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Chronica de el-rei D. Pedro I

Chapter 49: *INDEX*
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About This Book

The chronicle provides a chronological narrative of a ruler's reign, emphasizing the administration of justice, political decisions, and public affairs. Written in plain, energetic prose, it combines episode-by-episode reporting with moral and legal reflection, opening with prologues that frame central themes and proceeding through detailed portrayals of court life, disputes, and resolves. The arrangement highlights causes and consequences of actions, aiming to explain governance, judicial practice, and their social effects without ornate fiction.

*CAPITULO XL*

Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo de São Thiago, e se foi para Inglaterra.

Partiu de Lamego el-rei de Castella, assaz desamparado e com mui pouca gente, cá não iam com elle mais que até duzentos de cavallo, e chegou a Monte-rei, uma villa de Galliza, e d'alli escreveu a Logronho, e a Soria, e a Samora, que tinham sua voz, que se esforçassem, cá elle lhes accorreria.

E fez saber a el-rei de Navarra, e ao principe de Galles, como era em Galliza, e queria saber que esforço tinha em elles, e esperou alli o arcebispo de São Thiago, e Dom Fernando de Castro, seu alferes-mór e adiantado em terra de Leão e das Asturias, o qual antes d'isto viera a Galliza por seu mandado, e falou com todos os prelados, e cavalleiros, e escudeiros, e cidades, e villas, e fortalezas, de guisa que todos tiveram sua voz.

E estiveram tres somanas, havendo conselho se era melhor ir-se a Samora, e d'ahi caminho de Logronho, pois el-rei Dom Henrique, com suas companhas, estava em Sevilha; ou ir-se a Bayona de Inglaterra catar seus accorros com o principe de Galles. E teve-se el-rei antes ao conselho da ida de Inglaterra, que tornar outra vez a seu reino, porque tão pouco se fiava nos que tinham voz por elle, como nos outros que não eram da sua parte.

E partiu de Monte-rei, e foi ter o São João a São Thiago de Galliza, e alli houve accordo com os seus de matar o arcebispo, e tomar-lhe as fortalezas. E onde Dom Sueiro vinha seguro, a seu mandado, dia de São Pedro, que lhe mandara el-rei dizer que viesse ao conselho, entrando pela cidade foi morto á porta da igreja de São Thiago, por Fernão Perez Turrichão, e Gonçalo Gomez Gallinhato, e dois cavalleiros que lhe mal queriam, a que el-rei mandara que o matassem, e mataram mais Pero Alvarez, deão de São Thiago, homem mui letrado e bem sisudo, e el-rei o olhava de cima da igreja, como se tudo isto fazia. E tomou el-rei quanto haver o arcebispo tinha no castello da rocha, e deu as fortalezas a Dom Fernando de Castro, e fel-o conde de Trastamara, e de Lemos, e de Sarria, d'onde soía ser conde el-rei Dom Henrique, para elle e para todos seus herdeiros lidimamente nascidos.

E Dom Alvaro Perez, seu irmão, e André Sanchez de Gres, que vinham vêr el-rei, quando souberam a morte do arcebispo, tornaram-se para suas terras com medo, e tomaram voz d'el-rei Dom Henrique.

El-rei partiu d'alli, e foi-se para a Corunha, e n'aquelle logar lhe chegou recado do principe de Galles, que se fosse para o senhorio de Inglaterra, e que elle lhe ajudaria a cobrar o reino. E partiu el-rei da Corunha, e levou comsigo vinte e duas naus, e uma galé, e uma carraca, e deixou Dom Fernando de Castro em Galliza, e commetteu-lhe todo seu poderio, e el-rei ia na carraca com suas filhas todas tres, e o thesouro todo que comsigo levava, que eram trinta e seis mil dobras em oiro amoedado, porque todo o outro thesouro deixara na galé que Martim Yanhez havia de levar a Tavira, e levava muitas joias de oiro, e de aljofar, e de pedras de grão valor. E passou o mar, e chegou a Bayona, onde ia corregendo seus feitos, de que mais por ora dizer não queremos.

*CAPITULO XLI*

Como el-rei Dom Henrique chegou a Sevilha, e da alliança que fez com el-rei de Portugal.

