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Claridades do sul

Chapter 144: INDICE
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About This Book

A lyrical collection that alternates exaltation and meditation, using sunlight, mythic and religious images, and vivid natural scenes to examine vitality, mortality, and moral tension. Several poems contrast heroic or sacred language with decay and hypocrisy, questioning faith, passion, and social decline while giving voice to grief and defiance. Others linger on rural labor, seasonal cycles, and intimate landscapes, offering mystic longing and consolation through the sensuous textures of sound, color, and memory.

*AVENTURAS*

Tenho bem fundo, ainda, a sua imagem
Gravada na minha alma. Era alta e bella;
Tomei cognac muita vez com ella,
E aos circos a levei de carruagem.

Era nervosa e lyrica. De pagem
Não faltavam Destins áquella Estrella,
Lembra-me ainda a scena da janella,
E aquella em que morria na estalagem.

Depois viajou muito. Foi a Hespanha,
A França; Italia; Londres; a Allemanha;
Teve um naufragio, junto de Delhi.

Um corsario vendeu-a na Turquia;
—E hoje, ahi, vive, emfim, e leva o dia
A enxotar as moscas d'um kadi.

*O INCONVENIENTE DE MATAR A MULHER*

(A Alexandre Dumas Filho)[3]

Matei-a!… Sobre o leito desmanchado
Morreu!… Mas o remorso me povôa!
E, agora, vago solitario e á tôa,
N'uma tristeza immensa despenhado!

Quando o punhal no arminho immaculado
Enterrei… Sempre a mágoa me corrôa!
Ella chorou, gritando-me… Perdôa!
Morro!… e morreu!… Ó lyrio ensanguentado!

E agora aonde irei! Horror! Tortura!…
O ceo é o seu olhar! A noute escura
Lembra-me sempre o seu cabello preto!…

E, ó supplicio dos crimes verdadeiros! —Ouço, em chusma, gritarem-me os livreiros: Quando é que sae agora o seu folheto?…

*UM BLASÉ*

(A S. Nazareth)

Olhando o mundo assim com ar d'enfado,
Casaco abotoado e de luneta,
Caminha com ar grave no Chiado,
Com ar de quem achou algum planeta.

Dizem que nutre uma paixão secreta
Este Musset dos homens ignorado,
E pulsa um coração esphacelado,
Ali debaixo da casaca preta.

A todos diz ha muito andar blasé
E falla em vasar copos d'absyntho,
Como quem bebe orchata ou capilé!…

Mas, Bacho! ó ceus! perdoem-me se minto!
Referem que uma noute, n'um café,
Acharam-o a libar do… vinho tinto!

*O VELHO*

D'entre os males crueis da Humanidade,
A que os vis animaes estão sujeitos,
Nenhum mais triste e cheio de defeitos…
Do que a dura e imbecil senilidade!

N'esta quadra de prantos e saudade,
Ha velhos d'alvas barbas sobre os peitos,
Que nos fazem lembrar, pelos seus geitos,
Orang-otangos de provecta edade.

E eu vi um velho assim!… Seus fortes braços…
Tinham como a rijesa dos bons aços…
E os seus gestos seriam d'um guerreiro…

Se não fossem seus labios já sem dentes,
Fazendo uns gestos comicos, ridentes…
—Como um macaco em cima d'um coqueiro!…

SEXTA PARTE

RUINAS

*FARRAPOS*

(A Oliveira Martins)

A ALMA

  Estou lassa de ti, mundo em ruinas!—
  Velho mundo cruel! nada m'ensinas!
      De grande ao coração!
  Acaso estás tão gasto e gangrenado?!

A CARNE

  —Ah como é bom, sob este azul arcado,
      Fazer a digestão!

A ALMA

  Prefiro antes cerrar-me solitaria
  A sós e o ideal—ó visionaria
      Grande ambição do bem!
  Como é que o vicio affronta as violetas?!…

A CARNE

  Que olhos tão sensuaes! que tranças pretas
      Que a quella mulher tem?—

A ALMA

  Cansada de soffrer, em vão anceio
  O Justo, o Bello!—Ó terra, abre-me o seio!
      Bastante, emfim soffri!
  Estou lassa do Vicio, e da Impostura!

A CARNE

  Dizem que a terra é fria, a cova escura,
      E tudo acaba ahi!

