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Chronica de el-rei D. Pedro I

Chapter 8: *CAPITULO IV*
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About This Book

The chronicle provides a chronological narrative of a ruler's reign, emphasizing the administration of justice, political decisions, and public affairs. Written in plain, energetic prose, it combines episode-by-episode reporting with moral and legal reflection, opening with prologues that frame central themes and proceeding through detailed portrayals of court life, disputes, and resolves. The arrangement highlights causes and consequences of actions, aiming to explain governance, judicial practice, and their social effects without ornate fiction.

The Project Gutenberg eBook of Chronica de el-rei D. Pedro I

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Title: Chronica de el-rei D. Pedro I

Author: Fernão Lopes

Release date: September 3, 2005 [eBook #16633]
Most recently updated: December 12, 2020

Language: Portuguese

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net. Produced from page images provided by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. PEDRO I ***

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed

Proofreading Team at https://www.pgdp.net. Produced from page images provided by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt).

BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

* * * * *

Director litterario

LUCIANO CORDEIRO

* * * * *

Proprietario e fundador

MELLO D'AZEVEDO

BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

*Director litterario—LUCIANO CORDEIRO*

Proprietario e fundador—MELLO D'AZEVEDO

* * * * *

CHRONICA DE EL-REI D. PEDRO I
POR

Fernão Lopes

ESCRIPTORIO

147, Rua dos Retrozeiros, 147

LISBOA

1895

LISBOA

Impresso na Typ. do «Commercio de Portugal» 35, Rua Ivens, 41

1895

*DUAS PALAVRAS*

Realisando corajosamente a boa, a piedosa idea de republicar as chronicas impressas do—Pae da Historia Nacional,—como Herculano apellidou Fernão Lopes, Mello d'Azevedo, o editor d'esta modesta e patriotica bibliotheca podera, hoje, ainda! suprir qualquer explicação prefacial com as palavras do nosso grande historiador moderno, quando ha mais de meio seculo tracejava o perfil do encantador—«escripvam»—do bom Rei Dom Duarte:

—«Tão raros, ou tão pouco lidos andam os antigos escriptores portuguezes que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de nome os conheçam, e frequentes vezes nem de nome

Hoje, ainda!…

Fernão Lopes é quasi exclusivamente conhecido de nome, e já agora arejemos toda a nossa idea, mais exactamente toda a nossa observação positiva e directa: nem de nome o conhece muito litterato gloriosamente emproado pelas novas camarilhas do elogio mutuo na fama e na faina da renovação da Historia e da Arte nacional… por estampilha francelha.

Uma das causas da mingua, a bem dizer, absoluta, de vulgarisação dos nossos antigos escriptores, dos nossos melhores monumentos litterarios, da nossa historia, até, indicamol-a já n'outra publicação d'esta bibliotheca: é o espirito estreitamente, inconsequentemente monopolista dos eruditos ou dos que se querem dar ares de taes; é a superstição das reproducções mais ou menos arbitrariamente chamadas fieis, conservadoras de uma ortographia, de uma disposição typographica até, obsoleta, indigesta, inacessivel á leitura corrente, á assimilação immediata, actual, affectiva da multidão.

Em volta d'esta causa ou concorrendo e emparelhando com ella, muitas outras se teem accumulado e subsistem, por tal maneira renitentes e acrescentadas, que póde affirmar-se, como facto incontestavel, que as palavras doridas de Herculano teem hoje, mais do que quando elle as escreveu,—ha 56 annos!—uma applicação perfeitamente exacta e justa.

Conhecia-se mais, muito mais, então, Fernão Lopes, ou qualquer outro dos nossos antigos escriptores, do que hoje se conhecem e leem. Basta citar ou vêr o trabalho litterario d'esse tempo, comparando-o com o do nosso.

Quando eu, e certamente muitos dos leitores, iniciámos a nossa vida intellectual, lia-se, estudava-se, explicava-se o Camões nas escolas. Naturalmente, insensivelmente iam penetrando nos nossos corações e nos nossos cerebros em formação as ideas e os sentimentos de honra, de intrepidez, de amor da Patria, com tantas outras lições generosas, estimulantes, grandes, que as bellas estrophes transvasam nos espiritos sãos e frescos. Lia-se tambem o Freire d'Andrade, um massador de grandes discursos e de grandes bombardadas rhetoricas, d'accordo, mas que nos encantava, que nos ensinava muitas cousas interessantes, que nos enlevava, que nos fazia pensar em grandes cousas: nas terriveis batalhas da vida, nos sacrificios e nos esforços valentes com que ellas se vencem.

Um dia, era eu ainda um rapaselho, apanhei entre os velhos livros de meu pae:—que sabia de cór o Virgilio, o Camões, e que me recomendava o Tito Livio, o João de Barros, etc,—apanhei, pois, um volume, que nunca mais vi, e que era uma edição em 8.° da Chronica de Dom Pedro por Fernão Lopes, exactamente a que vamos lêr agora.

Devia ser a edição do Padre Pereira Bayão, do seculo 18.°, inferior á chamada da Academia sobre a qual é feita a nossa.

Como eu li sofregamente, deliciosamente, o velho livro!

Como me soube bem aquella prosa simples, ampla, forte—permittam-me a expressão;—aquelle contar ingenuo, vivo, e ao mesmo tempo tão magestoso pela sincera e nobre lealdade do chronista—que não era um adulador Real, nem um fingidor litterario!

Chronista! Historiador é que póde francamente chamar-se-lhe.

Foi a primeira revelação que tive de Fernão Lopes e só desejo que tão agradavel seja a dos que pela primeira vez travarem agora conhecimento com elle.

Poderia dizer que a vão travar simultaneamente com outros escriptores, de que Fernão Lopes se serviu ou que se serviram d'elle, mas como já disse n'outra publicação, a nossa Bibliotheca não pôde ainda entrar na tentativa das edições criticas e por isso estes pequenos prefacios não devem ensaiar essa feição que os levariam longe.

Nem mesmo podemos dar do author mais do que uns breves traços dispersos que aliás se encontram facilmente em publicações muito accessiveis.

Fernão Lopes nasceu não se sabe onde, ainda no seculo 14.°, parece, como diz Herculano, que pouco antes ou durante—«a gloriosa revolução de 1380,»—sendo collocado por Dom João I, juncto d'algum ou d'alguns dos filhos. Em 1418 confiou-lhe o Rei de Boa Memoria, a guarda e serviço,—constituido então independente,—da—«torre do castello da cidade de Lisboa,»—a primitiva Torre do Tombo.

Ali começou a fazer-se entre as—«escripturas»—dos velhos e modernos tempos, o grande historiador, a quem Dom Duarte por carta de 19 de março de 1434,—isto é por uma das suas primeiras iniciativas de Rei, dava—«carrego de poer em caronyca as estorias dos reys que antigamente em Portugal foram»,—com 6$000 reis de tença annual, uns escassos 60$000 de hoje. No cargo o confirmou o cavalleiroso Affonso V por Carta de 5 de junho de 1449.

Teve uma longa vida Fernão Lopes, sendo em 1455 substituido por Gomes Eannes de Azurara que, briosamente e sem favor, lhe chama:—homem de communal (descomunhal) sciencia e authoridade.»

Fez-se a substituição—«por seu prazimento e por fazer a elle mercê como é rasom de se dar aos boõs servidores,»—sendo—«já tão velho e fraco que por si non podia bem servir»—e sobrevivendo ainda, 5 annos, pelo menos.

Andaria nos 80.

É uma complicada questão, a de ter Fernão Lopes escripto outras chronicas além das que teem logrado chegar, sob o seu nome, até nós, e a de se terem outros escriptores apropriado, mais ou menos de trabalhos d'elle. As conhecidas são a de Pedro I que vamos republicar, a de Dom Fernando, e a de João I. Como diz, justamente, Herculano:—«para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos»—estes tres monumentos.

