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Chronica de el-rei D. Pedro I cover

Chronica de el-rei D. Pedro I

Chapter 30: *CAPITULO XXVI*
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About This Book

The chronicle provides a chronological narrative of a ruler's reign, emphasizing the administration of justice, political decisions, and public affairs. Written in plain, energetic prose, it combines episode-by-episode reporting with moral and legal reflection, opening with prologues that frame central themes and proceeding through detailed portrayals of court life, disputes, and resolves. The arrangement highlights causes and consequences of actions, aiming to explain governance, judicial practice, and their social effects without ornate fiction.

*CAPITULO XXVI*

Como o cardeal de Bolonha quizera tratar paz entre os reis e não poude, e como as gentes d'el-rei Dom Pedro pelejaram com o conde e o desbarataram.

Tendo o cardeal de Bolonha, que andava em Aragão por avir estes reis, como el-rei Dom Pedro havia perdida parte de sua gente n'aquella batalha que houvera o conde Dom Henrique com Dom Fernando de Castro, e como se alguns cavalleiros partiam d'elle, e se iam para Aragão, teve que, por estas e outras razões, elle se chegaria a alguma boa avença para haver paz com el-rei de Aragão, e fez saber a ambos os reis se lhes prazeria de falar mais n'isto, e outorgou cada um que sim.

O cardeal se veiu então para Tudella, que é do reino de Navarra, e chegou ahi Guterre Fernandez de Toledo por procurador d'el-rei de Castella, e Dom Bernardo de Cabrera, procurador d'el-rei de Aragão, e estiveram por dias, e não se avieram.

El-rei Dom Pedro, como isto soube, partiu de Sevilha para Leon, por quanto lhe disseram que o conde Dom Henrique, e Dom Tello, e outros senhores de Aragão, se juntavam para entrar por Castella; e d'alli partiu, e veiu a Valhadolid, sabendo como já eram entradas aquellas gentes em seu reino, e mataram os judeus de Najara e d'outros logares, e roubavam as judiarias. E o conde chegou a Pancorvo e assocegou ahi alguns dias, e depois se partiu para Najara, e el-rei foi allá com seu poder, e pousou em um logar que chamam Acofra.

E alli chegou a elle um clerigo de missa, natural de São Domingos da Calçada, e contou-lhe que São Domingos lhe dissera, em sonhos, que viesse a elle e lhe dissessé que fosse certo que não se guardando do conde Dom Henrique, que elle o havia de matar por sua mão. E el-rei cuidou que o clerigo lh'o dizia por induzimento, pero o clerigo dizia que não, e mandou-o queimar ante si.

E partiu el-rei uma sexta-feira para Najara, onde o conde estava, e elle era fóra da villa com oitocentos de cavallo e dois mil homens de pé. E mandara pôr o conde, ante a villa, n'um outeiro, uma tenda e um pendão; e os d'el-rei que iam diante pelejaram com o conde e venceram-no, e tomaram a tenda e o pendão, e morreram ahi parte dos seus. E partiu-se el-rei, á tarde, para Acofra, onde tinha seu arrayal.

E em outro dia, vindo para combater Najára, onde ficara o conde, achou no caminho um escudeiro que vinha fazendo pranto por um seu tio que lhe mataram, e el-rei houve-o por forte signal e não quiz lá ir, e tornou-se para São Domingos da Calçada.

E d'ahi a dois dias lhe disseram que era partido o conde para Aragão, levando caminho de Navarra, e quizera-o el-rei seguir, e o cardeal lhe conselhou que o não fizesse, cá assaz abundava deixarem-lhe suas villas e irem-se. E el-rei mandou aos seus que estivessem quedos, e d'aquelle logar ordenou seus fronteiros para os logares onde cumpria, e veiu-se para Sevilha.

Elle alli soube como um cavalleiro de Aragão, que chamavam Mateo Mercedi, andava no mar com quatro galés fazendo damno a castelhanos e a portuguezes, e fez armar cinco galés, e mandou n'ellas um seu bésteiro, que diziam Zorzo, natural de Tartaria, que fosse em busca d'aquelle corsario; e foi assim que o achou na costa da Berberia, onde pelejou com elle, e desbaratou-o e trouxe as galés e elle preso a Sevilha: e el-rei mandou-o matar, e muitos dos que vinham com elle.

Mas ora deixemos el-rei em Sevilha, matando e prendendo quaes vos depois contaremos, e digamos algumas outras cousas que este anno aconteceram em Portugal, que nos parece que é bem que saibaes.

*CAPITULO XXVII*

Como el-rei Dom Pedro de Portugal disse por Dona Ignez que fora sua mulher recebida, e da maneira que em ello teve.

Já tendes ouvido compridamente, onde falamos da morte de D. Ignez, a razão por que a el-rei Dom Affonso matou, e o grande desvairo que entre elle e este rei Dom Pedro, sendo então infante, houve por este aso. Ora, assim é, que emquanto Dona Ignez foi viva, nem depois da morte d'ella emquanto el-rei seu padre viveu, nem depois que elle reinou até este presente tempo, nunca el-rei Dom Pedro a nomeou por sua mulher; antes dizem que muitas vezes lhe enviava el-rei Dom Affonso perguntar se a recebera, e honral-a-ia como sua mulher, e elle respondia sempre que a não recebera, nem o era.

E pousando el-rei, n'esta sesão, no logar de Cantanhede, no mez de junho, havendo já uns quatro annos que reinava, tendo ordenado de a publicar por mulher, estando ante elle Dom João Affonso conde de Barcellos, seu mordomo-mór, e Vasco Martins de Sousa, seu chanceller, e mestre Affonso das leis e João Esteves, privados, e Martim Vasques, senhor de Goes, e Gonçalo Mendes de Vasconcellos, e João Mendes, seu irmão, e Alvaro Pereira, e Gonçalo Pereira, e Diego Gomes, e Vasco Gomes de Abreu, e outros muitos que dizer não curamos, fez el-rei chamar um tabellião, e presentes todos, jurou aos Evangelhos, por elle corporalmente tangidos, que sendo elle infante, vivendo ainda el-rei seu padre, que estando elle em Bragança, podia haver uns sete annos, pouco mais ou menos, não se accordando do dia e mez, que elle recebera por sua mulher lidima, por palavras de presente, como manda a santa igreja, Dona Ignez de Castro, filha que foi de D. Pedro Fernandez de Castro, e que essa Dona Ignez recebera a elle por seu marido, por semelhaveis palavras, e que depois do dito recebimento a tivera sempre por sua mulher, até ao tempo de sua morte, vivendo ambos de commum, e fazendo-se maridança qual deviam.

E disse então el-rei Dom Pedro, que porquanto este recebimento não fôra exemplado nem claramente sabido a todos os de seu senhorio, em vida do dito seu padre, por temor e receio que d'elle havia, que porém elle, por descarregar sua consciencia e dizer verdade, e não ser duvida a alguns, que do dito recebimento tinham não boa suspeita se fôra assim ou não: que elle dava de si fé e testemunho de verdade, que assim se passara de feito como dito havia, e mandou áquelle tabellião, que presente estava, que désse d'ello instrumentos a quaesquer pessoas que lh'os requeressem. E por então não se fez mais.

*CAPITULO XXVIII*

Do testemunho que alguns deram no casamento de Dona Ignez, e das razões que sobre ello propoz o conde Dom João Affonso.

Passados trez dias que isto foi, chegaram a Coimbra Dom João Affonso conde de Barcellos, e Vasco Martins de Sousa, e mestre Affonso das leis, e no paço onde então liam de decretaes, sendo o estudo n'essa cidade, presente um tabellião, chamaram duas testemunhas, a saber, Dom Gil, que então era bispo da Guarda, e Estevam Lobato, criado d'el-rei, aos quaes disseram que, por juramento dos Evangelhos, dissessem a verdade do que sabiam em feito do casamento d'el-rei Dom Pedro com Dona Ignez. E perguntado cada um per si áparte, o bispo disse primeiramente, que andando elle com o dito senhor, e sendo então deão da Guarda, que n'aquelle tempo, sendo el-rei infante, e Dona Ignez com elle, pousavam na villa de Bragança, e que esse senhor o mandara chamar um dia á sua camara, sendo Dona Ignez presente, e que lhe dissera que a queria receber por sua mulher, e que logo, sem mais detença, o dito senhor puzera a mão nas suas d'elle, e isso mesmo a dita Dona Ignez, e que os recebera ambos por palavras de presente, como manda a santa igreja de Roma, e que os vira viver de commum até á morte d'essa Dona Ignez; e que isto poderia haver sete annos, pouco mais ou menos, mas que não se accordava do dia e mez em que fôra: e d'este feito não disse mais.

