 104
LIII—Como a Rainha sobre suas cousas se querellou aos Infantes d'Aragão seus irmãos, e da embaixada que enviaram 106
LIV—De como se entendeu na redempção do Infante D. Fernando, e do que se seguiu 108
LV—Como a Rainha D. Lianor se partiu de Cintra para Almeirim contra vontade de d'El-Rei e dos Infantes, e como se El-Rei foi a Santarem, e do que se seguiu 113
LVI—Liança do Infante D. Pedro com o Condestabre e Mestre d'Alcantara de Castella, contra os Infantes d'Aragão, e das ajudas que lhe deu 115
LVII—Conselhos que o Infante D. Pedro teve sobre o assessego e segurança d'estas cousas, e como a Rainha fingidamente se concordou com elle 117
LVIII—Como o conde de Barcellos desdisse muito á Rainha esta concordia com o Infante, em caso que não fosse verdadeira 119
LIX—Como o Priol do Crato consentiu em receber a Rainha em suas fortalezas 120
LX—Como o conde de Barcellos fez liança com os Infantes d'Aragão, e como foi por isso muito prasmado 121
LXI—Como o Infante D. Anrique se viu com o conde de Barcellos seu irmão para o concordar com o Infante D. Pedro 123
LXII—De como veiu a El-Rei embaixada de Castella, e como foi recebida 124
LXIII—Como o Infante D. Anrique procurou de trazer o Priol do Crato a serviço e prazer do Infante D. Pedro, e do que n'isso passou 127
LXIV—De como se a Rainha aconselhou sobre a ida para o Crato, e como emfim posposto o conselho se partiu 128
LXV—Do que fizeram os da Rainha depois que souberam da sua partida 130
LXVI—De como o Regente foi avisado da secreta partida da Rainha, e do que logo sobr'isso se fez 131
LXVII—Do que a Rainha fez depois de ser no Crato 134
LXVIII—Como falleciam os mantimentos á Rainha e ao Priol do Crato 135
LXIX—De uma embaixada d'El-Rei d'Aragão e de Napoles que veiu ao Infante D. Pedro sobre os feitos da Rainha 136
LXX—De como o Regente determinou pôr cêrco ao Crato e ás outras fortalezas do Priol, e a que pessoas os cêrcos foram encommendados 137
LXXI—Como El-Rei quiz vêr e viu o capitão na ordenança de guerra em que vinha 139
LXXII—Como a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos para se bastecer, e do que fizeram 141
LXXIII—Da resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua embaixada enviou a Roma requerer 142
LXXIV—Como em se accordando o cêrco do Crato soube o regente que a Rainha D. Lianor era partida do Crato para Castella, e como todavia seguiu, e do que se fez 144
LXXV—Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego para passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em defeza, e do que se n'isso passou 148
LXXVI—Das côrtes que se fizeram sobre o casamento d'El-Rei com a Rainha D. Isabel, filha do Infante D. Pedro 152
LXXVII—Como o Regente por meio do conde de Barcellos procurou de se concordar com a Rainha D. Lianor, e das cousas porque ella não quiz 153
LXXVIII—Como a Rainha D. Lianor se foi á côrte de El-Rei de Castella, e das embaixadas que vieram a Portugal 155
LXXIX—De como o Regente sobre a resposta que a estas embaixadas se daria, fez côrtes geraes 157


2.º VOLUME


LXXX—D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que houveram, e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da Rainha 5
LXXXI—De como o Infante D. João falleceu, e que filhos d'elle ficaram 10
LXXXII—De como falleceu o filho do Infante D. João que era Condestabre, e como o filho maior do Infante D. Pedro foi d'aquella dinidade provido, que foi causa e fundamento da morte do dito Infante D. Pedro 12
LXXXIII—De como foi a morte do Infante D.Fernando que era captivo em Fez 14
LXXXIV—De como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando já para se tornar a Portugal 15
LXXXV—Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra os Infantes d'Aragão, e do que se passou até tornar 19
LXXXVI—De como o Regente fez côrtes geraes, em que leixou a El-Rei a primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e como El-Rei lh'o tornou a dar 22
LXXXVII—De como as filhas do Infante D. João foram casadas 25
LXXXVIII—Como El-Rei por meio do duque e de seu filho o conde d'Ourem pediu ao Infante o Regimento do Reino, e como inteiramente lh'o leixou 27
LXXXIX—Das cousas que o conde de Barcellos fez em abatimento do Infante D. Pedro depois que soube que já não regia, e para lançarem o Infante fóra da côrte 29
XC—Como o Infante D. Anrique entendeu nas cousas do Infante D. Pedro para seu favor, e assi o conde d'Abranches 34
XCI—Vinda do conde d'Abranches ás côrtes 35
XCII—De como o Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o Infante D. Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se seguiram 37
XCIII—De uma fórma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras cousas que contra o dito Infante se seguiram 39
XCIV—De como El-Rei enviou requerer ao Infante D. Pedro as suas armas, que tinha em Coimbra 41
XCV—Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se damnavam mais 43
