*CAPITULO XIII*
Por que guisa el-rei Dom Pedro de Castella começou de juntar thesouro.
Por outra maneira juntou el-rei Dom Pedro de Castella mui grão thesouro, sem mudar moeda, nem lançar peitas ao povo: e vêde de que guisa foi, posto que fallemos dos feitos alheios.
Assim, adverti que el-rei Dom Pedro estando na aldeia de Morales, que é uma legua de Toro, jogava um dia os dados com alguns de seus cavalleiros, e tinha-lhe um seu reposteiro-mór, a cerca d'elle, uns huchotes pequenos com alguma prata e dobras, que seria por todo até vinte mil: el-rei disse que aquelle era todo seu thesouro, e que mais não tinha.
Aquelle dia, logo á noite, estando el-rei em sua camara, Dom Samuel Levi, seu thesoureiro-mór, lhe disse:—Senhor, hoje foi vossa mercê dizer, perante aquelles que aqui estavam, que vós não tinheis mais thesouro que vinte mil dobras, de que jogaveis, e com que tomaveis sabor. E isto, senhor, entendo que o dissestes contra mim, por me avergonhar, pois que sou vosso thesoureiro-mór, e não ponho melhor recado em vossa fazenda. Porém, senhor, vós sabeis bem que, posto que fosse eu vosso thesoureiro depois que vós reinastes até ora, que póde haver uns sete annos, sempre em vosso reino houve taes boliços por os quaes os recadadores de vossas rendas se atreveram a fazer coisas que não deviam, por guisa que eu não pude tomar d'ello conta socegadamente como era razão; mas ora se vossa mercê fôr de me mandardes entregar dois castellos, quaes eu disser, eu vos quero pôr n'elles, antes de muito tempo, thesouro com que bem possaes dizer que mais tendes juntas de vinte mil dobras.
A el-rei prouve muito d'isto, e foram lhe entregues o alcaçar de Torjillo e o de Fita. Dom Samuel poz logo alli homens de que se fiava, e mandou cartas por todo o reino, a todos os que foram e eram recadadores das rendas de el-rei, des que elle começara de reinar até então, que viessem logo dar conta; e tomava-lh'a d'esta guisa. Por el-rei eram livrados a um cavalleiro, ou outro qualquer, certos mil maravedis de seu poimento, ou d'outra maneira, e Dom Samuel fazia vir perante si todos aquelles a que alguns dinheiros foram desembargados por aquelle a que tomava conta, e dava a cada um juramento, aos Evangelhos, quantos dinheiros receberam d'aquelle recadador por cada uma vez, e quantos lhe deixara por haver d'elle desembargo e não ser detido, e aquelle a que taes dinheiros foram livrados dizia que não houvera mais de tantos, e que os outros lhe déra, de peita, pelo desembargar, porque lhe faziam entender que d'outra guisa não poderia haver pagamento.
Então, se o recadador não mostrasse lugar certo onde lhe todo fôra pagado, mandava Dom Samuel que a metade de quanto assim levara fosse para o thesouro d'el-rei, e a metade para aquelle que recebera tal engano.
E todos os que taes livramentos houveram, eram mui contentes de dizer a verdade, por cobrar o que tinham perdido. E elle juntou, por esta guisa, antes de um anno, n'aquelles castellos, tão grande thesouro, que era estranha cousa de vêr.
E este foi o começo do mui grão thesouro que el-rei Dom Pedro depois teve junto, segundo adiante contaremos.
*CAPITULO XIV*
Como el-rei fez conde e armou cavalleiro João Affonso Tello, e da grão festa que lhe fez.
Em tres coisas assignadamente achamos, pela mór parte, que el-rei Dom Pedro de Portugal gastava seu tempo, a saber: em fazer justiça e desembargos do reino, e em monte e caça de que era mui querençoso, e em danças e festas segundo aquelle tempo, em que tomava grande sabor, que adur é agora para ser crido. E estas danças era a som de umas longas que então usavam, sem curando de outro instrumento posto que o hi houvesse: e se alguma vez lh'o queriam tanger, logo se enfadava d'elle e dizia que o dessem ao démo, e que lhe chamassem os trombeiros.
Ora deixemos os jogos e festas que el-rei ordenava por desenfadamento, nas quaes, de dia e de noite, andava dançando por mui grande espaço; mas vêde se era bem saboroso jogo. Vinha el-rei em bateis de Almada para Lisboa, e saiam-no a receber os cidadãos, e todos os dos misteres, com danças e trebelhos, segundo então usavam, e elle saia dos bateis, e mettia-se na dança com elles, e assim ia até ao paço.
Paraementes se foi bom sabor. Jazia el-rei em Lisboa uma noite na cama, e não lhe vinha somno para dormir, e fez levantar os mocos e quantos dormiam no paço, e mandou chamar João Matheus e Lourenço Palos, que trouxessem as trombas de prata, e fez accender tochas, e metteu-se pela villa em dança com os outros. As gentes que dormiam, saiam ás janellas, a vêr que festa era aquella, ou por que se fazia, e quando viram d'aquella guisa el-rei, tomaram prazer de o vêr assim lêdo. E andou el-rei assim grão parte da noite, e tornou-se ao paço em dança, e pediu vinho e fructa, e lancou-se a dormir.
E não curando mais falar de taes jogos: ordenou el-rei de fazer conde e armar cavalleiro João Affonso Tello, irmão de Martim Affonso Tello, e fez-lhe a mór honra, em sua festa, que até áquelle tempo fora visto que rei nenhum fizesse a semelhante pessoa; cá el-rei mandou lavrar seiscentas arrobas de cêra, de que fizeram cinco mil cirios e tochas, e vieram de termo de Lisboa, onde el-rei então estava, cinco mil homens das vintenas para terem os ditos cirios. E quando o conde houve de velar suas armas, no mosteiro de São Domingos d'essa cidade, ordenou el-rei que dês aquelle mosteiro até aos seus paços, que é assaz grande espaço, estivessem quedos aquelles homens todos, cada um com seu cirio accesso, que davam todos mui grande lume, e el-rei, com muitos fidalgos e cavalleiros, andavam por entre elles dançando e tomando sabor, e assim dispenderam grão parte da noite.
Em outro dia, estavam mui grandes tendas armadas no rocio, a cerca d'aquelle mosteiro, em que havia grandes montes de pão cosido, e, assáz de tinas cheias de vinho, e logo prestes por que bebessem, e fòra estavam ao fogo vaccas inteiras em espetos a assar, e quantos comer queriam d'aquella vianda, tinham-na muito prestes, e a nenhum não era vedada. E assim estiveram sempre em quanto durou a festa, na qual foram armados outros cavalleiros, cujos nomes não curamos dizer.
*CAPITULO XV*
Das avenças que el-rei de Castella e el-rei Dom Pedro de Portugal firmaram entre si, e como lhe el-rei de Portugal prometteu de fazer ajuda contra Aragão.
Escrevem alguns louvando este rei Dom Pedro, dizendo que reinou em paz em quanto viveu, e fortuna não fez sem-razão de encaminhar o começo, e meio, e fim de seu mando, de viver em socego e folgada paz; cá elle, por morte de el-rei seu padre, achou o reino sem nenhuma briga por que houvesse de haver contenda com nenhum rei da Espanha, nem de outra provincia mais alongada.
Dês ahi, como elle reinou, mandou logo Ayres Gomes da Silva e Gonçalo Annes de Beja, a el-rei de Castella, seu sobrinho, com recado, e de Castella veiu a elle, da parte de el-rei Dom Pedro, um cavalleiro, que chamavam Fernão Lopez de Estuñega. E tratou-se então, entre os reis, que fossem ambos verdadeiros e leaes amigos, e firmaram d'aquella vez suas amisades.
Depois d'isto, a cabo de um anno, estando el-rei Dom Pedro em Evora, chegaram mensageiros de el-rei de Castella, a saber, Dom Samuel Levi, seu thesoureiro-mór, e Garcia Guterrez Tello, alguazil mór de Sevilha, e Gomes Fernandez de Soria, seu alcaide, e trataram, entre os reis ambos, muito mais perfeitas amisades que antes. E foi mais ordenado, entre elles, que o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, e herdeiro em Portugal, casasse com Dona Beatriz, filha do dito rei de Castella, e que se fizessem os desposorios, por seus procuradores, dês fevereiro meiado seguinte até ao primeiro dia de março que vinha, e as bodas logo no postumeiro dia de abril, e que el-rei de Castella desse á dita sua filha, em casamento, outro tanto haver quanto el-rei Dom Affonso de Portugal dera, com sua filha Dona Maria, a el-rei Dom Affonso seu padre, e que el-rei de Portugal desse á dita Dona Beatriz, em arrhas e doação, outro tanto quanto seu padre, el-rei Dom Affonso, déra a Dona Constança, quando com elle casára, e mais, que casasse Dona Constança, filha do dito rei Dom Pedro de Castella, com o infante Dom João, e a outra filha, que chamavam Dona Izabel, casasse com o infante Dom Diniz, e que os desposorios e casamentos d'estes fossem acabados d'ahi a seis annos, e que el-rei de Castella desse taes lugares a cada uma d'ellas, de que houvessem de renda noventa mil maravedis, e el-rei de Portugal, a cada um dos infantes, lugares que lhe rendessem cada anno dez mil libras de portuguezes; e que el-rei de Castella fosse seu amigo, e imigo de imigo, e que se ajudassem um ao outro por mar e por terra, cada vez que requerido fosse, e que el-rei de Castella não fizesse paz com el-rei de Aragão, contra quem lhe elle então requeria ajuda, sem lh'o fazer saber primeiro, nem com outro nenhum rei e senhor.