A ALMA

  Estes tempos são vis, e sem virtude!
  Os corpos sem valor e sem saude,
      Os peitos sem amor!

A CARNE

  Mas ha corpos mui brancos e perfeitos!
  Olhos cheios de luz—formosos peitos,
      Tranças de negra côr!…

  Ha noutes de prazer pelo caminho!
  E abunda muito velho e forte vinho
      Sem ser falsificado!

  Nem tudo é luto e dôr!—Ha muito riso!
  —E é mais quente que o antigo Paraiso
      O seio do Peccado!

A ALMA

  A Morte, a Morte, é o termo das tristezas!
  É ali que emfim livres das torpezas!
      Se pode ser feliz!

A CARNE

  Mas, mau grado essas nobres theorias,
  —O que passar por mim, findos dous dias,
      Tapará o nariz!

A ALMA

  O que importa!—Melhor é que pereças!…
  Antes na terra ali tu apodreças…
      Do que eu, n'estas paixões!…

A CARNE

  Assim será talvez! Santas doutrinas!
  Mas as pernas gentis das dançarinas
      Teem grandes tentações!

A ALMA

  Calculos vãos! Contemplações pequenas!
  —Seculo vil d'aspirações terrenas,
      Cain do Pensamento!
  Matas as creanças e bons sonhos puros!

A CARNE

  Vou vêr se ponho um capital a juros,
      Que dê cento por cento!

A ALMA

  Hontem, foram levar á sepultura
  Uma santa mulher formosa e pura,
      Celeste, livre d'erros!…
  Tão virginal!… Ninguem lhe orou na cova!

A CARNE

  Mandei fazer uma casaca nova
      Para os grandes enterros!—

A ALMA

  Nada é mais triumphante que o Egoismo,
  A ambição de brilhar, o vil cynismo,
      —E, n'este carnaval…
Custa a encontrar um peito bom, sincero!..

A CARNE

  Foram-se os castellões, o negro clero!
      —Saude ao Capital!…

A ALMA

  O Capital, bem sei!—A eterna historia
  Do assassinio das honras e da gloria,
      Do talento e da Idea!…
  Vil raça de tyranos e bandidos!…

A CARNE

  Silencio! que as paredes tem ouvidos!…
      —Cuidado na Cadeia!

A ALMA

  Tem quebrantado as almas, as mais fortes!
  —Tyrano algum já mais fez tantas mortes,
      Nem mais vis proscripções!

A CARNE

  Talvez! Talvez! Mas fez, na Sociedade,
  Guardar a Lei… firmou a Propriedade,
      O juro e as inscripções!

A ALMA

  É elle o protector dos seus direitos!
  —Ó nobres corações, sem fel nos peitos,
      Simples castos e bons!
  Deixae-vos fuzillar por essas ruas…
    Que vos afoguem as creanças nuas,
      Sem sangue e sem coupons!

  Deixae que o senhor goze—Ó Natureza!
  Curvae-vos, passa agora Sua Altesa
      Que o mundo assim dispôz!
  Callae-vos rouxinoes melodiosos!…

A CARNE

  Não sei por que!—São muito saborosos
      Cosidos com arroz!

A ALMA

  Velho bezerro d'ouro sobe ao throno!
  —Ó alma escura, ó terra, ó abandono!…
      A vil devassidão…
  Roe-vos mais que o bolor, mundo em farrapos!…

A CARNE

  Se as meigas andorinhas mais os sapos
      Fizeram união!

A ALMA

  É isso! O Capital faz maravilhas!
  Elle bem sabe ás Mães comprar as filhas,
      Dal-as ao lupanar!
  Roubar as crenças, honras e a saude!…

A CARNE

  Não fazem mais, amantes da Virtude,
      Que dar-lhes de jantar!

A ALMA

  Quantas tristes que a tysica asphixia…
  Sem pão, sem ar, cosendo noute e dia,
      Vão nas garras do açôr…
  Cair cheias d'opprobrios e martyrios!…

A CARNE

  —Obedecem os sapos mais os lyrios
      Á lei do eterno amor!

