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Claridades do sul

Chapter 20: *O BUDA*
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About This Book

A lyrical collection that alternates exaltation and meditation, using sunlight, mythic and religious images, and vivid natural scenes to examine vitality, mortality, and moral tension. Several poems contrast heroic or sacred language with decay and hypocrisy, questioning faith, passion, and social decline while giving voice to grief and defiance. Others linger on rural labor, seasonal cycles, and intimate landscapes, offering mystic longing and consolation through the sensuous textures of sound, color, and memory.

The Project Gutenberg eBook of Claridades do sul

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Title: Claridades do sul

Author: António Duarte Gomes Leal

Release date: March 30, 2007 [eBook #20940]

Language: Portuguese

Original publication: Lisboa: Braz Pinheiro--Editor Praça d'Alegria 73, 1875

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CLARIDADES DO SUL ***

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed

Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

CLARIDADES DO SUL

GOMES LEAL

CLARIDADES DO SUL

LISBOA
BRAZ PINHEIRO—EDITOR
Praça d'Alegria 73
1875

PRIMEIRA PARTE

INSPIRAÇÕES DO SOL

HYMNO AO SOL

Vous prêtres! qui murmurez, vous portez ses signes sur tout votre corps: «votre tonsure» est le disque du «soleil,» votre «étole» est son zodiaque, vos «chapelets» sont l'embléme des astres et des planétes.

VOLNEY (LES RUINES)

Eu te saudo ó Sol, bello astro amigo!
(Tão pontual ha tantos centos d'annos)
Mais reluzente que um broquel antigo,
Mais dourado que sceptros de tyranos;
Avé, heroica luz! viva e sonora,
Vestindo o mundo, emquanto aos ceus erguidas,
As florestas extensas dão gemidos,
            E o duro mar se chora!

Eu te saudo, ó astro das batalhas!…
Por que atravez das cruas dissenções,
Douras o pó que se ergue das mortalhas.
E levantas os nossos corações!
E por isso, ainda hoje, e eternamente,
Os romanticos te hão de a ti saudar,
—E os tristes sempre irão, á luz poente,
            Ver-te morrer no mar!

Tu és a Voz; a Côr; as Harmonias
Accordam com as tuas claridades;
És quem benze as aldeias e as cidades,
E quem fases cantar as cotovias;
És quem inspira extranhas theorias,
És forte, são, consolador e bom!
Tem a lua silencios e elegias;
            —Mas tu a Côr e o Som!

Eu te saudo, ó astro dos guerreiros!…
Eterno confessôr de madrigaes,
Que desgellas os densos nevoeiros,
Que alegras as sonoras capitaes;
Que dás valor nos campos marciaes,
E força e amor aos aldeões trigueiros,
E que incitas os tigres carniceiros
            A beber nos caudaes!

Desde a Chaldea ás tristes solidões,
Tens tido cultos, templos levantados,
E velhos ritos barbaros sagrados,
E alegres, sensuaes religiões!…
Tu foste Mithras, nome cabalistico,
Baal, Agni, Apollo (invocações)
—E hoje Christo—teu nome occulto e mystico—
            Fere inda os corações!

Quem contará, ó luz, tuas bondades?…
E o amor no qual o coração abrasas,
E as tuas funeraes solemnidades
Á ideal palpitação das azas?…
Quem nos livra das flexas do pecado?
Quem faz na intima terra o diamante?
Quem gera o monstro, a pomba, o lyrio amado,
            E a idea extravagante?

Ave! pois, asto caro dos valentes…
Da Força, Vida, Gloria, da Paixão,
A flexa d'ouro aos corações ardentes,
Astro amigo das lutas e da Acção!
Ave! e em dias crús d'expiação
Vae, e beija—nas hervas relusentes—
Os que morrem, vencidos combatentes,
            —A espada inda na mão!

*Á JANELLA DO OCCIDENTE*

     O mundo oscilla
     (Luthero)

Os deuses ou são mortos ou caídos,
Quaes duros aldeões dormindo as sestas,
Ou andam pelos astros perseguidos
Chorando os velhos tempos das florestas,

Os reis ressonam nas devassas festas:
Já os fructos do Mal estão crescidos:
Ó Sol, ha muito que tu já nos crestas!
E aos nossos ais o Ceu não tem ouvidos!

Ha muito já que o Olympo está vazio,
E no seio d'um astro immenso e frio
É morto o Deus do Testamento Velho.

Apenas sobre o mundo eterno e afflicto,
Procura Fausto o x do infinito,
E Satan dorme em cima do Evangelho.

*OS SANTOS*

     Les saints arrachaient leurs auréoles.
     (Dubois)

Viam-nos caminhar, exilados da luz,
As grandes povoações, as rochas, as paisagens.
E os corvos, os fieis amantes das carnagens,
Estos magros heroes, paladins de Jesus.

Andavam rotos, vis, os pés chagados, nús.
Finavam-se a rezar ante as santas imagens,
E ouviam-nos bradar no meio das folhagens:
—Ó arvores em flor! vós sois esquife e cruz!

Onde estaes hoje vós? nas grutas dos planetas,
Inda hoje rezaes, ó pallidos ascetas,
Luzes vivas da Lei! martyres solitarios?

Na terra não; que ha muito a Materia nos nutre,
E nem no Ceu talvez;—no entanto o negro abutre
Tem saudades de vós nas cristas dos calvarios!

*D. QUICHOTE*

A Luciano Cordeiro

O que é isto?

Nos tempos medivaes dos campeões andantes,
E das balladas como a do bom rei de Thule,
Andava D. Quichote em busca de gigantes,
Magro, tristonho, ideal, crente Fausto do Sul.

Batalhador juiz da Virtude e do Crime,
Defendendo o opprimido, a mulher, o ancião,
Corria o mundo assim, ridiculo e sublime,
Em seu magro corcel, sob arnez de cartão.

Cheio de tradições, o velho mundo absorto,
Da banda do meio dia, ouvia o seu tropel,
E como insectos vis sobre um cavallo morto,
Riam as multidões do ultimo fiel.

Ia triste a scismar, com a alma abatida,
Nos caminhos do mal rasgando as illusões,
Magro Fausto do Sul, buscando a Margarida,
Cheio de apupos vis, d'escarneos e irrisões.

Vinha de batalhar espancado e abatido,
Cheio de contusões e lodos d'atoleiros,
E ao pé montando um burro, e o escudo já partido,
Sancho Pança a Materia, e o rei dos escudeiros!

Vinha sereno e grave, escarnecido e exangue,
Emmagrecido e caalmo em meio dos estorvos,
—Vinham ladrar-lhe os cães, e pressentindo sangue,
Grasnavam-lhe em redor bandos negros de corvos.

Sancho Pança fiel, vasculhava a escarcella,
E ascultava a borracha emmudecida emfim;
Em quanto o Heroe scismava, inclinado na sella,
Na conquista ideal do escudo de Membrin.