Onde sabei, que esta ajuda, que el rei de Castella então pediu a el-rei Dom Pedro de Portugal, fôra já antes pedida por elle a el-rei Dom Affonso, seu padre, quando este rei Dom Pedro de Castella começou a guerra contra el-rei Dom Pedro de Aragão, que foi no postumeiro anno do reinado do dito rei Dom Affonso, segundo adiante vereis; a qual ajuda havia de ser gentes de cavallo por terra, e certas galés pelo mar.
El-rei Dom Affonso respondeu a seu neto, que elle sabia bem e era certo das posturas e firmidões que foram feitas entre el-rei Dom Diniz, seu padre, e el-rei Dom Fernando, seu avó, e el-rei Dom Jayme de Aragão, as quaes todos tres firmaram por si e por todos seus successores, e havido accordo com todos os bons da casa de Portugal, que para ello foram juntos em conselho, achou el-rei Dom Affonso que lhe não podia fazer a dita ajuda, com aguisada razão: e vista tal resposta por el rei de Castella, cessou de lh'a mais requerer.
Morto el-rei Dom Affonso de Portugal, e começando de reinar este rei Dom Pedro, seu filho, enviou-lhe o dito rei de Castella rogar que lhe quizesse fazer ajuda por mar e por terra em aquella guerra que então havia contra el-rei de Aragão; cá isso mesmo tinha elle em vontade de fazer a elle quando lhe cumpridoiro fosse.
El-rei de Portugal respondeu a isto, que bem certo devia elle de ser dos bons e grandes dividos que sempre houvera entre os reis de Portugal e de Aragão, pelos quaes elle com razão aguisada poderia ser bem escusado de fazer nem dizer cousa que a elle e a sua terra fosse prejuizo, mórmente, que entre el-rei Dom Affonso, seu padre, e el-rei Dom Pedro de Aragão, que então era, foram firmadas posturas e amisades para se amarem e ajudarem, especialmente contra el-rei Dom Affonso, padre d'elle rei de Castella, e que isso mesmo fôra já a elle tratado, por vezes, depois que entre elles recrescera aquella discordia; mas, que não embargando estas rasões todas, que entendia que entre elles ambos havia tantos e tão bons dividos, e assim aguisadas rasões, por que cada um d'elles devia fazer, por honra e prol do outro, toda coisa que pudesse, e que elle assim o entendia de fazer, tambem em aquelle mister que então havia, como em todos os outros. E que para accrescentar na amisade e dividos que ambos haviam, que lhe prazia de o ajudar n'aquella guerra, que começada tinha, mas porquanto, a Deus graças, elle era abastante de muitas gentes, muito mais que el-rei de Aragão, e parte de suas galés eram perdidas, que melhor podia escusar a ajuda por terra que a do mar: e como quer que lhe esta mais custosa fosse, que lhe prazia de o ajudar com dez galés grossas, pagas por trez mezes, as quaes lhe faria bem prestes quando lh'as mandasse requerer.
E foi assim de feito, que lhe fez ajuda por mar duas vezes, e duas por terra, de bons cavalleiros e bem corregidos, durando por longos tempos grande guerra, e muito crua, entre el-rei Dom Pedro de Castella e el-rei Dom Pedro de Aragão.
Mas porque alguns, ouvindo aquisto, desejarão saber que guerra foi esta, ou porque se começou e durou tanto tempo, e nós falar d'isto podiamos bem escusar, por taes coisas serem feitos de Castella e não de Portugal, pero, não embargando isto, por satisfazer ao desejo d'estes, dês ahi porque nos parece que não havendo alguma noticia das crueldades e obras d'este rei Dom Pedro de Castella não podem bem vir em conhecimento, qual foi a razão porque elle depois fugiu de seu reino e se vinha a Portugal buscar ajuda e accorro, e como depois de sua morte muitos lugares de Castella se deram a el-rei Dom Fernando, e tomaram voz por elle: porém faremos de tudo um breve falamento, começando primeiro nas cousas que advieram em começo de seu reinado, vivendo ainda el-rei Dom Affonso de Portugal, seu avô, com as outras que se seguiram depois que reinou el-rei Dom Pedro, seu tio, das quaes nos parece que se em outro lugar melhor contar não podem que todas aqui juntamente, entremettendo seus feitos com a guerra, e primeiro, das cousas que fez antes que a começasse, por saberdes tudo, em certo, de que guisa foi.
*CAPITULO XVI*
De algumas pessoas que el-rei D. Pedro de Castella mandou matar, e como casou com a rainha Dona Branca e a deixou.
Segundo testemunho de alguns, que seus feitos d'este rei de Castella escreveram, elle foi muito cumpridor de toda cousa que lhe sua natural e desordenada vontade requeria: em tanto que dizendo nós, pelo miudo, tudo o que feiamente se poderia ouvir de seus feitos, caíriamos em reprehensão, que não eramos escasso de contar os males alheios, mormente taes que são pregoeiros de má e vergonhosa fama, porém muito menos d'aquelles que achamos escriptos, dos principaes diremos, e mais não.
Este rei foi muito arredado das manhas e condições que aos bons reis cumpre de haver, cá elle dizem que foi mui luxurioso, de guisa que quaesquer mulheres que lhe bem pareciam, posto que filhas-d'algo e mulheres de cavalleiros fossem, e isso mesmo donas de ordem ou de outro estado que não guardava mais umas que outras. Era muito cubiçoso do alheio por má e desordenada maneira, e não queria homem em seu conselho, salvo que lhe louvasse sua razão e quanto fazia. Matou muitas honradas pessoas, d'ellas sem razão por lhe darem bom conselho, e outras sem porque, e por ligeiras suspeitas, em tanto que muitos bons se afastavam d'elle muito anojados, por temor da morte: cá nenhum não era com elle seguro, posto que o bem servisse, e lhe elle muita mercê e honra fizesse. E deixados os achaques que a cada um punha por os matar, sómente, em breve, das mortes digamos, e mais não.
No segundo anno de seu reinado foi morta D. Leonor Nunez de Gusman, manceba que fôra de el-rei seu padre, e madre do conde Dom Henrique, que depois foi rei; e posto que alguns digam que foi por mandado da rainha Dona Maria, sua madre, certo é que ella não mandaria fazer tal cousa sem consentimento de el-rei seu filho. E deu el-rei a sua madre todos os bens de Leonor Nunez.
Mandou el-rei matar Garcia Lasso da Veiga, um grande fidalgo de Gastella e muito aparentado de genros e parentes e amigos, por suspeita que d'elle houve.
Mandou matar tres homens bons da cidade de Burgos, a saber, Pero
Fernandez de Medina, e João Fernandez, escrivão, e Affonso Garcia de
Camargo.
Idem, cercou Dom Affonso Fernandez Coronel, na villa de Aguilar, e entrou-o por força, e mandou-o matar, e Pero Coronel seu sobrinho, e João Gonçalvez d'Eça, e Pero Dias de Quesada, e Rodrigo Annes de Beema, e João Affonso Carrilho, mui bom cavalleiro.
Mandou el-rei pedir a el-rei de França que lhe desse por mulher uma das filhas do duque de Bourbon seu primo, e de seis filhas que elle tinha, escolheram os mensageiros uma, que chamavam Dona Branca, moça de 18 annos e bem formosa, e receberam-na em seu nome. E como el-rei Dom Pedro isto soube, mandou que lh'a trouxessem logo, e enviou el-rei de França com ella o visconde de Cardona e outros grandes cavalleiros de sua terra, que lh'a trouxeram mui honradamente; e deu-lhe com ella mui grão casamento em oiro e prata e outras riquezas, e foram então feitas as dobras que chamaram de Dona Branca, e os reaes de Castella de el-rei Dom Pedro.