Mas que pena que não tenhamos d'elle a historia d'aquelle—«grande desvayro»—dos amores de Ignez de Castro e que a gentil figura nos apareça apenas como uma obsessão cruel do extraordinario monarcha que procurara já distrahir-se um pouco nos braços de Theresa Lourenço, a bemaventura mãe de Dom João I.

L. C.

Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal

*PROLOGO*

Deixados os modos e definições da justiça, que, por desvairadas guisas, muitos em seus livros escrevem, sómente d'aquella para que o real poderio foi estabelecido, que é por serem os maus castigados e os bons viverem em paz, é nossa intenção, n'este prologo, muito curtamente falar, não como buscador de novas razões, por propria invenção achadas, mas como ajuntador, em um breve mólho, dos ditos de alguns que nos aprouveram. Á uma, por espertar os que ouvirem, que entendam parte do que fala a historia; á outra, por seguirmos inteiramente a ordem do nosso arrazoado, no primeiro prologo já tangida.

E porquanto el-rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessaria ao rei, se o é assim ao povo: vós, n'aquelle estilo que o simplesmente apanhámos, o podeis lêr por esta maneira.

Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão, e isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim podeis entender dos outros vicios e virtudes.

Esta virtude é mui necessaria ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as leis que elle puzer, e cumprindo-as não farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude, como esta, póde cada um ganhar por obra de bom entendimento, e ás vezes nascem alguns assim naturalmente a ella dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vicios sejam inclinados.

A razão por que esta virtude é necessaria nos subditos, é por cumprirem as leis do principe, que sempre devem de ser ordenadas para todo bem, e quem taes leis cumprir sempre bem obrará, cá as leis são regra do que os sujeitos hão de fazer, e são chamadas principe não animado, e o rei é principe animado, porque ellas representam, com vozes mortas, o que o rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessaria, assim no povo como no rei, porque sem ella nenhuma cidade nem reino pode estar em socego. Assim, que o reino, onde todo o povo é mau, não se pode supportar muito tempo, porque, como a alma supporta o corpo e partindo-se d'elle, o corpo se perde, assim a justiça supporta os reinos e partindo-se d'elles perecem de todo.

Ora, se a virtude da justiça é necessaria ao povo, muito mais o é ao rei; porque se a lei é regra do que se ha de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a ha de encaminhar, porque a lei é principe sem alma, como dissemos, e o principe é lei e regra da justiça com alma. Pois quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excellencia sobre as leis: cá o rei deve de ser de tanta justiça e direito, que cumpridamente dê ás leis a execução; de outra guisa, mostrar-se-hia seu reino cheio de boas leis e maus costumes, que era cousa torpe de vêr. Pois duvidar se o rei ha de ser justiçoso, não é outra cousa senão duvidar se a regra ha de ser direita, a qual, se em direitura desfalece, nenhuma cousa direita se pode por ella fazer.

Outra razão por que a justiça é muito necessaria ao rei, assim é porque a justiça não tão sómente aformoseia os reis de virtude corporal, mas ainda espiritual, pois quanto a formosura do espirito tem avantagem da do corpo, tanta a justiça no rei é mais necessaria que outra formosura.

A terceira razão se mostra da perfeição da bondade, porque então dizemos alguma cousa ser perfeita, quando fazer pode alguma semelhante a si, e portanto se chama uma cousa boa, quando sua bondade se pode estender a outros, ao menos, sequer por exemplo, e então se mostra, por pratica, quanto cada um é bom, quando é posto em senhorio.

Porém, cumpre aos reis ser justiçosos por a todos seus sujeitos poder vir bem, e a nenhum o contrario, trabalhando que a justiça seja guardada, não sómente aos naturaes de seu reino, mas ainda aos de fóra d'elle, porque, negada a justiça a alguma pessoa, grande injuria é feita ao principe e a toda sua terra.

D'esta virtude da justiça, que poucos acha que a queiram por hospeda, posto que rainha e senhora seja das outras virtudes, segundo diz Tullio, usou muito el-rei Dom Pedro, segundo vêr podem os que desejam de o saber, lendo parte de sua historia.

E pois que elle, com bom desejo, por natural inclinação, refreou os males, regendo bem seu reino, ainda que outras minguas por elle passassem, de que penitencia podia fazer, de cuidar é, que houve o galardão da justiça, cuja folha e fructo é honrada fama n'este mundo e perduravel folgança no outro.

*CAPITULO I*

Do reinado de el-rei Dom Pedro, oitavo rei de Portugal, e das condições que n'elle havia.

Morto el-rei D. Affonso, como haveis ouvido, reinou seu filho, o infante Dom Pedro, havendo então de sua idade trinta e sete annos e um mez e dezoito dias. E porque dos filhos que houve, e de quem, e por que guisa, já compridamente havemos falado, não cumpre aqui arrazoar outra vez; mas das manhas, e condições, e estados de cada um, diremos adiante, muito brevemente, onde convier falar de seus feitos.

Este rei Dom Pedro era muito gago, e foi sempre grande caçador e monteiro, em sendo infante e depois que foi rei, trazendo grande casa de caçadores e moços de monte e de aves, e cães, de todas maneiras que para taes jogos eram pertencentes.

Elle era muito viandeiro, sem ser comedor mais que outro homem, que suas salas eram de praça em todos logares por onde andava, fartas de vianda, em grande abastança.

Elle foi grande criador de fidalgos de linhagem, porque n'aquelle tempo não se costumava ser vassalo, se não filho e neto ou bisneto de fidalgo de linhagem; e por usança haviam então a quantia que ora chamam maravidis, dar-se no berço, logo que o filho do fidalgo nascia, e a outro nenhum não.

Este rei accrescentou muito nas quantias dos fidalgos, depois da morte de el-rei seu padre, cá não embargando que el-rei D. Affonso fosse comprido de ardimento e muitas bondades, tachavam-no, porém, de ser escasso, e apertamento de grandeza. E el-rei Dom Pedro era em dar mui ledo, em tanto, que muitas vezes dizia que lhe afrouxassem a cinta, que então usavam não mui apertada, porque se lhe alargasse o corpo por mais espaçosamente poder dar; dizendo que o dia que o rei não dava, não devia ser havido por rei.

Era ainda de bom desembargo aos que lhe requeriam bem e mercê, e tal ordenança tinha n'isto, que nenhum era detido em sua casa por cousa que lhe requeresse.

Amava muito de fazer justiça com direito. E assim como quem faz correição, andava pelo reino, e visitada uma parte não lhe esquecia de ir vêr a outra, em guisa que poucas vezes acabava um mez em cada logar de estada.

Foi muito mantenedor de suas leis e grande executor das sentenças julgadas, e trabalhava-se quanto, podia das gentes não serem gastadas por azo de demandas e prolongados pleitos.

E se a Escriptura affirma que, por o rei não fazer justiça, vem as tempestades e tribulações sobre o povo, não se póde assim dizer d'este, cá não achamos, em quanto reinou, que a nenhum perdoasse morte de alguma pessoa, nem que a merecesse por outra guisa, nem lh'a mudasse em tal pena por que pudesse escapar a vida.

A toda gente era galardoador dos serviços que lhe fizessem, e não sómente dos que faziam a elle, mas dos que haviam feitos a seu padre, e nunca colheu a nenhum cousa que lhe seu padre desse, mas mantinha-a e accrescentava n'ella.