Paravam aldeões, lavradores crestados;
Vinham á porta as mães, fiando o linho fino;
E os magros charlatães viam passar, pasmados,
Na sombra d'um cavallo o extremo paladino.

Dançavam os truões; as sujas enxurradas
Com a lodosa voz, perguntavam: Que é isto?—
Satan n'um corucheu, dizia ás gargalhadas:
—Ó campeão do Bem! ó victima do Christo!

*O PUBLICANO*

     Ils erraient sales et immonds, et avaient des dévotions hypocrites
     (Dubois)

Um graõ doutor da Lei dizia ao publicano,
Junto ao atrio do templo, em tempos da Judea,
Tambem tu vens orar, publicano sereia,
A tua casa ardeu, ou deu na vinha o damno?

Jejuas tu agora e resas todo o anno,
Tu que levas o pobre e o orphão á cadeia,
Que tiras á viuvez o pão, o leito, e a teia,
Tu que és avaro e vil, pagão como um Romano?!

Que não resas como eu, que nunca vi desfeito
Dos compridos jejuns, nem macerar o peito;
E que hospedas Satan, como o antigo Saul!

Não vês como estou sempre erguendo ao Ceu os braços?
—O publicano então, disse, olhando os espaços:
«Tambem os poços são voltados para o Azul!»

*A LYRA DE NERO*

Nos seus jardins pagãos, entre archotes humanos,
Na lyra de marfim sobre as cordas douradas,
Nero vinha cantar ás noutes estrelladas,
Elegias d'amor e canticos thebanos.

Essa lyra do Mal que ouviram os romanos,
Que cantou entre o fogo, as casas abrazadas,
E os lutos, os truões, as ceias depravadas,
Que mysterios não viu, medonhos e profanos!

E, no emtanto, apesar da sua historia triste,
Se os tempos tem corrido, a Lyra ainda existe
Do devasso real, do lyrico histrião…

Seu canto inda nos prende e ouvimol-o sem susto,
E, ó Terror! ó Terror! eu que amo o Forte e o Justo,
—Ouço-o ás vezes tambem, dentro do coração!

*MYSTICISMO HUMANO*

     Sunt lacrimae rerum…
     (Virgilio)

A alma é como a noute escura, immensa e azul,
Tem o vago, o sinistro, e os canticos do sul,
Como os cantos d'amor serenos das ceifeiras
Que cantam ao luar, á noute pelas eiras…
Ás vezes vem a nevoa á alma satisfeita,
E cae sombria, vaga, e meuda e desfeita…
E como a folha morta em lagos somnolentos
As nossas illusões vão-se nos desalentos!

Tem um poder immenso as Cousas na tristeza!
Homem! conheces tu o que é a natureza?…
—É tudo o que nos cerca—é o azul, o escuro,
É o cypreste esguio, a planta, o cedro duro,
A folha, o tronco a flor, os ramos friorentos,
É a floresta espessa esguedelhada aos ventos;
Não entra o vicio aqui com beijos dissolutos,
Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!…

—E os que viram passar serenos os seus dias…
E curvados se vão, ás longas ventanias,
Cheio o peito de sol, atravez das florestas,
Á calma do meio dia… e dormiam as sestas,
Tranquillos sobre a eira, entre as hervas nas leivas…
Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas,
Outra vez sob o Sol—a sua eterna crença!—
Em fructos resurgir á natureza immensa,
E, aos beijos do luar, descansarem felizes,
Da bem amada ao pé, no meio das raizes!

Morrer é livramento! oh deve saber bem
Sentir-se dilatar na Natureza mãe!
Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, herva ou alfombra,
A rosa que perfuma, a arvore que dá sombra!
Estremecer na encosta ás nocturnas geadas,
E recortar o azul das noutes constelladas!

Oh pelo claro azul d'essas noites serenas,
Que o segador trigueiro entôa as cantilenas,
Tristes como a lua e o espinho dos martyrios,
E que atravez do azul parecem cair lyrios!…
Quando a brisa levanta as folhas indiscretas,
Noivam os rouxinoes e se abrem as violetas…
E a Natureza tem como um sabor de beijos,
Que obriga a soluçar a alma de desejos!…

Que segredos dirão nas brisas mensageiras,
Á doçura da lua, a flor das larangeiras,
O lyrio, a madresilva, os jasmins vacillantes,
Que foram já, talvez, seios fortes e amantes,
E que hoje' á branca luz dos myrthos sideraes,
Conversam sobre o amor e os gosos ideaes
Do tempo, que a fallar corriam breve as horas,
Que seus olhos leaes tinham a côr d'amoras,
E debaixo do Ceu teciam longas danças,
Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!…

No lago somnolento a flor do nenuphar
Talvez é um coração que abre para chorar!
O lyrio um seio bom,—e as violetas curvadas
São os olhos talvez das doces bem amadas!…

Feliz o semeador que vive entre os arados,
O campo, os lentos bois, longe dos povoados,
Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros,
Que vivem sob o sol, á chuva, aos nevoeiros,
E quando á noute finda os suarentos trabalhos,
Vem a doce mulher buscal-o nos atalhos,
Cujo olhar como a lua é tranquillo e consola,
E descanta chorando á noute na viola!…

E os que andam pelo mar, alegres e contentes,
Entre as ondas e o Ceu, saudosos, negligentes,
Entre os cantos do vento, olhos fitos nos ceus,
Entre o azul, o escuro, e os frios escarceus,
Hombro a hombro o abysmo,—abysmo sempre aos pés,
Que dormem á poesia, á lua das marés,
E morrem uma noute, ó mar, aos teus emballos,
Deixando uns olhos bons e meigos a choral-os!

Eu por mim não terei um astro bom nos Ceus,
Nem uns olhos leaes que chorem pelos meus,
E que inda a fronte mal me obscureça a magoa,
Como espelhos d'amor já sejam rasos d'agua!…
Sósinho passarei, e não irei jámais,
Pelas murtas com ella ás tardes outomnaes;
De inverno não terei os consollos do lar,
Nem do estio a doçura immensa do luar;
Meus filhos não irão jámais colher os ninhos;
Ninguem virá á tarde esperar-me nos caminhos!

*OS MONGES DE ZURBARAN*

(IMITADO DE TH. GAUTIER)

Monges de Zurbaran! ó magros solitarios,
Que ao longo deslisaes dos grandes claustros frios,
Correndo eternamente as contas dos rosarios!

Dos remorsos sentis os santos desvarios?
Que mal vos fez a Carne, algozes de tonsura?
Espectros monacaes cavados e sombrios?

Essa materia vil—que é divina esculptura,
E que o Justo vestiu nas santas tradições,
Com que lei e razão é que bradaes—Impura?

Ó santos! eu entendo as allucinações!
Os chumbos em fusão, as abrasadas lenhas,
As grelhas, a polé, e as fauces dos leões!…

As rodas infernaes que rasgam as entranhas,
Tudo o que Roma ideou;—mas o que eu não entendo
É o suicidio e a fé sob essas estamenhas!

