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Chapter 13: VIII
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About This Book

O narrador descreve um encontro fortuito numa carruagem noturna: ao sentar-se junto a uma mulher velada, sente o toque de uma mão delicada e é cativado por um perfume de sândalo, que o leva a idealizá‑la e a tomar como certa a sua beleza. Essa breve intimidade desencadeia uma paixão obsessiva; ele passa a procurá‑la diariamente, a contar horas e dias e a interrogar passageiros na tentativa de reencontrá‑la. A narrativa combina vivências sensoriais, reflexões sobre desejo e saudade e o papel do acaso nas ligações afetivas; a espera é atenuada por uma carta que ela deixa e que chega no dia seguinte.

Non ti scordar di me
Addio!...


Partia-me a alma.

Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se uma sombra em uma das janellas; saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permittiram ver o que se passava na sala.

Sentei-me sobre uma pedra e esperei.

Não se ria, D***; estava resolvido á passar alli a noite ao relento, olhando para aquella casa, e alimentando a esperança de que ella viria ao menos com uma palavra compensar o meu sacrificio.

Não me enganei.

Havia meia hora que a luz da sala tinha desapparecido e que toda a casa parecia dormir, quando abrio-se uma das portas do jardim, e eu vi ou antes presenti a sua sombra na sala.

Recebeu-me sem sorpresa, sem temor; naturalmente e como si eu fosse seu irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante confiança para dispensar o falso pejo, o pudor de convenção de que ás vezes costumam cercal-o.

—Eu sabia que sempre havia de vir, disse-me ella.

—Oh! não me culpe! si soubesse!

—Eu culpal-o? Quando mesmo não viesse, não tinha direito de queixar-me.

—Porque não me ama!

—Pensa isto? disse-me com uma voz cheia de lagrimas.

—Não! não!... Perdôe!

—Perdôo-lhe, meu amigo, como já lhe perdoei uma vez; julga que lhe fujo, que me occulto, porque não o amo, e entretanto não sabe que a maior felicidade para mim seria poder dar-lhe a minha vida.

—Mas então porque esse mysterio?

—Esse mysterio, bem sabe, não é uma cousa creada por mim, e sim pelo acaso; si o conservo é porque, meu amigo... não deve amar.

—Não a devo amar! Mas eu amo-a!...

Recostou a cabeça no meu hombro, e eu senti uma lagrima cahir sobre meu seio.

Estava tão perturbado, tão commovido d'essa situação incomprehensivel, que senti-me vacilar, e deixei-me cahir sobre o sofá.

Ella sentou-se junto de mim; e, tomando-me as duas mãos, disse-me um pouco mais calma:

—Diz que me ama!

—Juro-lhe!

—Não se illude talvez?

—Si a vida não é uma illusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora é você, ou antes a sua sombra.

—Muitas vezes toma-se um capricho por amor; não conhece de mim, como diz, sinão a minha sombra!...

—Que me importa?...

—E si eu fosse feia? disse ella rindo.

—É bella como um anjo! Tenho toda a certeza.

—Quem sabe?

—Pois bem; convença-me, disse eu passando-lhe o braço pela cintura e procurando leval-a para uma sala vizinha, d'onde filtravam os raios de uma luz.

Desprehendeu-se do meu braço.

A sua voz tornou-se grave e triste.

—Escute, meu amigo; fallemos seriamente. Diz que me ama; eu o creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesse. As almas como as nossas quando se encontram se reconhecem e se comprehendem. Mas ainda é tempo; não julga que mais vale conservar uma recordação do que entregar-se á um amor sem esperança e sem futuro?...

—Não, mil vezes não! Não entendo o que quer dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá sempre!...

—Eis o que eu temia; e entretanto eu sabia que assim havia de acontecer; quando se tem a sua alma ama-se de uma só vez.

—Então porque exige de mim um sacrificio que sabe ser impossivel?

—Porque, disse ella com exaltação, porque, si ha uma felicidade indefinivel em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existencia, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flôr da idade até a velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas magoas, revendo-se uma na outra até o momento em que batem as azas e vão abrigar-se no seio de Deos; deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo-se apenas encontrado, uma d'essas duas almas irmãs fugir d'este mundo, e a outra, viuva e triste, fôr condemnada á levar sempre no seu seio uma idéa de morte; á trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá a sua bella mocidade; á fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um tumulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrivel!...

A exaltação com que fallava tinha-se tornado uma especie de delirio; sua voz, sempre tão doce e avelludada, parecia alquebrada pelo cansaço da respiração.

Ella cahio sobre o meu seio, agitando-se convulsivamente em um accesso de tosse.



V



Assim ficámos muito tempo immoveis, ella com a fronte apoiada sobre meu peito, eu sob a impressão triste de suas palavras.

Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando a serenidade, disse-me em tom doce e melancolico:

—Não pensa que melhor é esquecer do que amar assim?

—Não! Amar, sentir-se amado, é sempre um gozo immenso e um grande consolo para a desgraça. O que é triste, o que é cruel, não é essa viuvez da alma separada de sua irmã, não; ahi ha um sentimento que vive, apezar da morte, apezar do tempo. É sim esse vacuo do coração que não tem uma affeição no mundo, e que passa como um estranho por entre os prazeres que o cercam.

—Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada!...

—E me pedia que a esquecesse!...

—Não! não! Ama-me: quero que me ame. Ao menos...

—Não me fugirá mais?

—Não.

—E me deixará ver aquella que eu amo, e que não conheço? perguntei sorrindo.

—Deseja?

—Supplico-lhe!

—Não sou eu sua?...

Lancei-me para a saleta onde havia luz, e colloquei o lampião sobre a mesa do gabinete em que estavamos.

Para mim, minha prima, era um momento solemne; toda essa paixão violenta, incomprehensivel, todo esse amor ardente por um vulto de mulher, ia depender talvez de um olhar.

E tinha medo de ver esvaecer-se, como um fantasma em face da realidade, essa visão poetica de minha imaginação, essa creação que resumia todos os typos.

Foi, portanto, com uma emoção extraordinaria que, depois de collocar a luz, voltei-me.

Ah!...