El-rei Dom Henrique partiu de Toledo, sabendo tudo o que adviera a el-rei Dom Pedro em Sevilha, e isso mesmo em Portugal, e como se fôra depois a Galliza. E chegou a Cordova, onde o receberam com grão prazer, e d'ahi levou caminho de Sevilha, sabendo que tinha voz por elle, onde foi recebido com tão grão festa que, pero el-rei chegou pela manhã a cerca do logar, passava de meio dia quando entrou em seu paço.

E partiu el-rei com os seus, e com aquellas companhas que com elle vinham, em guisa que todos foram mui contentes, e mandou-os para suas terras; pero ficaram com elle Mosse Beltrão de Claquin, e outros senhores, com alguns inglezes e bretões, que eram todos companhias, até mil e quinhentas lanças.

E esteve el-rei em Sevilha quatro mezes, e antes que d'alli partisse, escreveu a el-rei Dom Pedro de Portugal, como queria haver paz e amisade com elle, e que elle enviaria taes, ao extremo, de que fiava por seus procuradores, para tratarem avença entre elles, e que el-rei Dom Pedro mandasse ahi outros, que com seus feitos fossem concordados.

E foi assim de feito, que enviou el-rei Dom Henrique Dom João, bispo de
Badalhouce, e Diego Gomez de Toledo, cavalleiro, e el-rei de Portugal
enviou Dom João, bispo de Evora, e Dom Alvaro Gonçalves, prior do
Hospital; e juntaram-se todos na ribeira de Caya, no extremo dos reinos.

E alli trataram, pelos ditos reis, que fossem fieis amigos um do outro, e houvessem paz e concordia, e que el-rei de Castella trabalhasse, a todo seu poder, que el-rei de Aragão fosse amigo de el-rei de Portugal pela guisa que o elle era, e que el-rei de Aragão deixasse vir para Portugal a infanta Dona Maria, filha do dito rei Dom Pedro, mulher que fôra do infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, com todo o seu, ou viver na terra qual ella antes quizesse; e louvaram e approvaram as avenças que em outro tempo foram feitas em Agreda, entre el rei Dom Fernando e el-rei Dom Diniz, seus avós.

Outrosim, Mafamede, rei de Granada, tratou logo amisade com el-rei Dom
Henrique, e ficou por seu amigo.

E partiu el-rei de Sevilha, e foi-se a Galliza, e cercou em Lugo Dom Fernando de Castro, que tinha voz de el-rei Dom Pedro, e não o poude tomar, e preitejou com el-rei, que se lhe el-rei Dom Pedro não accorresse até cinco mezes, que deixasse o reino e lhe entregasse todas as fortalezas, e se quizesse ficar em sua mercê, que lhe desse a villa de Castro Exarez, d'onde sua linhagem se chamava de Castro, e elle conde, depois que lh'a el-rei Dom Pedro dera, e que em este tempo não se fizesse guerra de uma parte á outra, a qual cousa lhe Dom Fernando mui mal teve.

A el-rei Dom Henrique prouve d'isto, e tornou-se para Burgos, e alli ordenou côrtes, nas quaes foram juntos os maiores do reino; e certos da vinda que el-rei Dom Pedro queria fazer, lhe foi promettida ajuda para despeza da guerra, e offerecidos os corpos a seu serviço, como bem podia vêr. E el-rei, em tanto, mandava por gentes que lhe cada dia vinha, com que partia grandemente, e lhe fazia muita honra. E porque dos feitos d'estes reis ambos, mais não adveiu em tempo de el-rei Dom Pedro de Portugal, cessaremos de mais dizer d'elles, e em quanto elles juntam suas gentes para a batalha que depois ouvireis, contaremos nós outras cousas, segundo requer a ordenança d'esta obra. Mas antes que as digamos, ouvi isto que achamos escripto, a saber, que féria quinta, vinte e dois dias do mez de outubro d'esta presente era de Cesar de mil e quatrocentos e quatro annos, foi feito um movimento no céo, desde a meia noite para adiante, o qual foi por esta guisa: correram todas as estrellas do levante para o poente, e depois que todas foram juntas, começaram de correr umas cá e outras lá; dês-ahi deixaram-se estalar do céo tantas e tão espessas, que, depois que foram baixas no ar, pareciam grandes fogueiras, e que o céo e o ar ardia, e que a terra queria arder; e o céo parecia partido por muitas partes alli onde estrellas não estavam; e não havia homem que isto visse, que não fosse fortemente espantado; e era tamanho o medo, que quantos isto viam todos cuidavam de serem mortos, durando isto por mui grande espaço. E isto escrevemos por não haverdes por nova cousa quando outra tal acontecer, dês-ahi por relembrança das maravilhas que Deus faz.