Por que pois, sempre assim, um suicidio horrendo?
E toda a noute a carne, entre as vis disciplinas,
Dilacerar até o sangue ver correndo?

Não são só as crueis macerações mofinas,
E o continuo bater nos peitos angulosos,
Que em tuas letras só, ó Christo! nos ensinas!

Julgais que Deus só quer aos grandes ulcerosos!
E que essa morte lenta, esse ar austero e grave,
Vos faça abrir mais cedo os ceus gloriosos?

Julgais que tal suicidio os grandes crimes lave?
—Largae das magras mãos, unidas, as caveiras,
Vossas covas, mortaes, deixai que um outro as cave!

O espirito immortal ergue-se entre as fogueiras;
Mas continuo insultar a Carne com desdem,
É rebaixar-te, ó Deus, a charlatão de feiras!

E comtudo que força e que energia teem,
Esses monges de Deus, em vivo amortalhados,
A viver sem mulher, sem paes, e sem ninguem!

Tão moços! e, assim já, tão velhos e cavados!
Por horisonte um claustro e um muro,—indifferentes,
Sósinhos a resar ante os Crucificados!

Teus frades, Lesueur, são d'estes differentes!
O triste Zurbaran soube exprimir melhor
Os extases do olhar e as cabeças doentes!

E a vertigem do ceu, o tedio, o desamor
Da Carne, que lhes dá aureolas febris,—
E esse aspecto que faz gelar-nos de pavor!

Como o duro pincel lhes pinta a flor de liz
Dos cilicios! e a luz dos olhos mortecidos,
E essas rugas que os faz magros, sublimes, vis!

Como as pregas alonga aos habitos compridos!
Como ás faces lhes cava a pallidez da terra,
Como se fossem já uns mortos estendidos!

Quando as vizões do Ceu nos extases descerra,
Ao Crucifixo os pés beijando soluçantes,
E açoutando-se qual o mar açouta a serra!…

Ou quando passeaes pelos claustros gigantes,
Nem mesmo a propria sombra atraz deixando ao muro,
—Sempre, ó monges! vos pinta eguaes e semelhantes!

Com duas tintas só—claro livido, e escuro,
Só duas posições—a recta e a que inclina,
Pintou a vossa historia e o vosso viver duro!

A forma, o raio, a côr, a luz que nos fascina,
Nada são para vós, magros indifferentes,
Por que o Ceu vos desvaira e a Cruz vos allucina!

E assim mudos passaes nas Biblias reverentes…
Julgando sempre ouvir nos ceus que se descobrem,
Trovejar de repente as trombetas dos crentes.

Ó monges! ó fieis! não entendeis o homem!
Talvez a herva cresça, agora, em vossos peitos,
Pois bem, que dizeis hoje aos vermes que vos comem?

Que sonhos maus fazeis n'esses extremos leitos?
Choraes o ter gastado o tempo que nos foge,
Entre essas solidões e esses muros estreitos?!…

Monges, o que haveis feito, inda o farieis hoje?!

*A BELLA FLOR AZUL*

     Quem saberá «signora» d'onde terá nascido esse bello lyrio branco?
     (Velha Comedia Italiana)

Eu não sou o fatal e triste Baudelaire;
Mas analyso o Sol e decomponho as rosas,
As rijas e crueis dahlias gloriosas,
—E o lyrio que parece o seio da mulher.—

Tudo que existe ou foi, morre para nascer;
Na campa dão-se bem as plantas graciosas,
E, um dia, na floresta harmonica das Cousas,
Quem sabe o que serei quando deixar de ser!

A Morte sae da Vida—a Vida que é um sonho!
A flor da podridão, o Bello do medonho
E a todos cubrirá o mystico cypreste!…

E, ó minha Sphinge, a flor pallida e azul no meio,
Que hontem tinhas no baile, e que trouxeste ao seio
Levantei-a d'um chão onde passára a Peste.

*HORA DO MEIO DIA*

     J'étois inquiet distrait, réveur; jé dèsirois un bonheur dont je
     n'avois pas l'ideé.
     (Confessions de J.J. Rousseau)

—Sosinho no meu quarto retirado,—
Certas horas do dia calorosas,
Quando as flexas do Sol queimam as rosas,
Eu scismo no seu corpo esbelto e amado!

As curvas do seu collo assetinado,
Mais fino que o das rollas amorosas,
Dar-me-hiam as noutes voluptuosas
De que fallam os doutos do Peccado.

Mas, no emtanto, lá fora o sol adusto
Queima as campinas e o aldeão robusto;
Vôam abelhas a colher o mel.

E eu cheio de tristeza e d'anciedade,
Continuo a scismar—como um abbade—
Na Virgindade olympica e cruel.

*CANTIGA DO CAMPO*

     Como eu adoro as tuas «simplicidades!»
     (Heine)

Por que andas tu mal commigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vaes cantando entre as searas,
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noutes claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a violla tua,
Que, ás vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E fallam com tristes vozes
Do teu amor singular
Áquella casa onde cozes,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar comtigo, ó meu pomo,
Exposto ás chuvas e aos soes!
E uma noute morrer como
Se morrem os rouxinoes!

Morrer chorando, n'um choro
Que mais as magoas consolla,
Levando só o thesouro
Da nossa triste violla!

Por que andas tu mal commigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

*A AGUIA*

No tempo em que era a grande deusa viva
Os deuzes, os heroes e as Musas bellas,
Dizia uma aguia velha e pensativa,
Que fizera a viagem das estrellas:

—Vão-se indo as tradições! e hão-de ir com ellas
Apollo, Jove, Vichnou e Siva!
Um astro é grão de luz; o mar saliva
De ti ó grande Pan!… Só Pan tu vellas!…

Mas quando assim fallava a aguia, eis quando
Se ouviu aquella voz triste bradando
Na Sicilia: Morreu o grande Pan!

Epheso estremeceu, carpiu Eleusis;— Mas a aguia velha gargalhou:—Ó deuses! Qual será o deus novo de ámanhã!

*ACCUSAÇÃO Á CRUZ*

    Ainsi lirat-il les artiques vérités, les tristes vérités, les
    grandes, les terribles vèrités.
    (De Quincey)

Ha muito, ó lenho triste e consagrado!
Desfeita podridão, velho madeiro!
Que tens avassalado o mundo inteiro,
Como um pendão de luto levantado.

Se o que foi nos teus braços cravejado
Foi realmente a Hostia, o Verdadeiro,
Elle está mais ferido que um guerreiro
Para livrar das flexas do Peccado.

Ha muito já que espalhas a tristeza,
Que lutas contra a alegre Natureza,
E vences ó Cruz triste! Cruz escura!

Chega-te o inverno, symbolo tremendo!
Queremos Vida e Acção—Fica-te sendo
Um emblema de morte e sepultura!