Eu sabia que era bella; mas a minha imaginação apenas tinha esboçado o que Deos creára.

Ella olhava-me e sorria.

Era um ligeiro sorriso, uma flôr que desfolhava-se nos seus labios, um reflexo que illuminava o seu lindo rosto.

Seus grandes olhos negros fitavam em mim um d'esses olhares languidos e avelludados que afagam os seios d'alma.

Um annel de cabellos negros brincava-lhe sobre o hombro, fazendo sobresahir a alvura de seu collo gracioso.

Tudo quanto a arte tem sonhado de bello e de voluptuoso desenhava-se n'aquellas formas soberbas, n'aquelles contornos harmoniosos que se destacavam entre as ondas de cambraia de seu ropão branco.

Vi tudo isto de um só olhar, rapido, ardente e fascinado; depois fui ajoelhar-me diante d'ella, e esqueci-me á contemplal-a.

Ella me sorria sempre, e se deixava admirar.

Por fim tomou-me a cabeça entre as mãos, e seus labios fecháram-me os olhos com um beijo.

—Ama-me, disse.

O sonho esvaeceu-se.

A porta da sala fechou-se sobre ella; tinha-me fugido.

Voltei ao hotel.

Abri a minha janella, e sentei-me ao relento.

A brisa da noite trazia-me de vez em quando um aroma de plantas agrestes que me causava intimo prazer.

Fazia-me lembrar da vida campestre, d'essa existencia doce e tranquilla que se passa longe das cidades, quasi no seio da natureza.

Pensava como seria feliz vivendo com ella em algum canto isolado, onde pudessemos abrigar o nosso amor em um leito de flôres e de relva.

Fazia na imaginação um idyllio encantador, e sentia-me tão feliz que não trocaria a minha cabana pelo mais rico palacio da terra.

Ella me amava.

Essa só idéa embellezava tudo para mim; a noite escura de Petropolis parecia-me poetica e o murmurejar triste das aguas do canal tornava-se-me agradavel.

Uma cousa, porém, perturbava essa felicidade; era um ponto negro, uma nuvem escura que toldava o céo da minha noite de amor.

Lembrava-me d'aquellas palavras tão cheias de angustia e tão sentidas, que pareciam explicar a causa de sua reserva para commigo: havia n'isto um quer que seja que eu não comprehendia.

Mas esta lembrança desapparecia logo sob a impressão de seu sorriso, que eu tinha em minh'alma, de seu olhar, que eu guardava no coração, e de seos labios, cujo contacto ainda sentia.

Dormi embalado por estes sonhos e só acordei quando um raio do sol, alegre e travesso, veio bater-me nas palpebras e dar-me o bom dia.

O meu primeiro pensamento foi ir saudar a minha casinha; estava ainda fechada.

Eram oito horas.

Resolvi dar um passeio para disfarçar a minha impaciencia; voltando ao hotel, o criado disse-me terem trazido um objecto que recommendáram me fosse entregue logo.

Em Petropolis não conhecia ninguem; devia ser d'ella.

Corri ao meu quarto, e achei sobre a mesa uma caixinha de páo setim; na tampa havia duas lettras de tartaruga incrustada:—C. L.

A chave estava fechada em uma sobrecarta com endereço á mim: dispuz-me á abrir a caixa com a mão tremula e tomado por um triste presentimento.

Parecia-me que n'aquelle cofre perfumado estava encerrada a minha vida, o meu amor, toda a minha felicidade.

Abri.

Continha o seu retrato, alguns fios de cabello e duas folhas de papel escriptas por ella e que li de sorpresa em sorpresa.



VI



Eis o que ella me dizia:


«Devo-te uma explicação, meu amigo.

Esta explicação é a historia de minha vida, breve historia, da qual escreveste a mais bella pagina.

Cinco mezes antes do nosso primeiro encontro, completava eu os meus dezeseis annos, a vida começava á sorrir-me.

A educação rigorosa que me dera minha mãi me conservára menina até aquella idade, e foi só quando ella julgou conveniente correr o véo que occultava o mundo aos meus olhos que eu perdi as minhas idéas de infancia e as minhas innocentes illusões.

A primeira vez que fui á um baile fiquei deslumbrada no meio d'aquelle turbilhão de cavalheiros e damas, que girava em torno de mim sob uma atmosphera de luz, de musica, de perfumes.

Tudo me causava admiração; o abandono com que as mulheres se entregavam a seu par de valsa, o sorriso constante e sem expressão que uma moça parece tomar na porta da entrada para só deixal-o á sahida, esses galanteios sempre os mesmos e sempre sobre um thema banal, ao passo que me excitavam a curiosidade, faziam desvanecer o enthusiasmo com que tinha acolhido a noticia que minha mãi me dera de minha entrada nos salões.

Estavas n'esse baile; foi a primeira vez que te vi.

Reparei que n'essa multidão alegre e ruidosa tu só não dansavas nem galanteavas, passando pelo salão como um espectador mudo e indifferente, ou talvez como um homem que procurava uma mulher e só via toilettes.

Comprehendi-te, e durante muito tempo segui-te com os olhos: ainda hoje me lembro de teus menores gestos, da expressão de teu rosto e do sorriso de fina ironia que ás vezes fugia-te pelos labios.

Foi a unica recordação que trouxe d'essa noite, e quando adormeci, os meus doces sonhos de infancia, que, apezar do baile, vieram de novo pousar nas alvas cortinas de meu leito, apenas foram interrompidos um instante por tua imagem, que me sorria.

No dia seguinte reatei o fio de minha existencia, feliz, tranquilla e descuidosa, como costuma ser a existencia de uma moça aos dezeseis annos.

Algum tempo depois fui á outros bailes e ao theatro, porque minha mãi, que guardára a minha infancia como um avaro esconde seu thesouro, queria fazer brilhar a minha mocidade.

Quando cedia a seu pedido e me ia a apromptar, emquanto preparava o meu simples trajo, murmurava:

—Talvez elle esteja.

E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas fazia com que procurasse parecer bella, para te merecer um primeiro olhar.

Ultimamente era eu quem, cedendo á um sentimento que não sabia explicar, pedia á minha mãi para irmos á um divertimento, só na esperança de encontrar-te.