Semelhavelmente foi perguntado Estevam Lobato, e disse que sendo el-rei infante e pousando em Bragança, que o mandara chamar á sua camara, e que lhe dissera que o mandara chamar porque sua vontade era de receber Dona Ignez, que presente estava, e que queria que fosse d'ello testemunha: e que o deão da Guarda, que já ahi estava, e outrem não, tomara o dito senhor por uma mão e ella por outra, e que então os recebera ambos por aquellas palavras que se costumam dizer em taes desposorios, e que os vira viver juntamente até ao tempo da morte d'ella; e que isto fôra em um primeiro dia de janeiro, podia haver sete annos, pouco mais ou menos.

Tanto que estes foram perguntados e escripto seu dito, segundo ouvistes, fizeram logo juntar, que para isto já estavam presentes, Dom Lourenço, bispo de Lisboa, e Dom Affonso, bispo do Porto, e Dom João, bispo de Vizeu, e Dom Affonso, prior de Santa Cruz d'esse logar, e todos os fidalgos antes nomeados, com outros muitos que não dizemos, e os vigarios, e clerezia, e muito outro povo assim ecclesiastico como secular, que se para isto alli juntou. E feito silencio, a bem escutar, começou a dizer o conde Dom João Affonso:

Amigos, deveis de saber que el-rei, nosso senhor que ora é, sendo infante, passa já de uns sete annos, estando então na villa de Bragança, sendo el-rei Dom Affonso, seu padre, vivo, recebeu por sua mulher lidima, por palavras de presente, Dona Ignez de Castro, filha que foi de Dom Pedro Fernandez de Castro, e ella isso mesmo recebeu a elle, e sempre a o dito senhor teve depois por sua mulher, fazendo-se maridança um ao outro, qual deviam, até ao tempo da sua morte. E porquanto estes recebimentos e casamento não foi exemplado a todos os do reino em vida do dito rei Dom Affonso, por medo e receio que seu filho d'elle havia, casando de tal guisa sem seu mandado e consentimento, porém agora el-rei, nosso senhor, por desencarregar sua alma e dizer verdade e não ser duvida a alguns que d'este casamento parte não sabiam se fôra assim ou não, fez juramento sobre os santos Evangelhos e deu de si fé e testemunho de verdade, que foi d'esta guisa que o eu digo, segundo vereis por um instrumento que d'isto tem feito Gonçalo Peres, tabellião, que aqui está; e mais vereis o dito do bispo da Guarda e de Estevam Lobato, que aqui estão, que foram presentes no dito casamento.

Então lhe fez cumpridamente lêr todo o testemunho que ambos sobre ello deram.

«E porque vontade d'el-rei, nosso senhor (disse elle) é que isto não seja mais encoberto, antes lhe praz que o saibam todos, por ser arredada grande duvida que sobre ello adiante poderia recrescer, porém me mandou que vos notificasse tudo isto, por tirar suspeita de vossos corações, e ser a todos claramente sabido. Mas porque não embargando tudo o que eu disse, e vos ora aqui foi lido e declarado, alguns poderão dizer que tudo isto não bastava se ahi dispensação não houve, por o grão divido que entre elles havia, sendo ella sobrinha d'el-rei nosso senhor, filha de seu primo coirmão, porém me mandou que vos certificasse de tudo, e vos mostrasse esta bulla que houve em sendo infante, em que o papa dispensou com elle, que pudesse casar com toda mulher, posto que lhe chegada fosse em parentesco, tanto e mais como Dona Ignez era a elle».

Então publicaram perante todos uma letra do papa João XXII, que dizia em esta guisa:

«João, bispo, servo dos servos de Deus. Ao muito amado, em Christo, filho infante Dom Pedro, primogenito do muito amado, em Christo nosso filho mui claro rei de Portugal e do Algarve Affonso, saude e apostolical benção. Se o rigor dos santos canones põe defeza e interdicto sobre a copula do matrimonial ajuntamento, querendo que se não faça entre aquelles que por algum divido de parentesco são conjunctos, por guarda da publica honestidade; aquelle porém que é ás vezes bispo de Roma, de poderio absoluto, em lugar de Deus dispensando, pode por especial graça pôr temperança sobre tal rigor. E porém nós, demovido ácerca de tua pessoa com especial favor, por algumas razões, de que ao diante esperamos paz e folgança n'esses reinos, querendo condescender a tuas preces e de el-rei Dom Affonso, teu padre, que por suas letras por ti a nós humildosamente supplicou, para casares com qualquer nobre mulher, devota á santa igreja de Roma, ainda que por linha transversa de uma parte no segundo grau e d'outra no terceiro, sejaes dividos e parentes, e isso mesmo ainda, que por razão de outras duas linhas collateraes, seja embargo de parentesco ou cunhadia entre vós no quarto grau, licitamente por matrimonio vos podeis ajuntar: nós, por apostolica auctoridade, de especial graça, tudo tiramos e removemos, dispensando comtigo e com aquella com que assim casares, de nosso apostolico poderio, que a geração que de vós ambos nascer ser legitima sem outro impedimento. Porém, nenhum homem seja ousado presumpçosamente contra esta nossa dispensasão ir, de outra guisa seja certo na ira e sanha do todo poderoso Deus, e dos bem aventurados São Pedro e São Paulo, apostolos, incorrer. D'ante em Avinhão, duodecimo Kalendas de março, do nosso pontificado anno nono.»

Acabada de lêr assim esta letra, disse então o conde, presente elles todos, que elle por guarda e em nome dos infantes Dom João, e Dom Diniz, e Dona Beatriz, filhos que eram dos ditos senhores, queria tomar sendos instrumentos para cada um d'elles, e requereu ao tabellião que assim lh'os desse.

Partiram-se então todos para as pousadas, não minguando a cada um razões, que fossem entre si falando sobre esta historia.

*CAPITULO XXIX*

Razões contra isto, de alguns que ahi estavam, duvidando muito neste casamento.

Acabadas razões que ouvistes, ditas, presentes letrados e outro muito povo, aquelles que, de chão e simples entender eram, não esquadrinhando bem o tecimento de taes cousas, ligeiramente lhe deram fé, outorgando ser verdade tudo aquillo que alli ouviram. Outros, mais subtis de entender, letrados e bem discretos, que os termos de tal feito mui delgado investigaram, buscando se aquillo que ouviam podia ser verdade, ou pelo contrario, não receberam isto em seus entendimentos parecendo-lhe de tudo ser muito contra razão. Cá porque o crêr da cousa ouvida está na razão e não na vontade, porende o prudente homem que tal cousa ouve, que sua razão não quer conceber, logo se maravilha, duvidando muito. E porém, foram assaz, dos que alli estiveram, de tal historia não mui contentes, vendo que aquillo que lhe fôra proposto nenhum alicerce tinha de razão. E se alguns perguntar quizerem por que taes presumiam ser tudo fingido, as razões d'elles, que nos bem claras parecem, sejam resposta á sua pergunta, dizendo os que tinham a parte contraria, contra aquelles que defendiam ser tudo verdade, suas razões, n'esta maneira.

Não quizeram consentir os antigos que nenhum razoado homem, sendo em sua saude e inteiro siso, se pudesse d'elle tanto assenhorear o esquecimento, que toda a cousa notavel passada, sempre d'ella não houvesse relembrança.

Allegando, aquelle claro lume da philosophia, Aristoteles, em um breve tratado que d'isto compoz, o porque de todas causas presentes, ou que são por vir, não cumpre haver nenhuma memoria; ergo, das causas passadas, que já aconteceram, era necessaria a relembrança: dizendo que a memoria é dita, quando a imagem vista, ou ouvida, de alguma causa do homem, é sempre presente na virtude memorativa, e reminiscencia é, quando alguma causa, feita ou ouvida, saiu da virtude memorativa e depois torna a lembrar, por vêr outra semelhante causa.