*LUTHERO*

     Ah, és tu diabo?…
     (Lenda mouacal)

Luthero, o frade austero e macilento,
Encontrou a Satan dormindo um dia,
N'uma rua d'Erfurt, á ventania,
Envelhecido, calvo e vinolento.

Dorme! gritou-lhe o frade… a teu contento,
Guloso Pae da Indigistão, da Orgia!
Renunciaste as lições de theologia,
Ó velho corvo mau do Firmamento?!

O mundo como tu é calvo e velho;
A Egreja é o lupanar do Evangelho;
E tu ó ébrio, gulotão, descanças!?…

Satan, olhando o azul, disse:—As estrellas
Vão pelo Ceu tão baças, amarellas,
Deus já deixou enferrujar as lanças!

*A TERRA*

Fecundarás a terra com o suor do teu rosto.

Cavae, eternamente, a velha terra!
Soffrei, suae, gemei na dura enxada,
Fecundae-a na paz ou pela guerra,
Quer seja pelo arado ou pella Espada,

Ó Homem! trabalhar é tua herança
Até que a Morte, emfim, grite—descança!

É a Arvore a tua companheira
O lar, a tenda, a sombra de teus passos,
Da tua amante a perfumada esteira,
Como bençãos t'estende os longos braços!

E ou seja em teu inverno, ou teu estio,
E teu berço, teu leito, e teu navio!

É preciso que as lagrimas que correm
Façam crescer dos cardos os trigaes,
E por cima dos corpos dos que morrem
Se ergam verdes loureiros triumphaes!

É preciso que em paz ou pela Guerra,
Com pranto, ou sangue se fecunde a Terra!

É preciso caval-a!—nos teus braços
Luza a enxada ou o gladio de destroços!
A vida é curta—e breves nossos passos,
E as flores vivem, crescem sobre os ossos!

E o berço não é mais, ó creatura!
Que a linha d'união á sepultura!

É preciso que a Morte, a dôr e os lutos
Se transformem em vinhas ostentosas,
Nossos prantos convertam-se nos fructos,
Do sangue dos heroes tinjam-se as rosas!

Soffrei, lutae, morrei, ó infelizes!
—O vosso sangue é util ás raizes!

*O OURO*

A Theophilo Braga

Dizia o ouro á pedra;—Ente mesquinho!
Que profundo scismar sempre te préga
Á beira d'uma estrada, ou d'um caminho,
Pasmada, mas sem ver, eterna cega?!

Em vão o orvalho a ti te lava e rega!
Em ti não cresce nunca pão, nem vinho,
Dura e inutil—o lodo é teu visinho,
E o homem só, por te pisar, t'emprega!

Em ti só medra e cresce o cardo os lixos!
Tu serves só d'abrigo ao lodo e aos bixos,
E ensanguentas os pés descalços, nus!

Ó pedra! quanto a mim, sou a Riqueza!
—A cega disse, então, com singeleza:
—Eu, tambem, guardo no meu seio a Luz!

*O BUDA*

(De Catullo Mendés)

O Budha scisma, as mãos sobre os artelhos.

Aquelle então que ouvira os seus conselhos
Diz:—Mestre! os que não foram resgatados
Do Mal, são como uns ceus anuviados!
Aos povos que d'aqui moram distantes,
Para que a Lei não errem, ignorantes,
Consente que affrontando os soes e os frios,
Montes, rochas, passando a nado os rios,
Teu grande dogma, ó Mestre, eu vá prégando!…

—Mas se elles, corta o Budha venerando,
Te insultarem, eleito! que dirás?

—Direi só:—estas gentes não são más,
Pois vindo-lhes prégar de terra alheia,
Não me atiram aos olhos com areia,
Nem me espancam e ferem com pedradas!

—Mas se as gentes, acaso, allucinadas
Te espancarem, causando graves damnos?

—Estes povos, direi, são muito humanos,
E ha doçura n'aquelles corações;
Pois quando erguiam pedras e bastões
Contra uma creatura tão mesquinha,
Não tiraram a espada da bainha.

—Se o ferro te ferir?

      —São bons, de sorte
Que me ferem, sem querer-me dar a Morte!

—Se morreres?

—A morte é grande esmolla!

—Vae pois, o Budha diz, salva e consolla!

*NO CALVARIO*

Maria com seus olhos magoados,
Ceus espirituaes, lavava em pranto
As largas chagas de Jesus, emquanto
Ria ao pé um dos tres crucificados.

Semblantes de mulher mortificados
Escondiam a dôr no casto manto;
Uma mulher d'Hennon chorava a um canto,
Jogavam sobre a tunica os soldados.

Martha, os pingos de sangue, alva açucena,
Dir-se-hia no bom seio recolhel-os;
Alguns riam brutaes d'aquella pena!…

Salomé tinha um mar nos olhos bellos;
João fitava a Cruz… Mas Magdalena,
Limpava a Christo os pés com seus cabellos!

*HÉLI! HÉLI!*

Quando elle, emfim, morrendo, elle o cordeiro,
Pomba mansa no ar pesado e immundo,
Pendeu-se como um lyrio moribundo,
Sobre a haste do tragico madeiro.

E lançando o espirito prufundo
Ao reino bello, grande, e verdadeiro,
Finou-se, emfim, chagado e justiceiro,
Ainda, ainda, perdoando ao mundo.

Um soldado romano vendo-o exposto,
E já morto na Cruz, com um desgosto,
Com a lança enristada o trespassou…

Saiu d'aquella chaga sangue e agoa…
—Ah sangue que não deu a tanta mágoa!
—Lagrimas, sim, talvez que não chorou!

*AS ALDEIAS*

Eu gosto das aldeias socegadas,
Com seu aspecto calmo e pastoril,
Erguidas nas collinas azuladas—
Mais frescas que as manhãs finas d'Abril.

Levanta a alma ás cousas visionarias
A doce paz das suas eminencias,
E apraz-nos, pelas ruas solitarias,
Ver crescer as inuteis florescencias.

Pelas tardes das eiras—como eu gosto
Sentir a sua vida activa e sã!
Vel-as na luz dolente do sol posto,
E nas suaves tintas da manhã!

As creanças do campo, ao amoroso
Calor do dia, folgam seminuas;
E exala-se um sabor mysterioso
D'a agreste solidão das suas ruas!

Alegram as paysagens as creanças,
Mais cheias de murmurios do que um ninho,
E elevam-nos ás cousas simples, mansas,
Ao fundo, as brancas velas d'um moinho.

Pelas noutes d'estio ouvem-se os rallos
Zunirem suas notas sibilantes,
E mistura-se o uivar dos cães distantes
Com o canto metallico dos gallos…

*BENEFICIOS E PHILOSOPHIA DO SOL*

Tem sido até agora—o scintillante
E antigo Sol, amigo da Harmonia,
Que me tem ensinado, cada dia,
A desprezar a Morte escura e errante!

As densas nuvens do porvir distante
Desdenha-as a sua epica alegria,
E a sua heroica e sã philosophia
Nada, até hoje, eguala e é semelhante.