*CAPITULO XLII*

Como el-rei de Portugal enviou seus embaixadores a casa do principe de Galles, por se desculpar do que el-rei Dom Pedro dizia.

A grão melancolia que levou el-rei Dom Pedro de Castella do mau gasalhado que em Portugal achara, lhe fez que ás vezes não podia, em falando, que o não desse a entender com sanha, e algumas horas, estando com o principe, presente muitos, fazia queixume do mau acolhimento que achara em seu tio el-rei de Portugal, esperando d'elle receber o contrario, dizendo que o não havia tanto pelo seu, como das infantes suas filhas, as quaes lhe devera de agasalhar e receber em sua encommenda: e fallando em ello muito largamente, mostrava com isto geitos e semblante que de o vingar tinha grão desejo.

E foi isto assim falado, e por taes palavras, que não minguou quem o escrevesse a el-rei de Portugal, o qual, conhecendo sua preversa condição, e prevendo o que advir podia, ordenou de se enviar desculpar presente o principe, mostrando que a culpa não fôra em elle, assim em seu recebimento, como em agasalhar suas filhas; e mandou allá o bispo de Evora, e Gomez Lourenço do Avelal, os quaes chegaram a Gasconha, onde el-rei e o principe por então estavam.

Elles alli, ordenou o principe o dia e hora para dizerem sua embaixada, a qual, proposta ante elle, sendo el-rei presente, começaram de contar pelo miudo tudo o que em Portugal diziam alguns de que se ei-rei Dom Pedro agravava, fazendo queixume de el-rei seu tio, e que elles eram alli vindos para o mostrarem sem culpa, como a sua mercê bem podia vêr.

El-rei de Castella respondeu a isto dizendo, que assim era como elles diziam, que elle se sentia por mui agravado d'elle, pelo não receber em seu reino e lhe dar acolhimento como era razão, sendo seu tio, irmão de sua madre, e que mór melancolia havia não dar gasalhado ás infantes suas filhas, que da aspereza que contra elle mostrara, porque se as el-rei seu tio tomara e lh'as tivera em sua terra guardadas, com alguns haveres que elle levava, onde era certo que estariam seguras, que elle ficara desempachado d'ellas, e então tornara a recobrar seu reino. Dizendo que muitos se alçaram contra elle, que o não fizeram se o viram presente, mas pelo empacho que tinha, das filhas, que lhe conviera de fugir com ellas, não tendo logar seguro onde as deixasse; porque áquelle tempo que as deixar quizera em algum castello de sua terra, em nenhum havia tanta fiusa por que ousasse de o fazer.

Sobre isto correram tantas palavras entre el-rei Dom Pedro e os embaixadores, até que pediram por mercê, ao principe, que fizesse pergunta a el-rei, se áquelle tempo que elle escrevera a seu tio que era em seu reino, se lhe fizera saber por sua carta que lhe queria deixar suas filhas e o thesouro que comsigo trazia, segundo elle arrazoava presente elle. E o principe lh'o perguntou então, e elle disse que não ementara nenhuma cousa das filhas, nem do haver que levava comsigo.

—Pois, disse o principe, nem vosso tio não era adivinho do que vós tinheis na vontade.

Então fizeram recontamento ao principe das ajudas que de Portugal recebera, assim por mar como por terra, e como todos os senhores e fidalgos, que allá foram, vieram d'elle e dos seus mui mal contentes e escandalisados, e que esta fôra uma das razões por que o el-rei seu tio não quizera ter em sua terra, por se não levantarem, entre uns e os outros, bandos, e arruidos, e mortes.