Este rei não quiz casar: depois da morte de Dona Ignez, em sendo infante, nem depois que reinou, lhe prove receber mulher; mas houve amigas com que dormiu, e de nenhuma houve filhos, salvo de uma dona, natural de Galliza, que chamaram Dona Thereza, que pariu um filho que houve nome Dom João, que foi mestre de Aviz em Portugal e depois rei, como adiante ouvireis, o qual nasceu em Lisboa onze dias do mez de abril, ás tres horas depois do meio dia, no primeiro anno do seu reinado. E mandou o el-rei criar, em quanto foi pequeno, a Lourenço Martins da Praça, um dos honrados cidadãos d'essa cidade, que morava junto com a igreja cathedral onde chamam a praça dos Canos, e depois o deu, que o criasse, a Dom Nuno Freire de Andrade, mestre da Cavallaria da ordem de Christo.

*CAPITULO II*

Como el rei de Castella mandou pelo corpo da rainha Dona Maria, sua madre, e da carta que enviou a el-rei de Portugal, seu tio.

N'esta sezão que el rei Dom Pedro começou de reinar, ordenou el-rei de Castella de enviar pelo corpo da rainha Dona Maria, sua madre, que se finara em Portugal vivendo ainda el-rei Dom Affonso, seu padre, como em alguns logares d'este livro faz menção; e fez saber por sua carta a el-rei Dom Pedro, seu tio, como havia vontade de a trasladar, para a pôr em Sevilha, na capella dos reis, com el-rei Dom Affonso, seu padre; e ordenou, para irem com o corpo da rainha, o arcebispo de Sevilha e outros prelados de seu reino, e dês-ahi mandou diante, para correger todas as cousas que cumpriam para o corpo ir honradamente, Gomes Peres, seu dispenseiro mór, ao qual o corpo havia de ser entregue, para ordenar tudo o que mister fazia á sua trasladacão, para quando os prelados viessem, que achassem tudo prestes e se partissem logo.

A el-rei Dom Pedro prouve d'isto muito, e escreveu-lhe que mandasse por elle, quando por bem tivesse: e el-rei de Castella enviou logo aquelle seu dispenseiro, e foi-lhe entregue o corpo, na cidade de Evora onde jazia, para ordenar seus corregimentos, segundo a ordenança que lhe era dada. E quando o arcebispo, e os outros prelados e gentes vieram pelo corpo da rainha, trouxeram a el-rei Dom Pedro uma carta de el-rei de Castella, seu sobrinho, que dizia n'esta guisa.

«Rei, tio. Nós, el-rei de Castella e de Leão, vos enviamos muito saudar como aquelle que muito prezamos e para que queriamos tanta vida e saude, com honra, como para nós mesmo.

«Rei, fazemos-vos saber que vimos uma carta de crença que nos enviastes por Martim Vasques e Gonçalo Annes de Beja, vossos vassalos, e disseram-nos de vossa parte a crença que lhes mandastes.

«E rei, tio, nossa tenção é de vos amar, e guardar sempre os bons dividos que comvosco havemos, e fazer sempre por vossa honra como por nossa mesma.

«E porquanto a nosso serviço e vosso cumpria haverem de ser declaradas algumas cousas conteudas nas posturas que entre nós havemos de pôr, assim sobre casamentos de vossos filhos com nossas filhas, nós falámos com o dito Martim Vasques e Gonçalo Annes toda nossa tenção, e enviamos allá sobre isto João Fernandes de Melgarejo, chanceller do nosso sêllo da puridade, e rogamos-vos que o creaes do que vos da nossa parte disser.

«Outro sim enviamos, para trazer o corpo da rainha, nossa madre, para a enterrar aqui em Sevilha, o arcebispo d'esta cidade e outros prelados de nossos reinos, e rogamos-vos que essas joias que ella deixou, que as mandeis dar ao dito João Fernandes, e nós agradecer-vol-o-hemos. Dada, etc.»

El-rei Dom Pedro fez outorgar o corpo da rainha Dona Maria, sua irmã, áquelle embaixador de el-rei de Castella; e foi-lhe feita grande honra, assim por el-rei, como pelos prelados que por ella vinham. E muito acompanhada até ao extremo, e d'ahi até á cidade de Sevilha, a saiu el-rei seu filho a receber com muita clerezia e grandes senhores e fidalgos que ahi eram com el-rei. E feitas suas exequias mui honradamente, foi posto o seu corpo na capella dos reis, a cerca de el-rei Dom Affonso, seu marido, onde ora jaz.

Sobre os casamentos dos filhos de el-rei Dom Pedro com as filhas de el-rei de Castella, por que João Fernandes era enviado, foram faladas muitas cousas com el-rei de Portugal, e não se accordando por então em algumas d'ellas, depois acertaram todas suas avenças, como adiante ouvireis.

*CAPITULO III*

Das cartas que o papa, e el-rei da Aragão enviaram a el-rei de Portugal sobre a morte de el-rei, seu padre.

El-rei Dom Pedro escrevera ao papa, e a el-rei de Aragão, por novas, quando el-rei Dom Affonso morreu, como seu padre era morto, e elle alçado por rei em Portugal.

E tendo cada um cuidado de lhe responder, chegaram lhe n'esta sezão suas respostas. E a letra do papa dizia assim:

«Innocencio, bispo, servo dos servos de Deus, ao muito amado, em Christo, filho Dom Pedro, mui nobre rei de Portugal, saude e apostolical benção.

Porquanto, muito amado filho, por tuas letras, e fama, fomos certificado como o mui claro, de nobre memoria, el-rei Dom Affonso teu padre, se finou d'este mundo, sua morte foi a nós, e é, mui grande nojo e tristeza. E não sem razão o devemos ser, quando em nosso coração cuidamos nas bondades e virtudes de que sua real alteza era muito ennobrecida, por cuja razão o muito amavamos, desejando-lhe que, entre todos os principes do mundo, o Senhor o accrescentasse, e estendesse seu real estado, com prolongamento de bem aventurados dias, nos quaes, acabando sua honrada velhice, a ti, seu primogenito filho, deixasse o regimento e successão do reino em firme concordia com teus visinhos.

E pois assim é que o Senhor Deus, em cuja mão é o poderio de dar a cada um vida e morte, lhe prouve de piedosamente o levar d'este mundo, nós pômos fim e acabamento á nossa dôr e tristeza, consolando-nos n'este Senhor que dá e priva e tolhe, quando quer que lhe praz, no qual havemos firme esperança que nos altos ceus dará bom galardão e gloria á alma de el-rei, teu padre, pois, emquanto n'este mundo viveu, se trabalhou de o servir com bons merecimentos, e lhe aprouve com dignas virtudes.

E assim, muito amado filho, piedosamente te consolamos, que te consoles no Senhor Deus, e consideres em tua vontade como succedes no regimento de teu padre, o qual, por exemplo da vida, se mostrou sempre ser fiel catholico.

Porém, requeremos á tua real clareza, que sempre, com firme desejo, vivas em temor do Senhor Deus, honrando a sua santa igreja, e, sendo favoravel ás ecclesiasticas pessoas, as mantenhas sempre em seus direitos e liberdades; e que sejas amador e defensor das viuvas e dos orfãos, alçando os aggravos aos teus subditos, que lhes não seja feita injuria; e que, sem recebimento de alguma pessoa, sempre sejas honrador e amador da justiça, de guisa que, por tuas obras, sejas chamado por nome de rei que bem rege: e sei certo, se o assim fizeres, que sempre em teus dias viverás em paz e folgança, havendo Deus em tua ajuda, e a sua santa igreja te haverá em sua encommenda, sendo prestes para toda a tua honra e cumprimento de justas petições. Diante em Avinhão, etc.»