Decerto, é grato ao soffrimento insano Dos tristes, quando surge o rosto humano Da lua, abrandecer o Ceu com ais;

Mas, quando é que jámais dobrou á Sorte,
A alma do fakir, paciente e forte,
Mais sereno que as plantas e os metaes?!

*DISPUTA*

Voltaire dando com o pé n'uma caveira, ria
Com certo riso mau, sinistro e mofador;
—A velha companheira, então, da Theologia
Dos santos e da Cruz bradou ao pensador:

—És tu impio Voltaire, ó verme roedor
Das folhas do Evangelho! ó Satan da ironia!
Cujos risos crueis fazem chorar Maria,
E despregam do lenho a ensanguentada flor!?

Tu tens lançado o cuspo aos astros lancinantes;
Abalado da Cruz os cravos vacillantes;
E ladrado de Deus que julgas a dormir!…

Mas olha em cima é o Ceu, dos astros sementeira!…
—Voltaire disse-lhe então: Pois se assim é, caveira,
Por que te encontram, sempre, ao pé da cruz a rir?

*AS CATHEDRAES*

Como vos amo ver ó cathedraes sosinhas,
A recortar o azul das noutes constelladas!
Erguidos corucheus, mysticas andorinhas,
—Ó grandes cathedraes do sol ensanguentadas!

Como vos amo ver, pombas alvoroçadas!
Ogivas ideaes, anjos de puras linhas,
E ó criptas sem luz, aonde embalsamadas
Dormem de mãos em cruz as santas e as rainhas!

Em vão olhaes o Ceu sagradas epopeias!
Flores de renda e luz, d'incenso e aromas cheias,
Aves celestiaes banhadas da manhã!

Em vão santos e reis, ó monges dos desertos!
Em vão, em vão resais, sobre os livros abertos,
—O Ceu por que chorais é uma ficção christã!

*LYCANTHROPIA*

     L'auteur á remarqué que que la mort de ceux qui nous sont chers, et
     géneralment la contemplation de la mort, affecte biem plus notre
     âme pendaut l'été que dans les autres saisons de l'anineé.
     (Paradis artificiels)

Nuvens da tarde, azul fundo e sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Para mim não valeis seu riso ameno,
E aquellas lindas, languidas olheiras!

Nunca mais… eu bem sei que nunca mais…
Ouvir-lhe-hei seus ais no ar calado,
Junto á janella á tarde no bordado,
E entre as murtas do outono… Nunca mais!

……………………………………

Quando á tarde, no occaso, os penetrantes
Cheiros das plantas nadam pelos ares,
E que as vermelhas nuvens singulares
Tomam formas de sonhos fluctuantes,

Quando ha no azul a mystica elegia
Que nos lança nas lugubres chimeras,
Eu scismo então—ó rutilas espheras!
N'aquella que já come a terra fria!

E então n'aquella vaga somnolencia—
Somnolencia em que a terra desparece!
Mais immortal seu vulto me parece;
Mais cruel e sem fim aquella auzencia!

Nuvens da tarde, azul fundo e sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Nunca mais me dareis seu riso ameno
E aquellas lindas, languidas olheiras.

Quando é que, ó grande e santa Natureza!
Me poderás um dia consollar
—D'aquella que já mais eu pude amar!—
Inacreditavel, lugubre crueza!

D'aquella que talvez, alegre e louca,
Eu de certo amaria;—amara, é certo!—
Mas que era pobre e só, e cuja boca
Tinha a vermelha côr d'um cravo aberto!

Cuja voz era doce como um favo,
Voz que tocava as cordas mais secretas!
Que nos fazia o coração escravo,
Cujos olhos… leaes tulipas pretas!…

Nuvens d'Agosto, azul fundo e, sereno!
E astros inviolados, larangeiras!
Nunca mais me dareis seu riso ameno
E aquellas lindas, languidas olheiras!

Nunca mais… Ah! mas não; Virá um dia,
—Dia livre de vis conveniencias!—
Que a ella me una em fim na terra fria,
E te ache ó paz! nas santas florescencias!

*O PECCADO*

     Nunca cessamos de peccar
     (Imitação de Christo)

I

*Ubique doemon*

Bem sei… e mais que o sei, claro luar!
Que segundo a severa theologia,
Pelas noutes sonoras de poesia
O aroma dos lyrios faz peccar!

Quem vos diría!… madresilvas, mar,
Lilazes, claros rios, cotovia!
Que ao dizer da tirannica theoria,
Vós farieis a Carne triumphar!

Ah! Natureza, pois, se és criminosa,
E nos levam ao mal urnas da rosa,
Bom coração de Christo imaculado!…

Quantos não vês morrer, do ceu prufundo,
Cheios de sangue, como heroes no mundo,
—Exhautos dos mil golpes do Peccado!?—

II

*O Peccado*

Elle é antigo, tragico e venal,
Amando a Carne, o Crime e os assassinos,
E como a folha acerba d'um punhal,
—É quem golpeia os seios femeninos!—

É complicado, mystico, mortal,
Com sombrios escrupulos divinos,
E é quem faz estorcer os braços finos,
E escorregar a lagrima final.

No entanto, grato e funebre Peccado!
Atrahente, gostoso e desejado,
Negro nome de vicio e perdição!…

A Egreja vê em tudo as tuas chagas;
E ha muito tempo já que o mundo esmagas,
E te embriaga o sangue da Paixão!

III

*A Cidade*

Em vão busco na velha e hostil Cidade,
Beata amante, de gangrenas cheia,
As dispersas raizes da Verdade,
—Como uma flor n'um pateo de cadeia.

Quando, alta noute, D. Juan passeia,
Ella põe-lhe em leilão a mocidade,
Tratada com a mystica anciedade
Com que um sabio cultiva a flor da Idea.

Mas, comtudo ninguem receia tanto
O aspero Deus, e o lenho sacrosanto
Da dorida tragedia do Calvario!

E, ó D. Juan, ás luzes das estrellas,
Tu bem sabes se encontras nas viellas
Mais de uma vez, perdido algum rosario!…

IV

*O Inimigo*

     Á genoux! Je suis Pan!
     (Victor Hugo)

Ha muito que é chamado o Aborrecido,
O rebelde, o leproso, o descontente,
E eterno tentador sempre vencido,
Que habita o Ar, a Terra, e o Fogo ardente.

Elle é a hydra, a Carne, o incontinente,
O orgulho nos abysmos submergido,
O que anda sempre em nós, o cão batido,
O espirito da Duvida, a Serpente,

Mas, mau grado, ó Egreja, a tua ira,
Elle não é nem Vicio, nem Mentira,
Nem synonimo de Mal e de Impureza!…

E eu bem sei, negro symbolo apupado,
Velho satyro, vil, calumniado,
Diabo! que te chamas «Natureza!»

V

*Em toda a parte*

Elles tem dito e escripto que o Peccado
Anda disperso e roe o mundo inteiro,
Que habita o duro coração guerreiro,
E o peito femenino e delicado.