Arrazoaram tanto até que se enfadaram, e o principe, conhecendo de razão, disse que o não havia por culpado como antes; e na parte da nau e haveres, que lhe el-rei de Portugal enviava dizer que em Inglaterra eram retidos contra razão, que elle os faria logo desembargar, como seu amigo que era e queria ser. E assim o fez de feito, que em breves dias foram despachados.

*CAPITULO XLIII*

Como Dom João, filho de el-rei Dom Pedro de Portugal, foi feito mestre de Aviz.

Vós ouvistes, no primeiro capitulo d'esta historia, como depois da morte de Dona Ignez, ei-rei sendo infante, nunca mais quiz casar, nem depois que reinou quiz receber mulher, mas houve um filho de uma dona, a que chamaram Dom João. D'este moço deu el-rei cargo a Dom Nuno Freire, mestre de Christus, que o criava e tinha em seu poder, e que criando-o elle assim, sendo em idade até sete annos, veiu-se a finar o mestre de Aviz, Dom Martim do Avelal.

O mestre de Christus, como isto soube, foi-se logo a el-rei Dom Pedro, que então pousava na Chamusca, e pediu-lhe aquelle mestrado para o dito seu filho, que levava em sua companha, e el-rei foi mui ledo do requerimento, e muito mais ledo de lh'o outorgar.

Então tomou o moço o mestre nos braços, e tendo-o em elles, lhe cingiu el-rei a espada e o armou cavalleiro, e beijou-o na boca, lançando-lhe a benção, dizendo que Deus o accrescentasse de bem em melhor, e lhe desse tanta honra em feitos de cavallaria, como déra a seus avós: a qual benção foi em elle bem cumprida, como adiante ouvireis.

E disse então el-rei contra o mestre:

—Tenha este moço isto por agora, cá sei que mais alto ha de montar, se este é o meu filho João de que me a mim algumas vezes falaram, como quer que eu queira antes que se cumprisse no infante Dom João, meu filho, que n'elle; cá a mim disseram que eu tenho um filho João, que ha de montar muito alto, e por que o reino de Portugal ha de haver mui grande honra. E porque eu não sei qual d'estes Joões ha de ser, nem o podem saber em certo, eu azarei como sempre acompanhem ambos estes meus filhos, pois que ambos são de um nome, e escolha Deus um d'elles para isto, qual sua mercê fôr. Como quer que muito me suspeita a vontade que este ha de ser, e outro nenhum não, porque eu sonhava uma noite o mais estranho sonho que vós vistes: a mim parecia, em dormindo, que eu via todo Portugal arder em fogo, de guisa que todo o reino parecia uma fogueira, e estando assim espantado vendo tal cousa, vinha este meu filho João, com uma vara na mão, e com ella apagava aquelle fogo todo. E eu contei isto a alguns que razão teem de entender em taes cousas, e disseram-me que não podia ser, salvo que alguns grandes feitos lhe haviam de sair de entre as mãos.

Ora, assim adveiu depois, como dizemos, que, isto feito, tornou-se o mestre de Christus para a villa, e mandou seu recado aos commendadores da ordem de Aviz, que viessem logo alli, por haver de falar com elles cousas que eram de serviço de Deus e prol de sua ordem (e isto fazia o dito mestre porquanto a ordem de Aviz e a de Christus são ambas da ordem de São Bento), os quaes, por suas cartas e requerimento, vieram logo áquelle logar.

O mestre falou então com o commendador-mór, e com Fernão Soares, e Vasco Peres, todo o que era vontade de el-rei, dês-ahi entrou com elles em cabido, segundo costume de sua ordem, e o commendador propoz ao mestre, em nome seu e dos commendadores, dizendo que elle bem sabia como seu senhor, o mestre de Aviz Dom Martim do Avelal, era finado, e que elles não tinham mestre que os houvesse de reger como cumpria a serviço de Deus, segundo sua ordem mandava, nem entendiam de eleger outro, senão aquelle que lhes elle desse; e que pois elle era de sua regra e o fazer podia, que lhe pediam por mercê, que por serviço de Deus e bem da dita ordem, lhes desse mestre que os houvesse de reger segundo sua regra mandava.