Assim como, se eu casei, ou me foi feita uma gram mercê, ou fui chamado a um gram conselho em um dia de paschoa ou janeiro, ou outro dia assignado do anno, e depois me vem a esquecer, não o tendo sempre presente na memoria:—vendo depois outra bôda, ou alguma das causas que me advieram, em semelhante dia, lembrar-me-ha então que casei em dia de paschoa, ou outra qualquer cousa que me adveiu, se vejo alguma cousa semelhante, ou m'a perguntarem. Porque convém que me lembre o dia e a cousa, posto que me esqueça o conto dos annos ou dos dias em que foi. Ou diziam que tornava ainda a lembrar por outra contraria maneira, assim como, se eu casei em dia de paschoa e depois de alguns annos morreu-me a mulher em outro dia tal,—ou houve gram prazer em dia de natal, e depois gram nojo em semelhante dia,—necesario é que me lembre o prazer primeiro, posto que me o conto dos dias esqueça, porque é cousa que não causa disposição na memoria. Porém, o dia assignado em que me tal cousa adveiu, nunca se tira, de todo o ponto, que depois não torne a lembrar cumpridamente, porque tal dia é da essencia da relembrança, e o processo do tempo, não. E porém, não é cousa que possa ser, estando homem em sua saude, que lhe cousa notavel esqueça, posto que lhe o conto dos dias esqueça, que é transitorio, e não da essencia do lembramento.

Pois como pode cahir em entendimento de homem, diziam elles, que um casamento tão notavel como este, e que tantas razões tinha para ser lembrado, houvesse, em tão pequeno espaço, de esquecer, assim áquelle que o fez, como os que foram presentes, não lhe lembrando o dia nem o mez?

Certamente, buscada a verdade d'este feito, a razão n'isto não consente; cá, deixadas as razões, que ahi havia, para se el-rei lembrar bem quando fôra, assim como a tomada de Dona Ignez e o grande desvairo que por tal azo houve com seu padre, dês-ahi o grande tempo que tardou antes que o fizesse, e a gram deliberação com que se moveu a o fazer, e o segredo em que o poz áquelles que dizem que foram presentes; deixando tudo isto, sómente por ser feito em dia de janeiro que é primeiro dia do anno, segundo disse Estevão Lobato, demais, festa tão assignada no paço do infante e por todo o reino, isto só era bastante assaz para ser lembrado o dia em que a recebera, posto que longo processo de annos houvesse.

Outra razão notavam ainda a tudo o que ouviram parecer fingido, dizendo que, se el-rei dava em seu testemunho que, com temor e receio de seu padre, não ousara descobrir este casamento em sua vida d'elle, quem lhe tolhera, depois que el-rei morreu, que o logo não notificara, sendo em seu livre poder, pois lhe tanto prazia de ser sabido?

E mais diziam, que este feito queria parecer semelhante a el-rei Dom Pedro de Castella, que posto que, elle mandasse matar Dona Branca, sua mulher, em quanto Dona Maria de Padilha foi viva, que elle tinha por sua manceba, nunca lhe nenhum ouviu dizer que ella fosse sua mulher, e depois que ella morreu, em umas côrtes que fez em Sevilha, alli declarou, perante todos, que primeiro casára com ella que com Dona Branca, nomeando quatro testemunhas que foram presentes, os quaes por juramento certificaram logo que assim fôra como elle dizia, e desde então mandou elle que lhe chamassem rainha, posto que já fosse morta, e aos filhos infantes; e fez logo a todos fazer menagem, a um filho que d'ella houvera, que chamavam Dom Affonso, que o tomassem por rei depoz sua morte.

E porém diziam os que estas e outras razões secretamente entre si falavam, que a verdade não busca cantos, muito encoberta andava em taes feitos. Assim que, porque o entender é disposto sempre para obedecer á razão, muitos que então isto ouviram deixaram de crer o que antes criam, e pegaram-se a este arrazoado; mas nós, que não por determinar se foi assim ou não, como elles disseram, mas sómente por ajuntar em breve o que os antigos notaram em escripto, puzemos aqui parte de seu arrazoado, deixamos cargo, ao que isto lêr, que d'estas opiniões escolha qual quizer.

*CAPITULO XXX*

Como os reis de Portugal e de Castella fizeram entre si avença, que entregassem, um ao outro, alguns que andavam seguros em seus reinos.

Porque o fructo principal da alma, que é a verdade, pela qual todas as cousas estão em sua firmeza,—e ella ha de ser clara, e não fingida, mórmente nos reis e senhores, em que mais resplandece qualquer virtude ou é feio o seu contrario,—houveram as gentes por mui grão mal, um muito de aborrecer escambo que este anno entre os reis de Portugal e Castella foi feito: em tanto que, posto que escripto achemos, de el-rei de Portugal, que a toda a gente era mantenedor de verdade, nossa tenção é não o louvar mais, pois contra seu juramento foi consentidor em tão feia cousa como esta.

Onde assim adveiu, segundo dissemos, que na morte de Dona Ignez, que el-rei Dom Affonso pae de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então infante, mandou matar em Coimbra, foram mui culpados pelo infante, Diogo Lopes Pacheco, e Pero Coelho, e Alvaro Gonçalves, seu meirinho-mór, e outros muitos que elle culpou; mas assignadamente contra estes tres teve o infante mui grande rancura. E fallando verdade, Alvaro Gonçalves e Pero Coelho eram n'isto assaz de culpados, mas Diogo Lopes, não, porque muitas vezes mandara perceber o infante, por Gonçalo Vasques, seu privado, que guardasse aquella mulher da sanha d'el-rei seu padre.

Pero, depois de tudo isto, foi el-rei de accordo com o infante seu filho, e perdoou o infante a estes e a outros em que suspeitava, e isso mesmo perdoou el-rei, aos do infante, todo o queixume que d'elles havia, e foram, sobre isto, grandes juramentos e promessas feitas, como cumpridamente tendes ouvido: e viviam assim seguros, Diogo Lopes e os outros, no reino, em quanto el-rei Dom Affonso viveu.

E sendo el-rei doente, em Lisboa, da dôr de que se então finou, fez chamar Diogo Lopes Pacheco e outros, e disse-lhe que elle sabia bem que o infante Dom Pedro, seu filho, lhe tinha má vontade, não embargando as juras e perdão que fizera, da guisa que elles bem sabiam; e que, porquanto se elle sentia mais chegado á morte que á vida, que lhes cumpria, de se pôrem em salvo fóra do reino, porque elle não estava já em tempo de os poder defender d'elle, se lhe algum nojo quizesse fazer. E elles se partiram logo de Lisboa, e se foram para Castella, andando então o infante Dom Pedro ao monte, além do Tejo, em uma ribeira que chamam de Canha, que são oito leguas da cidade: e el-rei de Castella os recebeu de bom geito, e haviam d'elle bem fazer, e mercê, vivendo em seu reino seguros e sem receio.

E depois que o infante Dom Pedro reinou, deu sentença de traição contra elles, dizendo que fizeram contra elle, e contra seu estado, cousas que não deviam de fazer; e deu os bens de Pero Coelho a Vasco Martins de Sousa, rico-homem, e seu chanceller-mór, e os de Alvaro Gonçalves e Diogo Lopes a outras pessoas, como lhe prouve. E fez el-rei, em alguns d'estes bens, tantas e taes bemfeitorias, e outras repartio em tantas partes, que depois que elle morresse nunca os mais podessem haver aquelles cujos foram, nem tirar áquelles a que os assim dava.

Semelhavelmente, fugiram de Castella, n'esta sesão, com temor de el-rei, que os mandava matar, Dom Pedro Nunez de Guzman, adeantado-mór da terra de Leão, e Mem Rodrigues Tenorio, e Fernão Godiel de Toledo, e Fernão Sanchez Calderon, e viviam em Portugal, na mercê de el-rei Dom Pedro, crendo não receber damno, tambem os portuguezes como os castelhanos, porque razoada fé lhes dera ousado acoutamento nas fraldas da segurança, a qual—não bem guardada pelos reis—fizeram calladamente uma tal avença, que el-rei de Portugal entregasse presos, a el-rei de Castella, os fidalgos que em seu reino viviam, e que elle, outrosim, lhe entregaria Diogo Lopes Pacheco, e os outros ambos que em Castella andavam. E ordenaram que fossem todos presos em um dia, por que a prisão de uns não fosse avisamento dos outros, e que aquelles que levassem presos os castelhanos até ao extremo do reino, recebessem os portuguezes que trouxessem de Castella.

*CAPITULO XXXI*

Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram entregues os outros, e logo mortos cruelmente.

Feito aquelle tracto d'esta maneira, foram em Portugal presos os fidalgos que dissemos.