Que anda no ar, em nós, da flor no cheiro,
Das pugnas no ruido desolado,
No vinho, na paz doce do mosteiro,
—No corpo da mulher perfeito e amado!—

É portanto, homem timido e sujeito,
Quer te encostes, ou não, ao vão Direito,
O teu funebre gozo e teu tormento!

Habitua-te a tel-o na Desgraça,
No ar, no chão, na flor, no som que passa,
—E até, serpente vil, no Pensamento!

VI

*Á Janella*

Altas horas da noute, quando a rua
É deserta da onda crapulosa,
No seu caminho em meio, vagarosa,
—Abro a minha janella a ver a lua.

Como uma branca divindade nua
Ella avança celeste, e, á luz ditosa,
Qual copo de cristal que enche uma rosa,
O goivo do Peccado em luz fluctua.

Fluctua, e é nestas horas recolhidas
Que me ergo então ás cupulas subidas
D'onde se avista o mystico ideal…

E rio, e admiro o vulgo obsecado
Que cuida ver, nas beiras d'um telhado,
Abrir-se n'um craveiro a flor do Mal!

VII

*Ella*

Quando ella emfim morrer, verão os vivos
Cortando o ar uns ais de sentimento,
Como os lugubres córos dos captivos
N'um triumpho, ou n'um grande saímento.

Ouvir-se-hão soluços pelo vento,
Elogios, ais fundos, fugitivos,
Que dirão:—«Lá se vão meus lenitivos!
Morreu a Espada, a Lei, Guia e Sustento!»

O seu tumulo terá goivos e rosas,
E vãs estatuas lividas, chorosas,
E epitaphios em lugubre latim.

Terá palmas mais verdes que a Esperança;
—Mas a alma, em cima, escreverá:—Descança!
Serpente, irmã de Judas e Cain!

*SONETO D'UM POETA MORTO*

Achado nos seus papeis

Bem sei que hei de morrer cedo e cansado,
Alguma cousa triste em mim o diz,
E vagarei no mundo desterrado,
Como Dante chorando a Beatriz.

Pelos reinos, irei talvez curvado,
Como um proscripto princepe infeliz,
Ou como o indio pallido e exilado
Chorando o vivo azul do seu payz.

Mas no entanto, ah! ninguem ao Sol divino
Abrasou mais as azas, derretidas
Ante as duras, ferozes multidões!

E ninguem teve a torre d'ouro fino,
Aonde, quaes princezas perseguidas,
Morreram minhas doudas illusões!

*A UMA JUDIA*

(SAUDAÇÃO)

     Avé Regina!
     (Hymno Catolico)

     Podem apagar o Sol e as estrelas, bastam-me os olhos da minha
     amada!
     (Idyllio persa)

     Le second soleil! Le second soleil.
     (Phan taisies scientifiques de Sam)

Ó filha d'Israel, ó vestal impolluta!
—Serena como a côr diaphana do azul—
O rebelde da Luz vencêra Deus na lucta
Se armara contra os ceus teus cabellos do Sul.

Filha de Cham e Loth, tu és o ideal vivo!
(Ó ouro, incenso e myrra, ó licor nunca visto!)
Quando nos queima a luz do teu olhar esquivo,
Teus olhos ferem mais do que os cravos do Christo!

São dous cravos de luz, dous limpidos espelhos,
—A luminosa cruz onde me ensanguentei!—
N'elles soletro claro os grandes Evangelhos,
E n'elles leio mais que nas taboas da Lei!

Quando passas por mim, toda a minha alma anceia!
E os meus olhares vão cobrindo-te de beijos,
—E tu passas—archanjo em corpo de Phrynea,
E biblia encadernada em lubricos desejos.

Ah! teus olhos crueis, limpidos, negros, baixos,
Se um dia o sol morrendo, enoutecesse os ceus,
Ser-me-hiam, mulher! como dois grandes fachos,
Á luz dos quaes iria a ver se achava Deus!

*A VISITA*

Hontem dormia á noute—e, eis que desperto
Sacudido d'um vento agudo e forte,
Como um homem tocado pela Morte,
Ou varrido d'um vento do deserto.

Accordei—era Deus, que de mim perto,
Me dizia: Alma sceptica e sem norte!
É preciso que creias e te importe
Adorar o Deus Uno, Eterno, e Certo!

É preciso que a fé cresça em tua alma
Como no inutil saibro a verde palma,
Verme! filho da Duvida—Eis-me aqui!

Eu sou a Espada o Antigo, o Omnipotente!
Crê barro vil!—Mas eu, descortezmente,
Voltei-me do outro lado e adormeci.

*PALACIOS ANTIGOS*

A Anthero do Quental.

Bons castellos leaes nas rochas construidos,
Ás contorções do vento, á chuva ennegrecidos,
Que vamos admirar na angustia dos poentes;
Grandes sallas feudaes com tellas de parentes,
O que fazeis de pé, como entre os nevoeiros,
Os antigos heroes e as sombras dos guerreiros?!

Uma grande tristeza enorme vos habita!
No entanto a alma antiga ainda em vós palpita,
Evocando a emoção das chronicas guerreiras;
E mau grado o destroço, a herva, e as trepadeiras,
—Como um desejo bom nas almas devastadas—
Cresce, ao vento, uma flor no peito das sacadas!

A parasita hera avassalou os muros!
Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros,
Tudo dorme na paz das cousas silenciosas;
E nos velhos jardins aonde não ha rosas,
—Só resistindo ainda aos seculos injustos—
Uma Venus de pedra espera entre os arbustos!

Paira em tudo o silencio e o lugubre abandono
Das cousas que já estão dormindo o grande somno,
Evocando ainda em nós os velhos cavalleiros,
—E ás lufadas do vento, os grandes reposteiros,
Entre as nossas visões das epocas sublimes,
Agitam-se ao luar vermelhos como crimes.

Mas no entanto o poeta entende aquellas dores,
E as mudas solidões, os largos corredôres,
As boas castellãs as gothicas janellas,
Abertas toda a noute a olhar para as estrellas;
Só elle sabe os ais e os gemidos das portas,
—E inveja ás vezes ser o pó das cousas mortas!

*CAIN*

Cain no mundo errante, desterrado,
Fugindo á sua dôr cruenta e dura,
Morria sobre um valle, abandonado,
No sollo primitivo da Escriptura.—

O remorso—esse mal que não tem cura—
Não abatia o peito allucinado
Do que nasceu no seio do Peccado
Que herdou depois a géração futura.

Do Ceu sem mendigar luz nem consollo
Conservava inda erguido e altivo o collo;—
Mas nessa hora fatal que a todos vem…

Cain velho rebelde,—e atheu primeiro—
Nosso pae, nosso irmão, como um guerreiro.
Bradou, caindo—Ó Terra! ó Minha Mãe!