Nem suspeitavas então que entre todos aquelles vultos indifferentes havia um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava teus pensamentos, que expandia-se quando te via sorrir e contrahia-se quando uma sombra de melancolia anuviava teu semblante.

Si pronunciavam o teu nome diante de mim corava, e na minha perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde eu bem sabia que elle estava escripto.

E entretanto nem siquer ainda me tinhas visto; si teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um d'esses momentos em que a luz se volta para o intimo, e se olha mas não se vê.

Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos reuniria, e então não sei o que me dizia que era impossivel não me amares.

O acaso deu-se, mas quando a minha existencia já se tinha completamente transformado.

Ao sahir de um d'esses bailes apanhei uma pequena constipação, de que não fiz caso. Minha mãi teimava que eu estava doente, e eu achava-me um pouco pallida e sentia ás vezes um ligeiro calafrio, que eu curava sentando-me ao piano e tocando alguma musica de bravura.

Um dia, porém, achei-me mais abatida; tinha as mãos e os labios ardentes, a respiração era difficil, e ao menor esforço humedecia-se-me a pelle com uma transpiração que me parecia gelada.

Atirei-me sobre um sofá, e com a cabeça recostada ao collo de minha mãi cahi em um lethargo que não sei quanto tempo durou. Lembro-me sómente que, no momento mesmo em que ia despertando d'essa somnolencia que se apoderára de mim, vi minha mãi sentada á cabeceira de meu leito chorando, e um homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho.

—Não desespere, minha senhora; a sciencia não é infallivel, nem os meus diagnosticos são sentenças irrevogaveis. Póde ser que a natureza e as viagens a salvem. Mas é preciso não perder tempo.

O homem partio.

Não tinha comprehendido suas palavras, ás quaes não ligava o menor sentido.

Passado um instante, ergui tranquillamente os olhos para minha mãi, que escondeu o lenço e tragou em silencio o pranto e os soluços.

—Chora, mamãi?

—Não, minha filha... não... não é nada.

—Mas está com os olhos cheios de lagrimas!... disse eu assustada.

—Ah! sim!... uma noticia triste que me contáram ha pouco... sobre uma pessoa... que tu não conheces.

—Quem é este senhor que estava aqui?

—É o Dr. Valladão, que te veio visitar.

—Então eu estou muito doente, boa mamãi?

—Não, minha filha, elle assegurou que não tens nada; é apenas um incommodo nervoso.

E minha querida mãi, não podendo mais conter as lagrimas que lhe saltavam dos olhos, fugio pretextando uma ordem á dar.

Então, á medida que a minha intelligencia ia sahindo do lethargo, comecei á reflectir sobre o que se tinha passado.

—Aquelle desmaio tão longo, aquellas palavras que eu ouvira ainda entre as nevoas de um somno agitado, as lagrimas de minha mãi e a sua repentina afflicção, o tom condoìdo com que o medico lhe fallára...

Um raio de luz esclareceu de repente o meu espirito.

Estava desenganada.

O poder da sciencia, o olhar profundo, seguro, infallivel, d'esse homem, que lê no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto em meu seio um atomo imperceptivel.

E esse atomo era o verme que devia destruir as fontes da vida, apezar dos meus dezeseis annos, apezar de minha organisação, apezar de minha belleza e dos meus sonhos de felicidade!»


Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lagrimas que me inundavam as faces e cahiam sobre o papel.

Era este o segredo de sua estranha reserva; era a razão por que me fugia, por que se ócultava, por que ainda na vespera dizia que se tinha imposto o sacrificio de nunca ser amada por mim.

Que sublime anegação, minha prima! E como eu me sentia pequeno e mesquinho á vista d'esse amor tão nobre!»



VII



Continuei á ler:


«Sim, meu amigo!...

Estava condemnada á morrer; estava atacada d'essa molestia fatal e traiçoeira, cujo dedo descarnado nos toca no meio dos prazeres e dos risos, nos arrasta ao leito, e do leito ao tumulo, depois de ter escarnecido da natureza, transfigurando as suas mais bellas creações em mumias animadas.

É impossivel descrever-te o que se passou então em mim: foi um desespero mudo e concentrado, que me prostrou em uma atonia profunda; foi uma angustia pungente e cruel.

As rosas da minha vida apenas se entreabriam, e já eram bafejadas por um halito infectado; já tinham no seio o germen da morte que devia fazel-as murchar!

Meus sonhos de futuro, minhas tão risonhas esperanças, meu puro amor, que nem siquer ainda tinha colhido o primeiro sorriso, este horizonte, que ha pouco me parecia tão brilhante; tudo isto era uma visão que ia sumir-se, uma luz que lampejava prestes á extinguir-se.

Foi preciso um esforço sobrehumano para esconder de minha mãi a certeza que eu tinha sobre o meu estado, e para gracejar dos seus temores, que eu chamava imaginarios.

Boa mãi! Desde então só viveu para consagrar-se exclusivamente á sua filha, para envolvel-a com esse desvelo e essa protecção que Deos deu ao coração materno, para abrigar-me com suas preces, sua solicitude e seus carinhos, para lutar á força de amor e de dedicação contra o destino.

Logo no dia seguinte fomos para Andarahy, onde ella alugára uma chacara, e ahi, graças á seus cuidados, adquiri tanta saude, tanta força, que me julgaria boa si não fosse a sentença fatal que pesava sobre mim.

Que thesouro de sentimento e delicadeza que é um coração de mãi, meu amigo! Que tacto delicado, que sensibilidade apurada, possue esse amor sublime!

Nos primeiros dias, quando ainda estava muito abatida e era obrigada á agasalhar-me, si visses como ella presentia as rajadas de um vento frio antes que elle agitasse os renovos dos cedros do jardim, como adivinhava a menor neblina antes que a primeira gotta humedecesse a lage do nosso terraço!

Fazia tudo por distrahir-me; brincava commigo como uma camarada de collegio; achava prazer nas menores cousas para excitar-me á imital-a; tornava-se menina e obrigava-me á ter caprichos.