N'outra carta, de el-rei de Aragão, eram conteudas estas razões:

«Muito alto e mui nobre Dom Pedro, pela graça de Deus, rei de Portugal e do Algarve: Dom Pedro, por essa mesma graça, rei de Aragão, e de Valencia, e de Mayorca, e de Sardenha, e de Corsega, e conde de Barcelona e de Rossilhão, saude, como a rei que temos em logar de irmão, que muito amamos e prezamos, e de que muito fiamos, e para que queriamos muita honra e boa ventura, com tanta vida e saude como para nós mesmo.

«Rei, irmão. Recebemos vossa letra, pela qual nos significastes a morte do mui alto e mui honrado el-rei Dom Affonso de Portugal, vosso padre, a que Deus perdoe. E por essa mesma nos fizestes saber que vós, assim como seu primogenito e herdeiro dos ditos reinos, ereis levantado por rei de Portugal. Das quaes novas, em verdade, Rei irmão, houvemos desprazer e prazer juntamente: desprazer da morte do dito rei, o qual sabiamos que nos amava como seu filho e nós a elle como a nosso muito amado padre; mas como da morte nenhuma pessoa seja isenta, e o dito rei seja saido da miseria d'este mundo, doendo-nos d'ella, se por nós alguma cousa pudesse ser feita, muito prestes eramos de o fazer, porém rogamos a Deus, em cuja mão é vida e morte de cada um, que receba sua alma com os seus santos no paraiso, fiando n'elle que o ha feito. Prazer outro sim houvemos mui grande, Rei irmão, quando soubemos que ereis alçado em rei de Portugal e do Algarve, pela successão herdeira a vós por direito pertencente, e crendo saber que, assim como nós tinhamos o dito rei em conta e logar de padre, assim entendemos de ter a vós em conta de nosso irmão, e fazer por vós toda cousa que seja honra e prazer vosso, e proveito de vosso senhorio, esperando certamente, de vós, que fareis semelhante por nós, e por nossos reinos e terras.

E porquanto, irmão Rei, segundo é conteudo em vossa letra, vós desejaes saber o bom estado de nossa pessoa, e da rainha, e de nossos filhos, a prazer vosso vos significamos que somos todos sãos e em boa disposição de nossas pessoas, mercês a Deus: rogando-vos, mui caramente, que de vosso bom estado e real casa, nos certifiqueis por vossa carta, e sêde certo que nos fareis assignado prazer. D'ante em Saragoça, etc.»

*CAPITULO IV*

Da maneira que el-rei D. Pedro tinha nos desembargos de sua casa.

Pois d'este rei achamos escripto que era muito amado de seu povo, pelo manter em direito e justiça, dês-ahi boa governança que em seu reino tinha, bem é que digamos de cada cousa um pouco, por vêrdes parte dos modos antigos.

Na ordenança de todos os desembargos, tinha el-rei esta maneira: quantas petições lhe a elle davam, iam á mão de Gonçalo Vasques de Goes, escrivão da puridade, e elle as dava a um escrivão, qual lhe prazia, o qual tinha encargo de as repartir, e dar cada uma aos desembargadores a que pertenciam; e as petições que eram desembargos de commum curso, aquelles, por que deviam passar, mandavam logo fazer as cartas a seus escrivães, de guisa que n'aquelle dia, ou no outro seguinte, eram as partes desembargadas, e o escrivão que o assim não fazia, perdia a mercê de el-rei por ello.

As outras petições, que eram de graça e mercê, que pertenciam á sua fazenda, fazia-as pôr em ementa a seu escrivão, e este escrevia por sua mão as petições que assim levava, cujas eram, e de que cousa, e este escripto ficava na mão do desembargador; e quando as depois desembargava com el-rei, se achava mais petições postas na ementa, que aquellas que lhe elle mandara pôr, visto o escripto que em seu poder ficava, por tal erro perdia a mercê de el-rei; e como aquella ementa era desembargada com el-rei, diziam os desembargadores a cada uma pessoa a mercê que lhe el-rei fazia, e mandavam a seus escrivães que lhe fizessem logo as cartas, e n'esse dia haviam de ser feitas, ou no outro o mais tardar, sob a pena que dissemos.

E se ahi havia taes porfiosos que andavam mais após el-rei, afincando-o com outras petições depois que haviam desembargo de sim ou de não, ou moravam mais tempo na côrte, se era honrado pagava certa pena de dinheiro, e se pessoa refece davam-lhe vinte açoutes na praça, e mandavam-no para casa; e trazia el-rei inculcas que lhe soubessem parte de taes homens, por se cumprir n'elles sua ordenação.

Por el-rei não ser annojado de vêr duas vezes as mercês que fazia, uma por ementa e outra por cartas, e por aquelles que o requeriam haverem mais toste seu desembargo, fazia-se d'esta guisa: quando el-rei outorgava algumas mercês a alguem, os que lhe haviam de dar desembargo escreviam logo na ementa, perante el-rei, a maneira como lh'as dava, e em cada um desembargo punha el-rei seu signal, e o chanceller estava presente, quando podia, para vêr como as el-rei desembargava. E tanto que os desembargadores tinham as cartas feitas e assignadas, mandavam-nas ao chanceller com o rol da ementa que el-rei assignara, por não pôr duvida em alguma d'ellas, e logo n'esse dia haviam de ser selladas, ou no outro até ao jantar.

Se el-rei ia a monte ou á caça, em que durasse mais de quatro dias, por nenhuns serem detidos por elle, juntavam-se os que tinham as petições das graças e viam aquillo que cada um pedia, e se lhe parecia que não era bem de lh'o el-rei fazer, escreviam-lhe pelo meudo por qual razão, e as que viam que devia outorgar, punham-lhe isso mesmo por quê, e assignavam todos a ementa, e levava-a um d'elles a el-rei, por lhe dizer a razão que os movera a fazer ou não cada uma cousa; e d'esta guisa haviam as gentes bom desembargo, e el-rei era fóra de muito nojo e afincamento.

Se alguns concelhos haviam de recadar com elle, mandava-lhe que enviassem em escripto cerrado e sellado, por um porteiro, tudo o que mister haviam, e logo lhe el-rei taxava que houvesse por dia quatro soldos, e mais não, e el-rei, visto o que lhe pediam, livrava-o logo, sem outra detença, como achava que era direito. E se tal cousa era que cumpria de esse concelho enviar a elle alguns bons homens, e entendidos, mandava el-rei que não enviassem mais de um, por fazer o concelho mais pouca despeza; e mandava que tal como este não houvesse por dia mais que vinte soldos.

*CAPITULO V*

De algumas cousas que el-rei Dom Pedro ordenou por bem de justiça e prol de seu povo.

Assim como este rei Dom Pedro era amador de trigosa justiça n'aquelles que achado era que o mereciam, assim trabalhava que os feitos civeis não fossem prolongados, guardando a cada um seu direito cumpridamente.

E porque achou que os procuradores prolongavam os feitos como não deviam, e davam azo de haver hi maliciosas demandas, e o peior, e muito de estranhar, que levavam de ambas as partes, ajudando um contra o outro, mandou que em sua casa, e todo o seu reino, não houvesse advogados nenhuns; e encommendou aos juizes e ouvidores que não fossem mais em favor de uma parte que outra; nem se movessem por nenhuma cobiça a tomar serviços alguns por que a justiça fosse vendida, mas que se trabalhassem cedo de livrar os feitos, de guisa que brevemente, e com direito, fossem desembargados, como cumpria. E sabendo que eram a ello negligentes, que lh'o estranharia nos corpos e haveres, e lhe faria pagar ás partes toda perda que por ello houvessem.