A ALMA

  Isto está desabando!… Homens cruentos!
  Lançae ao mundo novos fundamentos!…
      Venha o Direito e a Lei!
  Venha armada, a Justiça vingadora,
  E que na grande ceifa… a espiga loura…

A CARNE

Que horror!… bem sei! bem sei!…

A ALMA

  Visões, visões talvez! Mas preso e adoro
  Estes sonhos vermelhos e côr do ouro
      De luta, vida e Acção…
  Se não fosse inda a crença santa e ardente!…

A CARNE

  —Deixa-me louca em paz—e emfim consente
      Que faça a digestão!…

*AOS VENCIDOS*

Quando é que emfim virá o claro dia,
—O dia glorioso e suspirado!—
Que não corra mais sangue, esperdiçado
Á luz do Sol que os mundos alumia?!—

Que os vencidos não vejam a agonia
Do seu tecto de colmo incendiado,
E se ouça retumbar o monte e o prado,
Ao tropel da velloz cavallaria?!

Quando é que isto será?—Quando na vida,
Virá ella, a doce hora promettida,
Hora cheia d'amor, e desejada!…

Em que fataes Cains, fartos da guerra,
Nosso sangue não beba mais a terra…
—E nem mesmo a Justiça use d'Espada?!

*O MUNDO VELHO*

Nas crises d'este tempo desgraçado,
Quando nos pomos tristes a espalhar
Os olhos pela historia do passado…
Quem não verá, contente ou consternado,
—Mundo velho que estás a desabar—?!…

Sim tu estás a morrer, vil socio antigo…
E Pae de nossos vicios e paixões!
Camarada dos crimes, torpe amigo…
—Morre, emfim, correrá no teu jazigo,
Em vez de vinho, o sangue das nações!

Deves morrer, provecto criminoso!
Tens vivido de mais, vil sensual!
Tu estás velho, cansado e desgostoso,
E, como um velho principe gotoso,
Ris, cruelmente, ás sensações do mal.

—Que é feito do teu Deus, do teu Direito?
—Onde estão as visões dos teus prophetas?
—Quem te deu esse orgulho satisfeito?
Muribundo Caiphaz, junto ao teu leito,
Morrem, debalde, os gritos dos poetas!

No tempo em que eras forte, foi teu braço
Que apunhalou os grandes ideaes!…
Hoje estás gordo, sensural, devasso,
E andas, torpe a rir, como um palhaço,
N'um circulo lusente de punhaes.

Tu tens vendido os justos no mercado!
Crucificado o nobre, o bello e o bom!
Vaes cahir templo pôdre e abandonado,
Não á voz de Jesus ensanguentado,
—Mas ao verbo sinistro de Proudhon.

É elle que te arrasta ao teu jasigo,
Andas vergado á sua maldição!
Cambalêas ao funebre castigo,
E passas corcovado como o antigo,
Escravo, sob o lenho da paixão!

O seu grande clarão inda t'innunda,
Fulminou-te, morcêgo, á sua luz!
Marcou-te a consciençia rôta e immunda,
E a chaga que te abriu é mais profunda
Que a do lado direito de Jesus!

Nenhum deus, já ninguem póde cural-a!
Has-de morrer, caido amphytrião;
É essa a dôr eterna que te rala,
—Manda erguer o caixão na tua salla,
Prepara o funerario cantochão!

Tu tens quebrado os peitos mais robustos,
Tens dado aos santos o vinagre e o fel…
—Bom conviva de Nero e dos Procustos,
Andas ebrio do sangue de mil justos,
De mil sabios… de Christo e de Rossel!

Tens talhado a teu modo a Sociedade!
E por isso o infeliz que te condemne;
Ensanguentaste as mãos da Mocidade,
Nunca amaste o Direito ou a Equidade,
Matas Vallès…… Deixas viver Bazaine.

Tu viveste contente e agasalhado
Entre os brilhantes, e as visões do gaz!
—Bem te importava a neve… e o ar gelado,
O Frio e a Fome… É tepido o Peccado!
Calvo amigo!… Venceu-te Satanaz!

Tornaste o Templo casa de penhores,
—Mas ninguem ora a Deus nas cathedraes!
E já cheios de lastimas e dôres,
Nós lemos mais nas petalas das flores
Do que em todas as folhas dos missaes!