E emquanto os mensageiros foram tratar este casamento, tomou elle por manceba Maria de Padilha, que andava por donzella em casa de Dona Isabel de Menezes, filha de Dom Tello de Menezes, mulher de Dom João Affonso de Albuquerque, que a criava. E tal vontade poz el-rei n'ella, que já não curava de casar com Dona Branca quando veiu, tendo já da outra uma filha que chamavam Dona Beatriz.
E por conselho de Dom João Affonso de Albuquerque, pero muito contra vontade d'el-rei, ordenou de fazer suas bôdas em Valhadolid, e foram feitas uma segunda feira. E logo á terça seguinte, como el-rei comeu, a cabo de uma hora, deixou sua mulher, que não valeu rogo nem lagrimas da rainha Dona Maria sua madre, nem da rainha de Aragão sua tia, que o pudessem ter que se não partisse, e levou tal andar que foi essa noite dormir á aldeia de Pajares, que são dezeseis leguas de Valhadolid, e em outro dia chegou a Montalban, onde estava Dona Maria de Padilha. E tinha el-rei, quando partiu, e alguns dos que com elle iam, mulas em certos lugares, pero não chegaram com elle mais de tres; e foi por isto grande alvoroço entre os senhores e fidalgos do reino que alli eram, e alguns foram logo partidos d'el-rei.
Depois, por afincado conselho, tornou el-rei a Valhadolid e esteve com sua mulher dois dias, e nunca mais puderam com elle que alli assocegasse; e partiu-se e nunca a mais quiz vêr. E o visconde e cavalleiros, que com ella vieram, se partiram sem mais falar a el-rei.
Sendo viva esta rainha Dona Branca, não havendo mais de um anno que el-rei com ella casara, pareceu-lhe bem Dona Joanna de Castro, filha de Dom Pedro de Castro, que chamaram da Guerra, mulher que fôra de Dom Dïego de Alfaro, e commetteu-lhe por outrem que casasse com elle. E ella não querendo, porque el-rei era casado, disse elle que tinha razões por que o não era: e mandou aos bispos de Avila e de Salamanca que pronunciassem que podia casar. E elles, com medo, disseram-no assim, e foram recebidos na villa de Qualhar, dentro na igreja, solemnemente, pelo bispo de Salamanca que os recebeu ambos. Em o outro dia partiu el-rei d'alli, e nunca mais viu esta Dona Joanna: e ella chamou-se sempre rainha, pero não prazia a el-rei d'ello.
A rainha Dona Maria tomou comsigo sua nora e foi-se para Outerdesilhas, e dês-ahi mandou-a el-rei levar guardada a Revollo, que a não visse sua madre nem outro nenhum, e depois a teve presa em Medina-Sidonia e alli a mandou matar, sendo então a rainha com idade de vinte e cinco annos, muito sisuda e bem acostumada.
E elle teve ordenado de mandar matar Alvaro Gonçalves Mourão, e Dom Alvaro Perez de Castro, irmão de Dona Ignez, madre de Dom João e de Dom Diniz, filhos de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então infante; e foram percebidos por Dona Maria de Padilha, que lh'o mandou dizer, e assim escaparam de morte.
Mandou matar em Medina del Campo, um dia pela festa, em seu paço, Pero
Rodriguez de Vilhegas, adiantado mór de Castella, e Sancho Rodriguez de
Rojas; e foi morto um escudeiro de Pero Rodriguez.
Mandou matar, em Toledo, vinte e dois homens bons, do commum, porque foram em conselho de se alçar a cidade de Toledo, por não matarem n'ella a rainha Dona Branca, segundo todos d'aquella vez cuidaram, entre os quaes mandava matar um ourives velho de oitenta annos; e um seu filho de dezoito annos, tendo-o para o matar, disse a el-rei que lhe pedia por mercê que antes mandasse matar a elle que seu padre, e el-rei mandou-o assim fazer: pero mais prouvera a todos que el-rei não mandara matar nem um nem outro.
E mandou matar quatro cavalleiros bons d'essa cidade, a saber, Gonçalo
Mendes, e Lopo de Vellasco, e Tello Gonçalves Palomeque, e Lopo
Rodrigues, seu irmão.
Quando entrou a villa de Toro, onde estava a rainha sua madre, saiu a rainha a elle, do alcaçar, por seu mandado, e mandou matar Dom Pero Esteves, que se chamava mestre de Calatrava, alli onde vinha junto com ella, e Rui Gonçalves de Castanheda que a trazia de braço, e Affonso Telles Giron, e Martim Affonso Tello, todos quatro a redor da rainha. E ella, quando os viu matar, tão a cerca de si, caiu em terra como morta, e levantaram-na, bradando e maldizendo seu filho, e a poucos dias lhe pediu que a mandasse a Portugal para el-rei seu padre, e assim o fez: e ahi morreu depois, segundo tendes ouvido.
Mandou el-rei mais matar Gomes Manrique de Hornamella, e outros; e ordenou um torneio em Outerdesilhas, de cincoenta por cincoenta, por matar n'elle o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, que era no torneio. E el-rei não quiz descobrir este segredo a outrem, e porem não se fez aquelle dia.
*CAPITULO XVII*
Como se começou o desvairo entre el-rei Dom Pedro de Castella e o conde Dom Henrique, seu irmão, o qual foi aso porque se o conde foi fóra do reino.
Pois havemos de fazer menção, ao diante, da guerra e grande desvairo que depois houve entre o conde Dom Henrique e el-rei Dom Pedro, seu irmão, necessario é que contemos primeiro como se começou sua desavença e de que guisa se elle partiu do reino: e isto, antes que entremos na guerra de Castella com el-rei de Aragão, em cuja ajuda elle depois veiu.
Onde sabei que morto el-rei Dom Affonso sobre o cerco de Gibraltar, que foi na era de mil e trezentos e oitenta e oito annos, no mez de março, e tomando todos por seu rei o infante Dom Pedro seu primogenito filho, sendo então em idade de quinze annos, e estando na cidade de Sevilha,—partiram do arrayal com o corpo de el-rei, para o virem soterrar a Castella, muitos dos senhores e fidalgos que eram alli com elle, assim como o infante Dom Fernando, filho de el-rei de Aragão, marquez de Tortosa, sobrinho do dito rei Dom Affonso, filho da rainha Dona Leonor sua irmã, e Dom Henrique conde de Trastamara, e Dom Fradarique mestre de São Thiago, seu irmão, filhos de Leonor Nunez, e do dito rei Dom Affonso, e Dom João Affonso de Albuquerque, e outros senhores, e mestres, e ricos-homens. E passando o corpo de el-rei perante a villa de Medina Sidonia, que era de Leonor Nunez, ella se foi dentro ao lugar; porquanto Affonso Fernandez Coronel, que a tinha por ella, lhe disse que a não queria mais ter. E foi por esta entrada, que Leonor Nunez fez n'aquelle logar, mui grande murmurio entre os senhores e cavalleiros que levavam o corpo d'el-rei, cuidando que ella se punha alli em esforço dos filhos e parentes seus, que alli vinham.
E Dom João Affonso de Albuquerque, quando viu aquella ficada que os filhos e parentes de Leonor Nunez faziam com ella n'aquelle logar, que era bem forte, tratou com alguns que o conde Dom Henrique e Dom Fradarique seu irmão, estivessem n'aquella villa como presos. E soube-o Leonor Nunez, e tomou mui grão medo. E trataram com ella, segurando-a Dom João Nunez de Lara que tinha sua filha esposada com Dom Tello, seu filho d'ella, cuidando ella que tal segurança fosse firme.
E saiu-se do logar ella e seus filhos, e Dom Pedro Ponce de Leon, e Dom Fernão Perez Ponce seu irmão, mestre de Alcantara, e Dom Alvaro Perez de Guzman, e outros seus parentes, e houveram todos accordo de se apartar de el-rei, receando-se muito de irem a Sevilha, onde el-rei Dom Pedro estava, e serem presos. E logo n'esse dia que partiram de Medina, se foram a Moram, que é uma villa e castello bem forte a cerca de terra de mouros, e não segurando ainda de estar alli, foram-se para Aljazira, que tinha Dom Pero Ponce, e Dom Fradarique se tornou para a terra da ordem de São Thiago.
A rainha Dona Maria, com seu filho el-rei Dom Pedro e todos os que eram em Sevilha, saíram fóra da cidade receber o corpo de el-rei, e foi-lhe feito mui honradamente tudo aquillo que cumpria, e soterrado na egreja de Santa Maria, na capella dos Reis.
El-rei D. Pedro, sabendo a partida de seus irmãos e dos outros fidalgos, e como estavam em Aljazira, mandou saber secretariamente que maneira tinham, e achou que se apoderavam do logar o mais que podiam; e mandou lá galés armadas, e Guterre Fernandez de Toledo por capitão: e o conde D. Henrique, e os outros vendo que lhes não cumpria estar alli, tornaram-se para Moram, onde estava Dom Fernão Rodriguez Ponce.