O mestre respondeu que diziam mui bem, como bons cavalleiros e bem sisudos, e porque elle era tido de fazer e requerer toda causa que fosse serviço de Deus e prol de sua ordem, que porém queria tomar cargo de lhes dar mestre que os houvesse de reger segundo sua regra mandava, e que para ser seu mestre lhes dava Dom João, filho de el-rei Dom Pedro, que elle criava, que entendia que era tal senhor que os regeria como cumpria a serviço de Deus e prol de sua ordem.

O commendador-mór, e os outros disseram então, que lhe tinham em grande mercê de lhes dar tão honrado senhor por seu mestre: e logo o dito Dom João foi chamado, e foram-lhe tirados os vestidos seculares, e lançado o habito da ordem de Aviz, e como lhe foi vestido, o commendador-mór e os outros lhe beijaram o mão por seu mestre e senhor. E isto assim feito, foi elle levado para a ordem de Aviz, de onde era mestre, e alli se criou alguns annos, até que começou de florescer em manhas, e bondades, e autos de cavallaria, segundo a historia adiante dirá, contando cada umas em seu logar.

E se alguns quizerem dizer que os poucos annos de sua idade e não legitima nascença embargavam de não poder ser mestre, a taes se responde que o Papa dispensou com elle, que posto que provido fosse antes do tempo, e nado de não legitimo matrimonio, que seus bons costumes e honroso proveito que d'elle vinha á ordem, corrigia tudo isto, e que o confirmava em elle.

*CAPITULO XLIV*

Como foi trasladada Dona Ignez para o mosteiro de Alcobaça, e da morte d'el-rei Dom Pedro.

Porque semelhante amor, qual el-rei Dom Pedro houve a Dona Ignez, raramente é achado em alguma pessoa, porém disseram os antigos que nenhum é tão verdadeiramente achado, como aquelle cuja morte não tira da memoria o grande espaço do tempo. E se algum disser que muitos foram já, que tanto e mais que elle amaram, assim como Adriana, e Dido, e outras que não nomeamos, segundo se lê em suas epistolas, responde-se que não falamos em amores compostos, os quaes alguns autores abastados de eloquencia, e florescentes em bem ditar, ordenaram segundo lhes prouve, dizendo em nome de taes pessoas razões que nunca nenhuma d'ellas cuidou; mas falamos d'aquelles amores que se contam e lêem nas historias, que seu fundamento teem sobre verdade.

Esse verdadeiro amor houve el-rei Dom Pedro a Dona Ignez, como se d'ella namorou sendo casado e ainda infante, de guisa que, pero d'ella no começo perdesse vista e fala, sendo alongado, como ouvistes, que é o principal azo de se perder o amor, nunca cessava de lhe enviar recados, como em seu logar tendes ouvido. Quanto depois trabalhou pela haver, e o que fez por sua morte, e quaes justiças n'aquelles que em ella foram culpados, indo contra seu juramento, bem é testemunho do que nós dizemos.

E sendo lembrado de lhe honrar seus ossos, pois lhe já mais fazer não podia, mandou fazer um moimento de alva pedra, todo mui subtilmente obrado, pondo elevada sobre a campa de cima a imagem d'ella, com corôa na cabeça, como se fôra rainha. E este moimento mandou pôr no mosteiro de Alcobaça, não á entrada, onde jazem os reis, mas dentro na egreja, á mão direita, a cerca da capella-mór.

E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde jazia, o mais honradamente que se fazer pode, cá ella vinha em umas andas, muito bem corrigidas para tal tempo, as quaes traziam grandes cavalleiros, acompanhadas de grandes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e donzellas e muita clerezia.

Pelo caminho estavam muitos homens com cirios nas mãos, de tal guisa ordenados, que sempre o seu corpo foi, por todo o caminho, por entre cirios accesos; e assim chegaram até ao dito mosteiro, que eram d'alli dezesete leguas, onde com muitas missas e grão solemnidade foi posto seu corpo n'aquelle moimento. E foi esta a mais honrada trasladação que até áquelle tempo em Portugal fôra vista.

Semelhavelmente mandou el-rei fazer outro tal moimento, e tambem obrado, para si, e fêl-o pôr a cerca do seu d'ella, para quando acontecesse de morrer o deitarem n'elle.