Morre, morre, venal, sem um gemido!
—Nem podes, levantar as mãos aos ceus!
Ha muito que ris d'isso, aborrecido?
Em nada crêste, em nada!—Adeus vencido!
Morre ahi como um cão!—Vencido, adeus!

Morre, morre, na lucta, pois, soldado!
Corpo cheio de tedio e de bolor!
—Adeus, velho navio destroçado!
—Morre! antigo conviva do peccado!
—Faltou-te sempre Deus, a Lei e o Amor!

*AOS VENCEDORES*

Visto que tudo passa e as épicas memorias
Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais,
Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes
Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!

Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;
E não façaes jámais pastar vossos cavallos
Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!

Não celebreis jámais as festas dos noivados,
Não encontreis na volta os lugubres cortejos!
—E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos
Não respondam da praça os ais dos fusilados!

Sim!—se venceste emfim, folgae todas as horas,
Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes,
Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã!—
—E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regámos já demais a terra—ó gloriosos
Vencedores! talvez,—vencidos d'amanhã!

*A CANALHA*

Eu vejo-a vir ao longe perseguida,
Como d'um vento livido varrida,
Cheia de febre, rota… muito além…
—Pelos caminhos asperos da Historia—
Emquanto os Reis e os Deuses entre a gloria
      Não ouvem a ninguem!

Ella vem triste, só, silenciosa,
Tinta de sangue… pallida, orgulhosa,
Em farrapos, na fria escuridão…
Buscando o grande dia da batalha,
—É ella! É ella! A livida Canalha!
      —Cain, é vosso irmão!

Elles lá vem famintos e sombrios,
Rotos, selvagens, abanando aos frios,
Sem leito e pão, descalços, semi-nus…
—Nada, jámais, sua carreira abranda!
Fizeram Roma, a Inglaterra e a Hollanda,
      E andaram cum Jesus!

São os tristes, os vis, os opprimidos,
—Em Roma são marcados e batidos,
Passam cheios de vastas afflicções!…
Nem das mesas lhes deitam as migalhas!
Morrem sem nome, ás vezes, nas batalhas,
      E andam nas sedições.

Veem varridos do lugubre destino!
Em Roma e a velha Grecia erram, sem tino,
Nos tumultos, enterros, bachanaes…
Nas praças e nos porticos profundos…
E disputam, famintos e immundos,
      O lixo aos animaes!

São os parias, os servos, os illotas,
Vivem nas covas humidas, ignotas,
Sem luz e ar; arrancam-lhes as mães,
—Passam curvados nas manhãs geladas,
E, depois de já mortos, nas calçadas,
      Devoram-os os cães.

Elles veem de mui longe… veem da Historia,
Frios, sinistros, maus, como a memoria,
Dos pesadellos tragicos e maus…
—Eu oiço os reis cantando em suas festas!
E elles, elles—maiores do que as florestas—
      Chorarem nos degraus!

É uma antiga e lugubre legenda!
—Vão, sempre, sempre sós, na sua senda,
Sublimes, quasi heroicos, rotos, vis…
Cheios de fome, ás luzes das lanternas,
Cantando sujas farças, nas tabernas,
      Chorando nos covis.

Alguns dormem em covas quaes serpentes!
Viveram, entre os povos, e entre as gentes,
Vergados d'um remorso solitario…
—Sabem, de cór, os reinos desvastados!
E, vieram, talvez, ensanguentados
      Da noite do Calvario!

Teem trabalhado, occultos, noite e dia,
Ó reis! ó reis! as luzes d'esta orgia,
De subito, que vento apagará!
—Corre no ar um echo subitaneo…
E escuta-se, feroz, no subterraneo,
      O riso de Marat!

Chega, talvez, a hora das contendas!
Ó legionarios! desertae as tendas,
Já demolem os porticos reaes…
Os que teem esgotado a negra taça,
—Cantam, ao vento, os psalmos da Desgraça,
      E a historia dos punhaes!

Vão, ha muito, na sombra, foragidos,
Pelas neves, curvados e transidos,
Em quanto Deus se aquece nos seus Ceus!
Vem do Sul uma lugubre toada,
E escuta-se Rousseau, na agua furtada,
      Gritar—Que me quer Deus!?

Erguem-se ebrios de mortes, de vinganças,—
Assoma lá ao longe um mar de lanças,
Resoam sobre os thronos os machados…
E a Europa vê passar, cheia de assombros,
Ferozes, em triumphos, aos seus hombros,
      —Seus reis esguedelhados.