Isto assim ordenado, soube el-rei, a cabo de pouco tempo, que um seu desembargador, de que elle muito fiava, chamado por nome mestre Gonçalo das Decretaes, levara peita de uma das partes que perante elle andavam a feito, pela qual julgou e deu sentença. E el-rei, sabendo isto, houve mui grande pezar, e deitou-o logo fora de sua mercê por sempre, e degradou elle e os filhos a dez leguas de onde quer que elle fosse: porém, diziam todos os que isto viram, que aquelle de que elle levara a peita tinha direito n'aquelle pleito.

Então ordenou el-rei, e pôz defeza em sua casa e todo seu senhorio, que nenhum que tivesse poderio de fazer justiça, não filhasse peita nenhuma dos que houvessem pleitos perante elles; e se lhe fosse provado que a tomára, que morresse por ello, e perdesse os bens para a corôa do reino. E se taes juizes e officiaes tomassem serviços de quaesquer outros que perante elles não houvessem pleitos, que perdessem a sua mercê, salvo se fosse de homem que não houvesse demanda em todo seu senhorio, que aduz poderia ser achado. E mandou, ao corregedor da côrte e ouvidores, que não conhecessem de feitos nenhuns, salvo se fossem entre taes pessoas de que os juizes das terras não podessem fazer direito, senão quando lhe viessem por appellação ou aggravo.

Sabendo, outrosim, el-rei, como alguns, que eram casados, deixavam suas mulheres e filhos que tinham, e tomavam barregãs, com que áparte faziam vivenda, e outros taes que com suas mulheres as tinham em casa: mandou, e pôz por lei, que qualquer casado que com barregã vivesse, ou a tivesse dentro em sua casa, se fosse fidalgo ou vassalo, que d'elle ou de outrem tivesse maravidis, que os perdesse, e segundo os estados das pessoas, assim ordenou as penas do dinheiro e degredo, até mandar que publicamente, pela terceira vez, elles e ellas por isto fossem açoutados. E quando diziam a el-rei que se aggravavam muitos de tal ordenança como esta, respondia elle que assim o entendia por serviço de Deus e seu, e prol d'elles todos. E esta ordenança mesma, e penas, pôz nas mulheres que barregãs fossem de clerigos de ordens sacras.

Elle defendeu e mandou, em Lisboa, que nenhuma mulher de qualquer estado que fosse, não entrasse dentro no arrabalde dos mouros, de dia nem de noite, sob pena de ser enforcada. E mandou que qualquer judeu ou mouro, que depois de sol posto, fosse achado pela cidade, que com pregão publicamente fosse açoutado por ella.

Falando el-rei um dia nos feitos da justiça, disse que vontade era, e fôra sempre de manter os povos de seu reino n'ella, e estremadamente fazer direito de si mesmo. E porquanto elle sentia que o mór aggravo que elle e seus filhos, e outros alguns de seu senhorio, faziam aos povos de sua terra, assim no tomar das viandas por preço mais baixo do que se vendiam, que porém elle mandava que nenhum de sua casa, nem dos infantes, nem d'outro nenhum que em sua mercê e reinos vivesse, que cargo tivesse de tomar aves, que não tomasse gallinhas, nem patos, nem cabritos, nem leitões, nem outras nenhumas cousas acostumadas de tomar, salvo compradas á vontade de seu dono; e sobre isto pôz pena de prisão, e dinheiros, ás honradas pessoas, e aos gallinheiros e pessoas vis, açoutados pelo logar hu as tomassem, e deitados fóra de sua mercê.

Mandou mais aos estribeiros seus e de seus filhos, e a todos os de sua terra, que não mandassem a nenhum logar por palha doada, salvo se a houvesse de haver de fôro; mas que pelo azemel, que fosse por ella, mandasse pagar pela carga cavallar de palha, ou de restolho empalhado, três soldos e pela carga asnal, dois. E o azemel que por ella fosse, e a d'esta guisa não pagasse, que pela primeira vez fosse açoutado e talhadas as orelhas, e pela segunda fosse enforcado: e outra tal pena mandava dar ao lavrador que não empalhasse toda a palha que houvesse.

E quando lhe diziam que punha mui grandes penas por mui pequenos excessos, dava resposta dizendo assim, que a pena que os homens mais receavam era a morte, e que se por esta se não cavidassem de mal fazer, que ás outras davam passada, e que boa cousa era enforcar um ou dois, pelos outros todos serem castigados, e que assim o entendia por serviço de Deus e prol de seu povo.

Elle corregeu as medidas de pão de todo Portugal, e ordenou outras cousas por bom paramento e proveito de sua terra, das quaes não fazemos mais longo processo por não saber quanto prazeriam aos que as ouvissem.

*CAPITULO VI*

Como el-rei mandou degolar dois seus criados, porque roubaram um judeu e o mataram.

Este rei Dom Pedro, emquanto viveu, usou muito de justiça sem affeição, tendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhum perdoava os erros que fazia, por criação nem bem querença que com elle houvesse. E se dizem que aquelle é bem aventurado rei que por si esquadrinha os males e forças que fazem aos pobres, e bem é este do conto de taes, cá elle era ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos viviam em paz. E era ainda tão zeloso de fazer justiça, especialmente dos que travessos eram, que perante si os mandava metter a tormento, e se confessar não queriam, elle se desvestia de seus reaes pannos, e por sua mão açoutava os malfeitores; e pelo que d'ello muito pasmavam seus conselheiros e outros alguns, annojava-se de os ouvir, e não o podiam, quitar d'ello por nenhuma guisa.

Nenhum feito crime mandava que se desembargasse salvo perante elle, e se ouvia novas de algum ladrão ou malfeitor, alongado muito d'onde elle fosse, falava com algum seu de que se fiava, promettendo-lhe mercês por lh'o ir buscar, e mandava-lhe que não viesse ante elle até que todavia lh'o trouxesse á mão. E assim lh'os traziam presos do cabo do reino, e lh'os apresentavam hu quer que estava. E da mesa se levantava, se chegavam a tempo que elle comesse, por os fazer logo metter a tormento, e elle mesmo punha n'elles mão quando via que confessar não queriam, ferindo-os cruelmente até que confessavam.

A todo logar onde el-rei ia, sempre acharieis prestes com um açoute o que de tal officio tinha encargo, em guisa que como a el-rei traziam algum malfeitor, e elle dizia:—chamem-me foão, que traga o açoute,—logo elle era prestes, sem outra tardança.

E pois que escrevemos que foi justiçoso, por fazer direito em reger seu povo, bem é que ouçaes duas ou três cousas, por vêrdes o geito que n'isto tinha.

Assim adveiu que pousando elle nos paços de Bellas, que elle fizera, dois seus escudeiros que gram tempo havia que com elle viviam, sendo ambos parceiros, houveram conselho que fossem roubar um judeu que pelos montes andava vendendo especiaria e outras cousas. E foi assim, de feito, que foram buscar aquella suja préa, e roubaram-no de tudo, e, o peior d'isto, foi morto por elles. Sua ventura, que lhe foi contraria, azou de tal guisa que foram logo presos e trazidos a el rei, alli hu pousava.

El-rei, como os viu, tomou gram prazer por serem filhados, e começou-os de perguntar como fôra aquillo. Elles, pensando que longa criação e serviço que lhe feito haviam, o demovesse a ter algum geito com elles, não tal como tinha com outras pessoas, começaram de negar, dizendo que de tal cousa não sabiam parte.

Elle, que sabia já de que guisa fôra, disse que não haviam por que mais negar, que ou confessassem como o mataram, senão, que a poder de crueis açoutes lhe faria dizer a verdade.

Elles em negando viram que el-rei queria pôr em obra o que lhe por palavra dizia, confessaram tudo assim como fôra; e el-rei, sorrindo-se, disse que fizeram bem, que tomar queriam mister de ladrões e matar homens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro nos judeus, e depois viriam aos christãos.