Em isto foi-se Dona Leonor Nunez a Sevilha, e posta de parte a segurança que lhe feita tinha, mandou-a el-rei guardar mui bem no alcaçar, e trataram depois, por parte de el-rei, com o conde Dom Henrique, e com os outros senhores, de guisa que se vieram todos a Sevilha para el-rei. E o conde ia vêr cada dia sua madre, com a qual estava Dona Joanna, filha de Dom João Manuel, sua esposa. E houveram accordo, a madre com o filho, que houvesse ajuntamento com sua esposa, por se não desfazer o casamento segundo rugiam; e fel-o assim, e pezou d'isto muito a el-rei, e á rainha sua madre, e a outros muitos, e por isto defendeu el-rei que a não fosse nenhum mais vêr: e levaram-na d'alli para Carmona, e o conde Dom Henrique fugiu para as Asturias, por quanto lhe disseram que o mandava el-rei prender. Depois foi levada Dona Leonor, sua mãe, a Talavera, e alli a mandou matar a rainha Dona Maria por Affonso Fernandez de Olmedo, seu escrivão, como já tendes ouvido.
O conde Dom Henrique estando nas Asturias, ouviu como el-rei mandara matar sua madre, e depois Garcia Lasso, adiantado de Castella, e não ousou de estar alli, e foi-se a Portugal para el-rei Dom Affonso: e quando el-rei Dom Pedro fez vistas com seu avô em Cidade Rodrigo, como dissemos, rogou el-rei Dom Affonso a seu neto que perdoasse ao conde, e elle perdoou-lhe, e tornou-se o conde para as Asturias, cá não ousou de se ir para el-rei.
E elle nas Asturias, soube el-rei como abastecia Gijon, e foi-se lá, e cercou o lugar, onde estava sua mulher Dona Joanna, cá elle não se atreveu de o esperar alli, e foi-se em tanto a uma montanha mui forte que dizem Montojo, e os de Gijon pleitearam com el-rei que perdoasse ao conde, e a el-rei prouve, e tornou-se.
E quando el-rei houve de fazer suas bôdas em Valhadolid com Dona Branca, segundo contámos, chegou o conde Dom Henrique e Dom Tello seu irmão, e trazia o conde seiscentos homens de cavallo e mil e quinhentos de pé; e sendo em Cijalles, duas leguas d'onde el-rei estava, mandou-lhe dizer que não ousaria de entrar na villa, salvo com toda sua gente, porquanto se receava de alguns que eram na côrte. E el-rei mandou-o segurar: não se fiaram do seguro, e houveram de pelejar com el-rei, que sahiu a elles. Depois, foram de accordo com elle, e ficaram em sua mercê.
Casou el-rei com Dona Branca, e deixou-a em outro dia, e foi-se para Dona Maria de Padilha. E d'essa idéia foi desavindo d'elle Dom João Affonso de Albuquerque que governava a casa d'el-rei. E tratou-se depois que Dom João Affonso estivesse em Portugal, se quizesse, e que seus castellos e bens, que havia em Castella, fossem seguros: prometteu-lh'o el-rei assim, e depois que Dom João Affonso foi em Portugal, cercou-lhe el-rei Medelin, e cobrou-o, e fel-o derribar, e depois cercou Albuquerque, e não o podendo tomar, partiu-se d'alli, e deixou por fronteiros, em Badalhouce, o conde Dom Henrique e o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão.
Partido el-rei d'alli, enviou o conde seu recado a Dom João Affonso, que fossem todos trez amigos, e entrassem por Castella, e a elle prouve muito, e firmaram seu preito de ser assim; e houveram Dom Fernando de Castro em sua ajuda, que estava em Galliza, e começaram de entrar por Castella, fazendo n'ella grande estrago.
N'isto mandou el-rei Dom Pedro João Affonso de Henestrosa, seu camareiro-mór, a Arevalo onde estava a rainha Dona Branca, sua mulher, que a trouxesse ao alcançar de Toledo, e elle trazendo-a pela cidade, disse ella que queria ir primeiro fazer oração á igreja de Santa Maria, e dês-que foi dentro na igreja, não quiz mais sahir d'ella, receando-se de ser morta ou presa. João Affonso não se atreveu de a fazer sahir da igreja contra sua vontade, e tornou-se para el-rei. Os moradores de Toledo falando sobre isto, houveram piedade da rainha, e accordaram de a não deixar prender nem matar n'aquella cidade, e determinaram de pôr por ella os corpos, e quanto haviam. E mandaram primeiro por Dom Fradarique mestre de São Thiago, e colheram-no dentro com suas companhas, e mais enviaram suas cartas ao conde Dom Henrique, e a Dom João Affonso d'Abuquerque, e a Dom Fernando de Castro, fazendo-lhe saber sua intenção; e tiveram com Toledo, por parte da rainha, a cidade de Cardona, e Cuenca, e o bispado de Jaen e Talavera. Que cumpre dizer mais: os infantes Dom Fernando e Dom João, primos d'el-rei, e muitos senhores e cavalleiros, se partiram d'elle por ajudar a tenção dos outros, em guisa que não ficaram com el-rei mais de seiscentos de cavallo. E todos aquelles senhores lhe mandavam dizer que prestes eram para o servir e fazer seu mandado, com tanto que tomasse sua mulher, e vivesse com ella e não regesse o reino pelos parentes de Dona Maria de Padilha, nem os fizesse seus privados: e el-rei não quiz cair em tal preitesia.
N'isto adoeceu Dom João Affonso de Albuquerque, e el-rei mandou encobertamente tratar com o physico, que pensava d'elle, que lhe faria mercês e que lhe desse com que morresse; e elle fel-o assim, segundo depois foi sabido; e os vassalos de Dom João Affonso prometteram de não enterrar o seu corpo até que esta demanda fosse acabada, e elle assim o mandou em seu testamento. E quando aquelles senhores ordenavam conselho sobre aquillo que lhes convinha fazer, falava em lugar de Dom João Affonso, Ruy Dias Cabeça-de-Vacca, que fôra seu mordomo-mór. E eram as gentes d'estes senhores todos até cinco mil de cavallo, e muita gente de pé.
Acima vendo el-rei como perdia as gentes por esta guisa, houve conselho de se pôr em poder d'elles, na villa de Toro, e alli partiram elles logo os officios do reino e da casa d'el-rei entre si, de guisa que a el-rei não prouve; e então foram enterrar o corpo de Dom João Affonso, tendo que sua demanda era já acabada.
El-rei sentindo-se como preso, segundo a maneira que com elle tinham, fingiu que queria ir á caça, e uma grande manhã cavalgou, e foi-se para Segovia, e foram-se os infantes para el-rei por suas preitesias, e começou-se de desfazer a companhia que se antes juntara. E o conde Dom Henrique, e Dom Tello e Dom Fradarique, seus irmãos, ficaram a uma parte, e seriam por todos até mil e duzentos de cavallo, e muitos homens de pé. E houveram entrada em Toledo, e foi el-rei á cidade, e cobrou-a, e elles deixaram-na, e foram-se.
Depois lhes enviou rogar a rainha Dona Maria que se fossem para Toro, onde ella estava, receando-se del-rei, seu filho; e foram-se allá, e chegou ahi el-rei com suas gentes, e pelejaram nas barreiras, e não poude el-rei ahi assocegar por mingua d'agua, e partiu-se d'ahi.
E depois que se el-rei foi, partiu-se o conde Dom Henrique para Galliza, uns diziam que para se ajuntar com Dom Fernando de Castro, outros affirmavam que o fazia o conde por não ser cercado. E quizera el-rei partir empoz elle, e depois houve em conselho de tomar primeiro a villa de Toro; e cercou-a outra vez, e tratou com Dom Fradarique, seu irmão, e do conde Dom Henrique, que ficava na villa por guarda, que se fosse para elle: e elle fel-o assim. E em outro dia cobrou el-rei a villa, por uma porta que lhe deram, e prendeu Dona Joanna, mulher do conde Dom Henrique, e fez matar alguns do lugar, e mais aquelles cavalleiros que foram mortos acerca da rainha sua madre, como dissemos.
Quando o conde Dom Henrique soube como el-rei cobrara a villa de Toro, e matara aquelles cavalleiros que tinha por sua parte, e que o mestre Dom Fradarique, seu irmão, era já com el-rei de accordo, entendeu que lhe não cumpria mais aporfiar na guerra, nem estar mais tempo no reino e preitejou com el-rei, que lhe desse cartas de seguro para se ir para França: e a el-rei prouve disto, e deu-lh'as.