Á voz das legiões rotas, sombrias,
Desabam pelo mundo as monarchias…
Tremem os graves bispos… e depois…
Que mais farão? perguntam, desolados,
—Vão ser, inda, depois, crucificados
    Os deuses e os heroes!

…………………………………… …………………………………. ………………………………..

Vae prolongada a vil, barbara orgia!…
No silencio da noite intensa e fria,
Vem uns echos perdidos de batalha…
Como uns ventos do norte impetuosos,
—São uns passos, nas trevas, vagarosos,
      Os passos da Canalha!

Elles veem de mui longe… mui distantes
Como sonoros bathalhões gigantes,
Como ondas negras d'um sinistro mar…
N'uma viagem tragica e sem gloria,
—Ha muito, pela noite da Historia,
      Que os oiço caminhar!

Quem sabe se virão… é longa a estrada,
D'esta comprida e aspera jornada
Quem sabe quando, emfim, descançarão?
As pedras atapetem-lhes com flores!…
Lá veem queimados, rotos, vencedores,
      Altivos e sem pão!

Não raiou inda o dia da Justiça!…
Mas, breve, talvez, se oiça a nova missa,
E a Liberdade emfim junte os seus filhos…
Vão talvez vir os tempos desejados!
—E, então, por vossa vez, ó reis sagrados!
      —Saude aos maltrapilhos!

*O NOVO LIVRO*[4]

Vou cantar novos casos dolorosos…
E navegar n'outro épico Oceano,
Novas vellas soltar!—O ouvido humano,
Que se preste a meus cantos vigorosos!

Por que eu fulminarei os crapulosos,
O fanatico, o Escriba, o Publicano,
E arrastarei á luz—como um tyranno,
O santo d'olhos doces e amorosos.

E, por tanto, homens cheios de vaidades!…
Preparai-vos a ouvir rubras verdades
Que vos hão de queimar como carvões…

E se não receaes ver morto o Erro,
—Vinde á janella a ver o grande Enterro…
E o desfilar das lividas visões!

*ALGUMAS PALAVRAS*

Achámos sempre de supremo mau gosto ver o auctor, na sua propria obra, demorar-se complacentemente n'um prologo, como que fabricando uma auréola.

Por isso, isto não é a demorada profissão de fé d'um poeta novo, nem a rhetorica pomposa e esteril de quem intenta dar realce a um livro.—É apenas uma explicação.

Este livro, producto d'uma inspiração meridional e algumas verdades heroicas, não se filia, exclusivamente, em nenhuma escola conhecida.

É uma obra na qual influiram muitas e varias correntes do espirito humano, e muitas impressões, muitas nobres ideas do seu tempo.

No entanto, o auctor conhece que fez uma obra sua, com horisontes particulares e pontos de vista seus, e não apenas uma synthese das ideas dominantes de qualquer escola aplaudida.

Na mysteriosa, singular, e complicada elaboração intelectual do espirito humano, qual será o auctor assás sincero que possa sempre assí*gnalar com segurança a origem d'uma idea, ainda que essa idea seja tão luminosa como a rotação da terra, a descoberta da alavanca, ou a creação de João Valjean?

Quem poderá dizer á borboleta, ao lyrio, ao monstro marinho, e áquellas aves singulares da America que teem todo um arco celeste de tintas nas plumas, a parte que elles devem na vida, nas côres, no aroma, nas plumagens, ao Sol, ás nuvens, aos ventos—e a todas as forças chimicas da Natureza?

Do mesmo modo tambem as grandes sementes que espalharam os espiritos que nos precederam, ou as d'aquelles que ainda hoje arroteiam o campo, fasem desabrochar uma infinidade de pomos intellectuaes na grande planicie dos seculos, por aquelle mesmo trabalho lento e maravilhoso, pelo qual o Sol vae preparar ao mais fundo da terra o diamante.

E assim é facil, por um contraste notavel, n'um dado espirito poderem ter operado as influencias da leitura de Proudhon, de Cicero, de Vico, de Dante, de Baudelaire, de Renan, Voltaire e de S. Agostinho, e d'ahi depois crear-se uma entidade tão diversa d'estas entidades em particular, que nenhum d'elles o teria por discipulo.