E em dizendo estas e outras palavras, passeava perante elles de uma parte á outra, e parece que lembrando-lhe a criação que n'elles fizera, e como os queria mandar matar, vinham-lhe as lagrimas aos olhos, por vezes. Depois, tornava asperamente contra elles, reprehendendo-os muito do que feito haviam. E assim andou por um grande espaço.

Os que hi estavam, que aquesto viam, suspeitando mal de suas razões, afincavam-se muito a pedir mercê por elles, dizendo que por um judeu astroso não era bem morrerem taes homens, e que bem era de os castigar por degredo ou outra alguma pena, mas não mostrar contra aquelles que criara, pelo primeiro erro, tão grande crueza.

El-rei, ouvindo todos, respondia sempre que dos judeus viriam depois aos christãos.

Em fim d'estas e outras razões, mandou que os degolassem.

E foi assim feito.

*CAPITULO VII*

Como el-rei quizera metter um bispo a tormento porque dormia com uma mulher casada.

Não sómente usava el-rei de justiça contra aquelles que razão tinha, assim como leigos e semelhantes pessoas, mas assim ardia o coração d'elle de fazer justiça dos maus, que não queriam guardar sua jurisdicção, aos clerigos tambem, de ordens pequenas, como de maiores. E se lhe pediam que o mandasse entregar a seu vigario, dizia que o puzessem na forca e que assim o entregassem a Jesus Christo, que era seu Vigario, que fizesse d'elle direito no outro mundo. E elle por seu corpo os queria punir e atormentar, assim como quizera fazer a um bispo do Porto, na maneira que vos contaremos.

Certo foi, e não o ponhaes em duvida, que el-rei, partindo de entre Douro e Minho, por vir á cidade do Porto, foi informado que o bispo d'esse lugar, que então tinha gram fama de fazenda e honra, dormia com uma mulher de um cidadão, dos bons que havia na dita cidade, e que elle não era ousado de tornar a ello, com espanto de ameaças de morte que lhe o bispo mandava pôr.

El-rei, quando isto ouviu, por saber de que guisa era, não via o dia que estivesse com elle, para lh'o haver de perguntar.

E logo, sem muita tardança, depois que chegou ao logar, e houve comido, mandou dizer ao bispo que fosse ao paço, que o havia mister por cousas de seu serviço. Falou com seus porteiros, que depois que o bispo entrasse na camara, lançassem todos fóra do paço, tambem os do bispo como quaesquer outros, e que ainda que alguns do conselho viessem, que não deixassem entrar nenhum dentro, mas que lhe dissessem que se fossem para as pousadas, cá elle tinha de fazer uma cousa em que não queria que fossem presentes.

O bispo, como veiu, entrou na camara onde el-rei estava, e os porteiros fizeram logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não ficou nenhum, e foi livre de toda a gente.

El-rei, como foi áparte com o bispo, desvestiu-se logo e ficou em uma saia de escarlata, e por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestiduras, e começou de o requerer que lhe confessasse a verdade d'aquelle maleficio em que assim era culpado: e em lhe dizendo isto, tinha na mão um grande açoute para o brandir com elle.

Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fóra, e isso mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir, pelo que sabiam que o bispo fazia, dês ahi juntando a isto a condição de el-rei e a maneira que em taes feitos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar de algum mau jogo, e foram-se á pressa ao conde velho, e ao mestre de Christo Dom Nuno Freire, e a outros privados de seu conselho, que accorressem asinha ao bispo.

E logo tostemente vieram a el-rei, e não ousaram de entrar na camara, por a defeza que el-rei tinha posta, se não fôra Gonçalo Vasques de Goes, seu escrivão da puridade, que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobrevieram de el-rei de Castella a gram pressa. E por tal azo e fingimento houveram entrada dentro na camara, e acharam el-rei com o bispo em rasões, da guisa que havemos dito, e não lh'o podiam já tirar das mãos. E começaram de dizer que fosse sua mercê de não pôr mão n'elle, cá por tal feito, não lhe guardando sua jurisdicção, haveria o papa sanha d'elle; demais, que o seu povo lhe chamava algoz, que por seu corpo justiçava os homens, o que não convinha a elle de fazer, por muito malfeitores que fossem.

Com estas e outras rasões, arrefeceu el-rei de sua mui brava sanha, e o bispo se partiu de ante elle, com semblante triste e turvado coração.

*CAPITULO VIII*

Como el-rei mandou capar um seu escudeiro, porque dormiu com uma mulher casada.

Era ainda el-rei Dom Pedro muito cioso, assim de mulheres de sua casa, como de seus officiaes e das outras todas do povo, e fazia grandes justiças em quaesquer que dormiam com mulheres casadas ou virgens, e isso mesmo com freiras.

Onde aqueeceu que em sua casa havia um corregedor da côrte a que chamavam Lourenço Gonçalves, homem mui entendido e bem razoado cumpridor de todas as cousas que lhe el-rei mandava fazer, e não corrompido por nenhuns falsos offerecimentos que trasmudam os juizos dos homens. E porque o el-rei achava leal e bem verdadeiro, fiava d'elle muito, e queria-lhe grande bem.

E era este corregedor muito honrado de sua casa e estado, e muito praceiro e de boa conversação, e seria então em meia idade. Sua mulher havia nome Catharina Tosse, briosa, louçã e muito aposta, de graciosas manhas e bem acostumada.

Em esta sesão vivia com el-rei um bom escudeiro, e para muito, mancebo, e homem de prole, e n'aquelle tempo estremado em assignadas bondades, grande justador e cavalgador, grande monteiro e caçador, luctador e travador de grandes ligeirices, e de todas as manhas que se a bons homens requerem,—chamado por nome Affonso Madeira,—por a qual rasão o el-rei amava muito e lhe fazia bem gradas mercês.

Este escudeiro se veiu a namorar de Catharina Tosse, e mal cuidados os perigos que lhe advir podiam de tal feito, tão ardentemente se lançou a lhe querer bem, que não podia perder d'ella vista e desejo: assim era traspassado do seu amor. Mas, porque lugar e tempo não concorriam para lhe fallar como elle queria, e por ter aso de a requerer ameude de seus deshonestos amores, firmou com o aposentador tão grande amisade que para onde quer que el-rei partia, ora fosse villa ou qualquer aldeia, sempre Affonso Madeira havia de ser aposentado junto, ou muito perto do corregedor. E havia já tempo que durava este aposentamento, sempre cerca um do outro; tendo bom geito e conversação com seu marido, por carecer de toda suspeita.

Affonso Madeira tangia e cantava, afóra sua apostura e manhas boas já recontadas, de guisa que por aso de tal achegamento, com longa affeição e falas ameude, se gerou entre elles tal fructo, que veiu elle a acabamento de seus prolongados desejos.

E porque semelhante feito não é da geração das cousas que se muito encobram, houve el-rei de saber parte de toda sua fazenda, e não houve d'ello menos sentido que se ella fora sua mulher ou filha. E como quer que o el-rei muito amasse, mais que se deve aqui de dizer, posta de parte toda bemquerença, mandou-o tomar dentro em sua camara, e mandou-lhe cortar aquelles membros que os homens em mór preço tem: de guisa que não ficou carne até aos ossos, que tudo não fosse corto. E pensaram Affonso Madeira, e guareceu, e engrossou em pernas e corpo, e viveu alguns annos engelhado do rosto e sem barbas, e morreu depois de sua natural morte.

*CAPITULO IX*

Como el-rei mandou queimar a mulher de Affonso André, e de outras justiças que mandou fazer.

Quem ouviu semelhante justiça, do que el-rei fez na mulher de Affonso André, mercador honrado, morador em Lisboa, andando justando na rua nova, como era costume, quando os reis vinham ás cidades, que os mercadores e cidadãos justavam com os da côrte, por festa?