E soube o conde como el-rei mandara ao infante Dom João e a Diego Perez Sarmento seu adiantado-mor, e a todos os outros cavalleiros e officiaes das comarcas por onde elle cuidava que o conde fosse, que lhe tivessem o caminho e o matassem; assim como depois matou todos os senhores e homens de estado que foram na companhia da demanda que se levantou contra elle por razão da rainha Dona Branca.
E o conde partiu de Galliza, e foi pelas Asturias, por quanto por aquella comarca não havia mandamento d'el-rei, pensando elle pouco que fosse por alli, e passou trigosamente, e foi-se pela Biscaia, onde estava Dom Tello seu irmão, e d'ahi se passou por mar á Rochella, onde achou el-rei de França, que havia guerra com os inglezes, e tomou d'elle soldo.
E d'esta guisa foi sua desavença com el-rei Dom Pedro seu irmão, e partida do reino de Castella, durando n'estas desavenças, todas que ouvistes n'este capitulo, passados de sete annos.
*CAPITULO XVIII*
Como e por qual aso se começou a guerra entre Castella e Aragão.
Andando em sete annos que el-rei Dom Pedro de Castella reinava, na era de mil e trezentos e noventa e quatro, estando el-rei em Sevilha, mandou armar uma galé para ir folgar e vêr a pescaria que faziam nas covas das almadravas. E foi em uma galé a São Lucas de Barrameda, e achou ahi, no porto, dez galés de catalães e um lenho de que era capitão um cavalleiro aragonez, que diziam Mosse Frances de Emperellores, as quaes iam, por mandado de el-rei de Aragão, em ajuda de el-rei de França contra el-rei de Inglaterra.
E entrando elle capitão n'aquelle porto por tomar refresco, achou ahi dois baixeis de plazentinos carregados de azeites, que iam para Alexandria, e tomou os, dizendo que eram navios de genovezes, com que os catalães haviam guerra então.
El-rei lhe mandou dizer que pois aquelles baixeis estavam em seu porto, que os não quizesse tomar, ao menos por sua honra d'elle, pois estava de presente. E elle respondeu que aquellas gentes eram inimigos d'el-rei d'Aragão, e que os podia tomar de boa guerra. E el-rei lhe mandou dizer, outra vez, que fosse certo, se os deixar não quizesse, que mandaria prender em Sevilha todos os mercadores catalães que ahi eram, e tomar-lhes todos seus bens.
O capitão das galés por tudo isto não o quiz fazer, e vendeu logo alli os baixeis por setecentas dobras, e foi-se seu caminho, sem mais falar a el-rei.
E el-rei houve d'isto grande melancolia, e não sem razão, mas a vingança foi desarrazoada; porque assim como de pequena faisca se accende grande fogo, achando coisa disposta em que obre, assim el-rei Dom Pedro com destemperada sanha, por tomar d'aquillo vingança, moveu crua guerra contra Aragão, de sangue e fogo, por muitos annos, como ora brevemente ouvireis; cá elle mandou logo prender em Sevilha todos os mercadores catalães que ahi eram, e escrever lhes todos seus bens, e outro dia partiu-se á pressa por terra, e fel-os todos pôr em cadeias, e vender quanto lhes acharam.
E mandou logo a el-rei de Aragão fazer-lhe queixume de Mosse Frances, da pouca honra e cortezia que n'elle achara, mandando-lh'o rogar por duas vezes, e que porém lhe requeria que lh'o entregasse para d'elle haver emenda, e anadiu mais que tirasse uma commenda que dera a Dom Pedro Moniz de Godoi, que era homem a que bem não queria, e se estas cousas fazer não quizesse, que fosse certo que lhe faria guerra.
E el-rei de Aragão deu sua resposta, que lhe pesava do nojo que a el-rei fôra feito, e que como aquelle cavalleiro tornasse para seu reino, que elle o ouviria e faria justiça, de guisa que el-rei de Castella fosse contente; e que a commenda que havia dada a Dom Pedro Moniz, pois a el-rei não prazia d'ello, que cataria outra cousa de que lhe fizesse mercê, mas que até que al lhe désse, que lh'a não podia tirar sem grande sua mingua.
O mensageiro, que bem sabia a vontade de el-rei Dom Pedro, não foi contente d'esta resposta, e desafiou o logo, e seu reino.
El-rei de Aragão disse que el-rei de Castella não havia justa razão para fazer isto, e que o deixava em juizo de Deus, e mandou logo aperceber sua terra.
*CAPITULO XIX*
Como el-rei de Castella entrou por Aragão e das cousas que fez n'este anno.
El-rei de Castella, emquanto mandou a Aragão o recado que haveis ouvido, antes que a resposta de lá viesse, com desejo de tomar vingança, mandou á pressa armar sete galés e seis naus; e metteu-se el-rei n'ellas, cuidando de achar na costa de Portugal aquelle cavalleiro, e chegou até Tavira, e soube que era passado, e tornou-se para Sevilha; e mandou el-rei as galés á ilha de Iviça, e começou-se a guerra por todas as partes.
N'isto começou-se a era de mil trezentos e noventa e cinco, em cuja sesão morreu el-rei Dom Affonso de Portugal, a que este rei Dom Pedro, seu neto, mandara pedir ajuda para esta guerra, segundo antes havemos contado; e vendo el-rei de Aragão a não boa maneira que el-rei de Castella com elle queria ter, fel-o saber ao conde Dom Henrique e a alguns cavalleiros castelhanos que andavam em França por medo de el-rei Dom Pedro, e o conde com elles vieram-se para elle, e el-rei os recebeu mui bem e deu ao conde certos castellos em que tivesse suas gentes, e soldo para oitocentos de cavallo.
El-rei de Castella, como isto soube, partiu de Sevilha e entrou por Aragão, e tomou alguns castellos, e tornou-se para Deça, uma sua villa na fronteira de Aragão; e acendia-se a guerra cada vez mais.
E alli chegou a elle o cardeal Dom Guilhem, legado do papa Innocencio, para pôr avença entre elles, e não podendo fazer que cessasse a guerra de todo, por as cousas mui graves de outorgar que el-rei Dom Pedro requeria a el-rei de Aragão, fez entanto uma tregua de quinze dias, os quaes durando, tomou el-rei Dom Pedro a cidade de Taraçona. E o cardeal se aggravou contra el-rei, dizendo que emquanto elle fôra falar a el-rei de Aragão, durando ainda os dias da tregoa, tomara elle aquella cidade, e el-rei dizendo que já eram passados, e o cardeal dizendo que não, ficou o lugar por el-rei bem fornecido de gentes.
E d'esta segunda vez que el-rei entrou em Aragão e tomou a cidade de Taraçona, se vieram para elle muitas gentes de seus reinos e alguns inglezes, em guisa que eram sete mil de cavallo e dois mil ginetes e muita gente de pé.
E vendo o cardeal que não podia entre os reis tratar firme paz, ordenou que houvessem tregua por um anno, e foi apregoada uma segunda-feira, dez dias de maio d'esta era, e el-rei veiu-se então a Sevilha por mandar fazer galés, e encaminhar de fazer armada no anno seguinte, tanto que as treguas fossem saidas.
N'este comenos, durando a tregua, tratou Pero Carrilho, que vivia com o conde Dom Henrique, suas avenças com el-rei Dom Pedro, que o herdasse em seu reino e que se viria para elle; e a el-rei prouve, e fel-o assim. E Pero Carrilho, desde que segurou por alguns dias, guisou como pudesse levar a condessa Dona Joanna, que estivera presa desde que el-rei tomara a villa de Toro, para o conde seu marido, e foi assim de feito que a levou.
E d'esta guisa cobrou o conde sua mulher, e pesou muito a el-rei Dom
Pedro quando soube que a assim levaram.
*CAPITULO XX*
Como el-rei Dom Pedro fez matar o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, no alcaçar de Sevilha.
Se dizem que o que faz nojo a outrem escreve o que faz no pó, e o injuriado em pedra marmore, bem se cumpriu isto em el-rei Dom Pedro; cá elle movido por sobejo queixume contra seus irmãos e outros do reino, por aso da tenção que tomaram em favor da rainha Dona Branca e contra os parentes de Dona Maria de Padilha, segundo ouvistes (que já em tempo havia mais de trez annos, andando então a era em mil e trezentos e noventa e seis,) ordenou em Sevilha, alli onde estava, de matar o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, e mandou-o chamar onde vinha da guerra que fôra tomar a villa de Jumilha, que é no reino de Murcia, por lhe fazer serviço.
E no dia que o mestre havia de chegar á cidade, chamou el-rei em sua camara o infante Dom João, seu primo, e tomou-lhe juramento sobre a Cruz e os Evangelhos, e descobriu-lhe como o queria matar, rogando-lhe que o ajudasse a fazer tal obra, e ter-lh'o-hia em serviço, e como fosse morto, que logo entendia de ir a Biscaia matar o outro irmão Dom Tello, e dar-lhe a elle as suas terras. O infante Dom João respondeu que lhe tinha em grande mercê querer fiar d'elle seus segredos, e que lhe prazia muito do que tinha ordenado, e era contente de o fazer assim.