*A PRIMAVERA*

De Julio Forni

Hãode dizer-me—Insensatos!
Que tenha novos amores,
Que brilham já outros soes,
De novo se abrem as flores
E é o tempo dos rouxinoes.

E dirão inda depois:
Que a primavera começa,
E andam aromas no ar,
Que nos sobem á cabeça,
Como um vinho singular.

E eu dir-lhes-hei: Que m'importa!
Faz frio, fechem-me a porta!
—Ella, o meu bem, meu abrigo,
Levou, desde que está morta,
A Primavera comsigo!

SEGUNDA PARTE

REALIDADES

*ACCUSAÇÃO A CHRISTO*

(A Theophilo Braga)

Bradava um dia ao Christo, ao Redemptor,
Satan, cançado d'insultar os astros:
—Eis-te pendido ahi qual velha flor,
Propheta escarnecido nos teus rastros!…

Vê como a Egreja vae! baixel sem mastros!
Navio roto em mares do Equador!
E os seus padres tem ouros e alabastros,
E folga, Messalina sem pudor!

Tem lançado teu corpo aos cães e aos corvos!
Falsificado a Lei, cheia d'estorvos,
E fogueiras erguido, ó Christo! ó Cruz!…

Satan dizia mais… mas lenta e lenta,
Uma lagrima viu sanguinolenta
Escorregar na face de Jesus!

*DE NOUTE*

A João de Deus

Elle vinha da neve, dos trabalhos
Violentos, custosos, da enxada;
Cantando a meia voz pelos atalhos.

A mulher loura, infeliz, resignada,
Cosia junto á luz. O rijo vento
Batia contra a porta mal fechada.

Ao pé havia um Christo, um ramo bento,
E uma estampa da Virgem, colorida,
Cheia de magoa olhando o firmamento.

Uma banca de pinho, mal sustida,
Vacillante nos pés, um candieiro;
Companheiros d'aquella negra vida.

O homem alto, pallido, trigueiro,
Entrou; tinha as feições queimadas, duras
Dos que andam com a enxada o dia inteiro.

A mulher abraçou-o. As linhas puras
Do seu rosto contavam já tristezas
De grandes e secretas amarguras.

Tinha chorado muito as estreitezas
D'aquella vida assim! Talvez sonhado
Um dia, com palacios e riquezas!

Elle deitou-se a um canto; fatigado
D'erguer-se alta manhã, todos os dias,
Mal voavam as pombas no telhado.

Lá fora, nuvens grossas e sombrias
No pesado horisonte; elle assim esteve;
—As noites eram asperas e frias.—

Ella cobriu-o d'uma manta leve
Esburacada, velha;—no telhado
Ouvia-se cair, sonora, a neve.

Ella, então, meditou no seu passado;
No seu primeiro beijo; nas lembranças
Talvez, do seu vestido de noivado.

E nas tardes das eiras; e das danças
Ás estrellas, e aquella vez primeira
Que a rosa lhe furtou das longas tranças!

E aquella tarde junto da amoreira,
Que trocaram as mãos; e na janella;
E quando olhavam, juntos, a ribeira.

E quando era timida e singella…
……………………………………
Lá fóra, dava o vento nos caixilhos;
Não brilhava no ceu nem uma estrella.

E, áquella hora da noite, por que trilhos
Andariam no mundo—ella scismava—
Nas miserias, talvez, sem rumo, os filhos!

Elle na manta velha resonava.

*AQUELLE SABIO*

N'aquellas altas janellas
Que deitam para o telhado;
Eu vejo-o sempre encostado,
A namorar as estrellas.

Tem assim ares d'empyrico
Mui lido em philosophástros;
É um pobre poeta lyrico,
Que escreve cartas aos astros.

Traz luto nos seus vestidos
Por uma Ophelia de menos,
Tem uns cabellos compridos,
E uns olhos tristes, serenos.

Parece um Jove proscripto,
E já descrente das Ledas,
Conhece o hebraico, o sanscrito
E os livros santos dos Vedas.

Espelha na luz do olhar
Não sei que visões amenas;
Anda sempre a imaginar
Idylios ás açucenas.

E aquella mulher vaidosa
—Que elle chama a sua Egeria—
Ri d'aquella alma anciosa,
E aquella triste miseria…

…………………………………… …………………………………… ……………………………………

Mais de tres dias ou quatro
Que lhe falta o necessario;
Estava hontem no theatro
Com luvas côr de canario.

*NA TABERNA*

A João de Deus

       Vejo apontar o hynverno…
    os crepitantes frios
    Me açoutam as vidraças…
    (Francisco Manoel)

Alguns dormem nas mezas, debruçados,
Junto aos restos de um vinho já bebido;
—Outros contam seus casos desgraçados.—

Um d'elles alto, magro, mal vestido,
Conta historias d'amor, lançando fumo
D'um cachimbo de gesso ennegrecido.

Um tenta levantar um outro a prumo
Sobre os hombros, e um calvo, e já vermelho
Faz das suas miserias um resumo.

Depois conta que o pae ethico e velho
Lhe está para morrer; lastima a vida;
E sobre as vinhas pede um bom conselho.

A casa é escura, velha, ennegrecida
Do fumo. Noute velha, ouve-se o vento
Bater na antiga porta carcomida.

O frio, a neve, a fome, o mau sustento
Tem quebrantado muito aquellas frontes,
E em muitos esmagado o pensamento.

N'alguns extinguido, mesmo, as fontes
Da justiça e do bem; e feito errar
No mundo, como os lobos pelos montes.

E o egoismo dos filhos e do Lar
Banido o dó das lastimas estranhas;
E tornado-os mais frios do que o mar.

Alguns vivem nas neves, nas montanhas,
Outros o rio tem por seu visinho;
E com a Fome travam más campanhas.

E—todos—tem o ar triste e mesquinho,
Dos que vão sem prazer, habituados,
Como a um somno que tira maus cuidados,

Beber as suas lagrimas com vinho.

*OS LOBOS*

     La neige batait les vitres…
     (Gustavo Droz)

Cae lentamente a neve em cima dos telhados.

Tres longos dias crus, terriveis são passados,
Que o rude lavrador anda por fóra ao vento,
Á neve, ao frio, ao sol, em busca de alimento,
E ainda não voltou. Um dos tres filhos chora;
Rija e sonoramente, a chuva cae lá fóra.

Quem sabe se virá? Já tem corrido os dias:
Ella pobre mulher, viuva d'alegrias,
Magra, branca, doente, aspecto macerado,
Ha muito que presente um caso desgraçado,
O assassinio talvez!… Ha horas malfadadas,
A miseria é sinistra e extensas as estradas!

Talvez pelo caminho, entre atalhos perdidos,
Na dura escuridão matassem-n'o os bandidos;
A fome magra e escura a tudo obriga e atreve!
Talvez de sangue esteja, ainda, tinta a neve!