Emfim, meu amigo, si fosse á dizer-te tudo, escreveria um livro, e esse livro deves ter lido no coração de tua mãi, porque todas as mãis se parecem.

Ao cabo de um mez tinha recobrado a saude para todos, excepto para mim, que ás vezes sentia um quer que seja como uma contracção, que não era dôr, mas me dizia que o mal estava alli, e dormia apenas.

Foi n'esta occasião que te encontrei no omnibus de Andarahy; quando entravas a luz do lampeão illuminou-te o rosto e eu reconheci-te.

Faze idéa que emoção sentiria quando te sentaste junto de mim.

O mais tu sabes; eu te amava, e era tão feliz de ter-te á meu lado, de apertar a tua mão, que nem me lembrava como te devia parecer ridicula uma mulher que, sem te conhecer, te permittia tanto.

Quando nos separámos, arrependi-me do que tinha feito.

Com que direito ia eu perturbar a tua felicidade, condemnar-te á um amor infeliz e obrigar-te á associar tua vida á uma existencia triste, que talvez não te podesse dar sinão os tormentos de seu longo martyrio?!

Eu te amava; mas, já que Deos não me tinha concedido a graça de ser tua companheira n'este mundo, não devia ir roubar ao teu lado e no teu coração o lugar que outra mais feliz, porém menos dedicada, teria de occupar.

Continuei á amar-te, mas impuz-me á mim mesma o sacrificio de nunca ser amada por ti.

Vês, meu amigo, que não era egoista e preferia a tua á minha felicidade. Tu farias o mesmo, estou certa.

Aproveitei o mysterio do nosso primeiro encontro, e esperei que alguns dias te fizessem esquecer essa aventura e quebrassem o unico e bem fragil laço que te prendia á mim.

Deus não quiz que acontecesse assim: vendo-te só em um baile, tão triste, tão pensativo, procurando um ser invisivel, uma sombra, e querendo descobrir os seus vestigios em algum dos rostos que passavam diante de ti, senti um prazer immenso.

Conheci que tu me amavas; e, perdôa, fiquei orgulhosa d'essa paixão ardente, que uma só palavra minha havia creado, d'esse poder do meu amor, que, por uma força de atracção inexplicavel, tinha-te ligado á minha sombra.

Não pude resistir.

Approximei-me, disse-te uma palavra sem que tivesses tempo de ver-me; foi essa mesma palavra que resume todo o poema do nosso amor, e que depois do primeiro encontro era, como ainda hoje, a minha prece de todas as noites.

Sempre que me ajoelho diante do meu crucifixo de marfim, depois de minha oração, ainda com os olhos na cruz e o pensamento em Deos, chamo a tua imagem para pedir-te que não te esqueças de mim.

Quando tu te voltaste ao som da minha voz eu tinha entrado no toilette; e pouco depois sahi d'esse baile, onde apenas acabava de entrar, tremendo da minha imprudencia, mas alegre e feliz por te ter visto ainda uma vez.

Deves agora comprehender o que me fizeste soffrer no theatro quando me dirigias aquella accusação tão injusta, no momento mesmo em que a Charton cantava a aria da Traviata.

Não sei como não me trahi n'aquelle momento e não te disse tudo; o teu futuro, porém, era sagrado para mim, e eu não devia destruil-o para satisfação de meu amor-proprio offendido.

No dia seguinte escrevi-te; e assim, sem me trahir, pude ao menos rehabilitar-me na tua estima; doia-me muito que, ainda mesmo não me conhecendo, tivesses sobre mim uma idéa tão injusta e tão falsa.

Aqui é preciso dizer-te que no dia seguinte ao do nosso primeiro encontro tinhamos voltado á cidade, e eu via-te passar todos os dias diante de minha janella, quando fazias o teu passeio costumado á Gloria.

Por detrás das cortinas seguia-te com o olhar, até que desapparecias no fim da rua, e este prazer, rapido como era, alimentava o meu amor, habituado á viver de tão pouco.

Depois de minha carta tu deixaste de passar dous dias; estava eu á partir para aqui, d'onde devia voltar unicamente para embarcar no paquete inglez.

Minha mãi, incansavel nos seus desvelos, quer levar-me á Europa e fazer-me viajar pela Italia, pela Grecia, por todos os paizes de um clima doce.

Diz ella que é para mostrar-me os grandes modelos de arte e cultivar o meu espirito; mas eu sei que essa viagem é sua unica esperança, que não podendo nada contra minha enfermidade, quer ao menos disputar-lhe sua victima durante mais algum tempo.

Julga que fazendo-me viajar sempre me dará mais alguns dias de existencia, como si estes sobejos de vida valessem alguma cousa para quem já perdeu sua mocidade e seu futuro.

Quando ia embarcar para aqui lembrei-me que talvez não te visse mais, e diante d'essa derradeira provança succumbi. Ao menos o consolo de dizer-te adeos!...

Era o ultimo!

Escrevi-te segunda vez; admirava-me da tua demora, mas tinha uma quasi certeza de que havias de vir.

Não me enganei.

Vieste, e toda minha resolução, toda minha coragem cedeu, porque, sombra ou mulher, conheci que me amavas como eu te amo.

O mal estava feito.

Agora, meu amigo, peço-te por mim, pelo amor que me tens, que reflictas no que te vou dizer, mas que reflictas com calma e tranquillidade.

Para isto parti hoje para Petropolis sem prevenir-te, e colloquei entre nós o espaço de vinte e quatro horas e uma distancia de muitas leguas.

Desejo que não procedas precipitadamente, e que, antes de dizer-me uma palavra, tenhas medido todo o alcance que ella deve ter sobre teu futuro.

Sabes o meu destino, sabes que sou uma victima cuja hora está marcada, e que todo o meu amor, immenso, profundo, não te póde dar talvez dentro em bem pouco sinão o sorriso contrahido pela tosse, o olhar desvairado pela febre e caricias roubadas aos soffrimentos.

É triste; e não deves immolar assim tua bella mocidade, que ainda te reserva tantas venturas e talvez um amor como o que eu te consagro.

Deixo-te, pois, meu retrato, meus cabellos e minha historia: guarda-os como uma lembrança, e pensa algumas vezes em mim; beija esta folha muda, onde os meus labios deixáram-te o adeos extremo.