Estando el-rei presente, e havendo informação certa que sua mulher lhe fazia maldade, entendeu que então era tempo de a achar e tomar em tal obra; e, por inculcas, muito escusamente foi ella tomada com quem a culpavam, e mandou-a queimar, e degolar a elle. E o marido, continuando a justa, quando cessou, soube d'isto parte, e foi-se a el-rei por se queixar do que lhe feito haviam. E el-rei, como o viu, antes que lhe elle fallasse, pediu-lhe a alviçara do que mandara fazer, dizendo que já o tinha vingado da aleivosa de sua mulher e do que lhe punha as cornas, e que melhor sabia elle quem ella era, que elle.

Que diremos de Maria Roussada, mulher casada com seu marido, que dormira com ella por força (a que então chamavam roussar), por a qual cousa elle merecia morte? E tendo já d'ella filhos e filhas, viviam ambos em gram bemquerença, e ouvindo-a el-rei chamar por tal nome, perguntou por que lh'o chamavam, e soube da guisa como tudo fôra, e que se avieram que casassem ambos por tal feito não vir mais á praça: e el-rei, por cumprir justiça, mandou-o enforcar, e ia a mulher e os filhos carpindo traz elle.

Não valeu, estando el-rei em Braga, rogo de quantos com elle andavam, que pudesse escapar a vida a Alvaro Rodrigues de Grade, um dos bons escudeiros de entre Douro e Minho, e bem aparentado, porque cortou os arcos de uma cuba de vinho a um pobre lavrador, que lhe logo el-rei não mandou cortar a cabeça, tanto que o soube.

E porque o seu escrivão do thesouro recebeu onze libras e meia sem o thesoureiro, mandou-o enforcar, que lhe não poude valer o conde, nem Beatriz Dias, manceba d'el-rei, nem outro nenhum.

E foram aquelle dia, com estes dois, onze mortos por justiça, entre ladroes e malfeitores.

Não fique por dizer de um bom escudeiro, sobrinho de João Lourenco Bubal, privado d'el-rei e do seu conselho, alcaide mór de Lisboa, o qual escudeiro vivia em Aviz, honradamente e bem acompanhado. E foi a sua casa, por mandado do juiz, um porteiro, para o penhorar, e elle, por cumprir vontade, depenou-lhe a barba e deu-lhe uma punhada.

O porteiro veiu-se a Abrantes, onde el-rei estava, e contou-lhe tudo como lhe adviera. El-rei, que o áparte ouvia, como acabou de falar, começou de dizer contra o corregedor que ahi estava:

—Accorrei-me aqui, Lourenço Gonçalves, cá um homem me deu uma punhada no rosto, e me depennou a barba! O corregedor, e os que o ouviram, ficaram espantados por que o dizia. E mandou á pressa que lh'o trouxessem preso, e não lhe valesse nenhuma egreja. E foi assim feito, e trouxeram-lh'o a Abrantes, e alli o mandou degolar, e disse:—Dês que me este homem deu uma punhada e me depennou a barba, sempre me temi d'elle que me désse uma cutelada, mas já agora sou seguro que nunca m'a dará!

Assim, que bem podem dizer d'este rei Dom Pedro, que não saíram em seu tempo certos os ditos de Solon, philosopho, e d'outros alguns, os quaes disseram que as leis e justiça eram taes como a teia da aranha, na qual os mosquitos pequenos, caindo, são retidos e morrem n'ella, e as moscas grandes e que são mais rijas, jazendo n'ella, rompem-n'a e vão-se: e assim diziam elles que as leis e justiça se não cumpriam senão nos pobres, mas os outros que tinham ajuda e accorro, caindo n'ella, rompiam n'a e escapavam.

El-rei Dom Pedro era muito pelo contrario, cá nenhum, por rogo nem poderio, havia de escapar da pena merecida; de guisa que todos receiavam de passar seu mandado.

*CAPITULO X*

Como el-rei mandava matar o almirante; e da carta que lhe enviou o duque e commum de Genova, rogando por elle.

El-Rei Dom Pedro queria gram mal a alcoviteiras e feiticeiras, de guisa que por as justiças que n'ellas fazia, mui poucas usavam de taes officios.

E sendo elle na Beira, soube que uma, chamada por nome Helena, alcovitara ao almirante uma mulher, com que elle dormira, a que diziam Violante Vasques. E mandou logo el-rei queimar a alcoviteira, e ao almirante, Lançarote Pessanho, mandava cortar a cabeça.

E pero os do seu conselho trabalhassem muito por o livrar de sua sanha, nunca o puderam com elle postar, emtanto que o almirante fugiu, e foi amorado, e partiu d'elle por longos tempos, perdidas suas contias e todo seu bem fazer e officio. E não sabendo remedio que sobre isto ter, houve accordo de mandar pedir ao duque e commum de Genova que escrevessem por elle a el rei, que fosse sua mercê de lhe perdoar.

Os genovezes, vendo o recado do almirante, escreveram a el-rei que perdesse d'elle sanha, e a carta de Gabriel Adorno, duque de Genova, e dos anciãos do conselho d'essa cidade, dizia n'esta guisa:

«Principe e senhor mui claro, de grande e real magestade. Esguardada a benignidade, muitas vezes se tempéra por mansidão o modo e rigor da justiça, e a piedosa consideração trabalha sempre de renovar as boas amisades antigas. E se boa cousa é tomar amisades e novas conhecenças, muito melhor é, segundo diz o sabedor, renovar e conservar as velhas, dizendo que o amigo novo não é egual nem semelhante ao de longo tempo. As quaes razões nos fazem haver fiusa na vossa grande alteza, que graciosamente haja de ouvir nossa humildosa supplicacão, a qual é esta, que a nós foi notificado como o nobre cavalleiro Dom Lançarote Pessanho, vosso almirante, filho em outro tempo do nobre barão Dom Manuel Pessanho, digno de boa memoria, nosso amigo e cidadão, haja caido em sanha da vossa real magestade, mais por inveja de alguns que d'elle bem não disseram, que por outras graves maldades que n'elle sejam achadas, segundo corre a commum fama que por razão bem parece; cá não é de querer que saia de regra de bons feitos quem é gerado e descende de padres que sempre foram ennobrecidos por virtuosos e bons costumes. E posto que errasse em alguma cousa, muito deve vossa discreta mansidão temperar o rigor da justiça, renovando por nobres beneficios a lealdade dos seus antecessores: a qual cousa nós esperando da vossa grande alteza, a ella humildosamente pedimos que, pelo que dito é, e nossos afincados rogos, tenhaes por bem tornar o dito almirante á graça primeira de seu bom estado. E por isto vossa real magestade haverá nós e nosso commum apparelhados, de ledo coração, a todas as cousas que lhe forem praziveis. Data, etc.»

Não embargando esta carta, não podiam com el-rei que perdesse sanha do almirante; porém depois a alguns tempos, lhe perdoou el-rei, e foi tornado a sua mercê.

*CAPITULO XI*

Das moedas que el-rei Dom Pedro fez, e da valia do oiro e da prata n'aquelle tempo.

Não se podem tão temperadamente dizer os louvoures de alguma pessoa, que aquelles, cujas linguas sempre têm costume de reprehender, não achem lugares a elles dispostos, em que ameude bem possam prasmar: e nós, porque dissemos d'este rei Dom Pedro que era grado e lêdo em dar, e não dizemos de algumas grandezas que dignas sejam de tanto louvor, poderá ser que nos prasmaram alguns, dizendo que não historiamos direitamente. E isto não é por nós bem não vermos que para autoridade de tão grande gabo não se acham ditos em sua igualdança; mas, por não desviar d'aquelles louvores que os antigos em suas obras encommendaram, contamol-o da guisa que o elles disseram.