E n'aquelle dia que o recado de el-rei de Castella chegou ao lugar, onde Diogo Lopes e os outros estavam, para haverem de ser presos, aconteceu que essa manhã muito cedo fôra Diogo Lopes á caça dos perdigões. E presos Pero Coelho e Alvaro Gonçalves, quando foram buscar Diogo Lopes, acharam que não era no logar, e que se fôra pela manhã á caça.

Cerraram então as portas da villa, que nenhum lhe levasse recado para o perceber, e attendiam-no assim, estando para o tomar á vinda.

Um pobre manco, que sempre em sua casa havia esmola quando Diogo Lopes comia, e com quem algumas vezes jogueteava, viu estas cousas como se passaram, e cuidou de o avisar no caminho antes que chegasse ao logar, e soube escusadamente contra qual parte Diogo Lopes fôra, e chegou ás guardas da porta que o deixassem sair fôra, e elles, de tal homem nenhuma cousa suspeitando, abrindo a porta o deixaram ir.

Andou elle, quanto poude, por onde entendeu que Diogo Lopes viria, e achou-o já vir com seus escudeiros, mui desegurado das novas que lhe elle levava. E dizendo o pobre a Diogo Lopes que lhe queria falar, quizera-se elle escusar de o ouvir, como quem pouco suspeitava que lhe trazia tal recado.

Afincando-se o pobre que o ouvisse, contou-lhe então áparte como uma guarda de el-rei de Castella, com muitas gentes, chegaram a seu paço para o prender, depois que os outros foram presos, e isso mesmo de que guisa as portas eram guardadas, por que nenhum saisse para o avisar.

Diogo Lopes, como isto ouviu, bem lhe deu a vontade o que era, e medo de morte o fez torvar todo, e pôr em grão pensamento.

E o pobre lhe disse, quando o assim viu:—Crê-de-me de conselho, e ser-vos-ha proveitoso: apartae-vos dos vossos, e vamos a um valle não longe d'aqui, e alli vos direi a maneira como vos ponhaes em salvo.

Então disse Diogo Lopes aos seus que andassem por alli a perto caçando, cá elle só queria ir com aquelle pobre a um valle, onde lhe dizia que havia muitos perdigões.

Fizeram-no assim, e foram-se ambos áquelle logar, e alli lhe disse o pobre, se escapar queria, que vestisse os seus saios rotos, e assim, de pé, andasse quanto podesse até á entrada que ia para Aragão, e que com os primeiros almocreves que achasse, se mettesse de soldada, e assim, com elles de volta, andasse seu caminho, e por esta guisa, ou em um habito de frade, se o depois haver pudesse, se puzesse em salvo no reino de Aragão, cá por força havia de ser buscado pela terra.

Diogo Lopes tornou seu conselho, e foi-se de pé, d'aquella maneira, e o pobre não tornou logo para a villa. Os seus aguardaram por mui grande espaço; e vendo que não vinha, foram-no buscar contra onde elle fôra: e andando em sua busca, acharam a besta andar só, e cuidaram que caira d'ella, ou lhe fugira, e buscaram-no com maior cuidado.

Foi a detença, em isto, tão grande, que se fazia já muito tarde, e vendo como o achar não podiam, levaram a besta e foram-se ao lugar, não sabendo que cuidassem em tal feito. E quando chegaram, e viram de que guisa o aguardavam, e souberam da prisão dos outros, ficaram mui espantados, e logo cuidaram que era fugido: e perguntados por elle, disseram que caçando só, se perdera d'elles, e que buscando-o acharam a besta e não a elle, e que n'aquillo foram detidos até áquellas horas, e que não sabiam que cuidassem, senão que jazia em algum logar morto. Os que cuidado tinham de o prender, foram-no buscar por desvairadas partes. E do que lhe adveiu no caminho, e como passou por Aragão, e se foi a França para o conde Dom Henrique, e de que guisa lhe fez roubar os campos de Avinhão, e de outras cousas que lhe advieram, não curamos de dizer mais, por não sair fóra de proposito.

Quando el-rei de Castella soube que Diogo Lopes não fôra tomado, houve grão queixume e não poude mais fazer: então enviou Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, bem presos e arrecadados, a el-rei de Portugal, seu tio, segundo era ordenado entres elles. E quando chegaram ao extremo, acharam ahi Mem Rodriguez Tenorio, e os outros castelhanos, que lhe el-rei Dom Pedro enviava. E alli dizia depois Diogo Lopes, falando n'esta historia, que se fizera o troco de burros por burros.

E foram levados a Sevilha, onde el-rei então estava, aquelles fidalgos que já nomeámos, e alli os mandou el-rei matar a todos.

A Portugal foram trazidos Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, e chegaram a Santarem, onde el-rei era. El-rei, com prazer de sua vinda, porém mal magoado porque Diogo Lopes fugira, os saiu fóra a receber, e, sanha cruel, sem piedade os fez por sua mão metter a tormento, querendo que lhe confessassem quaes foram na morte de Dona Ignez culpados, e que era que seu padre tratava contra elle, quando andavam desavindos por azo da morte d'ella. E nenhum d'elles respondeu a taes perguntas cousa que a el-rei prouvesse.

E el-rei, com queixume, dizem que deu um açoute no rosto a Pero Coelho, e elle se soltou então contra el-rei em deshonestas e feias palavras, chamando-lhe traidor, á fé perjuro, algoz e carniceiro dos homens. E el-rei, dizendo que lhe trouxessem cebola, vinagre, e azeite para o coelho, enfadou-se d'elles, e mandou-os matar.

A maneira de sua morte, sendo dita pelo miudo, seria mui estranha e crua de contar, cá mandou tirar o coração pelos peitos a Pero Coelho, e a Alvaro Gonçalves pelas espaduas. E quaes palavras houve e aquelle que lh'o tirava, que tal officio havia pouco em costume, seria bem dorida cousa de ouvir. Emfim, mandou-os queimar. E tudo feito ante os paços onde elle pousava, de guisa que comendo olhava quanto mandava fazer.

Muito perdeu el-rei de sua boa fama por tal escambo como este, o qual foi havido, em Portugal e em Castella, por mui grande mal, dizendo todos os bons que o ouviam, que os reis erravam mui muito indo contra suas verdades, pois que estes cavalleiros estavam, sobre segurança, acoutados em seus reinos.

*CAPITULO XXXII*

De algumas cousas que el-rei Dom Pedro de Castella mandou fazer, e como fez paz com el-rei de Aragão entrando em seu reino.

Nós deixámos, antes d'isto, el-rei Dom Pedro de Castella em Sevilha, prendendo e matando como lhe vinha á vontade, e contámos a morte de alguns que depois matou, com outras cousas que se, em Portugal, em esta sesão passaram, no anno de trezentos e noventa e oito.

E depois que se fez aquelle feio escambo dos cavalleiros de um reino ao outro, segundo ouvistes em seu logar, mandou el-rei Dom Pedro matar de mui cruel morte Dom Pero Nunez de Guzman, adiantado-mór da terra de Leão, que era um d'elles; e mandou matar Guterre Fernandez de Toledo, seu reposteiro-mór, e trouxeram-lhe a cabeça d'elle. E Gomez Carrilho, filho de Pero Rodriguez Carrilho, indo mui ledo em uma galé, em que el-rei fingiu que o mandava para lhe entregarem a villa de Aljazira, para estar ahi por fronteiro, e o patrão cortou-lhe a cabeça, que mandou a el-rei, e deitou-lhe o corpo ao mar, e foi presa a mulher e os filhos d'este Gomez Carrilho.

E mandou matar um cavalleiro de Castella, que chamavam Diego Guterrez de Ceballos. E deitou fóra do reino Dom Vasco, arcebispo de Toledo, depois que matou seu irmão Guterre Fernandez, e mandou-lhe tomar quanto tinha, que sómente um livro não levou comsigo, nem outra roupa senão a que tinha vestida, e foi-se para Portugal, e morreu em Coimbra.

Mandou prender Dom Samuel Levi, seu thesoureiro-mór, e grão privado do seu conselho, e quantos parentes tinha pelo reino, em um dia; e tomou a elle, e aos outros todos, quanta riqueza lhe achou, e foram-lhe dados grandes tormentos, e nas taracenas de Sevilha preso morreu.

Em este anno, cuidou el-rei Dom Pedro haver guerra com el-rei Vermelho de Granada, que diziam que tinha a parte de el-rei de Aragão. Este rei Vermelho lançara rei Mafoma fóra do reino, mas logo fez preitesia com el-rei Dom Pedro, que o não turvasse com el-rei Mafoma seu inimigo, pero que houvesse el-rei gram sanha d'elle, porque lhe em tal tempo quizera fazer guerra.