Entretanto, meu amigo, si, como tu dizias hontem, a felicidade é amar e sentir-se amado; si te achas com forças de partilhar esta curta existencia, estes poucos dias que me restam á passar sobre a terra, si me queres dar esse consolo supremo, unico que ainda embellezaria minha vida, vem!

Sim, vem! iremos pedir ao bello céo da Italia mais alguns dias de vida para nosso amor; iremos onde tu quizeres, ou onde nos levar a Providencia.

Errantes pelas vastas solidões dos mares ou pelos cimos elevados das montanhas, longe do mundo, sob o olhar protector de Deos, á sombra dos cuidados de nossa mãi, viveremos tanto um do outro, encheremos de tanta affeição os nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja minha existencia, teremos vivido por cada minuto seculos de amor e de felicidade.

Eu espero; mas temo.

Espero-te como a flôr desfallecida espera o raio do sol que deve aquecel-a, a gotta de orvalho que póde animal-a, o halito da briza que vem bafejal-a. Porque para mim o unico céo que hoje me sorri são teus olhos, o calor que póde me fazer viver é o do teu seio.

Entretanto temo, temo por ti, e quasi peço á Deos que te inspire e te salve de um sacrificio talvez inutil!

Adeos para sempre, ou até amanhã!

Carlota»




VIII



Devorei toda esta carta de um lanço de olhos.

Minha vista corria sobre o papel como o meu pensamento, sem parar, sem hesitar, poderia até dizer sem respirar.

Quando acabei de ler só tinha um desejo: era o de ir ajoelhar-me á seus pés, e receber como uma benção do céo esse amor sublime e santo.

Como sua mãi, lutaria contra o destino, cercal-a-hia de tanto affecto e de tanta adoração, tornaria sua vida tão bella e tão tranquilla, prenderia tanto sua alma á terra, que lhe seria impossivel deixal-a.

Crearia para ella com o meu coração um mundo novo, sem as miserias e as lagrimas d'este mundo em que vivemos; um mundo só de ventura, onde a dôr e o soffrimento não pudessem penetrar.

Pensava que devia haver no universo algum lugar desconhecido, algum canto de terra ainda puro do halito do homem, onde a natureza virgem conservaria o perfume dos primeiros tempos da creação e o contacto das mãos de Deos quando a formára.

Ahi era impossivel que o ar não désse vida; que o raio do sol não viesse impregnado de um atomo de fogo celeste; que a agua, as arvores, a terra, cheia de tanta seiva e de tanto vigor, não inoculassem na creatura a vitalidade poderosa da natureza no seu primitivo esplendor.

Iriamos, pois, á uma d'essas solidões desconhecidas; o mundo abria-se diante de nós, e eu sentia-me com bastante coragem para levar o meu thesouro além dos mares e das montanhas, até achar um retiro onde escondesse a nossa felicidade.

N'esses desertos, tão vastos, tão extensos, não haveria siquer vida bastanto para duas creaturas que apenas pediam um palmo de terra e um sopro de ar, afim de poderem elevar á Deos, como uma prece constante, o seu amor tão puro?

Ella dava-me vinte e quatro horas para reflectir, e eu não queria nem um minuto, nem um segundo.

Que me importavam o meu futuro e a minha existencia, si eu os sacrificaria de bom grado para dar-lhe mais um dia de vida.

Todas estas idéas, minha prima, cruzavam-se no meu espirito rapidas e confusas, emquanto eu fechava na caixinha de páo-setim os objectos preciosos que ella encerrava, copiava na minha carteira a sua morada, escripta no fim da carta, e atravessava o espaço que me separava da porta do hotel.

Ahi encontrei o criado da vespera.

—Á que horas parte a barca da Estrella?

—Ao meio-dia.

Eram onze horas; no espaço de uma hora eu faria as quatro leguas que me separavam d'aquelle porto.

Lancei os olhos em torno de mim com uma especie de desvario.

Não tinha um throno, como Ricardo III, para offerecer em troca de um cavallo; mas tinha a realeza do nosso seculo, tinha dinheiro.

Á dous passos da porta do hotel estava um cavallo, que o seu dono tinha pela redea.

—Compro-lhe este cavallo, disse eu caminhando para elle, sem mesmo perder tempo em comprimental-o.

—Não pretendia vendêl-o, respondeu-me o homem cortezmente; mas, si o senhor está disposto á dar o preço que elle vale...

—Não questiono sobre preço; compro-lhe o cavallo arreiado como está.

O sujeito olhou-me admirado; porque, á fallar a verdade os arreios nada valiam.

Quanto á mim, já tinha-lhe tomado as redeas da mão; e, sentado no sellim, esperava que me dissesse quanto tinha de pagar-lhe.

—Não repare, fiz uma aposta e preciso de um cavallo para ganhal-a.

Isto deu-lhe á comprehender a singularidade do meu acto e a pressa que eu tinha: recebeu sorrindo o preço do seu animal, e disse, saudando-me com a mão de longe, porque já eu dobrava a rua:

—Estimo que ganhe a aposta; o animal é excellente!

Na verdade era uma aposta que eu tinha feito commigo mesmo, ou antes com a minha razão, a qual me dizia que era impossivel apanhar a barca, e que eu fazia uma extravagancia sem necessidade, pois bastava ter paciencia por vinte e quatro horas.

Mas o amor não comprehende esses calculos e esses raciocinios, proprios da fraqueza humana; creado com uma particula do fogo divino, elle eleva o homem acima da terra, desprende-o da argilla que o envolve, e dá-lhe força para dominar todos os obstaculos, para querer o impossivel.

Esperar tranquillamente um dia para ir dizer-lhe que eu a amava, e queria amal-a com todo o culto e admiração que me inspirava a sua nobre abnegação, me parecia quasi uma infamia.

Seria dizer-lhe que tinha reflectido friamente, que tinha pesado todos os prós e contras do passo que ia dar, que havia calculado como um egoista a felicidade que ella me offerecia.