Elle era bom;—talvez um pouco rude e duro!
Mas é que a vida é triste e o seu trabalho escuro
Á chuva, ao frio, aos soes, e entre o luar gelado
Faziam-o cruel; e ás noutes embriagado
Talvez para esquecer, tinha—sinistro o vinho;
Mas, no entanto era o sol d'aquelle estreito ninho,
A Alegria, a Força; e a fome macerada
Tinha-a espancado sempre a sua forte enxada!

Então cheia de dôr, pallida de receio,
Quiz il-o procurar, pegou n'um filho ao seio,
O mais novo, e accendeu tremendo uma lanterna.
Vinha, ás vezes, no vento uns risos de taberna;
A noute era cruel, a chuva rija e fria;
Riam-se os pinheiraes, a solidão gemia;
Corriam tradições de mortes e de roubos;
E ouvia-se, na neve, uivar de fome os lobos.

Se saisse talvez não encontrasse abrigo!

Os filhos, a chorar, pediam ir comsigo.
Um esfregava o rosto em prantos e cabellos,
Perto d'um gato esguio envolto entre novellos,
E outro roto e magro edefinhado, em pranto,
Soluçava e tossia ao mesmo tempo a um canto.

Ambos elles sem côr, doentes, encovados,
Dormiam pelo chão, nos asperos sobrados,
Magros, cheios de febre, em farrapos, sombrios,
Sordidos, semi-nús e lividos dos frios,
E a manta esburacada e cheia de rasgões;
De vez emquando, ao longe, ouviam-se os trovões,
Caia fina a neve, a chuva terminára,
E como um grande alvor o meigo azul limpára!—
Ella saiu então; na capa esburacada
Embrulhou bem o filho e foi-se pela estrada;
Mas, elles, a chorar, quizeram ir com ella,
E como o escuro azul tinha uma clara estrella
Deixou-os ir tambem—que um d'elles se o levava
Era por ser aquelle a quem o pae beijava,
E affagava, sorrindo, e enchendo de carinhos,
Quando o ia, aguardar á noute, nos caminhos!

A miseria é fatal! dorida farça escura
Que termina o christão latim da sepultura!

E assim pensava só, vestida de tristeza
A nervosa mulher, n'aquella natureza
Sombria, dura, má; por entre aquelles gelos,
E aquelle vento cru rasgando-lhe os cabellos:

«Ella nascera só para a dôr!—da Desgraça
Ha muito havia já que lhe amargára a taça!
Não conhecera nunca os risos e agasalhos;
—Os miseraveis Deus só faz para os trabalhos!

E, áquella hora, talvez, felizes e contentes,
Cheios do bom calor os ricos indolentes
Comeriam, á luz das vélas perfumadas,
Nas mesas sensuaes; e em quanto nas estradas
Pelos atalhos máus e as veredas sombrias,
Ella ia a tiritar por entre as nevoas frías.
Sem pão, sem luz, sem Deus—alegres satisfeitos,
Elles riam, talvez, da chuva nos seus leitos!

O sol d'elles é bom!—Nos duros ceus serenos
Parece que não ha um Deus para os pequenos!»

E continuava a errar por campos, por florestas;
Era o inverno cruel, tinham-se ido as giestas;
Iam sangrando os pés nos asperos espinhos;
A neve amortalhava os lividos caminhos.

«Ah como os ricos são serenos e felizes!
—Elles sordidos, vis, podem comer raizes,
Não ter lume nem pão, andarem macilentos
Ás nevoas e aos soes e aos gelos dos relentos;
São os parias, os Jobs, os vis—e rejeitados
Como os mortos que traz o mar esverdeados!

E as mães se não serão leaes, boas, contentes!
Sempre os filhos com pão, os filhos sempre quentes,
Cheios d'amor e sol, vestidos de cuidados
De beijos, d'affeições, d'arminhos, de bordados,
Amados seraphins, olympicos amores,
E áquella hora talvez em leitos como em flores;»
—Em quanto os seus, da fome encovados, immundos,
Tremendo d'ella ao pé sublimes e profundos,
«Sem pão, talvez sem pae, sem leito brando e leve,
Choravam semi-nús, descalços pela neve!»

Em toda a parte a neve amortalhava o sollo!

Por fim cada vez mais chorava o filho ao collo;
Não rompia o luar, não tremia uma estrella;
Nem mesmo o proprio ceu se amerciava d'ella;
Lembrou-lhe as lendas más de mortos e de roubos;
E ouviu-se já mais perto uivar de fome os lobos.

Cada vez, cada vez, se approximavam mais;

Ella poz-se a correr por selvas, por pinhaes;
Mas caiu-lhe a lanterna,—os filhos aturdidos
Açoutavam o ar de choros, de gemidos,
Já tinha em sangue os pés dos rijos matagaes;
Os lobos cada vez se aproximavam mais!

Na sombra, então, ouviu-se um grito lacerante,
Tinham levado um!…

                  Terrivel, n'este instante,
Voltou-se para traz, como hyena ferida,
Desvairada, feroz, tragica, enfebrecida,
Desejando rasgar, rugir, lutar tambem;
Mas logo na sua dôr, lembrou-se que era mãe,
E que ia a expôr os mais aos dentes aguçados
Dos animaes crueis.—Elles, os desgraçados,
Eram filhos tambem!—tambem seu coração!
—Fraca e vencida emfim poz-se a chorar então.

«Ella vivêra sempre entregue á dura sorte,
Tão avara, cruel, que era mais doce a morte;
Sempre a escrava fiel da Familia, do Lar,
Das duras afflicções; sabia só chorar;—
Não invejára nunca as pompas nem os brilhos;
E até nem mesmo o Ceu lhe concedia os filhos!»

Dir-se-hia a noute eterna, a noute desolada;
Começou a correr nos campos desvairada;
Depois voltou atraz… ouviu-se um ai profundo;
Uivavam outra vez—Levaram-lhe o segundo.

Então o medo escuro apederou-se d'ella!…
Não se via no ceu tremer nem uma estrella,
A solidão profunda, a nevoa fria, intensa,
E em toda a parte só chovendo a neve immensa.

Proseguiu a correr, louca, feroz, sem tino,
Quasi o filho a esmagar d'encontro ao seio fino,
Na dura escuridão, chamando em altos brados
Os nomes immortaes, os symbolos sagrados;
Pedindo compaixão, miseravel, vencida,
Fraca, chorando já aquella negra vida,
Convulsa de terror;—mas, longe, lentamente,
Começaram a uivar os lobos, novamente.

De novo retomou a barbara carreira
Desalentada já; até que quasi á beira
D'um fosso aberto ali n'uma vereda escura,
Como um cadaver cae em uma sepultura,
Por fim, quebrada, hostil, olhando os negros ceus
Caiu cheia de dôr, injuriando Deus.

No ceu surgia a lua—e já se ouvia agora,
Mais perto, elles uivar na solidão sonora;—
Ali, ella aguardou que fossem devoral-a.
……………………………………
Serena ergueu-se a lua, a lua côr d'opala!…