E isto assocegado, no mez de janeiro de tresentos e noventa e nove, foi-se el-rei a Almançan, com muitas companhas que comsigo levava, para entrar no reino de Aragão. E foram d'esta vez em sua ajuda seiscentos portuguezes, e ia por capitão d'elles o mestre de Aviz, Dom Martim de Avelal, bom fidalgo e muito honrado, e de que se todos tiveram por contentes. E ganhou el-rei de Castella, em Aragão, d'esta vez, alguns logares.

E o cardeal de Bolonha, legado do papa, falou com el-rei que desse logar a se não espargir tanto sangue como estava prestes, cá el-rei de Aragão, com todo seu poder, estava disposto para pelejar com el-rei de Castella, cá via que por guerra guerreada não podia igualar com elle.

E tinha el-rei de Castella, então, seis mil de cavallo e muita gente de pé. E receiando-se de el-rei Vermelho de Granada, que lhe diziam que tinha feito liga com el-rei de Aragão para lhe fazer guerra, se mais durasse aquella contenda, pela qual se desencaminharam muito seus feitos, fez paz com el-rei de Aragão, fingida e contra sua vontade; e foi que el-rei de Aragão enviasse fóra do reino o conde Dom Henrique, e Dom Tello, e Dom Sancho, seus irmãos, e os cavalleiros e escudeiros de Castella que com elles estavam em Aragão,—e que el-rei de Castella lhe tornasse todos os logares que lhe tomados tinha de seu reino, e d'ahi em diante fossem amigos. E foram d'isto feitas escripturas, e apregoada a paz no arrayal, e prouve d'isto muito a quantos alli eram, porque a guerra que faziam era muito contra sua vontade.

*CAPITULO XXXIII*

De algumas entradas que el-rei este anno fez no reino de Granada, e como el-rei Vermelho se veiu pôr em seu poder, cuidando de ser seguro, e el-rei o mandou matar.

Como el-rei veiu de Aragão e chegou a Sevilha, juntou suas gentes por fazer guerra a el-rei Vermelho de Granada, dizendo que queria ajudar el-rei Mafoma, e que por seu azo fizera paz com Aragão contra sua vontade.

E veiu-se para elle el-rei Mafoma, com quatrocentos de cavallo, e entrou em companha de el-rei. E chegou el-rei a Antequera e não a poude tomar, e tornou-se, e mandou entrar os seus na veiga de Granada, que eram seis mil de cavallo, e venceram os christãos duas pelejas, e foram dos mouros mortos e captivos, e foi preso o mestre de Calatrava, e Sancho Perez d'Ayala, e outros.

E cuidando el-rei Vermelho que faria prazer a el-rei Dom Pedro, fez grande gasalhado ao mestre e aos outros, cuidando de amansar a vontade de el-rei; e soltou o mestre, e alguns cavalleiros dos outros, e deu-lhe de suas joias, e enviou-os a el-rei.

Elle agradeceu-lhe mui pouco tão grande presente, mas a poucos dias fez outra entrada, e ganhou quatro logares de mouros, e pôz recado em elles, e tornou-se a Sevilha.

Os mouros combateram um d'estes logares, que chamam Sagra, e furando o muro e entrando-o por força, preitejou-se Fernão del Gadilho, que o tinha, e foi posto em salvo, e veiu-se para el-rei: e el-rei mandou-o matar.

E deu el-rei volta, outra vez, em Granada, e ganhou outros logares, e tornou-se a Sevilha.

Os mouros aggravaram-se todos, dizendo a el-rei Vermelho que, por a contenda que elle havia com el-rei Mafoma, entrára já el-rei trez vezes na terra, e que se perdia o reino de Granada.

El-rei houve d'isto receio, e vendo que não podia levar adiante aquillo que começara, houve conselho de se vir pôr em poder e mercê d'el-rei de Castella, e que el-rei, dês que o visse, haveria piedade d'elle, e teria com elle alguma boa maneira. E partiu logo de Granada, com quatro centos de cavallo e duzentos de pé, e chegaram ao alcaçar de Sevilha, onde el-rei estava, e fizeram-lhe grandes referencias, e el-rei os recebeu mui bem.

Então lhe fallou um mouro por el-rei de Granada, dizendo entre outras cousas, que bem se poderia defender de el-rei Mafoma, que era seu contrario, mas d'elle, que era seu rei e senhor, não se podia defender, e que, havido conselho sobre isto, o melhor accordo que achara era pôr-se em seu poder e mercê, á qual pedia que tomasse aquelle feito em sua mão, e que o punha em seu juizo, e que, se sua vontade era de outra guisa, fosse sua mercê de mandar pôr, elle e os seus, além mar em terra de mouros.

El-rei respondeu ao mouro que lhe prazia muito da vinda de el-rei e dos seus, e que, sobre a contenda d'el-rei Mafoma, elle teria em ello boa maneira como se livrasse.

El-rei Vermelho, e os outros fizeram por isto grão reverencia a el-rei, tendo que seu feito estava bem, e foram-se mui alegres para as pousadas que lhe el-rei mandou dar na judiaria da cidade.

A cubiça, que é raiz de todo mal, fez logo saber a el-rei como el-rei Vermelho trazia muito haver, em aljofar e pedras e joias, e houve grão desejo de cobrar tudo. E mandou ao mestre de São Thiago que o convidasse n'outro dia para a ceia, e os maiores honrados que com elle vinham: e foram cear com elle até cincoenta.

Acabada a ceia, estando seguros e nenhum ainda levantado, chegou Martim Lopez, com homens armados, e prendeu el-rei e todos os outros. E foi logo buscado el-rei, e acharam-lhe tres pedras balaches mui nobres e mui grandes, e acharam a um mouro pequeno, em um correio, setecentas e trinta pedras balaches, e a um seu pagem cincoenta grãos de aljofar, grossos como avelãs esburgadas, e a outro moço, tanto aljofar, grado como hervanços, em que poderia haver uma oitava de alqueire, e aos outros, a quem achavam aljofar, a quem pedras, e tudo levaram a el-rei.

E n'essa hora foram outros homens de armas á judiaria, e prenderam todos os outros mouros; e todas as dobras e joias, que lhe acharam, tudo levaram a el-rei.

E foi el-rei levado preso, e todos os seus á taracena, e d'ahi a dois dias foi tirado a um campo, que dizem Tablada, elle e trinta e sete cavalleiros mouros, e alli os mandou el-rei matar todos. E foi el-rei Dom Pedro o primeiro que deu uma lançada a el-rei Vermelho, que estava em cima de um asno, vestido em uma saia de escarlata, e disse:—Toma, porque me fizeste fazer má preitesia com el-rei de Aragão.—E o mouro respondeu por sua aravia, dizendo:—Pequena cavalgada fizestes.

E enviou el-rei Dom Pedro a cabeça de el-rei Vermelho, e dos outros trinta e sete, a el-rei Mafoma de Granada, e elle enviou-lhe alguns captivos.

E posto que el-rei Dom Pedro dissesse muitas razões a colorar este feito, por mostrar que o fizera sem encargo de sua consciencia, todos os seus o tiveram por mui grão mal, e lhes prouvera muito de não ser assim.

*CAPITULO XXXIV*

Das avenças que el-rei de Castella fez com el-rei de Aragão, entrando em seu reino, e como as depois não quiz guardar.

El-rei Dom Pedro, que vontade tinha de tornar outra vez á guerra de Aragão, dizendo que a paz que fizera fôra contra sua vontade, por receio de el-rei Vermelho, fez liga com el-rei de Navarra, que fossem amigos e se ajudassem, e mandou aos seus que se percebessem: e nenhum não pensava que fosse contra Aragão, com que havia paz.

E encobertamente, antes que o el-rei soubesse, por lhe tomar algumas villas, em tanto entrou em Aragão, e tomou logo seis castellos, e cercou a villa de Calatayud. E tendo o cerco sobre ella, ganhou treze castellos d'essa comarca.

El-rei de Aragão, que estava em cabo de seu reino, quando isto soube, ficou espantado, e mandou a Provença, onde andava o conde D. Henrique e seus irmãos e os outros fidalgos de Castella desterrados do reino, fazendo guerra, que o viessem ajudar, e que lhes daria grandes soldos e os herdadaria em seu reino.

Em tanto foi assim afincada a villa de Calatayud, que a tomou el-rei Dom
Pedro por preitesia, e deixou recado em ella, e tornou-se a Sevilha.