Quem poderá assignalar a S. Jeronymo, o grave doutor da Egreja, o aspero e cavado ermita do mosteiro de Betlem, a influencia que tiveram nos seus escríptos o estylo delicado de Cicero, Horacio, e os licenciosos poetas pagãos? Nenhuma influencia se operou talvez visivel; mas talvez muitas secretas e particulares.

É por isso que compete ao escriptor trabalhar a sua idea, lapidal-a, polil-a, desenvolvel-a, facetal-a, de maneira que ella seja como que um grande elo em que se vão encatenar um rosario luminoso d'outas novas, e que ella saia transformada d'esse vasto laboratorio intellectual, por um processo mysterioso semelhante ao do que faz a Natureza transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.

O escriptor é um producto litterario do seu tempo, das suas leituras, do seu temperamento, do seu estudo—e obedece mais que tudo ainda á sua consciencia, e a influencia do Sol sob que nasceu.

O poeta que não obedece a nada d'isto—não é um poeta na grande accepção da palavra: É um plagiario, um parasita que vive da imitação servil dos outros, e que é tão digno de se agremiar a elles como o sapo de fazer união com as borboletas.

É por isso, pois, que este primeiro livro é d'um meridional; mas d'um meridional moderno, que celebra o Sol por que desperta o homem para a Acção para a Vida e para o Trabalho, e que achou curioso,—no seu tempo—fazer um livro de vida, d'imaginação, de ironia, de sol, e de liberdade—o mais heroico dos ideaes.

Mau grado algumas affeições litterarias dos começos do auctor—entre as duas escolas modernas de que tanto se tem discutido, o satanismo e o realismo, não preferiu nem uma nem outra.

O satanismo por que tem uma philosophia absurda que consiste em querer ao eterno equilibrio do Bem e do Mal, em que se baseia a harmonia da Natureza que assombrava Rousseau e que lhe valeu de Voltaire a sangrenta satyra do doutor Pangloss—antepor, pertinazmente, o predominio do Mal.

E o realismo, reduzido ás condições de escola—isto é de convenção—por que debaixo d'uma vã, rhectorica, apparencia d'analyse, de critica e de experiencia, revela o sordido e o obsceno, ou cae como o satanismo na preoccupação do Mal em tudo, e a descrevel-o—o que é mais desagradavel ainda.

Na pintura o realismo, com processos exagerados e abusando das minuciosidades tem procurado impôr pela verdade, ora procurando o feio com um furor, como nunca a Arte Antiga se lançou no Bello, ora abusando dos pormenores, como se a pintura podesse retratar a Natureza, e se o fim da Arte não fosse servir-se d'ella como meio.

Alguns pintores inglezes da escóla realista chegaram a fazer quadros curiosissimos de serem analysados a microscopio; tal era a fidelidade e o rigor das menores cousas.

E, comtudo este exagero não póde nunca dar senão a consciencia ou a medida d'um talento d'um artista, e não a vastidão d'um genio, que não póde nunca restringir-se a pequenos effeitos visuaes, ou á fidelidade.

Alem d'isso, se a simples fidelidade fosse a maior aspiração da Arte, o microscopio d'um observador inglez teria direito quasi a procurar n'um copo d'agua os animalculos que a povôam.

Todas as extravagangias da escola bolonheza, de Paulo Veronezo e seus seguidores, ostentando em todos os quadros as magnificencias da architectura, d'entre os quaes um d'elles ficou mui celebre, as Bodas do Caná, não teem nada d'exagerado em relação ao furor, e á preocupação quasi comica do feio, que domina Courbet e os seus neóphitos.

Os poetas realistas, esses mais declamadores do que profundos, mais horrivelmente minuciosos do que verdadeiros, teem feito um mundo de mulheres perdidas, de Manfedos de crapula, de trufas, de velludos, e de lepras, e teem-se posto n'uma tal gamma d'inspiração, simulando a sciencia, e affectando chamarem ao diamante vil carvão, que teem tirado a poesia a tudo,—á arvore, á flor, ao diamante, e até ao carvão.

Estes são os exageros em que ultimamente tem caido esta escóla, e dos quaes já agora morrerá,—descrevendo ainda uma pustula.