Não só minha alma se revoltava contra esta idéa; mas parecia-me que ella, com a sua delicadeza de sentimento, embora não se queixasse, sentiria vêr-se objecto de um calculo e o alvo de um projecto de futuro.

A minha viagem foi uma corrida louca, esvairada, delirante. Novo Mazzepa, passava por entre a cerração da manhã, que cobria os pincaros da serrania, como uma sombra que fugia rapida e veloz.

Dir-se-hia que alguma rocha collocada em um dos cabeços da montanha tinha-se desprendido de seu alveolo secular, e precipitando-se com todo o peso rolava surdamente pelas encostas.

O galopar de meu cavallo formava um unico som, que ia reboando pelas grutas e cavernas, e confundia-se com o rumor das torrentes.

As arvores, cercadas de nevoa, fugiam diante de mim como fantasmas; o chão desapparecia sob os pés do animal; ás vezes parecia-me que a terra ia faltar-me, e cavallo e cavalleiro rolavam por algum d'esses abysmos immensos e profundos, que devem ter servido de tumulos titanicos.

Mas de repente, entre uma aberta de nevoeiro, eu via a linha azulada do mar, e fechava os olhos e atirava-me sobre o cavallo, gritando-lhe ao ouvido a palavra de Byron:—Away!

Elle parecia entender-me, e precipitava essa corrida desesperada; não galopava, voava; seus pés, como impellidos por quatro molas de aço, nem tocavam a terra.

Assim, minha prima, devorando o espaço e a distancia, foi elle, o nobre animal, abater-se á alguns passos apenas da praia; a coragem e as forças só o tinham abandonado com a vida, e no termo da viagem.

Em pé, ainda sobre o cadaver d'esse companheiro leal, vi á cousa de uma milha o vapor que singrava ligeiramente para a cidade.

Ahi fiquei perto de uma hora, seguindo com os olhos essa barca que a conduzia; e quando o casco desappareceu olhei os frocos de fumaça do vapor, que se ennovelavam no ar, e que o vento desfazia á pouco e pouco.

Por fim, quando tudo desappareceu, e mais nada me fallava d'ella, olhei ainda o mar por onde havia passado e o horizonte que a occultava aos meus olhos.

O sol dardejava raios de fogo; mas eu bem me importava com o sol; como meu espirito os meus sentidos se concentravam em um unico pensamento: vêl-a, vêl-a em uma hora, em um momento, si possivel fosse.

Um velho pescador arrastava n'esse momento sua canôa á praia.

Approximei-me e disse-lhe:

—Meu amigo, preciso ir á cidade, perdi a barca, e desejava que você me conduzisse na sua canôa.

—Mas si eu agora mesmo é que chego!

—Não importa; pagarei o seu trabalho, e tambem o incommodo que isto lhe causa.

—Não posso, não, senhor; não é lá pela paga que eu digo que estou chegando; mas é que passar a noite no mar sem dormir não é lá das melhores cousas; e estou cahindo de somno.

—Escute, meu amigo...

—Não se canse, senhor, quando eu digo não, é não: e está dito.

E o velho continuou á arrastar a sua canôa.

—Bem, não fallemos mais n'isto; mas conversemos.

—Lá isto como o senhor quizer.

—A sua pesca rende-lhe bastante?

—Qual! rende nada!...

—Ora diga-me! Si houvesse um meio de fazer-lhe ganhar em um só dia o que póde ganhar em um mez, não engeitaria de certo?

—Isto é cousa que se pergunte?

—Quando mesmo fosse preciso embarcar depois de passar uma noite em claro no mar?

—Ainda que devesse remar tres dias com tres noites, sem dormir nem comer.

—N'esse caso, meu amigo, prepare-se, que vai ganhar o seu mez de pescaria; leve-me á cidade.

—Ah! isto já é outro fallar; porque não disse logo?...

—Era preciso explicar-me?!

—Bem diz o dictado que é fallando que a gente se entende.

—Assim, é negocio decidido. Vamos embarcar?

—Com licença; preciso de um instantinho para prevenir á mulher; mas é um passo lá e outro cá.

—Olhe, não se demore; tenho muita pressa.

—É n'um fechar dos olhos, disse elle correndo na direcção da villa.

Mal tinha feito vinte passos, parou, hesitou, e por fim voltou lentamente pelo mesmo caminho.

Eu tremia; julgava que se tinha arrependido, que vinha apresentar-me alguma nova difficuldade. Chegou-se para mim de olhos baixos e coçando a cabeça.

—O que temos, meu amigo? perguntei-lhe com uma voz que esforçava por tornar calma.

—É que... o senhor disse que pagava um mez...

—De certo; e, si duvida..., disse levando a mão ao bolso.

—Não, senhor, Deos me defenda de desconfiar do senhor! Mas é que... sim, não vê, o mez agora tem menos um dia que os outros!

Não pude deixar de sorrir-me do temor do velho; nós estavamos com effeito no mez de Fevereiro.

—Não se importe com isto; está entendido que quando eu digo um mez é um mez de trinta e um dias; os outros são mezes aleijados, e não se contam.

—É isso mesmo, disse o velho rindo-se da minha idéa; assim como quem diz um homem sem um braço. Ah!... ah!...

E continuando á rir-se, tomou o caminho de casa e desappareceu.

Quanto á mim, estava tão contente com a idéa de chegar á cidade em algumas horas, que não pude deixar tambem de rir-me do caracter original do pescador.

Conto-lhe estas scenas e as outras que se lhe seguiram com todas as suas circumstancias por duas razões, minha prima.

A primeira é porque desejo que comprehenda bem o drama simples que me propuz traçar-lhe; a segunda é porque tenho tantas vezes repassado na memoria as menores particularidades d'essa historia, tenho ligado de tal maneira o meu pensamento á essas reminiscencias, que não me animo á destacar d'ellas a mais insignificante circumstancia; parece-me que si o fizesse separaria uma parcella de minha vida.

Depois de duas horas de espera e de impaciencia, embarquei n'essa casquinha de noz, que saltou sobre as ondas, impellida pelo braço ainda forte e agil do velho pescador.

Antes de partir fiz enterrar o meu pobre cavallo; não podia deixar assim exposto ás aves de rapina o corpo d'esse nobre animal, que eu tinha roubado á affeição do seu dono, para immolal-o á satisfação de um capricho meu.