Bem achamos que nunca se anojava por lhe pedirem, e que mandava lavrar até cem marcos de prata, em taças e copas, para dar em janeiras, e dava-as cada anno, com outras joias, a quem lhe prazia.

Accrescentou nas contias aos fidalgos e vassalos, como dissemos; cá o vassallo não havia antes de sua contia mais de setenta e cinco libras, e el-rei Dom Pedro lhe poz cento, que eram quinze dobras cruzadas, dobras mouriscas. E por esta contia havia de ter o vassalo cavallo recebondo e loriga com seu almofre, e á sua morte ficava o cavallo e loriga a el-rei, de luctuosa, e dava-o el-rei a quem sua mercê era: em guisa que com aquelle cavallo e armas, posta contia a outro vassalo, ficava sempre o conto dos vassalos certo, e não minguado.

No tempo d'este rei, valia o marco da prata de liga dezenove libras, e a dobra mourisca tres libras e quinze soldos, e o escudo tres libras e dezesete soldos, e o moutão tres libras e dezenove soldos.

Este rei Dom Pedro não mudou moeda por cubiça de temporal ganho; mas lavrou-se em seu tempo mui nobre moeda de oiro e prata sem outra mistura, a saber, dobras de bom oiro fino, de tamanho peso como as dobras cruzadas que faziam em Sevilha, que chamavam de Dona Branca. E estas dobras que el-rei Dom Pedro mandava lavrar, cincoenta d'ellas faziam um marco: e d'outras que lavravam, mais pequenas, levava o marco, cento; e de uma parte tinham quinas e da outra figura de homem com barbas nas faces e corôa na cabeça, assentado em uma cadeira, com uma espada na mão direita, e havia letras ao redor, por latim, que em linguagem diziam: Pedro, rei de Portugal e do Algarve, e da outra parte: Deus, ajuda-me e faze-me excellente vencedor sobre meus inimigos. E a maior dobra d'estas valia quatro libras e dois soldos, e a mais pequena quarenta e um soldo.

Lavravam outra moeda de prata, que chamavam tornezes, que sessenta e cinco faziam um marco, de liga e peso dos reaes d'el-rei Dom Pedro de Castella, e outro tornez faziam, mais pequeno, de que o marco levava cento e trinta, e de um cabo tinha quinas, e do outro cabeça de homem com barbas grandes e corôa n'ella, e as letras, de ambas as partes, eram taes como as das dobras, e valia o tornez grande sete soldos e o pequeno tres soldos e meio, e chamavam a estas moedas dobra e meia dobra, e tornez e meio tornez.

A outra moeda miuda eram dinheiros affonsins, da liga e valor que fizera el-rei Dom Affonso seu padre.

E com estas moedas era o reino rico e abastado, e posto em grande abundancia. E os reis faziam grandes thesouros do que lhes sobejava de suas rendas, e, para os fazer e accrescentar n'elles, tinham esta maneira.

*CAPITULO XII*

Da maneira que os reis tinham para fazer thesouros, e accrescentar n'elles.

Já vós ouvistes bem quanto os réis antigos fizeram por encurtar nas despezas suas e do reino, pondo ordenações em si e nos seus, por terem thesouros e serem abastados. Porque sendo o povo rico, diziam elles que o rei era rico, e o rei que thesouro tinha, sempre era prestes para defender seu reino e fazer guerra quando lhe cumprisse, sem aggravo e damno de seu povo, dizendo que nenhum era tão seguro de paz que pudesse carecer de fortuna não esperada.

E para encaminharem de fazer thesouro, tinham todos esta maneira: em cada um anno eram os reis certificados, pelos védores de sua fazenda, das despezas todas que feitas haviam, assim em embaixadas como em todas as outras coisas, que lhe necessariamente convinham fazer, e diziam-lhe o que além d'isto sobejava de suas rendas e direitos, assim em dinheiros como em quaesquer coisas, e logo era ordenado que se comprasse d'elles certo oiro e prata para se pôr no castello de Lisboa, em uma torre, que para isto fôra feita, que chamavam a torre albarrã.

Esta torre era mui forte, e não foi porém acabada. Estava em cima da porta do castelo, e alli punham o mais do thesouro que os reis juntavam em oiro e prata e moedas, e tinham as chaves d'ella, um guardião de São Francisco, e outra o prior de São Domingos, e a terceira um beneficiado da Sé d'essa cidade.

E para juntarem este oiro e prata, tinham este modo: em todas as cidades e villas do reino que para isto eram azadas, tinham os reis seus cambadores, que compravam prata e oiro áquelles que o vender queriam, o qual não havia de comprar outrem senão elles, e acabado o anno, trazia cada um quanto comprara áquelles lugares onde havia de ser posto em thesouro: e haviam estes cambadores certa cousa de cada peça de oiro que compravam, e o que sobejava em moeda punham-no isso mesmo em deposito.

Outra torre havia no castello de Santarem, em que outrosim estava mui gran thesouro de moeda e d'outras cousas, em tamanha quantidade, que ante a pontavam fortemente por não cair com o muito haver que n'ella punham.

E d'esta guisa estava no Porto, e em Coimbra, e n'outros lugares.

E posto alli, em cada um anno aquelle oiro, e prata, e moedas que assim ficavam, e que os reis mandavam comprar, quando o rei vinha a morrer, e prégavam d'elle e dos bens que fizera, dizendo como o reinara tantos annos e mantivera em direito e justiça, contavam-lhe mais por grande bondade, e louvando-o muito, diziam:—este rei, em tantos annos que reinou, poz nas torres do thesouro tanto oiro, e prata, e moedas. E quanto cada um rei n'ellas punha, tanto lh'o contavam por muito mór bondade.

El-rei Dom Pedro, como reinou, pareceu a alguns que não tinha sentido de ordenar que accrescentassem no thesouro, que os antigos com grande cuidado começaram de guardar. E vendo isto um seu privado, que chamavam João Esteves, houve-o por grande mal, e propoz de lh'o dizer, e fallando el-rei com elle uma vez, em coisas de sabor, disse elle a el-rei em esta guisa:—Senhor, a mim parece, se vossa mercê fosse, que seria bem de proverdes vossa fazenda, e vêr o que se dispender póde, e, do que sobejar, encaminhardes como accrescenteis alguma cousa nos thesouros que vos ficaram de vosso padre e de vossos avós, para fazerdes o que os outros reis fizeram, e para terdes que dispender mais abundosamente se vos alguma necessidade viesse á mão, cá muito mais com vossa honra dispendereis vós accrescentando no thesouro que tendes, que gastar o que os outros reis deixaram, sem pôr n'elle nenhuma coisa.

A estas e outras razões respondeu el-rei que dizia bem, e que lhe puzesse em escripto quanto era o que renderiam seus direitos, e a despeza que se d'ello fazia. A poucos dias trouxe o privado, em escripto, tudo aquillo que lhe el-rei dissera, e visto por ambos apartadamente, acharam que tiradas as despezas que os reis em costume tinham de fazer, que sómente no seu thesouro de Lisboa podia cada anno pôr na torre do castello até quinze mil dobras.

E ordenou logo, como se puzesse cada anno, em oiro, e prata, e moedas, tudo o que sobejasse de suas rendas, nos lugares acostumados onde os reis punham seu haver; porém que dizia el-rei que não fazia pouco quem guardava o thesouro que lhe ficava de outrem e se mantinha nos direitos que havia de seu reino, sem fazendo aggravo ao povo, nem lhe tomando do seu nenhuma coisa. E ficaram todos por sua morte a el-rei Dom Fernando, seu filho, que os depois gastou como lhe prouve, segundo adiante ouvireis.