E receiando-se d'el-rei de França, por a morte da rainha Dona Branca sua mulher, que mandara matar, fez então sua mui firme amisade com el-rei Duarte de Inglaterra, e com o principe de Galles, seu filho, que se ajudassem contra quaesquer outros. E entrou logo em Aragão, e chegou a Calatayud, que estava já por elle, e ganhou por ahi derredor sete logares.

E quando entrou por força Carinana, mandou matar quantos no logar havia, que não ficou sómente um. E a razão por que dizem que os assim mandou todos matar, foi porque elle tendo-a cercada e não a podendo tomar, alçou o cerco de sobre ella, e os da villa, quando os viram assim partir, começaram de bradar do muro dizendo seus doestos e maldições, cada um como lhe prazia; e el-rei teve d'isto grande melancolia, e mandou tornar suas gentes sobre o logar, e tão rijamente lhe deu o combate que a entrou logo por força; e por isto mandou fazer aquella grande mortandade.

E cercou mais a cidade de Tarraçona e tomou-a. E tendo-a cercada, chegou o mestre de São Thiago de Portugal, Dom Gil Fernandes de Carvalho, com quinhentos cavalleiros e escudeiros mui bem guisados, em sua ajuda, que lhe enviára el-rei Dom Pedro, seu tio. Entre os quaes ia Martim Vasques de de Goes, e Gonçalo Mendes de Vasconcellos, e Martim Affonso de Mello, e Alvaro Gonçalves de Moura, e Nuno Viegas, o velho, e Rui Vasques Ribeiro, e outros muitos e bons fidalgos.

E d'alli partiu el-rei, e tomou Turiel e onze logares outros, e tomou mais a cidade de Segorbe, e a villa de Monvedro, e veiu-se á cidade de Valencia. E havendo uns oito dias que el-rei estava sobre ella, soube que el-rei de Aragão e o infante Dom Fernando, seu irmão, e o conde Dom Henrique, e Dom Tello, e Dom Sancho, e as outras gentes por que el-rei de Aragão mandara, eram todos juntos para vir pelejar com elle, e que seriam trez mil de cavallo.

El-rei Dom Pedro, que vontade não havia de pelejar com elles, partiu-se de Valencia, e foi-se para Monvedro. E el-rei de Aragão chegou até duas leguas do logar, e poz sua batalha e não achou com quem pelejar, e tornou-se. E da ribeira de Monvedro viu el-rei Dom Pedro levar quatro galés suas a seis de Aragão, que as tomaram, e pesou-lhe muito d'ello.

Alli se começaram de tratar avenças entre os reis de Aragão e de Castella, a saber, que casasse el-rei Dom Pedro com Dona Joanna, filha de el-rei de Aragão, e Dom João, primogenito de Aragão com Dona Beatriz, filha de el-rei Dom Pedro, e isto com certas condições. E alli onde se juntaram para firmar as avenças, foi requerido el-rei Dom Pedro, e disse que se não achava n'aquella preitesia, e que o não requeressem mais, e d'alli se veiu para Sevilha.

E dizia el-rei Dom Pedro que, n'estes tractos, fôra fallado secretamente, que pois elle casava com filha de el-rei de Aragão, e tomava com elle tal divido, que matasse ou prendesse primeiro o infante Dom Fernando, seu irmão, e o conde Dom Henrique, que eram seus inimigos, e que pois o não fizera, que não curava de suas preitesias.

E bem parece isto ser verdade, porque el-rei de Aragão, a poucos dias, mandava prender, depois que comeu, o infante Dom Fernando, seu irmão, que tivera convidado esse dia, porque diziam que se queria ir, com as gentes que tinha, para a guerra de França. E porque se não deu á prisão, foi logo morto, e Luiz Manuel, e Diogo Perez Sarmento com elle. E todos os do reino lh'o tiveram a mui grão mal, por ser seu irmão, e mui nobre senhor como era.

E depois fez fala el-rei de Aragão com el-rei de Navarra, que matassem o conde Dom Henrique, e fingiram que falassem em um castello todos tres sobre outra cousa. E porque Dom João Ramires d'Arellano, camareiro de el-rei de Aragão, que o conde escolhera que tivesse o castello emquanto elles fallassem, não quiz consentir em ser feita tal morte, escapou o conde aquelle dia de não ser morto.

*CAPITULO XXXV*

Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua frota de naus e galés, e das cousas que alli fez.

Partiu el-rei outra vez de Sevilha, em começo do anno de quatro centos e dois, aos quinze annos do seu reinado, e entrou em Aragão pelo reino de Valencia, e ganhou Alicante e outros logares. E chegando a cerca de Burriana, viu galés, e outros navios, que traziam mantimento a Valencia, de que estava mui minguada, e tornou-se do caminho por lhes dar torva, e poz seu arrayal onde chamam o Grao, na ribeira do mar, que é meia legua da cidade, e esperava cada dia sua frota, e galés de Portugal que lhe haviam de vir em ajuda, e todas estavam já em Cartagena, não havendo tempo com que partir.

El-rei Dom Pedro, não sabendo novas de el-rei de Aragão, chegou um escudeiro a elle, e disse que el-rei de Aragão e o conde Dom Henrique, com todos os outros senhores e gentes, que poderiam ser tres mil de cavallo, afóra muitos homens de pé, vinham mui encobertamente por pelejar com elle, antes que d'alli partisse; e que vinham pelo mar, a geito d'elles, doze galés e outros navios com mantimentos, e que tres noites havia que não faziam fogo, por não serem descobertos, e que ao outro dia seriam com elle.

El-rei, ouvindo isto, partiu logo d'alli e foi-se a Monvedro, que eram quatro leguas. Outro dia, grande manhã, chegou el-rei de Aragão, e pousaram todos entre Monvedro e o mar, uma legua da villa, e suas galés e naves a cerca, e foi acorrida a cidade por mar e por terra. E a cabo de doze dias chegou a frota de el-rei de Castella, que eram vinte galés suas e quarenta naus, e dez galés de Portugal, que lhe enviava seu tio em ajuda.

A frota de Aragão, quando viu a de Castella, houve receio, e metteu-se no rio de Culhera. El-rei Dom Pedro entrou logo na frota, e foi-se pôr na bôca do rio, cuidando tomar as galés de Aragão. E estando alli, começou de ventar o levante, que é travessia n'aquelle logar, e mostrando o mar sua grande braveza, cuidaram todos que quebrassem suas galés em terra: e el-rei de Aragão, com todas suas gentes, aguardavam em terra por ellas, crendo todavia, por o vento que se esforçava cada vez mais, que de todo ponto eram perdidas. E a galé de el-rei perdera já tres calabres com suas ancoras, e sobre o quarto estava seu feito. Ao sol posto cessou a tormenta, e foi el-rei em mui grão perigo, e partiu d'alli deixando seus fronteiros, e tornou-se para Castella.

El-rei de Aragão cercou Monvedro e não o poude tomar, e partiu d'alli, e foi-se andar por seu reino em tanto.

E deu outra vez volta el-rei de Castella, e partiu de Sevilha, e entrou por Aragão, e tomou alguns logares. E os da villa de Orihuela, cuidando de ser cercados, fizeram-no saber a el-rei de Aragão, e veiu logo com seu poder, a duas leguas de onde el-rei de Castella estava, e abasteceu-a de viandas de que era minguada.

E el-rei Dom Pedro não quiz pelejar com elle, mas esteve alguns dias por aquella terra, e tornou-se para Sevilha, e achou novas como as suas galés, que andavam pelo mar, tomaram cinco galés de Aragão, e foi-se logo a Cartagena, onde estavam, e mandou matar toda a gente d'ellas, que não escapou sómente um, salvo os que sabiam fazer remos, porque os houve mister.

D'alli partiu el-rei Dom Pedro para Murcia, sabendo como el-rei de Aragão cercara Monvedro, e foi cercar a villa de Orihuela que dissemos, e ganhou a villa e o castello, e tornou-se para Sevilha. Os de Monvedro, afincados do cerco e sendo minguados muito de viandas, requeriam muito a mercê de el-rei que lhes accorresse; e el-rei, porque lhes não podia accorrer senão por batalha, não era ousado de o fazer, cá elle não queria pelejar com el-rei de Aragão, receiando-se dos seus, de que muito não fiava. E porém buscava outras maneiras de guerra e não por batalha, cá el-rei Dom Pedro por muitos que mandara matar, e pelos do reino que sabia que eram d'elle mal contentes e o desamavam, não se atrevia a pôr o campo.