N'isto chegou Dom Fradarique, antes de comer, uma terça-feira, vinte e nove dias de maio, e como chegou de caminho foi logo vêr el-rei, que estava no alcaçar da cidade jogando as tabolas, e beijou-lhe a mão e muitos cavalleiros com elle. E el-rei o recebeu mui bem, mostrando-lhe boa vontade, e perguntou-lhe d'onde partira, e que pousadas tinha. O mestre disse que partira de Santilhana, que são d'alli cinco leguas, e que as pousadas cuidava que seriam boas. E el-rei, porque entraram muitos com o mestre, disse que se fosse aposentar, e depois se viria para elle.
O mestre partiu-se, e foi vêr Dona Maria de Padilha e as sobrinhas, que estavam em outra parte dos paços, e d'alli se veiu ao curral onde deixara as bestas, e não achou ahi nenhuma, cá assim fora mandado aos porteiros.
O mestre não sabendo se tornasse a el-rei, ou que fizesse, disse-lhe um seu cavalleiro, suspeitando mal de tal feito, que se saisse pelo postigo do curral, que estava aberto, cá lhe não minguaria besta se fosse fóra. Elle cuidando se o faria, vieram-lhe dizer que o chamava el-rei, e elle começou de tornar para el-rei, pero espantado, receando-se muito. E como ia entrando pelas portas dos paços e das camaras, assim ia cada vez mais desacompanhado, em guisa que quando chegou onde el-rei estava, não ia com elle salvo o mestre de Calatrava. E estiveram á porta ambos, e não lhes abriram; e pero lhe todas estas cousas apresentavam mensagem de morte, vendo-se sem culpa, tomava já em si quanto de esforço.
N'isto abriram o postigo do paço onde el-rei estava, e el-rei disse a
Pero Lopez de Padilha, seu bésteiro-mór, que prendesse o
mestre.—Senhor, disse elle,—qual d'elles?—O mestre de São
Thiago,—disse el-rei. E elle travou d'elle, dizendo:—Sêde preso!
O mestre ficou espantado, e quando ouviu outra vez que el-rei dizia aos bésteiros da maça que o matassem, desenvolveu-se de Pero Lopez, que o tinha preso, e houve-se no curral; e quiz tirar a espada que tinha na cinta, e foi sua ventura que não poude, por aso do tabardo que tinha vestido, e andando muito rijo de uma parte á outra, não o podiam ferir os bésteiros com as maças, até que o houveram de ferir, e caiu em terra morto.
El-rei, quando viu o mestre jazer em terra, saiu pelo alcaçar cuidando achar alguns dos seus para os matar, e não os achou, cá eram fugidos e escondidos. E achou no paço onde estava Dona Maria de Padilha, Sancho Diaz de Vilhegas, camareiro-mór do mestre, que se acolhera alli quando ouviu dizer que o matavam, e tomou Dona Beatriz, filha de el-rei, nos braços, cuidando por ella escapar da morte, e el-rei fez-lh'a tirar das mãos, e deu-lhe com uma brocha que trazia, e matou-o. E tornou-se onde jazia o mestre, e achou que não era bem morto, e fel-o matar a um seu moço da camara: d'ahi, foi-se assentar a comer.
E mandou logo n'esse dia, pelo reino, que matassem estas pessoas, a saber: em Cordova, a Pero Cabrera, um cavalleiro que ahi morava, e um jurado que diziam Fernando Affonso de Gachete; e mandou matar Dom Lopo Sanchez de Vendano, commendador-mór de Castella; e mataram, em Salamanca, Affonso Jofre Tenorio; e em Toro, Affonso Perez Fermosilhe; e mataram, em Mora, Gonçalo Mendez de Toledo. E estes dizia el-rei que mandava matar porque foram da parte da rainha Dona Branca; e pero lhes el-rei havia já perdoado, não curando do que promettera, mandou a todos cortar as cabeças.
*CAPITULO XXI*
Como el-rei partiu de Sevilha por tomar Dom Tello, seu irmão, para o matar; e como matou o infante Dom João, seu primo.
Estando el-rei ainda comendo, mandou chamar logo o infante Dom João, seu primo, e disse-lhe em segredo como, tanto que comesse, queria partir para Biscaia, por ir matar Dom Tello, seu irmão, e que se fosse com elle, e dar-lhe-ia o senhorio d'aquella terra.
O infante, não embargando que estivesse casado com Dona Isabel, irmã da mulher do conde Dom Tello, prouve-lhe muito com taes novas, e beijou as mãos a el-rei por ello, cuidando pouco no que lhe elle tinha ordenado: e el rei partiu logo, e o infante com elle, e foi em sete dias em Aguilar do Campo, onde Dom Tello estava.
E Dom Tello andava aquelle dia ao monte, e um seu escudeiro, quando viu el-rei foi-lh'o logo dizer, tossemente. E elle fugiu á pressa, e chegou a Bermeto uma sua villa ribeira do mar, e entrou em pinaças de pescadores, e foi-se para Bayona de Inglaterra.
El-rei, cuidando de o tomar, seguiu o caminho por onde elle fôra, e aquelle dia que Dom Tello chegou a Bermeo e entrou no mar, esse dia chegou el-rei, e entrou em outros navios, cuidando de o alcançar. O mar era um pouco buliçoso, e el-rei anojou-se, e deixou de o seguir porque ia mui longe, e tornou-se em terra, e prendeu Dona Joanna, sua mulher.
O infante Dom João, quando viu Dom Tello por esta guisa partido, disse a el-rei que bem sabia sua mercê como lhe dissera em Sevilha que queria matar Dom Tello, e dar-lhe a terra de Biscaia, que era sua, e que pois Dom Tello era fóra do reino sem sua graça, que fosse sua mercê de lh'a dar como lhe promettera. E el-rei disse que mandaria aos biscainhos que se ajuntassem, como haviam de costume, e que elle iria lá, e lhe mandaria que o tomassem por senhor. E o infante, com leda esperança de cobrar a terra, lhe beijou as mãos por isto, tendo-lh'o em grande mercê.
Os biscainhos indo para se ajuntar onde haviam de costume, falou el-rei com os maiores d'elles, dizendo-lhes em segredo que respondessem, quando elle propuzesse para dar a terra a Dom João, que não queriam outro senhor salvo el-rei; e elles disseram que assim o fariam.
Elles juntos, bem dez mil, propoz el-rei muitas razões por parte do infante seu primo, como a terra de Biscaia lhe pertencia por direito, por aso do casamento de sua mulher, e que lhes rogava e mandava que o tomassem por senhor: elles responderam que nunca tomariam outro senhor salvo el-rei de Castella, e que nenhum lhes fallasse em outra cousa. E el-rei disse então ao infante, que bem via as vontades d'aquelles homens, que o não queriam haver por senhor, porém, que elle iria a Bilbao, e que ainda tornaria outra vez a falar com elles que o tomassem por senhor. O infante começou de entender que isto era encoberta que el rei fazia, e teve-se por mal contente.
El-rei em Bilbao, mandou em outro dia chamar o infante, e elle veiu, e entrou só na camara, e ficaram dois seus á porta; e os que sabiam parte de sua morte começaram de joguetear com elle, por lhe tomarem um pequeno cutello que trazia, e assim o fizeram; e Martim Lopez, camareiro-mór de el-rei, abraçou-se então com o infante, e um bésteiro deu-lhe com uma maça na cabeça, e dês-ahi outros, e caiu o infante morto: e foi isto uma terça-feira, havendo quinze dias que o mestre Dom Fradarique fôra morto em Sevilha. E el-rei mandou-o deitar na rua por uma janella da casa onde pousava, e disse aos biscainhos que estavam ahi juntos:—Vêdes ahi o vosso senhor de Biscaia, que vos demandava por seus?
Isto feito, mandou logo el-rei João Fernandes de Hinestrosa que se fosse a Roa, onde estavam a rainha de Aragão, sua tia, madre do dito infante, e Dona Isabel, sua mulher, e que as prendesse ambas, não sabendo parte a madre do filho, nem a mulher do marido. E foram presas em um dia, e el-rei chegou no outro, e fez-lhes tomar quando tinham, e mandou-as presas a Castro Exariz; e d'alli partiu-se, e veiu-se a Burgos, onde esteve uns oito dias, e alli lhe trouxeram as cabeças d'aquelles que ouvistes que mandara matar pelo reino, quando o mestre Dom Fradarique foi morto.