XCVI—De como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua côrte, e como o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não leixaria-o passar por sua terra 46
XCVII—Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo já em caminho 48
XCVIII—Da resposta do duque ao Infante D. Pedro 49
XCIX—Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para não leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao Infante D. Pedro enviou 51
C—De como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque, e se percebeu e partiu para isso 55
CI—De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a cavallo 56
CII—De outra falla que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe respondeu 58
CIII—D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou não leixar o seu caminho 60
CIV—De como o conde d'Abranches fallou ao Infante, aconselhando-o que desse no duque 62
CV—De como o duque não quiz esperar o Infante, e se salvou atravessando secretamente a Serra d'Estrella, e do que o Infante sobr'isso disse e fez 63
CVI—Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez contra o Infante 66
CVII—De como El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer geraes percebimentos de guerra para ir sobr'elle 68
CVIII—Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre o Tejo e Odiana 70
CIX—De uma carta que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre, sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou destruição, e do conselho e determinação que o Infante sobr'ella teve 72
CX—Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposição foram dados 75
CXI—De como o Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que foi morrer 78
CXII—Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de morrer um quando outro morresse 79
CXIII—Como a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre se elle lhe pedisse perdão, e assi lh'o escreveu, e a causa porque não houve effeito 81
CXIV—Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que amor nem afeição entre El-Rei e a Rainha sua mulher 84
CXV—De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia por meio de religiosos fez com El-Rei 85
CXVI—Como El-Rei não tinha possibilidade de ir sobre o Infante como proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua morte 87
CXVII—Como o Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu caminho até Rio Maior, e do conselho que hi teve 89
CXVIII—Como o Infante partiu de Rio Maior e se foi a Alcoentre, e as pessoas d'El-Rei que hi mandou matar, e a causa porque 94
CXIX—Como El-Rei proveu e segurou a cidade de Lisboa, para o Infante se não recolher a ella 96
CXX—Como o Infante partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro d'Alfarrobeira 97
CXXI—Como El-Rei chegou sobre o arraial do Infante D. Pedro, e como por caso e sem deliberação se seguiu sua morte 99
CXXII—Como o conde d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou como esforçado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo da batalha 102
CXXIII—Da maneira que se teve com o corpo do Infante D. Pedro, e como foi vilmente tratado e soterrado 104
CXXIV—Exclamação á morte do Infante D. Pedro 105
CXXV—Das feições, costumes e virtudes do Infante D. Pedro 110
CXXVI—Do que a Rainha fez com a nova da morte do Infante seu padre 113
CXXVII—Como a Infante mulher do Infante D. Pedro soube de sua morte, e do que se fez de seus filhos 114
CXXVIII—Como os imigos do Infante procuravam que El-Rei se quitasse da Rainha, e quão virtuosamente El-Rei o fez com ella 115
CXXIX—Como El-Rei fez aos Reis e Principes christãos uma geral notificação da morte do Infante, e das respostas que houve, e da embaixada do duque e duqueza de Borgonha, que sobre a morte do dito Infante e sua desculpa foi principal 117
CXXX—De como a judaria de Lisboa foi roubada, e a causa porque 119
CXXXI—De como foi o casamento da Imperatriz D. Lianor irmã d'El-Rei com o Imperador Frederico, e festas que por elle se fizeram 120
CXXXII—Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com ella foram 124
CXXXIII—Como a Imperatriz chegou á Italia e foi do Imperador recebida, e assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma 126
CXXXIV—Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles 128
CXXXV—Como o Gram Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a tomou 133
CXXXVI—De como a Rainha pariu o Principe D. João e d'outras cousas a que El-Rei satisfez ácerca do Infante D. Pedro, e como casou a Rainha D. Joana com El-Rei D. Anrique de Castella 135
CXXXVII—Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D. Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha 137
CXXXVIII—Como El-Rei outra vez acceitou a cruzada contra os turcos quando fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou em Africa e tomou aos mouros a villa d'Alcacere 140
CXXXIX—Como El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a não pôde socorrer, e desafiou El-Rei de Fez 150
CXL—Das cousas que passaram n'este cerco, até que de todo se alevantou 153