Entre pois estas hesitações e absurdos d'escólas, o auctor achou melhor não preferir nenhuma, reservando todas as suas affeições para uma poesia mais sadia, forte e verdadeira, e que não desprese nem o amor, nem a imaginação, nem a liberdade.

Esta poesia nova, que procura o seu caminho tão gloriosamente no meio d'estes tempos tão turbados, já certa de triumphos verdadeiros, e a que alguns teem chamado Humanismo, é a que comprehendendo o homem com todas as suas paixões e as suas virtudes, nem deprimindo-o scepticamente, nem fazendo-o perder chimericamente nos astros, ha de estebelecer o verdadeiro equilibrio entre o ideal e o real, e mirando como a philosophia a melhorar a humanidade e a alargar o ideal humano, ser digna da nobre missão que n'estes tempos lhe está confiada.

Mau grado as vãs declamações ultimas contra o lyrismo, por alguns pregoeiros d'uma theoria de que não ouviram senão a primeira palavra, o auctor está convencido de que a verdade, a pureza e o sentimento são e foram sempre os distinctivos d'um verdadeiro artista, e que aquelle poeta que jámais cantou a Mulher e o Amor, é um ente tão duhio na Sociedade, como um sacerdote da deusa Tani em Carthago.

Alem d'isso recorda-se e recorda aos declamadores levianos que Lucrecio no mais bello e admiravel poema philosophico sobre a Natureza, que se tem escrito no mundo, De natura rerum, começou por uma elevada invocação a Venus—que é a mulher na Antiguidade feita deusa.

Hoje um poeta moderno que tem um ideal da mulher muito mais nobre, mais puro, mais casto, devido á philosophia christã, por que não ha de tratar de a engrandecer, de a elevar e distinguir, dando-lhe—como Philosophia e como Arte—o papel que ella tem direito a representar na sociedade—banindo dos seus livros a poesia da cortezã?!

O auctor no seu livro apenas duas ou tres vezes alludiu a ellas, e foi para as lamentar, e, talvez, injustamente, para as condemnar.

Injustamente; porque a bondade é tambem uma justiça superior; e uma das grandes missões do poeta é a d'alem de ser justo, ser bom.

E em nenhuns tempos a missão do poeta foi tão grande de cumprir como hoje.

Uma pretenciosa e depravadora lepra lavra na sociedade; uma enorme corrupção de gosto e de ideal nas letras. O jornalísmo, a parte mais deficiente da litteratura portugueza, toma sobre a desgraçada ignorancia geral um ascendente que seria comico se não fosse para lamentar, e invade como uma grande corrente, sem dique, a opinião publica, reduzindo a Economia, a Arte, a Politica e a Philosophia a questões de visinhas despeitadas.

A Mocidade, de quem ha tanto a esperar, explora avidamente o bel esprit que tanta indignação causava a Rousseau, todo forjado segundo os moldes mais deploraveis do espirito sem ideal francez, e que está para a verdadeira ironia austera e demolidora, como Proudhon está para uma cocotte e o sentimento de Chénier está para o sentimentalismo de salla de Feuillet.

Tendo-se o auctor feito conhecer por algumas poesias liberaes, muitos perguntarão talvez a rasão por que não deu no seu livro mais latitude á ultima parte.

Essa razão foi unicamente a de não querer fazer um livro exclusivamente didactico, e por que as poesias que publicou e que entravam no plano do seu livro lhes restringiram o espaço.

Alem d'isso porque tambem, as luctas religiosas da Allemanha, os eternos combates entre a Egreja e o Estado lhe haviam feito conceber o plano do Antichristo, onde mais latamente poderia desenvolver algumas theorias e tratar questões do mundo politico e religioso.

Quanto a esta obra, seja qual fôr o logar que a Critica lhe faça occupar, ella não é mais do que a primeira pedra d'um edificio que existe todo construido na imaginação do auctor.

Mas por muito insignificante que ella seja, elle recorda a todos que se teem visto n'uma sociedade esterelisadora, em lucta continua com um ideal novo e grande, como Jacob toda a noute com o anjo, que o seu desejo constante foi sempre fugir do exagero e do mau gosto.

Se nem sempre o conseguiu, ainda assim os justos, e os fortes, pela sua vontade, o saberão apreciar.