Os de Monvedro minguados de viandas, em guisa que já comiam as bestas e ratos, deram a el-rei de Aragão o logar por preitesia. E eram dentro, para o defender seiscentos homens de armas, afóra peões e bésteiros, e os mais d'elles ficaram com o conde Dom Henrique, por grande receio que haviam de el-rei, não embargando o accorrimento que d'elle haver não puderam.

*CAPITULO XXXVI*

Como o conde Dom Henrique entrou por Castella com muitas companhas, e foi alçado por rei; e como el-rei Dom Pedro mandou desamparar todos os logares que em Aragão tinha filhados.

Monvedro ganhado por el-rei de Aragão, foi-se para Barcelona, e vieram alli alguns capitães das companhias por que elle mandava, e firmaram com elle de ser alli no fevereiro seguinte, para entrar em Castella com o conde Dom Henrique. El-rei Dom Pedro soube d'isto parte e foi-se a Burgos, onde mandára juntar suas gentes. Entanto aquelle e os capitães das companhias, eram juntos, e partiram de Saragoça para entrar em Castella.

E vinham ahi capitães de Aragão, a saber, o conde de Denia, e Dom
Filippe de Castro, e outros cavalleiros; e de França, Mosse Beltrão de
Claquin, e o conde das Marchas, e o sr. de Bain, e o marechal de
Andemar, marechal de França, e outros cavalleiros. E de Inglaterra,
Mosse Boitro de Carvabai, Mosse Estacio, e Mosse Martim de Gorimai, e
Mosse Guilhem Allinante, e Mosse João de Obrens, e muitos outros
cavalleiros e homens de armas de Inglaterra, e de Guiana, e de Gasconha,
e d'outras nações.

E chegaram todos á viila de Alfaro, e não curaram d'ella, e foram outro dia a Calahorra, cidade não forte, e preitejaram-se os do logar com o conde, e acolheram-no dentro com aquellas gentes, as quaes alli foram certificadas como el-rei Dom Pedro estava em Burgos, e que não havia vontade de pelejar com elles. E houveram accordo, dizendo ao conde Dom Henrique que pois tanta boa gente era contente de o aguardar em esta cavalgada, que se chamasse rei de Castella.

E elle, á primeira, começou-se de escusar de o fazer; dês-ahi, como é doce cousa reinar, antes de muitas palavras outorgou que lhe prazia, e foi alçado então por rei: e pediram-lhe, os que com elle vinham, grandes mercês e officios no reino, e elle mui de grado lhe outorgava tudo, dando o que ganhado tinha, e promettendo o que era por ganhar; cá em tal tempo assim lhe cumpria de o fazer. E foi isto no anno de mil e quatrocentos e quatro.

Partiu d'alli el-rei Dom Henrique caminho de Burgos, onde era el-rei Dom Pedro, e chegou a Navarrete, o qual se lhe deu nem ousando de esperar combate, e foi combatida Briviesca, e tomou-a.

El-rei Dom Pedro, sabendo tudo isto, sabbado de Ramos, bem pela manhã, mandou matar João Fernandez de Tovar, por queixume que houve de seu irmão, e, sem dizer cousa nenhuma aos seus, cavalgou por se partir logo. E vieram a elle os maiores da cidade, dizendo que os não deixasse, cá o conde era oito leguas d'alli: e não prestando nenhuma cousa suas razões, quitou-lhe a menagem, e partiu-se logo, e foram com elle alguns cavalleiros, e seiscentos mouros de cavallo, que andavam na guerra em sua ajuda, que lhe dava el-rei de Granada. E muitos dos seus ficaram em Burgos, a que prazia de tudo isto, e quem se d'elle partia não ousava de tornar mais a elle.

E aquelle dia que el-rei d'alli partiu, mandou suas cartas a todos os que por elle tinham as fortalezas que em Aragão ganhara, que as desamparassem, e destruissem se pudessem, e se viessem para elle. E elles fizeram-no assim, mas muitos d'elles se foram para el-rei Dom Henrique, e aqui cessou então de todo a guerra de Aragão, a qual ia em onze annos que durava.

Certamente perdera-se o reino de Aragão todo, se fortuna tão cedo não abreviara os annos da vida d'este rei Dom Pedro, cá onze vezes que elle em Aragão fez entrada, ganhou cincoenta e dois logares aqui contidos, afóra outros muitos que aqui não são nomeados. E chegou el-rei Dom Pedro a Toledo, e poz recado na cidade, e d'ahi partiu para Sevilha.

Os de Burgos, vendo que se não poderiam defender de el-rei Dom Henrique, mandaram-lhe seus recados e receberam-no na cidade, e coroou-se alli por rei, e vieram a elle muitos procuradores das villas e cidades do reino, e receberam-no por senhor, em guisa que do dia da coroação a vinte e cinco dias, foi todo o reino a seu mandado: e elle recebia todos graciosamente, e a nenhum era negado cousa que pedisse. E deu el-rei Dom Henrique alli muitas terras áquelles senhores e cavalleiros que vinham com elle, assim estrangeiros como seus naturaes, e mandou a Aragão por sua mulher e filhos, e foi recebida honradamente.

D'alli partiu e veiu-se a Toledo, e foi na cidade grande revolta se o receberiam ou não, porque a uns prazia que o recebessem, outros eram de todo em contrario; pero finalmente houveram accordo de o acolher em ella, e foi recebido com grande prazer.

*CAPITULO XXXVII*

Como el-rei Dom Pedro de Castella enviara uma sua filha a Portugal, e como elle partiu de Sevilha com temor que houve dos da cidade.

El-rei Dom Pedro estando em Sevilha, soube novas d'estas cousas todas, e posto em grão pensamento, accordou com os seus de enviar pedir ajuda a el-rei de Portugal, seu tio. E por lhe dar mór cargo de se mover a lhe fazer tal ajuda, enviou-lhe dizer que bem sabia como era posto casamento da infante Dona Beatriz, sua filha, com o infante Dom Fernando seu primogenito filho, e que porém lhe mandava a dita infante e toda a quantia do haver que era posto de lhe dar ao tempo do casamento, e que essa Dona Beatriz ficasse herdeira dos reinos de Castella, e de Leão. E mandou-a logo de Sevilha, e com ella Martim Lopez de Trujillo, um homem de que elle muito fiava, e mais certa quantia de dobras que deixara a esta infante Dona Maria de Padilha, sua madre, com joias, e aljofar, e outras cousas.

E partida Dona Beatriz de Sevilha para Portugal houve el-rei Dom Pedro novas como el-rei Dom Henrique caminhava de Toledo para Sevilha, e accordou de enviar pelo thesouro que tinha no castello de Almodovar, que era todo em moedas de prata e de oiro, e fez armar uma galé em que o poz, com todo o haver que tinha na cidade, e entregou a galé a Martim Yanhez, seu thesoureiro, e mandou-lhe que se fosse a Tavira, villa de Portugal no reino do Algarve, e que alli attendesse a galé, até que elle fosse. E tambem mandou carregar muitas azemolas de seus thesouros, e levou comsigo mui grande haver de oiro, e pedras, e aljofar assim do que tomara a el-rei Vermelho e aos seus, como de outro muito que tinha junto, e isso mesmo da prata toda a que poude levar.

E el-rei estando assim para partir de Sevilha, disseram-lhe como os da cidade se alvoroçavam contra elle, e o queriam roubar alli onde estava: e com grão temor que houve, partiu-se logo para Portugal. E levou comsigo Dona Constança, e Dona Isabel, suas filhas, cá Dona Beatriz, a maior, havia já mandada, como dissemos. E iam com el-rei Dom Pedro, Martim Lopes de Cordova, mestre d'Alcantara, e Diogo Gomes de Catanheda, e Pero Fernandez Cabeça-de-vacca, e outros.

E segundo alguns escrevem, como el-rei partiu de Sevilha, taes ahi houve, dos que iam com as azemolas do haver, que vendo como el-rei fugia do reino por aquella guisa, se tornavam para a cidade com o que levavam, e outras saiam do logar e lhe roubaram parte d'aquelle haver. E Misser Gil Boca-negra, seu almirante, que era genovez, armou em Sevilha uma galé e outros navios, e foi tomar a galé do haver, em que ia Martim Yanhez para Tavira, no rio Guadalquivir, cá ainda não era mais arredado. E era o haver, que ia em ella, trinta e seis quintaes de oiro, e outras muitas joias, de que el-rei Dom Henrique depois houve a maior parte.