*CAPITULO XXII*
Como foi quebrada a tregua de um anno que havia entre os reis, e como el-rei Dom Pedro juntou armada por fazer guerra a Aragão.
Nós não dissemos a morte do mestre Dom Fradarique e do infante Dom João, da guisa que ora ouvistes, por nos prazer contar crueldades, mas puzemol-as um pouco assim compridas, mais que dos outros, porque eram notaveis pessoas, e vêrdes o geito que el-rei teve em os matar.
Onde sabei, que por este aso não embargando que ainda durasse a tregua de um anno, que o cardeal puzera entre el-rei Dom Pedro e el-rei de Aragão, que tanto que o conde Dom Henrique soube como Dom Fradarique, seu irmão, era morto, e isso mesmo disseram ao infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, da morte do infante Dom João, seu irmão, juntaram logo suas gentes, e entraram por Castella. E o conde entrou por terra de Soria, e chegou á villa de Seiron, e a rombou, e combateu o castello e alcaçar cuidando de o tomar, e tornou-se para Aragão; e o infante Dom Fernando entrou pelo reino de Murcia, e fez muito damno n'aquella terra.
El-rei soube isto em Valhadolid, e pôz logo fronteiros contra Aragão, e veiu-se a Sevilha, e fez armar á pressa doze galés; e em as armando, chegaram seis galés de genovezes, que então haviam guerra com os catalães, e prouve muito a el-rei com ellas, e tomou-as a soldo, dando por mez a cada uma mil dobras cruzadas. E com estas dezoite galés chegou a uma villa, que chamam Guadamar, que era do infante Dom Fernando, e fez el-rei uma manhã, que eram dezesete dias de agosto, sair muita gente de todas as galés para combater a villa, e pero fosse bem cercada, tomou-a por força, e acolheram-se muitos ao castello.
E estando o combatendo, á hora do meio dia, alçou-se um vento mui forte, que é travessia n'aquella terra, e como as galés estavam sem gente, deu com todas a travez á costa, que não escaparam mais de duas que jaziam dentro no mar, uma d'el-rei e outra dos genovezes. E ás dezeseis mandou el-rei pôr o fogo, porque se não podiam reparar: e dos remos, e outros apparelhos, não se salvou senão mui pouco, que pozeram em uma nau de Laredo, que ahi estava. E houve el-rei, e os patrões dos galés, bestas em que partiram d'alli, das gentes de Guterre Gomez de Toledo, que chegara ahi, elle e outros, com seiscentos de cavallo; e foi-se el-rei mui triste com este acontecimento, e todos os das galés de pé com elle, mui nojosos.
E chegou el-rei a Murcia, e foram-se os genovezes para sua terra em navios de Cartagena, e el-rei mandou logo a Sevilha que fizessem á pressa galés. E em oito mezes foram feitas doze galés novas, e reparadas quinze d'outras que estavam nas tercenas; e fez fazer muitas armas e grande almazem, e mandou perceber todos os navios do reino que não fretassem para nenhuma parte.
E partiu el-rei de Murcia, e foi-se á fronteira de Aragão, e ganhou alguns castellos, e tornou-se para Sevilha: e foi esta a quarta vez que el-rei Dom Pedre entrou em Aragão.
*CAPITULO XXIII*
Como veiu o cardeal de Bolonha para fazer paz entre el-rei de Castella e el-rei de Aragão, e os não poude pôr de accordo.
Estando el-rei Dom Pedro assim em Sevilha, soube como Dom Guilhem, cardeal de Bolonha, era na villa de Almaçan, por tratar paz entre elle e el-rei de Aragão. E fez saber o cardeal a el-rei se lhe prazia de ir a Sevilha, onde elle estava, ou se aguardaria alli por elle, havendo de ir para aquella comarca.
E el-rei era já partido de Sevilha para a fronteira de Aragão, quando lhe chegou este recado em Villa Real, e disse que lhe prazia muito com sua vinda, e que o aguardasse n'aquella villa, cá elle ia direitamente para ella. E foi assim que chegou ahi el-rei a poucos dias, e falou o cardeal a el-rei, presentes os do seu conselho, tudo o que lhe o papa enviava dizer, assim do nojo que tomava pela guerra em que eram elle e el-rei de Aragão, como do grão prazer que haveria se os visse postos em paz.
El-rei respondeu que a guerra que elle havia com el-rei de Aragão era muito por sua culpa, e contou ao cardeal o que lhe adviera com o capitão de suas galés na foz de Barrameda de San Lucar, como já ouvistes, e como fizera saber tudo a el-rei de Aragão, e que nunca quizera tornar a ello como devia, e demais, que mandara a França por todos seus inimigos, para lhe fazer com elles guerra.
O cardeal disse que queria ir falar a el-rei de Aragão sobre isto, e el-rei disse que lhe prazia, e que de boamente haveria com elle paz, fazendo el-rei de Aragão estas cousas: primeiramente, que lhe entregasse aquelle cavalleiro, para d'elle fazer justiça onde elle quizesse, e que lançasse fóra do reino o infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, seu irmão, e mais D. Henrique, conde de Trastamara, e todos os outros que vieram em ajuda da guerra, e que lhe desse os castellos de Oriola e Alicante, e outros logares que foram de Castella antigamente, e mais pelas despezas que fizera na guerra lhe tornasse quinhentos mil florins.
O cardeal, pero lhe isto parecessem cousas desarrazoadas, disse que lhe prazia de tomar cargo de ir falar a el-rei de Aragão sobre ello; e chegou a Aragão e contou a el-rei, por miudo, todas as cousas que lhe el-rei dissera.
El-rei de Aragão respondeu, dizendo assim:—Cardeal amigo, bem vêdes vós que se elle houvesse vontade de haver comigo paz, que me não demandaria taes cousas como me envia requerer; cá o cavalleiro não é direito que lh'o entregue para o matar, pois não fez por quê; mas isto quero fazer, mande-o accusar por direito, e se for achado que merece morte, eu lh'o quero entregar preso, que o mande matar em seu reino. Ao que diz que envie eu fóra de meu reino Dom Henrique, Dom Tello, e Dom Sancho, seus irmãos, pois são seus inimigos, digo que me praz, se ficar com elle de accordo, mas desterrar fóra do reino o infante Dom Fernando, meu legitimo irmão, isto me parece estranho de pedir. Os logares que me requere que lhe entregue, não tenho razão por quê, cá foram julgados a este reino por sentença de el-rei Dom Diniz de Portugal, e pelo infante Dom João de Castella, presentes muitos fidalgos de seu reino, e elle e eu temos cartas de como foram partidos. As despezas que fez na guerra não sou tido de lhe pagar, cá se não começou por minha vontade, antes me pezou muito, e peza, de haver entre mim e elle tal desvairo; mas tanto lhe farei, se houvermos paz, que havendo elle guerra com el-rei de Granada ou de Bellamarin, que o quero ajudar seis annos com dez galés armadas á minha custa quatro mezes cumpridos, e se mouros passarem, e lhe convier pôr a praça, que o ajude com meu corpo e gentes, e ser com elle no dia da batalha. De outra guisa, dizei que lhe requeiro, da parte de Deus, que me não queira fazer guerra, pois justa razão não tem, e se o de outra guisa fizer, deixo tudo na ordenança e justiça de Deus.
Tornou o cardeal a el-rei de Castella, e contou-lhe isto que ouvistes, e el-rei começou-se de queixar, dizendo que el-rei de Aragão não prezava a guerra, nem se queria chegar para haver avença com elle, mas que d'esta vez provaria cada um para quanto era, porém, por elle entender que lhe prazia de haver paz, que elle se partia das outras cousas que demandava, e que lhe desse os cinco logares que lhe requeria, e que lançasse de seu reino seus irmãos e as gentes que eram com elles.
O cardeal foi d'isto mui lêdo, tendo que pois se el-rei D. Pedro descia do que á primeira dissera, que poderia aproveitar n'este tratamento, e foi-se a Calatayud, onde el-rei de Aragão estava, e contou-lhe como el-rei, por bem de paz, requeria sómente estas duas cousas.
El-rei de Aragão houve accordo com os do seu conselho, e disse que as gentes todas lançaria fóra mas que nenhuma villa nem castello não entendia de dar de seu reino, e que el-rei de Castella devia ser bem contente da primeira resposta.
Quando o cardeal tornou com este recado, foi el-rei Dom Pedro mui sanhudo, dizendo que tudo eram razões, pelo estorvar da armada que fazer queria, e porém disse ao cardeal que lhe perdoasse, cá não entendia de falar mais n'isto, mas continuar sua guerra o mais que pudesse. Ao cardeal pezou muito de tal resposta, e não podendo mais fazer, cessou de falar em ello.