*ERRATAS NECESSARIAS*[5]

O leitor curioso póde, para mais facilidade na leitura, fazer estas emendas na margem do livro.

Na poesia Lisboa, 5.^a estrophe, 3.^o verso, leia-se em vez de prisões, procissões.

N'aquelle Sabio, 2.^a estrophe, 1.^o verso, leia-se: Tem assim ares d'empyrico.

Na Joven Miss, 2.^a quadra, 2.^o verso, leia-se: Cria em nós todo um mundo de moral; e A Uma voz celeste, 9.^a quadra, 3.^o verso: Eu que nos astros leio.

Em Junto do Mar dever-se-ha lêr: O mar cheio de medos e soluços, 9.^a quadra 4.^o verso; O sangue dos nossos males, em Tristissima, 5.^a quadra, 4.^o verso.

Não citamos aqui suppressões de lettras e virgulas, que o leitor póde corrigir facilmente.

INDICE

*INSPIRAÇÕES DO SOL*

Hymno ao Sol
Á Janella do Occidente
Os Santos
D. Quixote
O Publicano
A Lyra de Nero
Mysticismo Humano
Monges de Zurbaran
A Bella Flor Azul
Hora do meio dia
Cantiga do Campo
A Aguia
Accusação á Cruz
Luthero
A Terra
O Ouro
O Budha
No Calvario
Héli! Héli!
As Aldeias
Beneficios e Philosophia do Sol
Disputa
As Cathedraes
Lycanthropia
O Peccado
Soneto d'um poeta morto
A uma Judia
A Visita
Palacios antigos
Cain
A Primavera

*REALIDADES*

Accusação a Christo
De noute
Aquelle sabio
Na Taberna
Os Lobos
Miseria occulta
Lisboa
A sesta do senhor Gloria
Farça triste
Madrigal da rua

*CARTEIRA D'UM PHANTASISTA*

Antes d'abrir a carteira
A noute de noivado
A tortura das chimeras
Tarde de verão
Na cabeceira d'um leito
Madrigal excentrico
Aquella orgia
O Visionario ou Som e Côr
Madrigal funebre
Debaixo d'uma janella
A Selvagem
A Lanterna
Ultima phase da vida de D. Juan
Ultima ceia de Falstaff
Falstaff moderno
Na rua
Phantasias da lua
O Selvagem
O amor do vermelho
A um corpo perfeito
Carta ao Mar
A lenda das rosas
No enterro d'um coração
A Joven Miss
O doente romantico
Quadra d'um desconhecido
Em viagem
Noutes de chuva
Idylio meridional
Duas quadras de Diogenes no album de Lais
A Camelia negra
A ultima serenada do Diabo
A Musa verde
Idyllio d'aldeia
Carta ás estrellas
Na folha d'um livro
Os Brilhantes
O Astrologo

*MYSTICISMO*

Dedicatoria
Os deuses mortos
Debaixo das hervas
A uma voz celeste
Á pomba que voou
Tristissima
Idyllio triste
A um lyrio
A uma andorinha
Entre os arvoredos
Confissão a uma violeta
A sua camara
Hora mystica
Junto do Mar
Doente
N'um cemiterio
Despedida ao Sol

*HUMORISMO*

A Aranha
Nova ballada do rei de Thule
Phantasias d'um aborrecido
El Desdichado
A Valentina de Lucena
Phantasias
A Biographia de Satan
Agua furtada d'um Original
Bilhete d'um estudante
A lady
Dedicatoria d'um livro
Humorismo mystico
O Cannibal
Romantismo
Aventuras
O inconveniente de matar a mulher
Um Blasé
O Velho

*RUINAS*

Farrapos
Aos vencidos
O Mundo velho
Aos vencedores
A Canalha
O Novo Livro
Algumas palavras

Notas:

[1] Esta poesia só tem referencia ao estrangeiro; Hespanha, Italia, e principalmente França. Em Portugal o absynto não faz estragos.

[2] Esta poesia já foi publicada sob um pseudonymo.

[3] Este soneto foi dedicado a Dumas filho, pela occasião da celebre questão do Homen-Mulher, que deu origem a um diluvio de folhetos e publicações.

[4] O Antichristo.

[5] Nota de pós-processador do DP: todos os erros apontados foram corrigidos.