*CAPITULO XXXVIII*

De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu tio que era em seu reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer ajuda.

El Rei de Portugal, em esta sesão, pousava nos paços de Vallada, que são a cerca de uma villa que chamam Santarem, e era isto no mez de maio. E quando el-rei Dom Pedro, mandou sua filha Dona Beatriz, como anteagora ouvistes, para casar com o infante D. Fernando, por azo de haver melhor ajuda de el-rei seu tio, soaram primeiro novas em Vallada, onde pousava el-rei, que el-rei de Castella lhe mandava duas suas filhas, que estavam já nas Alcaçovas, que são d'alli vinte leguas; mas não sabiam dizer certamente porque as mandava a el-rei, nem em que intenção. El-rei de Portugal, que parte não sabia que el-rei seu sobrinho era em tal pressa posto, cuidando que as infantes vinham por outra maneira, porém que não era mais que aquella uma, mandava correger casas e camaras em seus paços, em que ellas bem podessem pousar.

El-rei de Castella partiu de seu reino, e tão trigoso andar poz no caminho, sem se detendo em nenhum logar, que antes que sua filha chegasse onde el-rei de Portugal estava, a achou elle no caminho em que vinha. E chegou el-rei Dom Pedro a Serpa, e d'alli a Beja, e dês-ahi a Coruche, que eram vinte e uma leguas d'onde el-rei seu tio estava, e d'alli lhe fez saber como vinha, e a ajuda e accorrimento que lhe d'elle cumpria, e isso mesmo o casamento de sua filha com o infante Dom Fernando, seu filho.

El-rei de Portugal, como isto soube, teve bem assaz em que cuidar, e mandou-lhe dizer que não fosse mais adiante, mas que estivesse alli até que visse seu recado. E mandou chamar o infante Dom Fernando seu filho, que não era ahi, e com elle e com seus privados houve conselho sobre este feito, e foi falado por alguns que o visse e acolhesse em seu reino, e que o ajudasse a cobrar sua terra. Dês-ahi, cuidando bem n'isto, acharam que o não podia el-rei fazer sem grandes trabalhos, e gasto, e mui grão damno de seu reino, e, o peior de tudo, não ter nenhumas azadas razões como tal feito podesse vir a acabamento, quejando cumpria, porque, el-rei Dom Henrique, seu irmão, tinha já toda Castella a seu mandar, salvo alguns logares, tão poucos, de que não era de fazer conta; e com isto haviam lhe grande odio todos os do reino, assim grandes como pequenos. De guisa que bem era de cuidar quanto todos fariam por cobrar em elle; pois quem houvesse de lançar fóra de Castella el-rei Dom Henrique e todos os da sua parte, assim por batalha como por guerra guerreada, grão poderio lhe convinha ter, e, não se fazendo segundo seu desejo, ficava ao depois em grande homisio e guerra com elle. Recebel-o outrosim em seu reino, e não trabalhar de o ajudar, era-lhe grande vergonha e prasmo; dês-ahi, vendo-o e falando-lhe, não se poderia escusar d'elle.

Porém accordaram que o mais são conselho era que o não visse elle nem o infante seu filho, buscando algumas rasões coloradas por que parecesse que direitamente se escusava.

Então foi a Coruche o conde Dom João Affonso Tello, onde el-rei de Castella estava esperando a resposta de seu tio, cuidando de ser aposentado em Santarem, e disse-lhe como el-rei vira seu recado, e soubera parte da sua vinda de que guisa era, e que elle de boa mente o recebera em seu reino e o ajudara a cobrar sua terra, como era razão e direito, mas que por então não estava em ponto de o poder fazer como cumpria, porque d'aquellas vezes que lhe elle fizera ajuda, assim por mar como por terra, os fidalgos de seu reino vieram d'elle e de suas gentes mui mal contentes e escandalisados; e que vinham em sua companha taes, com que alguns houveram razões, e que era por força haver entre elles grandes bandos e arruidos, o que a serviço d'ambos pouco cumpria. Além d'isto, que sabia bem como o infante Dom Fernando, seu filho, era sobrinho da rainha Dona Joanna, que então novamente entrara em Castella, irmã de sua madre Dona Constança, filha de Dom João Manuel, e que não entendia de postar com elle que lhe muito prouvesse de tal ajuda. E foi assim certamente, segundo alguns escrevem, que o infante deu grão torva, porém razoada, em este feito. Com estas e outras razões escusou o conde el-rei seu senhor, que elle áquelle tempo o não podia vêr, nem lhe fazer mais ajuda da que feita havia; e despediu-se d'elle, e foi-se para a pousada.

*CAPITULO XXXIX*

Como el-rei de Castlla partiu de Coruche, e se foi de Portugal; e quaes enviaram em sua companha.

Não embargando as razões que dissemos, e outras muitas que faladas foram entre el-rei de Castella e o conde sobre o feito de seu negocio, bem entendeu el-rei Dom Pedro que o fim de todos seus ditos era não haver el-rei seu tio vontade de lhe dar acolhimento em seu reino, nem lhe fazer ajuda por nenhuma guisa: e houve d'isto tão grande queixume, que não poude com sua vontade que o logo não desse a entender por algum modo.

E depois que o conde com elle falou, e se despediu e se foi para a pousada, ficou el-rei triste e melancolioso, e com torvado gesto tomou dobras, que tinha na mão, e deitou-as por cima de um alpendre das casas onde pousava. Um cavalleiro de sua companha, vendo isto que el-rei fazia, disse-lhe, como sorrindo, por que deitara assim aquellas dobras, cá melhor fôra dal-as a alguns dos seus, a que prestassem; e el-rei lhe respondeu dizendo: «não cureis d'isso, cá quem as semeia as virá depois colher»; dando a entender, se seus annos tão poucos não foram, que elle lhe fizera de bom talante guerra, por não achar então em elle ajuda nem acolhimento nenhum. E houve seu accordo de se ir a Albuquerque e deixar ahi as filhas e todas suas cargas; e chegando ao logar não o quizeram em elle acolher, antes se lançaram dentro alguns dos que iam em sua companha.

E el-rei, vendo como seus feitos iam cada vez peior, mandou dizer a el-rei de Portugal, seu tio, que pois lhe outra ajuda fazer não queria, que lhe enviasse carta de seguro, por que podesse passar por seu reino: e isto fazia elle temendo-se do infante Dom Fernando de Portugal, por ser sobrinho da mulher de el-rei Dom Henrique, como dissemos.

A el-rei de Portugal prouve muito, e enviou a elle o conde de Barcellos, que ouvistes, e Alvaro Peres de Castro, que se fossem com elle pelo reino, e o puzessem em salvo em Galliza. E elles se foram por elle, e começaram de andar seu caminho, e quando chegaram á Guarda, segundo alguns contam, disseram elles alli a el-rei que se queriam tornar e não podiam ir mais com elle, porquanto se receiavam do infante Dom Fernando, que os enviara ameaçar por irem assim em sua companha, e que el-rei lhes deu então seis mil dobras, e duas cintas de prata, e dois estoques, que se fossem com elle até Galliza. E se assim adveio por esta guisa, isto foi fingido que elles disseram, cá o infante não tinha razão de lhes tal cousa mandar dizer, pois, com seu accordo, fôra ordenado em conselho que o acompanhassem até fóra do reino. E dizem que chegaram com elle até Lamego, e mais não. E á partida lhe furtou o conde uma filha de el-rei Dom Henrique, seu irmão, que el-rei levava presa comsigo, de idade de quatorze annos, que chamavam Dona Leonor dos leões, porque el-rei Dom Pedro, por queixume que de seu padre havia, sendo esta moça em poder de sua ama, nada de mui poucos mezes, com grão crueldade a mandou tomar, e, esfaimados os leões que criava antes por um dia, no curral onde andavam mandou que lh'a lançassem em camisa, e foi assim feito como elle mandou. E os leões vieram, e chegaram-se a ella, e prouve a Deus que lhe não fizeram nenhum nojo, mas assim como se d'ella houvessem piedade, se chegavam a ella sem lhe fazerem outro mal. Foi isto dito a el-rei por alguns seus, e mandou-a el-rei tirar d'alli, e entregar áquelles que a criavam, e poz-se porém em ella tal guarda, que nunca seu padre a poude haver. E levava-a el-rei então comsigo, e o conde a trouxe a el-rei de Portugal, e depois foi entregue a el-rei Dom Henrique, seu padre.