El-rei Dom Pedro mui sanhudo, por tomar logo alguma vingança, passou por sentença contra o infante Dom Fernando, seu primo, e contra o conde Dom Henrique, e outros cavalleiros muitos, por a qual razão os perdeu então de todo ponto, e o peior d'isto: mandou matar a rainha Dona Leonor, sua tia, madre do dito infante Dom Fernando, e Dona Joanna de Lara, mulher de Dom Tello, seu irmão; nas quaes cousas cumpriu sua vontade, e não fez muito de seu serviço. E depois que mandou fazer estas e outras cousas, pôz seus fronteiros contra Aragão, e partiu de Almaçan, e veiu-se a Sevilha.
*CAPITULO XXIV*
Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a el-rei de Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a Aragão.
Sendo el-rei de Castella em tal desaccordo com el-rei de Aragão, e tendo vontade de fazer grande armada contra seu reino em este anno de mil e trezentos e noventa e sete, pero assaz de frota tivesse, assim de naus como de galés, não foi d'isto ainda contente, e mandou dizer a el-rei de Portugal, seu tio, por João Fernandez de Hinestrosa, seu camareiro-mór, que lhe rogava que as dez galés, que lhe promettidas havia de dar em ajuda contra Aragão, que as mandasse fazer prestes, cá lhe eram muito cumpridoras.
A el-rei prouve muito d'ello, e mandou logo armar de boas gentes dez galés e uma galeota, e o seu almirante Misser Lançarote em ellas.
El-rei como soube que as dez galés de Portugal eram prestes, partiu de Sevilha no mez de abril meiado, com toda sua armada junta, a qual eram oitenta naus de castello d'avante, e vinte e oito galés suas, e duas galeotas e quatro lenhos, e mais tres galés d'el-rei de Granada, que lhe enviara em ajuda a seu requerimento.
E esteve el-rei em Aljazira quinze dias, aguardando pelas galés de Portugal, e quando viu que não vinham, partiu para Cartagena, e alli esperou todas suas naus; e foi sobre Guadamar, e tomou a villa e o castello, e d'alli foi pela costa, combatendo alguns logares que tomar não poude, e chegou ao rio de Ebro, a cerca de Tortosa, cidade de Aragão, e alli chegaram as dez galés de Portugal, que lhe el-rei seu tio enviava em ajuda. E prouve muito a el-rei com ellas, e a todos os da frota, e tinha el-rei então, por todas, quarenta e uma galés, afóra as fustas pequenas.
E partiu el-rei d'alli com toda armada e chegou a Barcelona, uma vespera de paschoa, onde estava el-rei de Aragão; e achou doze galés armadas, e não as poude tomar, cá se puzeram todas a travez, junto com a cidade, e d'alli as defendiam com muita bésteria e trons.
E esteve el-rei ante Barcelona, com toda sua frota, tres dias, e d'alli se foi á ilha de Iviça, e cercou uma boa villa que ha assim nome; e tendo-a afincada com engenhos e bastidas, soube como el-rei de Aragão tinha armadas quarenta galés com que estava na ilha de Mayorca, e queria pelejar com elle.
E el-rei de Castella, como isto soube, disse que lhe não cumpria estar mais em terra, nem curar de cerco d'aquelle logar, pois todo o feito da guerra havia de haver fim por aquella batalha, em que os reis haviam de ser por seus corpos. E fez logo recolher toda sua gente á frota, e metteu-se el-rei n'uma grande galé, que fôra dos mouros, que passava quarenta cavallos sob sota, e mandou fazer n'ella tres castellos de madeira, um na pôpa e outro na prôa, e um na metade, e pôz n'ella cento e sessenta homens d'armas e cento e vinte bésteiros. E partiu el-rei, de Iviça, com toda sua frota, e veiu-se a um logar que dizem Calpe, e alli ancoraram as naus e galés a cerca de terra, traz uma alta penha que ahi ha, de guisa que se não podiam ver, salvo de perto.
As galés de Aragão appareceram d'alli á vella até duas leguas, pouco mais ou menos, dentro no mar, e eram quarenta sem outros navios, e não vinha el-rei n'ellas, cá os seus não quizeram, e ficou em Mayorca. Ellas não haviam vista da frota de Castella, por aso d'aquella grande penha que as amparava; e vinham todas á vella, n'esta ordenança: em meio d'ellas eram duas galés grossas, com castellos feitos de que pelejassem, e n'uma vinha o conde de Cardona, e n'outra Dom Bernardo de Cabrera, almirante de Aragão; e duas galés de guarda vinham diante por grão espaço das outras; e muitas gentes de pé e de cavallo, por terra, para as ajudarem se mister fizesse.
As duas galés, que vinham diante, como houveram vista das naus e frota de Castella, calaram as vellas e tomaram os remos; as outras todas, como isto viram, fizeram logo por aquella guisa por se ordenarem á sua vontade; e sabendo parte das naus que ahi eram, de que houveram mui grande receio, não as ousaram de attender no mar, e logo essa tarde, á hora de vespera, se metteram todas no rio de Denia.
El-rei Dom Pedro fez logo fazer todos os seus prestes, cuidando outro dia de haver batalha; e o mar era tão sem vento que se não podia aproveitar das naus; e havido seu conselho, em que eram desvairados accordos, determinou que pois a armada dos imigos jazia em tal rio, que por sua estreitura não podia pelejar com elles, que se fossem entanto para Alicante, por vêr se quereriam depois pelejar.
E el-rei como d'alli partiu com a sua frota, e as galés de Aragão vieram-se lançar em Calpe, onde a frota de Castella jazera primeiro.
*CAPITULO XXV*
Como se partiu o almirante de Portugal com as dez galés, e como el-rei Dom Pedro desarmou a frota; e de outras cousas.
Havendo seis dias que el-rei de Castella estava em Alicante, e vendo que a armada de Aragão não apparecia, partiu d'aquelle logar e veiu-se para Cartagena. E alli disse o almirante de Portugal a el-rei, que seu senhor, el-rei de Portugal, lhe mandára que estivesse com aquellas suas dez galés tres mezes, onde quer que o elle mandasse, e que pois os tres mezes eram já passados, que não ousaria mais de estar alli, nem passaria mandado de seu senhor.
El-rei Dom Pedro, quando isto ouviu, pezou-lhe muito, cá não quizera que tão asinha partira, e não podendo fazer que se tivesse alli mais, deu-lhe licença que se fosse.
E como se as galés de Portugal partiram, accordou el-rei de deixar a
frota e ir-se por terra para Castella, e mandou as galés todas a
Sevilha, e deu logar ás náus que se partissem, e elle veiu-se para
Outerdesilhas, onde estava Dona Maria de Padilha, madre de seus filhos.
As galés de Aragão, como souberam que el-rei de Castella desarmara a frota, desarmaram elles trinta galés suas, e deixaram dez que andassem pelo mar, por fazer damno a alguns navios de Portugal ou de Castella: e foi assim que o fizeram a alguns, mas poucos porém, e em pequenos navios.
N'esta sesão, no mez de setembro, o conde Dom Henrique, e Dom Tello, seu irmão, e alguns fidalgos e cavalleiros de Aragão até oitocentos de cavallo, entraram por Castella por terra de Agreda, e Dom Fernando de Castro e João Fernandez de Hinestrosa, e outros, que estavam na fronteira da comarca de Almaçan, com uns mil e quinhentos de cavallo, sairam a elles. E foi de tal guisa que pelejaram a cerca de Moncayo. E foi vencido Dom Fernando de Castro, e morto João Fernandez de Hinestrosa, e outros bons fidalgos, e preso Inigo Lopez de Orosco, e outros.
A el-rei Dom Pedro pezou d'isto muito, e seus inimigos cobraram grande esforço; e mandou n'este anno matar em Carmona, onde estavam presos, Dom João e Dom Pedro, seus irmãos, filhos d'el-rei Dom Affonso seu padre, e de Dona Leonor Nunez de Guzman: era Dom Pedro de quartoze annos, e Dom João de dezenove, moços innocentes que nunca lhe mal mereceram.
E por aso d'estas mortes, e outras muitas que tendes ouvido, era el-rei Dom Pedro tão mal quisto de todos, e havendo d'elle tamanho medo, que por ligeira cousa se partiam d'elle, e se iam a Aragão para o conde Dom Henrique. Assim como fez Diego Perez Sarmento, e Pero Fernandez de Velasco, e outros, com muitas gentes que comsigo levaram; em tanto, que o conde disse a el-rei de Aragão que se quizesse ordenar uma boa companhia de gente, que elle entraria com elles por Castella, e que entendia de não achar quem lhe puzesse a praça: e quizera el-rei, de boamente, que se fizera, mas que levara o infante Dom Fernando, seu irmão, a capitania d'elles, e o conde Dom Henrique não quiz, e por tanto se não fez d'aquella vezada.