E estando el-rei em Estremoz, adoeceu de sua postremeira dôr, e jazendo doente, lembrou-se como, depois da morte de Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, elle fôra certo que Diogo Lopes Pacheco não fôra em culpa da morte de Dona Ignez, e perdoou-lhe todo queixume que d'elle havia, e mandou que lhe entregassem todos seus bens: e assim o fez depois el-rei Dom Fernando, seu filho, que lh'os mandou entregar todos, e lhe alçou a sentença, que el-rei seu padre contra elle passára, quanto com direito poude.

E mandou el-rei em seu testamento, que lhe tivessem em cada um anno, para sempre, no dito mosteiro, seis capellães que cantassem por elle cada dia uma missa officiada, e sairem sobre ella com cruz e agua benta. E el-rei Dom Fernando, seu filho, por se isto melhor cumprir, e se cantarem as ditas missas, deu depois ao dito mosteiro, em doação por sempre, o logar que chamam as Paredes, termo de Leiria, com todas as rendas e senhorio que n'elle havia.

E deixou el-rei Dom Pedro, em seu testamento, certos legados, a saber: á infante Dona Beatriz, sua filha, para casamento, cem mil libras; e ao infante Dom João, seu filho, vinte mil libras; e ao infante Dom Diniz, outras vinte mil; e assim a outras pessoas.

E morreu el-rei Dom Pedro uma segunda-feira de madrugada, dezoito dias de janeiro da era de mil e quatrocentos e cinco annos, havendo dez annos e sete mezes e vinte dias, que reinava, e quarenta e sete annos e nove mezes e oito dias de sua idade. E mandou-se levar áquelle mosteiro que dissemos, e lançar em seu moimento, que está junto com o de Dona Ignez.

E porquanto o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, não era então ahi, foi el-rei detido e não levado logo, até que o infante veiu; e á quarta-feira foi posto no moimento.

E diziam as gentes, que taes dez annos nunca houve em Portugal, como estes que reinára el-rei Dom Pedro.

* * * * *

Fim da Chronica de El-rei D. Pedro I

*INDEX*

Duas palavras

Chronica do Senhor Rei D. Pedro I, oitavo Rei de Portugal, Prologo

Capitulo I—Do reinado de el-rei Dom Pedro, oitavo rei de Portugal, e das condições que n'elle havia.

Capitulo II—Como el-rei de Castella mandou pelo corpo da rainha Dona
Maria, sua madre, e da carta que enviou a el-rei de Portugal, seu tio.

Capitulo III—Das cartas que o papa, e el-rei de Aragão enviaram a el-rei de Portugal sobre a morte de el-rei, seu padre.

Capitulo IV—Da maneira que el-rei Dom Pedro tinha nos desembargos de sua casa.

Capitulo V—De algumas cousas que el-rei Dom Pedro ordenou por bem de justiça e prol de seu povo.

Capitulo VI—Como el-rei mandou degolar dois seus criados, porque roubaram um judeu e o mataram.

Capitulo VII—Como el-rei quizera metter um bispo a tormento, porque dormia com uma mulher casada.

Capitulo VIII—Como el-rei mandou capar um seu escudeiro, porque dormiu com uma mulher casada.

Capitulo IX—Como el-rei mandou queimar a mulher de Affonso André, e de outras justiças que mandou fazer.

Capitulo X—Como el-rei mandava matar o almirante; e da carta que lhe enviou o duque e commum de Genova, rogando por elle.

Capitulo XI—Das moedas que el-rei Dom Pedro fez, e da valia do oiro e da prata n'aquelle tempo.

Capitulo XII—Da maneira que os reis tinham para fazer thesouros, e accrescentar n'elles.

Capitulo XIII—Por que guisa el-rei Dom Pedro de Castella começou de juntar thesouro.

Capitulo XIV—Como el-rei fez conde e armou cavalleiro João Affonso
Tello, e da grão festa que lhe fez.

Capitulo XV—Das avenças que el-rei de Castella e el-rei Dom Pedro de Portugal firmaram entre si, e como lhe el-rei de Portugal prometteu de fazer ajuda contra Aragão.