Talvez lhe pareça isto uma puerilidade; mas a senhora é mulher, minha prima, e deve saber que, quando se ama como eu amava, tem-se o coração tão cheio de affeição, que espalha uma atmosphera de sentimento em torno de nós, e inunda até os objectos inanimados, quanto mais as creaturas, ainda irracionaes, que um momento se ligáram á nossa existencia para realisação de um desejo.



IX



Eram seis horas da tarde.

O sol declinava rapidamente, e a noite, descendo do céo, envolvia a terra nas sombras desmaiadas que acompanham o occaso.

Soprava uma forte viração de sudoeste, que desde o momento da partida retardava a nossa viagem; lutavamos contra o mar e o vento.

O velho pescador, morto de fadiga e de somno, estava exhausto de forças; a sua pá, que á principio fazia saltar sobre as ondas como um peixe o fragil barquinho, apenas feria agora a flôr da agua.

Eu, recostado na pôpa, e com os olhos fitos na linha azulada do horizonte, esperando á cada momento ver desenhar-se o perfil do meu bello Rio de Janeiro, começava seriamente á inquietar-me da minha extravagancia e loucura.

Á proporção que declinava o dia e que as sombras cobriam o céo, esse vago inexprimivel da noite no meio das ondas, a tristeza e melancolia que infunde o sentimento da fraqueza do homem em face d'essa solidão immensa de agua e de céo, se apoderavam do meu espirito.

Pensava então que teria sido mais prudente esperar o dia seguinte, para fazer uma viagem breve e rapida, do que sujeitar-me á mil contratempos e mil embaraços, que no fim de contas nada adiantavam.

Com effeito, já tinha anoitecido; e, ainda que conseguissemos chegar á cidade por volta de nove ou dez horas, só no dia seguinte poderia ver Carlota e fallar-lhe.

De que havia servido, pois, todo o meu arrebatamento, toda a minha impaciencia? Tinha morto um animal, tinha incommodado um pobre velho, tinha atirado ás mãos cheias dinheiro, que poderia melhor empregar soccorrendo algum infortunio e cobrindo esta obra de caridade com o nome e a lembrança d'ella.

Concebia uma triste idéa de mim; do meu modo de ver então as cousas, parecia-me que eu tinha feito do amor, que é uma sublime paixão, apenas uma estupida mania; e dizia interiormente que o homem que não domina os seus sentimentos é um escravo, que não tem o menor merecimento quando pratica um acto de dedicação.

Tinha-me tornado philosopho, minha prima, e de certo comprehenderá a razão.

No meio da bahia, mettido em uma canôa, á mercê do vento e do mar, não podendo dar largas á minha impaciencia de chegar, não havia sinão um modo de sahir d'esta situação, e este era arrepender-me do que tinha feito.

Si eu podesse fazer alguma nova loucura creio piamente que adiaria o arrependimento para mais tarde: porém era impossivel.

Tive um momento a idéa de atirar-me á agua, e procurar vencer á nado a distancia que me separava d'ella; mas era noite, não tinha a luz de Hero para guiar-me, e me perderia n'esse novo Hellesponto.

Foi de certo uma inspiração do céo ou o meo anjo da guarda que me veio advertir que n'aquella occasião eu nem sabia mesmo de que lado ficava a cidade.

Resignei-me, pois, e arrependi-me sinceramente.

Dividi com o meu companheiro algumas provisões que tinha trazido; e fizemos uma verdadeira collação de contrabandistas ou piratas.

Cahi na asneira de obrigal-o á beber uma garrafa de vinho do Porto, bebendo eu outra para acompanhal-o e fazer-lhe as honras da hospitalidade. Julgava que d'este modo elle restabeleceria as forças e chegariamos mais depressa.

Tinha-me esquecido que a sabedoria das nações, ou a sciencia dos proverbios, consagra o principio de que de vagar se vai ao longe.

Acabada a nossa magra collação, o pescador começou á remar com uma força e um vigor que me reanimaram a esperança.

Assim, docemente embalado pela idéa de vêl-a e pelo marulho das ondas, com os olhos fitos na estrella da tarde, que ia sumir-se no horizonte e me sorria como para consolar-me, senti á pouco e pouco fecharem-se-me as palpebras, e dormi.

Quando accordei, minha prima, o sol derramava seus raios de ouro sobre o manto azulado das ondas: era dia claro.

Não sei onde estavamos; via ao longe algumas ilhas: o pescador dormia na prôa, e resonava como um boto.

A canôa tinha vogado á mercê da corrente: e o remo, que cahira naturalmente das mãos do velho, no momento em que elle cedêra á força invencivel do somno, tinha desapparecido.

Estavamos no meio da bahia, sem poder dar um passo, sem poder mover-nos.

Aposto, minha prima, que a senhora acaba de dar uma risada, pensando na comica posição em que me achava; mas seria uma injustiça zombar de uma dôr profunda, de uma angustia cruel como a que soffri então.

Os instantes, as horas, corriam de decepção em decepção; alguns barcos que passáram perto, apezar dos nossos gritos, seguiram seu caminho, não podendo suppôr que com o tempo calmo e sereno que fazia houvesse sombra de perigo para uma canôa que boiava tão levemente sobre as ondas.

O velho, que tinha accordado, nem se desculpava; mas a sua aflicção era tão grande que quasi me commoveu; o pobre homem arrancava os cabellos e mordia os beiços de raiva.

As horas corrêram assim n'essa atonia do desespero. Sentados em face um do outro, talvez culpando-nos mutuamente do que succedia, não proferiamos uma palavra, não faziamos um gesto.

Por fim veio a noite. Não sei como não fiquei louco lembrando-me que estavamos á 13, e que o paquete devia partir no dia seguinte.

Não era unicamente a idéa de uma ausencia que me afligia: era tambem a lembrança do mal que ia causar-lhe, á ella, que, ignorando o que se passava, me julgaria egoista, supporia que a havia abandonado, e que ficára em Petropolis divertindo-me.

Aterrava-me com as consequencias que poderia ter esse facto sobre a sua saude tão fragil, sobre a sua vida; e me condemnava já como assassino.

Lancei um olhar hallucinado sobre o pescador, e tive impetos de abraçal-o e atirar-me com elle ao mar.

Oh! como sentia então o nada do homem e a fraqueza da nossa raça tão orgulhosa de sua superioridade e do seu poder!

De que me serviam a intelligencia, a vontade, e essa força invencivel do amor, que me impellia e me dava coragem para arrostar vinte vezes a morte?

Algumas braças d'agua e uma pequena distancia me retinham e me encadeavam n'aquelle lugar como á um poste; a falta de um remo, isto é, de tres palmos de madeira, creava para mim o impossivel; um circulo de ferro me cingia, e para quebrar essa prisão, contra a qual toda a minha razão era impotente, bastava-me que fosse um ente irracional.

A gaivota, que frisava as ondas com a ponta de suas azas brancas; o peixe, que fazia scintillar um momento seu dorso de escamas á luz das estrellas; o insecto, que vivia no seio das aguas e plantas marinhas, eram reis d'essa solidão, na qual o homem não podia siquer dar um passo.

Assim, blasphemando contra Deos e sua obra, sem saber o que fazia nem o que pensava, entreguei-me á Providencia; embrulhei-me no meu capote, deitei-me e fechei os olhos, para não ver a noite adiantar-se, as estrellas empallidecerem e o dia raiar.

Tudo estava sereno e tranquillo; as aguas nem se moviam; apenas sobre a face lisa do mar passava uma aragem tenue; que dir-se-hia o halito das ondas adormecidas.

De repente pareceu-me sentir que a canôa deixára de boiar á discrição e singrava lentamente; julgando que fosse illusão minha, não me importei, até que um movimento continuo e regular convenceu-me.

Afastei a aba do capote e olhei, receiando ainda illudir-me; não vi o pescador, mas á alguns passos da prôa percebi os rolos de espuma que formava um corpo agitando-se nas ondas.

Approximei-me, e distingui o velho pescador, que nadava, puxando a canôa por meio de uma corda que amarrára á cintura, para deixar-lhe os movimentos livres.

Admirei essa dedicação do pobre velho, que procurava remediar a sua falta por um sacrificio que eu supunha inutil: não era possivel que um homem nadasse assim por muito tempo.

Com effeito, passados alguns instantes, vi-o parar e saltar ligeiramente na canôa como temendo acordar-me; a sua respiração fazia uma especie de borborinho no seu peito largo e forte.

Bebeu um trago de vinho, e com o mesmo cuidado deixou-se cahir n'agua e continuou á puxar a canôa.

Era alta noite quando n'esta marcha chegámos á uma especie de praia, que teria quando muito duas braças. O velho saltou e desappareceu.

Fitando a vista nas trevas, vi uma claridade, que não pude distinguir si era fogo, si luz, sinão quando uma porta abrindo-se deixou-me ver o interior de uma cabana.

O velho voltou com um outro homem, sentáram-se sobre uma pedra e começáram á fallar em voz baixa. Senti uma grande inquietação; na verdade, minha prima, só me faltava, para completar a minha aventura, uma historia de ladrões.

A minha suspeita, porém, era injusta; os dous pescadores estavam á espera de dous remos que lhes trouxe uma mulher, e immediatamente embarcáram e começaram a remar com uma força espantosa.

A canôa resvalou sobre as ondas, agil e veloz como um d'esses peixes de que ha pouco invejava a rapidez.

Ergui-me para agradecer á Deos, ao céo, ás estrellas, ás aguas, á toda a natureza emfim, o raio de esperança que me enviavam.

Uma facha escarlate já se desenhava no horizonte; o oriente foi-se esclarecendo de gradação em gradação, até que deixou ver o disco luminoso do sol.

A cidade começou á erguer-se do seio das ondas, linda e graciosa, como uma donzella que, recostada sobre um monte de relva, banhasse os pés na corrente limpida de um rio.

Á cada movimento de impaciencia que eu fazia, os dous pescadores dobravam-se sobre os remos e a canôa voava. Assim nos approximámos da cidade, passámos entre os navios, e nos dirigimos á Gloria, onde pretendia desembarcar, para ficar mais proximo de sua casa.

Em um segundo tinha tomado á minha resolução; chegar, vêl-a, dizer-lhe que a seguia, e embarcar-me n'esse mesmo paquete em que ella ia partir.

Não sabia que horas eram; mas ha pouco havia amanhecido; tinha tempo para tudo, tanto mais que eu só precisava de uma hora. Um credito sobre Londres e a minha mala de viagem eram todos os meus preparativos; podia acompanhal-a ao fim do mundo.

Já via tudo côr de rosa, sorria á minha ventura e gozava da alegre sorpresa que ia causar-lhe, á ella que já não me esperava.

A sorpresa, porém, foi minha.

Quando passava diante de Villegaignon descobri de repente o paquete inglez: as pás se moviam indolentemente, e imprimiam ao navio essa marcha vagarosa do vapor, que parece experimentar suas forças, para precipitar-se á toda a carreira.

Carlota estava sentada sob a tolda, com a cabeça encostada ao hombro de sua mãi, e com os olhos engolfados no horizonte, que occultava o lugar onde tinhamos passado a primeira e ultima hora de felicidade.

Quando me vio, fez um movimento, como si quizesse lançar-se para mim; mas conteve-se, sorrio-se para sua mãi, e, cruzando as mãos no peito, ergueu os olhos ao céo, como para agradecer á Deos, ou para dirigir-lhe uma prece.

Trocámos um longo olhar, um d'esses olhares que levam toda a nossa alma e a trazem ainda palpitante das emoções que sentio n'outro coração; uma d'essas correntes electricas que ligam duas vidas em um só fio.

O vapor soltou um gemido surdo; as rodas fenderam as aguas; e o monstro marinho, rugindo como uma cratera, vomitando fumo e devorando o espaço com os seus flancos negros, lançou-se.

Por muito tempo ainda vi o seu lenço branco agitar-se ao longe, como as azas brancas do meu amor, que fugia e voava ao céo.

O paquete sumio-se no horizonte.