Capitulo XVI—De algumas pessoas que el-rei Dom Pedro de Castella mandou matar, e como casou com a rainha Dona Branca e a deixou.

Capitulo XVII—Como se começou o desvairo entre el-rei Dom Pedro de Castella e o conde Dom Henrique, seu irmão, o qual foi aso porque se o conde foi fóra do reino.

Capitulo XVIII—Como e por qual aso se começou a guerra entre Castella e
Aragão.

Capitulo XIX—Como el-rei de Castella entrou por Aragão e das cousas que fez n'este anno.

Capitulo XX—Como el-rei Dom Pedro fez matar o mestre de São Thiago Dom
Fradarique, seu irmão, no alcaçar de Sevilha.

Capitulo XXI—Como el-rei partiu de Sevilha por tomar Dom Tello, seu irmão, para o matar; e como matou o infante Dom João, seu primo.

Capitulo XXII—Como foi quebrada a tregua de um anno que havia entre os reis, e como el-rei Dom Pedro juntou armada por fazer guerra a Aragão.

Capitulo XXIII—Como veiu o cardeal de Bolonha para fazer paz entre el-rei de Castella e el-rei de Aragão, e os não poude pôr de accordo.

Capitulo XXIV—Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a el-rei de Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a Aragão.

Capitulo XXV—Como se partiu o almirante de Portugal com as dez galés, e como el-rei Dom Pedro desarmou a frota; e de outras cousas.

Capitulo XXVI—Como o cardeal de Bolonha quizera tratar paz entre os reis e não poude, e como as gentes d'el-rei Dom Pedro pelejaram com o conde e o desbarataram.

Capitulo XXVII—Como el-rei Dom Pedro de Portugal disse por Dona Ignez que fora sua mulher recebida, e da maneira que em ello teve.

Capitulo XXVIII—Do testemunho que alguns deram no casamento de Dona
Ignez, e das razões que sobre ello propoz o conde Dom João Affonso.

Capitulo XXIX—Razões contra isto, de alguns que ahi estavam, duvidando muito n'este casamento.

Capitulo XXX—Como os reis de Portugal e de Castella fizeram entre si avença, que entregassem, um ao outro, alguns que andavam seguros em seus reinos.

Capitulo XXXI—Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram entregues os outros, e logo mortos cruelmente.

Capitulo XXXII—De algumas cousas que el-rei Dom Pedro de Castella mandou fazer, e como fez paz com el-rei de Aragão entrando em seu reino.

Capitulo XXXIII—De algumas entradas que el-rei este anno fez no reino de Granada, e como el-rei Vermelho se veiu pôr em seu poder, cuidando de ser seguro, e el-rei o mandou matar.

Capitulo XXXIV—Das avenças que el-rei de Castella fez com el-rei de
Aragão, entrando em seu reino, e como as depois não quiz guardar.

Capitulo XXXV—Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua frota de naus e galés, e das cousas que alli fez.

Capitulo XXXVI—Como o conde Dom Henrique entrou por Castella com muitas companhas, e foi alçado por rei; e como el-rei Dom Pedro mandou desamparar todos os logares que em Aragão tinha filhados.

Capitulo XXXVII—Como el-rei Dom Pedro de Castella enviava uma sua filha a Portugal, e como elle partiu de Sevilha com temor que houve dos da cidade.

Capitulo XXXVIII—De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu tio que era em seu reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer ajuda.

Capitulo XXXIX—Como el-rei de Castella partiu de Coruche, e se foi de
Portugal; e quaes enviaram em sua companha.

Capitulo XL—Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo de São Thiago, e se foi para Inglaterra.

Capitulo XLI—Como el-rei Dom Henrique chegou a Sevilha, e da alliança que fez com el-rei de Portugal.

Capitulo XLII—Como el-rei de Portugal enviou seus embaixadores a casa do principe de Galles, por se desculpar do que el-rei Dom Pedro dizia.

Capitulo XLIII—Como Dom João, filho de el-rei Dom Pedro de Portugal, foi feito mestre de Aviz.

Capitulo XLIV—Como foi trasladada Dona Ignez para o mosteiro de
Alcobaça, e da morte d'el-rei Dom Pedro.

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